Amor & sorte
Anel de Fadas Secreto
Não estou exagerando quando digo “secreto”, chuchu. A próxima parada é um verdadeiro achado. Um lugar diferente de qualquer outro. Uma experiência que você vai poder levar na bagagem de mão e tirar ali de dentro quando o idiota do assento 23A começar a se gabar sobre todos os lugares obscuros que visitou. (Não que alguém tenha perguntado.)
Em geral, sou adepta do método “saia andando até encontrar algo interessante”, mas neste caso improvisar não vai ser suficiente. Não quando há magia envolvida. Siga o mapa da próxima página e depois volte para cá.
Conseguiu? Eu sabia que ia conseguir. Você é um poço de capacidade.
Agora, antes de começar a caminhar por aquele aglomerado despretensioso de árvores ao leste da estrada, vou definir algumas regras básicas. Etiqueta de fadas para iniciantes. E não quero soar dramática, mas seguir ou não estas regras pode mudar seu destino.
Então... já sabe, né. Obedeça as regras.
Regra no 1: Tome cuidado
As fadas precisam de um lugar para dançar e tomar seus chás de fada. E quando se trata de fadas irlandesas, bem, elas também precisam de um lugar para tramar a ruína de qualquer um que já tenha lhes olhado torto. O que me leva à próxima regra.
Regra no 2: Não irrite as fadas
Fadas irlandesas têm a fama de serem um pouquinho vingativas. No nível “vou roubar o seu bebê e queimar o seu celeiro”. Fadas irlandesas não brincam em serviço, então você também não deve brincar. Fale baixo, não pise nas flores e faça o possível para ter apenas pensamentos bons.
Regra no 3: Deixe um presente para as fadas
Eu sugiro algo pequeno que seja bonito ou delicioso. Moedas, mel, dedais, tacos de peixe, o primogênito do seu vizinho... Qualquer um desses seria uma excelente opção.
Regra no 4: Faça um desejo
Visitar a casa de uma fada e não fazer um desejo é como ir a um baile da escola e se recusar a dançar. Não só é algo sem precedentes como também é uma tremenda falta de educação. Além disso, não se esqueça de que as fadas da vida real agem menos como as fadas madrinhas das histórias e mais como guias para os seus sonhos — elas ajudam você a descobrir o que seu coração realmente quer e dão uma ajudinha para realizar esse desejo. Então fique atenta, chuchu. Talvez ouça algo surpreendente.
DEVER DE CASA: Escreva seu desejo aqui. Prometo não olhar.
— Trecho de Irlanda para corações partidos: um guia não
convencional da Ilha Esmeralda, 3a edição
O MOTOR DE TREVO ESTAVA MEGAGELADO, FEITO UMA Guinness, e o escapamento preso por algo um pouco mais con ável do que um cabide. Tínhamos corrido para a o cina, juntado nosso dinheiro para pagar o conserto e então saído de Cobh feito ma osos transportando bebida ilegal. A pressa era tanta que eu até pulei o discurso de eu avisei que era o radiador que tinha preparado para Connor.
Depois de esbarrarmos em Walt uma segunda vez, havia cado claro que não era mais uma questão de “será quenossa mãe vai descobrir tudo?”, mas sim de “quando nossa mãe vai descobrir tudo?”. Eu me agarrei com todas as forças ao meu último apo de esperança. Talvez Walt não contasse nada para ela. Mas ele estava prestes a explodir — qualquer um podia ver isso. Toda vez que um veículo surgia atrás de nós na estrada, eu me virava, esperando ver o ônibus da excursão de tia Mel na nossa cola, minha mãe enfurecida no banco do motorista.
— Você acha que ela já sabe? — perguntei, observando as árvores passarem. — E agora? — repeti, depois de uma pausa.
— Addie... — resmungou Ian, mas por trás da voz tensa havia um tom de divertimento.
Às vezes, o humor era a única forma de lidar com os problemas. Ainda mais quando se estava prestes a ter sua viagem de carro secreta pela Irlanda descoberta e, por conta disso, seria obrigada a abrir mão da coisa mais importante da sua vida.
Olhei para o cabelo desgrenhado de Ian. Bem, talvez o futebol não fosse a coisa mais importante da minha vida. Mas isso não mudava o fato de que tínhamos começado a viagem com a esperança de que nossos pais nunca a descobrissem, e agora só queríamos manter segredo por mais algumas horas para que pudéssemos ir ao show.
Nossa, a que ponto havíamos chegado.
Pensar em Lina e Titletrack ajudava um pouco: eram a luz no m do túnel. Meu estômago se contorcia de expectativa.
— Eu ainda acho que Walter não vai dedurar vocês — opinou Rowan.
Ele estava dirigindo uns vinte quilômetros acima do limite de velocidade, disparando reto em vez de fazer as curvas, mas este era o terceiro dia de viagem, então nem pisquei. Na verdade, Rowan era um motorista muito atento, e a segurança que ele me passava em outros momentos acabou sendo transferida para quando estava ao volante. Ian, por outro lado, estava pálido de novo.
Apontei para ele.
— Melhor você pegar mais leve, Rowan. Ian não está com uma cara boa.
— Estou bem — insistiu Ian, mas depois, em um raro momento de honestidade, ele voltou atrás. — Não, você está certa. Não estou bem. — Ele encarou o amigo. — Ainda não entendi o que este lugar do guia tem a ver com o Titletrack.
Rowan abriu um sorriso triunfante.
— Você vai ver.
Qualquer que fosse a relação, Rowan estava muito orgulhoso por tê-la encontrado. A luz do sol às vezes entrava pela janela, e toda vez que batia no seu rosto, uma constelação de sardas surgia na ponta de seu nariz. Era estranhamente hipnotizante.
Encontrar o anel de fadas não era um processo simples. Em vez de dar a informação de um jeito convencional, a Autora do Guia usava marcos tipo “a pedra que é a cara do David Bowie em 1998” e “um celeiro de cor irresistível” para nos orientar. Nós tivemos que ir e voltar algumas vezes pela estrada e pesquisar fotos do David Bowie na internet antes de fazermos qualquer progresso signi cativo.
Por m, paramos o carro e atravessamos a estrada até um aglomerado de árvores que não parecia nada promissor. A essa altura, Ian estava uma pilha de nervos. Uma pilha de nervos prestes a vomitar. Tomara que todos os retornos que tínhamos feito valessem a pena.
— O que é um anel de fadas, a nal? — perguntou Ian, saindo da estrada e pisando na lama.
— Os anéis de fadas na verdade são fortes circulares — disse Rowan. — São ruínas de fazendas medievais. As pessoas cavavam fossos e usavam a terra para fazer barreiras em volta. Estão por toda a Irlanda. Mas por um bom tempo ninguém sabia o que eram, então criaram explicações mágicas.
Eu já estava convencida.
— Vamos!
Marchei em direção à oresta como se soubesse o que estava fazendo. Hesitei por um segundo antes de pisar na lama. Tinha a consistência de manteiga de amendoim amolecida. Meu All Star não ia sobreviver àquela aventura.
Ian grunhiu, seguindo em frente. Rowan se aproximou de mim.
