Alguns Homens do Meu Tempo

Maria Amália Vaz de Carvalho · Capítulo 26 de 27

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Alguns Homens do Meu Tempo

Georges Sand

 

Á LUZ DA SUA CORRESPONDENCIA

 

O nosso tempo tem, e com muita razão, um verdadeiro enthusiasmo, pelo genero especial de litteratura constituido pelas correspondencias, pelas memorias, pelas notas e observações colhidas dia a dia, por estas confissões involuntarias, sem fito feito, que mais que nenhum outro trabalho intellectual nos desnudam o segredo da psychologia humana.

Muitas correspondencias, que n'estes ultimos tempos teem visto a luz, mais serviriam para diminuir os seus auctores de que para os engrandecer no espirito da posteridade. Em compensação outras ha, que vieram mostrar a uma luz bem mais favoravel, bem mais doce, aquelles que o mundo julgava com a sua proverbial e incuravel injustiça.

A este numero pertence a Correspondencia de Georges Sand.

Quando eu, sugeita como todas as mulheres aos desfallecimentos da alma, ás subitas e inexplicaveis tristezas, succumbo ao peso da Vida, tão hostil aos que pensam, tão dura e cruel aos que sentem muito, e pego em um d'esses volumes em que uma alma enorme de mulher conta dia a dia a historia do seu pensamento, sinto-me como que milagrosamente reconfortada.

A leitora n'este ponto pára um pouco surpreza e um pouco triste, não é verdade? E pergunta-me espantada:—Pois quê?!... Tem esta opinião a respeito de Georges Sand?

Seria longo e seria melindroso entrar a este respeito em minuciosas explicações.

Diante d'esse genio assombroso que para o mundo se chama Georges Sand, eu não indago as fraquezas que macularam tristemente uma parte da vida intima da mulher que tinha por nome de familia Aurora Dudevant.

Na sua Correspondencia, escolhida por mãos piedosas, expurgada de todas as recordações impuras d'um passado, que a grande mulher expiou nobremente e longamente, não ha um reflexo, senão muito longiquo e apagado, das luctas tremendas, das tragicas luctas que se deram n'esse espirito revoltado e extraordinario.

Porei portanto de parte considerações de uma ordem extranha ao assumpto que trato, ao vir transplantar para aqui as notas que a leitura da Correspondencia de Georges Sand me arrancou irresistivelmente.

E de resto, que pode haver de mais interessante para um espirito de mulher, obscuro e humilde embora, do que as confidencias d'uma mulher de genio? E se pensarmos que o genio não é mais que o

maravilhoso poder da condensação concedido a um cerebro humano, a faculdade de synthetisar em si as impressões e as sensações de muitos, e de formular com eloquencia e verdade, para todos comprehensiveis, as paixões e os sentimentos da multidão anonyma,—comprehenderemos, ao penetrar na vida interior d'esses seres privilegiados, que nada do que os faz sentir, palpitar e soffrer, nos é extranho a nós.

Sentimos, talvez em gráu menos intenso, tudo que elles sentiram; o que nos falta é a palavra inspirada e verdadeira com que o possamos exprimir.

É sob este ponto de vista, particular, que as cartas de Georges Sand nos interessam tão vivamente.

Lacrimosas e repassadas de angustia, palpitantes de indignação e de revolta, resignadas e entristecidas depois, como que envoltas na pacificação melancolica do crepusculo da vida, e tendo a serena magestade e as linhas ondulantes e suaves das paizagens outoniças, respira-se n'ellas a verdade, a espontaneidade mais sincera, a mais natural despretenção.

Ser sublime, sem nunca deixar de ser simples; aspirar continuamente aos mais altos pincaros do pensamento, attingil-os muita e muita vez, e não ter nunca a consciencia da propria grandeza, a vertigem da propria elevação, antes conservar-se, atravez de tudo, humilde, ignorante do seu valor e como que impregnada de um vago aroma de bonhomia rural—eis o encanto mais singular d'esta mulher singularissima.

Nenhuma, entre as que deixaram na historia do espirito humano um rastro luminoso, lhe é superior; emquanto que ella, na complexidade da sua opulenta organisação, tem de todas um traço caracteristico.

Ha n'ella, como em Madame Rolland, o amor enthusiastico da liberdade, a paixão robusta da justiça, o sentimento ardente e viril da democracia; no emtanto, mais feminil que Madame Rolland, ella teria lagrimas e gritos de piedade, e accentos de enternecida eloquencia, para salvar das garras do algoz a bella cabeça patricia de Maria Antonietta.

Tem, como a Sevigné, a ternura maternal senão absorvente e

exclusiva, pelo menos penetrante de carinho, e cheia de engenhosas e subtis delicadezas.

Como a Stael, adora as letras, devora-a a curiosidade de todos os segredos da intelligencia, professa a altivez intransigente e desdenhosa, em face das tyrannias brutaes.

Advoga continuamente, como Madame de Recamier, a causa dos vencidos, concilia os odios, pacifica as divergencias, implora com incansavel constancia a favor de todas as victimas e embebe-se na doce utopia de um mundo, onde todos se amassem e se abraçassem, e tivessem, como premio supremo da lucta de tantas gerações de martyres, a fraternidade, a paz universal.

Como Georges Elliott, a grande romancista ingleza, tão humana e tão natural, ella estuda de preferencia os simples, os humildes, os obscuros, e encontra n'essas organisações rudes e inconscientes os mais reconditos thesouros de bondade e de amor.

