Alguns Homens do Meu Tempo
Capítulo II
Seria pois Bourget quem melhor do que ninguem faria comprehender até aos mais profanos, e aos menos dados ás sublimes abstracções do espirito, o livro eminentemente moderno, e extranhamente doloroso e contradictorio de Anthero do Quental. A lingua em que nós escrevemos e fallamos não a conhecem porém lá fora, e este livro que em toda a parte seria criticado e discutido como um symptoma mental, caractetistico do nosso tempo, fica sem echo, a não ser entre alguns delicados d'entre nós, a quem estas questões interessam a titulo de curiosidade litteraria.
II
A mim, se me faltam, como já disse, muitos dos predicados exigidos para analysar e estudar a obra, tão profundamente pessoal, do auctor dos sonetos, não me falta comtudo, para lhe comprehender a alma agitada e sacudida por tantas idéas que se combatem entre si, produzindo uma tragica lucta interior, o que n'este caso supre vantajosamente a sciencia e a critica: refiro-me á minha alma de mulher, contradictoria tambem, tambem fluctuante, e que não foi corrigida nem mutilada pela necessidade fatal da acção, pela despotica lei social que impelle o homem a pronunciar-se n'um sentido definido, a caminhar para um fim determinado, a comprometter, por assim dizer, as suas opiniões e as suas crenças, dando-lhes uma forma precisa e limitada, encerrando-as n'uma esphera positiva e restricta.
N'este ponto Anthero de Quental guardou, a par das qualidades poderosas e creadoras de um espirito viril, a plena independencia mental que é talvez a maior felicidade da mulher, quando a mulher— o que é raro—a sabe aproveitar no enriquecimento, na ampliação e na cultura do seu mundo interior.
Está portanto ahi o ponto delicado e subtil em que nos encontramos.
O livro dos Sonetos, que para mim vale muitissimo como obra de arte e de poesia, vale principalmente como documento psychologico, como notação sincera, espontanea, feita dia a dia, de sensações requintadas, como confissão d'uma alma que,—nas suas dôres imaginarias ou reaes, nas suas ardentes aspirações d'um espiritualismo doloroso, nas suas duvidas desnorteadoras diante de todos os problemas insoluveis da Vida, no seu desejo dilacerante d'um absoluto impossivel, nas suas anciosas interrogações em face do incognoscivel eterno, nos seus gritos melodiosos de apaixonada tristeza e de amargura revoltada—condensa, representa, synthetisa em si o estado sentimental de todo um mundo, o mundo a que nós pertencemos.
O vago mal-estar que fez chorar tão docemente Lamartine, e que sacudiu violenta e dolorosamente os nervos de Musset, definiu-se nos seus symptomas, revelou-se aspera e positivamente nos seus mais accentuados caracteres.
Nós não ignoramos o mal de que soffremos e porque soffremos.
Não foi impunemente, e sem que um medonho e forte abalo se produzisse nos espiritos e nas consciencias, que a sciencia, implacavel e tranquilla, despovoou os ceus, destruiu na nossa alma, ambiciosa e soffredora, o sonho da triumphante immortalidade, fez do mundo, que julgavamos centro e eixo do Universo este humilde grão de areia que hoje gravita subordinado e dependente nas amplidões infinitas do espaço; não foi sem dilacerar as fibras mais intimas do nosso orgulho que a biologia, arrancando aos abysmos do tempo o segredo da primeira scentelha da Vida que animou este planeta, nos demonstrou o que nós eramos no fim de contas, nós que nos julgavamos os filhos dilectos do Creador!
Se a sciencia exulta, se os seus apostolos continuam tranquillos e convencidos a trabalhar para a completa libertação d'esse escravo d'outras eras, que é o triumphador maximo de hoje, se o progresso caminha, se a civilisação se requinta, se a materialidade do goso attingiu quasi os limites do ideal, quantos corações, em compensação de tanta grandeza, não ficariam esmagados e desfeitos em sangue sob as rodas de fogo d'esse carro de triumpho, que leva a humanidade, cega de orgulho, á conquista da sua apotheose final!...
A extraordinaria revolução scientifica e social, que faz do nosso seculo uma quadra sem precedentes na historia, se trouxe a tantos a felicidade, a libertação, a victoria, se deu ás massas o goso de regalias ignoradas, se nivelou as castas, se diminuiu a miseria, se combateu muitos males visiveis, muitas injustiças flagrantes, se teve, emfim, nos seus aspectos geraes e nas suas linhas grandiosas, resultados soberbos, que ninguem contesta e que todos aproveitam, não podia comtudo, deixar de repercutir-se de um modo violento e profundo, dilacerante ás vezes, outras vezes entontecedor, em certas almas impressionaveis, em certos espiritos delicados, em certas organisações doentiamente accessiveis!...
Que importa, dirão, se a felicidade do maior numero exige o sacrificio desses poucos!
Sim, não importa que elles soffram; o que não obsta a que, ainda mesmo aos mais fortes, inspirem a mais irresistivel sympathia esses corações ardentes, essas almas visionarias, que a sêde invencivel da sciencia leva a beberem do seu amargo licôr, e que em vez de acharem n'elle a robustez, a certeza fortificante, a saude mental, cáem prostrados por uma dolorosa ebriedade,—iniciados que dariam tudo para ignorar, curiosos e complicados espiritos que anceiam debalde por se salvarem pela simplicidade e pela innocencia, a cujo seio nunca mais, nunca mais, poderão retroceder...