Almas Mortas

Nikolai Gogol · Capítulo 15 de 15 · parte 3/3

Páginas do PDF

Almas Mortas

Capítulo 4

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Um peregrino torturado por um a sede ardente, coberto de pó, extenuado, sem forças, em cuj a garganta ressequida se deitasse água da fonte, não ficaria tão consolado, tão reanim ado, com o ficou o infeliz Tchichikov diante daquela aparição.

— Meu salvador! — disse, tom ando do chão, em que o seu desespero o tinha deixado cair, a m ão de Murazov, que beij ou e estreitou contra o peito. — Deus recom pensá-lo-á por ter visitado um infeliz.

E desfez-se em lágrim as.

O ancião contem plou-o com piedade e só lhe disse:

— Ai, Pavel Ivanovitch, Pavel Ivanovitch, que fez o senhor?

— Que quer? A m inha m aldita im prudência deitou-m e a perder! Não soube conter-m e a tem po. Satanás seduziu-m e e fez-m e ultrapassar os lim ites da razão. Pequei, pequei, é verdade. Mas, com o se pode proceder deste m odo? Atirar um cavalheiro para um a prisão, sem j ulgam ento, sem processo.» . Um cavalheiro, Atanásio Vasilievich! Não lhe dão tem po de ir a casa, de arrecadar as suas coisas... Agora fica tudo ao abandono. A m inha caixa, Atanásio Vasilievich, a m inha caixa! Nela tenho tudo quanto possuo. O que adquiri com o suor do m eu rosto, durante anos de trabalho e privações. A m inha caixa, Atanásio Vasilievich! Roubaram -m e tudo, saquearam -m e! Ai, m eu Deus!

Incapaz de resistir ao novo acesso de desespero, soluçou com um a voz que, atravessando as espessas paredes da prisão, ressoava ao longe, surdam ente. Agarrou na sua gravata de cetim e, arrancando-a j unto do pescoço, rasgou o lindo fraque navarin fogo e fum o.

— Ai, Pavel Ivanovitch! Esse dinheiro cegou-o. Ele im pedia o senhor de ver a sua terrível situação.

— Salve-m e, m eu benfeitor, salve-m e! — exclam ou desesperadam ente o pobre Pavel Ivanovitch, lançando-se-lhe aos pés. — O príncipe estim a-o e fará tudo, se o senhor lhe pedir.

— Não, Pavel Ivanovitch, é im possível, apesar de todo o m eu desej o. O senhor não caiu nas m ãos de um hom em , m as na alçada de um a lei inflexível.

— Foi Satanás, o verdugo do género hum ano, que que m e tentou!

Bateu com a cabeça na parede e descarregou na m esa um m urro tão violento, que feriu a m ão; não sentiu, porém , nenhum a dor.

— Acalm e-se, Pavel Ivanovitch. Pense em reconciliar-se com Deus e não com os hom ens; pense na sua alm a.

— Que destino o m eu, Atanásio Vasilievich! Já se viu outro sem elhante? A verdade é que, se eu ganhei alguns centavos, foi à custa de um trabalho constante, e não, com o m uitos outros, roubando as pessoas e saqueando o Tesouro. Para que econom izava eu? Para acabar os m eus dias num relativo conforto; para deixar algum a coisa à m ulher e aos filhos que m e propunha ter, para o bem e o serviço da Pátria. Para isto, queria am ealhar. Segui um a vida tortuosa, estou de acordo, m as fi-lo som ente quando verifiquei que pouco adiantava indo pelos cam inhos direitos e que chegaria m ais depressa pelos atalhos. Trabalhei, porém , até m e esfalfar. O que roubei, roubei-o aos ricos. Pense o senhor nesses gatunos que se locupletam com m ilhares de rublos do Tesouro, despoj ando os hum ildes, surripiando o dinheiro dos indigentes. Que desgraça! Quando se com eça a esperar o êxito, quando, por assim dizer, j á se lhe chega com a m ão, desencadeia-se um a tem pestade e vam os de encontro a um rochedo, a um rochedo onde se desfaz o nosso barco. Eu dispunha de trezentos m il rublos de capital; possuía um a casa de dois andares, tinha j á com prado duas propriedades. Atanásio Vasilievich, por que m e acontece esta desgraça? Para quê, estes golpes? A m inha vida não era j á com o um esquife sobre as ondas? Onde está a j ustiça divina? E a recom pensa de um a paciência, de um a constância exem plar? Eu recom ecei três vezes; depois de tudo perder, voltei a principiar com alguns centavos, quando outro, desesperado, ter-se-ia tornado um ladrão de estrada. De que perseverança eu necessitei para vencer os obstáculos! Adm itam os que outros procurem o dinheiro sem trabalho; eu, porém , ganhei-o copeque a copeque, com o suor do m eu rosto, e adquiri-o, Deus é testem unha, com um a energia inesgotável.

No auge da sua dor, soluçou ruidosam ente, atirou-se para um a cadeira, apanhou um a aba do seu fraque, que, rasgada, ficara suspensa, e atirou-a para longe de si. Agarrando os cabelos às m ãos cheias, arrancou-os desapiedadam ente. No sofrim ento físico experim entava um derivativo para a sua dor m oral.

