Amor & sorte

Jenna Evans Welch · Capítulo 3 de 15

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Amor & sorte

Wild Atlantic Way

 

 

Sou eu de novo, docinho. Vim dar uma dica importantíssima para você que está nos estágios iniciais de planejamento da viagem. Leia com cuidado, porque é uma das poucas regras rígidas que vai encontrar por aqui. Está prestando atenção? Lá vai. Ao visitar a Irlanda pela primeira vez, sob hipótese alguma comece sua viagem pela capital, Dublin.

Sei que parece arbitrário. E sei que você acabou de ver uma promoção imperdível para Dublin naquele site de viagens que tem rondado como um urubu a semana toda, mas acredite em mim. Há muitas razões para seguir esse conselho, sendo a principal delas a seguinte:

Dublin é uma cidade sedutora feito o diabo.

Eu sei o que você vai fazer agora, coisinha linda. Vai tentar argumentar, dizendo que o diabo não é lá muito sedutor, ao que eu responderia que o inferno é um excelente lugar para conhecer pessoas interessantes. Fora que aqueles lagos de fogo seriam perfeitos para aquecer os músculos e eliminar o estresse.

Mas não vamos desviar do assunto.

Imagine que você é seu par de brincos favorito, aquele desaparecido desde as comemorações de Ano-Novo. Agora imagine que Dublin é um aspirador de pó. Se chegar perto demais dessa cidade, ela vai sugar você e não haverá esperança de escapar intacta. Estou soando um pouco dramática? Que bom. Usei metáforas demais? Ótimo. Porque Dublin é dramática e digna do uso excessivo de metáforas. É cheia de museus interessantes, estátuas com apelidos hilários e inapropriados e pubs com algumas das melhores músicas do mundo. Aonde quer que vá, você vai encontrar coisas para fazer, ver e provar.

E é aí que está o problema.

Muitos turistas vão para Dublin com planos de passar um ou dois dias e depois se dedicar ao restante da Irlanda. E muitos se veem, uma semana depois, dando sua nonagésima volta em Temple Bar, carregando dois globos de neve com leprechauns dentro e uma sacola cheia de camisetas que custaram o olho da cara — e nada mais.

Típico.

Minha recomendação enfática (ou seria uma ordem?) é começar pelo oeste, mais especificamente no Wild Atlantic Way. E, ainda mais especificamente, em Burren e nas Falésias de Moher. Em breve vamos falar mais sobre isso.

DEVER DE CASA: Surpresa! Enquanto desbravamos essa ilha selvagem, vou propor pequenas atividades pensadas para deixá-la ainda mais encantada pela Irlanda e, com um passo de cada vez, tirá-la desse fundo do poço, onde está mergulhada em mágoa. A primeira atividade? Continuar lendo. É sério. É só continuar a leitura.

— Trecho de Irlanda para corações partidos: um guia não

convencional da Ilha Esmeralda, 3a edição

— VOCÊS COMEÇARAM A BRIGAR NO MEIO DA CERIMÔNIA.

Quando minha mãe cava chateada, sua voz baixava três oitavas e ela começava a dizer coisas óbvias.

Desviei os olhos dos milhares de tons de verde que passavam a toda pela janela do carro, respirando fundo para me manter calma. O tutu lamacento do vestido estava espalhado ao meu redor e meus olhos estavam tão inchados que eu mal conseguia mantê-los abertos. Não que eu pudesse reclamar: o olho do Ian parecia muito pior.

— Mãe, a cerimônia já tinha acabado, a gente...

— Lado errado, lado errado! — gritou Archie.

Minha mãe xingou, girando o volante bruscamente para desviar de um trator. Eu cravei minhas unhas no braço mais próximo, que por acaso pertencia ao meu irmão mais velho, Walter.

— Addie, para com isso! — reclamou ele, puxando o braço. — Você tinha prometido que não ia mais me arranhar inteiro.

— A gente quase bateu de frente com um trator gigante. Não z de propósito — retruquei, empurrando-o de leve para o lado.

Eu tinha passado as últimas setenta e duas horas espremida entre meus irmãos Walter e Archie, dois grandalhões, nos mais variados meios de transporte, e minha claustrofobia estava no nível nove. Se subisse mais um pouco eu ia acabar socando alguém. De novo.

