Amor & sorte

Jenna Evans Welch · Capítulo 6 de 15

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Amor & sorte

Península de Dingle

 

 

Se a Irlanda fosse um bolo, e você, uma visita receosa prestes a receber uma guloseima saindo do meu forno, eu lhe serviria uma fatia generosa de Dingle. Cítrica, açucarada e densa: essa é a Península de Dingle.

Trata-se de uma combinação de ingredientes absolutamente irresistível — colinas rochosas e crocantes com gramados macios, estradas cobertas por uma névoa leitosa, prédios coloridos como jujubas apinhados em estradas sinuosas. Tudo batido e misturado para formar uma península que você vai querer devorar com um copo de leite.

Agora, eu sei o que você está pensando, meu anjo: O que essa perfeição idílica tem a ver com meu pobre coraçãozinho? Ainda bem que perguntou. Você está pegando o espírito da coisa.

É sobre o ciclo, meu amor. O processo. Em algum momento (talvez até já tenha acontecido), você vai enfiar essa mágoa toda em uma caixa resistente, arrastá-la até o correio e mandá-la embora com um grande suspiro. Ainda bem que acabou, você vai pensar. Que alívio. Então vai voltar para casa, com o coração leve feito algodão-doce, apenas para perceber, com horror, que aquela caixa pesada está na sua porta da frente. Foi devolvida. Retornada ao remetente. Endereço do destinatário incompleto. Mas acabei de me livrar dela, você vai pensar. Já tinha resolvido.

Eu sei. Mas vai ter que lidar de novo. Ao contrário do que se acredita, superar alguém não é algo que se faz de uma vez só.

Pode ser útil encarar o processo de superação como uma península coberta por uma estrada longa e circular que leva você a uma infinidade de delícias e maravilhas. O luto requer que você retorne à questão, algumas vezes passando por ela incessantemente, até que não seja mais um destino, e sim apenas parte da paisagem. O truque é não se entregar ao desespero. Você está progredindo, mesmo que às vezes pareça estar andando em círculos.

DEVER DE CASA: Vá até Inch Beach, entre na água e vá o mais fundo que puder. Você vai sentir frio. E depois mais frio. Então seu corpo vai ficar dormente. E quando achar que não consegue suportar o frio nem por mais um segundo, quero que aguente por mais um segundo. Você está sobrevivendo a este momento de desconforto? Houve outros momentos sofridos ou desconfortáveis que achou que não superaria e mesmo assim superou? Interessante, chuchu. Interessante.

— Trecho de Irlanda para corações partidos: um guia não

convencional da Ilha Esmeralda, 3a edição

A TEMPESTADE ATINGIU A PENÍNSULA QUANDO CHEGAMOS. E por “atingiu” quero dizer que veio para cima de nós como se fôssemos três invasores que deveriam ser forçados a recuar de volta para o continente. Não houve nenhum aviso: em um segundo não estava chovendo e no seguinte as gotas martelavam o teto do carro fazendo tanto barulho que mais pareciam estar dentro do meu crânio. A chuva escorria pelas janelas como uma cachoeira e Rowan forçava o carro contra as rajadas de vento.

 

— Está piorando — observou ele, nervoso.

— Ei, Rowan. Acho melhor a gente parar — falei, indicando Ian.

Meu irmão estava encolhido junto à janela, o olho roxo contrastando com o rosto pálido. Eu já tinha perdido a conta de quantas vezes vira Ian vomitar, e ele estava exibindo quatro dos cinco indícios de perigo. O vômito era iminente.

— Eu não estou enjoado, só... — começou Ian, mas nem conseguiu terminar a frase, cerrando os dentes.

— Pare assim que puder — instruí, agarrando a caixa de cereal vazia e empurrando-a para as mãos de Ian.

Ian era conhecido por passar mal em viagens de carro, mas também era teimoso feito uma mula. Ele nunca queria admitir que cava enjoado, o que signi cava que vivia fazendo coisas que o deixavam enjoado. Já fazia anos que nenhum de nós aceitava se sentar ao lado dele em uma montanha-russa.

— É só uma chuvinha de verão irlandesa, pessoal. Tenho certeza de que vamos atravessá-la daqui a pouco.

Rowan tentou soar despreocupado, mas o vento soprou contra nós de novo e ele levou um susto, virando o volante de modo brusco enquanto Ian se curvava.

— Ian, está tudo bem? Você não disse que cava enjoado.

— Eu não co — respondeu Ian. — Devo ter comido algo estragado no casamento.

Às vezes eu achava que meus irmãos eram incapazes de admitir fraqueza.

— É mentira, Rowan. Isso acontece sempre. Uma estrada com ventos fortes no meio de uma tempestade é o pior cenário possível.

Eu me virei quando Ian fez cara feia e me aproximei da minha janela embaçada, prestando atenção na paisagem. Mesmo sem a tempestade, a Península de Dingle seria a Irlanda 2.0 — ali, o teor dramático estava ligado no máximo. Ainda estávamos em uma estrada estreita de duas pistas, mas tudo o mais parecia saído de um livro do Dr. Seuss. À nossa esquerda, os picos de montanhas verde-neon desapareciam em nuvens densas como pudim e, à nossa direita, uma faixa de chuva mais intensa pairava sobre o mar.

O celular de Ian vibrou.

— Ai, não. Mensagem da nossa mãe.

— O que ela disse?

Ele tentou virar o rosto pálido para mim, mas o movimento o fez estremecer.

— Ela quer que a gente dê notícias quando pousar. Vou responder daqui a algumas horas.

De repente, uma rajada de vento soprou contra Trevo, nos empurrando da estrada para o acostamento. Dessa vez, Rowan escolheu um palavrão ainda mais impactante.

— Rowan, tudo bem aí? — perguntei.

Ele girou o volante, tentando desesperadamente recuperar o controle, quando fomos atingidos do lado oposto por um vento ainda mais poderoso. Por um nanossegundo, Trevo se apoiou apenas nas rodas esquerdas. Ian en ou a cabeça na caixa de cereal.

Também quei um pouco enjoada. Mesmo que tivesse visto Ian vomitar um milhão de vezes, eu nunca me acostumaria. Dei um tapinha desajeitado nele, olhando para o outro lado.

— Tudo bem, Ian. Está tudo bem.

— Vou parar agora.

Rowan parou no acostamento estreito, botou o carro em ponto morto e desabou sobre o volante. Ian desceu o vidro, deixando entrar um jato de chuva ao en ar a cabeça para fora.

— Bem, isso foi traumático — comentei, respirando fundo algumas vezes.

De repente, o carro começou a vibrar.

— O que... — começou Ian, os olhos arregalados, e naquele momento um enorme ônibus de turismo surgiu na pista oposta.

— Aguentem rme! — alertou Rowan.

Puxei Ian para dentro, e todos nós nos preparamos para morrer enquanto acompanhávamos o ônibus passar raspando ao nosso lado. Um jato de água acertou o para-brisa. Nós gritamos como se estivéssemos em uma casa mal-assombrada.

