Alguns Homens do Meu Tempo

Maria Amália Vaz de Carvalho · Capítulo 17 de 27

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Alguns Homens do Meu Tempo

Capítulo VI

Conquista pois sósinho o teu futuro,

Já que os celestes guias te hão deixado

Sobre uma terra ignota abandonado,

Homem = proscripto rei = mendigo escuro!

Se não tens que esperar do ceu (tão puro, Mas tão cruel!), e o coração maguado

Sentes já de illusões desenganado,

Das illusões do antigo amor perjuro:

Ergue-te então na magestade estoica

D'uma vontade solitaria e altiva,

N'um esforço supremo de alma heroica

Faze um templo dos muros da cadeia

Prendendo a immensidade eterna e viva

No circulo de luz da tua Idea!

 

Oh! como isto é mais bello do que a derrota confessada do pensador que se refugia no pessimismo, achando no pessimismo uma solução, quando elle não é mais que um estado transitorio da

alma contemporanea, um dos symptomas mais caracteristicos da doença de vontade, de que mais ou menos hoje estamos—ainda

mal!—todos contaminados!

 

VI

Chegando ao termo d'este trabalho percebo que ha n'elle, além dos mil defeitos que outros lhe notarão, uma lacuna enorme que eu propria reconheço.

Tentando explicar o pensador, eu não tenho dado ao poeta o merecido relevo que elle tem; quero dizer, o pensamento d'estes sonetos tem-me ás vezes feito esquecer a belleza singular da sua forma artistica! Parece que o soneto, pelos moldes precisos e rigorosos em que se vaza, seria o menos proprio dos generos de poesia para fixar, em formosa esculptura, as abstracções

metaphysicas em que o genio de Anthero do Quental se compraz principalmente.

Porque este poeta não é como H. Heine, apezar de tantas similhanças que os aproximam, apesar de serem a negação e a duxida as muzas principaes da sua inspiração, e de ambos representarem, sob uma fórma de grande arte, este periodo de transição entre as velhas crenças e as novas convicções do espirito, que a analyse paciente e complicada está elaborando ainda. O poeta allemão tem a impressão directa das coisas, e é n'ellas, e não nas idéas, que elle distingue a linha comica, a contradicção irreductivel, a impassibilidade perfeita diante das velhas theorias que decahem e agonisam; Anthero do Quental eleva essas dôres á abstracção suprema do seu espirito, a uma especie de metaphysica imaginosa e vaga, que pareceria impossivel a um temperamento peninsular aquecido pelo nosso sol, vivificado pelo nosso clima, cingido no circulo, impressionador e ardente, dos seus horisontes de ouro e de fogo. A sua poesia é como o reflexo fluctuante, caprichoso e indeciso, das contradicções, das amarguras, das tristezas e dos sonhos do nosso tempo; ella canta a dôr de toda uma geração que a si propria se estuda, sonda e interroga, e sendo profundamente pessoal, como é, repercute-se e vibra todavia em muitas almas egualmente angustiadas e vacillantes.

Não tendo, pois, antecedentes da mesma especie, foi-lhe necessario crear, dentro da velha fórma consagrada, uma forma nova; e d'esta difficuldade sahiu-se admiravelmente Anthero de Quental. Os seus sonetos trazem a marca do auctor; não se confundem com nenhuns outros. Muitas vezes tem de sacrificar a melodia do verso á extensão e ao vigor do pensamento; n'esse caso não hesita, e o pensador vence n'elle o poeta.

De todos os poetas que eu conheço ha um que Anthero me lembra muitas vezes. É Sully Prudhomme. Mas devo accrescentar que a individualidade accentuada de Anthero escapa incolume a toda a comparação e a todo o confronto.

Já ouvi, não me recordo n'este momento a quem, que o livro dos

Sonetos lembra tambem em muitos pontos o Diario de Amiel. É que realmente estas duas obras, diversissimas entre si, filiam-se na mesma necessidade inteiramente moderna que o homem sente de auscultar-se, de conhecer-se, e de fazer a si proprio innumeras perguntas.

A antiguidade não tinha este prurido de penetração psychologica; por isso a antiguidade foi feliz, radiosa, activa e sã.

