Almas Mortas

Nikolai Gogol · Capítulo 15 de 15 · parte 2/3

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Almas Mortas

Capítulo 4

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Perm ita-m e o senhor que, por m inha vez, lhe preste um serviço. Eu quero ser seu interm ediário j unto dos irm ãos Platonov. O senhor precisa de terras, não é verdade?

***

Neste m undo, cada qual arranj a-se com o pode. A exploração dos cofres alheios foi coroado de êxito e um a parte do seu conteúdo passou para a fam osa caixinha. Operação das m ais j udiciosas: Tchichikov lucrou m ais que se roubasse. Pois, cada um de nós tira proveito dalgum a coisa; este das florestas baldias; aquele de im portâncias que lhe confiaram ; outro rouba os cam poneses « m troca de m óveis de Ham bs ou de um a parelha de cavalos. Que querem ? O m undo fervilha de tentações: restaurantes caros, bailes de m áscaras, aventuras am orosas com ciganas. É difícil conterm o-nos. Se toda a gente faz o m esm o e a m oda o exige, provem os um pouco disso! Portanto Tchichikov, a exem plo das pessoas, cada dia m ais num erosas, que am am o conforto, encam inhou o negócio em seu proveito.

Tchichikov deveria ir-se j á em bora; os cam inhos, porém , estavam intransitáveis. Entretanto, na cidade, ia com eçar outra feira, destinada a pessoas da sua posição. Na anterior, negociavam -se especialm ente em cavalos, gado, produtos agrícolas, adquiridos aos cam poneses pelos açam barcadores. Agora, os negociantes de novidades expunham as m ercadorias com pradas na feira de Nij ni-Novgorod. O flagelo dos m ealheiros russos foram esses franceses vendedores de perfum es, franceses vendedores de chapéus — essa lagosta do Egito, com o lhes cham ava Kostanioglo, que, não contente com devorar tudo, deixa os seus ovos ocultos na terra — que vinham arrebanhar o dinheiro econom izado à custa de um labor encarniçado.

Só a m á colheita retinha em suas casas num erosos fidalgotes. Em com pensação, os funcionários gastavam à doida, assim com o suas m ulheres, desgraçadam ente. Tendo lido diversas obras publicadas nos últim os tem pos com o obj etivo de criar novas necessidades à hum anidade, ardiam em desej os de saborear novos prazeres. Um francês tinha aberto um vauxhall — estabelecim ento até então desconhecido na província — com com idas a preços m uito baixos, m etade das quais a crédito. Isto foi o bastante para que, não só os chefes de repartição, m as os sim ples subalternos, contando com futuras gratificações dos contribuintes, se entregassem a elas de corpo e alm a.

Cada qual desej ava fazer ostentação de form osas carruagens. As diversas classes rivalizavam em diversões. Apesar do m au tem po e da lam a, as caleches iam e vinham . Deus sabe de onde elas saíam ; todavia, em Petersburgo não deveriam produzir m au efeito.

Com erciantes, escreventes, descobrindo-se com elegância, cum prim entavam as senhoras e falavam -lhes. Sim plesm ente, não se via nenhum hom em barbado e com gorro de peles, à m oda antiga. Todos tinham aspeto europeu.

***

Estendido num canapé, Tchichikov, em brulhado num a bata persa de tarmalam de ouro, discutia com um contrabandista am bulante, de origem j udia e sotaque alem ão. Já tinha com prado um a nova peça de pano fino da Holanda e duas caixas de sabonetes de prim eira qualidade, os m esm os de que se abastecia, não havia m uito, na alfândega de Radzivilov, e que tinham a m isteriosa propriedade de am aciar a pele e torná-la assom brosam ente branca. Quando com prava tudo isto, com o bom conhecedor dos produtos indispensáveis a todo o hom em de boa fam ília, o estrépito de um coche que chegava fez trem er ligeiram ente os vidros, e Sua Excelência Alexei Ivanovitch Lenitsin entrou.

— Que diz Vossa Excelência a este pano, a estes sabonetes e a estas bugigangas que acabo de com prar?

E, dizendo isto, Tchichikov pôs na cabeça um chapéu bordado a ouro e pedras falsas, que lhe im prim ia a m aj estade de um xá da Pérsia.

Porém , sem responder à pergunta, Sua Excelência, num tom preocupado, disse-lhe.

— Preciso de lhe falar.

O respeitável com erciante de sotaque alem ão foi logo despedido, e os dois ficaram sós.

— Acaba de surgir um a grande contrariedade! Descobriu-se outro testam ento da velha, feito j á há cinco anos. Metade do dom ínio lega-o a um convento; o resto é dividido por duas pupilas. E eis tudo.

Tchichikov perturbou-se.

— Mas esse testam ento não serve; não tem valor algum ; está anulado pelo segundo — disse.

— Essa anulação não ficou estipulada no posterior.

— Isso cai pela base. Eu conheço bem a vontade da defunta; estava j unto dela; o prim eiro testam ento é nulo. Quem o assinou? Quem são as testem unhas?

— Está redigido em form a legal e assinado por duas testem unhas: Javanov e Burm ilov, ex-j uiz do Tribunal de Consciência.

« Que m açada!» , pensou Tchichikov. « Javanov passa por honrado; Burm ilov é um velho santarrão a quem se confia nos dias de festa a leitura da Epístola.»

