Amor & sorte
Cobh
Cobh pronuncia-se COUVE. Ou, como gosto de chamá-la, a cidade do ESCUTE SEU TIO, É SÉRIO.
Sim, há uma história por trás desse nome, meu docinho. Mas, antes, vou contextualizar um pouco.
Cobh é um lugar de despedidas. Sabe a doca perto da água? Foi de onde partiram 2,5 milhões de irlandeses. Foi também onde ocorreu uma despedida bem famosa: a do Titanic. Já ouviu falar dele? O navio inafundável fez sua última parada em Cobh, deixando e pegando alguns passageiros antes de seguir rumo às águas gélidas do Atlântico e à infâmia. Vou lhe contar sobre um dos passageiros sortudos.
Francis Browne era um jovem seminarista jesuíta com um tio que gostava de dar bons presentes. Seu tio, Robert (bispo da catedral pontuda que você vê no centro da cidade), enviou-lhe de aniversário uma passagem para uma viagem de dois dias a bordo do Titanic. O plano era embarcar em Southampton e desembarcar em Cobh, onde Francis ia saborear uma fatia de bolo de chocolate e passar um tempo com o bom e velho tio Rob.
Era um ótimo plano. E um passeio emocionante. Além de tirar mais de mil fotografias, Francis fez vários amigos. Uma rica família americana ficou tão encantada com o rapaz que se ofereceu para pagar sua viagem até os Estados Unidos em troca de sua companhia durante o jantar. Viva! Como era muito obediente, Francis enviou uma mensagem ao tio pedindo permissão para permanecer a bordo e recebeu uma resposta bastante seca: SAIA DESSE NAVIO.
Francis e suas famosas fotografias saíram do navio. Sem dúvida foi a decisão mais importante de sua vida.
Contei toda essa história em preparação para a mensagem bastante concisa e importante que tenho para você, minha pequena marinheira: SAIA DESSE NAVIO.
Que navio? Você sabe que navio, meu amor. Aquele que você construiu antes que a água esfriasse e a navegação se tornasse difícil. O que estocou com otimismo e empolgação e olha só o que vem por aí — isso é tão emocionante! Quando o coração se deixa envolver, o cérebro também quer participar, e começa a criar futuros hipotéticos cheios de ondas e marés favoráveis. E quando esses futuros não se concretizam? Bem, esses navios não vão embora sozinhos. Temos que fazer um esforço consciente para levantar âncora e deixá-los partir.
Então saia desse navio, meu anjo, e deixe-o seguir pelo mar. Caso contrário, você corre o risco de que a embarcação que um dia a carregou se torne a que vai afundá-la. A terra firme não é tão ruim. Eu juro.
DEVER DE CASA: Pegue uma folha de papel resistente e desenhe seu navio, chuchu. E também seus planos, seus sonhos, tudo isso. Não quero nem saber se você não sabe desenhar. Apenas ponha tudo no papel. E então vamos planejar nossa festa de despedida. Use as INSTRUÇÕES BÁSICAS PARA BARQUINHO DE PAPEL no fim deste guia para criar uma pequena embarcação. Dobre o futuro que imaginou, transformando-o em um barco, e coloque-o na água. Deixe o mar fazer o resto.
— Trecho de Irlanda para corações partidos: um guia não
convencional da Ilha Esmeralda, 3a edição
CHEGAMOS EM COBH QUASE DERRETENDO. PARA AJUDAR A resfriar o motor de Trevo, foi preciso ligar o aquecedor no máximo. Quando nalmente chegamos à o cina, suávamos em bicas. E quei ainda mais agitada quando o mecânico — um sujeito chamado Connor, com um leve cheiro de atum — me olhou e decidiu que eu não fazia ideia do que estava falando.
— Pode deixar que vou dar uma olhada — disse ele.
— Tem um furo no radiador — insisti. — Eu já encontrei.
Ele deu um sorriso condescendente.
— Veremos.
Antes que eu pudesse explodir, Ian me puxou para a porta.
— A gente se fala mais tarde.
Seguimos às pressas pelas ruas à beira-mar, carregando nossa bagagem pelas leiras de casas coloridas com varais cheios de roupas nos quintais. Barcos utuavam nas docas como patos de borracha
gigantescos, e uma catedral de pedra pontuda se erguia, alta e imponente, com o campanário perfurando as nuvens.