Largo tem po contem plou Murazov aquele espetáculo extraordinário. O desgraçado, que ainda há pouco se pavoneava com a desenvoltura de um hom em da sociedade ou de um m ilitar, agitava-se agora sem com postura, rasgado o fraque, as calças desapertadas, a m ão cheia de sangue, derram ando bílis sobre as forças inim igas que atacam o hom em .

— Ai, Pavel Ivanovitch, Pavel Ivanovitch! Que hom em o senhor poderia ser, em pregando a sua energia e a sua paciência em boas obras; se procurasse atingir m elhor obj etivo! O bem que o senhor poderia ter feito! Se os que am am o bem lhe consagrassem tantos esforços com o o senhor em pregou para j untar dinheiro; se soubessem sacrificar por ele o seu am or próprio e a sua am bição, m eu Deus, que próspera havia de ser a nossa terra! Pavel Ivanovitch, Pavel Ivanovitch! O senhor ainda é m ais culpado para consigo próprio que para com o próxim o. O senhor vilipendiou os m aravilhosos dons que lhe foram outorgados. Destinado a ser um grande hom em , apenas soube deitar-se a perder. É isto o que m e causa m ais pena!

A alm a tem seus m istérios. Por distante que estej a do bom cam inho um extraviado, por endurecido que estej a, nos sentim entos, um inveterado crim inoso, chafurdando-se na ignom ínia, quando lhe apresentam a sua verdadeira personalidade e os dons que ele prostituiu, vacila e fica transtornado, apesar de tudo.

— Atanásio Vasilievich! — disse o pobre Tchichikov, pegando-lhe nas m ãos. — Oh! Se eu pudesse sair daqui e readquirir o que possuo! Juro-lhe que, daí em diante, levaria outra vida! Salve-m e, m eu benfeitor, salve-m e!

— Que posso eu fazer? Teria de lutar contra a lei. Adm itam os que eu m e decidisse: o príncipe é j usto, não cederá por nada nem por ninguém .

— Meu benfeitor! Ao senhor nada é im possível. Não é a lei que m e assusta; eu saberei defender-m e da lei. O que eu tenho m edo é de ser atirado para um a prisão sem m otivo; encerraram -m e aqui com o um cão, enquanto os m eus haveres, os m eus docum entos, a m inha caixa... Salve-m e o senhor!...

Estreitou os pés do ancião e banhou-os de lágrim as.

— Ai, Pavel Ivanovitch, Pavel Ivanovitch! — disse o velho Murazov, m eneando a cabeça. — Com o o cegam esses haveres! Eles im pedem -no de ouvir a voz da sua alm a.

— Tam bém pensarei na m inha alm a; m as salve-m e!

— Pavel Ivanovitch: não m e é possível salvá-lo; contudo, farei quanto puder para suavizar a sua sorte e para o tirar daqui. Se, contra tudo o que espero, tal conseguisse, pedir-lhe-ia, com o paga do m eu trabalho, que renunciasse às suas tentativas de aquisição. Declaro-lhe pela m inha honra que, se perdesse todos os m eus bens (e tenho m ais que o senhor) não m e queixaria da sorte. O im portante não são os bens que podem confiscar-nos, m as os que ninguém pode roubar-nos nem levar-nos. O senhor j á viveu dem asiado no m undo. O senhor próprio com para a sua vida a um barco no m eio das ondas; o senhor tem com que se sustentar até o fim dos seus dias. Estabeleça-se num lugar tranquilo, na proxim idade de um a igrej a ou de pessoas hum ildes, ou, se sente verdadeiro desej o de ter herdeiros do seu sangue, case-se com um a boa rapariga, de condição hum ilde, habituada a um a vida m odesta. Esqueça o m undo e as suas tentações. Que ele tam bém o esqueça, ao senhor, j á que não pode proporcionar-lhe a paz. O senhor bem vê: só se encontra nele sedução ou traição.

— Certam ente! Certam ente! Eu tinha ideias de levar um a vida sim ples, razoável; de m e dedicar à agricultura. O dem ónio é tentador; foi Satanás que m e seduziu, que m e afastou do reto cam inho.

Sentia nascerem dentro de si im pulsos desconhecidos que haviam afogado nele, em épocas distantes, um a educação austera e sem vida, a secura de um a infância taciturna, a solidão do lar paterno, a pobreza das prim eiras im pressões, o rígido olhar do destino que, torvo, o contem plava através de um turvo cristal, velado pela neve. Soltou um gem ido e, cobrindo a cara com as m ãos, proferiu com voz aflita: « É verdade! É verdade!» .

— A experiência e o conhecim ento dos hom ens não lhe serviram para nada, por se dedicar a atividades ilícitas. Mas se, da sua parte, houvesse a intenção de praticar o bem !... Vam os, Pavel Ivanovitch, é preciso reagir, ainda está a tem po...