— É um absurdo! — disse em voz alta, enchendo-se de um a coragem a toda a prova. — Eu estou m ais ao corrente do que ninguém ; assisti aos últim os m om entos da defunta. Estou disposto a testem unhá-lo, debaixo de j uram ento.

Estadas palavras decididas tranquilizaram por um instante Lenitsin. Arrependia-se de, na sua agitação, ter suspeitado de Tchichikov com o autor do testam ento. A disposição que m anifestava de j urar era um a prova evidente do contrário. Ignoram os se Pavel Ivanovitch haveria tido, realm ente, a audácia de j urar sobre os Evangelhos; em todo o caso, só o facto de o pretender revelava m erecim ento.

— Estej a o senhor tranquilo. Eu falarei sobre o assunto com vários j urisconsultos. Quanto ao senhor, não dê um passo; deve m ostrar-se com pletam ente estranho ao negócio. Eu posso ficar na cidade todo o tem po que m e parecer.

Tchichikov m andou logo engatar e dirigiu-se a casa de um advogado de grande nom eada nesta especialidade. Processado havia quinze anos, soube arranj ar-se tão bem , que não puderam destituí-lo do cargo. Toda a gente sabia que, por suas m alas-artes, deveria ter sido deportado seis vezes. Todos suspeitavam dele; m as ninguém podia apresentar quaisquer provas. Verdadeiram ente, ali havia um m istério; e, se a nossa narrativa se fizesse em épocas de ignorância, tom ariam com certeza o nosso hom em por feiticeiro. A fria apresentação do advogado, a im undície da sua toga, contrastavam vivam ente com a luxuosa m obília de acaj u, com o dourado relógio sob um farol de cristal, com a lâm pada que se distinguia através de um invólucro de m usselina e, em geral, com tudo o que o rodeava, que m ostrava o selo evidente da cultura europeia.

O contraste surpreendeu Tchichikov; m as, sem detenças, expôs os pontos m elindrosos do assunto e expôs em term os sedutores a gratificação com que não deixaria de ser recom pensado um bom conselho e o trabalho que desse.

O hom em de leis, por sua vez, perorou sobre a instabilidade das coisas terrestres e deu habilm ente a entender que um « pega» vale m ais que dois « te darei» .

De boa ou de m á vontade, foi preciso recorrer a argum entos contantes e sonantes. A cética frieza do filósofo desapareceu instantaneam ente. Revelou-se um hom em prim oroso, conversador brilhante, que, na arte de saber viver, nada ficava a dever a Tchichikov.

— Perm ita-m e que lhe diga, em vez de com plicar as coisas, que o senhor, com certeza, não exam inou bem o testam ento: este deve ter um codicilo. Vej a se o leva alguns dias para sua casa. Em bora isso sej a proibido, solicitando-o convenientem ente... Eu, pela m inha parte, farei o que puder.

« Com preendo» , pensou Tchichikov.

— Efetivam ente — disse — não m e recordo se há ou não algum codicilo.

Com o se o testam ento não tivesse sido falsificado por suas próprias m ãos!

— É m elhor que o senhor o exam ine. Por outro lado — prosseguiu o advogado, com grande afabilidade — o senhor não se aflij a, ainda que suceda algum a coisa de desagradável. Não desespere nunca. Não há nada que não tenha rem édio. Olhe para m im . Estou sem pre calm o. Por m ais obstáculos que m e levantem , a m inha tranquilidade é absoluta.

O rosto do j urisconsulto refletia, com efeito, um a extraordinária calm a, o que serenou m uito Tchichikov.

— Realm ente, isso é de capital im portância — disse. — Suponha, no entanto, que surgem falsas acusações por parte de inim igos, situações difíceis, capazes de nos tirar o sossego...

— Creia o senhor: isso é pusilanim idade — respondeu com grande segurança o hom em de leis. — Proceda de m aneira que este caso sej a instruído com pletam ente por escrito; que não haj a nenhum a declaração verbal. E quando o senhor vir que se aproxim a o desenlace, que está im inente um a solução, em vez de j ustificar-se ou defender-se trate sim plesm ente de em brulhar as coisas, m etendo no assunto elem entos estranhos.

— Quer dizer, a fim de...

— De em brulhar e nada m ais; de introduzir na questão circunstâncias acessórias que nela enrodilhariam outras pessoas. Isto é o principal. Que venha depois de Petersburgo um funcionário, a ver se consegue desenredar a m eada! — repetia, olhando para a cara de Tchichikov com particular satisfação, com o o professor olha para o aluno a quem explica um tem a agradável de gram ática russa.

— Está m uito bem , desde que se encontrem circunstâncias capazes de estabelecer a confusão — disse Tchichikov resum indo, tam bém com a satisfação de um filósofo, com o discípulo que percebeu o agradável tem a explicado pelo m estre.

— Aparecem sem pre, acredite. O frequente exercício torna engenhoso o espírito. Em prim eiro lugar, lem bre-se de que eu o aj udarei. A própria com plicação do assunto tem grande im portância. São precisos m ais funcionários e há m ais custas do processo. Em resum o: trata-se de fazer interessar no caso num erosas pessoas. Pouco im porta que algum as delas sej am incom odadas em vão; terão que se j ustificar por escrito. Isto produz efeito! Podem baralhar-se as cartas de tal m aneira, que ninguém ficará a perceber nada. Por que estou eu tranquilo? Porque tracei um a linha de conduta. E, quando os m eus negócios se com plicarem , m eterei neles o governador, o vice-governador, o chefe da polícia, o tesoureiro geral. Fá-los-ei dançar a todos. Conheço todos os seus atos, todos os seus gestos, as suas invej as, os seus aborrecim entos, as suas intrigas. E, m esm o que eles se libertem do assunto, encontrarei outros. Nas águas turvas é que m elhor se pesca.