A igreja estava cercada de visitantes e, quando nos aproximamos, os sinos começaram a tocar, sua música surpreendentemente alegre para uma estrutura tão sombria.
— Nossa.
Eu parei e estiquei o pescoço para ver melhor a torre do sino.
— Ei! — Ian gritou mais alto que o barulho e voltou para agarrar meu cotovelo. — Esses sinos signi cam que estamos atrasados. Você pode olhar a igreja mais tarde.
— A gente vai ter que voltar para a nossa atividade depois de qualquer forma — comentou Rowan, apontando para o porto.
— Está bem. — Suspirei, ajustando a mochila em meu ombro e começando a correr.
O pub Au Bohair era inconfundível. A estrutura de dois andares havia sido pintada de um surpreendente azul Tiffany e cava entre uma loja de chapéus cor de limão e uma padaria cor de cereja. Apesar de ainda estar cedo, a atmosfera era festiva, como se fosse dia de jogo, com música e pessoas espalhadas pela calçada, uma nuvem de fumaça de cigarro pairando no ar. Quando alcançamos a multidão, Ian correu até um homem parado na porta vestindo um macacão jeans surrado.
— Você sabe onde posso encontrar a Miriam?
— Miriam Kelly? — Ele abriu um grande sorriso, revelando dentes amarelos como sabugo de milho. — À esquerda do palco. Ela está sempre lá. Tome cuidado para não incomodá-la durante uma passagem. Já cometi esse erro.
Ian assentiu, nervoso, me entregando a alça de sua mala.
— Addie, você pode...?
Ele disparou pela porta sem concluir a pergunta, desaparecendo entre as pessoas.
— Claro, imagina! — gritei para as costas dele.
Não era como se eu já tivesse minha própria mala para carregar. O homem olhou para mim e sorriu, achando graça.
— Eu ajudo você — ofereceu Rowan, pegando o guia debaixo do meu braço e desaparecendo tão rapidamente quanto Ian.
— Sério? — murmurei, agarrando as malas.
Desajeitadamente, entrei no pub, atropelando os pés das pessoas com as rodinhas e fazendo os clientes quase derramarem suas bebidas. Foi só quando me espremi no meio do salão que parei para olhar em volta. Havia mesas de madeira por toda a parte e as paredes estavam quase totalmente cobertas por pôsteres de bandas. Um bar bem abastecido
cava em um canto, e clientes ocupavam cada centímetro livre.
— Ian!
Ele e Rowan estavam na ponta dos pés, olhando sedentos para o palco. “Palco” talvez fosse um exagero. Na verdade, não passava de uma pequena plataforma de madeira, a cerca de meio metro do chão, que de alguma forma conseguira acomodar um grande emaranhado de músicos, seus inúmeros instrumentos emitindo uma melodia decididamente irlandesa.
Abri caminho até os dois.
— Seria bom ter uma ajudinha aqui.
Nenhum deles demonstrou ter me ouvido. Estavam ocupados demais babando como dois fanáticos.
— É o primeiro palco do Titletrack — falou Rowan, os óculos praticamente embaçando de emoção. — Este lugar é incrível. Tão, tão incrível.
— Não acredito que a gente está aqui — disse Ian. — Estamos no lugar onde o Titletrack se apresentou pela primeira vez.
Eu me en ei entre eles para chamar a atenção.
— Lembram de quando vocês dois me deixaram com todas as malas?
— Esse aí é o meu futuro jornalista de música? — perguntou uma voz rouca atrás de nós.
Nós nos viramos e demos de cara com uma mulher baixinha e gorducha, usando óculos de armação grossa e um vestido marrom folgado, o cabelo puxado para trás em um nó apertado.
— Hã... Você é a...? — Foi tudo o que Ian conseguiu dizer.
— Miriam Kelly. — Ela o puxou para um abraço, dando algumas batidinhas entusiasmadas nas costas dele. — Você conseguiu chegar! Achei que tivesse me dado um bolo.
Ian pigarreou, tentando sem sucesso superar o choque de descobrir que a mulher mais importante da música irlandesa parecia o tipo de pessoa que assava pão de banana e fazia crochê nas horas vagas.
— Hã... — repetiu ele.
De repente, seu sorriso sumiu, e ela apontou um dedo para Ian com a expressão séria.
— Então, me diga: é mesmo o m das bandas de garagem?
— Você leu o artigo dele! — exclamei, reconhecendo o título.
Ela voltou os olhos brilhantes para mim.