— Mãe, não liga pra eles, você está indo muito bem. Passou pelo trator com uma folga de uns sete ou oito centímetros — comentou Archie, en ando a mão por baixo do descanso de cabeça do banco do motorista para dar um tapinha encorajador no ombro dela. Então estreitou os olhos azuis para mim e moveu os lábios sem fazer som: Para de estressar ela.

Walter e eu reviramos os olhos um para o outro. O homem no balcão da locadora de carros do aeroporto tinha garantido que levaria uma hora, no máximo duas, para minha mãe se acostumar a dirigir na mão inglesa, mas, depois de mais de quarenta e oito horas, cada vez que a gente entrava no carro eu tinha a mesma sensação de quando andava nas montanhas-russas capengas das feiras itinerantes. Vamos todos morrer. Eu considerava aquele funcionário da locadora pessoalmente responsável por todos os danos emocionais e psicológicos com os quais eu sem dúvida voltaria para casa.

Ian, que sempre cava enjoado em viagens de carro e por isso ganhava o direito de ir no banco da frente, foi o único que não se abalou. Ele abriu a janela, fazendo entrar uma rajada de ar frio com cheiro de esterco, balançando o joelho como sempre.

Há duas coisas importantes a se saber sobre Ian. A primeira: ele nunca para de se mexer. Nunca. É o mais baixo dos meus irmãos, só alguns centímetros mais alto que eu, mas ninguém percebe porque sua energia preenche qualquer cômodo em que ele esteja. E a segunda: Ian tem níveis de raiva. Nos níveis de um a oito, ele grita como todos nós. De nove para cima? Ele ca em silêncio. Como agora.

Eu me inclinei para a frente, tentando ver melhor seu olho roxo. Havia um risco de lama abaixo de sua orelha e alguns tufos de grama no cabelo. O olho estava mesmo muito feio. Por que será que tinha inchado tanto e tão rápido?

Ian tocou a pele sob o olho com delicadeza, como se estivesse se perguntando a mesma coisa.

— Briga? Ah, mãe. Foi só uma discussão. Duvido que alguém tenha visto.

A voz dele estava calma, quase entediada. Ele estava mesmo tentando convencê-la.

— A palavra discussão sugere que não houve violência. Eu vi vocês se socando. O que signi ca que era uma briga — acrescentou Walter, muito prestativo. — Além disso, é só ver o seu olho.

— Parem de olhar para o meu olho — resmungou Ian, saindo do seu estado zen.

Todos olharam para ele, incluindo minha mãe, que na mesma hora começou a pegar a contramão.

— Mãe! — gritou Archie.

— Eu sei — retrucou ela, irritada, dando uma guinada para a esquerda.

Eu machuquei mesmo o Ian. Meu coração quase sumiu no meu peito, mas não o deixei escapar. Não tinha espaço para culpa, porque eu já estava transbordando de remorso, vergonha e ódio de mim mesma. Além disso, Ian merecia aquele olho roxo. Ele não parava de falar sobre o Cubby — quase me atacando com aquele nome. Era como se meu irmão tivesse uma vareta com uma brasa na ponta e me queimasse com ela sempre que quisesse.

A voz de Ian surgiu em minha cabeça — o disco arranhado que eu estava ouvindo havia dez dias. Você tem que contar para a nossa mãe antes que outra pessoa conte.

Uma onda de ansiedade subiu pelas minhas pernas com uma sensação quente de formigamento, e me debrucei em Archie para abrir a janela, deixando outra lufada de ar entrar. Não pense no Cubby. Não pense na escola. Não pense, ponto. Eu estava a mais de seis mil quilômetros e dez dias do início do meu segundo ano do ensino médio — não deveria gastar o pouco tempo que me restava pensando no desastre para o qual voltaria.

Olhei pela janela, decidida, tentando prestar atenção na paisagem. Casas e pousadas pontilhavam o cenário formando pequenos aglomerados charmosos, com fachadas muito brancas enfatizadas pelas portas coloridas. Varais carregados de roupas balançavam ao sabor da brisa úmida, e vacas e ovelhas pastavam tão perto das casas que estavam quase entrando nos quintais.