E o advogado filósofo fixou Tchichikov nos olhos, novam ente, e com tanta satisfação com o o professor explica ao discípulo um tem a ainda m ais agradável da gram ática russa.

« Com efeito, este hom em é um sábio!» , disse Tchichikov; e m uito bem disposto, despediu-se do j urisconsulto.

Com pletam ente sereno, estendeu-se, num a posição de abandono, nos elásticos estofos da caleche e ordenou a Selifan que descesse a capota. (Tinha ido a casa do j urisconsulto com a capota fechada e as cortinas corridas). Instalou-se com o um coronel de hussardos reform ado ou com o Vishnepokrom ov em pessoa, com as pernas cruzadas, voltando para os transeuntes um rosto afável, radiante debaixo do seu chapéu alto, novo, um pouco inclinado para a orelha. Selifan recebeu ordem de se dirigir ao bazar. Os com erciantes, estrangeiros ou indígenas, que estavam à porta das suas loj as, descobriram -se respeitosam ente; e Tchichikov, m uito digno, levantava o seu chapéu, correspondendo. Conhecia j á m uitos deles; outros, estrangeiros m as encantados com os m odos daquele senhor que sabia apresentar-se, cum prim entavam -no tam bém . A feira de Tfuslavl continuava ainda. Depois dos cavalos e dos produtos agrícolas, negociava-se agora em artigos de luxo para as pessoas abastadas. Os feirantes, chegados de coche, tinham prom etido a si próprios não regressar senão de trenó.

Portanto, j unto da sua tenda, um vendedor de fazendas encafuado num capote à m oda m oscovita, acolheu Tchichikov com um a grande chapelada, não sem acariciar com a outra m ão o queixo, há pouco barbeado.

— Dê-m e as suas ordens!... — disse, com requintada cortesia.

Tchichikov entrou na tenda.

— Bem , m eu caro, m ostre-m e fazendas.

O afável com erciante levantou im ediatam ente um a tábua m óvel, perto do balcão. Abrindo assim cam inho, ficou de costas para a m ercadoria e de cara para o freguês. Descoberto, com o chapéu ainda na m ão, cum prim entou um a vez m ais Tchichikov. Cobriu-se, por fim e, apoiando am bas as m ãos no m ostrador, disse:

— Que espécie de tecido desej a o senhor? Manufaturas inglesas ou fabrico nacional?

— Fabrico nacional, m as de prim eira qualidade: o que se cham a inglês.

— E a cor preferida? — perguntou o com erciante, oscilando graciosam ente sobre as m ãos arqueadas.

— Azeitona m osqueada ou verde-garrafa, puxando para o am aranto — disse Tchichikov.

— Vou apresentar ao senhor o que há de m elhor. Para encontrar coisa superior, seria preciso ir às capitais do m undo civilizado. Rapaz! Tira-m e o núm ero 34, além , no alto de tudo. Não é isso, am igo: sem pre dás a entender que és um proletário. Ah! É esse! Tira-o! Um a fazenda fam osa!

E desdobrando a peça, o com erciante pô-la em frente do nariz de Tchichikov, de m odo que este pôde, não som ente acariciar o sedoso tecido, m as até cheirá-lo.

— Está bem ; m as há m elhor — disse. — Eu servi na alfândega. Mostre-m e, portanto, o senhor a m elhor qualidade que exista, e m ais escura, puxando m enos para o verde-garrafa que para o am aranto.

— Com preendo. O senhor desej a realm ente a cor da m oda. Tenho um a fazenda superior. Previno-o, porém , de que o preço é elevado m as a qualidade tam bém .

O europeu encarrapitou-se. A peça caiu. Desdobrou-a com a arte de outros tem pos, esquecendo-se por um m om ento de que pertencia à nova geração. Trouxe-a para a luz; até saiu da loj a, m ostrou-a cá fora, piscando os olhos por causa da claridade, e disse, por fim :

— Cor excelente: navarin fogo e fum o.

Gostou do artigo; chegaram a acordo no preço, em bora o com erciante afirm asse que só vendia a preço fixo. A peça foi logo m utilada (um golpe seco das duas m ãos serviu de tesoura) e o corte em brulhado à m oda russa, com incrível rapidez. Atou-se o pacote com um nó artisticam ente feito. Um a tesourada no barbante, e tis tudo na caleche. O vendedor tirou o chapéu. Tinha razões para isso; o negócio fora lucrativo.

— Mostre-m e fazenda preta — disse um a voz.

« Caram ba! Aqui tem os Jlobuiev» , pensou Tchichikov, que voltou as costas para o não ver, j ulgando im prudente conversar com ele a propósito da herança. O outro, porém , j á o tinha visto.

— Não se esconderá o senhor de m im propositadam ente, Pavel Ivanovitch? Não há m eio de o encontrar em parte algum a; e, apesar disso, tem os que falar m uito a sério.

— Meu bom am igo! — exclam ou Tchichikov, estreitando-lhe as m ãos. — Creia que tinha m uito gosto em falar consigo; m as agora luto com absoluta falta de tem po.

E, entretanto, pensava: « Vai para o diabo que te carregue!» .

Logo a seguir, viu entrar Murazov.

