Amor & sorte

Jenna Evans Welch · Capítulo 8 de 15

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Amor & sorte

Pedra Blarney

 

Chega um momento na vida de toda viajante de coração partido em que ela se vê pendurada de cabeça para baixo no topo de um castelo, os lábios encostados em uma rocha toda babada, e pensa: Como é que vim parar aqui?

Deixe-me tranquilizá-la: isso faz parte do processo e é perfeitamente normal.

Que lugar é esse? O Castelo de Blarney. E a rocha toda babada? A Pedra Blarney, um pedaço de calcário com uma história sórdida e uma propensão a atrair mais de trezentos mil visitantes por ano. Reza a lenda que qualquer um que beije a pedra mágica ganhará “o dom da eloquência” — a habilidade de usar a lábia para escapar de qualquer situação.

Eu não estou totalmente convencida sobre essa história de ganhar lábia, mas sei de duas serventias para a Pedra Blarney: transmitir herpes labial e ilustrar a rejeição. Vamos começar pela rejeição?

Como você é um ser humano e está vivo, vou presumir que já passou pela sua própria versão do momento na Pedra Blarney. Uma ocasião em que ficou vulnerável, pendendo por um fio, mas, em vez da abençoada reciprocidade pela qual seu coração ansiava, tudo o que encontrou foi uma pedra babada que não lhe concedeu proeza oratória.

Já passei por isso. Sei muito bem como é. Também sei que é tentador acreditar que você foi a única pessoa que já passou por essa situação. Mas não foi. Não mesmo. Na verdade, a dor da rejeição é tão comum que serviu de inspiração para cerca de metade das obras de arte da história (e, eu diria, dos atos de loucura também). E, no entanto, quando acontece com você, parece algo inédito. Como se o mundo tivesse inventado a pior coisa possível especialmente para você.

Isso é amor. Universal e, ainda assim, tão pessoal. Eu entendo. Qualquer um que diga que nunca passou por isso está mentindo ou é um robô, e todo mundo sabe que mentirosos e robôs são péssimos amigos. Além disso, os robôs às vezes se revoltam. Deveríamos falar mais sobre isso.

DEVER DE CASA: Você já sabe o que vem pela frente, não é, chuchu? Suba até o alto do castelo, se jogue no buraco e beije a maldita pedra. Aceite os germes compartilhados. Eles estão lá para lembrá-la de que você não está sozinha.

— Trecho de Irlanda para corações partidos: um guia não

convencional da Ilha Esmeralda, 3a edição

COMO DE COSTUME, A IRLANDA NÃO ESTAVA NEM AÍ PARA A nossa pressa. Havia várias obras na estrada para Blarney — operários de construção civil gritavam alegremente uns com os outros enquanto enchiam as pistas de cones de trânsito aparentemente desnecessários. No castelo, não foi muito diferente. Estava lotado de turistas e tomado pelos inúmeros meios de transporte que usaram para chegar até ali.

 

Depois de longos vinte minutos presos em uma la de ônibus de turismo onde reinava o mau humor, Ian ergueu as mãos em um gesto impaciente.

— Que tal eu estacionar e vocês irem fazer sua atividade?

— Você não quer ver o castelo? — perguntei, virando o rosto para dar uma olhada no lugar.

O ponto turístico conseguia passar a impressão de ser ao mesmo tempo imperioso e decrépito, como uma velhinha esbelta usando uma coroa.

Ian en ou a cabeça para fora da janela.

— Já vi.

Rowan riu.

— Tudo bem, Ian. Pode assumir o volante.

Rowan e eu pulamos para fora e Ian passou para o banco do motorista.

— Cuidado com as rotatórias — falei.

— Rá rá, muito engraçado. Eu não vou ter andado nem meio metro até vocês voltarem. — Ele baixou a voz, dirigindo-se a mim. — Não demorem, está bem?

— Pode deixar.

Rowan e eu saímos juntos, seguindo as placas que indicavam que a Pedra Blarney cava no topo do castelo. Nós nos esprememos entre a multidão de turistas tirando fotos para chegar à escada em espiral.

