Amor & sorte
Burren
Ah, Burren. An Bhoireann. O lugar de pedra. Para muitos, a paisagem mais desolada, lúgubre e deprimente do planeta. Um dos seus primeiros admiradores disse: “Não há uma árvore na qual enforcar um indivíduo, nem água suficiente para afogá-lo, nem terra para enterrar o corpo.”
Você vai amar.
Mas antes que esta linda história de amor comece, vamos aprender um pouco sobre a geografia irlandesa. Há 340 milhões de anos, a Ilha Esmeralda era um pouco diferente da atual. Não havia pubs nem pré-adolescentes irlandeses rondando as lojas de departamento: ela ficava debaixo d’água — na verdade, era parte de um grande oceano tropical repleto de vida. Animais, peixes, plantas e todas as demais formas de vida que você conseguir imaginar tentavam devorar umas às outras, vivendo felizes e selvagens. No entanto, como os filmes da Disney nos ensinam, em algum momento essas criaturas acabam morrendo (em geral de um jeito horrível e na frente dos filhos) e seus ossos se acumularam no fundo do mar — dando início a uma antiga receita primordial que pode ser resumida na seguinte equação:
ossos + compressão + milhões de anos = calcário E foi exatamente isso o que apareceu. Calcário. Uma área de dezesseis quilômetros quadrados de calcário, na verdade. E depois que cansou do fundo do mar, o calcário subiu até a superfície, formando a paisagem desolada e única em que seus pezinhos lindos estão pisando. O que me leva a outra equação, que não tem muito a ver com o assunto, mas que não deixa de ser útil:
coragem + tempo = um coração curado
Posto dessa forma, não parece uma tarefa impossível, não é, benzinho? Quer dizer, só de você ter conseguido chegar à Ilha Esmeralda me diz que a coragem já está aí. E quanto ao tempo? Bem, ele virá. Minuto a minuto, hora a hora, o tempo vai se estender e acumular e comprimir até que um dia você vai se encontrar no topo de algo que acabou de emergir e pensar: Nossa, eu consegui.
Você vai conseguir, docinho. Pode acreditar.
DEVER DE CASA: Está vendo as flores silvestres brotando do meio das pedras, chuchu? Calma. Não vou cair no clichê de falar sobre a beleza que prospera em meio ao sofrimento. Mas quero que você colha algumas, uma para cada uma das suas pessoas. E com “suas pessoas” quero dizer aquelas com quem você pode contar, que estão ao seu lado durante esse processo. Arrume-as em um círculo e absorva seu poder. Não se esqueça de colher uma para mim.
— Trecho de Irlanda para corações partidos: um guia não
convencional da Ilha Esmeralda, 3a edição
— PARA O QUE ESTAMOS OLHANDO, EXATAMENTE? — perguntei quando Rowan manobrou o carro até o estacionamento lamacento.
Burren estava mais para uma invasão hostil do que para uma paisagem. No início, a mudança tinha sido sutil, com algumas pedras chatas surgindo nos campos como lírios acinzentados, mas aos poucos a proporção de pedra para grama foi aumentando, até o cinza sufocar todo o verde luminoso. Quando Rowan começou a reduzir a velocidade, estávamos cercados por rochas frias e deprimentes. Uma placa dizia
.
A Autora do Guia tinha falado que Burren era deprimente, mas eu não imaginava quanto.
Ian apontou para uma pequena estrutura sem graça ao longe. Ele já estava pronto para sair do carro, o cinto de segurança solto, o caderno em mãos.
— O Poulnabrone é um túmulo. Tem mais de dois mil anos.
Estreitei os olhos, e o túmulo virou um borrão cinza.
— Um túmulo? Ninguém me avisou nada sobre túmulo.
No instante em que Rowan estacionou, Ian passou os pés pela janela e pulou, o caderno debaixo do braço.
— Encontro vocês lá!
Seus tênis produziram sons úmidos enquanto ele corria em direção ao túmulo.
Rowan soltou um assobio admirado, olhando para meu irmão. Ele tinha cado em silêncio desde que eu aceitara minha derrota em relação ao plano do Titletrack. Ian até tinha falado um pouco, mas parecia meio desconfortável, como se estivesse vestindo uma camiseta com uma etiqueta que pinicava. Detectar quando Ian se sentia culpado era uma arte sutil, pois sua agitação natural atrapalhava.
— Ele parece um daqueles lagartos Jesus Cristo. Conhece? Aqueles que correm tão rápido que conseguem andar sobre a água... — observou Rowan.
Passei para o banco do carona.
— Prometa que não vai dizer isso a ele. A última coisa que precisamos é que Ian desenvolva um complexo de lagarto Jesus Cristo.
Sua covinha reapareceu.
— Prometo.
O estacionamento consistia em uma grande poça pegajosa que se in ltrou em meus tênis no instante em que pisei no chão. Uma camada
na de nuvens cobria o sol, eliminando até mesmo a ilusão de calor, e
cruzei meus braços nus para tentar me esquentar. Por que ninguém se deu ao trabalho de me informar que a Irlanda era o equivalente climático de um congelador? Resolvi que assim que chegasse à Itália eu passaria minhas primeiras horas assando ao sol como pão ciabatta. E conversando com Lina.
Lina vai saber em breve. Um arrepio violento percorreu minha espinha.
— Você está com frio? — perguntou Rowan, olhando para mim por cima do carro.
— Por que a pergunta? — respondi, brincando. Em alguns segundos meus dentes iam começar a bater.
— Talvez porque você esteja tremendo feito um daqueles lhotinhos dos comerciais sobre maus-tratos aos animais... Vocês têm esses comerciais nos Estados Unidos, certo? Por apenas sessenta e três centavos por dia, você também pode impedir uma menina loira de tremer de frio... Eles passam na televisão toda hora.
— Sim, também temos.
O ponto fraco de Archie eram os animais, e, quando a gente era mais novo, esperava os comerciais começarem para chamá-lo até a sala e vê-lo
car com os olhos marejados. Irmãos podem ser muito cruéis uns com os
outros. Quando meu pai descobriu, nos deu uma bronca por usarmos o comercial sobre crueldade contra animais para sermos cruéis com nosso irmão, e todos doamos um mês de mesada para uma organização de proteção animal.
Eu puxei meu short de leve.
— Quando z as malas, estava pensando na Itália, então só trouxe roupas de verão. Não sabia que a Irlanda estava sempre no inverno ártico.