— Ah, m eu Deus! Atanásio Vasilievich! Que feliz encontro!

E, atrás dele, Vishnepokrom ov, que entrava, por sua vez, na loj a, repetiu:

— Atanásio Vasilievich!

E o com erciante de finas m aneiras, descobrindo-se com um am plo gesto, com o corpo inteiram ente inclinado, proferiu:

— Os nossos hum ildes cum prim entos a Atanásio Vasilievich!

As caras deixaram transparecer essa obsequiosidade servil que os m ilionários inspiram aos sim ples m ortais.

O ancião saudou-os a todos e dirigiu-se especialm ente a Jlobuiev:

— O senhor desculpe. Ao vê-lo, de longe, entrar na loj a, resolvi incom odá-lo. Se tem tem po e vem pelo m eu cam inho, faça-m e o favor de entrar um m om ento. Tenho que lhe falar.

— Perfeitam ente, Atanásio Vasilievich — respondeu Jlobuiev.

— Que lindo tem po, Atanásio Vasilievich! — acrescentou Vishnepokrom ov. — É extraordinário!

— Sim , graças a Deus, está m uito lindo! Precisava-se, no entanto, de algum a chuva para as nossas sem enteiras.

— Com certeza — disse Vishnepokrom ov — e até para a caça.

— Sim , um a chuvinha estava a calhar — corroborou Tchichikov, que nenhum a necessidade tinha dela; m as é sem pre agradável estar de acordo com as palavras de um m ilionário. — Até m e dá volta o m iolo — disse Tchichikov, desde que Murazov saiu — pensar que este hom em tem dez m ilhões! É inacreditável!

— É um a coisa contra a natureza — disse Vishnepokrom ov. — Os capitais não devem estar concentrados num a só m ão. Isto é j á obj eto de leis em toda a Europa. Quando se tem dinheiro, é preciso fazer os outros com participar dele; dar j antares, bailes, desenvolver o luxo benfeitor, que dá pão aos operários e artistas.

— O que não com preendo — disse Tchichikov — é que, possuindo dez m ilhões, viva com o um cam ponês. Deus sabe o que podia fazer-se com dez m ilhões! Se ele quisesse, convivia apenas com generais e com príncipes.

— Sim — acrescentou o dono da loj a — apesar dos seus haveres, Atanásio Vasilievich carece de instrução e de outras coisas m ais. Quando um com erciante chega a ser hom em de peso, converte-se num potentado e deve portar-se com o tal; ter um cam arote de assinatura e casar a filha com um general. Um sim ples coronel j á não é o bastante; esse despede a cozinheira e vai com er para um a pensão.

— Realm ente é assim ! — disse Vishnepokrom ov. — O que poderia fazer com dez m ilhões! Se eu os apanhasse, os senhores veriam ...

« Não» , pensou Tchichikov, « tu não farias grande coisa com eles; com igo, porém , j á era outro cantar!»

« E não poder eu possuir dez m ilhões, depois de tão horríveis experiências!» , pensava Jlobuiev. « Elas ensinaram -m e a dar valor a cada copeque. Agora, havia de orientar-m e de m odo diferente.»

Depois de um m inuto de reflexão, perguntou a si próprio: « Gastá-los-ia agora com m ais j uízo?» . E, encolhendo os om bros, acrescentou: « Caram ba! Estou firm em ente convencido de que havia de os esbanj ar com o dantes!» .

Deixou em seguida a tenda, cheio de curiosidade em saber o que lhe diria Murazov.

— Esperava-o, Sim ão Sem ionovich — disse Murazov ao vê-lo entrar. — Passem os para o m eu quarto.

Conduziu-o a um aposento que, na sua sim plicidade, m ais parecia o de um em pregado com o vencim ento de setecentos rublos anuais.

— Ouça; j ulgo que a sua situação m elhorou. Recebeu algum a herança por m orte da sua tia?...

— Para falar com franqueza, Atanásio Vasilievich, ignoro se m elhorou. Tocaram -m e, por j unto, cinquenta cam poneses e trinta m il rublos, com que tive de pagar parte das m inhas dívidas; e j á estou de novo sem um centavo. O senhor sabe que o testam ento dela é um caso m uito escuro, Atanásio Vasilievich? Eu conto-lhe, e ficará surpreendido com o que se passa. Este Tchichikov...

— Dê-m e licença, Sim ão Sem ionovich; antes de falar desse Tchichikov, falem os do senhor. Diga-m e de quanto necessitaria, em sua opinião, para pagar integralm ente as suas dívidas.

— A m inha situação é difícil — disse Jlobuiev. — Para m e livrar destes apuros, para m e desem penhar por com pleto e ter possibilidades de levar um a existência m odesta, necessitava, pelo m enos, de cem m il rublos ou ainda m ais.

— E se possuísse essa im portância, com o organizaria a sua vida?

— Então alugaria um a parte de casa e dedicar-m e-ia à educação dos m eus filhos. É inútil pensar em m im ; a m inha carreira term inou; j á não sirvo para nada.

— Portanto, o senhor ficaria ocioso. Não ignora, porém , que é na ociosidade que nos assaltam as tentações em que j am ais pensa um hom em trabalhador.

— Que quer o senhor? Eu não sirvo para nada! Estou apático; sofro dos rins.

— E com o há de viver sem trabalhar? Com o perm anecer no m undo sem funções, sem um em prego? Repare o senhor em todas as criaturas de Deus: cada um a delas serve para algum a coisa. Até um a pedra tem o seu em prego, e o hom em , o ser m ais racional, não saberá tornar-se útil? Isso é j usto?