Fui na frente, e devo ter subido rápido, porque quando cheguei lá em cima tive que esperar vários minutos até Rowan nalmente surgir atrás de mim. A respiração dele estava irregular, e o suor brilhava em sua testa.

— Não era uma corrida, Maeve — disse ele, passando o braço pelo meu ombro e ngindo desmaiar.

Gostei de ouvir meu novo apelido outra vez.

— Trabalhei no condicionamento físico durante o verão.

Eu não pude esconder o orgulho em minha voz. Tinha faltado apenas dois dias de treino o verão inteiro. O plano era estar o mais preparada possível para os olheiros das faculdades.

— Vamos esclarecer uma coisa: você sabe que acabou de subir correndo cem lances de escada só para esperar na la e beijar uma pedra babada, certo?

— Não... Nós acabamos de subir correndo cem lances de escada só para beijar uma pedra babada — corrigi. No início da la, um funcionário abaixava com todo o cuidado uma mulher, seu tronco desaparecendo no buraco. — Olha só que divertido. A gente ca pendurado de cabeça para baixo.

— Você gosta de emoções fortes, hein? — comentou Rowan, os olhos cinzentos brilhando.

— Adoro.

Meus irmãos diziam que eu era viciada em adrenalina, e não em um tom muito elogioso. Mas era a verdade. Lugares altos, montanhas-russas... Quanto mais intenso, melhor.

Rowan fez uma careta.

— Não esperava menos de você. Mas, sinto muito, Maeve, o que estou tentando dizer é que não há um “nós” nessa empreitada. Meus lábios não vão chegar nem perto da Pedra Blarney.

— Por quê? Por causa da altura?

Fiquei na ponta dos pés para enxergar por cima do muro. Tirando as Falésias de Moher, aquela era a melhor vista panorâmica da viagem. Dava para ver o mar com diferentes tons de verde lá embaixo, as pessoas espalhadas parecendo confetes coloridos. A vista despertava sentimentos parecidos com os das falésias — eu me sentia livre, desconectada de todo o peso que me esperava lá embaixo.

Rowan também cou na ponta dos pés, embora conseguisse ver por cima do muro sem problemas.

— O problema não é a altura, Maeve. — Ele ajustou os óculos. — Olha, lamento ter que ser eu a lhe dar essa notícia, mas a população local não tem pena da Pedra Blarney. Fazem xixi nela, cospem, todo tipo de coisa. Con e em mim, você não quer beijar aquilo.

Eu balancei o dedo para ele, enquanto a brisa soprava pelo topo do castelo.

— Vou ter que reler o guia para você? É justamente por causa dos germes compartilhados que estamos aqui. Além disso, cresci dividindo o banheiro com três irmãos. Ter nojo de xixi não era uma opção.

Rowan ergueu as sobrancelhas, achando graça, como eu sabia que ele faria. Eu gostava de surpreendê-lo. E, além disso, era a mais pura verdade. Uma vez, quando ainda estava no ensino fundamental, tinha

cado tão farta que peguei uma canetinha e desenhei várias setas com os

dizeres no assento do vaso sanitário. Minha mãe passou uma

hora gargalhando.

— Rainha Maeve, sua valentia não tem limites. Se você vai beijar uma pedra cheia de xixi, eu também vou. Você tem minha lealdade eterna.

Rowan se curvou em uma reverência.

— Muito obrigada, sir — respondi, fazendo uma mesura também.

* * *

Quando nalmente chegou nossa vez, até meu instinto audacioso começou a vacilar. A pedra cava mesmo em um buraco, e tudo o que havia entre nós e o gramado lá embaixo eram três barras de metal.

O funcionário acenou para mim.

— Pronta para receber o dom da lábia, querida?

Ele usava boné, e seu colarinho estava levantado, indo de encontro aos bigodes brancos.

— Pronta — respondi, decidida, ignorando o frio na barriga.

Rowan me lançou um sorriso tranquilizador.