Eu ainda não conseguia acreditar que estava ali. Quando se imagina um casamento no exterior, ninguém pensa em um penhasco com ventos fortes e garoa constante na costa oeste da Irlanda, mas tinha sido justo esse lugar que minha tia escolhera. As Falésias de Moher. Aliás, o h de Moher é pronunciado quase como um r, como em rajadas de vento e chuva, sem falar na razoável subida montanha acima em um par de saltos bege. No entanto, apesar de meus irmãos quase terem precisado carregar os futuros sogros da minha tia nas costas e de todos termos cado com lama até o tornozelo antes mesmo de os votos serem feitos, eu entendia completamente por que minha tia escolhera aquele lugar.

Para começar, a lmagem para a TV caria linda. A equipe que acompanhava a tia Mel — uns caras de vinte e poucos anos com barbas cultivadas com muito esmero — nos obrigara a fazer o cortejo do casamento duas vezes, andando ao redor dela enquanto o vento açoitava seu vestido art déco de uma maneira que poderia ter deixado minha tia parecendo um boneco de posto, mas lhe dera uma aparência esbelta e serena. E depois que estávamos todos posicionados, a vista passara a ser o mais importante, pois era tão grandiosa. Campos de um verde suave terminavam de modo abrupto em penhascos escarpados que desciam até o mar, onde ondas se quebravam nas rochas gerando uma espuma encantadora.

As falésias eram antigas e românticas, além de completamente indiferentes ao fato de que eu tinha passado o verão inteiro arruinando minha própria vida. Pisaram no seu coração na frente de todo mundo?, perguntavam os penhascos. Grande coisa. Olha só como eu quebro essa próxima onda em um milhão de pequenos diamantes.

Por um tempo, a vista lá de cima varrera todos os meus pensamentos. Nada de câmeras, Cubby ou irmão zangado. Havia sido meu primeiro descanso mental em mais de dez dias. Até Ian sussurrar: Quando você vai contar para a nossa mãe? Então, toda a ansiedade acumulada no meu peito explodira. Por que ele não podia deixar aquilo pra lá?

Walter também abriu a janela, criando uma corrente de ar pelo banco de trás. Então soltou um suspiro feliz.

— Todo mundo viu a briga. As pessoas caram chocadas quando vocês rolaram colina abaixo. Aposto que pelo menos um dos caras da equipe de lmagem gravou a cena. E depois apareceram aqueles turistas. Eles conversaram com vocês, não foi?

Ian parou de balançar a perna e cerrou o punho com raiva. Ele se virou para Walter.

— Walt, cala a boca.

— Vocês todos... — começou a dizer minha mãe, mas então empalideceu. — Ah, não.

— O quê? O que foi? — Archie chegou o rosto mais para a frente, tentando enxergar pelo para-brisa. — Uma rotatória — disse ele, no mesmo tom que um cientista da NASA usaria para anunciar que um meteorito estava prestes a destruir a Terra.

Eu agarrei o braço dos meus irmãos. Walter apertou o cinto de segurança no peito. Archie voltou ao modo treinador e começou a dar instruções.

— O motorista ca do lado de dentro da rotatória. Dê a preferência antes de entrar, não quando estiver nela. Mantenha o foco e, faça o que

zer, não pise no freio. Você consegue, mãe.

Entramos na rotatória como se fosse um redemoinho infestado de tubarões. Todos nós prendemos a respiração, a não ser por minha mãe, que soltou uma torrente de palavrões, e Ian, que continuava com sua agitação de sempre. Quando nalmente saímos, houve um suspiro de alívio coletivo no banco de trás, além de um último palavrão vindo do assento do motorista.

— Muito bem, mãe. Se a gente se sair assim nas próximas rotatórias, vai dar tudo certo — tranquilizou Archie, soltando minhas garras do seu braço.

Walt se inclinou para a frente, também se desvencilhando de mim.

— Mãe, por favor, pare de xingar. Você é péssima nisso.

— Todo mundo sabe xingar — retrucou ela, trêmula.

— Você acabou de refutar essa teoria sozinha, meus parabéns — discordou Walt. — Existe uma ciência por trás disso. Algumas palavras combinam, outras não. Você não pode simplesmente jogar todas na mesma frase.

— Mas muito bem posso jogar todos vocês para fora do carro — respondeu ela.

— Viu só? Bem melhor, mãe — elogiou ele. — Acho que você deveria se limitar aos trocadilhos. Pelo menos fazem sentido.