— Você sabe o que estamos procurando, certo? É uma formação circular elevada, feita de pedra ou...
— Que nem aquela? — Eu apontei para um aclive arredondado coberto de grama e musgo, e nós apertamos o passo.
Mas encontrar o anel de fadas e chegar ao anel de fadas eram duas coisas muito diferentes. O aclive tinha cerca de um metro e meio de altura e lembrava um escorregador.
— Como nós vamos... — Rowan começou a perguntar, mas Ian, atrás de nós, disparou e escalou a barreira com quatro passadas largas. — Daquele jeito, talvez.
— Uau. Que lugar é este?! — gritou Ian lá de cima.
— Ian, pare de gritar! — avisei, quebrando minha própria regra. — Você vai irritar as fadas.
— Você acha que tenho medo de fadas quando a nossa mãe está por aí? — retrucou ele, mas acabou baixando a voz de modo reverente. — Mas é sério. Que lugar é este?
Rowan e eu nos entreolhamos, então tentamos subir. Mas, como de costume, Ian havia feito aquilo parecer mais fácil do que de fato era. Perdi o equilíbrio e caí de bunda na lama duas vezes.
— Precisa de ajuda, Maeve?
Olhei para cima e vi Rowan se controlando para não rir.
— Você está rindo de mim?
— De jeito nenhum. Tenho medo demais de você para fazer uma coisa dessas. Só estava aqui pensando se já vi alguém falhar tantas vezes em subir uma colina de um metro e meio.
— É culpa dos meus tênis. Era para eu estar andando de lambreta pela Itália, não fazendo trilha na lama.
Tentei subir a colina de novo, dessa vez permitindo que Rowan me ajudasse. Depois que me equilibrei, cheguei mais perto dele.
— Fale a verdade: este é realmente um lugar signi cativo para o Titletrack ou você só estava tentando consolar o Ian?
— É verdade.
Rowan era uma das raras pessoas que cavam ainda mais fofas de perto. Seus olhos acinzentados eram salpicados de azul, e havia uma constelação de sardas em seu nariz.
— Gente! Olhem só isso.
Eu desviei o olhar de Rowan, esquecendo as sardas na hora. Ao nosso redor, árvores altas e bonitas protegiam o anel de fadas, seus galhos formando um gigantesco guarda-chuva. Mas o que mais me impressionou foi a luz. Os raios de sol tinham que atravessar tantas camadas de folhas que, quando chegavam ao anel, lançavam sobre ele um brilho caloroso e mágico.
Se as fadas moravam em algum lugar, tinha que ser ali.
Sem quebrar o silêncio, Rowan e eu descemos com cuidado e entramos no círculo. Ali embaixo, tudo parecia mais silencioso. O vento soprava suavemente pela grama. Bugigangas pequenas e brilhantes cobriam um toco de árvore acinzentado no centro do círculo: três dedais dourados, um isqueiro prateado, dois grampos de cabelo com pérolas e muitas moedas.
— Nossa — sussurrou Rowan.
Ele en ou a mão no bolso, pegando um punhado de moedas e um chiclete com embalagem prateada.
As fadas da vida real agem menos como as fadas madrinhas das histórias e mais como guias para os seus sonhos — elas ajudam você a descobrir o que seu coração realmente quer e dão uma ajudinha para realizar esse desejo. Então que atenta, chuchu. Talvez ouça algo surpreendente.
Eu mexi no bolso e encontrei um punhado de moedas que havia sobrado depois de pagar pelo café da manhã. Entreguei uma a Ian.
— Temos que fazer um pedido, e depois deixar uma moeda ali no centro como oferenda.
— Que nem o Jared fez — anunciou Rowan, triunfante.
Os olhos de Ian se arregalaram, e não porque a voz de Rowan estava acima dos decibéis aprovados pelas fadas.
— Jared esteve aqui?
Rowan assentiu, nalmente se permitindo sorrir.
— Hoje de manhã eu estava lendo mais sobre os primeiros dias do Titletrack e me deparei com uma entrevista antiga na qual Jared contava sobre a visita que fez a um anel de fadas perto de Cobh. Na verdade, ele estava a caminho de Kinsale, que ca mais ao sul, mas por acaso parou em Au Bohair para almoçar e conheceu a Miriam.
Eu pulei de alegria.
— Ele parou para fazer um desejo, e foi aí que tudo começou. Você acha que esse é o anel de fadas que ele visitou?
Rowan deu de ombros.
— Não dá para ter certeza, mas ele disse que era perto de Cobh, e esta é a única estrada principal que leva a Dublin. E agora vou contar a minha parte favorita da história. Em vez de pedir para se tornar um músico famoso, ele disse que pediu às fadas “a próxima coisa de que precisava”. Apenas horas depois, conheceu Miriam, e o resto é a história que a gente conhece.
— Rowan, isso é perfeito! — gritou Ian, sem se preocupar com os delicados ouvidos das fadas. Ele apontou para o centro do círculo: — Este é o verdadeiro início do Titletrack. Bem aqui.
Rowan abriu os braços, orgulhoso.
— Não falei que ia ser legal?
Eu apertei o braço dele.
— Bom trabalho, Rowan.
— Então, hora de fazer nossos pedidos — anunciou Ian. — Se funcionou para o Jared, vai funcionar para a gente. Rowan, você achou este lugar, então pode ir primeiro.
Rowan caminhou até o toco acinzentado e, com todo o cuidado, pôs seu chiclete ao lado de um grampo de cabelo. Ao fazer isso, algo em sua postura mudou. Tornou-se mais receptiva. Houve uma pausa longa e silenciosa, então ele fez seu desejo em uma voz baixa e clara:
— Eu queria que minha mãe e meu pai desistissem um do outro.
De repente me senti uma invasora, espiando um momento particular. Ian e eu nos entreolhamos. Será que Rowan precisava de um tempo sozinho? Comecei a recuar, mas a voz de Rowan me interrompeu.
— Eles sempre brigaram, a minha vida inteira. — Ele se virou para nós, o rosto impassível. — Brigas sérias. Até em público. Uma vez saímos para jantar e a discussão cou tão feia que alguém chamou a polícia. — Rowan estremeceu de leve. — Fiquei tão aliviado no Ano-Novo, quando me contaram que iam se divorciar, porque pensei: Finalmente. Acabou. Mas não acabou. Eles não moram mais na mesma casa, mas ainda estão tão unidos pela raiva quanto estavam pelo casamento. E agora eu estou sempre no meio, não consigo escapar. — Rowan apontou para o carro. — Eles querem que eu escolha com quem vou morar durante o ano letivo. É por isso que todas as minhas coisas estão no Trevo. Ainda não decidi. As duas opções parecem péssimas.
Senti um aperto no coração.
— Rowan...
Não terminei a frase, não sabia o que dizer. A luz do sol se derramava sobre ele, iluminando todas as camadas de sua tristeza. Eu nunca tinha pensado nas relações desse jeito, que o ódio podia ser um elo tão forte quanto o amor. Meu coração doía por ele.
— Eu sinto muito, Rowan — disse Ian. — Não sabia que você estava passando por tudo isso. Eu teria tentado ajudar.