Porem o que a especialisa e distingue d'entre todas, o que lhe dá o cunho d'uma superioridade incontestavel, o que a faz do nosso tempo, e lhe conquista as sympathias da nossa geração,—é a sua viva e fecunda comprehensão da Natureza em todos os seus aspectos, e o seu tão sincero e tão moderno naturalismo em face das paixões irreprimiveis da humanidade ou das bellezas santas e pacificadoras da terra.

Paizagista adoravel, nunca nos dá em termos technicos, e de uma precisão de botanico ou de geologo, a descripção minuciosa do que vê.

É incontestavelmente melhor o seu processo artistico, em que peze aos sectarios fanaticos da escola descriptiva.

O que ella nos dá, com uma riqueza de linguagem em que nenhum mestre a excede, com uma poesia penetrante e evocadora que só póde comparar-se á de Michelet, é a robusta, a sádia, a profunda, a deliciosa impressão que recebe dos mil variados aspectos da natureza physica.

Nos seus livros respira-se o aroma resinoso dos pinheiraes alpestres; a frescura dos regatos sombrios onde a pervinca humedece o azul dos seus olhos pequeninos, e avelluda o verde escuro da sua folhagem lustrosa; a melancolica doçura das florestas gorgeiadas de rouxinoes; o idyllio suave das campinas humildes; o cheiro do feno e dos trigaes floridos; a acre respiração que sahe dos flancos da terra humida, dilacerados pelo ferro da charrua...

Ha nas paginas d'ella a estridula alegria victoriosa das auroras escarlates; a languidez voluptuosa e electrica do meio dia abrasado, quando uma sêde infinita contorce em espasmos de febre tudo que respira e vive; a tristeza, dilacerante e intensa como um adeus, da hora do crepusculo; a immensa paz cariciosa, protectora e calmante, das silenciosas noites!...

Quem melhor de que este coração tão eminentemente feminino sentiu e communicou aos que a leram, as delicias de que a terra, a nossa eterna Amiga, é tão prodiga, para os que entendem as harmonias ora vibrantes ora enlanguecidamente morbidas, ora de uma intensidade perturbadora, da sua orchestra colossal?

Se mais nada lhe devessemos alem d'esta iniciação sagrada, era enorme ainda assim a divida contrahida por todos nós com a nossa grande e gloriosa irmã.

Mas devemos-lhe mais alguma cousa, e ha n'esse alguma cousa um vasto alcance moral. Devemos-lhe a alta licção que ella nos deu, trabalhando sempre, trabalhando sem um dia de afrouxamento ou de cançasso, perdoando aos que a encheram de injurias e de insultos, sem uma só tentativa de retaliação ou de vingança, sem um grito de raiva, sem uma interjeição de furor. A qualidade predominante d'este caracter, fraco ás vezes, vacillante no seu caminho, e de uma indecisão devida ás influencias que actuaram na sua juventude desamparada de toda a luz moral, é apezar de tudo, é atravez de todos os erros que lhe sombrearam para sempre a memoria, a mais completa bondade, desartificiosa e simples. Bondade immensa, bondade inextinguivel, que mais d'uma vez a transviou, mas que teve a força triumphante de a rehabilitar; bondade a que se devem as suas culpas, gravissimas é certo, mas tambem as suas raras virtudes, e entre ellas os thesouros, os mananciaes inexgotaveis da sua evangelica, ardente e apaixonada caridade.

Oh! a caridade! a doce virtude que a todas sobreleva, e cuja limpida corrente, nascida no humilde presepe de Bethlem, o mundo tem tentado em vão enlodar e corromper!... Flôr, que desabrocha luminosa e perfumada na alma dos que são bons, que os consola de tudo, até da ignominia a que os homens ás vezes os condemnam, e que tem,—como certos seixos côr de purpura que se apanham á beira do oceano, e que o oceano tem polido no eterno fluxo e refluxo das suas ondas tumultuosas,—o dom mysterioso de extinguir e apagar todas as maculas...

É possivel que a leitora condemne agora como um crime de lesa-moral, como uma contradicção inexplicavel e extranha, o meu enthusiasmo confessado por essa mulher, que foi um genio, mas que foi tambem uma enorme peccadora.

Eu peço-lhe porem que, antes de pronunciar a implacavel sentença que condemna a escriptora inimitavel, leia algumas das cartas adoraveis que ella escreveu, e com as quaes remiu, litterariamente, muitos dos peccados que não tracto aqui de conhecer nem de indagar.

O nosso tempo, grande em tudo, é grande principalmente pela tolerancia, pela equidade, pela bondosa indulgencia que o homem lhe merece.

Longe de vêr n'elle o criminoso irremissivel dos tempos da sombria escholastica, a victima fatalmente condemnada pelo peccado original ás chammas do inferno, ou ás chammas da fogueira, o monstro que se havia de deixar mutilar ou se havia de deixar perder, para quem a natureza e as suas forças indomadas eram outras tentações demoniacas, e que só podia ter perdão sob a condição barbara de ser anti-humano,—o nosso seculo, conhecedor de todos os segredos defezos aos seculos que o antecederam, só vê no homem o criminoso, quando lhe é de todo impossivel vêr n'elle o doente ou o vencido pela fatalidade das cousas.

Os seus grandes pensadores, herdeiros n'este ponto, de antepassados gloriosos que foram como que os prophetas da nova era, e que se chamaram Voltaire e Diderot, ensinam-lhe a não condemnar o reu, sem primeiramente o terem ouvido. Exigem mais ainda, para depois sentenciarem.

Exigem que se conheçam as influencias atavicas a que elle obedeceu, o meio em que se formou o seu caracter e se desenvolveu a sua educação, as circumstancias especiaes que na vida o rodearam, o conflicto que o destino estabeleceu entre as fatalidades que o arrastaram e o dever que se lhe impunha.