— Não, é dem asiado tarde! — gem eu Tchichikov, com um a voz que fez estrem ecer Murazov. — Com eço, é verdade, a aperceber-m e de que fui por cam inho errado, que m e afastei do verdadeiro cam inho; m as, que quer o senhor? É m ais forte que eu! Não fui educado com o devia. Meu pai pregava-m e m oral, batia-m e, fazia-m e copiar sentenças; contudo, ele próprio roubava lenha aos vizinhos, diante de m im , e ainda m e obrigava a aj udá-lo. Em preendeu à m inha vista um processo iníquo e seduziu um a órfã de quem era tutor. O exem plo deu m ais resultado que as sentenças. Vej o, sinto, Atanásio Vasilievich, que levo um a existência m iserável; que o vício não desperta em m im verdadeira repugnância. A m inha natureza envileceu-m e; não sinto o am or do bem , essa m aravilhosa inclinação para as obras piedosas, que se converte num a segunda natureza, num hábito... Digo a verdade. Que hei de fazer?

Suspirou profundam ente o ancião.

— Pavel Ivanovitch: o senhor tem tanta vontade, tanta paciência!... O rem édio é am argo; m as que enferm o recusaria um m edicam ento sabendo que é o único m eio de curar-se?... Se não sente o am or do bem , pratique-o à força, sem querer. Isso ser-lhe-á m ais tom ado em conta que àquele que faz o bem porque o am a. Esforce-se nesse sentido, experim ente; o am or virá depois. O reino dos céus alcança-se pela violência, dizem -nos. Só à força se entra nele. Com o é que o senhor, Pavel Ivanovitch, tendo essa força que falta aos outros, essa paciência invencível, não há de obter os m elhores resultados? Julgo ser com essa m assa que se fazem os heróis, tanto m ais que, atualm ente, todas as pessoas são fracas, sem força de vontade.

Estas palavras pareceram im pressionar profundam ente Tchichikov e fazer vibrar nele um a corda am biciosa. Um fogacho de resolução brilhou nos seus olhos.

— Atanásio Vasilievich! — disse com firm eza. — Se o senhor conseguir a m inha liberdade e a m aneira de eu sair daqui com algum dinheiro, j uro-lhe que vou com eçar um a vida nova. Com prarei um a propriedade e serei lavrador; j untarei dinheiro, não para m im , m as para o em pregar no auxílio dos outros, na m edida das m inhas forças; esquecer-m e-ei de m im ; esquecer-m e-ei das orgias da cidade; terei um a vida sim ples e m odesta.

— Deus perm ita que se lhe radiquem bem essas intenções! — disse, radiante, o ancião. — Em pregarei todos os m eus esforços para obter do príncipe que o senhor sej a posto em liberdade. Não sei se o conseguirei. Em todo o caso, a sua sorte vai certam ente tornar-se m ais suave. Consinta que o beij e, pois m e proporcionou um a grande alegria. Que Deus o am pare! Vou ter com o príncipe.

Tchichikov ficou só.

Todo o seu ser se havia m odificado e suavizado. A própria platina, que é o m ais duro dos m etais, o m ais resistente ao fogo, entra em fusão quando aum enta a cham a no crisol. Se entra em ação o m açarico e o calor se torna insuportável, o rij o m etal branqueia-se e transform a-se em líquido. O m esm o sucede ao hom em de fundo m ais teim oso no crisol da desgraça, quando esta redobra e um a cham a irresistível ataca o seu endurecido coração.

« Pessoalm ente, não sei nada e não sinto nada; contudo, em pregarei toda a m inha energia em fazer sentir os outros. Eu sou indigno e m au; consagrarei, porém , todas as m inhas forças em incitar os outros à prática do bem . Sou um m au cristão, m as tratarei de não dar escândalo. Sofrerei, trabalharei com o suor do m eu rosto, ocupar-m e-ei honradam ente, a fim de exercer um a salutar influência sobre o próxim o. Não se dirá com verdade que j á não presto para nada. A agricultura interessa-m e; possuo qualidades de econom ia, de atividade, prudência e até de perseverança. É preciso, apenas, decidir-m e...» .

Assim m editava Tchichikov, cuj as faculdades m orais pareciam despertar, adquirir consciência de si próprias. Por um obscuro instinto, a sua natureza, segundo parece, com eçava a com preender a existência de um a obrigação que o hom em deve e pode cum prir em qualquer lugar da terra, apesar das circunstâncias, das perturbações, das dificuldades que o rodeiam . E a vida laboriosa, longe do ruído das cidades e das seduções que se inventaram para divertim ento do hom em , esquecido do trabalho, esta vida com eçou a desenhar-se tão vivam ente diante dos seus olhos que quase tinha j á olvidado a sua desagradável situação.

Talvez estivesse até disposto a dar graças à Providência por aquele rude golpe, desde que o soltassem e lhe restituíssem , pelo m enos, um a parte...

Mas abriu-se a porta do seu im undo cárcere e apareceu um funcionário; Sam osvistov, um epicurista, um m ocetão de largas espáduas e pernas fortes, excelente cam arada, fam oso valentaço, m entiroso e astuto, segundo diziam dele os próprios colegas. Em tem pos de guerra, este hom em teria realizado prodígios: abrir cam inho através de passagens perigosas, arrebatar um canhão nas barbas do inim igo, seriam rasgos dignos dele. Mas se, na carreira m ilitar, se portou, talvez, com o um hom em honrado, com o funcionário civil praticava todas as vilanias possíveis. Tinha princípios m uito extravagantes: correto com os seus cam aradas, não os atraiçoava nunca e cum pria sem pre a sua palavra; contudo, para os seus chefes, olhava com o para um a bateria inim iga, através da qual é preciso abrir passagem , aproveitando qualquer ponto vulnerável, brecha ou negligência.