— É uma questão de contexto. E respeito pela forma — acrescentou Ian, com a voz tranquila outra vez.

Apertei minha saia enlameada, confusa. Ian estava calmo-furioso ou calmo-calmo?

Archie olhou feio para todos nós.

— Ela pode usar a combinação de palavras que quiser, desde que a gente chegue vivo ao hotel. Mãe, lembre-se das suas meditações de negócios. Vá para seu lugar de poder.

— Ótimo — resmungou Ian. — Você invocou a Catarina.

— Não precisava mencionar o nome dela — acrescentei.

Minha mãe franziu a testa para nós. Treze meses antes, ela havia trocado as calças de ioga e camisetas largas por um guarda-roupa de corretora de imóveis e várias gravações de Sinta o Negócio, Seja o Negócio, de uma guru de imóveis chamada Catarina Hayford. E não podíamos nem rir muito, porque em apenas um ano ela havia superado noventa por cento dos corretores mais experientes, chegando até a gurar nos outdoors da imobiliária. Isso signi cava que, praticamente em qualquer lugar de Seattle, eu podia olhar para cima e vê-la sorrindo para mim, imperiosa. E ela andava tão ocupada nos últimos tempos que às vezes eu só a via assim mesmo.

— Por que gastei meu dinheiro pagando uma viagem para a Irlanda para vocês quatro? — perguntou minha mãe, a voz alta e irritada.

— Não foi com seu dinheiro — respondeu Walt. — Foi com o da tia Mel. Além disso, se não fosse pelo pequeno espetáculo de Addie e Ian, o casamento teria sido um tédio, mesmo com aquela paisagem. — Ele me cutucou. — Para mim, a melhor parte foi quando nossa irmãzinha revolveu empurrar o Ian do penhasco. Ela estava tão decidida! Foi que nem aquela cena de A princesa prometida, quando a Buttercup empurra o Westley, que sai rolando colina abaixo e diz: “Como... quiser...”

— Duas coisas — disse Ian, os longos cabelos roçando o ombro quando se virou para trás. Seu olhar passou direto por mim. — Primeiro: ótima referência, já que as Falésias de Moher foi onde lmaram as cenas dos Rochedos da Perdição. Segundo: você por acaso viu o que aconteceu?

Walter cou boquiaberto.

— Por que ninguém me avisou disso antes? Você tem razão. A gente estava lá! Nos Rochedos da Perdição. Poderíamos ter encenado essa parte...

— Cala a boca. — Tentei deixar minha voz o mais ameaçadora possível. Quando Walter começava, era como um trem a diesel humano: barulhento e impossível de parar.

— Senão o quê? Você vai me empurrar de um penhasco?

— Estava mais para um soco — interveio Archie. — Ou quem sabe um gancho de direita. A técnica foi muito boa mesmo. Fiquei impressionado, Addie.

Ian se virou de novo, bem rápido, e dessa vez seu olho roxo me encarou.

— Ela não me empurrou do penhasco. Eu escorreguei.

— Aham, claro. — Walter riu. — Ótima maneira de salvar sua dignidade, campeão.

Meti os cotovelos na perna de Walter e Archie, mas eles seguraram meus braços, e tive que lutar para me libertar.

— A gente caiu pelo lado da colina, não pelo penhasco. Ninguém estava em perigo.

Walter balançou a cabeça.

— Foi pura sorte. A tia Mel nunca teria nos perdoado se você tivesse estragado o casamento dos sonhos dela cometendo assassinato. — Ele sussurrou a última palavra, igualzinho ao narrador de seu programa de TV favorito sobre crimes reais.

— Mas imagina só os índices de audiência do episódio do casamento se isso tivesse acontecido — brincou Archie. — A HGTV amaria você pra sempre. Talvez até zessem um reality show só seu. Uma mistura de penetra de casamentos com matadora de aluguel.

— Parem com isso agora. — Minha mãe até ousou tirar uma das mãos do volante para massagear a têmpora direita. — Quer saber? Vou parar o carro.

— Mãe, o que você está fazendo? — gritei quando ela seguiu para o acostamento, uma la gigantesca de carros começando a buzinar atrás de nós. Se eu tivesse que car espremida naquele carro por um minuto além do necessário, ia surtar. — Tem um monte de carro atrás da gente. O acostamento é minúsculo.