Eu me sentei no chão, chegando para trás até car bem na beiradinha do buraco, que parecia uma caverna gigantesca às minhas costas. Dava até para sentir uma brisa soprando por ele.

— Muito bem. Deite, ponha as mãos nas barras, um pouco mais para trás... mais um pouco... — instruiu o homem em tom ritmado, como se já tivesse feito aquilo um milhão de vezes.

Segui as instruções até estar de cabeça para baixo, as mãos dele segurando minha cintura com rmeza. O sangue desceu para minha cabeça e me lembrei das palavras da Autora do Guia. Como você é um ser humano e está vivo, vou presumir que já passou pela sua própria versão do momento na Pedra Blarney. Uma ocasião em que cou vulnerável, pendendo por um o, mas, em vez da abençoada reciprocidade pela qual seu coração ansiava, tudo o que encontrou foi uma pedra babada...

O rosto de Cubby reapareceu em minha mente e uma pontada de dor se espalhou do meu peito para o resto do corpo. Em vez de sufocar os sentimentos, no entanto, quei parada ali com eles. Pendurada com eles, melhor dizendo. Assim como havia feito em Killarney. Mais uma vez, a dor não desapareceu, mas foi como se estivesse se movimentando, revelando algo que estivera escondido. Meus sentimentos — meu coração partido, minha vergonha, minha mágoa, tudo isso — não eram eu. Eram coisas que eu precisava superar, mas, assim como um par de tênis ou uma camiseta, não faziam parte de mim. Não me de niam.

— Beije a pedra, querida — disse o homem com paciência, despertando-me de minha epifania.

Ah, é. Tasquei um beijo rápido na pedra. Parecia mesmo babada. E era estranhamente fortalecedora. Eu a beijei de novo, dessa vez por Rowan.

— Sucesso! — Rowan agarrou minha mão para me ajudar a levantar. — Você está bem?

— Um pouco tonta.

Eu não tinha certeza do que fazer com minha descoberta. Não era como se eu pudesse despir meu sofrimento como uma camiseta suada. Mas será que poderia encará-lo de uma maneira nova? Como algo que não me de nia?

Olhei para Rowan.

— Você não precisa beijar a pedra. Eu beijei por você.

Ele sorriu.

— Agora você realmente ganhou minha lealdade eterna.

Ele manteve um braço ao redor dos meus ombros para me estabilizar enquanto voltávamos para a escada.

Quando chegamos lá embaixo, eu estava prestes a tentar colocar minha revelação em palavras quando ouvi uma voz em meio à multidão. Era o tipo de voz impossível de ignorar. Feminina. Mandona. Americana.

Meus pés pareceram grudar no chão. Não podia ser...

— Pessoal, escutem bem. Os cinegra stas vão subir primeiro. O resto de vocês vai em la única, certo? Só preciso de uma tomada boa e depois passamos para a próxima atração. Já estamos com o cronograma atrasado, então preciso que sejam rápidos.

— Não... — sussurrei.

— O que foi?

Eu senti mais do que vi Rowan se virar para mim. Não conseguia me mexer. A poucos metros de distância, atrás de um banco de metal comprido, estava minha tia Mel, com a maquiagem elaborada que usava nas gravações.

— Não — repeti mais alto.

Tia Mel se virou para a esquerda, ajustando o blazer de caimento perfeito, e uma segunda onda de pânico tomou conta de mim. Vi Walter. E minha mãe. Walter devia ter sentido que estava sendo observado, porque de repente virou o rosto, e seus olhos encontraram os meus. Um único pensamento surgiu em minha mente. Corra.

Não tive tempo de avisar Rowan. Comecei a correr e dobrei uma esquina do castelo com tanta rapidez que derrapei na lama. Precisava de um esconderijo decente, algum lugar onde pudesse parar e pensar. Algum lugar...