— Conheço a sua situação, sei tudo — disse, depois de ter visto fechar-se herm eticam ente a porta atrás de si. — Não tenha m edo; tudo se arranj ará. Todos trabalham os para o senhor e som os seus am igos dedicados. Trinta m il rublos para todos; nem m ais um centavo.

— Deveras ? — exclam ou Tchichikov. — E ficarei com pletam ente ilibado?

— Totalm ente; e receberá ainda um a indem nização.

— E pelo trabalho... pede o senhor?

— Trinta m il rublos; toda a gente terá o seu quinhão; os nossos em pregados, os do governador geral e o secretário.

— Mas, dê-m e licença. Com o posso?... Todos os m eus haveres, a caixa, tudo isso está atualm ente selado e sob a guarda...

— Dentro de um a hora terá isso em seu poder. Está feito o negócio?

Tchichikov aceitou. O seu coração latej ava. Não acreditava que aquilo fosse possível.

— Então até logo! Um nosso com um am igo encarregou-m e de lhe recom endar calm a e serenidade.

« Hum !» , pensou Tchichikov. « Com preendo: o m eu advogado não dorm e!»

Sam osvistov retirou-se. Tchichikov ficou só, não querendo dar crédito ao que tinha ouvido. Não obstante, m enos de um a hora depois desta conversa, levaram -lhe a caixinha; os docum entos, o dinheiro, tudo estava em perfeita ordem . Sam osvistov apresentara-se em casa de Tchichikov, repreendera as sentinelas pela sua falta de vigilância e recom endara ao carcereiro que reclam asse m ais soldados para reforçar a guarda. Depois, apoderando-se da caixinha e até de docum entos capazes de com prom eter Tchichikov, fez um pacote com tudo aquilo, pacote que selou, ordenando a um soldado que o levasse im ediatam ente ao preso com o obj etos que lhe eram necessários durante a noite. De m odo que, com os docum entos, este recebeu tudo quanto necessitava para cobrir o seu desprezível corpo. Esta rápida diligência causou um a alegria indescritível a Pavel Ivanovitch. Concebeu um a viva esperança e principiou de novo a vislum brar quadros alegres: um espetáculo no teatro; um a bailarina a quem fazia a corte... O cam po e o sossego pareceram -lhe tristes, a cidade e o ruído, cintilantes de novo! Oh, a vida!

Entretanto, nas repartições, o caso assum ira proporções inauditas. As penas dos escreventes trabalhavam e, enquanto tom avam rapé, aqueles cérebros perspicazes não descansavam , adm irando, com o artistas, a sua caligrafia.

O j urisconsulto, m ago invisível, dirigia todo o m ecanism o; antes que se pudesse orientar, enredava toda a gente. O alvoroço aum entava. Sam osvistov excedeu-se a si próprio com um inaudito golpe de audácia. Sabedor do lugar onde a m ulher estava presa, foi lá direito e apresentou-se com uns ares de tam anha autoridade, que a sentinela fez-lhe continência.

— Há m uito tem po que estás aqui?

— Saiba Vossa Senhoria que desde esta m anhã.

— Rendem -te em breve?

— Saiba Vossa Senhoria que dentro de três horas.

— Preciso de ti; j á digo ao oficial que m ande outro para o teu lugar.

— Às ordens de Vossa Senhoria.

Em seguida, foi a sua casa, sem perder um m inuto, para não im iscuir outras pessoas no assunto, e disfarçou-se de polícia, com grandes bigodes e patilhas. O próprio diabo não o teria reconhecido. Dirigiu-se com este disfarce a casa de Tchichikov, prendeu a prim eira m ulher que encontrou a j eito e entregou-a a dois em pregados, rapagões da sua laia, após o que se apresentou à sentinela, de espingarda na m ão segundo o regulam ento.

— Podes ir. O com andante m andou-m e fazer guarda em teu lugar.

E ocupou o seu posto.

Era isto exatam ente o que se tornava indispensável. Durante este tem po, substituiu-se a prim eira m ulher por outra que desconhecia totalm ente o assunto. A prim eira ficou tão bem guardada que não se pôde saber depois o que tinha sido feito dela.

Enquanto Sam osvistov se esforçava envergando o uniform e m ilitar, o j urisconsulto fazia m aravilhas dentro da sua esfera de ação. Preveniu indiretam ente o governador de que o procurador o denunciava; fez o m esm o com um em pregado da polícia, m etendo no enredo um burocrata que residia secretam ente na cidade. Este últim o foi avisado de que havia outro funcionário ainda m ais secreto, que o espiava. E assim os intrigou de tal m aneira, que todos recorreram a ele para lhe pedir conselho. A confusão atingiu o cúm ulo: as denúncias sucediam -se; chegaram a descobrir-se casos que nunca tinham sido ventilados; outros que nem sequer existiam . Tudo foi posto às escâncaras: este era um bastardo; aquele tinha um a am ante; certa m ulher casada fazia a corte a certo personagem . Os escândalos, as revelações, enredaram -se tão bem com a história de Tchichikov e das suas alm as m ortas que foi totalm ente im possível com preender qual daqueles assuntes era o m ais extraordinário: todos pareciam ter a m esm a im portância.