— Você ajudou, mesmo sem saber. — Rowan en ou a ponta do tênis no chão. — Eu precisava de alguém que me conhecesse fora do contexto familiar. E me desculpem por ter reclamado tanto das suas discussões, mas elas me afetavam muito por causa disso tudo. Sei que a mãe de vocês pode ser rígida, mas dá pra ver que vocês cuidam uns dos outros e que sua família se ama de verdade. — Ele olhou para nós dois, seus olhos sinceros e vulneráveis. — Eu queria ter o que vocês têm.
Instintivamente fui até ele e o abracei.
— Rowan, você tem a gente. Estamos aqui e estaremos aqui quando precisar de nós.
Ian foi para o outro lado de Rowan, e encaramos o toco de árvore. Com todo o cuidado, coloquei uma moeda ali.
— Meu desejo é para o Rowan — falei, medindo as palavras. — Eu desejo que ele seja feliz e que saiba que não está sozinho.
— Eu também — disse Ian, pondo sua moeda ao lado da minha. — Meu desejo é para o Rowan.
Rowan não nos agradeceu. Nem precisava. Durante aqueles últimos três dias surreais, Rowan tinha nos apoiado, mantendo-se tranquilo mesmo com nossas brigas e comentários ressentidos. Aquela era nossa forma de agradecer.
Por m, Rowan quebrou o silêncio.
— Eu acho que ajudou. Então, alguém aí quer ir ao Electric Picnic?
— Pode ser — respondi com indiferença, e Ian sorriu. — Não tenho nada melhor pra fazer.
Estávamos saindo do barranco enlameado quando meu celular vibrou. Ian cou tenso.
— Ah, não. O Walt deu com a língua nos dentes?
Eu aproximei a tela do meu rosto. Era Olive.
ADDIE, VOCÊ TÁ BEM? AGORA TODO MUNDO ESTÁ FALANDO DE CUBBY E
UMA FOTO SUA.
Não. Eu congelei, desejando que as letras se reorganizassem, que formassem uma mensagem diferente. Minha respiração acelerou, minhas mãos começaram a suar.
O “todo mundo” de Olive era maior do que o das outras pessoas. Ela tinha uma daquelas raras personalidades que conseguiam circular por todos os grupos, tão à vontade com as outras meninas do time de futebol quanto com a equipe de debate. Quando ela dizia “todo mundo”, era todo mundo mesmo.
O rosto de Ian cou vermelho enquanto analisava minha expressão.
— Addie, o houve? É a nossa mãe?
Passei o telefone para ele e seu rosto cou tenso ao ler a mensagem.
— Ah, não.
* * *
Chorei por quase meia hora. As lágrimas simplesmente não paravam de cair. Rowan e Ian se revezaram me lançando olhares preocupados, mas eu mal notava.
Todo mundo sabia. Todo mundo.
Pior, e se todos tivessem visto?
Ian e Rowan não paravam de me perguntar se eu estava bem, mas era como se eu estivesse dentro de uma bolha, completamente sozinha. Por
m, Ian canalizou sua energia em obter mais informações com um de
seus ex-colegas de time.
— O treinador descobriu, Addie — contou ele, nervoso.
Ian estava me olhando como se eu fosse frágil. Quebrável. Ele não percebia que eu já estava quebrada?
— Como? — Minha voz estava irreconhecível.
— Não sei. Eu não contei. Nem mesmo quando ele tentou arrancar de mim e de Cubby o motivo da briga. Mas agora ele sabe. E...
— E o quê?
Parecia que minha garganta estava cheia de algodão. Eu mal conseguia falar.
O joelho de Ian pulava do assento.
— Tem gente dizendo que o Cubby vai ser suspenso do time. Talvez até expulso. São apenas boatos, mas acho que foi assim que a coisa veio à tona.
A coisa.
Essa coisa era eu. Meu coração e meu corpo, tudo exposto ao julgamento dos outros. Até que ponto isso ia se espalhar? Quanto tempo até minha mãe descobrir? E meu pai? Eu me encolhi no canto de Trevo, tão infeliz que minhas lágrimas secaram. Ian e Rowan tentaram me consolar, mas não adiantava. Eu já conseguia ouvir os sussurros nos corredores. Já sentia os olhares de garotos que tinham visto mais de mim do que eu queria mostrar. Os professores iam descobrir. Meu treinador também. Eu sentia vontade de vomitar. Piorou quando meu celular começou a apitar com mensagens das outras meninas do time, algumas preocupadas, outras apenas curiosas. É verdade?
Silenciei as mensagens e en ei o celular sob a pilha de cacarecos de Rowan. O que mais eu podia fazer?
* * *
Quanto mais nos aproximávamos de Stradbally, mais meu corpo se encolhia. Eu soube que estávamos chegando quando as vias caram engarrafadas e pequenas setas brancas nos direcionaram para uma estrada de terra iluminada por luzinhas coloridas.
Devagar, nos aproximamos do terreno onde aconteceria o festival em uma longa la de carros, com pessoas gritando umas com as outras e música no último volume saindo de cada veículo. Isso me fez lembrar do estacionamento da escola todas as manhãs antes de o primeiro sinal tocar. A sensação de estar lá foi tão forte que eu mal conseguia respirar.
— Chegamos — anunciou Rowan, encontrando meus olhos. Seu entusiasmo estava noventa e oito por cento menor do que deveria estar.
Até Ian parecia mais dócil, o corpo visivelmente mais calmo.
Meu irmão olhou para mim e então apontou para um campo aberto cheio de abrigos improvisados — barracas, caravanas, tendas —, todos amontoados como um circo gigante.
— Bem legal, né? — perguntou, a voz suave. — E lembra que a Lina vai chegar daqui a pouco. Tudo vai melhorar.
Ou piorar, pensei, meu estômago se revirando. Apenas algumas horas antes, eu me sentia bem com a ideia de contar tudo para Lina, mas as mensagens de todos lá da escola tinham mudado isso.
Os nomes das áreas de acampamento brilhavam sob a luz do sol. Eles eram acompanhados por desenhos de pessoas famosas: Oscar Wilde, Janis Joplin, Andy Warhol e Jimi Hendrix. Um homem com um colete vermelho nos conduziu para uma vaga e Ian pulou para fora de Trevo, esticando os braços.
— Não acredito que nalmente chegamos.
— Parece que a viagem durou muito mais de três dias — acrescentou Rowan.
Tive que concordar. O Hostel No Fim Do Arco-Íris e a Inch Beach pareciam ter acontecido em outra vida.
Também saltei do carro e, ainda meio atordoada, acompanhei os dois até a barraca para pegar meu ingresso. Lá dentro dos portões, minha primeira impressão foi caos. O terreno estava lotado, havia pessoas andando e pedalando para todo lado em algumas das roupas mais estranhas que eu já tinha visto. Havia muitos rostos pintados e gurinos que iam desde capas de couro até tutus de bailarinas. E havia música por toda parte, diferentes melodias se misturando como uma trança apertada. Até Rowan e meu irmão pareceram estar tentando absorver tudo aquilo.
Por m, Ian se virou para nós e sorriu.