— A gente vai morrer! — choraminguei, quando paramos de gritar.

A chuva entrava pela janela de Ian, e ele a fechou rapidamente.

— Mortos por um ônibus de turismo — anunciou Rowan, e suspirou.

De repente, um pensamento terrível, sem relação alguma com a tempestade, me veio à mente, e agarrei a parte de trás do banco de Ian.

— Ian, tem certeza de que a gente não vai esbarrar com a excursão do casamento? A tia Mel não falou que eles pretendiam conhecer o oeste da Irlanda?

Ian fez um pequeno X com os dedos, o que imaginei que deveria signi car “não”.

— Eu invadi o e-mail da nossa mãe e imprimi uma cópia do itinerário deles. Não vamos passar nem perto da excursão.

— Invadiu? Quer dizer que usou a senha dela?

Nossa mãe não sabia ou não se importava com essa história de mudar as senhas periodicamente. Archie tinha descoberto a senha dela havia alguns anos, e desde então nós usávamos essa informação para descobrir quais seriam nossos presentes de Natal.

— Imagina se a gente dá de cara com eles?

Ian balançou a cabeça.

— Impossível. Programei nossa viagem para não encontrarmos com a excursão. Além disso, não sei se essa é nossa maior preocupação agora.

Ele apontou para o céu. Seu rosto ainda estava pálido.

De repente, um o de água gelada escorreu pelas minhas costas e eu dei um pulo.

— Que gelo! — exclamei, enquanto a água pingava pela minha janela. Pelo lado de dentro da minha janela. — Rowan! O carro está vazando.

Ele se virou no momento em que a goteira se transformou em um jorro.

— Não! Max jurou que o novo teto estava bom.

— Novo teto? Quem é Max? — perguntei, como se os detalhes pudessem remediar a chuva no banco de trás.

— O cara que me ajudou a consertar...

— A minha janela também! — interrompeu Ian com um grito, o tom idêntico ao meu.

Ele agarrou a manivela, tentando desesperadamente fechar a janela já fechada.

— Ian, isso não vai ajudar em nada! — repreendi.

Rowan ligou o carro e voltou para a estrada, mas Trevo desistiu de vez de tentar ser à prova d’água. A chuva entrava por todas as frestas possíveis. Nós disparamos por uma pequena ponte, a água jorrando a toda velocidade, até chegarmos a um minúsculo posto de gasolina com apenas duas bombas.

Ian baixou o vidro, desesperado, e en ou a cabeça para fora, ofegante como um peixe fora d’água. Eu estava encharcada. A água empoçava o assento sob meu short e meu cabelo estava grudado na cabeça.

— Isso aconteceu mesmo? — perguntou Rowan, desabando no assento.

— Addie, como a gente conserta isso? — perguntou Ian.

Mecânica Addie ao resgate. Eu estendi a mão para cutucar o teto, e mais gotas de água caíram.

— Precisa car bonito? — perguntei.

Rowan batucou no painel.

— Por acaso parece que nos importamos com beleza?

— Verdade — respondi. — Precisamos de ta isolante. Uma bem grossa e forte.

Rowan assentiu com animação.

— Fita isolante. Entendido. Vou ver se tem ali na loja.

Ele pegou um gorro do porta-copos e o en ou na cabeça enquanto corria pelo posto.

— Acabamos de quase morrer afogados em um Volkswagen — comentou Ian, tamborilando no painel. — Imagina só o obituário? Carro assassino prende trio de...

— Ian. — Estendi a mão e parei seus dedos inquietos. Eu tinha uma teoria de que Ian havia sido um beija- or na vida passada. Ou um grão de café atlético. — O que está havendo entre Rowan e a mãe dele?

Ele olhou para trás, as sobrancelhas erguidas.

— Do que você está falando?

— Ouvi o Rowan no telefone em Limerick. Ele comentou alguma coisa sobre ter que tomar uma decisão antes do nal do verão.

— Sério? — Ian en ou uma mecha de cabelo na boca e começou a mastigar, pensativo. — Eu não sei muito sobre a família dele. Nem sabia que os pais eram divorciados até ele contar em Burren.

— Você está falando sério?

Isso era típico do meu irmão. De todos eles, na verdade. Eu queria saber tudo sobre meus amigos — até o nome do primeiro animal de estimação que tiveram e quais seus sabores favoritos de pizza. Segundo Lina, nossa primeira festa do pijama mais parecera um interrogatório policial. Já meus irmãos pareciam precisar de poucas coisas em comum para formar vínculos. Você gosta de futebol americano e tacos? Eu também.

Ian arrastou o dedo atrás de uma gota de chuva no para-brisa.

— Rowan e eu não falamos muito sobre esses assuntos.

Revirei os olhos.

— Porque estão muito ocupados falando sobre Titletrack?

— Não. — Ele suspirou. — Quer dizer, é claro que falamos sobre música, mas na maioria das vezes os assuntos são mais profundos, tipo com o que a gente se importa e o que está nos incomodando. Essas coisas.

Não consegui evitar um sorriso.

— Então você está dizendo que você e Rowan falam sobre sentimentos?

Certa vez Archie havia me perguntado sobre o que Lina e eu tanto conversávamos para carmos horas ao telefone, e eu respondi: “Sobre como estamos nos sentindo.” Desde então, toda vez que ela ligava, meus irmãos debochavam mim. Como a Lina está? Como andam os sentimentos dela?

— É, acho que sim — admitiu Ian.

Ele me lançou um olhar que reconheci na hora. Os olhos estavam sinceros e vulneráveis. Era como cavam antes de ele revelar algo sobre si mesmo.

— Você já desejou que alguém a visse por baixo de todas as outras camadas? Que não ligasse se você é boa em esportes, na escola ou se é popular ou sei lá o quê, e apenas enxergasse quem você realmente é?

Tive vontade de agarrá-lo pelos ombros e gritar: Você está de sacanagem com a minha cara? É claro que me sentia assim. Era o sentimento que de nia a minha vida.

Ian se sentia assim? Isso era novidade para mim.

— Como se eu pudesse ser apenas Addie em vez de a irmãzinha mais nova de Archie, Walter ou Ian?

— Isso mesmo.

De repente, percebi uma coisa. Ian estava falando comigo como nos velhos tempos, como se Cubby não estivesse espreitando sob seu olho roxo. Escolhi minhas palavras com cuidado, sem querer estragar aquele momento.

— Mas os rótulos fazem parte de ser humano, não? Nós gostamos de categorizar as pessoas, então todo mundo recebe um rótulo, sejam certos ou equivocados.

Eu nunca havia pensado no assunto dessa maneira antes, mas era verdade. Nós rotulávamos até a nós mesmos: Ruim em matemática. Gosta de ertar. Sem noção.