— E deu sorte porque o dia está bonito. Só um segundo.
Ele voltou para dentro de Trevo, e peguei meu telefone do bolso de trás. Eram 9h03. Eu queria estar no aeroporto às dez em ponto.
— Ei, Rowan, quanto tempo demora para chegarmos ao aeroporto?
— Uns quarenta e cinco minutos.
— Então não podemos demorar muito. Não quero chegar em cima da hora.
Ele ressurgiu, o cabelo ligeiramente despenteado.
— Addie, o que é isso?
Por um segundo, pensei que Rowan estivesse perguntando sobre o casaco azul-marinho que trazia pendurado no braço, mas depois percebi que ele também segurava algo na outra mão. O guia.
— Ei, isso é meu!
Cambaleei em sua direção, uma tsunami de vergonha se abatendo sobre mim.
Ele examinou a capa.
— Sim, eu sei que é seu. É o guia que você tinha falado? Por que o título diz que é para corações partidos?
— Me dá isso agora. — Eu avancei, e ele me deixou arrancar o livro de suas mãos. Abracei o guia com força. — Por que você estava fuçando minhas coisas?
— Eu só estava procurando um casaco para você e encontrei o livro caído embaixo do banco. Achei que fosse meu. — Ele deu um passo para mais perto de mim. — Mas agora você me deixou curioso.
Seu olhar estava igual ao de um lhote de cachorro abandonado, e acabei cedendo. Além disso, explicar o guia não signi cava que eu era obrigada a contar tudo sobre o meu próprio coração partido.
— Eu encontrei na biblioteca do hotel. Fala dos principais pontos turísticos da Irlanda e passa algumas atividades para fazer em cada um deles. Supostamente, ajuda a curar um coração partido.
— Você acha que funciona?
A urgência na voz de Rowan me fez olhar para ele, que examinava o guia com uma expressão faminta.
— Hã... Não sei. A autora é um pouco excêntrica, mas parece que ela entende das coisas. Quem sabe? Talvez funcione.
— Então, você está usando o guia para ajudá-la a superar esse tal de Cubby?
Agora até ele queria falar sobre Cubby? Eu me empertiguei, pronta para dizer que não era da conta dele, mas Rowan deve ter reparado porque voltou atrás na mesma hora.
— Desculpe. Foi uma pergunta pessoal demais. É só que... — Ele ajeitou os óculos, mexendo nas hastes com certo nervosismo. — Meu coração não anda lá essas coisas... — Ele me olhou nos olhos, e dessa vez sua expressão era suplicante. — Então, se você tiver encontrado um guia mágico para curar corações partidos, por favor, não se esqueça de me contar.
Sua vulnerabilidade me tocou, e, antes que eu tivesse tempo de mudar de ideia, entreguei o guia para ele, dizendo:
— Talvez você devesse tentar. Há uma tarefa para Burren e posso ajudar, se quiser. — Eu sempre fazia isso. Toda vez que alguém estava sofrendo, eu queria resolver a questão na hora. — Pode car com o guia. Quem sabe vocês não passam pelos pontos turísticos a caminho do festival?
Ele virou o livro, erguendo os olhos bem devagar até encontrar os meus.
— Nossa. Você é muito legal. — Ele mordeu o lábio. — Olha, sinto muito pela minha parcela de culpa por Ian ter desistido da Itália. Se eu soubesse...
Eu dispensei suas desculpas com um gesto.
— Eu vou sobreviver. E preciso mesmo de algum tempo com Lina, então talvez seja até melhor ele não ir.
Rowan assentiu, depois levantou o livro com entusiasmo, a esperança iluminando seu rosto.
— Agora, se você não se incomodar, acho que vou tentar fazer a atividade.
— Imagina, sem problemas — respondi, também animada, sentindo aquele calor familiar de quando ajudava outra pessoa.
— A gente se vê daqui a pouco. E aqui, isto é para você.
Ele me jogou o suéter azul, e eu o vesti na hora. Tinha um leve cheiro de cigarro e ia até meus joelhos, mas era fantástico — como ganhar um abraço antes mesmo de perceber que precisava. Agora, era hora do dever de casa para corações partidos. Eu me virei e olhei para a paisagem cinzenta e sombria.
Flores silvestres. Certo.
* * *
Para a minha sorte e a do meu dever de casa, Burren visto de perto era muito diferente de Burren visto do carro. Para começar, tinha muito mais detalhes. Sim, as pedras achatadas cobriam noventa por cento do chão, mas grama e musgo explodiam nas rachaduras entre elas, e ores silvestres coloridas brotavam sempre que tinham chance.
Eu me afastei do túmulo tanto quanto ousei, então colhi um punhado de ores. Depois de me certi car de que Ian estava de costas para mim, arrumei-as em um círculo, nomeando-as:
— Mãe, pai, Walter, Archie, Ian, Lina e a Autora do Guia — falei em voz alta.
Pena que só um deles sabia do meu coração partido.
Prontinho, Autora do Guia. E agora? Cruzei os braços e girei em um círculo, bem devagar. Como é que estar no meio de representações orais das “minhas pessoas” me ajudaria?
— Como está indo?
Ergui os olhos e vi Rowan se aproximando, as pernas longas como as de um gafanhoto pulando de pedra em pedra.
— Você foi rápido — comentei. — Leu o que ela escreveu sobre Burren?
— Sim. Eu leio bem rápido. — Ele parou, cando respeitosamente fora do meu círculo. — Está funcionando?
— Não sei — respondi, sincera. — Eu me sinto meio idiota.
— Posso entrar?
Eu assenti, e ele entrou no círculo, segurando uma or amarela como o sol.
— É para você. Eu queria ser uma das suas ores. — Ele fez uma careta. — Desculpa. Isso foi bem meloso.
— Eu achei legal — falei, correndo o polegar pelas pétalas sedosas.
Nenhum cara havia me dado ores antes. Nem mesmo Cubby.
Coloquei a or de Rowan ao lado da de Ian e então, já que sentia que deveria fazer alguma coisa, dei uma volta devagar, um pouco sem graça, focando minha atenção em uma or de cada vez.
Quando voltei à or amarela de Rowan, ele me olhou com
expectativa.
— E aí? Ajudou?
— Hum... — Encostei de leve a mão no peito. Não doía menos, mas parecia um pouco mais leve, como se alguém tivesse tirado parte do peso que eu carregava ali. — Eu me sinto diferente. Você deveria tentar.