— Eu acho que deveríamos dar uma volta para nos familiarizarmos com o lugar e depois tentar descobrir onde o Titletrack vai tocar. Que tal? — Ele me lançou um olhar esperançoso. Na verdade, o que estava sugerindo era: vamos distrair a Addie.
— Parece ótimo — respondi, tentando imitar a esperança em sua voz.
Eu tinha passado por tanta coisa para chegar até ali; o mínimo que podia fazer era tentar me divertir.
Apesar das fantasias e da superlotação, o Electric Picnic começou bastante normal, com todos os elementos habituais de um festival: palcos, barracas de comida, oito bilhões de banheiros químicos, crianças gritando em brinquedos, tendas de tarô... Mas, quanto mais caminhávamos, mais eu sentia que havia entrado em um parque temático.
A primeira coisa realmente estranha com que nos deparamos foi o ônibus afundado. Um ônibus vermelho de dois andares enterrado na lama, a metade inferior quase completamente engolida por uma vala. Depois havia um jukebox humano, que consistia em uma estrutura do tamanho de um elevador que abrigava uma banda inteira atendendo a pedidos de canções. Então três caras de vinte e poucos anos passaram correndo vestidos com trajes de sumô enlameados.
— Vocês viram isso? — quis saber Rowan, olhando-os com uma expressão incrédula. O que passou por último usava um tutu brilhante na cintura.
— E aquilo? — perguntou Ian quando avistou um homem andando em uma bicicleta feita com peças de piano.
— É como se a gente tivesse entrado em um universo paralelo — falei, torcendo para que aquilo tudo fosse su ciente para me distrair do celular vibrando em meu bolso.
O cheiro de canela utuou até nós e Rowan farejou o ar.
— Estou faminto. Seja lá o que isso for, eu quero. Alguém mais está com fome?
— Eu — respondi, para a minha própria surpresa.
Normalmente eu perdia o apetite quando estava chateada, mas a comida do festival parecia boa. Além disso, minha mãe alegava que a maioria das di culdades da vida poderia ser superada com a ajuda de manteiga e açúcar. Eu estava disposta a tentar.
— Podem ir comer alguma coisa — disse Ian, pegando seu caderno na mochila. — Vou tentar encontrar o palco onde o Titletrack vai se apresentar. Quero tirar algumas fotos.
— Tudo bem. Quer que eu compre alguma coisa pra você? — perguntei.
— Não. Encontro vocês aqui! — gritou Ian, afastando-se, ele e seu coque se misturando à multidão de amantes da música.
Rowan e eu vagamos pelos food trucks e por m escolhemos um com waffles lindos, que deixavam os meus no chinelo. Pedi uma Nuvem de Chocolate — um waffle belga coberto por uma mistura de chocolate branco e ao leite — e Rowan pediu o Porco Voador, uma combinação de bacon, caramelo e um levíssimo crème fraîche.
Nosso pedido demorou e, quando en m cou pronto, nos sentamos em uma mesa de piquenique vazia e comemos devagar, em silêncio, pelo qual me senti grata. A maioria das pessoas provavelmente tentaria conversar para me deixar menos mal, mas Rowan não; ele apenas me fez companhia, oferecendo pedaços de bacon de vez em quando. No momento em que acabamos, o dia estava começando a parecer cansado, as bordas do céu assumindo uma tonalidade dourada.
Eu tamborilei os dedos na mesa.
— Cadê ele?
— O Ian? — perguntou Rowan, lambendo um pouco de crème fraîche dos dedos.
— Já passou um bom tempo. Ele devia estar de volta a esta altura.
Olhei para a multidão. A direção em que ele desaparecera estava escura e razoavelmente vazia, então era óbvio que o palco do Titletrack não cava por ali.
— Ele deve ter perdido a noção do tempo — sugeriu Rowan, chegando mais perto. — Não sei se você reparou, mas seu irmão ca muito animado quando o assunto é música.
Uma risada escapou pelo meu nariz.
— É mesmo? Nunca notei.
Sua covinha apareceu.
— Ah, aí está ela, Maeve.
— Ela quem?
Presumi que ele estivesse se referindo a alguma outra pessoa de fantasia estranha, mas quando levantei os olhos vi que estava me observando.
— A sua risada. — Ele olhou para baixo, brincando com o guardanapo. — Ei, Addie, sei como é quando o seu mundo desaba...
Rowan fez uma pausa, e eu segurei o garfo com mais força, na esperança de que ele dissesse algo como: Seus amigos terão amnésia coletiva e ninguém vai se lembrar da foto, ou então na verdade sou um viajante do tempo que veio salvá-la do seu passado, mas o que ele falou foi:
— Hoje está sendo um dia ruim, mas não vai ser assim para sempre. Eu prometo.
Assenti em silêncio, meus olhos se enchendo de lágrimas. Sabia que ele estava certo, claro. Acontecimentos ruins derrubavam as pessoas o tempo todo, mas elas se levantavam e seguiam em frente. Só que agora havia uma montanha no meu caminho, além de um monte de mensagens vibrando no meu bolso, e eu não fazia ideia de como escalar até o topo.
Eu me ajeitei no banco, lágrimas prestes a jorrar como uma tempestade irlandesa. Mas então Rowan segurou minha mão, seu toque tão quente e reconfortante quanto em Inch Beach.
— Sabe aquilo que você falou no anel de fadas? Sobre você e Ian estarem do meu lado? Isso vale para você também. Sei que não tenho como resolver as coisas, mas estou aqui para o que der e vier.
Seus olhos atrás dos óculos eram sinceros, e um ponto de calma de repente surgiu no meu peito, espalhando-se aos poucos. A vida podia ser bem imprevisível — eu deveria estar comendo espaguete na Itália, mas estava terminando um waffle na garoa fria da Irlanda, na companhia de um novo amigo com quem eu sabia que podia contar.
— Obrigada, Rowan. Isso signi ca muito pra mim.
Ele viu algo às minhas costas, e sua mão imediatamente soltou a minha.
— Ian voltou.
Dei um pulo, mas, antes que pudesse me virar, um furacão de cabelos cacheados me atingiu com tanta força que quase caí.
— Lina! — gritei, e em resposta ela me abraçou, quase me estrangulando, meu rosto afundado nos seus cachos com cheiro de limão. — Lina, não estou conseguindo respirar!
— Ops. Foi mal.
Ela deu um passo para trás, e ri de tão aliviada que estava em vê-la. A sensação era quase insuportável de tão intensa.
— Lina, você está linda! — falei.
Era verdade. A Itália parecia ter feito bem para ela. Sua pele estava bronzeada e, em vez de tentar domar o cabelo como sempre zera, ela o deixara solto em cachos volumosos e de nidos. Talvez tivesse sido a familiaridade selvagem de seus cabelos que me afetou, mas de repente comecei a piscar para conter as lágrimas. Por favor, não posso começar a chorar nos primeiros segundos depois de vê-la.
— Não acredito que estou aqui. Que lugar é este? Lá na entrada, vi dois caras correndo dentro de uma bola de plástico gigante. — Lina deu um passo para trás, reparando em Rowan. — Você é o Rowan?
— É, sou eu — disse ele, apertando a mão dela.
Esperei que Rowan zesse a cara que todos os garotos faziam quando conheciam Lina — com aquele cabelo e os olhos enormes, ela era uma visão e tanto —, mas ele apenas sorriu educadamente e então olhou para mim.