— Claro. Este rapaz deixou cinco mensagens de voz e enviou uma quantidade absurda de e-mails. Ou eu chamava a polícia ou marcava uma reunião. Você deve ser a irmã mais nova.
— Isso, sou Addie — falei, aceitando seu aperto de mão rme. — E este é Rowan, nosso amigo. Ele também é um grande fã do Titletrack.
— É uma honra conhecê-la. — Rowan a cumprimentou também, com um sorriso de orelha a orelha. — Uma honra.
— Um irlandês entre os americanos. Gostei. — Ela se virou para mim. — Addie, seu irmão é um ótimo escritor. Fiquei muito impressionada.
— Ficou? — O rosto de Ian se iluminou feito um bolo de aniversário, e ele cambaleou para trás. Nunca tinha visto um elogio atingi-lo tão forte, e olha que quando estava em campo as pessoas não paravam de louvar seus feitos. — Obrigado — disse, em um o de voz.
Miriam deu um tapinha nas costas dele.
— E adorei ver que você é tão jovem. Quando se tem a minha idade, a gente percebe que a idade não tem nada a ver com capacidade. Quando uma pessoa é boa, ela simplesmente é boa. Por que esperar até car mais velha? E depois que tiver envelhecido, por que parar? Pelo menos esse é o meu lema.
Que Titletrack que nada. A gente deveria começar um fã-clube dela.
Miriam continuou:
— Quero que vocês peguem uma mesa. Passei o verão inteirinho na estrada, mas hoje eles me deixaram voltar à cozinha e z meu famoso guisado de carne com Guinness. Bruce Springsteen disse que mudou sua vida.
— Bruce Springsteen? — Ian parecia prestes a desmaiar.
Ela bateu um dedo no queixo, pensativa.
— Ou foi o Sting? Engraçado, às vezes confundo os dois. Vou dizer para o pessoal na cozinha que você chegou. Volto já, já.
Ela se afastou, sem parecer reparar no choque que causara.
— Ian, isso foi incrível! — exclamou Rowan, entusiasmado.
Meu irmão se virou para mim, os olhos arregalados.
— Acabei de falar com Miriam Kelly.
— Não, você acabou de ser elogiado por Miriam Kelly — corrigi, o orgulho borbulhando no meu peito.
Sempre que Ian estava feliz, sua felicidade me contagiava.
* * *
Miriam havia levado Ian até uma mesa próxima ao palco, então Rowan e eu escolhemos outra mais perto da porta, em uma tentativa de dar a Ian um pouco de privacidade para a entrevista.
— Então, por que Miriam é tão importante? — perguntei, de olho em Ian.
O rosto dele continuava muito vermelho, e até agora já havia derramado ensopado na camiseta e derrubado a caneta no chão duas vezes. Se fosse se tornar um jornalista de música, teria que aprender a não car embasbacado diante de pessoas famosas.
Rowan assentiu.
— Ela é uma espécie de diretora de talentos informal. No começo, apenas convidava bandas para tocarem aqui no pub, mas depois que ajudou alguns dos maiores artistas da Irlanda a começarem a carreira, as gravadoras passaram a contratá-la como olheira. Há quinze anos, ela ouviu o Titletrack em uma competição universitária e convidou a banda para tocar aqui no verão. Foi assim que eles conseguiram os primeiros fãs.
En ei minha colher na tigela de ensopado.
— Ela também é uma ótima cozinheira — falei.
O ensopado favorito de Springsteen era uma mistura de cenouras, batatas e molho com duas grandes bolas de purê de batatas por cima. Era tão saboroso e quentinho que eu queria me en ar na tigela.
— Ei, você já leu o dever de casa do guia? — perguntou Rowan, empurrando o livro para mim. — A gente precisa fazer um barco de papel e depois colocar na água.
— Você vai participar dessa ou vai amarelar de novo? — provoquei, abrindo na seção sobre Cobh.
— Olha, desde que não envolva uidos corporais, estou dentro.
— Faz sentido.
Eu me recostei na cadeira, feliz. Estava relaxada e de barriga cheia pela primeira vez em dias. A música ao vivo tinha sido substituída por um álbum do Queen que reconheci de quando meu pai limpava a garagem, mas o que eu mais ouvia era a voz de Ian. Ele jogava a cabeça para trás, gargalhando.