— Tenho que girar também? — Um rubor envergonhado surgiu em suas bochechas. — Ou dizer os nomes ou algo do tipo?
— Acho que pode fazer do jeito que quiser. Prefere car sozinho?
— Sim — respondeu ele, decidido. — Acho que vai ser melhor fazer isso sem plateia.
Saí do círculo e fui até Ian. O túmulo tinha cerca de três metros de altura, com várias pedras paralelas formando as paredes e outra apoiada no topo para criar um telhado. O lápis de Ian riscava furiosamente o papel. Eu não sabia como ele conseguia escrever tanto sobre aquilo.
— Então... O lugar é bem legal — falei, quebrando o silêncio. — Você disse que foi aqui que o Titletrack lmou seu primeiro clipe?
Ian não desviou os olhos do caderno.
— Bem aqui onde estamos. A qualidade era péssima. Em algumas partes, mal dá para ouvir Jared cantando, e o cinegra sta começou a espirrar no meio do clipe, mas mesmo assim conseguiram um milhão de visualizações. Para você ver como a música é boa.
Ele fechou o caderno. Nós dois camos em silêncio, o vento soprando em nossas costas. Burren parecia solene como uma igreja, e tão sóbrio quanto. Eu me lembrei das palavras da Autora do Guia. Coragem + tempo = um coração curado. Posto dessa forma, não parece uma tarefa impossível, não é, benzinho?
Era aí que a Autora do Guia se enganava, porque não parecia menos impossível. Nem um pouquinho. Especialmente quando Ian e eu mal conseguíamos conversar sem começar uma briga. Olhei na direção de Rowan. Ele ainda estava no seu círculo, de costas para nós.
— Então você não vai mesmo contar para a nossa mãe sobre o Cubby — disse Ian, lendo minha mente como sempre.
Eu odiava a frustração em sua voz. Decepcioná-lo era pior do que decepcionar qualquer outra pessoa.
Balancei a cabeça. Eu sabia que talvez Ian estivesse certo. Não contar para minha mãe e depois ela acabar descobrindo por outra pessoa era um grande risco. Mas eu não conseguia nem falar a verdade para Lina... imagina para minha mãe?
A voz de Ian ecoou em minha mente. Você sabe o que Cubby anda fazendo? Eu me afastei, incapaz de dizer uma palavra.
Talvez passar um tempo longe dele fosse uma boa ideia.
* * *
Eram 9h21. Eu tinha passado alguns minutos vagando por Burren e, quando nalmente voltei para o carro e olhei a hora, minha ansiedade atingiu um nível recorde. Nós estávamos ali havia vinte minutos?
— Gente! — gritei, acenando para Ian e Rowan. Eles estavam parados diante do túmulo. Como aquela coisa prendera a atenção deles por tanto tempo? — Ei!
Ian olhou para trás e dei algumas batidinhas em um relógio imaginário no pulso.
— A gente tem que ir. Agora.
Ian tirou o celular do bolso sem a mínima pressa, então ele e Rowan começaram a correr na minha direção. Dei a volta na parte de trás do carro, e algo inesperado chamou minha atenção.
— Ai, não.
A boca do escapamento estava caída no chão, submersa em uma poça. Eu me abaixei para avaliar o estrago.
— Desculpe. Perdemos a noção do tempo — disse Rowan, ofegante, enquanto se aproximava. — Ainda bem que dirijo rápido. — Ele viu que eu estava agachada. — Ai, não, o tubo soltou?
— Acho que perdeu um parafuso. Precisamos consertar primeiro.
Rowan cruzou os braços, nervoso.
— Não tem como consertar depois? Não quero correr o risco de chegarmos atrasados ao aeroporto.
Depois de alguns segundos de con ito interno, meu lado prático venceu. Se o escapamento se soltasse enquanto estivéssemos dirigindo, seria o m. Nada de carro. Nada de aeroporto. Nada de Itália e de Lina. Eu precisava pelo menos de uma solução a curto prazo.
Levantei.
— Contanto que não que batendo na estrada, não vamos ter problemas. Você tem alguma coisa que a gente possa usar para amarrar?
Rowan passou a mão pelo queixo, encarando os adesivos como se eles pudessem ajudar.
— Fio dental? Talvez eu tenha uma corda elástica.
— Tem que ser de metal, senão vai derreter e vamos ter que parar e amarrar de novo.
— Que tal isso? — Rowan tirou um par de fones de ouvido emaranhados do bolso de trás. — Os os da parte de dentro são de cobre, não são?
Ian cou boquiaberto.
— De jeito nenhum. São da Shure. Custam uns duzentos dólares.
— Você está me oferecendo fones de ouvido de duzentos dólares? — perguntei, chocada.
Eu sabia que Rowan era legal, mas isso já era demais.
Ele os jogou para mim.
— Só me deram isso de presente para aliviar a própria culpa — respondeu ele com a voz amargurada. — Uma das vantagens de ter pais divorciados.
Seus ombros murcharam de leve, e Ian lhe lançou um olhar surpreso, mas dava para ver que Rowan não queria que insistíssemos no assunto.
Era uma oferta excessivamente generosa, porém fui obrigada a aceitar. Havia muita coisa em jogo. Assenti em agradecimento e voltei a me agachar.
— Ian, segure o escapamento para mim.
Ele obedeceu, e eu rastejei para debaixo do para-choque, encharcando meu short enquanto tateava sob o carro.
Estava acostumada a ser a mecânica da família. No verão depois de Walter completar dezesseis anos e tirar a habilitação, eu estava no carro com meus irmãos e o pneu furou na estrada perto de casa. Achei o manual do proprietário e, quando meu pai chegou, eu estava coberta de graxa, e o estepe, já no lugar. Ao contrário da escola, os carros sempre
zeram sentido para mim — havia algo reconfortante em saber que a
resposta estava a apenas um capô levantado ou a uma torção da chave inglesa de distância.
A parte de baixo do carro de Rowan estava cheia de lama, e levei mais tempo do que deveria para amarrar o escapamento. O nervosismo também não ajudou. Parecia que uma hora tinha se passado até eu me levantar de novo, a ansiedade explodindo em meu peito.
— Pronto. Vamos embora.
— Talvez seja melhor você se trocar antes de entrar no carro — sugeriu Ian, olhando minhas roupas. — Você está parecendo um monstro de lama.
— Não dá tempo — replicou Rowan, indo para a porta. — Pode entrar, monstro de lama.