— Eles nunca estão certos — rebateu Ian, com um quê de amargura na voz. — As pessoas não cabem em rótulos. E, depois que cataloga alguém, a gente para de tentar descobrir quem a pessoa é de verdade. Por isso gosto tanto de conversar com o Rowan. Somos amigos, mas completamente fora do contexto um do outro. Nunca achei que alguém que conheci pela internet pudesse se tornar um amigo tão próximo, mas eu precisava muito de um amigo e ele estava lá.

Fiquei esperando um sorriso na parte do eu precisava muito de um amigo, mas ele apenas baixou o olhar, balançando o joelho. Se Ian se sentia sem amigos, não havia esperança para o resto de nós. Não importava aonde a gente fosse, sempre havia alguém gritando seu nome e querendo falar sobre a temporada de futebol americano — crianças, adultos, todo mundo.

— Eu não sabia que você se sentia assim — falei, com cuidado. — Você poderia ter me contado.

Ele balançou o cabelo para a frente e para trás.

— Você estava ocupada com a Lina, o futebol e...

Com o Cubby. Ele não precisava terminar a frase. Ambos desviamos o olhar.

— Rowan me contou sobre o guia, aliás.

— E? — perguntei, tomando cuidado para manter minha voz neutra.

— E eu me importo com ele e também com você, então se acham que vai ajudar, tudo bem, concordo com o plano. — Ele se virou para trás, encarando-me com uma expressão séria. — Mas você sabe que seguir os pontos turísticos de um guia não é o mesmo que lidar com o que aconteceu, né? Não vai fazer a situação sumir.

Minha raiva se reavivou, quente, borbulhante.

— E contar para a nossa mãe vai, por acaso? Envolver nossos pais só vai piorar tudo.

— Isso é inevitável — respondeu Ian, com seu tom de irmão mais velho. — Addie, em algum momento você vai precisar lidar com o que aconteceu. Não prefere que seja nos seus próprios termos? Admita. Você está totalmente perdida.

Sim, eu estava mais perdida do que azeitona em pão doce. Mas não ia admitir.

— Eu falei quando a gente estava nas Falésias de Moher que não quero mais tocar nesse assunto — retruquei.

— Mas eu quero. Pelo menos até você fazer a coisa certa — insistiu ele.

A coisa certa. A coisa certa teria sido ouvir o aviso de Ian, con ar no meu instinto e largar Cubby no instante em que as coisas começaram a

car esquisitas. Mas eu não tinha feito isso, não é? E era tarde demais.

— Ian, por favor, para! — gritei.

— Tudo bem.

Ele suspirou, recostando-se no banco, mal-humorado. Por que ele tinha que estragar o momento? Por um segundo, as coisas pareceram quase normais entre a gente.

* * *

Eu não precisava ler as placas para saber que havíamos chegado a Dingle, porque a descrição do guia era perfeita. Parecia Alice no País das Maravilhas, só que na Irlanda — uma junção de charme com um colorido mágico. Lojas com nomes como Chapeleiros Malucos e Lojinha de Queijo ladeavam a estrada nos mais variados tons neon: tangerina, rosa algodão-doce, turquesa e verde-limão. Rowan seguia pelas ruas de pedra com todo o cuidado, falando pelos cotovelos.

— Dingle é muito popular entre os adolescentes irlandeses. Todo verão eles viajam para cá para aprender a língua gaélica e danças típicas. Como a península cou isolada do resto do mundo por um tempo, muitas pessoas aqui ainda falam irlandês.

O falatório tinha começado assim que Rowan saíra da lojinha do posto de gasolina trazendo a ta isolante e percebera a tensão entre mim e Ian. Era óbvio que ele tentava enterrar o con ito debaixo de uma montanha de palavras — mesmo que tivéssemos tentado interromper, não teríamos conseguido.

— Legal — disse Ian, quebrando um raro segundo de silêncio.

A última briga havia esgotado nossa energia. Meu irmão estava sentado todo encolhido, a cara en ada no celular, e eu estava apoiada na janela, minha raiva se transformando em tristeza.

— Hã... Vocês têm certeza de que estão bem? — perguntou Rowan para o carro silencioso.

— Está tudo ótimo. — Minha voz saiu mais ríspida do que eu pretendia, e sua expressão desanimou. Ian me lançou um olhar irritado. Pobre Rowan. Onde ele tinha se metido? Eu me endireitei, engolindo a irritação. — Foi mal, Rowan. Obrigada por contar mais sobre a história da cidade. Então, onde ca a próxima parada do Titletrack? — Eu dei uma olhada no mapa de Ian. — Slea Head?

— Ah, essa é bem legal — comentou Rowan, ajeitando os óculos com as duas mãos. — No início da carreira, o Titletrack estava em uma pequena gravadora chamada Slea Head Records. Ela não existe mais, mas o lugar que inspirou o nome, sim. Por coincidência, é um dos meus lugares favoritos na Irlanda.

— Por causa do acampamento, certo? — falei, para mostrar que estivera ouvindo seu monólogo.

— Isso.

Ele abriu um sorriso enorme.

Atravessamos a cidade até chegar a uma estrada com muito vento, que se estreitou até carmos espremidos entre uma colina e um penhasco. Havia uma névoa espessa adiante, e o oceano quase desaparecia a distância. Continuamos avançando pela península e, justo quando achei que íamos cair direto no mar, Rowan saiu da estrada e parou na base de uma subida íngreme, onde uma trilha estreita serpenteava até o topo.

— É aqui? — perguntei.

— É — con rmou Ian, o joelho sacudindo ainda mais do que o normal.

— Vento. Demais — grunhiu Rowan, com di culdade para abrir a porta. Por m, ele conseguiu e espirrou água da chuva em todos nós.

— Por favor, me diga que não vamos lá pra fora — implorei, mas Ian já estava se arrastando para o outro banco, seguindo Rowan, então fui trás dos dois na mesma hora. Não era como se dentro do carro estivesse muito mais seco.

Lá fora estava úmido e gelado, e a vista era ainda mais impressionante. A água era de um azul-turquesa intenso e brilhante, e uma densa cobertura de nuvens repousava sobre as colinas. Todas as cores pareciam saturadas, principalmente o verde. Antes da Irlanda, eu achava que sabia o que era verde. Mas não sabia. Não de verdade.

— Por aqui — instruiu Rowan, apontando para a trilha estreita e incrivelmente escorregadia.

Era íngreme e desaparecia no meio da névoa. Ian começou a subir sem hesitação, com Rowan seguindo logo atrás.

Era como escalar vidro. Meus tênis All Star, normalmente meu calçado da sorte, eram inúteis naquela situação, e acabei subindo de quatro, cravando meus dedos na lama e ngindo não reparar nas lesmas aninhadas na grama.

Lá no topo, Rowan esperava para me ajudar, e cheguei, cambaleando, na clareira coberta de grama. Ali perto, uma rocha preta lisa saía da água a um ângulo de quarenta e cinco graus, e o mar revolto se estendia à nossa frente.