Quando tinha sido a última vez que o vira rir tanto? Nos últimos anos, ele havia cado mais solene, o que provavelmente tinha a ver com o futebol americano. Era de se esperar que, sendo o craque do time, ele receberia tratamento especial, mas, pelo contrário, os técnicos pareciam pegar mais pesado com ele. E meu irmão levava os jogos a sério. Eu nem precisava consultar o calendário para saber quando seria o próximo jogo porque ele sempre cava quieto e mal-humorado alguns dias antes.
Pensar em futebol americano me lembrou da mensagem de Olive. Olhei para o meu celular, um nó se formando em minha barriga. IAN FOI MESMO EXPULSO DO TIME???? Eu não podia continuar ignorando aquela mensagem. Se havia boatos sendo espalhados sobre Ian, ele merecia saber. Mas e se não for apenas um boato?, perguntou meu cérebro baixinho. Eu o silenciei na mesma hora. Claro que era só um boato. Ian teria que botar fogo na escola para fazerem algo tão drástico quanto expulsá-lo do time.
De qualquer forma, eu precisava conversar com ele assim que tivesse uma oportunidade. A última coisa de que nosso relacionamento precisava era outro segredo.
Olhei na direção de Ian e ele olhou para mim, acenando para irmos até lá. Na mesa deles, a tigela do meu irmão ainda estava pela metade, as linhas de seu caderno preenchidas pela caligra a apertada. Seu rosto brilhava de empolgação.
— Adivinhem só? Miriam disse que podemos car aqui esta noite.
— Você está falando sério? Onde? — Rowan se virou como se esperasse que uma cama aparecesse no meio do bar.
Miriam sorriu, empurrando a cadeira para trás.
— Lá em cima. Temos alguns quartos para alugar, em geral para os músicos. Acho que Jared passou quase um mês inteiro no quarto principal. O que me lembra, ele ainda não me pagou, aquele pilantra. Acho que agora tem dinheiro mais que su ciente, não é? Vou dar uma ligadinha para ele.
— Jared? — Rowan cou boquiaberto. — Jared, o vocalista? Ele cou aqui? E você tem o número dele?
— Claro que sim. — Ela deu de ombros, olhando para Ian. — Me avise quando terminar seu artigo. Posso até encaminhar para ele, se você quiser.
— Você... — Ian engasgou com as próprias palavras, o rosto passando para um vermelho intenso. — Eu...
Ele engasgou, e bati nas costas dele.
— Ian, respire.
Miriam ergueu as sobrancelhas.
— Ian, você vai car bem. Quando estiver no ramo há tanto tempo quanto eu, vai descobrir que os músicos são só humanos. Humanos interessantes, é verdade, mas, mesmo assim, humanos. — Ela se virou para mim. — Por falar em pessoas interessantes, quero saber mais sobre você, Addie.
Meu rosto tentou imitar o de Ian. A atenção de Miriam era um pouco intensa demais.
— O que tem eu?
Ela me cutucou com o dedo.
— Ouvi dizer que você é uma excelente mecânica. Isso é um talento. Não da minha área, mas não deixa de ser um talento. Ian me contou que não teria chegado aqui sem você.
A felicidade a orou em meu peito.
— Ian, você disse isso?
Ele deu de ombros, um pequeno sorriso no rosto.
— Bem, é verdade, não é?
Rowan se juntou a ele.
— Se não fosse por Addie, ainda estaríamos arrastando o escapamento pela Irlanda. Ela nos salvou hoje de novo. Logo que saímos de Blarney, meu carro começou a superaquecer e ela conseguiu nos trazer até a o cina mecânica aqui da rua.
Miriam suspirou.
— Deixe-me adivinhar, a o cina de Connor Moloney? Odeio dizer isso, mas aquele homem é tão inútil quanto um bule de chocolate. — Ela cruzou os braços. — E aí, mecânica. O que tem a me dizer?
O que eu tinha a dizer?
— Hã, eu gosto de carros, só isso.
— E você é boa — insistiu ela.
— Eu a chamo de Maeve — acrescentou Rowan. — Porque, na primeira vez que a vi, ela pulou em cima de Ian em um estacionamento. Addie é uma rainha guerreira.
Agora eu estava vermelha de verdade.
— Desculpe a pergunta, mas por que estamos falando sobre isso?
— Porque precisamos! — Miriam ergueu o braço. — Precisamos de mais rainhas guerreiras por aqui. Especialmente as que fazem jus a seu poder. — Ela se aproximou, estudando minha expressão envergonhada. — Addie, você sabe o que eu faço, certo? Minha carreira?