— Sim, Addie, eu sei. — Trêmula, ela parou o carro com um solavanco. — Mas isso não pode esperar.

— A briga nas falésias foi cem por cento culpa do Ian! — gritei, sem pensar, e meus três irmãos se viraram para me olhar ao mesmo tempo, horrorizados.

Eu havia acabado de quebrar a regra número um do código dos irmãos Bennett: nunca jogue a culpa no outro. Só que aquela história do Cubby estava em outro nível. Talvez as regras antigas não valessem mais.

O rosto de Ian se contraiu de raiva.

— Foi você quem...

— CHEGA! — A voz de minha mãe reverberou pelo carro como um gongo. — Não quero saber quem começou. Não estou nem aí se Addie lambuzou você de mel e depois o empurrou para dentro da caverna de um urso. Vocês já são quase adultos. E já estou cansada dessas brigas. Vocês rolaram por um barranco. No meio de um casamento.

Caverna de urso? Lambuzado de mel? Minha mãe tinha uma imaginação fértil. Walter começou a rir, mas cou em silêncio quando ela se virou para ele. Então ela se concentrou em Ian.

— Só falta um ano para você entrar na faculdade. Se acha que vou aturar esse tipo de comportamento, está muito enganado. Addie, você tem dezesseis anos e o autocontrole de uma criança de dez.

— Ei! — comecei a reclamar, porém Archie deu uma cotovelada nas minhas costelas, fazendo com que eu me dobrasse de dor.

Foi minha salvação. Se eu tinha alguma chance de sobreviver àquela bronca, precisaria aprender a dominar a sutil arte de car quieta. E minha mãe estava certa. Como aquele “ei” demonstrava tão bem, eu tinha sérios problemas de impulsividade, o que me colocava em apuros com frequência.

— Vocês dois sempre foram tão próximos — prosseguiu minha mãe. — Os mais próximos dos quatro. Por alguns anos, cheguei a pensar que não notavam a existência de mais ninguém. O que está acontecendo neste verão?

O carro cou silencioso de repente. Horrivelmente silencioso. Exceto pelos limpadores de para-brisa, que escolheram aquele exato momento para ganhar vida. Neste verão, neste verão, neste verão, repetiam eles, espalhando água pelo vidro. O joelho de Ian passou a balançar mais devagar, e senti seu olhar em meu rosto.

Conte pra ela.

Ergui os olhos para meu irmão, enviando uma mensagem telepática tão insistente quanto a dele.

Não. Vou. Contar.

— Está bem. Não querem contar, então não contem. — Minha mãe deu um tapa no volante e todos nos encolhemos. — Se o pai de vocês estivesse aqui, os dois estariam no primeiro voo de volta para Seattle. Sabem muito bem disso.

Ian e eu pulamos de susto quase ao mesmo tempo.

— Mãe, não! Eu preciso ir para a Itália. Preciso ver a Lina! — exclamei.

A voz controlada de Ian preencheu o carro:

— Mãe, você deveria pensar melhor.

Ela jogou as mãos para o alto com impaciência, rebatendo nossas emoções com um dos movimentos característicos de quando jogava tênis.

— Não falei que vou fazer isso.

— Calma, Addie, credo — sussurrou Walter. — Você quase deu de cara no para-brisa.

Eu desabei de volta no assento, o pânico se esvaindo de minhas veias. A única coisa boa no casamento da tia Mel — além da paisagem deslumbrante — tinha sido me trazer para a Europa, o continente que roubara minha melhor amiga no começo do verão.

Minha tia havia planejado uma viagem pós-casamento pela Irlanda para todos nós, mas eu conseguira convencer meus pais a me deixarem passar alguns dias na Itália com Lina. Eu não a via desde que ela tinha ido morar em Florença com o pai, Howard, noventa e dois dias antes, e cada um desses dias parecia durar uma vida inteira. Deixar de vê-la não era uma opção. Ainda mais agora, que ela muito provavelmente era a única amiga que me restava.

Ian se debruçou para a frente, aliviado, torcendo os cabelos compridos como um saca-rolhas. Sério, parecia que ele tinha deixado o cabelo crescer só para ter mais opções de tiques nervosos.