— As pessoas gostam de vir surfar aqui! — gritou Rowan para nós, mais alto que o vento.

Olhei para baixo, incrédula, observando a água arremeter contra o penhasco. Ele deu de ombros.

— As aventureiras.

— Ainda bem que a tia Mel não conhecia Slea Head ou teria feito o casamento aqui — falei para Ian, mas meu irmão estava debruçado no caderno de novo, rabiscando furiosamente apesar de toda a chuva.

Aproximei-me da beirada, o vento me atingindo como um desa o.

— Cuidado — alertou Rowan.

Abri os braços, sentindo o vento lutar contra mim e me apoiar ao mesmo tempo. Rowan sorriu e imitou minha pose, e nós dois camos parados como duas letras T, os respingos nos atingindo com força total.

As pontas dos nossos dedos se tocaram. A chuva se acumulava nas lentes dos óculos dele.

— Eu sinto que deveríamos gritar.

— Gritar o quê?

— Qualquer coisa. — Ele respirou fundo e, em seguida, soltou um berro: — Arruuuuu!

— Arruuuu! — repeti.

Minha voz foi projetada até a água, misturando-se à de Rowan. O grito fez com que eu me sentisse viva. E corajosa. Queria me sentir assim o tempo todo.

— O que vocês estão fazendo?

Ian parou de escrever e se aproximou de mim, o vento chicoteando seu cabelo.

— Gritando!

Rowan apontou com o queixo para a névoa espessa.

— Sabe o que ca ali?

— O Monstro do Lago Ness? — chutou Ian.

— Os Estados Unidos — respondeu Rowan. — Estamos no extremo oeste da Irlanda. É o mais perto que se pode chegar dos Estados Unidos sem sair da Irlanda.

Olhei para o horizonte. Os Estados Unidos. Não era surpresa me sentir tão bem ali. Havia um oceano inteiro entre mim e meus problemas.

Ian encostou o ombro no meu — se era ou não intencional, eu não sabia —, e por um segundo nós três camos lá parados, o vento nos empurrando com força enquanto resistíamos. Juntos. Por um segundo, imaginei como seria se aquilo fosse a vida real. Eu e Ian enfrentando as pressões lá de casa.

Eu queria que aquilo fosse a vida real, não uma forma de escapar dela.

O verão tinha sido cheio de escapadas, principalmente à noite.

 

Já passava das onze quando me esgueirei pela porta dos fundos, avançando pé ante pé pelo quintal e correndo pela calçada até o carro de Cubby. Seu rosto estava iluminado pelo brilho azul da tela do celular, e a música no rádio tocava baixinho. Sentei no banco do carona, batendo a porta às pressas.

— O que seu irmão diria se descobrisse que você está saindo comigo?

A voz de Cubby era arrastada e descontraída como sempre, mas no fundo havia um leve tom de nervosismo.

— Ian? Boa pergunta. Você vai contar pra ele? — perguntei, apontando meu dedo para o peito de Cubby.

— Eu não — respondeu, sorrindo.

Ian não sabia que eu tinha saído de casa. Também não sabia do passeio pós-treino com Cubby nem como, dentro do carro, a mão dele tinha repousado no meu joelho de modo natural, como se sempre tivesse estado ali. E eu não a afastei. Eu a queria exatamente onde estava.

Havia vários motivos para eu não contar nada a Ian, mas o principal era: nos últimos anos, a voz de meu irmão mudava sutilmente sempre que ele tocava no nome de Cubby. Como se tivesse acabado de dar uma mordida em um chocolate amargo. E aquela noite não era sobre a aprovação ou desaprovação de Ian. Era sobre mim.

Sobre mim e Cubby.

 

— Vocês têm certeza de que querem car aqui? — perguntou Ian, cético.

Estávamos estacionados em frente a um prédio todo descascado, cor de tijolo, que mais parecia uma prisão do que um albergue. Havia correntes evolvendo a mobília de ferro na varanda, e as janelas eram gradeadas.

— Estão tentando manter as pessoas do lado de fora ou de dentro?

— Eu gostei — comentei. — Achei bem... acolhedor. Autêntico.

Rowan e eu nos entreolhamos. Tinha dado certo trabalho convencer Ian a passar a noite em Dingle. Ele queria seguir viagem, mas a próxima parada do guia era em um lugar chamado Inch Beach, e o tempo não estava bom para ir à praia. Também havia a questão da hipotermia, que com o passar das horas se tornava um risco cada vez maior.

Mas havia outro problema: era alta temporada em Dingle. O que signi cava que era quase impossível achar uma vaga — exceto no Hostel No Fim Do Arco-Íris, cujo site muito alegre e cheio de animações anunciava !!!! Agora, depois de ver o

albergue e todo o seu charme, eu entendia por quê.

— Além do arco-íris — brincou Rowan. — Isso é tão irlandês.

Ele tirou a chave da ignição.

— Vamos lá — falei. — Qualquer coisa é melhor do que dirigir naquela tempestade.

— E você pode começar a trabalhar no seu artigo — acrescentou Rowan. — Já deve ter bastante material depois de visitar Burren e Slea Head.

— É verdade — admitiu Ian. — Seria bom já ir adiantando tudo. Assim, não ca trabalho demais no nal. E preciso atualizar meu blog.

— Perfeito! Então vamos! — exclamei.

Eu tinha passado metade do dia dentro de Trevo e cada pedacinho do meu corpo doía. Estava doida para sair daquele banco de trás.

Para um lugar chamado No Fim Do Arco-Íris, o interior era surpreendentemente desprovido de cor. Tudo era marrom. Piso marrom, carpete marrom, linóleo marrom e uma luminária de latão com duas das cinco lâmpadas faltando. Até o cheiro era marrom: uma mistura de torrada queimada e carne assada.

Fui até uma mesa bamba de madeira. Estava atulhada de papéis, com uma xícara de café repousando sobre um chário encardido com três argolas.

— Olá? — chamei.

O marrom engoliu minha voz.

— Parece não ter ninguém. Talvez a gente devesse tentar outro lugar — sugeriu Ian.

— Não tem outro lugar. Acredite, nós tentamos. — Contornei a mesa e segui por um corredor escuro. Por baixo da fresta de uma porta, vi a luz acesa. — Oi? — chamei, abrindo-a um pouco. — Tem alguém aí?

Um sujeito com cabelo cacheado, platinado e volumoso estava jogando videogame, os pés sujos apoiados na mesa à sua frente. Usava fones de ouvido bem grandes.

— Com licença? — Estendi a mão para tocar seu ombro de leve, mas um segundo antes de encostar nele, o sujeito se virou às pressas, caindo no chão com força. — Você está bem?

Eu me adiantei para ajudá-lo.

— Bem? Não muito.