Como aquele. Avistei uma pequena abertura na base do castelo e me lancei em direção a ela, tropeçando nos dois degraus que levavam a um pequeno cômodo. Era quase do tamanho de um closet, e estava escuro como uma caverna, exceto por um no feixe de luz que entrava por uma fenda na parede. Caí de joelhos, a adrenalina correndo pelas minhas veias. E agora? Eu precisava avisar Ian.

— Addie?

Meu coração bateu mais rápido. Felizmente, era só Rowan parado na porta com uma expressão séria.

— Eu sei que não nos conhecemos há muito tempo, mas existe uma coisa chamada decência. Você não pode sair correndo e abandonar seu parceiro de viagem sem explicação.

Decência? Parceiro de viagem? Rowan parecia um professor rabugento quando cava com raiva. Antes que pudesse catalogar mais esse traço como “fofo”, agarrei sua manga e o puxei para dentro, e colidimos quando ele tropeçou nos degraus. O teto era muito baixo para ele, que acabou tendo que se curvar um pouco.

— Minha mãe está lá fora. Todo o grupo do casamento está aí — falei, quase gaguejando.

Ele cou de queixo caído — eu nunca tinha visto isso acontecer de verdade antes — e se virou, ainda boquiaberto, para a porta.

— Onde ela estava? Ela viu você?

— Não, mas Walt viu. Temos que encontrar Ian e dar o fora daqui.

Eu me agachei no chão, tentando acalmar as pernas trêmulas.

— Vou mandar mensagem para ele agora mesmo.

Quando Rowan estava tirando o celular do bolso, uma segunda voz explodiu na caverna-closet, fazendo com que eu perdesse o equilíbrio e Rowan derrubasse o telefone.

— Addie?

Eu me pus de pé na hora. Nunca tinha visto os olhos de Walt tão arregalados, e ele piscou, hesitante, para se acostumar com o escuro.

— Achei que estava cando maluco. Eu vi você, mas você deveria estar na Itália e... — Seu olhar se voltou para Rowan, que ainda estava tateando o chão em busca do celular, e de repente o rosto de Walt assumiu uma expressão de irmão mais velho. — Quem é esse cara?

— Walt!

Eu me joguei no meu irmão assim que ele partiu para cima de Rowan, e o encurralei contra a parede. A situação estava saindo do controle.

— Opa-opa-opa. — Rowan tropeçou para trás, segurando o celular na frente do corpo como se fosse um escudo. — Eu sou amigo dela.

— ESCUTEM AQUI! — gritei a plenos pulmões. Foi um pouco arriscado, mas funcionou.

Eu me afastei de Walter, agora que ele havia parado.

— Walt, este é Rowan. Ele é amigo de Ian. Pode car tranquilo.

— Mas... Mas você não está na Itália. — A voz de Walt cou tão aguda que chegou ao nível dos apitos para cachorros. Se pudesse ouvir a própria voz, ele teria morrido de vergonha. — Nossa mãe acha que você está na Itália. Todo mundo acha que você está na Itália.

— E tem que continuar achando. Ela não pode saber que estamos na Irlanda. Você precisa guardar segredo.

Eu me inclinei para enfatizar o que dizia e fui atingida por uma nuvem de perfume. Walt tinha muitas qualidades. Era um amor de pessoa, descomplicado e também podia ser muito atencioso. Mas tomava um verdadeiro banho de perfume. O que era um problema, já que ele adorava usar perfume o tempo todo.

— Addie, que ideia é essa? — Sua voz subiu mais uma oitava, fazendo minha ansiedade aumentar. Se não o distraísse, ele ia sair correndo e estragar tudo.

Hora de mudar de assunto.

Balancei as mãos na frente dos meus olhos lacrimejantes.

— Walt, seu perfume! Eu achei que nossa mãe tivesse proibido você de trazer.

— Só dei duas borrifadas! — protestou ele. — Duas borrifadas e depois andei pela terceira. É assim que deve ser. Por que vocês não entendem isso?

Rowan se animou, entendendo o meu plano.

— Esse cheiro tem que ser da linha do John Varvatos. É o quê? Artisan Acqua?

