Alguns Homens do Meu Tempo

Maria Amália Vaz de Carvalho · Capítulo 14 de 27

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Alguns Homens do Meu Tempo

Capítulo III

 

É perfeitamente esta dôr terrivel, que só é dada a alguns eleitos da sensibilidade, esta dôr sem consolo que tem de os perseguir implacavelmente até á morte, e que póde achar calmantes e anesthezicos, mas nunca uma cura decisiva, que Anthero de Quental exprime dolorosa e magnificamente n'estes Sonetos que, para o grosso publico, hão de parecer apenas os devaneios de um phantasista, senão as mysteriosas locubrações de um allucinado e de um nevrotico.

Oh! felizes dos simples, porque elles não conhecem esta dôr dilacerante de duvidar, esta ancia amarga de saber, esta inquieta curiosidade de prescrutar todos os mysterios, de sondar todos os recessos sombrios do pensamento! Felizes dos simples, porque elles não voltam d'essas regiões terriveis, d'esses circulos dantescos, empallidecidos, cançados, mortalmente tristes, sem coração para amar, sem força para viver, sem incentivo para a lucta, sem alimento para as ambições banaes e limitadas d'este mundo.

E, no entanto, maldizendo as dôres de que a razão lhe foi origem, Anthero de Quental não pode amaldiçoar essa faculdade superior, comprada á custa de taes agonias, mas que lhe tem dado—goso contradictorio e extranho!—o austero orgulho dos que sabem!...

Razão, velha de olhar agudo e frio

 

E de halito mortal, mais do que a peste!

Pelo beijo de gello que me deste,

Fada negra, bemdita sejas tu!

Bemdita sejas tu pela agonia

E o lucto funeral d'aquella hora

Em que eu vi baquear quanto se adora,

Vi de que noite é feita a luz do dia!

Pelo pranto e as torturas bemfazejas

Do desengano... pela paz austera

D'um morto coração que nada espera

Nem deseja tambem... bemdita sejas!...

 

Muitos perguntam,—e, no seu ponto de vista racional e practico, perguntam com razão—a que se deve a reclusão quasi absoluta, o abandono de todos os interesses positivos, a inacção voluntaria, que tão estranhamente caracterisam esse pensador, esse critico, esse poeta, chamado Anthero de Quental.

Quando pela primeira vez os echos d'este nome repercutiram na sociedade portugueza, foi como um som bellicoso e guerreiro que se ouviu, sobresaltando os possuidores consagrados da realeza litteraria d'esse tempo.

Anthero de Quental era, na somnolenta, monotona e convencional coterie litteraria de ha vinte annos, considerado um iconoclasta, atrevido e sacrilego, que vinha sem dó derrubar os velhos idolos, atirar por terra as reputações consagradas, levantar uma vermelha bandeira revoltosa em meio da serena paz, que os bons e pachorrentos mestres do classicismo academico faziam reinar entre todos os portuguezes... que os não liam!