Ele tirou os fones de ouvido. Devia ter uns vinte e poucos anos. De pele bronzeada, era esguio e musculoso como um alpinista. Seu sotaque não era irlandês. Talvez australiano? Britânico? Ele abriu um largo sorriso e seus dentes brancos contrastaram fortemente com o rosto bronzeado.

— Como você vai?

Como vou? Qual era a resposta correta? Bem? De carro, para o Electric Picnic?

Ele não esperou uma resposta.

— Sinto muito pelos colchões. Sei que são uma porcaria. Mas é por isso que nosso preço é tão acessível, a nal. E, vamos ser sinceros, vocês não vieram até a Ilha Esmeralda para dormir, não é? Vocês estão aqui para explorar.

Ergui as sobrancelhas, completamente aturdida.

— Acho que você está me confundindo com outra pessoa...

Provavelmente, alguém com quem ele tinha falado antes. O garoto arregalou os olhos.

— Ai, caramba. Você não está no grupo dos alemães? Esqueça o que eu disse sobre os colchões. Dormir No Fim Do Arco-Íris é como dormir nas nuvens. — A última parte foi cantarolada.

— Disfarçou bem, hein? Vem cá, você tem espaço para três pessoas?

Ele pôs a mão no meu ombro.

— Você não viu a placa? Sempre temos camas disponíveis. Já falei sobre os colchões, mas me deixe contar sobre os pontos positivos do nosso humilde estabelecimento. As noites são muito animadas por aqui. Sempre tem festa ali na frente, muita gente, bebida, tudo que você poderia querer. — Ele piscou, e não consegui saber se estava falando sério ou não. — Eu me chamo Bradley, aliás. Bem-vinda ao No Fim Do Arco-Íris, o albergue da juventude mais ocidental da Europa.

— Eu sou Addie. — Apertei sua mão. — Você por acaso escreveu o conteúdo do site?

Ele assentiu, muito animado.

— Fui eu mesmo! Fiz aquilo em quarenta e oito horas. É um lixo, mas faz boa parte do meu trabalho por mim, o que signi ca que posso passar minhas tardes surfando.

— Você surfa em Slea Head?

— Nem eu sou tão doido assim. — Ele cruzou os braços e me lançou um olhar curioso. — Por que você está com cara de quem veio nadando? Por acaso estava a pé na tempestade?

— De carro. Mas ele não é à prova d’água.

— Ah — disse Bradley, como se entendesse muito bem. — Eu só deveria deixar os novos hóspedes entrarem à noite, mas parece ser uma emergência. Acho que você está precisando de um bom banho quente.

— Estou mesmo — respondi, agradecida.

Ele pegou o chário branco manchado de cima da mesa e começou a folhear páginas repletas de nomes e números de telefone. O livro de hóspedes do albergue, supus.

— De onde você é?

— Seattle. Bem, é de onde eu e meu irmão somos. O outro cara que está com a gente é de Dublin.

Ouvi um rangido alto atrás de mim, e Rowan e Ian en aram a cabeça porta adentro. Bradley se lançou na direção deles na mesma hora.

— Você deve ser o Irmão. E você o Outro Cara. Eu me chamo Bradley. — Ele apertou a mão deles com entusiasmo. — Mas por que vocês dois não estão tão ensopados quanto ela? Achei que o carro não fosse à prova d’água.

Rowan fez uma careta.

— O banco de trás vaza mais.

— E é lá que eu co — completei.

— Quanto cavalheirismo — disse Bradley com reprovação, olhando de um para outro.

Ian puxou os os do casaco, as bochechas corando de leve.

— Não era para ela ter vindo... não estávamos preparados!

— Aham, tá bom. — Bradley dispensou as desculpas com um gesto. — Agora venham assinar o livro enquanto sua irmãzinha toma um banho. — Ele se virou para mim. — O banheiro ca logo depois dos quartos. As toalhas cam no armário ao lado.

Eu tinha disparado pelo corredor antes mesmo que ele terminasse a frase.

* * *

Apesar da limpeza questionável do banheiro, aquele foi o melhor banho que tomei na vida. Troquei de roupa e voltei para o saguão enquanto penteava o cabelo. Bradley estava folheando um exemplar da Enciclopédia do surfe. Quando me viu, ele bateu palmas devagar.

— Que diferença, meus parabéns. Você está bem menos parecida com um rato molhado.

— Muito obrigada — falei, contendo um sorriso. — Eu não sabia que parecia um rato molhado antes, mas é um elogio incrível. Você sabe onde os meninos estão?

Ele indicou o refeitório.

— O Agitadinho está lá, tentando ver se consegue um sinal de Wi-Fi melhor. Boa sorte para ele. O Tristonho está no quarto dos beliches.

Tristonho?

— O Tristonho está aqui — interrompeu Rowan, entrando.

Ai.

— Foi mal, cara. Eu quis dizer... — começou Bradley.

Rowan o ignorou.

— Addie, você está pronta para ir à Inch Beach? Parece que o tempo abriu de novo.

— Já? — Eu me virei para olhar pela janela. Um pedaço de céu azul radiante surgia entre as nuvens cinzentas. — Nossa, foi rápido.

Bradley deixou o livro de lado.

— O tempo vira de repente por aqui. — Ele se endireitou, voltando à entonação de vendedor. — E será que vocês não se interessariam em alugar bicicletas pela bagatela de três euros cada? Como cortesia, podem levar também o melhor guia turístico gratuito que Dingle tem a oferecer. — Ele abriu os braços. — Eu.

Esticar as pernas em uma bicicleta soava maravilhoso.

— É uma ótima ideia! Rowan?

Ele hesitou, evitando me encarar.

— Bicicletas seriam uma boa. Não estou com a menor vontade de voltar para aquele carro molhado. Mas... Passei algum tempo aqui na península, então acho que não precisamos de um guia de turismo.

Ele não queria uma plateia para o dever de casa. Estava mesmo levando o guia a sério.

— Ahhh — fez Bradley, olhando de mim para Rowan.

— Estamos fazendo as atividades de um guia — expliquei, minhas bochechas corando embora eu não tivesse nada a esconder.

— Ah, é assim que os jovens chamam agora, é? — Bradley deu uma piscadela. — Não se preocupem. Sei quando não querem minha presença. As bicicletas estão lá atrás no galpão. É por conta da casa. Só não contem ao meu tio Ray. E vocês vêm para a festa hoje à noite, certo? O pessoal começa a se reunir na varanda por volta das nove.

Festa? Eu tinha esquecido da festa.

— Talvez — respondeu Rowan por nós dois.

— Nós vamos, sim — respondi.

Bradley deu uma piscadela e saiu pelo corredor.

Rowan suspirou.

— Esse cara é intenso demais.

— Eu gostei dele.

Analisei a nova camiseta de Rowan. Essa tinha um gato segurando uma fatia de pizza em uma das patas e um taco na outra. O fundo era uma galáxia roxa e escura.

— Acho que gosto mais dessa do que a do gato hipnotizado — comentei.