A mudança foi instantânea.

— Artisan Blu — disse Walter, a boca exibindo um sorriso relutante. — Você usa?

Varvatos ao resgate. Rowan assentiu com entusiasmo enquanto a tensão na caverna-closet desaparecia.

— Eu já reparei que às vezes preciso diluir um pouco o meu porque é um dos aromas mais fortes. Talvez você devesse tentar.

Rowan era mestre em apartar discussões. Minha mãe ia adorá-lo. Eu só esperava que ela não estivesse prestes a conhecê-lo.

Walt baixou as mãos, a voz mais calma.

— Addie, por que você não está na Itália?

Insira uma explicação plausível/convincente/nada suspeita aqui. Só havia um pequeno problema: eu não conseguia pensar rápido. Talvez se eu começasse a falar, alguma ideia brilhante surgisse.

— A gente cou aqui por causa de Ian. Ele... Hã... — Tentei pensar em alguma desculpa, mas nada surgiu.

— Eles resolveram car porque Ian está fazendo uma pesquisa para sua redação de admissão para as faculdades. — Rowan ao resgate mais uma vez. — Sou um mentor de estudantes do Trinity College. Ian me contratou para ajudá-lo a escrever a redação perfeita. No momento, estamos pesquisando alguns pontos turísticos famosos.

Nada mal. Pena que Walt nunca ia cair nessa. As pessoas acabavam comprando a encenação de Walt, que gostava de se passar por um sur sta relaxado, mas era pura encenação mesmo. Apesar de sua falta de noção na hora de passar perfume, Walt não era nada bobo. Só tirava nota alta e ia completar a faculdade de engenharia química antes do tempo.

— Mas Ian não precisa de uma redação para entrar na faculdade — rebateu Walt, exionando o bíceps esquerdo sem nem perceber. — Ele pode repetir o último ano e ainda assim conseguiria qualquer bolsa de futebol americano em Washington. Por que perderia tempo escrevendo uma redação?

Defendi Ian na mesma hora, minha voz saindo em um grunhido:

— Talvez ele goste de escrever. — Era disso que Ian estava falando. Sempre que alguém discutia seu futuro, automaticamente o imaginava com um capacete e ombreiras. De repente, uma nova ideia surgiu na minha cabeça. E poderia funcionar. Suavizei o tom na mesma hora. — Ian está tentando entrar em Notre Dame ou Penn State. Eles são mais rigorosos, então a redação é importante.

— Penn State? — Walt assobiou, admirado. — É verdade, ele pode precisar de algo a mais para ser aceito lá.

— Exatamente! — Minha voz saiu empolgada demais.

— Mas... por que isso é um segredo? — perguntou Walt, a voz se enchendo de descon ança outra vez.

Ele olhou Rowan de cima a baixo, e Rowan se endireitou, erguendo o queixo de leve, talvez em uma tentativa de parecer mais pro ssional.

— Ele quer fazer uma surpresa para nossos pais — acrescentei na mesma hora. — Imagina só como nosso pai caria empolgado se Ian jogasse pela Penn State? E foi tão difícil para Ian conseguir um bom... conselheiro estudantil. Ele teve muita sorte em achar Rowan.

Walt ainda não parecia completamente convencido, mas assentiu devagar.

— Tudo bem, não vou falar nada. Seu segredo está a salvo comigo.

— Obrigada, Walt, de verdade. Agora, acho melhor voltar para o grupo. É bom não perceberem que você sumiu.

Ele suspirou, cansado.

— Por favor, me lembre de nunca mais viajar com a tia Mel. Os últimos dois dias foram um pesadelo. — Ele ergueu o queixo na direção de Rowan. — Prazer em conhecê-lo, cara. Cuide bem do meu irmão e da minha irmãzinha.

— Ela sabe se cuidar muito bem, mas pode deixar — disse Rowan.

Walt me deu um abraço rápido e perfumado e saiu da caverna-closet.

— Não foi tão ruim, né, Maeve?

Rowan desmoronou junto à parede de novo. Eu desabei ao lado dele.