— Já entendi por que vocês são amigas. As duas gostam de entradas dramáticas.
Lina sorriu e pôs o braço no meu ombro.
— A gente se esforça.
Ian apareceu de repente, envolvido em uma conversa com um cara da altura de Lina, com o cabelo escuro e encaracolado todo bagunçado.
— Ian nos encontrou perto do bosque das fadas — explicou Lina.
— Você que é o Ren? — perguntei ao recém-chegado.
Seu nariz era excepcionalmente italiano e, quando ele sorriu, um pequeno espaço entre os dentes da frente me deixou à vontade na mesma hora. Ren me puxou para um abraço.
— É tão bom conhecê-la. Ouvi muitas coisas sobre você.
Eu sabia o que ele queria dizer, mas ainda assim quei um pouco tensa. Não essas coisas, lembrei a mim mesma. Ele não estava falando das mensagens ou de Cubby. Mas era tarde demais. O pânico percorreu meu corpo e, de repente, quei tonta. Por tanto tempo, contar para Lina o que acontecera tinha sido apenas uma projeção futura, e agora o momento havia chegado.
Claro que ela reparou no meu desconforto na hora.
— Addie? Está tudo bem?
Era melhor contar logo. Acabar com aquilo de uma vez. Engoli em seco.
— Lina, podemos conversar em parti...
— Acabei de encontrar um museu sobre o Titletrack no meio do mato — interrompeu Ian, aproximando-se de mim. — Não sei quem é o responsável, mas vocês precisam ver isso.
E, antes que eu pudesse protestar, Ian começou a nos arrastar na direção de onde tinha vindo, Rowan e Ren logo atrás de nós. Tentei
rmar os pés no chão, mas ele era forte demais.
— Ian, para! Preciso falar com a Lina. Preciso contar a ela sobre...
Não terminei a frase, esperando que meu irmão entendesse a indireta. Em vez disso, ele apertou o passo, e começamos a correr.
— Desculpe, mas isso não pode esperar. O show começa em menos de uma hora.
Os cachos de Lina estavam balançando ao nos acompanhar, e ela virou o pescoço para trás.
— Todo mundo aí?
— Ma certo — respondeu Ren.
Foi então que percebi que Ian não estava me puxando sozinho — Lina também estava. Ela parecia tão empenhada em chegar ao museu quanto Ian.
— O que está acontecendo? — exigi saber. — Por que estamos correndo?
— Apenas con e na gente — falou Lina, apertando meu braço, e então todos os quatro olharam para mim com grandes sorrisos, idênticos ao do gato de Alice no País das Maravilhas.
Isso estava o cialmente cando esquisito.
* * *
Ian nalmente parou sob a copa de várias árvores decoradas. CDs antigos pendurados por tas balançavam na brisa suave da noite, e luzinhas coloridas envolviam os galhos. Velas tinham sido acesas em um toco de árvore que me lembrou o do anel de fadas.
— O que é isso? — perguntei, parando de correr.
— Desculpe, Addie. Sei que você estava muito animada para visitar o museu do Titletrack, mas não é bem isso que temos aqui. — Ian sorriu para mim, então se virou para Lina. — Você trouxe as vestimentas cerimoniais?
— Claro.
Ela desenganchou o braço do meu e, em seguida, deixou sua mochila volumosa cair no chão, pegando quatro pedaços compridos de tecido branco e jogando-os para os outros.
Fiquei olhando enquanto os quatro começaram a torcer o tecido em togas.
— Isso são lençóis? O que está acontecendo?
Ian deu um nó no ombro dele.
— Estamos vestindo os trajes cerimoniais.
— Que história é essa de cerimônia?
— E isso é pra você. — Lina puxou um xale cor de ameixa comprido do fundo da mochila e o colocou sobre meus ombros com todo o cuidado, passando o meu rabo de cavalo.
Eu agarrei a ponta do xale e a segurei contra a luz. Ele era coberto por mandalas intrincadas.
— Onde eu já vi este xale antes?
— Era da minha mãe. Ela usava sempre que havia uma exposição de suas obras em alguma galeria. Dizia que com ele se sentia uma rainha.
Meu coração começou a bater mais rápido.
— Lina, isto é especial. Você tem certeza de que quer que eu use?
— Na verdade, quero que você que com ele.
Ela endireitou o xale em meus ombros, e mordi o interior da bochecha, contendo meu protesto. Cada pedacinho de mim queria recusar o presente, mas não consegui... Era valioso demais.
— Obrigada — agradeci, a voz vacilante.
— De nada. Agora vamos começar. Acompanhante?
Lina gesticulou para Rowan, que foi para meu lado na mesma hora e me escoltou até o toco de árvore iluminado.
— Rowan, pode me dizer o que está acontecendo? — sussurrei. — Você sabia disso?
Sua covinha se iluminou sob as luzes coloridas.
— Desculpe, Maeve, mas jurei guardar segredo. O que posso dizer é que não é um museu do Titletrack.
Ian gesticulou para o toco de árvore.
— Pessoal, cada um pegue uma vela para Addie poder car de pé ali.
O cabelo dele parecia ainda mais despenteado do que o normal, o capuz do moletom aparecendo por cima da toga.
Eu balancei a cabeça.
— Ah, não. Não vamos repetir o que aconteceu em Au Bohair.
O toco estava completamente envolvido por luzinhas coloridas e, apesar de estarmos mais afastados, ainda havia muita gente nas redondezas, e algumas pessoas já paravam para nos ver.
— Relaxa. Você não precisa dizer nada. Nós é que vamos falar. Então suba logo — disse Ian com rmeza.
— Por quê?
Ele suspirou alto.
— Você pode, por favor, não discutir comigo? Só dessa vez? Por favor?
Foi o “por favor” extra que me convenceu. Subi no toco e depois me virei para encará-los. Eles formaram um semicírculo ao meu redor, as velas projetando sombras estranhas em seus rostos. Parecia que eu estava prestes a passar pela iniciação de um culto. Ou ser sacri cada.
— O que está acontecendo?
Eles compartilharam um sorriso conspiratório. Então, Ian acenou para Ren.
— Ok, mestre de cerimônias. Pode começar.
Ren pigarreou e em seguida sua voz se projetou pelas árvores:
— Senhoras e senhores, irlandesas e irlandeses. Temos diante de nós uma linda donzela...
— Ren, não improvise — interrompeu Lina. — Siga o roteiro. Aquilo que combinamos.
— Nessun problema. — Ele pigarreou de novo. — Em um belo dia de verão, algumas pessoas que amavam uma garota queriam que ela soubesse que sempre poderia contar com elas. Então realizaram a primeira cerimônia da rainha Maeve. Aqui mesmo em Stradbally, diante de uma multidão.
A parte da “multidão” era verdade. A plateia estava crescendo a cada segundo, sem dúvida esperando por um show. Ren gesticulou de modo teatral, a voz chegando ao topo das árvores.
— E assim, como a rainha Maeve de tempos passados, nós a pusemos em um lugar alto e vamos honrá-la com uma pedra de cada vez.