— Não pensem que se livraram dessa — continuou minha mãe. — Eu deveria mandar vocês para casa, mas já gastamos uma fortuna com as passagens para Florença, e se eu não car um tempo longe de vocês dois e suas brigas constantes, vou ter um treco.

Fui atingida por mais uma onda de raiva.

— Alguém pode me explicar por que Ian vai comigo para a Itália?

— Addie — alertou minha mãe, irritada.

Ian me encarou com olhos arregalados que diziam: Cale a boca AGORA.

Eu o encarei também. Apesar de eu realmente precisar calar a boca AGORA, era uma pergunta muito pertinente. Por que ele queria viajar comigo se não me suportava?

— Então, é o seguinte — recomeçou minha mãe, interrompendo nossa competição de olhares de ódio. — Amanhã de manhã, Archie, Walter e eu vamos seguir viagem pela Irlanda e vocês dois vão para Florença — disse ela devagar, suas palavras se alinhando como uma

leira de dominós, e prendi a respiração, esperando que ela derrubasse a

primeira peça.

Mas... ela não fez isso.

Depois de quase dez segundos de silêncio, perguntei com a voz esperançosa:

— É isso? Nós vamos e m?

— Você vai simplesmente deixar os dois irem para a Itália? — perguntou Walter, parecendo tão incrédulo quanto eu. — Você não vai, sei lá, botá-los de castigo?

— Walter! — gritamos Ian e eu ao mesmo tempo.

Minha mãe se virou novamente, olhando primeiro para mim, depois para Ian, a coluna girando com perfeição. Pelo menos estava fazendo bom uso de suas aulas de ioga.

— Vocês vão para a Itália. Isso vai obrigar os dois a passarem um bom tempo juntos — disse ela, enfatizando a palavra bom. — Mas há uma condição.

Claro que havia.

— O quê? — perguntei, impaciente, puxando um grampo da parte de trás do meu penteado murcho. Se não fosse deixá-lo morrendo de raiva, eu o en aria no cabelo de Ian para que não caísse mais em seu rosto.

— Lá vamos nós — murmurou Ian, alto o su ciente para apenas eu ouvir.

Minha mãe fez uma pausa dramática, os olhos passando de um para outro.

— Vocês estão prestando atenção?

— Estamos — garanti, e o joelho de Ian saltou em resposta. Ele não conseguia car parado um segundo?

— Esta é a chance de vocês provarem para mim que sabem se comportar. Se eu ouvir um comentário negativo do pai da Lina, um só que seja... Se vocês brigarem, gritarem ou até mesmo olharem feio um pro outro... estão fora dos times.

Houve um momento de silêncio, então uma explosão de vozes.

— O quê?! — exclamou Archie.

— Caramba. — Walter balançou a cabeça. — Você está falando sério, mãe?

— Fora dos times? — perguntei na hora. — O meu futebol e o futebol americano do Ian?

Ela assentiu, um sorriso de satisfação se espalhando em seu rosto feito manteiga derretida. Estava orgulhosa de si mesma.

— É isso aí. Vão sair dos times de futebol e futebol americano. E não precisa nem serem os dois dando problema: se um de vocês arrumar confusão, o outro também vai ser punido. E nada de segundas chances. Se pisarem na bola uma vez, é o m. Sem discussão.

Eu tinha achado que não havia mais espaço para pânico, mas ele se en ou no meio de todos os outros sentimentos, transformando meu peito em um acordeão. Cheguei mais perto, apoiando a mão nos bancos da frente para me equilibrar.

— Mãe, você sabe que preciso jogar futebol esse ano. — Minha voz estava aguda e estridente, não tão persuasiva quanto eu pretendia. — Se os olheiros não me notarem, não vou entrar em um time de faculdade. Este é o ano mais importante. O meu futuro está em jogo.

— Então é melhor você não estragar tudo.

Os olhos de Ian encontraram os meus, e eu pude ver as palavras ricocheteando na sua cabeça. Você já estragou tudo, Addie.

Eu lancei um olhar cortante na direção dele.

— Mas...

— Isso só depende de você. E do Ian. Não vou voltar atrás.

Como se ela precisasse ter feito o último aviso. Meus pais nunca voltavam atrás em nada. Era uma das constantes da vida: a menor distância entre dois pontos é uma reta, vaca-preta sempre ca mais gostosa quando o sorvete está meio derretido, e meus pais nunca voltam atrás quando decidem um castigo.