Comtudo, dado o nosso gosto pronunciado para este genero de estudos, ainda bem que Anthero escreve, e que Amiel escreveu. Se o primeiro não tivesse cantado muitos dos seus adoraveis e extranhos sonetos, se o segundo não tivesse notado, momento a momento, os cambiantes de uma alma tão extraordinariamente e tão morbidamente complicada, perder-se-hiam documentos inapreciaveis para o estudo completo da alma contemporanea.

Amiel, que, emquanto viveu, foi obscuro e desconhecido, e que, morto, inspirou a muitos dos mais subtis moralistas modernos, taes como Renan, Caro, Bourget, etc., estudos minuciosos e delicados, soffria, como Anthero, de um excesso de vida interior, origem de desiquilibrios dolorosos. A solidão, em que Anthero vive e em que viveu Amiel, aggrava este estado, fazendo-o degenerar, de riqueza fecunda e rara, que pode ser, na perigosa doença que a élite do nosso tempo soffre com raras excepções: o enfraquecimento progressivo nos orgãos que determinam a acção e predispõem para o combate.

Para este mal, o remedio efficaz e supremo seria o contacto de outros espiritos, o attricto com outras intelligencias hostis ou apenas finamente e subtilmente criticas, porque se a convivencia com os homens nos faz perder a independencia absoluta do espirito, ou a originalidade profunda dos que não vão na corrente da opinião geral, nem tão pouco navegam contra ella—o que é ainda um modo de a considerar—é claro que, em compensação, ella nos torna mais aguerridos para a lucta, mais tenazes nos nossos propositos e mais vivos nas nossas ambições.

Tanto Amiel como Anthero encarnam, pois, com extranha intensidade essa doença que se traduz pelas hesitações do querer, e pelas fluctuações permanentes do pensar. Para ambos a vida perdeu as linhas reaes, fixas e positivas, com que ella apparece ao espirito pratico das raças latinas, tornando-se no que é para os espiritos, ethnologicamente ou moralmente germanicos, para Carlyle ou para Goethe, para Shopenhauer ou para Shakspeare, um não sei

que de indeterminado e de fluctuante, um sonho que apparece confuso, nebuloso e phantastico, sempre prestes a decompôr-se em transformações successivas, sempre em via de desmanchar-se e de refazer-se em condições novas.

A Allemanha tem a palavra propria que exprime esta concepção das coisas; nós não a temos, de tal modo ella repugna ao espirito da nossa raça!

Mas Anthero de Quental longe de ter adoptado a linguagem semi-barbara á força de requintada, com que Amiel pretendeu naturalisar latinas abstracções puramente e genuinamente germanicas, é pelo contrario um escriptor de raça, um escriptor de primeira ordem, dando ao seu sonho, vago como é, o molde nitido e magistral d'uma linguagem riquissima, e sabendo em certas horas ser um prosador de largo folego, um critico sagacissimo e cheio de penetração genial.

Bastariam para provar esta asserção, os seus dois magnificos opusculos: Considerações sobre a historia da litteratura portugueza e causas da decadencia dos povos peninsulares.

Pena é que um espirito tão extraordinariamente dotado não enriqueça a litteratura nacional com alguns livros de critica e de historia, que, tão bem como os melhores, elle poderia escrever.

Emquanto Anthero aspira infatigavelmente a alguma coisa de muito superior ao que a vida póde dar, Amiel escreve n'uma das paginas do seu Diario este pensamento caracteristico:

«Il n'y a de repos pour l'esprit que dans l'absolu, pour le sentiment que dans le divin; Rien de fini n'est vrai, n'est interéssant, n'est digne de me fixer!...»

Amiel n'uma hora de lucidez rara, n'uma d'estas horas em que o visionario mais intransigente vê em clarão rapido o nada, das chymeras a que immolou a sua vida, traça estas palavras, que são uma revelação e que são um arrependimento:

Le resumé: Nada! Rien!... Et pour dernière misére, ce n'est pas une vie usée en faveur de quelque être adoré ni sacrifié à une future espérance...

Do mesmo modo Anthero escreve este soneto, que é como a suprema condemnação do seu funesto credo, que é como a lagrima que se desprende da pupilla cançada de contemplar inutilmente as profundezas insondaveis do eterno abysmo...