* * *
Eu estava me balançando no banco de trás, tentando ignorar o fato de que os números no velocímetro de Trevo aumentavam em um ritmo alucinante, quando Rowan de repente soltou um palavrão com seu sotaque irlandês carregado.
Olhei para ele.
— Qual o problema?
Rowan apontou o para-brisa.
— Aquele é o problema.
Eu cheguei mais para a frente, ansiosa, e o que vi fez surgir em meu estômago o nó mais apertado da minha vida. Quatrocentos metros adiante estava um trator. Mas não um trator qualquer — era enorme e tomava as duas pistas da estrada, como uma lagosta gigantesca e pesada. E com certeza não estava com a menor pressa. Rowan desacelerou e chegou mais perto.
— A gente precisa contornar esse troço — falei. Tratores podiam tomar a estrada inteira daquele jeito?
Addie, não entre em pânico. Não entre em pânico. Nós já estávamos atrasados. Como era possível uma coisa daquelas?
— Como? — Rowan passou a mão pelos cabelos. — É grande demais até para encostar e nos dar passagem. Ocupa a estrada inteira.
— Não tem como ele car na estrada por muito tempo — disse Ian, parecendo calmo, mas seu joelho começou a se sacudir muito. — Rowan, não tem como ele car na estrada por muito tempo, certo?
— Bem... — Rowan fez uma careta. — Talvez seja melhor dar meia-volta. Deve haver outro caminho para a rodovia.
A sugestão me deixou nervosa. Tentar outro caminho parecia arriscado. Um estrondo atrás de nós fez todo mundo se virar ao mesmo tempo.
Dessa vez foi Ian quem soltou um palavrão. Um trator idêntico estava na nossa traseira. Era tão grande e lento quanto o outro.
— Isso por acaso é um des le de tratores?! — perguntei, furiosa.
O trator número dois era de um laranja que lembrava uma abóbora, e o motorista retribuiu nossas carrancas com um aceno alegre.
— Que ótimo. Tratores gêmeos — comentou Rowan.
— Eu vou lá falar com eles.
Ian baixou o vidro e, antes que Rowan e eu registrássemos o que ele tinha acabado de dizer, meu irmão saiu do carro ainda em movimento, tropeçando quando os pés bateram no chão.
— Ian! Volta aqui! — gritei.
Mas ele correu a toda velocidade até o primeiro trator, deixando um rastro de lama.
— Uau. Os Bennett não brincam em serviço — comentou Rowan.
— Aquele ali muito menos.
O motorista viu Ian e diminuiu a velocidade. Meu irmão pulou para o degrau do trator, gesticulando com os braços enquanto conversava com o motorista.
Eu estava prestes a ir até lá quando Ian desceu do degrau e correu de volta até o carro.
— Vai levar dez minutos até ele poder sair da estrada, mas o motorista disse que tem um atalho para a rodovia. Quando chegarmos perto ele vai apontar para a gente.
Rowan soltou um suspiro de alívio.
— Dez minutos? — repeti, olhando nervosa para o relógio. Já eram 9h39. O des le de tratores recomeçou, respingando lama em nosso para-brisa.
* * *
No segundo em que chegamos à rodovia, Rowan pisou fundo no acelerador.
— Anda, Rowan! — gritei.
— Estou indo o mais rápido possível. — A voz dele estava trêmula. — Addie, acho que vamos conseguir. Você não vai despachar nenhuma mala, certo? E talvez o voo esteja um pouco atrasado.
Eu queria acreditar nele, mas a adrenalina percorrendo meu corpo não deixava. Voos nunca atrasam quando a gente quer; eles só atrasam quando se tem uma conexão importante em um aeroporto do tamanho de uma pequena nação. E, segundo o GPS do celular, ainda faltavam trinta quilômetros. Estávamos cando sem tempo. Eram 10h16.
Trevo passou por um buraco e a pilha de pertences de Rowan deslizou para cima de mim. Eu a empurrei de volta, meu coração batendo feito uma britadeira. Eu me sentia como um dos foguetes de plástico que meus irmãos e eu costumávamos soltar no feriado de Quatro de Julho. Mais alguns segundos e eu ia sair voando pelo frágil capô do carro.
— Está tudo bem, Addie. A gente vai conseguir — falou Ian, apertando a alça de teto com força.
Ele já tinha falado isso umas quatro vezes. Eram 10h18. Como é que já tinham se passado dois minutos inteiros?
— Não acredito que isso está acontecendo comigo.
As palavras jorravam da minha boca, tão frenéticas quanto eu.
Dessa vez, ninguém tentou me consolar. Estávamos todos no mesmo estado de pânico desesperado. Havíamos levado dez minutos para chegar ao tal atalho, e o que o motorista do trator tinha se esquecido de dizer a Ian foi que o “atalho” consistia em uma estrada de terra estreita e esburacada que não nos permitiu avançar numa velocidade muito maior do que a de quando estávamos atrás do trator.
— O aeroporto! — gritou Rowan.
Suspirei de alívio. Lá estava uma grande placa verde com
/ , a palavra em gaélico acompanhando a gura de
um avião. Nós não tínhamos chegado, mas estávamos perto. Desde que eu estivesse no aeroporto uma hora antes do voo, às 11h30, tudo caria bem. Rowan pisou no acelerador como um piloto de Fórmula 1, mas infelizmente fez isso no instante em que passamos por um buraco. Nós batemos no chão com força e, de repente, um barulho estridente soou debaixo do carro.
— Não! — gritei.
— O quê? O que foi isso? — Ian estava tão inquieto que poderia estar dançando tango, de tanto que balançava as pernas.
Eu me virei para olhar pelo vidro traseiro, mas não consegui ver nada. Parecia que o cano do escapamento tinha se soltado, fazendo bastante barulho sempre que batia no asfalto. Os fones de ouvido de duzentos dólares não aguentariam por muito mais tempo.
— Por favor aguente, por favor aguente, por favor, por favor — rezei em voz alta.
BAM!
Um barulho metálico ressoou no carro, e vi as faíscas em nosso rastro. O carro atrás de nós buzinou e passou para a pista ao lado.
— Não! — gritei de novo.
— O quê? Addie, o que foi? — perguntou Rowan. — Caiu?
Eu desabei no banco com lágrimas nos olhos.
— Nós temos que parar.
Rowan e Ian pareceram murchar, e Rowan parou no acostamento. Pulei para fora. O acostamento era estreito demais e os carros passavam preocupantemente perto de mim enquanto eu corria até a traseira e me agachava. O escapamento estava preso por um o, os fones de ouvido de Rowan balançando, impotentes. Eu não conseguia acreditar naquilo.