— Obrigado. — Ele ergueu o livro familiar manchado de café. — Pronta para uma aventura?

— Está perguntando se estou pronta para voltar para o frio? — Gesticulei em direção à porta. — Por que não?

* * *

Dingle pós-tempestade tinha uma aparência completamente diferente. As nuvens pesadas haviam dado lugar a uma névoa suave, e a água ao redor das colinas estava plácida. Passamos por uma marina cheia de barcos coloridos e placas sobre um herói local, um gol nho chamado Fungie, que, segundo Rowan, visitava turistas havia décadas.

— Chegamos! — exclamou Rowan.

Descemos a estrada principal, as bicicletas ganhando velocidade enquanto seguíamos para uma pequena enseada.

— Uau.

— Concordo — disse Rowan.

A areia de Inch Beach era de um cinza profundo, e o sol a iluminava com um toque de purpurina. A maré estava baixa e o mar prateado ondulava preguiçosamente. Na água, a luz solar se fragmentava como um caleidoscópio. Meus ombros relaxaram e meus pulmões se encheram de ar fresco. Respirei fundo pela primeira vez em dias.

Próximo à areia havia uma pequena construção verde-jujuba com

escrito na lateral. Ao lado, havia um poema:

Cara Inch, devo deixá-la

Ainda tenho promessas a cumprir

E muito chão a percorrer

Antes de dormir

Os versos me zeram lembrar de um trabalho que eu tinha escrito para a aula de literatura no ano anterior sobre as semelhanças entre “À beira da mata numa noite de neve”, de Robert Frost, e “Vem o pássaro no passeio”, de Emily Dickinson. Eu amava Emily Dickinson. Ela se atrapalhava com letras maiúsculas e pontuação, mas isso não importava porque ainda assim dava para entender exatamente o que ela queria dizer.

Estávamos indo em direção à praia quando duas crianças descabeladas saíram da loja segurando sorvetes e correndo uma atrás da outra, brincando de pique-pega. A mãe delas brincava junto, e levantou a menina no ar quando a alcançou.

— Ela lembra a minha mãe.

Indiquei a mulher com a cabeça. A menina agora estava acomodada nos ombros da mãe, e o menino corria em círculos em volta das duas.

Rowan cobriu as orelhas com o gorro.

— Como assim?

— O jeito que ela está correndo com os lhos. Minha mãe brincava bastante com a gente. Mesmo que com isso as outras coisas cassem por fazer.

Ela nunca tinha sido aquela mãe perfeitinha, com chão da cozinha imaculado ou superenvolvida nas atividades escolares. Mas era ótima em construir cabanas de lençóis e, quando lia para a gente, fazia vozes diferentes para todos os personagens. Além disso, estava sempre presente. Quando ela voltou a trabalhar, eu tinha cado mais abalada do que imaginava.

— Ela parece ótima — disse Rowan, en ando as mãos nos bolsos. — Uma vez, eu estava conversando com Ian e sua mãe entrou no quarto para falar com ele sobre a escola. Deu para ver que ela se importa.

— É verdade.

Então por que você não contou a ela sobre Cubby?, perguntou uma vozinha dentro da minha cabeça. Eu ignorei.

— Então, como é a sua família? — perguntei, cautelosa. Eu teria que ser surda para não ter ouvido a ponta de inveja na voz dele.

— Ah... — disse ele, infeliz. — Somos só nós três, minha mãe, meu pai e eu, e é um desastre, para ser sincero. Às vezes eu queria que a família fosse maior só para dividir a infelicidade.

Na minha experiência, não era assim que a infelicidade funcionava. Nem a felicidade, aliás. Ambas tendiam a se expandir até que todos tivessem uma boa porção.

En ei o dedão do pé na areia.

— Aposto que há muitas vantagens em ser lho único.

As palavras soaram falsas assim que saíram da minha boca. Não que ser lho único não pudesse ser ótimo. Eu tinha certeza de que tinha vantagens e desvantagens, assim como qualquer estrutura familiar, mas nem conseguia imaginar como seria a minha vida sem meus irmãos. Principalmente o Ian.

— É, acho que sim — disse Rowan, sem parecer nem um pouco convencido. Ele se endireitou, olhando para o horizonte. — Está pronta?

O vento ouviu a pergunta, voou por cima da água e soprou um ar frio na gente. Eu já havia perdido as esperanças de não virar um picolé durante a viagem.

— Estou às ordens da Autora do Guia.

Caminhamos em direção à água, os dedos do pé afundando na areia fria. Quando uma onda gelada atingiu nossos tornozelos, nos entreolhamos com uma expressão chocada. “Gelada” não chegava nem perto de descrever a temperatura. Eu precisava de uma palavra mais dramática, talvez “ártica” ou “glacial”. Quem sabe “ártico-glacial”?

— A gente consegue — encorajou Rowan, estendendo a mão para mim.

Antes que pudesse pensar demais, agarrei sua mão quente e reconfortante com força e avançamos para dentro da água.

— Então, de volta às instruções do guia. Qual é a sua coisa? Sabe, a que você achou que não superaria, mas superou? — perguntou Rowan.

— Perder a mãe de Lina para o câncer.

Fiquei surpresa com a facilidade com que disse as palavras, sem ltro. Geralmente, eu só falava sobre essa experiência com Lina. Até havia tentado me abrir com outras pessoas algumas vezes, mas logo descobri que a maioria delas não quer saber de verdade sobre as coisas difíceis pelas quais você passou. Só querem dar a impressão de que se importam e depois mudar de assunto o mais rápido possível. Rowan era diferente.

Ele me observou, os olhos tristes.

— Eu não sabia que a mãe dela tinha morrido. Por quanto tempo ela

cou doente?

— Só alguns meses. Foi tão desorientador. Parece que um dia ela estava explorando a cidade com a gente atrás do melhor taco de peixe, e no dia seguinte...

Não terminei a frase. A água estava fazendo meus pés formigarem. Sempre que pensava naqueles meses após o diagnóstico de Hadley, eu me lembrava dos sons. As máquinas do hospital apitando. O barulho do respirador. O silêncio do apartamento onde Lina morava nas tardes em que eu levava seu dever de casa. Eu deveria agir como intermediária, levando o dever de casa do dia e trazendo de volta os antigos, mas todos os professores já sabiam da situação, então não se importavam que eu quase não levasse nada de volta.

A água já estava acima dos joelhos.

— Eu não sei se Ian contou, mas Lina cou um tempo lá em casa depois do funeral. Ela estava muito abalada. Até parou de comer, o que foi muito grave, porque ela ama comida mais do que qualquer pessoa que eu conheço. Acabei cando obcecada por programas de culinária, porque a única maneira de fazê-la se alimentar era cozinhar os pratos que eu sabia que ela não conseguiria resistir.

— Você sabe cozinhar? — perguntou Rowan, interessado. — O que você preparou para ela?

