Amor & sorte
Epílogo
IAN ESTACIONOU SEM DIFICULDADE E DESLIGOU O MOTOR, MAS manteve o rádio ligado. Titletrack estava tocando, claro. Desde que havíamos voltado para casa, escutávamos a banda sem parar, as músicas se misturando no corredor entre nossos quartos, às vezes competindo, às vezes em harmonia. Elas tornaram uma semana difícil bem mais suportável.
Todo mundo tinha cado bastante chateado. Eu não queria mais guardar segredo, então assim que estávamos todos reunidos de novo, convoquei uma reunião familiar e contei tudo. Meus irmãos tiveram que ser impedidos à força de ir até a casa de Cubby, e meu pai cou com os olhos marejados, em silêncio, por dez terríveis minutos, mas minha família me apoiou. E teve um lado positivo: minha con ssão abriu caminho para a de Ian. O fato de ele ter desistido do futebol americano foi apenas um fogo de artifício perto da minha bomba atômica.
Baixei o quebra-sol para examinar minhas olheiras no espelho. O jet lag da viagem, somado ao nervosismo, tinha provocado muitas noites de insônia. Na noite anterior, acabei ligando para Rowan, e camos ao telefone até as duas da manhã assistindo a um lme péssimo que ele encontrara no YouTube sobre uma princesa guerreira celta chamada Maeve, que vencia todos que se punham em seu caminho. Acho que ele estava tentando me animar.
Ian baixou o volume.
— O Natal está chegando, né?
Minhas bochechas coraram. Às vezes eu podia jurar que meu irmão era capaz de ler meus pensamentos.
— E daí?
— Um irlandês me disse que faltam apenas sessenta e oito dias até as férias de m de ano dele. Somos bons amigos e tal, mas essa contagem regressiva não tem nada a ver comigo. Tem a ver com você.
— Pode parar, Ian.
Como eu tinha previsto, uma vez resolvida a situação, minha mãe e Rowan tinham virado amigos rapidamente. E agora ele viria nos visitar no Natal. Cada vez que pensava em revê-lo, eu sentia um tímido frio na barriga.
Ficamos encarando o para-brisa, nenhum dos dois com pressa de sair do carro. Era impressão minha ou a quantidade de alunos havia magicamente triplicado? Por um momento, minha visão cou turva. Quantos sabiam sobre a foto?
Provavelmente a maioria.
— Maeve, você está pronta? — perguntou Ian, e o som de seus dedos tamborilando interrompeu meus pensamentos.
— Estou — respondi, soando mais segura do que me sentia. Aja com naturalidade.
— Não se preocupe, Addie. Pode contar comigo — disse ele, como se não tivesse me ouvido. — Vou acompanhar você a todas as suas aulas. Já veri quei meus horários. Minha palestra de boas-vindas é no salão B e a sua é no C, então a gente se encontra na recepção. E se alguém falar alguma gracinha para você, responda que...
— Ian, deixa comigo — falei com mais ênfase. — Acabamos de sobreviver a uma viagem pela Irlanda em um carro caindo aos pedaços. Acho que consigo andar pela escola.
— Tudo bem. — Ian voltou a tamborilar os dedos, uma expressão séria no rosto. — Eu sei que você dá conta, mas, se em algum momento estiver achando difícil, pode contar comigo. E não importa o que as outras pessoas digam. Você é Maeve.
— Eu sou Maeve — repeti, permitindo que o nervosismo em sua voz extinguisse o da minha. Era possível que ele estivesse mais preocupado comigo do que eu mesma? Isso me deu forças.
Saltamos e colocamos nossa mochila nas costas. A minha era mais pesada, porque, além dos livros, tinha pedras dentro. Quatro, para ser exata. Tinha sido uma decisão de última hora, mas eu gostava de como aquele peso pressionava meus ombros, rmando meus pés no chão. Além disso, a segurança do aeroporto tinha dado um verdadeiro chilique por eu viajar com as pedras, então era bom serem úteis.
Começamos a atravessar o estacionamento, o olhar ansioso de Ian percorrendo a multidão.
— Ian, relaxa.
Apertei o passo e comecei a andar ao lado dele.
— Estou relaxado — protestou meu irmão, mas tinha começado a mastigar uma mecha de cabelo.
Esse hábito, infelizmente, parecia ter chegado para car. Quando alcançamos a entrada, ele parou, ignorando a multidão de alunos, e balançou o corpo, nervoso.
— Pronta, Maeve?
Era uma boa pergunta. Eu estava pronta?
Este verão tinha me mostrado que eu era uma porção de coisas. Confusa, impulsiva, às vezes insegura, e de vez em quando eu fazia coisas das quais me arrependia — e que não conseguia desfazer. Como não dar ouvidos a meu irmão. Ou oferecer meu coração a alguém que não é digno de con ança. Mas, apesar de todas essas coisas — não, junto de todas essas coisas —, eu era Maeve. O que signi cava que, pronta ou não, eu ia entrar de qualquer maneira. Essa era a minha vida, a nal.
Você vai conseguir, docinho. Pode acreditar.
— Estou pronta — respondi com rmeza.
Encarei os olhos azuis de Ian, reunindo uma última dose de coragem. Então, empurramos as portas e entramos. Juntos.