— São 10h21 — anunciou Ian, as mãos caídas junto ao corpo, a voz trêmula.
O tom infeliz em sua voz dizia tudo. Não chegaríamos a tempo.
Eu tinha perdido o voo. Caí sentada na lama. Um soluço enorme chegou até minha garganta e cou entalado.
Ian se agachou a meu lado e deu batidinhas nas minhas costas.
— Addie, vai car tudo bem. Você vai pegar outro voo. Se for preciso, eu mesmo pago.
— Eu me sinto péssimo — disse Rowan, agachando-se do meu outro lado. — Eu deveria ter pensado nos tratores. Posso ajudar a pagar também.
— Não acredito — respondi com a voz fraca, as lágrimas enchendo meus olhos.
Um avião passou lá no alto, os motores rugindo de modo doloroso. Além da queda do cavalo, o coice. E eu sabia o verdadeiro motivo da minha chateação. Eu havia passado tanto tempo contando os segundos até poder desabafar com Lina, e agora esse momento tinha sido adiado. Meu segredo ardeu em meu peito. Eu não podia esperar mais um segundo.
Eu me levantei na mesma hora, deixando os dois para trás enquanto me atrapalhava com o celular. O que eu ia dizer? Oi, Lina, você tem um segundinho? Porque não só perdi o voo como também tenho algo importante para dizer. Contar a Lina sobre Cubby no acostamento de uma rodovia na Irlanda não era o que eu tinha em mente, mas teria que servir.
Eu não sabia nem por onde começar.
Se eu tivesse que de nir um marco de quando minha relação com Cubby começou, acho que escolheria a noite em que ele entrou no meu carro.
Como de costume, estava esperando Ian terminar o treino de futebol americano. A chuva pingava alegremente no para-brisa enquanto eu abraçava meus joelhos. Por uma questão de princípio, eu me recusava a ligar o aquecedor. Já era verão, caramba. Por que Seattle continuava tão fria?
— Anda logo, Ian — murmurei, olhando para as portas da escola.
Minha colega do time de futebol, Olive, tinha me convidado para ir até a casa dela ver uma de suas famosas sessões de lmes B. Ela tinha um talento especial para dar graça aos piores lmes, e Ian ia fazer com que eu me atrasasse. De repente, um moletom do TIGERS apareceu na janela do lado do carona, e a porta se abriu.
— Até que en m! Por que demorou tanto? — reclamei, botando o cinto de segurança enquanto ele se sentava no banco do carona. — Da próxima vez vou deixar você aí.
— Você me abandonaria mesmo?
Eu me assustei com a voz. Era Cubby. De banho recém-tomado, com as bochechas rosadas e o cabelo molhado. Ele sorriu, os olhos brilhantes encontrando os meus.
— Por que você está me olhando como se eu fosse um fantasma?
— Porque... — Minha boca tentou fazer contato com o cérebro. Porque eu penso em você o tempo todo e agora você está no meu carro. — Hã, pelo visto o treino acabou.
Brilhante, Addie.
Ele ajustou o assento, reclinando alguns centímetros.
— Ainda bem que acabou. Hoje o treinador pegou pesado. — Ele recostou a cabeça, e se eu não estivesse tão chocada em tê-lo no meu carro, teria notado como parecia exausto. Ian havia comentado que o treinador estava sendo mais severo com Cubby naquele ano. Acho que ele estava sentindo os efeitos. — E Ian ainda deve demorar um pouco. O treinador queria discutir algumas estratégias. — Ele cou em silêncio, e seu olhar era pesado e revigorante ao mesmo tempo. — Você ainda quer sair? A gente podia ir a algum lugar.
Borboletas surgiram em meu estômago. Isso está mesmo acontecendo? Sonhos se tornam realidade?
— Onde? — perguntei, tomando cuidado para manter a voz calma.
Ele olhou pela janela e passou o dedo pelo vidro embaçado.
— Qualquer lugar.
Precisei de todo o meu autocontrole para não pisar fundo no acelerador. No que dizia respeito a Cubby, esse era o meu verdadeiro problema. Eu nunca parava para pensar, nunca.
— Perdi o voo. Meus pais não podem saber e Ian e eu brigamos e aí tinha dois tratores e Ian vai a um festival e eu perdi meu voo, Lina.
Em vez da explicação calma que havia planejado, falei tudo de uma vez, as palavras se embolando umas nas outras.
— Addie, calma — respondeu Lina, severa. — Você precisa falar mais devagar.
— O que houve?
Era a voz de Ren, namorado da Lina, ao fundo. Ele estava sempre ao fundo ultimamente. Será que nunca se desgrudavam? Eu queria que isso não me incomodasse tanto.
— Espera um segundo. — Ela fez “shhh” para ele. — Estou tentando entender. Addie, o que houve?
— Eu já falei. Eu... perdi o voo.
As lágrimas escorreram pelas minhas bochechas, e minha voz soava tão trêmula quanto o carro de Rowan.
Ela suspirou, enchendo meu ouvido com o chiado.
— Sim, entendi essa parte. Mas o que houve com você? Faz dez dias que está evitando minhas ligações, e agora está parada num acostamento tendo um ataque. Não é só por causa do voo. Ou do casamento. Por que está me evitando?
Cubby surgiu como uma marionete balançando no espaço entre nós duas. Claro que eu não tinha conseguido enganar minha melhor amiga. Lina sempre teve um sexto sentido para saber quando eu precisava dela. Às vezes eu nem tinha que ligar — ela aparecia por conta própria.
E não ia dar para me esquivar daquela pergunta. Não depois de ela me encurralar daquele jeito. Respirei fundo.
— Lina, tem uma coisa que preciso contar. Sobre esse verão. Eu ia contar assim que chegasse a Florença, mas...
— Tem a ver com Cubby Jones? — perguntou ela, impaciente.
— Eu... O quê? — Eu me encolhi. A notícia tinha chegado até a Itália? — Quem te contou?
A voz de Lina tinha cado séria.
— Ninguém me contou nada. Você está escondendo alguma coisa desde julho. Toda vez que a gente conversava, você quase deixava escapar. E não parava de falar o nome dele, tipo, “ah, lembra daquela aula de cerâmica quando o pote de Cubby explodiu no forno?”. Não é uma história tão memorável assim, Addie.