Uma onda alta bateu em nossos joelhos, espirrando água salgada no meu rosto. Eu sequei os olhos na camisa. Precisei reunir todo o meu autocontrole para não dar meia-volta e sair da água.

— Cupcakes de três chocolates. Aspargos enrolados no bacon. Panquecas de mirtilo com chantilly. Macarrão com queijo gourmet. Esse deve ter sido o meu melhor prato. Tinha quatro tipos de queijo, além de bacon e azeite trufado.

Rowan gemeu.

— Não como nada além de cereal desde que saí de Dublin ontem.

— Eu achei que você amava cereal.

— E amo — disse, em tom decidido. — Só que amo bacon e azeite trufado ainda mais. — Ele olhou para a água, então apertou minha mão. — E aí? Será que já fomos longe o su ciente?

Por um segundo eu não soube do que ele estava falando, mas então percebi que a água estava na metade da minha coxa, as ondas roçando a barra do short.

— Você consegue sentir suas pernas? — perguntei.

Ele fez uma careta.

— Que pernas?

— Isso é pior que o banco de trás de Trevo.

Nós soltamos as mãos, e passei os dedos pela superfície da água gelada. Era a vez de Rowan.

— E você? Qual foi a coisa mais difícil que você superou?

— Este ano.

Ele respondeu sem hesitação. E sem fazer contato visual. O que para a maioria das pessoas signi caria uma porta fechada. No entanto, eu, sendo eu, tive que pelo menos tentar girar a maçaneta.

— Este ano, por causa do término?

Ele suspirou, então mexeu o ombro como se estivesse tentando expulsar a tensão do corpo.

— Não é muito deprimente? Eu sei que você tem seus próprios problemas, não quero encher seu saco com os meus também.

— Não está enchendo meu saco — respondi, e era verdade. Eu gostava que ele sentisse que podia falar comigo. Éramos a rede de apoio um do outro. — E qual era o nome da sua namorada, aliás? Ou namorado? Desculpe...

Eu não deveria supor.

— Na verdade, era um peixinho dourado — respondeu em tom sério. — Passamos um ano juntos, mas ela esquecia quem eu era a cada poucas horas, e tínhamos que recomeçar do zero.

— Ah... — respondi, adotando o mesmo tom sério. — Parece um grande desa o.

E como era o nome do peixinho dourado?

Ele hesitou por um segundo e o sorriso desapareceu.

— São os meus pais. Eles estão se divorciando.

— Ah.

Eu não sabia o que dizer. Sua resposta não era o que eu esperava, mas não deveria ter me surpreendido tanto. Corações se partiam pelos mais variados motivos.

— Eu lamento muito.

— Eu também. — Rowan abriu um sorriso triste. — Se conseguissem superar seus problemas, acho que seriam um ótimo casal, mas...

Ele parou, tremendo de súbito. Foi quando reparei no frio. Ele abriu um sorriso torto, evitando me olhar nos olhos.

— Acho que estou prestes a sucumbir à hipotermia.

— Isso signi ca que temos que aguentar mais um segundo.

Você está sobrevivendo a este momento de desconforto? Houve outros momentos sofridos ou desconfortáveis que você achou que não superaria e mesmo assim superou?

— Agora! — gritei, virando em direção à praia.

Nós começamos a correr. Minhas pernas estavam tão congeladas que eu mal conseguia senti-las agitando a água, mas a mão quente de Rowan encontrou a minha de novo e, de repente, senti a mesma sensação de leveza que experimentei em Burren.

Talvez a Autora do Guia soubesse mesmo do que estava falando.

* * *

Bradley não tinha exagerado sobre a vida noturna do hostel. A música ecoava de uma pequena caixa de som, e todas as luzes estavam acesas. Havia mais gente abarrotando a varanda e os degraus do que eu tinha visto na península inteira. Alguém tinha acendido uma fogueira improvisada em uma lata de lixo e as chamas lambiam as bordas do metal.

— A infame vida noturna de No Fim Do Arco-Íris — disse Rowan.

O caminho de volta ao hostel tinha levado o dobro do tempo, pois tivemos que pedalar ladeira acima, e minhas pernas trêmulas eram um indício claro dos músculos doloridos que viriam no dia seguinte.

— Está vendo o Ian? — perguntou ele.

— Não, mas lá está nosso an trião.

Bradley presidia a festa sentado em uma cadeira de jardim anêmica, e usava uma camisa de botão aberta por cima de uma camiseta engraçada com Jesus em cima de uma prancha de surfe. Ele me viu e acenou, gesticulando animadamente para o lugar ao seu lado.

O lugar de honra. Parte de mim queria aproveitar a calma que eu havia trazido de Inch Beach e ir direto para a cama, mas Bradley continuou acenando para mim, muito animado.

— Vou guardar as bicicletas — sugeriu Rowan, agarrando o meu guidão. — Melhor você ir. Não queremos que o rei que esperando.

Comecei a caminhar até Bradley, mas Ian apareceu ao meu lado de repente, agarrando meu braço. Ele estava com dois casacos de capuz e seu cabelo parecia mais despenteado do que o habitual.

— Onde você estava? — perguntou ele com urgência.

Eu me desvencilhei.

— Inch Beach. Rowan não avisou?

— Não achei que seria o dia inteiro.

— O dia inteiro? Só passamos algumas horas lá.

De repente, percebi que Ian estava se balançando para a frente e para trás, dos calcanhares até a ponta dos pés, o que signi cava que tinha algo para contar.

Gelei. Torci para que não fosse outra mensagem. Por favor, que não fosse outra mensagem de alguém da escola.

— Ian, o que foi? O que houve?

Ele comprimiu os lábios.

— A mamãe ligou.

— E? — Senti uma onda de alívio. Não era o m do mundo. Podíamos lidar com isso. — O que ela disse?

— Ela queria falar com Howard.

Ops. Eu nem tinha cogitado isso.

— Certo, entendi. A gente deveria bolar um plano para a próxima vez que ela ligar.

Ele balançou nos calcanhares de novo, nalmente contando o resto.

— Fiquei nervoso e z Bradley se passar pelo Howard.

— O quê?! — gritei tão alto que um grupo de garotas de cabelos compridos perto da fogueira olhou para a gente. — Você pediu que Bradley ngisse ser Howard? Por favor, me diga que está brincando.

Ele agarrou o cabelo, torcendo as mechas já embaraçadas.

— Na verdade, até que não foi tão ruim. O sotaque americano foi bem mais ou menos, mas acho que ela caiu.

— Não — sussurrei. Aquilo era um desastre. Menos de um dia de viagem e Ian já estava pondo tudo a perder. Nunca íamos nos safar. — Ian, que ideia foi essa? Você deveria ter esperado para falar comigo.

Ele ergueu os braços em um gesto defensivo.

— Ela não parava de ligar. Você sabe como ela é persistente... Acho que a tal Catarina fez uma lavagem cerebral nela. Tive que improvisar. E, além disso, você disse que ia dar uma volta, não que ia car fora a noite toda.