Eu assenti, desconfortável.
— Sei... Você descobre músicos talentosos.
— Errado. — Ela apontou para mim, a voz cando mais alta e entusiasmada. — Eu os empodero. Encontro pessoas que estão por aí, cantando suas músicas, ponho um microfone na frente delas e faço o resto do mundo ouvir. E sabe de uma coisa? Quero fazer isso por você, Addie.
Do que ela estava falando?
Antes que eu tivesse tempo de entender, ela se levantou e me deu o braço, arrastando-me para o palco.
— Ei, Miriam, eu não canto. Nem toco nenhum instrumento.
Nem subo em palcos. A menos que estivesse em campo, odiava ser o centro das atenções. Tentei me desvencilhar, desesperada, mas ela me puxou para cima do palco sem di culdade, posicionando um microfone na minha frente. Ian e Rowan observavam de olhos arregalados, mas nenhum deles tentou me salvar. Traidores.
— Pat! O microfone! — gritou Miriam.
Um dos atendentes se abaixou atrás do bar e, de repente, o microfone começou a funcionar. Miriam praticamente o en ou na minha cara.
— Vamos lá, Addie. Conte para essa plateia simpática o que você fez.
Olhei para ela, horrorizada. É verdade que o pub não estava tão lotado quanto antes, durante a apresentação dos músicos, mas ainda havia muitas pessoas, e todas ergueram os olhos, com um sorriso no rosto. Sem dúvida já estavam acostumadas com as maluquices de Miriam.
— Vamos lá — insistiu ela, me cutucando. — Fale para o pessoal qual é o seu nome e como você é incrível. Fazer uma declaração pode ser algo muito poderoso.
Eu preciso mesmo fazer isso? Assim que o pensamento surgiu em minha mente, o braço de Miriam se apertou ao meu redor como uma jiboia. Ela não ia me deixar sair do palco de jeito nenhum. Pigarreei.
— Hã, olá, gente. Meu nome é Addie Bennett.
— Rainha Maeve! — gritou Ian da plateia, as mãos em concha ao redor da boca.
Corei do topo da cabeça até os dedos dos pés. Quando isso terminasse, ia matar meu irmão.
— Então... Miriam quer que eu conte para vocês que nos últimos dois dias estivemos viajando pela Irlanda. Nosso carro não para de quebrar, mas eu consegui consertar. E... é isso.
Empurrei o microfone para as mãos de Miriam e tentei descer do palco, mas ela agarrou as costas da minha camisa.
— Só um minutinho, Addie. Sabe o que eu gosto de ver? Uma mulher que conhece sua força. Uma mulher que admite ser inteligente e criativa, uma mulher capaz de fazer coisas acontecerem. Addie, você é uma mulher poderosa. — Ela pegou minha mão e a levantou sobre nossas cabeças, como se estivéssemos celebrando uma vitória. — Vamos lá, Addie. Diga.
Eu me encolhi.
— Dizer o quê?
Rowan e Ian sorriram um para o outro. Estavam adorando cada segundo daquilo.
— Diga “eu sou a heroína da minha própria história”.
— Eu sou a heroína da minha própria história — falei rapidamente.
— Não, não, não. Mais alto. Abra o diafragma. Sinta as palavras.
Será que ela não percebia a ironia de obrigar alguém a se declarar uma pessoa poderosa? Acabe logo com isso, falei para mim mesma.
Respirei fundo e gritei no microfone:
— Eu sou a heroína da minha própria história!
— Sim! Mais uma vez! — gritou Miriam.
Dessa vez eu realmente me soltei:
— EU SOU A HEROÍNA DA MINHA PRÓPRIA HISTÓRIA!
— Boa garota. — Miriam deixou meu braço cair, seu rosto brilhando de suor.
Na verdade, tinha sido bom gritar. Provavelmente seria ainda melhor se eu acreditasse naquelas palavras.
* * *
— Bem, aquilo foi esquisito — consegui dizer, arrastando minha mala e a de Ian até a escada. Assim que Miriam me liberara do palco, Ian disparou na frente, querendo ver nossos quartos.
Rowan sorriu.
— Você subiu no palco e gritou para um bando de estranhos que é uma heroína. O que há de esquisito nisso?
Eu tentei bater nele, mas segurando as malas era impossível. Rowan tomou uma delas, arrastando-a para a escada.
