Alguns Homens do Meu Tempo
Anthero de Quental
I
OS SONETOS
Não ha, talvez, em toda a litteratura portugueza uma individualidade mais distincta, mais original, mais á parte, que a d'este homem.
Não é simplesmente como escriptor, como litterato, como auctor de livros, que Anthero de Quental tem de ser considerado.
Para bem estudar esta figura singular, para a vêr á luz que lhe é propria, para a comprehender sob todos os seus aspectos varios, é indispensavel alguma coisa mais do que a faculdade critica, applicada á litteratura, é necessaria a comprehensão profunda e clara de todas as causas que determinam esta phase,—de certo transitoria, de certo temporaria—de nihilismo mental, em que se debatem os artistas mais vibrateis e delicados, as almas mais sensiveis e morbidamente agitadas d'este fim de seculo, a um tempo tragico e banal.
Como podia eu, pois, conseguir o que imagino que só conseguiria um critico no genero especial de Bourget, por exemplo, um critico que recebe as influencias germanicas e as transmitte, modificadas pela sua imaginação e pela sua rasão latinas; um critico cosmopolita e capaz de comprehender todos os estados d'alma e todas as faculdades caracteristicas das mais diversas raças?
A critica tem acompanhado o movimento progressivo das sciencias, e tem-se modificado e transfigurado ao influxo d'ellas.
Sem fallarmos nos criticos da Allemanha, muito menos accessiveis para nós e muito menos comprehendidos por nós, sigamos a evolução ascendente que a critica litteraria tem tido em França, e veremos como ella se tornou hoje uma sciencia completa, para a qual forneceram dados, elementos, observações e experiencias todos os ramos do saber humano, cada dia mais amplo.
Que longe nós estamos d'aquella boa critica, modesta e facil, em que a obra de arte era simplesmente julgada segundo as regras formuladas por Aristoteles, em que o livro, o drama, o poema se consideraram perfeitos ou defeituosos, conforme se cingiam aos preceitos da rhetorica e da poetica consagradas, ou se afastavam indevidamente d'elles!
Diderot teve no seculo XVIII, a maravilhosa intuição do que poderia vir a ser a critica; essa intuição, vaga ainda, illumina, todavia, de luz inesperada as suas formosas improvisações, os seus devaneios scintillantes de verve sobre a arte do seu tempo.
Villemain, mais tarde, afastando-se de todos os que pretendiam arrogar-se em face do escriptor os direitos de bons criticos, e que não conseguiam ser mais do que rhetoricos importunos, relaciona pela primeira vez as litteraturas com os outros productos sociaes d'uma dada epoca; faz perceber as reciprocas influencias, que actuam em raças diversas e transformam lentamente uma civilisação determinada; mostra claramente, no seu estylo de erudito ainda subjugado pelos moldes classicos, o extraordinario poder com que as lettras imperam na politica, e a politica nas lettras, e o modo indirecto, mas poderoso, pelo qual a arte se torna um elemento de revolução, e da revolução surge e se levanta uma nova arte; revela, emfim, a força que as idéas teem sobre a acção, e a ineluctavel energia com que a acção limita ou modifica o imperio das idéas...
Sainte Beuve, adoptando muitos dos pontos de vista de Villemain, accrescenta-lhes tudo que póde tornar este methodo mais vivo, mais luminoso, mais humano, tudo o que póde dar movimento e graça ao corpo um tanto inteiriçado e hirto do eloquente professor do Curso de litteratura.
A critica de Sainte Beuve é uma creação! Na obra d'arte vê a época em que ella surge e o homem que a produziu. A anedocta elucidativa, o commentario suggestivo, o estudo minucioso do caracter do escriptor, o meio em que elle se moveu, a influencia directa, ou indirecta, que esse meio exerceu em todas as circumstancias caracteristicas da sua vida e no seu modo particular de encarar as coisas e os homens,—tudo concorre para esclarecer o critico eminente, a tudo dá relevo e côr o seu estylo fino, flexivel, todo em cambiantes, todo em linhas flexuosas, que penetra o assumpto, que o segue nos seus meandros mais caprichosos, nos seus labyrinthos mais emmaranhados, que se cinge a elle nas suas ondulações mais particulares, que o illumina de todos os lados e por todas as formas; malleavel, sagaz, levemente sceptico, inimigo sempre do absoluto de todas as doutrinas, do dogmatismo de todas as formulas.
O grande critico da nossa raça n'este seculo é com toda a certeza Sainte Beuve. Os que vieram depois d'elle, deram a formula mathematica, precisa, da doutrina que elle praticára e descobrira com uma ligeireza, uma elegancia, um gosto nunca mais realisados.