— Obrigada por pensar na coisa da faculdade. Acho que pode ter funcionado.

Podia até ter funcionado a curto prazo, mas sem dúvida não duraria muito tempo. Guardar segredo não fazia parte do DNA de Walt. Eu tinha acabado de ativar uma bomba-relógio.

* * *

Esperamos o máximo que minha adrenalina permitiu — cerca de sete minutos —, enquanto Rowan mandava uma mensagem para Ian, e então trocamos o casaco azul-marinho que eu estava usando pelo moletom com capuz dele, para que eu pudesse esconder o rosto. Nas circunstâncias atuais, era o melhor disfarce disponível. Saímos da caverna-closet com todo o cuidado e voltamos correndo para o carro. Eu rezava fervorosamente para que ninguém do grupo estivesse prestando muita atenção nos jardins.

Quando chegamos, vimos que Ian estava uma pilha de nervos, tão agitado que mal conseguiu descer o vidro. Nós dois camos abaixados dentro do carro enquanto Rowan tentava sair do estacionamento o mais rápido possível.

— Não era para eles estarem aqui hoje, só amanhã — disse Ian. — Eu conferi o itinerário.

— Parece que eles não estão seguindo o itinerário.

— Não acredito que você viu o Walt — resmungou Ian. — Tinha que ser logo ele?

Era exatamente o que eu estava pensando.

— Talvez que tudo bem. — Eu estava tentando imitar a instrutora de ioga que às vezes vinha aos nossos treinos antes de um jogo importante para nos ajudar a fazer visualizações. Sua voz suave e melódica sempre me acalmava. — Rowan inventou uma ótima desculpa sobre você ter cado na Irlanda para trabalhar em uma redação para a faculdade. Além disso, Walt prometeu que não ia contar para a mamãe.

— Addie, é o Walter.

Eu abandonei a voz de professora de ioga.

— Eu sei. Mas o que você quer que eu faça?

— Ei, se esqueceram da trégua? Nada de brigas!

Rowan estava debruçado no volante, olhando preocupado para a rua. Estávamos parados diante de uma faixa de pedestres, com uma enxurrada de pessoas bloqueando a passagem.

— Eu não estou conseguindo acreditar no que aconteceu, só isso. — Ian parou de balançar tanto a perna e se recostou na janela, desanimado.

De repente, meu celular apitou e ele se virou para trás.

— É nossa mãe, não é? Walt não aguentou nem dez minutos.

— Não é ela — respondi, o alívio logo sendo substituído por confusão. Era uma das minhas colegas de time, Olive, escrevendo tudo em maiúsculas, como sempre.

IAN FOI MESMO EXPULSO DO TIME????

SÓ SE FALA DISSO E TODO MUNDO ESTÁ SURTANDO!!!!

O quê?

Ergui a cabeça, encontrando o olhar nervoso de Ian.

— Quem é? — perguntou ele, a voz tensa.

— É... a Lina — respondi, decidindo mentir. Olive se orgulhava de sempre estar por dentro das fofocas, mas aquela não podia ser verdade. E mencionar algum boato idiota provavelmente só ia deixar Ian mais zangado. — Ela só está con rmando o voo.

A faixa de pedestres nalmente foi liberada e Rowan avançou.

— Amanhã à noite, não é? E eles vão pegar um trem até o festival?

Assenti, confusa demais para responder em voz alta. Como teria surgido aquele boato? E é claro que as pessoas estavam surtando. Ian era o craque, o jogador mais importante. Se fosse expulso, sem dúvida haveria protestos nas ruas.

Esfreguei a tela com o polegar e um pensamento desconfortável me veio à mente. Uma das frases favoritas dos meus pais: Onde há fumaça, há fogo.

Havia algo por trás daquele boato. Mas o quê?

* * *

Assim que saímos de Blarney, a estrada cou mais sinuosa, e Ian voltou a se encolher junto à porta do carro. Eu o observava com atenção desde que tinha recebido a mensagem de Olive. Parte de mim queria en ar o celular na cara dele e perguntar o que era aquilo, mas a outra parte tinha medo do que isso desencadearia.