Quando o processo chegou, por fim , às m ãos do governador geral, o pobre príncipe não lhe pôde dar solução. Um funcionário m uito inteligente e hábil, que fora encarregado de estudar o caso, esteve quase a perder o j uízo. O príncipe estava então m uito preocupado com um a m ultidão de assuntos diversos. A fom e flagelava um a parte da província. Os delegados que para lá seguiram com o encargo de repartir o trigo não procederam com o deviam . Por outro lado, os velhos crentes agitavam -se. Alguém espalhara entre eles o rum or da aparição do Anticristo, que nem os defuntos deixava em paz, e fazia aquisição de alm as m ortas. Eles arrependiam -se dos seus pecados, sem deixar de com eter outros novos e, sob o pretexto de capturar o Anticristo, assassinavam sim ples m ortais. Noutra região, os cam poneses sublevaram -se contra os proprietários e os com andantes da polícia. Uns vagabundos haviam -nos convencido de que era chegado o m om ento de os m uj iques se tornarem proprietários e usarem fraque, enquanto os proprietários usariam cafetãs e passariam a ser m uj iques; e todo um cantão, sem refletir que, então, os proprietários e com andantes da polícia seriam dem asiado num erosos, recusou-se a pagar os im postos. Houve que recorrer a m edidas rigorosas.

O pobre príncipe estava m uito inquieto. Neste m om ento anunciaram -lhe a chegada de Murazov.

— Que entre! — disse.

O ancião entrou.

— Está bem servido com o seu Tchichikov! O senhor tom a o partido dele, defende-o e ei-lo agora aqui em brulhado num caso a que não se atreveu o últim o dos ladrões.

— Perm ita-m e que lhe declare, Excelência, que não sei bem de que se trata.

— A falsificação de um testam ento! E em que condições! Merece ser açoitado na praça pública.

— Excelência: não m e proponho defender Tchichikov; m as, ao fim e ao cabo, isso não está ainda provado; a instrução do processo ainda não acabou.

— Aqui tem um a prova. A m ulher que substituiu a defunta foi detida. Para o convencer, vou interrogá-la na sua presença.

O príncipe deu ordem para que lhe trouxessem aquela m ulher. Murazov estava calado.

— Um caso m iserável. E, para sua vergonha, os prim eiros funcionários da cidade estão com prom etidos no assunto. A bons patifes e ladrões se j untou! — disse o príncipe, com energia.

— O governador é herdeiro, tinha pretensões a fazer vingar; quanto aos outros, que por todos os lados se agarram a essa herança, é um fenóm eno m uito natural, Excelência. Um a pessoa rica m orre sem ter tom ado disposições equitativas e sensatas; os am biciosos acodem de toda a parte ao banquete: é próprio da natureza hum ana.

— Sim , m as para que com eter vilanias?... Gatunos! — disse o príncipe, indignado. — Não tenho, ao m enos, um bom funcionário! São todos uns m alandros!

— Excelência: quem , de entre nós, é que está isento do pecado? Todos os funcionários desta cidade são hom ens dignos e capazes, m uitos deles com petentes, m as facilm ente se cai num a falta.

— Diga-m e, Atanásio Vasilievich, o senhor que é o único hom em honrado que eu conheço: porque tem o senhor essa tendência para defender os patifes?

— Excelência — disse Murazov — sej a quem for esse a quem cham ais patife é, sem em bargo, um hom em . Com o não defender um a pessoa cuj as m aiores faltas são devidas, com o se sabe, à estupidez e à ignorância? Nós próprios com etem os inj ustiças a cada m om ento e frequentem ente causam os a desgraça do próxim o, em bora sem essa intenção. Até Vossa Excelência praticou um a grande inj ustiça.

— Quê?!... — exclam ou o príncipe, surpreendido com a orientação inesperada que tom ava a conversa.

Murazov fez um a pausa para m editar e disse por fim :

— Vej am os, por exem plo, o caso Derpennikov.

— Atanásio Vasilievich! Um crim e contra as leis fundam entais do Estado equivale a um a traição contra o seu país.

— Eu não pretendo j ustificá-lo. Mas é equitativo condenar tão rigorosam ente com o aos instigadores um j ovem inexperiente, seduzido e arrastado por outros? Pois Derpennikov sofreu a m esm a pena que Voronov; e, não obstante, os seus crim es não são idênticos.

— Em nom e do Céu! — disse o príncipe visivelm ente com ovido. — Se o senhor sabe algum a coisa a esse respeito, diga-o. Recentem ente escrevi para S. Petersburgo, para que lhe com utassem a pena.