Foi então que reparei na pilha de pedras a seus pés e percebi o que pretendiam. Estavam recriando a tumba crescente da rainha Maeve — a história que Rowan havia contado quando me deu o apelido.
— Espera aí. Quem teve essa ideia? — perguntei.
— Ian — respondeu Lina.
Ele balançou a cabeça.
— Todos nós merecemos algum crédito. Rowan deu o apelido, eu pensei na cerimônia, Lina trouxe todos os suprimentos e Ren é o mestre de cerimônias.
— Ian me ligou pouco antes de sairmos para o aeroporto — completou Lina. — Eu só tive quinze minutos para me preparar.
— Minha mãe ajudou — acrescentou Ren. — Ela tem um número surpreendente de luzinhas de Natal.
— Isto é... — Eu mordi o lábio, sem saber o que dizer. Meus olhos estavam marejados. — Então, o que eu faço?
— Só precisa car aí parada. — Ren se virou para Lina. — Sua vez, principessa.
Lina pegou a pedra mais próxima, tropeçando em sua toga ao chegar mais perto.
— Uma boa amiga é como um trevo de quatro folhas. Temos sorte de encontrar. — Ela fez uma pausa, pesando a pedra em sua mão. — Essa frase não é minha. Vi em uma camiseta no aeroporto. — Lina se virou um pouco, dirigindo-se ao grupo. — Para quem ainda não sabe, minha mãe morreu no ano passado. A doença foi muito repentina, e também muito rápida. — Sua voz fraquejou, mas ela olhou nos meus olhos e continuou, falando um pouco mais baixo: — Você se lembra, no m, de quando minha mãe não conseguia mais respirar sozinha e os médicos sabiam que seria apenas uma questão de horas?
Assenti. Aquela memória estava gravada na minha mente. Nunca me esqueceria do momento em que atendi o telefone. Lina chorava tanto que eu não conseguia entender uma palavra do que dizia. Só que eu precisava ir para o hospital. Rápido. O velho nó tomou minha garganta.
Lina respirou fundo, fazendo a chama da vela oscilar.
— Eram quatro da manhã, e embora eu soubesse que o momento estava próximo, de repente senti como se tudo tivesse acabado de acontecer. Como se o diagnóstico e os tratamentos e tudo o mais não passassem de uma piada de mau gosto. Minha avó estava lá, chorando tanto... E minha mãe estava conectada a um monte de monitores. Foi o momento em que entendi de verdade que estava prestes a perdê-la. — Lágrimas escorriam pelo seu rosto, mas Lina não se deu ao trabalho de enxugá-las. Ren pôs a mão no ombro dela. — Mas você sabe o que mais me marcou aquela noite?
Balancei a cabeça, sem con ar na minha voz.
— Você. Menos de dez minutos depois do telefonema, você estava vindo correndo pelo corredor até o quarto dela. Todas as enfermeiras estavam gritando para você parar, mas você não quis nem saber, continuou correndo direto para mim. E saiu de casa tão rápido que nem calçou os sapatos. — Ela fez uma pausa, os olhos brilhando. — Sempre vou me lembrar disso. Você a toda descalça pelo corredor, as enfermeiras gritando. Essa é você de verdade, e nunca vou me esquecer de que, quando mais precisei da minha amiga, você literalmente não hesitou nem um segundo. Só apareceu. — Ela deu um passo à frente, pondo a pedra na base do toco. — Salve a rainha Maeve. Minha melhor e mais rápida amiga.
Nós duas estávamos chorando, as lágrimas escorrendo pelas bochechas. Eu nunca tinha pensado que aquela noite terrível pudesse conter algo além de dor. Algo que Lina levaria consigo como um conforto.
— Minha vez. — Ren pegou uma pedra e deu um passo à frente, apertando o ombro de Lina. — Todo mundo aqui já comeu jujuba?
A mudança repentina de assunto me fez rir. Algumas pessoas de fora do nosso semicírculo assentiram, e mantive os olhos em Ren, tentando não me distrair com a plateia, que agora tinha três leiras. Lina uma vez confessara que Ren tinha uma aparência que ia conquistando aos poucos — quanto mais você o conhecia, mais bonito ele cava. De repente, entendi exatamente o que ela queria dizer.
Ren continuou:
— Bem, eu amo jujubas. Sempre que vou aos Estados Unidos, como sem parar. E todo mundo sabe que há uma ordem especial para comer jujubas. Tipo, você esvazia um pacote e come todas as vermelhas primeiro, depois as verdes, as laranja e as roxas, deixando as amarelas só para quando está realmente desesperado?
Onde ele queria chegar com aquilo? Eu olhei para Lina, mas ela apenas sorriu.
— En m, o que estou tentando dizer, Addie, é que você é uma jujuba vermelha. Todo mundo sabe disso. Aliás, esquece o que eu disse. Você é ainda melhor. Você é um pacote daquelas edições limitadas em que só vinham as vermelhas. E eu sei disso porque, quando Lina precisou de você, você estava lá. — Ele colocou sua pedra no chão. — Salve a rainha Maeve. A jujuba mais vermelha de todas.
— Obrigada, Ren — sussurrei.
Meu corpo parecia não saber lidar com o que estava acontecendo. Era para rir? Chorar? Aproveitar? Com certeza ia aproveitar.
Em seguida, Rowan deu um passo à frente, segurando sua pedra ao lado do corpo. O toco de árvore nos deixava quase da mesma altura, mas ele não encontrou o meu olhar, e seu nervosismo me contagiou. Meu coração começou a bater ainda mais forte.
Ele respirou fundo.
— Certo. Vai ser difícil superar a metáfora da jujuba vermelha, mas lá vou eu. — Ele se balançou nervosamente, um movimento que parecia inspirado em Ian. — Há três dias, eu estava sentado no meu carro caindo aos pedaços quando vi uma garota derrubar o irmão no meio de um estacionamento. Eu a achei surpreendente. E diferente. Então convenci o tal irmão a deixá-la vir com a gente, o que acabou arruinando completamente os planos de viagem dela. — Ele olhou para cima, culpado, arrastando os pés. — Mas os três dias seguintes foram incríveis, porque descobri que ela era mais do que esquentadinha. Era esperta. E leal. E completamente incapaz de usar roupas adequadas ao clima. Nós conversamos sobre coisas que eu nunca tinha falado para ninguém. E mesmo quando nosso carro alagou e fomos perseguidos por cães de guarda... Eu não parava de pensar: queria que esta semana nunca terminasse.
Ele ergueu o queixo, olhando-me diretamente nos olhos.
— E eu queria dizer que você não precisa daquele cara da sua escola. Você não precisa de ninguém, a menos que queira. Você se basta sozinha. Você mais que se basta. Você é Maeve.
Uma sensação quente e tranquila repousou sobre meus ombros, leve como um segundo xale. Era disso que eu havia me esquecido durante o verão: que ser ou não escolhida não de nia o meu valor. Eu tinha valor independentemente disso. Eu me bastava sozinha. Eu queria descer e abraçá-lo, mas, em vez disso, olhei para baixo.
— Obrigada, Rowan — sussurrei.