Mas o futebol? Era a minha única chance de estudar em uma boa faculdade. Por mais que eu me empenhasse, minhas notas nunca eram grande coisa, então eu dependia do esporte para entrar em um curso de engenharia decente. Não era nada garantido, mas eu tinha que tentar.

Além disso, era o futebol. Fechei os olhos, imaginando o cheiro da grama, o ritmo complicado das meninas da equipe, o tempo parecendo voar — todas as outras preocupações sendo jogadas para fora do campo. Aquele era o meu lugar. O único lugar onde eu realmente me encaixava. E agora que Lina tinha se mudado e Ian me odiava, eu precisava estar no time mais do que nunca.

E não só pela Addie do futuro. Eu precisava do futebol para a Addie do presente. Se existia alguma chance de eu sobreviver à vida pós-Cubby, seria no campo.

Minha mãe inclinou a cabeça na direção de Ian, que parecia imitar uma marionete descontrolada.

— Ian, você está ouvindo?

— Estou — respondeu ele, a voz estranhamente resignada.

Sua linguagem corporal e a voz pareciam dizer não me importo, mas eu sabia que isso não podia ser verdade. O esporte era ainda mais importante para ele do que para mim. E ele era muito melhor do que eu.

— Então entendeu que se você ou Addie zerem algo de errado você está fora do time? Sem segundas chances, sem discussão. Você sai e pronto.

— Entendi — disse ele, em tom indiferente.

Sua mão afundou no cabelo de novo, formando um nó.

Archie ergueu um dedo.

— Não estou querendo criticar sua sabedoria, mãe, mas isso parece um pouco duro demais. Um deles pisa na bola, e os dois...

— Não quero mais ouvir um pio sobre o assunto — interrompeu minha mãe.

— Peraí, como assim? — perguntei, assustada, nalmente registrando a segunda parte da condição. — Você está dizendo que, se Ian zer alguma coisa, eu vou ser punida?

— Isso mesmo. E se você zer alguma coisa errada, Ian será punido também. Pense nisso como um exercício de trabalho em equipe. Se um erra, os dois saem perdendo.

— Mas, mãe, eu não tenho nenhum controle sobre o que o Ian faz. Isso não é justo — lamentei.

— A vida não é justa — retrucou minha mãe, uma pontinha de alegria na voz. Meus pais amavam frases de efeito com a mesma intensidade que outras pessoas amam queijo ou bons vinhos.

E como Ian conseguia reagir com tanta frieza? Desde sua primeira partida de futebol americano, quando virou o jogo sozinho e depois levou o time ao campeonato, o esporte tinha sido sua vida. Não só era o quarterback titular da escola, como também já havia sido sondado por duas faculdades diferentes sobre possíveis bolsas de estudo. Uma delas o procurara pouco antes do acampamento de futebol americano. Não era de se admirar que ele estivesse agindo como se não se importasse. Devia estar apavorado por dentro.

Você sabe o que Cubby anda fazendo? Ele está... Sem aviso, as palavras de Ian invadiram minha mente e precisei enterrá-las bem fundo antes que pudessem ganhar terreno. Eu não podia nem pensar no acampamento de futebol americano, a não ser que quisesse surtar de vez. E não podia surtar com a viagem para a Itália em jogo.

— Ótimo. Estamos entendidos — concluiu minha mãe diante do nosso silêncio. Ela se virou para a frente, pondo as mãos no volante na posição correta. — Hoje à noite vamos fazer o seguinte: quando chegarmos ao hotel, quero que todos arrumem as malas. Walter e Archie, o ônibus da excursão sai amanhã praticamente de madrugada, então vocês precisam estar prontos. Addie e Ian, vocês vão tomar banho e trocar de roupa, depois vão comigo até o quarto de sua tia para pedir desculpas e implorar perdão.

— Mãe... — resmunguei, mas ela ergueu a mão, impedindo que eu continuasse.