Levei uma das mãos à cabeça. Nunca tinha sido boa em mentir, muito menos para alguém que eu amava. Walter dizia que eu era a pior mentirosa do mundo. Meu pai a rmava que aquilo era um elogio.
— É, acho que eu estava tentando contar. Mas não exatamente.
Houve uma longa pausa e apertei o celular mais perto do ouvido, tentando desesperadamente interpretar seu silêncio. Será que era um silêncio crítico? Eu me virei para olhar para meu irmão. Ele e Rowan estavam apoiados no carro, derrotados, as mãos de Ian enterradas nos bolsos.
— Para qual aeroporto eu devo ir, então? Shannon ou Dublin?
Demorei um pouco para entender o que Lina estava dizendo.
— Peraí. Você acabou de perguntar para qual aeroporto você deve ir?
— Isso. — Ela suspirou, impaciente. — Faz mais sentido, não? Você acabou de dizer que perdeu o voo e seus pais não podem saber, então eu vou até aí.
— Você... vem pra cá? — Eu claramente tinha me perdido na conversa. — Mas como você...?
Sequei as lágrimas que teimavam em escorrer.
Lina estalou a língua, impaciente. O som parecia ter algo de italiano.
— Escuta. Eu tenho um montão de milhas, e Ren também, e nós dois já estávamos doidos para visitar a Irlanda. Vou falar para o Howard que você precisa de mim. Fique com Ian e espere. Vou chegar o mais rápido possível.
Fechei os olhos, aceitando o plano de Lina. Ficar com Ian. Lina vir para cá. Talvez meus pais não descobrissem. Talvez eu ainda jogasse futebol. Talvez eu encontrasse uma maneira de fazer Ian parar de me olhar como se eu fosse uma coisa nojenta grudada na sola do seu sapato. Era o melhor plano possível dadas as circunstâncias.
— Você tem certeza? — consegui dizer. — Vir para a Irlanda não é algo simples.
— Mas também não é complicado demais, não por uma amiga. E, Addie, vai car tudo bem. Seja lá o que for, vai car tudo bem.
Eu queria dizer a ela quanto aquilo signi cava para mim, mas as palavras estavam entaladas na minha garganta. Ela tinha chegado a uma solução que eu nem havia considerado. Eu me senti mal por ter duvidado dela.
— Obrigada — falei, por m, em meio às lágrimas.
— De nada. Uma pena você não experimentar o gelato daqui, mas pelo menos estaremos juntas. É o que importa, não é?
— É, sim.
Eu abri os olhos para o sol brilhante. Uma pequena bolha rosa surgiu em meu peito. Frágil, mas ainda assim esperançosa.
* * *
— Não. De jeito nenhum. — Com essas poucas palavras, Ian apagou a fagulha de esperança em meu peito. — Esta é minha viagem. Nossa viagem. É uma oportunidade única. Nós passamos meses planejando.
Ele se aproximou do carro de modo defensivo. Rowan tinha encontrado um cabide de arame no porta-malas, que usei para prender o escapamento de novo.
— E é justamente por isso que estou presa aqui — retruquei. Toda vez que um carro passava, eu sentia como se estivesse prestes a ser sugada para a estrada. — Se você não tivesse mudado os planos, nada disso teria acontecido. — Minha voz estava alta e chorosa, mas eu não me importava. A viagem dele tinha me custado a Itália. — Você acha que eu queria perder meu voo?
Quanto mais eu pensava no plano de Lina, mais ele fazia sentido. Tínhamos mais chances de não sofrer nenhuma consequência se
cássemos juntos.
— Ian, pensa bem... Faz sentido. As chances de vocês não serem descobertos aumentam se estiverem juntos, não? — interveio Rowan, ecoando meu raciocínio.
Eu lhe lancei um olhar agradecido, mas sua atenção estava voltada para o meu irmão. Ian chutou o chão com raiva.
— Está bem. Está bem. Mas escuta o que eu vou dizer. Esta é minha viagem. Nada de brigas. Nada dos seus dramas. Nada de falar de Cubby. Entendido?
— Eu não quero falar dele! É você quem ca tocando no assunto!
Um caminhão grande passou e jogou meu cabelo para a frente.
— Opa, opa. — Rowan se colocou entre nós, as palmas erguidas. — Precisamos combinar uma coisa agora mesmo. Eu apoio o novo plano, mas não vou passar os próximos dias separando brigas. Se vamos seguir em frente, tem que haver uma trégua.
Para minha surpresa, Ian se acalmou quase de imediato, e os cantos de sua boca mostraram uma expressão arrependida.
— Você está certo. Addie, se você não mencionar Cubby, eu também não falo nada.
Sério? Assim tão fácil?
— Ok — concordei, um pouco cautelosa.
— Ok? — Rowan olhou para um e depois para outro. — Então... está tudo bem?
“Tudo bem” era um pouco de exagero, mas consegui assentir e Ian também. Podia ser uma trégua forçada, mas ainda assim era uma trégua. Teria que ser o bastante.
* * *
Estávamos de volta à estrada. O novo plano vinha sendo executado havia quinze minutos e todos ainda estavam um pouco chocados quando de repente algo cou claro para mim: eu precisava ir ao banheiro. Imediatamente.
Eu me en ei entre os bancos.
— Rowan, você poderia, por favor, fazer uma parada assim que possível? Preciso muito ir ao banheiro.
Ian se virou, o rosto tenso.
— Nossa próxima parada é só em Dingle.
— Fica muito longe? — perguntei, olhando para o mapa.
Dingle era uma península que se estendia como um dedo apontado pelo oceano Pací co, a uns cento e cinquenta quilômetros de distância. De nitivamente muito além da capacidade da minha bexiga.
— Você está brincando?
Ian contraiu a boca com rmeza. Não estava brincando.
— A viagem está toda planejada. O escapamento e os tratores já nos atrasaram demais.
— Ian, isso é loucura. Da última vez que fui ao banheiro, eu ainda achava que ia para a Itália. Ou fazemos uma parada ou vou fazer xixi no banco de trás.
Ele levantou a mão com desdém.
— Por mim, não tem problema. Pode fazer xixi aí mesmo. Vai ser que nem o pote de café na viagem de carro para a Disneylândia.
— Ian! — rosnei.
O incidente do pote de café podia estar entre as histórias de viagem mais ilustres da família Bennett, mas isso não signi cava que eu gostava de ouvi-la o tempo todo. Por que meus irmãos não a deixavam pra lá?