— De nada. Salve a rainha Maeve. — Ele se inclinou para colocar sua pedra na pilha e baixou a voz, de modo que só eu pudesse ouvi-lo. — Eu não queria ter que me despedir de você amanhã.
— Nem eu — sussurrei de volta.
Por cima da cabeça de Rowan, Lina me olhava com uma expressão alegre, incapaz de conter um sorriso. Eu sorri de volta.
Rowan voltou ao seu lugar, e Ian avançou, segurando a vela diante do caderno aberto em uma página preenchida. Ele havia preparado um discurso. Eu me empertiguei.
— Você se lembra daquela pergunta que o sr. Hummel gosta de fazer no começo de cada semestre? “Se uma árvore cair na oresta e ninguém estiver por perto para ouvi-la, ela ainda fará barulho?”
Eu assenti. Era um daqueles questionamentos que faziam o cérebro derreter.
A vela de Ian balançou.
— Bem, a primeira vez que ouvi essa pergunta, pensei em você. Porque, durante a minha vida inteira, a não ser que você estivesse ao meu lado... me ajudando a apagar as velas de aniversário, torcendo por mim nas arquibancadas, me acompanhando em nossas excursões... era como se o que quer que eu estivesse fazendo não importasse. Não contasse. Você é a única pessoa que conhece a minha vida inteira, que esteve comigo em todos os momentos. O que faz de você a testemunha da minha vida. — Ele baixou o caderno. — Então, qual é a resposta? Se uma árvore cai em uma oresta e sua irmãzinha não está lá para ouvi-la, será que ela faz barulho? Eu não sei. Só co feliz por estarmos na mesma
oresta. — Ele pôs a pedra no chão e recuou para car ao lado dos
outros. — Salve a rainha Maeve, minha melhor e mais antiga amiga.
As lágrimas escorriam até meu queixo, e quei olhando para Ian, seus olhos brilhantes formando um espelho que re etia todas as coisas que via em mim. Então ouvi mais uma voz, desta vez na minha mente: E você, docinho? O que vê em si mesma?
Olhei para dentro com atenção. Vi muitas coisas: coragem, compaixão, perseverança, insegurança, até medo. Mas, emergindo de tudo isso, vi Maeve. Seu cabelo brilhava e ela segurava um escudo, o trono imponente atrás dela. E de repente era eu quem estava no trono — um manto grosso e macio me envolvendo.
O ano seguinte seria difícil, com certeza. E talvez até o ano depois dele. Mas eu era forte o bastante. E corajosa o bastante. Eu era Maeve e ia conseguir superar isso.
Eu pulei de cima do toco de árvore e deixei meus amigos me cercarem em um casulo quente e apertado.
* * *
Quem ainda não estava posicionado no gramado em frente ao palco do Titletrack estava se encaminhando para lá, vindo de todos os cantos possíveis. A banda era a atração principal de todo mundo, não apenas a nossa.
Um ruído abafado e distante soou no equipamento de som, provocando um rugido na multidão e nos fazendo acelerar o passo. Ian foi na frente, sua toga arrastando na lama. Nenhum de nós se deu ao trabalho de tirar os trajes cerimoniais; não dava tempo. Na verdade, isso fez com que a gente casse mais parecido com o resto das pessoas do festival.
— Vou arrumar um lugar para a gente — disse Ian, então desapareceu na multidão.
— Só espero que a gente consiga encontrá-lo depois.
Eu estava segurando a mão de Rowan com força, em parte para evitar que fôssemos separados e em parte porque, depois que o abraço em grupo havia terminado, aquilo acabara acontecendo. Não conseguia parar de pensar em como nossas mãos se encaixavam. Parecia que elas tinham passado aquele tempo todo separadas por um oceano só esperando uma oportunidade de se encontrarem.
A multidão estava cando agitada, beirando o absurdo. Nós tínhamos acabado de escapar por um o de ser atropelados por um homem fantasiado de pavão em uma bicicleta quando um ruído estrangulado e surpreso que soou vagamente como “ai, meu Deus” explodiu atrás de mim.
— Lina, o que houve? — perguntou Ren.
— Addie — chamou Lina, pondo a mão nas minhas costas, a voz ainda estrangulada.
Eu me virei para ela, que estava com os olhos arregalados, mas minha atenção foi tomada por algo que se movia como um foguete na nossa direção, atravessando a multidão. Por acaso aquilo era...?
Era sim.
O foguete era minha mãe.
— Ai, meu Deus — disse, ecoando as palavras de Lina.
Corra, aconselhou meu cérebro, mas mesmo em meu estado de pânico eu sabia que era uma ideia terrível. Correr apenas resultaria em uma perseguição.
Minha mãe surgiu ao meu lado em questão de milissegundos.
— Olá, Addison. Lina. — Seu tom era grave e completamente aterrorizante. — É melhor você começar a se explicar. Agora.
— Como você... — gaguejei. — Como nos encontrou?
A resposta à pergunta apareceu à esquerda de minha mãe. Walter. Acompanhado por Archie, que segurava um algodão-doce gigantesco.
— Walter, você contou pra ela?! — gritei.
Ele ergueu as mãos em protesto.
— Não fui eu. Foi o Archie. Ele arrancou o segredo de mim e depois contou para ela.
— Ei! — Archie tentou acertar Walter no rosto com o algodão-doce, mas minha mãe segurou o braço dele no meio do caminho. — Não coloque a culpa em mim.
— Chega de conversa.
Minha mãe se virou para mim com um olhar petri cante. Nem todo mundo sabia disso, mas, nos tempos de faculdade, ela era uma das principais jogadoras de roller derby do estado. Em momentos como aquele, eu entendia muito bem por que seu apelido no rinque de patinação era Medusa.
— Addison, você deveria estar na Itália. Na Itália. — Enquanto eu tentava pensar em uma resposta, minha mãe se virou para Lina. — Howard sabe que você está aqui?
— Rowan, vá avisar Ian! — sussurrei, aproveitando a distração momentânea.
Ele concordou e correu em direção à multidão, sem dúvida mais que feliz em escapar da Medusa.
Lina assentiu, um pouco animada demais.
— Como é bom vê-la, sra. Bennett. E sim, ele sabe. Foi Howard quem comprou minha passagem pra cá. — Ela empurrou Ren para a frente, claramente contra a vontade dele. — Este é meu namorado, Ren.
— Olá — conseguiu dizer Ren. — É um prazer conhecê-la.
Ele murchou sob o olhar de minha mãe, então fui ao seu resgate.
— Mãe, eu posso explicar. Este show é muito importante para o Ian...
Ela levantou a mão com raiva, silenciando-me.
— Cadê o seu irmão?
E agora, o que eu deveria fazer? A última coisa que queria era que ela encontrasse o Ian. E se ela o impedisse de ver o show?
— Hã... Eu não sei.
— Meninos! — Minha mãe estalou os dedos, e Archie e Walt se empertigaram. — Vocês dois são os mais altos nesta multidão. Encontrem o Ian.
Walt cou na ponta dos pés, esticando o pescoço por cima das pessoas, e Archie foi até um dos equipamentos de som e começou a escalar.
— Acho que é proibido subir ali — comentou Lina, no instante em que um dos seguranças começou a correr atrás dele.