— Mas eu não estarei desocupado. Tratarei da educação dos m eus filhos.

— Não, Sim ão Sem ionovich; não há nada m ais difícil. Pois quê! Aquele que não soube educar-se a si próprio pode educar os filhos? Devem os educar pelo exem plo. Ora diga-m e: a sua vida foi um bom exem plo para eles? O m ais que lhes pode ensinar é a passar o tem po na ociosidade e a j ogar as cartas. Não, Sim ão Sem ionovich; confie-m e os seus filhos. O senhor pervertê-los-á. Pense nisto seriam ente. A ociosidade perdeu-o. É necessário fugir dela. Com o é possível viver, sem estar suj eito a qualquer ocupação? Deve-se cum prir um dever qualquer. O próprio j ornaleiro serve para algum a coisa; com e um pão frugal, é certo, m as ganha com o seu trabalho e sente interesse pela sua tarefa.

— Palavra de honra, Atanásio Vasilievich, que fiz esforços para dom inar-m e. Trabalho perdido! Envelheci e tornei-m e incapaz de tudo. Em pregar-m e, em quê? Com o posso ir, aos quarenta e cinco anos, sentar-m e a um a m esa, com o os escreventes? Além disso, eu não posso aceitar gorj etas. Com prom eter-m e-ia e não deixaria os outros bem colocados. Depois, eles form am um a casta à parte. Não, Atanásio Vasilievich; j á tenho refletido; sinto-m e incapaz de tudo. O que m e convém é um asilo.

— O asilo é para os que trabalharam ; aos que passaram a j uventude divertindo-se, responde-se-lhes com o a form iga à cigarra: « Cantaste? Pois dança agora!» . E m esm o no asilo se trabalha; não se j oga o whist. Sim ão Sem ionovich — disse Murazov, olhando-o fixam ente — o senhor engana-se e quer enganar-m e.

Murazov fitou-o, cara a cara; o pobre Jlobuiev, porém , não soube que responder. Causou pena a Murazov.

— Ouça, Sim ão Sem ionovich... O senhor reza; vai à igrej a; eu sei que não falta às vésperas nem às m atinas. Em bora não goste de se levantar cedo, o senhor vai para lá às quatro da m anhã, quando toda a gente dorm e.

— Isso é outra coisa, Atanásio Vasilievich. O que faço não é para o m undo, m as para Aquele que m andou a todos para esta vida. Eu creio que Ele é m isericordioso com igo; que, apesar das m inhas fraquezas, pode perdoar-m e e receber-m e, quando todos m e repelem com o pé, quando o m eu m elhor am igo m e atraiçoa, dizendo, em seguida, que foi com boa intenção.

Um sentim ento aflitivo se refletiu no rosto de Jlobuiev. Murazov calou-se um instante, com o para deixá-lo voltar a si, e disse:

— Por que não arranj a o senhor tam bém um em prego, igualm ente sem a intenção de dar satisfação aos hom ens ou de agradar à sociedade? Sirva Aquele que é tão m isericordioso. O trabalho é-lhe tão agradável com o a oração. Escolha um a ocupação qualquer; m as tom e esse encargo com o se o fizesse por Ele e não pelos hom ens. Tire sim plesm ente água de um poço, m as pensando que faz esse esforço por am or de Ele. Terá logo a vantagem de não lhe sobrar tem po para o m al; para perder dinheiro ao j ogo, para andar por m aus cam inhos, para a vida m undana, enfim . Diga-m e, Sim ão Sem ionovich, conhece Ivan Potapich?

— Conheço-o e respeito-o m uito.

— Pois bem : era um opulento com erciante; possuía m eio m ilhão. Colhendo benefícios por todos os lados, quis levar um a vida à rédea solta. Seu filho aprendeu o francês; a filha casou com um general. Já o não viam nos arm azéns nem na Bolsa; passava os dias inteiros nos cabarets, banqueteando-se com os am igos; finalm ente, abriu falência. Outra desgraça: Deus levou-lhe o filho. Agora está em pregado na m inha casa. A sua situação m elhorou. Restabeleceram -se os seus negócios; poderia, novam ente, negociar com quinhentos m il rublos. « Não» , disse, « em pregado sou, em pregado quero m orrer. Agora tenho saúde e boa disposição, enquanto, dantes, sofria dos intestinos e a hidropisia am eaçava-m e... Nada disso!» . Modificou-se por com pleto. Já não tom a chá; nada m ais que m anteiga fresca e sopa de couves. É forte e piedoso e socorre os pobres com o ninguém , pois m uito poucos se considerariam felizes acudindo em auxílio de quem desbaratou o seu dinheiro.

O velho pegou-lhe nas m ãos. O pobre Jlobuiev m editava.