A voz de Rowan quebrou o silêncio.

— Addie, você sabe o que signi ca essa luz no painel? Acabou de acender.

Parei de ler o guia e cheguei mais para a frente. O medidor de temperatura estava no vermelho, e uma pequena luz laranja brilhava ao lado. Quase desejei não saber o que aquilo signi cava.

— É uma má notícia, não é? — quis saber Ian, observando minha expressão.

— O carro está superaquecendo.

Eu me estiquei para olhar o capô. Pelo menos ainda não havia fumaça saindo. Ainda.

— É grave? — perguntou Rowan, batendo o polegar nervosamente no volante.

— Só se você quiser continuar tendo um motor. — Sua completa falta de entendimento sobre carros era quase adorável. Quase, porque não parava de nos criar problemas. — Pare o carro, mas não desligue o motor.

Ian afastou o rosto enjoado da janela, a voz vacilante.

— Addie, a gente não tem tempo de fazer uma parada. Minha entrevista é em uma hora.

— A gente também não tem tempo de o carro quebrar no meio da estrada. Precisamos parar. Agora.

— Então anda logo com isso, vai. — Ian suspirou, admitindo derrota.

Eu era a especialista em carros e ele sabia disso. A última palavra era sempre minha. Até mesmo nosso pai, que amava carros, tinha começado a me pedir conselhos sobre sua velha BMW.

Rowan parou ao lado de algumas árvores. Eu me agachei perto do capô e vi um pequeno o de líquido que não parava de vazar. Aproximei a mão e uma gota de gosma verde aterrissou na minha palma.

— Que maravilha — murmurei, limpando a mão no short.

Ian e Rowan se agacharam também, um de cada lado. Meu irmão cerrou os punhos, nervoso.

— O que houve? O que é essa coisa verde?

— É o anticongelante. Max deve ter enchido demais o radiador, o que causa muita pressão e provoca um monte de vazamentos, aí o motor não consegue mais se resfriar.

— Eu vou matar aquele cara — anunciou Rowan, dando um soco na própria mão. — E então vou pegar meu dinheiro de volta e matá-lo de novo.

— O que a gente faz agora? Amarra um cabide no radiador? Tapa o buraco com chiclete? — perguntou Ian, ansioso, puxando as pontas do cabelo. — Porque perder a entrevista não é uma opção. Miriam é muito importante no mundo da música. Ela ter concordado em me ver foi...

— Ian, eu entendo — interrompi, tentando pensar em uma solução rápida.

Certa vez, tinha visto o apresentador de um programa sobre carros quebrar um ovo em cima de um radiador fumegante para que o calor o cozinhasse, tapando o buraco. Mas nós não tínhamos um ovo, e de qualquer maneira isso provavelmente ia sujar o motor inteiro.

— A que distância estamos de Cobh?

Rowan levou a mão à testa para proteger os olhos do sol e examinar a estrada.

— Uns vinte quilômetros?

Eu dei um pulo. Nunca era uma boa ideia dirigir com um motor superaquecido, mas se cássemos esperando o reboque, Ian com certeza perderia seu compromisso. Será que valia a pena arriscar?

Olhei para os punhos cerrados de Ian. Era Trevo ou ele: um dos dois ia explodir. Folheei mentalmente o Mecânica de automóveis para leigos que

cava na minha mesa de cabeceira. Era o único livro que eu sabia quase

todo de cor, ele sempre me acalmava. Sim, eu era muito esquisita.

— Ian, ligue o aquecedor. Vamos esperar uns minutos. Rowan, preciso que você deixe o capô aberto e arranje um pouco de água. Vou encher o radiador e a gente ca de olho no medidor durante o trajeto. E Ian, encontre uma o cina em Cobh. A gente precisa ir direto pra lá.

Seu sorriso foi tão grande que iluminou a estrada inteira.

— Pode deixar.