— Estou vendo um coque e uma toga branca logo à frente! — gritou Archie quando o segurança começou a puxá-lo de volta para o chão.
— Por que vocês estão usando togas, aliás? — perguntou Walter.
De repente, a multidão gritou de alegria, e a comemoração foi seguida por uma música estridente. Meu coração deu uma cambalhota.
— Mãe, o show está começando. Não tenho tempo para explicar agora, mas esta é a coisa mais importante que já aconteceu na vida do Ian. Você precisa deixar ele assistir até o nal.
Minha intensidade pegou todos desprevenidos, a mim inclusive. Catarina caria orgulhosa. Regra número quatro: demonstre paixão. Ninguém pode discutir com paixão.
Minha mãe recuou um pouco, as sobrancelhas perfeitas se erguendo.
— Parece que vocês dois estão se dando bem de novo.
Eu assenti.
— Melhor do que nunca.
Ela hesitou, depois gesticulou para Archie e Walter.
— Venham comigo.
Não preciso nem dizer que todos nós obedecemos.
Apesar de Rowan ter lhe dado alguns minutos de sobreaviso, o rosto de Ian cou branco feito papel quando ele a viu.
— Mãe — disse ele em uma voz estrangulada. Parecia que era o único tom em que conseguíamos cumprimentá-la.
— Ian — respondeu ela com frieza. — Há muitas coisas que gostaria de lhe dizer agora, mas sua irmã contou que este show é a coisa mais importante do mundo para você. Então, vou deixá-lo assistir. — Ela apontou para o peito dele. — Mas assim que acabar vocês vão passar por um interrogatório rigoroso e provavelmente carão de castigo pelo resto da vida. Entendido?
— Sim, senhora. Obrigado.
Ian me lançou um olhar agradecido. Em nossa família, “senhora” era um código para sei que você vai acabar com a minha raça e tem todo o direito de fazer isso.
Minha mãe assentiu, satisfeita.
Rowan deu um passo à frente, torcendo as mãos de um jeito nervoso.
— Sra. Bennett? Eu sou Rowan. Prazer em conhecê-la.
Ela inclinou a cabeça.
— Ah. O tutor irlandês.
— Ele é meu amigo — falou Ian.
— E meu também — acrescentei.
— Então me diga uma coisa, amigo Rowan, por que estamos aqui atrás quando o Titletrack está prestes a se apresentar no palco lá na frente? — Ela ergueu o queixo em direção à massa de corpos agitados. — Como vamos conseguir ver alguma coisa daqui?
— Isso é realmente um problema — admitiu Rowan. — A gente deveria ter chegado mais cedo. Talvez ontem.
Ian mordeu o lábio, o rosto desanimado, e me senti desa ada. Ah, não. Eu não tinha passado por tudo aquilo nos últimos dias apenas para
car de braços cruzados no fundo do show enquanto meu irmão se
transformava em uma bola de decepção.
Mas, antes que eu pudesse pensar em uma solução, minha mãe bateu palmas.
— Vamos lá, pessoal. Deem as mãos. Vamos chegar mais perto do palco.
— Mas como? — perguntou Ian. — Essas pessoas devem ter passado a semana toda esperando.
— Ian, não discuta comigo. Este talvez seja seu último dia de vida, então é melhor aproveitá-lo.
Um brilho se acendeu nos olhos dela enquanto observava a multidão, e de repente me lembrei do estoque de discos antigos que ela guardava no sótão desde que eu me entendia por gente. Pelo visto, Ian tinha puxado à nossa mãe.
— Estou falando grego? — perguntou ela quando nenhum de nós se moveu. — Deem as mãos.
Todos os que não pertenciam à família Bennett caram com os olhos arregalados de incredulidade enquanto segurávamos obedientemente as mãos uns dos outros.
— Prontos? — Minha mãe se virou decidida para a massa compacta de pessoas à sua frente, a Medusa se revelando em todo o seu esplendor aterrorizante. — COM LICENÇA!
— Ei, cuidado aí! — reclamou um cara de chapéu azul quando ela deu uma cotovelada nele.
— Cuidado aí você — retrucou ela. — Estou prestes a botar meus
lhos de castigo pelo resto da vida por causa deste show. O mínimo que eles podem fazer é se divertir.
— Caramba — disse o amigo do Chapéu Azul. — Pode passar.
— Alguém já disse que você é igualzinha à sua mãe? — sussurrou Rowan, sua mão segurando a minha com força. — Não sei quem é mais assustadora, Maeve ou a mãe da Maeve.
— Vou tomar isso como um elogio — sussurrei em resposta.
Demorou quase a apresentação inteira da banda de abertura, mas minha mãe e seus cotovelos conseguiram nos levar até lá na frente, chegando mesmo a abrir um pequeno espaço para carmos juntos.
Quando ela parou de atacar a multidão, as pessoas se aglomeraram de novo, e fomos imprensados.
— Mãe, isso foi incrível! — exclamou Ian, extasiado. — Obrigado.
— Não vou dizer “de nada”, porque isso daria a entender que aprovo seu comportamento — retrucou ela, mas seus olhos brilhavam.
Eu z o possível para me acomodar. Meu corpo inteiro estava dolorido e pegajoso depois de colidir com tantos fãs do Titletrack. Todo mundo suava. A temperatura bem no meio da multidão era pelo menos dez graus mais alta do que ao redor.
Lasers tomaram o palco, banhando a plateia em um vermelho brilhante e, então, quatro silhuetas apareceram lá como em um passe de mágica.
— São eles! — gritou Ian, agarrando meu braço com tanta força que parecia um torniquete. — Rowan! Addie! São eles! Olha lá!
— Ian, me solta! — gritei, mas minha voz foi sugada pelo vórtice de berros da multidão.
Os primeiros acordes soaram e reconheci a música imediatamente. “Classic”. A do clipe em Burren. Por um instante, Ian pareceu aturdido demais para reagir, mas então, em vez de sorrir, uma lágrima grossa escorreu por sua bochecha, iluminada pela luz vermelha.
— Qual o problema? — gritei.
Ele apertou meu braço de novo, as unhas cravando meias-luas na minha pele.
— A gente está aqui! — respondeu ele.
O resto da banda se juntou à música, enchendo meus ouvidos e me ancorando ao momento e a Ian. De repente, comecei a pensar em outro aspecto do meu futuro. Dali a um ano, Ian iria para a faculdade, e nós viveríamos longe um do outro pela primeira vez. Como seria a vida sem ele ao meu lado?
Tentei imaginar, mas a única coisa que me veio à mente foi a estrada que percorremos até o Electric Picnic, Ian cantando as músicas do Titletrack no carro, a Irlanda verde e misteriosa passando pelas janelas.
Tive certeza do que eu precisava fazer.
Antes que pudesse perder a coragem, estendi o braço e puxei a manga da minha mãe, que estava ao lado de Ian.
— Mãe, depois do show eu preciso contar uma coisa. É importante. De verdade.
Ela tirou os olhos do palco no mesmo instante em que Ian apertou minha mão.
A estrada adiante cava mais estreita e depois mais larga, então desaparecia no horizonte, longe demais para eu enxergar o que me esperava lá na frente. E eu me entreguei.