Taine acceitando a herança de Sainte Beuve, foi alem do que elle era, um naturalista que levou para os estudos d'arte o seu forte methodo scientifico, que verifica, prova, experimenta e conclue depois. A isso deve o ser considerado e com justiça o mestre da nossa geração. Taine póde ter discipulos, Sainte Beuve Taine acceitando a herança de Sainte Beuve, foi alem do que elle era, um naturalista que levou para os estudos d'arte o seu forte methodo scientifico, que verifica, prova, experimenta e conclue depois. A isso deve o ser considerado e com justiça o mestre da nossa geração. Taine póde ter discipulos, Sainte Beuve podia ter apenas admiradores. A litteratura aos olhos de Taine é, como tudo o mais, um producto fatal da raça, do meio, do momento, modificado n'este ou n'aquelle sentido, mas modificado apenas, pelo temperamento particular do artista.
A ordem, o equilibrio, a harmonia que existe em toda a natureza, achou-as elle na esphera do pensamento humano, n'esse grande mundo da arte que falsamente nos parecia caprichoso, cahotico, arbitrario, sem leis que o dominassem, sem causas a que estivesse fatalmente subordinado.
Comprehende-se bem como este ponto de vista—que outros tinham achado, mas que elle formulou scientificamente—revolucionasse a noção da critica, e lhe desse, ao mesmo tempo, harmonia, amplitude e grandeza.
D'este modo vê-se bem que em cada livro que lêmos, em cada obra por meio da qual um forte temperamento de artista, ou um grande cerebro de pensador se nos manifesta, está como que indicada a gradação successiva de todas as civilisações que, justapondo-se umas ás outras e desdobrando-se umas das outras, produziram o momento historico, a phase sentimental ou intellectual de que esse livro é involuntariamente echo, repercussão e reflexo.
A lei que liga estreitamente entre si todos os phenomenos da Vida, que explica o encadeamento fatal de todas as manifesções do pensamento, ninguem a formulou com mais lucidez e mais clareza do que Taine. Cada escriptor é o que não póde deixar de ser, dada a hora em que a sua obra se produziu, dados os elementos sociaes que concorreram para a elaboração d'ella, dadas as qualidades fundamentaes e irreductiveis da raça a que elle pertence, dada a organisação particular, que, em virtude de todas estas leis e de outras leis egualmente ineluctaveis, elle recebeu da natureza.
Shakspeare, por exemplo, esse colosso que nós julgámos por muito tempo a creação espontanea e maravilhosa, que um decreto nominativo do Eterno fizera surgir n'uma idade semi-barbara, apparece, na obra de Taine, naturalmente, no logar que lhe é proprio e que lhe estava necessariamente destinado, de um modo que nada tem de surprehendente ou de imprevisto. Todo o movimento politico, litterario, social da Renascença ingleza vem rematar harmoniosamente em Shakspeare, sem esforço, sem salto inexplicado, sem arbitrariedade do Destino, sem que no espirito do leitor, que estuda o quadro complexo e extraordinariamente poderoso da vida intellectual da Inglaterra, este grande nome, universalmente acclamado, produza o espanto, a sensação do imprevisto, o abalo e o sobresalto de uma apparição sobrehumana!
Vista a evolução do pensamento a esta luz viva e fecundante, como tudo se explica e harmonisa, como tudo se ordena magnificamente, como os effeitos derivam naturalmente das suas causas superiores, como é bella essa admiravel ascensão das trevas para a luz, do cahos para a suprema harmonia!
Entre todos os obreiros maravilhosos que em França a critica moderna tem tido ao seu serviço, nenhum, porém, existiu nunca que melhor podesse explicar, illuminar, tornar accessivel a todos a obra de Anthero do Quental, como esse a que me referi ha pouco: o auctor, aos meus olhos adoravel, dos Ensaios de Psychologia Contemporanea.
Em Bourget sente-se, como em Anthero, visivelmente e fortemente, a influencia da Allemanha. Discipulo de Schopenhauer, foi elle— talvez inconscientemente seduzido—quem tornou Schopenhauer intelligivel á França, e popular ou, pelo menos, conhecidissimo em França. Mas o pessimismo, que no philosopho de Francfort é doutrina, foi Bourget encontral-o como sentimento em muitos dos artistas mais delicados e mais queridos do nosso tempo, n'aquelles de quem uma geração inteira bebe a inspiração e acceita o ideal.
Bourget desceu ao fundo da alma contemporanea e achou lá, ora visivel como um jazigo a descoberto, ora occulta como um filão inexplorado, esta dolorosa aspiração ao não ser em que virão, talvez, cruelmente e anti-naturalmente, a abortar todos os sonhos radiosos e extranhamente grandes que a humanidade concebeu, que a sciencia tem tratado tenazmente de realisar, e que a arte devia ter a gloriosa, sublime e util missão de traduzir!...