— Sim ão Sem ionovich! Se o senhor calculasse a pena que m e dá! Constantem ente penso no senhor. Ouça: deve saber que há no m osteiro um anacoreta que se não deixa ver por ninguém . É um hom em de notável inteligência. Fala pouco; m as quando dá um conselho... Eu com ecei a dizer-lhe que tinha um am igo, sem o nom ear... que padecia disto e daquilo. Escutou-m e a princípio; depois, interrom peu-m e bruscam ente. « Há que pensar em Deus antes de pensarm os em nós. Está-se construindo um a igrej a e é preciso dinheiro; é preciso pedir para a igrej a» ; e, com estas palavras, deu-m e com a porta na cara. « Que quer isto dizer?» , pensava eu. « Não quer dar-m e conselhos?» Fui ter com o abade. Mal eu tinha entrado, disse-m e: « O senhor conhece alguém que possa encarregar-se de pedir para a igrej a? Necessitava-se de um hom em categorizado ou de um hom em de negócios, que fosse m ais educado que os outros e que visse nesta boa obra um m eio de lograr a sua salvação» . Fiquei assom brado. — Meu Deus, eis o que m e queria dizer o anacoreta! É a Sim ão Sem ionovich que convém este em prego. Viaj ar será excelente para a sua doença. Indo, na sua qualidade de proprietário, de cam ponês em cam ponês, de cidade em cidade, conhecerá as condições de existência e as necessidades de cada qual, de m odo que, no seu regresso, depois de ter percorrido algum as províncias, conhecerá a região m elhor do que todos os nossos m andriões. Há j ustam ente necessidade de hom ens assim . O príncipe dizia-m e que daria qualquer coisa para encontrar um em pregado que conhecesse as coisas tais com o elas são na realidade, pois nos papéis, disse, não se vê nada e tudo aparece em brulhado.

— O seu oferecim ento confunde-m e, Atanásio Vasilievich — disse Jlobuiev, olhando para ele, surpreendido. — Custa-m e a acreditar em sem elhante proposta. Para isso necessita-se de um hom em ativo, infatigável. Mas eu, com o abandonar m inha m ulher e os m eus filhos, que não têm nada que com er?

— Não se preocupe por causa deles. Eu encarrego-m e da sua alim entação; os seus filhos terão professores. Em vez de ir m endigar para si, de saco ao om bro, vale m ais pedir para Deus; é m ais nobre. Ao senhor dar-lhe-ei um sim ples carrinho; não receie os solavancos; é para a sua salvação. Receberá dinheiro para o cam inho, a fim de que, ao passar, lhe sej a perm itido socorrer os m ais necessitados. Assim , pode praticar m uita benem erência; o senhor não se enganará e aquele a quem favorecer será digno disso. Viaj ando desta m aneira, ficará a saber com o vivem as pessoas. Não desconfiarão do senhor, com o desconfiariam de um funcionário, de quem todos têm m edo; sabendo que pede para a igrej a, de bom grado entabularão conversa consigo.

— É um a excelente ideia, e de boa vontade a poria em prática, pelo m enos em parte, m as a tarefa parece-m e superior às m inhas forças.

— Há algum a tarefa que corresponda às nossas forças? — disse Murazov. — Não; todas as ultrapassam ; sem a aj uda do alto, nada se pode fazer. Contudo, encontram -se forças na oração. O hom em benze-se, im plora o auxílio do Senhor, em punha os rem os e alcança a m argem . É inútil refletir longam ente; aceite a m inha proposta com o um a ordem divina. O coche está quase pronto; vá pedir ao abade a relação e a sua bênção, e a cam inho!

— Inclino-m e e aceito isto com o um a indicação divina. — « Abençoa-m e, Senhor!» , disse m entalm ente. Logo sentiu que o vigor e a energia penetravam nele. O seu espírito foi despertado pela esperança de sair da sua triste situação. Um raio de luz brilhou a distância.

— Agora, perm ita-m e um a pergunta — disse Murazov. — Que espécie de hom em é esse Tchichikov?

— A esse respeito vou dizer-lhe coisas inauditas. Pratica atos abom ináveis... O senhor sabe, Atanásio Vasilievich, que o testam ento é falso? Encontrou-se um autêntico em virtude do qual a propriedade pertence às pupilas.

— Que diz o senhor? E quem forj ou o testam ento falso?

— Julga-se que é obra de Tchichikov e que o docum ento foi assinado depois da m orte da defunta. Um a m ulher, subornada para esse efeito, encarregou-se disso. Enfim , o assunto é dos m ais escandalosos. Por toda a parte surgem um a infinidade de questões. A Maria Ierem eievna aparecem noivos; dois em pregados agrediram -se por sua causa. Aqui tem o estado das coisas, Atanásio Vasilievich.

— Não sabia nada; o caso é verdadeiram ente condenável. Pavel Ivanovitch, confesso-o, é para m im um ser bastante enigm ático.

— Eu tam bém apresentei um a reclam ação com o fim de recordar que existe um próxim o herdeiro...

« Que se esm urrem uns aos outros!» , pensava Jlobuiev ao sair. « Atanásio Vasilievich não é parvo. Com certeza m e encarregou desta m issão depois de ter pensado bem . Não tenho outra coisa a fazer senão dedicar-m e a ela.»

Pôs-se a m editar durante o cam inho enquanto Murazov repetia para si, um a vez m ais:

— Que hom em enigm ático é este Pavel Ivanovitch! É pena que não aplique tanta energia e força de vontade na prática do bem !

***

Entretanto, foram chegando aos tribunais reclam ações sobre reclam ações. Apresentaram -se herdeiros de -quem nunca se ouvira falar. Com o os corvos se atiram sobre os cadáveres, todos reivindicaram a grande herança deixada pela velha senhora. Houve denúncias contra Tchichikov, contra a autenticidade do últim o testam ento e contra a do prim eiro; indicações de roubo e desvio de fundos. Tchichikov foi tam bém acusado de com prar alm as m ortas e de ter feito contrabando na época em que serviu nas alfândegas. Dissecou-se toda a sua vida e puseram -se a claro as suas antigas aventuras. Deus sabe com o isso foi, m as exam inaram -se casos que, além das quatro paredes, Tchichikov j ulgava ninguém conhecer. Aliás, tudo isto perm anecia no segredo da j ustiça e não tinha chegado aos seus ouvidos, em bora um bilhete do advogado lhe fizesse com preender que andava m oiro na costa.