— Que história é essa? — perguntou Rowan, com um indício de sorriso.
— O que você acha? — retruquei, brusca.
— O nome já diz tudo, não? — disse Ian. — Viagem de carro. Pote de café. Garota que...
— Ian! — Eu passei os braços ao redor do banco da frente para cobrir sua boca. — Se contar essa história para o Rowan, juro que nunca mais falo com você.
A risada de Ian atravessou minhas mãos, e ele as empurrou para longe, mas o clima já estava mais leve. Pelo menos aquela história idiota servia para alguma coisa.
— Na verdade, preciso ligar para minha mãe, então também gostaria de fazer uma parada. Que tal Limerick?
Rowan apontou para uma placa. :
— Perfeito — falei, agradecida.
Eu conseguiria aguentar vinte quilômetros.
* * *
Acontece que vinte quilômetros em uma estrada irlandesa com grama brotando do chão eram muito mais demorados do que vinte quilômetros em, digamos, qualquer outra estrada. Quando Rowan nalmente parou em um posto de gasolina, eu estava tão apertada que mal podia me mexer.
— Sai, sai, sai, sai! — gritei.
Ian se virou para trás, a mão apoiada no encosto do banco.
— Você tem cinco minutos. É a última parada antes de Dingle.
— Sai da frente! — implorei.
Ian saltou graciosamente pela janela do carro e foi até a loja de conveniência. Tentei fazer o mesmo, mas, antes de completar o movimento, um dos meus sapatos saiu e, quando tentei alcançá-lo, perdi o equilíbrio e caí de barriga no chão, o que não era nada recomendável com a minha bexiga cheia.
Rolei para o lado. O suéter de Rowan estava sujo de cascalho e meu cotovelo doía.
— Addie, você está bem? — Rowan contornou o carro com passos rápidos para me ajudar. — Cadê seu sapato?
— Não dá tempo! — falei.
Meu pé descalço latejou quando corri até a loja de conveniência, e minha bexiga já estava em contagem regressiva. Não havia tempo para procurar um sapato.
Lá dentro, perdi uns cinco segundos tropeçando pelos corredores de salgadinhos antes de perceber que não havia banheiro na loja. Corri até o caixa. Uma senhora com tranças enroladas na cabeça conversava com o funcionário no balcão:
— Eu falei para ela, pode se casar com ele. Mas não venha chorar para mim quando...
— Oi, querida — disse o caixa, olhando para mim ansiosamente. Por favor, me salve, seus olhos imploravam. — O que posso fazer por você?
— Onde caobanheiro?
Eu não tinha tempo para respirar entre as palavras; a situação era crítica. Ele entendeu a urgência e disparou a informação com rapidez admirável:
— Nos fundos. Por ali.
Passei correndo por Ian, que enchia uma cesta com bombas de cafeína em embalagens neon. Minha bexiga estava prestes a estourar. Cheguei ao local indicado, mas, quando puxei a maçaneta do banheiro feminino, ela não se mexeu.
— Olá? — chamei, batendo com os punhos na porta.
— Ocupado — respondeu uma voz alegre, com sotaque irlandês.
— Você pode se apressar, por favor?
Sacudi a maçaneta, desesperada. Eu ia fazer xixi na calça a qualquer momento.
De repente, a porta do banheiro masculino se abriu, e me lancei para dentro assim que um homem barbado saiu.
— Ah. Esse é o masculino, querida — avisou ele, nervoso.
— Sou americana! — respondi, como se isso explicasse alguma coisa. Sou americana, então não preciso seguir as convenções de gênero.
Ele pareceu aceitar essa explicação — ou achou que eu era maluca — e saiu do caminho. Tranquei a porta e me virei. Mesmo com a iluminação horrível, dava para ver que o chão estava nojento. Molhado e coberto de papel higiênico úmido. Por re exo, cobri o nariz e a boca com a mão.
— Addie, você consegue — encorajei a mim mesma.
Não havia escolha. Minha única outra opção era aguentar no banco de trás de um carro minúsculo até chegarmos em Dingle.
Pulei pelo banheiro em um pé só, e, quando saí, Rowan tinha voltado para o carro, o celular grudado no ouvido. Corri de volta para a loja de conveniência, peguei a maior caixa de cereal Sugar Puffs que encontrei e fui até o balcão pagar. A situação do caixa não tinha mudado muito.
— ... então eu disse: “Se você quer viver em uma pilha de lixo, tudo bem.” Ela não pode esperar que a gente...
— Quer que eu mostre onde ca o leite? — O caixa tentou agarrar meu cereal, quase perdendo seus óculos de Papai Noel no processo. Havia quanto tempo ele estava preso naquela conversa?
Eu balancei a cabeça.
— Obrigada, mas estou viajando de carro. Não teria onde guardar.
Seus olhos se iluminaram com interesse.
— Eu já z algumas viagens de carro quando tinha a sua idade. Para onde está indo?
A mulher de tranças fez um pequeno ruído de impaciência e trocou as sacolas de mão, para deixar bem claro quanto eu estava sendo inconveniente.
— Agora estamos indo para Dingle, mas depois vamos a um festival de música.
— Electric Picnic? — adivinhou ele.
— Você já ouviu falar?
Rowan e Ian tinham dito que o Electric Picnic era famoso, mas eu não tinha como saber se era conhecido em seu universo de música alternativa ou no mundo real. Pelo visto, era no mundo real.
— Claro. Vou rezar por seus pais. — Ele deu uma piscadela. — Eu nunca fui, mas minha lha foi no ano passado. Tenho a impressão de que ouvi apenas a versão censurada do que ela fez por lá. Mas, claro, a gente sabe das histórias... — As rugas ao redor dos olhos dele se acentuaram. — Pessoas se casando fantasiadas de unicórnio, banheiras de hidromassagem improvisadas ao ar livre, raves na oresta, um ônibus de dois andares afundado no chão, um zoológico só de animais de fazenda com três patas... Esse tipo de coisa. Todo mundo fantasiado e aprontando.
Será que ele estava brincando? Não parecia... Além disso, quem poderia inventar uma lista daquelas de improviso? Eu arregalei os olhos, horrorizada.
— Ah, você não sabia das histórias — concluiu ele, as rugas se acentuando ainda mais.
Isso elevava a necessidade de manter segredo a níveis desesperadores. Meus pais iam surtar se descobrissem. Uma coisa era fugir para ver um monte de pontos turísticos obscuros pela Irlanda, outra bem diferente era fugir para ir a um festival insano. Se eles descobrissem, precisariam inventar um novo arsenal de castigos.