— Vou dar uma passadinha na o cina, para ter certeza de que Connor vai conseguir arrumar o carro até amanhã de manhã. Dá para acreditar que o Electric Picnic é amanhã?
— Não — respondi. Eu não conseguia acreditar. Os últimos dias tinham se arrastado ou passado voando? — Vou car por aqui. Talvez seja melhor Connor e eu não nos encontrarmos de novo.
Ele abriu um sorriso.
— Que pena. Eu estava torcendo para ver a heroína Maeve em ação outra vez.
— Rá rá.
Segui Ian escada acima, o peso das malas me fazendo esbarrar nas paredes. Por m, cheguei lá em cima e larguei tudo no chão.
— Isso é inacreditável!
Segui a voz de Ian, que vinha do outro lado da porta.
O teto do quarto era inclinado, e havia duas camas de solteiro encostadas na parede oposta. A luz fraca entrava por uma única janela octogonal.
Meu irmão estava deitado na cama mais próxima.
— Em qual delas você acha que Jared dormiu? Esta daqui?
— Não faço a menor ideia — falei, desviando os olhos. A devoção de Ian ao Titletrack era quase vergonhosa.
Fugi para o quarto ao lado, demorando mais do que o necessário para ajeitar minha mala ao lado da cama. A mensagem de Olive ardia em meu bolso. Eu precisava falar com Ian. Urgentemente.
Quando entrei no quarto principal de novo, meu irmão tinha mudado de cama e estava com os braços debaixo da cabeça, um sorriso sereno no rosto. Eu estava mesmo prestes a fazer aquilo? Eu sou uma heroína, pensei com amargura.
— Obrigado por trazer a gente até aqui — disse Ian antes que eu pudesse abrir a boca. — Signi ca muito para mim.
— Ah, imagina — falei, ocupando a outra cama. — Então, Ian, preciso falar com você sobre uma coisa.
— Eu também! — Ele rolou de bruços, pegando seu caderno. — Eu queria dizer que você deveria contar para a nossa mãe sobre o Cubby o mais rápido possível. Talvez até antes de voltarmos para casa. Se quiser, posso distrair Archie e Walter no aeroporto enquanto você conta.
— O quê?
Senti a ponte entre nós desmoronar de uma só vez. Agora ele não apenas estava insistindo que eu contasse, mas estava querendo ditar a hora e o lugar também.
Ian se sentou.
— Acho que você deveria contar sobre o Cubby antes de...
— Ian, eu ouvi — falei, levantando e me apoiando na porta do armário atrás de mim. — Mas ainda não estou preparada para contar pra ela. Não tão cedo.
Ele fechou o caderno com força.
— Mas você disse que eu estava certo. Quando estávamos em Torc Manor.
— Eu disse que talvez você estivesse certo. Nunca prometi que ia contar.
Ian cou de pé também e começou a andar de um lado para outro, furioso.
— Você está de brincadeira comigo, Addie! Por que não?
— Porque não estou pronta. Só vou contar se eu quiser. — E, mesmo sabendo que as próximas palavras causariam uma explosão, não pude deixar de dizê-las. — Além disso, o que aconteceu com Cubby não é da sua conta.
— Não é da minha conta? — Ele parou de andar, os olhos faiscando de raiva. — Addie, eu adoraria que isso fosse verdade, mas nós dois sabemos que não é. Passou a ser da minha conta no segundo em que entrei no vestiário.
Senti um nó na garganta. O vestiário. Toda vez que tentava imaginar a cena de Ian, meu irmão, a única pessoa que tinha feito Cubby parar, entrando no vestiário, minha mente fechava as cortinas diante da imagem.
— Como eu ia saber que Cubby faria aquilo? — Minha boca estava seca.
Ian apontou para mim.
— Porque eu avisei. Eu disse que ele não era boa coisa. — Era a mesma briga que vínhamos tendo durante todo o verão. Ela me deixava completamente exausta. — Addie, me escute, só desta vez. Você não pode mais guardar segredo sobre o que aconteceu. Você precisa contar à mamãe assim que puder.
— Pare de tentar mandar em mim! — explodi, meu coração martelando no peito. — E quem é você para falar sobre segredos, Indie Ian? — cuspi o nome, e meu irmão semicerrou os olhos.
— Não tente virar o jogo.