O bilhete era lacónico: « Apresso-m e a inform á-lo de que vai haver celeum a; m as fique certo de que não há m otivos para se apoquentar. Calm a, calm a. Tudo se arranj ará» . Este bilhete tranquilizou com pletam ente Tchichikov. « É um espertalhão!» , disse.

Para cúm ulo da sorte, o alfaiate trouxe-lhe naquele m om ento o seu fato novo. Estava m orto por se ver com o fraque à m oda, cor da navarin fogo e fum o. Vestiu as calças, que lhe assentavam à m aravilha. As ancas ficavam perfeitam ente m odeladas e os m úsculos tam bém . O pano fazia avultar todos os porm enores, dando-lhes ainda m aior elasticidade. Quando apertou a fivela, atrás, a sua barriga parecia um tam bor. Bateu-lhe com a escova, exclam ando:

— Que aspeto de anim al! E, apesar disso, o conj unto não está nada m au!

O fraque ainda parecia m ais bem talhado que as calças; nem um a prega; as abas caíam com o um a luva. Adaptava-se à cintura, sublinhando-a. A um a observação de Tchichikov, que se queixava de o sentir um pouco apertado na altura do sovaco direito, o alfaiate lim itou-se a sorrir: o corte não podia estar m elhor.

— Fique descansado; estej a tranquilo, quanto ao trabalho — repetia, com ar de triunfo não dissim ulado. — Salvo em S. Petersburgo, não se trabalha m elhor em parte algum a.

O próprio alfaiate era de S. Petersburgo, em bora tivesse posto na tabuleta: Estrangeiro de Londres e Paris. Não se descuidara e, dizendo-se das duas cidades ao m esm o tem po, queria tapar a boca a todos os seus colegas, que deveriam contentar-se com a procedência de Karlsruhe ou de Copenhaga.

Tchichikov term inou a prova e ficou só, contem plando-se dem oradam ente ao espelho, com am or, com o artista dotado de sentido estético. Todas e cada um a das partes do quadro pareciam ter m elhorado: as faces m ais coradas; o queixo m ais sedutor; o pescoço branco dizia com o rosto; a gravata de cetim azul dizia com o pescoço; as pregas do peitilho à m oda, com a gravata; o rico colete de terciopelo, com o peitilho; o fraque navarin fogo e fum o, brilhante com o a seda, com todo o conj unto. Voltou-se para a direita: um a perfeição! Para a esquerda: m elhor ainda! Tinha o aspeto de um cam areiro real, de um a pessoa fina, que, m esm o encolerizada, não deixa escapar nenhum palavrão, m as blasfem a e praguej a em francês. Em conclusão: o requinte da elegância! Com a cabeça levem ente inclinada, adotou a posição de um fátuo que conversa com um a senhora de m eia idade e de instrução esm erada. Tinha assunto para um quadro; só faltava o artista e o seu pincel. De pura satisfação, Pavel Ivanovitch deu um a cabriola. Estrem eceu a cóm oda; um frasco de água de colónia caiu por terra. Sem a m enor perturbação, cham ou im becil ao frasco e pôs-se a pensar: « Por onde devo com eçar as m inhas visitas? O m elhor é...»

No m esm o instante, ouviu-se na antecâm ara um ruído de esporas.

Um polícia, devidam ente fardado, apareceu, com o se ele só representasse toda a corporação.

— Tenho ordem de o apresentar im ediatam ente ao governador geral!

Tchichikov ficou aturdido. Diante dele erguia-se um espantalho com bigodes, um a cauda de cavalo no capacete, um a correia em cada om bro, um grande sabre à cinta. Pareceu-lhe que do outro lado pendia um a espingarda e Deus sabe o que m ais. Todo um exército num indivíduo! Pretendeu fazer algum a obj eção; o espantalho proferiu grosseiram ente: « Ordem de o apresentar im ediatam ente!» .

Tchichikov divisou na sala de espera o vulto de outro espantalho e, espreitando por um a j anela, viu um coche. Que fazer? Tal com o estava, com o seu lindo fato navarin fogo e fum o, teve que subir para o carro e, trem endo, dirigiu-se, escoltado pela polícia, a casa do governador geral. Na antecâm ara, nem tem po lhe deram para se refazer.

— Entre! O príncipe está à sua espera — disse o oficial de serviço.

Com o através de um a nuvem , viu a antecâm ara onde os contínuos recebiam os m aços de ofícios e, a seguir, um a sala que atravessou, pensando: « Vão m andar-m e para a Sibéria, sem outra form a de processo!» . O seu coração bateu com m aior violência que o do am ante m ais zeloso. Por fim , abriu-se a porta fatal; apareceu o gabinete; surgiram -lhe arm ários, tapetes, livros e o príncipe, personificação da cólera.

« O m onstro!» , disse para si Tchichikov. « Vai despedaçar-m e com o o lobo ao cordeiro!»