— Não, Excelência; não falo com o se soubesse coisas que vós ignorais. Existe, contudo, um a circunstância em seu favor; m as ele próprio não desej aria revelá-la, pois com prom eteria outra pessoa. Julgo, apenas, que talvez agísseis, na altura, com excessiva precipitação. Perdoai: j ulgo segundo a m inha fraca razão; e vós m e tendes ordenado várias vezes que fale com clareza. Tive m uita gente às m inhas ordens; trabalhadores de toda a espécie, bons e m aus. É preciso conhecer sem pre os antecedentes de um hom em , por isso que, se não se exam ina tudo com sangue frio e se se grita desde o prim eiro m om ento, apenas se consegue assustar e não obter as verdadeiras confissões. Porém , se se interroga com sim patia, com o a um irm ão, ele próprio declarará tudo e não pedirá indulgência; não quererá nada de ninguém , pois há de ver claram ente que não são os hom ens que o castigam , m as sim a lei.

O príncipe m editava. Naquele instante, entrou um j ovem em pregado que parou respeitosam ente, com um a pasta na m ão. A preocupação e o trabalho liam -se-lhe no rosto j uvenil. Via-se que não era em vão encarregado de m issões especiais. Pertencia ao reduzido núm ero dos que estudam os assuntos com am or. Estranho à am bição, à avareza, ao espírito da im itação, trabalhava som ente porque estava convencido de que assim devia ser e não de outro m odo, e que a vida lhe fora dada para isso. Estudar um assunto com plicado, analisá-lo, desem aranhá-lo, tal era a sua especialidade. Sentia-se am plam ente recom pensado do seu trabalho, dos seus esforços e das suas noites de vigília, desde que o assunto se esclarecesse, fazendo aparecer as suas causas secretas; desde que fosse capaz de o expor claram ente, em poucas palavras, de m odo a tom á-lo inteligível a todos. Pode dizer-se que a alegria de um colegial, depois de ter decifrado um a frase difícil e interpretado o verdadeiro pensam ento de um grande escritor, era m enor que a sua, quando deslindava um caso com plicado.

[***longo hiato existente no texto original***]

— Enviarei trigo para as localidades onde reina a escassez — disse Murazov —; conheço esta parte m elhor que os funcionários, verei pessoalm ente o que é preciso. E se m e dá licença, Excelência, falarei aos velhos crentes. Eles escutam de m elhor vontade as pessoas sim ples. Quem sabe? Talvez aj ude a arrum ar este assunto. Não m ande para lá os seus funcionários; isto obrigaria a novos im postos, e estão tão aferrados à papelada, que essa m esm a circunstância os im pede de ver bem a situação. Eu não lhes pedirei dinheiro, pois seria vergonhoso pensar no proveito próprio, quando há gente que m orre de fom e. Tenho trigo de reserva e ainda m andei buscar m ais à Sibéria, que chegará para o próxim o verão.

— Só Deus pode com pensá-lo de sem elhante serviço, Atanásio Vasilievich. Não lhe direi nada, pois, o senhor bem sabe, em tais casos as palavras são im potentes. Tenho o dever de liquidar este assunto, e será j usto e legal, da m inha parte, perdoar a uns bandidos?

— Excelência: não se pode exprim ir assim , palavra de honra, tanto m ais quanto é certo encontrarem -se, entre eles, pessoas de bem . Existem situações m uito em baraçosas; um indivíduo parece, às vezes, inteiram ente culpado; e, vendo as coisas de perto, verifica-se que não é ele.

— Mas que dirão, se fecho os olhos? No m eio deles, há-os que tornarão a levantar a cabeça e até se convencerão de que m e m eteram m edo. Estes serão os prim eiros a faltar ao respeito...

— Excelência, perm iti que vos diga a m inha opinião: reuni-os a todos; inform ai-os de que sabeis tudo, exponde-lhes a vossa própria situação, tal com o acabais de m a pintar, e pedi-lhes um conselho. Que faria cada um deles no vosso lugar?

— Acredita o senhor que não preferirão intrigar e encher os bolsos, a ceder a um a nobre inspiração? Asseguro-lhe que se rirão de m im .

— Não o creio, Excelência. O hom em , em bora culpado, tem o sentim ento da j ustiça. O russo, pelo m enos, ainda que sej a j udeu! Não, não tendes que ocultar nada. Repeti exatam ente o que m e haveis dito. Eles apontam -vos com o um am bicioso, com o um orgulhoso, que não quer saber de nada, m uito senhor do seu nariz. Mostrai-lhes o que há a esse respeito. A retidão está com Vossa Excelência. Falai-lhes com o se vos confessásseis, não diante deles, m as diante do próprio Deus.

— Atanásio Vasilievich — disse o príncipe, pensativo — refletirei sobre o assunto; em todo o caso, agradeço o vosso conselho.

— Quanto a Tchichikov, Excelência, libertai-o.

— Diga a esse Tchichikov que desapareça daqui, o m ais depressa possível, e quanto m ais para longe, m elhor. Se não fosse a intervenção do senhor, nunca lhe teria perdoado.

Murazov inclinou-se e foi ter com Tchichikov. Encontrou-o bem disposto, sentado sossegadam ente à m esa, em frente de um suculento alm oço, m andado de um bom restaurante, num a bandej a com pratos e terrinas de porcelana. Logo às prim eiras frases, o ancião convenceu-se de que Tchichikov tinha falado com algum dos astutos funcionários. Adivinhou, até, a intervenção oculta do velhaco advogado.