— Falei implorar? Quis dizer suplicar de joelhos. Depois, todos nós vamos para a festa de casamento, onde espero que se comportem como seres humanos civilizados ou, no mínimo, como macacos mais ou menos adestrados. Então, depois de dançarmos e comermos bolo ou qualquer outra coisa que minha irmã tenha em mente, vamos todos para a cama. Addie e Ian, sugiro que encontrem uma maneira de fazer as pazes. Caso contrário, seus dias na Itália vão ser bem curtos. Ouvi dizer que o cemitério onde Lina mora é bem pequeno.

— Não, é gigante. — As palavras escaparam da minha boca.

— Addie — disparou Ian, sem mais um pingo de paciência. — Já. Chega.

— Eu só não entendo por que você...

— Addie! — gritaram todos no carro.

Eu me joguei de volta no banco, esbarrando nos ombros largos de meus irmãos.

Já chega. Se eu quisesse continuar a jogar futebol, teria que me manter focada em dois objetivos: não provocar a fúria de minha mãe e me dar bem com Ian.

Mordi o lábio, o cabelo despenteado de Ian no canto de minha visão. Quando foi que me dar bem com Ian tinha se tornado um objetivo?

Em qualquer outro momento de nossa vida, Ian me acompanhar na viagem para a Itália faria todo o sentido. Ele sempre foi meu parceiro de aventuras. Quando estávamos no ensino fundamental, Ian gostava de encontrar lugares estranhos na vizinhança para me surpreender. Uma vez, a gente tinha descoberto um galpão abandonado com várias revistinhas velhas. Em outra ocasião, ele havia me ajudado a subir em um enorme carvalho com várias iniciais riscadas no tronco.

 

Ian chamava essas pequenas aventuras de “excursões”. A tradição continuara por anos a o, e nossas carteiras de habilitação apenas ampliaram as possibilidades. Três semanas antes, tínhamos feito outra.

— Está na hora de uma excursão, Addie.

Como sempre, Ian não se deu ao trabalho de bater à porta. Ele saiu entrando no meu quarto e pulou na minha cama depois de esbarrar em mim na escrivaninha.

— Sem chance. Aquele colega de trabalho da mamãe vai chegar em uma hora para o jantar — falei, fazendo a melhor imitação de nossa mãe. — Além disso, você está sujando meus lençóis.

Eu ainda não tinha me virado para ele, então esse comentário foi apenas um chute. Mas eu conhecia Ian. Em vez de tomar banho e trocar de roupa como um ser humano normal, ele quase sempre voltava direto para casa depois do treino. O estofamento do carro que dividíamos, sempre úmido de suor, era prova disso.

Escrevi minha última resposta e virei a página do caderno. Era um insulto profundo fazer aulas durante o verão, mas eu tinha passado raspando em biologia, e meus pais e eu decidimos que era uma boa ideia revisar a matéria.

Ian desabou na cama de um jeito dramático, fazendo as molas do colchão rangerem.

— Ela não vai ligar de a gente perder o jantar para ir à reunião superimportante do Comitê de Estudantes Atletas.

— CEA? — Eu me virei, e a cadeira girou também. — Por favor, não me diga que você me inscreveu nesse troço.

O CEA era a mais nova — e desesperada — tentativa de mudar a fama de nossa escola de ter os espectadores mais agressivos (leia-se: malvados) no estado.

Ian abriu o sorriso que era sua marca registrada, aquele que se espalhava pelo rosto inteiro e signi cava que algo empolgante estava prestes a acontecer.

— Não se preocupe. Eu não inscrevi você nesse troço. Mas, se nossa mãe perguntar, é para lá que estamos indo.

Larguei meu lápis na mesa.

— Sabe que eles vão obrigar você a participar, não sabe? A sra. Hampton disse que ia recrutar os atletas mais queridos da escola e juro que ela olhou com adoração para você ao dizer isso. — Coloquei a mão no peito e imitei o falsete dela. — Ian, sua estrela brilhante de perfeição. Salve-nos de nós mesmos!

Ele fez uma careta de nojo.

— Por favor, por favor, por favor, será que a gente pode não falar de futebol americano? Vou esperar no carro.

Ele se levantou de um pulo e saiu a passos barulhentos, deixando uma mancha de lama no meu lençol branco.

— Ian — resmunguei, olhando para a sujeira.

No entanto, peguei meu tênis debaixo da mesa e fui atrás dele. Ir atrás dele nunca me pareceu uma escolha — era como dormir ou escovar os dentes. Algo que eu fazia e pronto.