— Pois quê! — exclam ou o príncipe, cuj os lábios trem iam de cólera. — Perdoei-lhe, ao senhor; autorizei-o a perm anecer na cidade quando o devia ter m andado para a cadeia; e, para m e agradecer tudo isso, teve o atrevim ento de com eter a patifaria m ais vergonhosa que até hoj e com eteu um hom em !

— Que vergonhosa patifaria, Excelência? — perguntou Tchichikov, trem endo.

— A m ulher — disse o príncipe, aproxim ando-se e fitando Tchichikov — a m ulher que assinou o testam ento a instâncias do senhor j á está presa e vai ser acareada consigo.

Um a nuvem passou pelos olhos de Tchichikov. Ficou branco com o a cal da parede.

— Excelência! Dir-vos-ei toda a verdade. Estou culpado, verdadeiram ente culpado; não tanto, porém , com o vós supondes. Os m eus inim igos caluniaram -m e.

— Ninguém seria capaz de o caluniar, pois no senhor há m ais crim es do que os que possa inventar o últim o dos em busteiros. Creio que em toda a sua vida não praticou o senhor um a ação que não fosse vergonhosa. Cada um dos copeques que o senhor ganhou deve ter origem em qualquer patifaria; cada um dos copeques que tem ganho é um roubo e um a infâm ia que m erecem a Sibéria. A m edida trasborda. Vais para um calabouço im ediatam ente, e ali, em com panhia dos m ais vis gatunos, esperarás que se tom e um a resolução a teu respeito. E isto ainda é um favor, pois tu és pior que eles; eles usam casaco e sam arra, enquanto tu...

Olhou para o fraque navarin fogo e fum o e puxou pelo cordão de um a cam painha.

— Excelência! — exclam ou Tchichikov. — Tende piedade de m im ! Sois pai de fam ília... Perdoai, senão a m im , ao m enos à m inha velha m ãe!

— Mentes! — gritou o príncipe, enfurecido. — Dantes pedias-m e, invocando o nom e de teus filhos e da tua fam ília inexistente, e agora falas da tua m ãe.

— Excelência! Sou um bandido, o últim o dos m iseráveis... Menti, realm ente; não tinha filhos nem fam ília; m as Deus é testem unha de que sem pre desej ei ter um a m ulher e cum prir os m eus deveres de hom em e de cidadão, a fim de m erecer o conceito público... Mas, que deplorável conj unto de circunstâncias! Excelência: eu tive de ganhar a vida em condições terríveis. Tentações a cada passo... inim igos... a m inha vida inteira foi com o um torvelinho, com o um barco açoitado pelas ondas, à m ercê dos vendavais. Sou um hom em , Excelência!

Um a torrente de lágrim as brotou subitam ente dos seus olhos. Roj ou-se aos pés do príncipe, com o estava, com o fraque navarin fogo e fum o, colete de terciopelo, gravata de cetim , calças irrepreensíveis, exalando o seu penteado um suave perfum e de água de colónia, e bateu com a testa no chão.

— Para trás! Levem -no! — gritou o príncipe.

— Excelência! — uivava Tchichikov, apertando com am bas as m ãos a bota do príncipe.

O príncipe sentiu-se invadido por um trem or nervoso.

— Para trás, j á disse! — gritou, esforçando-se por se libertar da pressão de Tchichikov.

— Excelência: ficarei aqui até ser perdoado! — disse Tchichikov, sem deixar a bota do príncipe, e arrastando-se atrás dele pelo soalho, com o seu elegante fraque navarin fogo e fum o.

— Largue-m e! — disse aquele, com a vaga repulsa que se experim enta diante de um inseto que não tem os coragem de esm agar. Deu tal sacudidela que Tchichikov feriu-se no nariz, nos lábios e no queixo; não quis, porém , deixar a sua presa e agarrou-se com m ais força à bota. Dois vigorosos guardas o arrancaram violentam ente e, pegando-lhe pelo braço, conduziram -no através de todas as salas. Estava pálido, abatido, nesse terrível estado de inconsciência em que se encontra o hom em , frente a frente à m orte sinistra e inevitável, com esse espanto que repugna à nossa natureza...

No alto da escadaria encontrou Murazov. Vislum brou um raio de esperança. Em m enos tem po do que levou a pensar, arrancou-se das m ãos do guarda e arroj ou-se aos pés do assom brado velho.

— Meu Deus, Pavel Ivanovitch! Que sucedeu?

— Salve-m e o senhor! Levam -m e para o cárcere e para a m orte!...

Os guardas agarraram -no e arrastaram -no sem o deixar acabar.

Um reduto infeto e húm ido, que fedia às botas e às peúgas dos carcereiros; um a m esa de m adeira branca; duas cadeiras desconj untadas; um a j anela gradeada; um a inválida estufa, que fum egava através das gretas, sem dar calor: tal era o asilo em que se instalou o nosso herói, que, um m om ento antes, j ulgava saborear os prazeres da existência e cham ar a atenção com a sua elegante fatiota navarin fogo e fum o. Não lhe tinham dado tem po de se prevenir com o necessário, nem de pegar no seu gorro... Os docum entos, os contratos dos m ortos, tudo estava agora nas m ãos da j ustiça. Deixou-se cair e, sem elhante a um gusano voraz, um a surda tristeza invadiu-lhe o coração. Com progressiva rapidez, pôs-se a roer aquele coração indefeso. Nunca Tchichikov tivera um dia de tão grande desolação. Porém , um a protetora m ão velava por ele. Ao fim de um a hora, abriu-se a porta da prisão e entrou o velho Murazov.

Continuar: parte 3 de 3