— Escute, Pavel Ivanovitch — disse. — Trago a sua libertação; com a condição, porém , de que saia im ediatam ente da cidade. Faça as suas m alas e — boa viagem ! Não perca um m inuto, pois as coisas podem m odificar-se. Eu sei que anda aqui um a personagem a protegê-lo na som bra. Muito em segredo lhe digo que se vai discutir este caso com tal am plitude, que nada no m undo o poderá salvar; quer deitar a perder os outros e perde-se a si próprio, agindo por sua conta e risco... Quanto ao senhor, eu tinha-o deixado em boas disposições, bem m elhores do que aquelas em que se encontra agora. Falo-lhe com a m aior seriedade. Aliás, pouco im portam os bens pelos quais os hom ens brigam e se pervertem , com o se se pudesse conseguir o bem -estar da vida terrestre sem pensar na outra vida. Creia-m e, Pavel Ivanovitch: enquanto não se puser de parte tudo aquilo por que os hom ens se exterm inam na terra, enquanto um a pessoa não se preocupar com o bem -estar m oral, o bem -estar m aterial não se alcançará. Tem pos virão de fom e e de pobreza, tanto para o povo com o para cada um em particular. É evidente. Diga o senhor o que quiser, o corpo depende da alm a. Pense, não em alm as m ortas, m as na sua alm a viva. Eu tam bém m e vou em bora am anhã. Apresse-se! Se não, tenha cuidado durante a m inha ausência.

Depois destas palavras, o ancião retirou-se. Tchichikov pôs-se a refletir. A vida parecia-lhe novam ente um a coisa séria. « Murazov tem razão» , disse para si; « é a altura de enveredar por outro cam inho!» . Logo a seguir saiu da prisão. Um a sentinela levava a sua caixa.

Selifan e Petrushka regozij aram -se com a libertação do seu am o.

— Bem , m eus rapazes! — disse-lhes, gracej ando, Tchichikov. — É preciso fazer as m alas e partir.

— Às suas ordens, Pavel Ivanovitch! — disse Selifan. — Já se deve poder ir de trenó; tem caído bastante neve. São horas de deixar a cidade. Estou tão farto dela, que j á não a posso ver.

— Vai ao carpinteiro para que ponha a caleche nos patins — disse Tchichikov, que se dirigiu à cidade; não quis, porém , fazer nenhum a visita de despedida.

Depois de sem elhante aventura, era aborrecido, tanto m ais que circulavam acerca dele as histórias m ais desagradáveis. Evitou toda a espécie de encontros e só entrou furtivam ente em casa do com erciante a quem havia com prado a célebre fazenda navarin fogo e fum o. Adquiriu m ais quatro varas, que foi levar ao seu alfaiate. Pagando o dobro, este deliberou redobrar de zelo e fez trabalhar o pessoal toda a noite, à luz de velas. O fraque estava pronto de m anhã, em bora um pouco tarde. Os cavalos achavam -se j á engatados. Não obstante, Tchichikov provou-o. Ficou tão bem com o o prim eiro. Reparou, porém — ai! — que tinha na cabeça um a m ancha branca e lisa, e proferiu com tristeza: « Para que m e desesperei eu de tal m aneira? Não devia ter arrancado os cabelos, nem até por m ais poderosas razões!» .

Tendo pago ao alfaiate, partiu, finalm ente, num a estranha disposição de espírito. Não era j á o antigo Tchichikov: era com o que a sua ruína. O seu estado de alm a podia com parar-se a um a construção desm antelada, cuj os m ateriais devem servir para um a nova, que não está ainda com eçada, pois o arquiteto não enviou até agora o proj eto e os operários não sabem o que hão de fazer.

Um a hora antes, o velho Murazov tinha partido com Potapich num cochezinho de vim es, e um a hora depois o príncipe m andou dizer a todos os funcionários que, antes de seguir para Petersburgo, desej ava falar-lhes.

Reunida na grande sala a tribo de em pregados, desde o governador até o últim o conselheiro titular — chefes de repartição, conselheiros, assessores, todos os Kisloiedov, Krasnonosov, Sam osvistov; os que recebiam gorj etas e as pessoas íntegras; os que tinham a consciência m ais ou m enos com prom etida, com o os que não tinham nada que se lhes censurasse — esperavam , não sem inquietação, a chegada do governador geral. O seu olhar, com o o seu aspeto, eram herm éticos.