O tom de acusação em sua voz era muito familiar. Você sabe o que Cubby anda fazendo?

— Não é culpa minha, Ian — retruquei. — Foi você quem decidiu

car na Irlanda, não eu.

Saí de perto dele, seguindo para os degraus da varanda.

— Addie! — chamou Bradley. — Você cou sabendo que falei com sua mãe?

— Desculpe, Bradley, agora não é um bom momento.

Entrei no prédio, irritada, fui direto para o quarto dos beliches e desabei na minha cama. Estava completamente exausta. E morrendo de fome.

Mas, em vez de sair da cama e ir atrás de comida, tirei meu celular do bolso e z uma busca por Indie Ian. Queria ver com meus próprios olhos do que se tratava essa viagem, que talvez custasse o m de nossa carreira esportiva. Dois artigos apareceram: “É o m das bandas de garagem?” e “Fui ao shopping. Veja o que aconteceu”.

— Lá vamos nós — falei em voz alta.

Cliquei no primeiro artigo. Depois de duas frases, mergulhei de cabeça no mundo das bandas de garagem. O texto me surpreendeu. Era a voz de Ian, alta e clara, mas com um brilho extra, como se tivesse sido revestida de lustra-móveis e posta ao sol. Era bem escrito e inteligente, mas ao mesmo tempo acessível, cheio de personalidade e entusiasmo su ciente para fazer com que eu me importasse com o assunto.

Li o segundo logo em seguida: “Fui ao shopping. Veja o que aconteceu.” Esse era sobre uma visita ao shopping perto de nossa casa, durante a qual ele cou vagando e ouvindo a música tocada nas lojas. Quando ele fez isso? A única vez que o vi no shopping foi quando nossa mãe nos arrastou até lá no início do ano letivo.

Deixei o telefone cair na cama, meu peito pesado. Havia uma parte enorme de Ian que eu nunca soube que existia. Sobre a qual ele não me contou. Escolheu não me contar.

Você fez a mesma coisa, al netou meu cérebro silenciosa e dolorosamente.

 

Eu não havia contado a Ian sobre Cubby. Ele tinha descoberto tudo sozinho. E então me confrontou.

— Addie, ele não. Qualquer um menos ele.

A voz de Ian me deu um susto tão grande que quase caí da janela. Eram duas da manhã, poucos dias depois da nossa excursão até o troll, e ele estava sentado à minha mesa no escuro, os fones de ouvido ao redor do pescoço.

Eu me recuperei bem a tempo, entrando aos tropeços no quarto e me virando para fechar a janela. O carro de Cubby já tinha ido embora.

— De quem você está falando? — perguntei, tirando os sapatos e jogando-os no chão. Tinha passado a usar tênis de corrida à noite, pois tornava a escalada da volta mais fácil.

— Eu acabei de ver você sair do carro dele. — Ian se levantou, empurrando a cadeira de rodinhas para trás. — Addie, ele não — repetiu, o rosto suplicante.

Uma raiva começou a se espalhar bem devagar em meu íntimo, e quei surpresa com sua intensidade. Por que ele achava que podia me dizer quem eu deveria namorar?

— Ian, eu sei que Cubby está no seu time, mas você não pode me proibir de sair com ele.

Ele tirou os fones de ouvido do pescoço, apertando-os na mão.

— Addie, eu passo muito tempo com ele. Já ouvi o que ele fala sobre as garotas. Você não quer sair com alguém como ele. Acredite em mim.

Mas eu não queria acreditar nele. Então não acreditei.

 

Quase sempre posso contar com o sono para suavizar as minhas preocupações — como se fossem cacos de vidro rolando pelas ondas até se tornarem pedaços lisos e redondos de vidro do mar. Mas aquela noite parecia que era eu que estava rolando por cima deles.

O colchão era, como prometido, uma porcaria, e pouco depois de uma da manhã a festa inteira, incluindo Ian e Rowan, debandou para os beliches. Quando a manhã nalmente chegou, acordei com uma luz suave entrando pelas janelas gradeadas. Rolei para o lado. Uma orquestra de diferentes roncos e ritmos de respiração tocava no quarto. A maioria das camas ainda continha pessoas adormecidas. Mas não a de Ian.

Eu me sentei na mesma hora. As camas de Ian e Rowan estavam vazias, sem lençóis e travesseiros. Até as malas tinham sumido.

— Não pode ser — falei para o silêncio.

Eles tinham me deixado para trás. De novo. Até mesmo Rowan. Pulei para fora da cama, tropeçando em uma mochila do tamanho de uma criança que alguém tinha deixado encostada no meu beliche e batendo ruidosamente na lateral da cama de outra pessoa.

— Hã? — Ouvi uma voz assustada deitada mais acima.

— Desculpe.

Corri descalça pelo corredor em direção ao refeitório e dei um encontrão em Ian, que, claro, estava segurando uma caneca com alguma bebida quente.

— Addie! — gritou meu irmão, derramando um pouco do líquido. — Por que você está correndo?

O alívio foi tão intenso que quase desabei. Descansei as mãos nos joelhos, esperando meu coração desacelerar.

— Achei que você tinha me deixado para trás.

— Eu jamais faria isso. De onde tirou essa ideia?

Ele arregalou os olhos e bufou, achando bastante graça da própria piada.

Rindo. Ele estava rindo. Será que tinha se esquecido da briga da véspera? Ele pegou um punhado de guardanapos da mesa da cozinha e limpou os sapatos.

— Sim, muito engraçado. Engraçadíssimo.

Eu cutuquei seu ombro. O olho roxo parecia um pouco melhor. As extremidades já começavam a desbotar para um verde fosco.

— Estão rindo de quê? — perguntou Rowan, juntando-se a nós no corredor.

— De que agora tenho trauma de ser abandonada.

O cabelo de Rowan estava bem bagunçado. A camisa de gato do dia mostrava um felino de óculos redondos e uma cicatriz na testa com os dizeres .

— Isso não é novidade — interveio Ian. — Você cava assim toda vez que um de nós mudava de escola. Achei que você fosse ter um colapso quando passei para o ensino médio.

— Ian, cala a boca! — mandei, mas relaxei um pouco. Seu tom ainda era apenas de provocação. — Por que você está de tão bom humor, a nal?

Ele ergueu o celular.

— Faltam só dois seguidores para chegar aos dez mil. Todos adoraram as fotos de Slea Head e Burren.

— Que legal! — falei, sincera.

Queria dizer como tinha gostado dos artigos, mas talvez aquela não fosse a hora nem o lugar certo, os dois sujos de café No Fim Do Arco-Íris. Eu queria que fosse um momento especial.

Ele assentiu, feliz.

— Espero que com a próxima parada eu consiga chegar lá. Vá se vestir, vamos sair em cinco minutos.

— Que tal seis? — sugeri.

Rowan sorriu para mim.

— Cinco — repetiu Ian. — Não começa.