Amor & sorte

Jenna Evans Welch · Capítulo 2 de 15

Páginas do PDF

Amor & sorte

Prólogo

 

ESTE É O PIOR VERÃO DE TODOS.

Foi com esse pensamento que caí. Não foi: Estou caindo. Não foi: Acabei de empurrar meu irmão das Falésias de Moher. Nem mesmo: Minha tia vai me matar por estragar seu casamento. Só: Este é o pior verão de todos.

Devo admitir que minha capacidade de raciocínio não estava uma maravilha. E, ao terminar de rolar pelo barranco, eu também não.

Quando parei, meu vestido de grife e eu tínhamos passado por pelo menos dez poças de lama, e eu estava em cima de algo fedorento. Mas as surpresinhas de vaca não eram a pior parte. Em algum ponto da descida, eu tinha batido em algo — com força — e meus pulmões estavam tentando lembrar o que deveriam fazer. Respirem, implorei a eles. Respirem, não é difícil.

Por m, consegui respirar. Fechei os olhos, obrigando-me a diminuir o ritmo e a inspirar contando até cinco, como faço sempre que uma pancada me deixa sem fôlego, o que acontece com uma frequência muito maior comigo do que com outras pessoas.

Tenho o que meu técnico de futebol chama de “per l agressivo”. Em outras palavras, sempre que enfrentamos uma escola com jogadoras que se parecem com Átila, o Huno, só que de rabo de cavalo, sei que vou permanecer em campo o jogo inteiro. Levar pancadas de tirar o fôlego é uma das minhas especialidades. Mas, em geral, quando isso acontece, estou usando chuteiras e uniforme, não batom e salto alto.

Cadê o Ian? Rolei para o lado, procurando meu irmão. Como eu, ele estava caído de costas, o paletó azul-marinho meio aberto, a cabeça virada para a base da colina, na direção de todos os ônibus de turismo no estacionamento. Ao contrário de mim, ele não estava se mexendo.

Nem um músculo.

Não. Fiquei de joelhos na hora, o pânico deixando minha visão turva. Os saltos prenderam na bainha do vestido e tentei me soltar, com aquelas cenas de vídeos de primeiros socorros a que somos obrigados a assistir na escola passando pela minha cabeça. Era para começar com o boca a boca? Compressões torácicas? Por que eu não tinha prestado mais atenção na aula?

Estava prestes a me jogar em cima dele quando seus olhos de repente se abriram.

— Ian? — sussurrei.

— Uau — disse ele, em tom cansado, olhando para as nuvens enquanto balançava um braço, depois o outro.

Eu caí de volta no chão, aliviada, lágrimas brotando em meus olhos. Posso ter empurrado meu irmão do topo de um penhasco, mas não o matei. Isso tinha que valer de alguma coisa.

— Continuem andando, pessoal. Olhem para cima. — Fiquei imóvel. A voz tinha sotaque britânico e estava muito próxima. — Hag’s Head

ca um pouco mais adiante. Ah, vejam só, tem um casamento

acontecendo lá em cima! Conseguem ver a linda noiva? E... Minha nossa. Acho que ela perdeu uma das madrinhas. Uma baixinha de lavanda. Olá! Você está bem? Caiu, foi?

Eu me virei na hora, o corpo tenso, pronta para explodir com quem tinha acabado de me chamar de “baixinha de lavanda”, mas o que vi me fez querer sumir. Ian e eu havíamos chegado muito mais perto da trilha do que eu tinha percebido, e uma guia de turismo usando um poncho vermelho-cereja e um chapéu de aba larga se aproximava de nós conduzindo um grupo de turistas encantados. Só que nenhum deles olhava para a paisagem deslumbrante ou para a linda noiva — que por acaso era minha tia Mel. Estavam olhando para mim. Todos os trinta.

Parecia que nunca tinham visto uma briga no meio de um casamento.

Aja com naturalidade.

Eu me endireitei, puxando a saia do vestido para baixo.

— Foi só um tombo! — falei em tom alegre. Credo. “Tombo” não fazia parte do meu vocabulário. E que voz feliz e robótica era aquela saindo da minha boca?

A guia de turismo apontou seu guarda-chuva para mim.

— Você acabou mesmo de rolar daquela colina tão alta?

— Parece que sim — respondi, mais uma vez em tom alegre. Não era bem o que eu gostaria de dizer. Não, só resolvi deitar no esterco.

Olhei para Ian. Ele parecia estar se ngindo de morto. Muito conveniente.

— Tem certeza de que está bem?

Dessa vez, expressei em minha voz uma boa dose de por favor, vá embora agora.

— Absoluta.

Funcionou. A guia fez cara feia e ergueu o guarda-chuva, enxotando o grupo, que, relutante, saiu se arrastando como uma centopeia gigante. Pelo menos eu tinha conseguido me livrar deles.

— Você podia ter me ajudado — falei para o corpo inerte de Ian.

Ele não respondeu. Típico. Nos últimos tempos, tirando os momentos em que tentava me convencer a contar para os nossos pais o que tinha acontecido no verão, ele mal olhava para mim. Não que eu pudesse culpá-lo. Também mal conseguia olhar para mim mesma, e olha que tinha sido eu quem estragara tudo.

Uma gota de chuva pingou na minha bochecha. E mais outra. Sério? Agora? Lancei um olhar de reprovação para o céu e levantei o braço, tentando cobrir minha cabeça enquanto avaliava minhas alternativas. Além de procurar abrigo em uma das lojinhas de suvenir, que mais pareciam tocas de hobbits, minha opção era subir a colina e voltar para a festa de casamento e para minha mãe, cuja raiva já emanava pelo campo. E eu não estava nada ansiosa para enfrentá-la.

Escutei as ondas baterem com violência contra as falésias, e o vento trouxe alguns fragmentos das conversas no topo da colina, como tinha feito com os confetes de borboleta que tínhamos jogado alguns minutos antes.

Você viu?

O que houve?

Eles estão bem?

— Eu não estou bem! — gritei, mas o vento engoliu minhas palavras.

Já fazia uma semana e três dias que eu não estava nada bem, desde que Cubby Jones — o garoto com quem eu tinha cado em segredo o verão inteiro, o garoto por quem eu havia sido apaixonada durante toda a adolescência — tinha decidido esmagar meu coração até virar pó e depois soprá-lo em cima do time de futebol americano inteiro. O time do qual Ian fazia parte. Não era de admirar que ele não conseguisse nem olhar para mim.

Então, não. Eu não estava nada bem. E continuaria assim por muito, muito tempo.

Talvez para sempre.