— Olha, não era minha intenção assustar você. — O caixa riu da minha expressão. — Só não faça besteira e vai car tudo bem. Você está indo ver uma banda especí ca?
Assenti, recuperando a compostura. Não faça besteira. Desde que Cubby Jones não estivesse por perto, eu conseguiria seguir o conselho.
— Meu irmão vai ver a banda favorita dele, Titletrack.
— Titletrack! É o último show deles — interveio a mulher, levando uma das mãos ao peito. — Você é uma garota de sorte, hein?!
Eu me virei para ela, horrorizada. Ela era fã?
— Eu amo a primeira música deles... — continuou a mulher. — Aaron, como é mesmo o nome, aquela com o clipe em Burren?
— “Classic” — respondeu o caixa. — Nós daqui da área somos grandes fãs.
— Na verdade, o tema da nossa viagem é justamente a banda. Acabei de visitar Burren.
— Uma viagem de carro com temática Titletrack! — A mulher parecia prestes a desmaiar. Ela puxou uma trança. — Que ideia maravilhosa. Aaron! Não é uma ideia maravilhosa?
— Maravilhosa — repetiu ele, obediente.
— Pois é, meu irmão é um grande fã. Ele está... — Eu me virei para apontar para Ian, mas a loja estava vazia. — Ops, é melhor eu ir. Muito obrigada pelo conselho.
— Beba bastante água! — gritou o homem quando corri porta afora.
— Leve álcool em gel! — gritou a mulher. — E tome cuidado na península. Tem uma tempestade forte chegando. Uma das piores do verão.
— Obrigada! — gritei por cima do ombro.
No segundo em que pus os pés para fora da loja, a voz de Rowan chegou aos meus ouvidos.
— Mãe, já falei, não estou pronto para discutir isso. Você disse que eu tinha até o nal do verão, ou seja, mais duas semanas. E, se quiser falar com meu pai, ligue para ele... Mãe, chega!
Ele desligou, então deu meia-volta, tomando um susto ao me ver.
Meu primeiro instinto foi fugir, mas quei parada feito uma idiota, agarrada à caixa de cereal, apoiando o pé descalço em cima do calçado. Devia parecer que eu estava ouvindo a conversa. O que era verdade. Só que não tinha sido de propósito. Mas agora eu tinha cado curiosa. Rowan não estava pronto para discutir o quê?
— Ei, Addie — disse Rowan, a voz fraca. — Está aí há muito tempo?
Por favor, diga que não estava escrito em um balão de pensamento acima da sua cabeça. Fiz que não com a cabeça enquanto lhe entregava o cereal.
— Saí agora.
Seu rosto desmoronou em uma expressão triste. Conserte isso, minha voz interior exigia. Ela tinha muito a dizer sobre os sentimentos das outras pessoas. Olhei em volta, tentando pensar em uma maneira de aliviar o clima tenso.
— Lembra quando caí de barriga no chão?
Seu rosto se iluminou na hora.
— Quantas vezes por dia, em média, você se joga no chão em estacionamentos?
Eu olhei para o céu cinzento, ngindo pensar.
— Três. Hoje estou meio devagar.
Seu sorriso aumentou, então ele olhou para baixo e chutou uma pedra.
— Sabe, Addie, você não é nada do que eu esperava.
— Hum... — z, cruzando os braços.
Ele sorria, então imaginei que fosse algo positivo, mas não tinha certeza.
— “Hum” o quê? — perguntou ele.
Eu dei de ombros.
— Esse é um daqueles elogios que poderiam muito bem ser um insulto. Tipo: “Você fez alguma coisa diferente no cabelo? Está tão bonito.” Ou seja, antes estava um lixo. — A boca de Rowan se contorceu em um sorriso. Eu estava falando demais. Voltei ao assunto: — Se não se incomoda com a pergunta, o que você esperava?
Sua covinha se aprofundou.
— Alguém mais comum. Dá pra ver por que Ian fala tanto de você.
Fiquei chocada.
— Ele falou de mim? Achei que vocês não conversassem sobre assuntos muito pessoais.
— Só as coisas importantes — disse Rowan. — Ele me contou que vocês dois são muito próximos. É por isso que estou um pouco confuso por vocês... hã...
Ele gesticulou com a mão.
— Por a gente brigar o tempo todo?
— Foi uma surpresa — admitiu ele, cruzando os braços e voltando a olhar para o chão. — De qualquer forma, ainda bem que você saiu, porque quero mostrar uma coisa. — Ele en ou a mão pela janela do banco de trás e pegou o guia. — Enquanto você estava lá dentro, comparei os pontos turísticos daqui com os do mapa do Ian, e muitos são bem próximos. Alguns já estavam previstos. E adivinha? Um deles é na península de Dingle, nossa próxima parada!
Ele me entregou o guia, abrindo na página cujo título era
. Segurei o livro com força.
— E Ian? — perguntei, olhando de volta para a loja. — Não sei se você reparou, mas toda vez que alguém comenta sobre minha vida amorosa, a gritaria logo começa.
— É mesmo? Eu não tinha reparado. — Ele abriu um sorriso bonito e meio torto que logo foi re etido em meu rosto. — Eu cuido dele. Olha, eu até poderia seguir o guia sozinho. É só que parece um pouco... — Ele torceu a boca. — Patético. Mas, se zermos isso juntos... Não sei se é idiotice...
— Não é idiotice — respondi na hora.
Minha cerimônia com as ores em Burren não tinha sido tão transformadora quanto eu esperava, mas era bom saber que tinha dedicado um tempo para lidar com o que aconteceu com Cubby. Além disso, Rowan estava se abrindo comigo, e eu não podia deixá-lo na mão.
Tornei meu tom mais alegre.
— Quer dizer, por que seria? Na pior das hipóteses, vamos a alguns lugares interessantes. Na melhor das hipóteses, saio da Irlanda com o coração inteiro de novo.
Até parece. Não acreditei em minhas próprias palavras nem por um segundo.
Rowan abriu um sorriso enorme.
— Obrigado, Addie. Vá procurar seu sapato que eu vou procurar o Ian. Tenho certeza de que consigo convencê-lo.
Ele saiu andando pelo estacionamento um pouco mais alegre, e eu me virei para vê-lo se afastar. Será que eu tinha conseguido encontrar a única pessoa no mundo que estava com o coração mais machucado do que o meu?