Depois de um ligeiro cum prim ento, o príncipe com eçou:

— Antes de regressar a Petersburgo, j ulguei conveniente cham á-los a todos e até, em parte, explicar-lhes a razão. Passou-se aqui um caso dos m ais escandalosos. Suponho que m uitos dos presentes sabem de que se trata. Este assunto revelou outros igualm ente desonestos, em que estão im plicados hom ens a quem eu, até agora, tinha por honrados. Conheço, até, o desígnio secreto de tudo baralhar, de m odo que se não possa proceder, pelas vias legais; conheço tam bém o principal autor de tudo isso e sei atrás de quem se oculta... por m ais que ele, m uito habilm ente, procure dissim ular a sua com participação. Nestas circunstâncias, não tenciono recorrer ao procedim ento ordinário, m as à sum ária j ustiça m ilitar, com o em tem po de guerra: e espero que Sua Maj estade m e há de outorgar esse direito, logo que lhe exponha todo o assunto. Quando a j ustiça civil é im potente, quando ardem os docum entos com os arm ários, quando, por m eio de um a aluvião de falsos testem unhos e denúncias caluniosas, se esforçam por obscurecer um caso j á de si escuro, creio que a j ustiça m ilitar é o único processo de acabar com isto. Desej o conhecer a opinião dos senhores sobre o assunto.

O príncipe calou-se, com o se esperasse um a resposta. Todos em udeceram , com os olhos baixos; alguns deles estavam lívidos.

— Conheço outro negócio, em bora os interessados estej am persuadidos de que ninguém sabe nada dele. Este não será instruído pela form a ordinária, pois serei eu próprio que m e constituirei em queixoso, apresentando as provas necessárias.

Na reunião, alguém estrem eceu; os m ais m edrosos perturbaram -se.

— Não é preciso dizer que os m ais culpados serão privados dos seus graus e dos seus bens; os outros serão dem itidos. Naturalm ente alguns inocentes serão castigados. Mas que lhes hei de fazer? Este caso é daqueles que, por excessivam ente desonestos, clam am por j ustiça. Em bora eu saiba que isto não servirá de lição para outros (pois quem os substituir, com o os que até então perm aneceram honrados, tornar-se-ão indignos, enganarão, vender-se-ão, a despeito da confiança que neles se deposita), apesar de tudo, devo proceder com rigor, um a vez que a j ustiça reclam a os seus direitos. Já sei que m e acusarão de crueldade; m as todos os senhores devem considerar-se com o o instrum ento cego da j ustiça.

O príncipe estava tranquilo. O seu rosto não m anifestava raiva nem indignação.

— Muito bem : o m esm o que tem em suas m ãos a sorte de m uitos dos senhores, a quem nenhum rogo pode abrandar, esse m esm o perdoa-lhes, a todos. Tudo será esquecido, tudo deixará de existir; eu intercederei por todos os senhores, se os senhores escutarem o m eu pedido. Ei-lo. Eu sei que nada (nem o tem or nem os castigos) podem acabar com a inj ustiça. Está profundam ente arreigada. O facto desonesto de receber gratificações converteu-se num a necessidade, até para os que não tinham nascido para isso. Sei que para m uitos é im possível lutar contra a corrente. Contudo, eu devo agora, com o na hora decisiva e sagrada em que se trata de salvar a pátria, em que cada cidadão lhe sacrifica tudo, devo dirigir um apelo aos senhores, ainda que só àqueles que conservam ainda no peito um coração russo e com preendem , por pouco que sej a, a nobreza de alm a. Para que perguntar quem , de entre nós, é o culpado? Talvez o sej a eu m ais que todos; talvez eu, a princípio, tenha sido para os senhores dem asiado rude; talvez desconfiasse dem ais, repelindo, de entre os senhores, os que sinceram ente m e desej avam ser úteis, em bora, por m inha parte, tam bém pudesse... Se eles am avam verdadeiram ente a j ustiça e o bem do seu país, não deveriam deixar-se im pressionar com a arrogância dos m eus m odos e deveriam refrear a sua am bição e sacrificar o seu am or próprio. É im possível que eu não tivesse notado a sua abnegação, o seu vivo am or do bem , que não tivesse recebido deles, finalm ente, sábios e proveitosos conselhos. Sem em bargo, com pete m ais ao subordinado conform ar-se com o caráter do chefe, que ao chefe com o do subordinado. Deixem os de lado, pois, neste m om ento, o grau de culpabilidade de cada um . O certo é que devem os salvar o nosso país, que sucum be j á, não por virtude de um a invasão de vinte nações, m as por sua própria culpa. A par do governo legal, form ou-se outro m uito m ais potente que a lei. Está tudo tabelado e até os preços são levados ao conhecim ento de todos. E nenhum chefe, ainda que fosse m ais sábio que todos os legisladores e que todos os governadores, tem forças para rem ediar o m al, nem sequer para lim itar as malas artes dos funcionários desonestos, colocando-os debaixo da vigilância dos seus colegas. De nada servirá tudo isto, enquanto cada um de nós não se convencer de que o m esm o que na época da revolução dos povos se havia arm ado contra... deve, de igual m odo, arm ar-se contra a inj ustiça. Falo-lhes com o russo, unido aos senhores pela fraternidade do sangue. Dirij o-m e aos que com preendem o que é a nobreza das ideias. Convido-os a todos a recordar o dever que o hom em deve cum prir, sej a qual for o seu cam inho. Convido-os a exam inar m ais de perto o seu dever e as obrigações das suas funções na terra, pois todos tem os disso um a ideia confusa e...

[***neste ponto, o m anuscrito original acaba de form a abrupta***]

Você terminou Almas Mortas

Nikolai Gogol

Livros como este

Depois do livro

Páginas que vieram com esta edição, guardadas aqui para consulta.