 

Empunhasse eu a espada dos valentes;

Impellisse-me a acção, embriagado,

Por esses campos onde a Morte e o Fado Dão a lei aos reis tremulos e ás gentes!

Respirariam meus pulmões contentes

O ar de fogo do circo ensanguentado,

Ou caíra raivoso, amortalhado

Na fulva luz dos gladios reluzentes!

Já não viria dissipar-se a aurora

De meus inuteis annos, sem uma hora

Viver mais do que sonhos e a anciedade!

Já não veria em minhas mãos piedosas

Desfolhar-se uma a uma as tristes rosas

D'esta pallida e esteril mocidade!

 

Não foi esteril, não, a vida de quem produziu este livro, que ficará na litteratura portugueza occupando um logar á parte, nosso pela lingua, bella, harmoniosa e rica, em que está escripto, e d'outra raça bem diversa da nossa, pelo perfume exotico de que está impregnado.

N'este momento de cosmopolitismo litterario, em que a arte é uma Babel onde as raças e as linguas se confundem, este livro marca um momento, e como tal é precioso para os que pensam e para os que estudam.

Reflecte-se n'elle, além do que deixo dito, uma alma angelica, uma d'estas almas raras, que não podem deixar de soffrer muito n'um mundo para que não são feitas.

Eu deixei de proposito, inviolado pela minha critica, porventura audaciosa, o que ha de mais profundamente subjectivo, de mais intimo e de mais sagrado no volume adoravel de Anthero de Quental.

Muitas vezes as lagrimas me romperam irresistivelmente dos olhos, ao ver n'elle, deliciosamente reflectida, a aspiração, sempre incomprehendida, a um amor que o consolasse e redimisse! Pensar é perigoso. Melhor é sentir. Anthero pensou de mais.

Eis o motivo porque não encontra a consolação unica a que a sua alma aspira anciosamente e inutilmente.

Sejamos bons e dôces para a Vida! Ella tem horas sinistras, bem sei; ella tem a Duvida; ella tem a Dôr e tem o Silencio eterno a todas as interrogações anciosas da nossa razão e da nossa consciencia; mas de que doçura infinita ella nos não enche o coração! mas com que lagrimas abençoadas ella não apaga as sêdes ideaes da nossa alma cubiçosa! Como no mytho pagão, toquemos a Terra, quer dizer, retemperemos o nosso organismo cançado nas primitivas alegrias da simplicidade, da innocencia, e do amor! Não renunciemos a nenhuma das ineffaveis riquezas de que a Vida é depositaria fiel, e acharemos, n'este retrocesso á Natureza amiga e boa, a paz que os artificiaes nirvanas d'este seculo nos não podem dar!

 

Concluo este estudo, que eu fiz com o maximo amor que o artista, por humilde que seja, póde pôr no seu trabalho, e no qual apenas a sinceridade suppre tantos predicados que me faltam, pedindo a Oliveira Martins desculpa da minha ousadia.

Melhor do que ninguem, elle fallou do seu amigo; melhor do que ninguem, elle o explicou aos que o não conheciam, tocando com recolhimento e com fervor quasi religioso n'esta alma, que é para tantos um enygma indecifravel, e dando luz a tantos pontos indecisos d'este temperamento artistico, extranho e singular.

Depois de ter inspirado aquelle sentido prefacio, com que o notavel

historiador enriqueceu o seu livro, que necessidade tinha o poeta dos sonetos de que uma alma, que o não conhece senão atravez d'elles, viesse fallar ao publico da sua complexa individualidade?

No prologo de O. Martins ha mais do que o seu talento; ha tambem o seu coração de amigo, e é isso o que, aos meus olhos, lhe augmenta enormemente o valor.

Se houve audacia na minha apreciação, que m'a perdoem, pois, o poeta e o seu critico. Eu não quiz mais do que fazer ver o livro extraordinario dos Sonetos de Anthero á luz da minha impressão pessoal. Não tive outro intento, nem desejo outra recompensa além do prazer intimo e profundo que senti escrevendo estas palavras sinceras, depois de ter lido o livro adoravel que tão espontaneamente m'as inspirou.