— Por que não? — Eu abri os braços, mostrando o quarto. — Amigo irlandês secreto. Carreira de escritor secreta. Planos secretos para a faculdade. — Eu deveria fazer uma pausa para me controlar, mas estava com muita raiva. En ei a mão no bolso e botei o celular quase na cara dele. — E isto aqui. Que história é essa?
Ian arrancou o telefone da minha mão, e seus ombros se curvaram ao ler a mensagem de Olive.
— Como ela descobriu? — perguntou ele, baixinho.
Suas palavras me atingiram com um baque, e minha mente virou um turbilhão.
— Peraí, você está dizendo que é verdade? Você foi expulso do time? Por que não me contou?
Ele jogou o celular na cama.
— Porque foi por sua causa, está bem? Eu fui expulso do time por sua culpa.
Não.
Saí do quarto com as mãos tremendo; subitamente tinha uma montanha pesando no meu peito.
A voz era dele suplicante.
— Addie, eu fui expulso do time. Nossos pais ainda não sabem, mas não posso guardar esse segredo pra sempre. Você precisa contar para a mamãe. Precisa contar sobre a foto e sobre como Cubby estava mostrando ela...
— Ian, para! — gritei, tapando os ouvidos.
Meu corpo deu meia-volta sozinho, e de repente eu estava correndo, descendo os degraus a toda. E Ian estava indo atrás de mim.
* * *
Só parei de correr quando cheguei ao porto. Meu peito arfava, as lágrimas quase me impediam de respirar. Desabei com tudo em um banco de ferro, as costas pressionando as placas frias.
A coisa que não deveria ter acontecido naquele verão, nem comigo nem com ninguém, tinha sido a seguinte. Depois de Cubby insistir por várias semanas, eu havia mandado para ele uma foto minha nua da cintura para cima. Eu não estava completamente confortável com isso porque, em primeiro lugar, as piadinhas incessantes dele estavam começando a fazer com que eu me sentisse pressionada, e, em segundo, não importava quanto eu tentasse ignorar o aviso de Ian, ele não parava de zumbir na minha cabeça. Já ouvi o que ele fala sobre as garotas. Você não quer sair com alguém como ele.
Mas Cubby e eu tínhamos passado o verão juntos. Isso não signi cava que eu o conhecia melhor do que Ian? Que eu podia con ar nele? E, além do mais, talvez essa fosse a maneira de deixarmos para trás os encontros às escondidas tarde da noite e começarmos a andar juntos pelos corredores da escola. Talvez fosse preciso um voto de con ança.
Então, eu tinha enviado a foto. Mesmo com as mãos tremendo. Mesmo com o zumbido na minha cabeça cada vez mais alto.
Dois dias depois, Ian voltou para casa do acampamento de futebol americano e quase derrubou a porta do meu quarto, com lágrimas de raiva nos olhos. Você sabe o que Cubby anda fazendo? Ele está mostrando a sua foto para todo mundo. Por que você não me ouviu?
Na hora, eu quei atordoada demais para perguntar o que acontecera depois, mas agora eu sabia. Depois que pegou Cubby mostrando minha foto para o time inteiro, meu irmão brigou com ele.
Nenhuma surpresa. E por isso ele tinha sido expulso do time de futebol americano. Eu não tinha a intenção de envolver meu irmão — não tinha a intenção de deixar minha vida afetar a dele —, mas isso não fazia a menor diferença, porque família era assim. Querendo ou não, suas ações sempre afetavam os outros. Respirei fundo, trêmula. Eu precisava contar por que não lhe dera ouvidos. O motivo real. Ian merecia saber.
Alguns segundos depois, ouvi seus passos atrás de mim, como era de se esperar.
— Addie... — começou ele.
Mas me virei e forcei as palavras a saírem antes que eu mudasse de ideia:
— Ian, você sabe como é difícil ser sua irmã mais nova?
Ele congelou, uma expressão pensativa tomando seu rosto.
— Como assim? Tirando esse verão, sempre achei que éramos bons amigos.
— É verdade. — Eu balancei a cabeça, tentando encontrar as palavras. Ele se sentou ao meu lado no banco. — O que eu quero dizer é... Você sabe como é difícil ser a irmã de Ian Bennett?
Ele balançou a cabeça de modo quase imperceptível.
— Não estou entendendo.
— Você é a estrela da escola. O melhor jogador do time de futebol americano. O atleta mais bem-sucedido em um lugar cheio de atletas bem-sucedidos. — Minha voz vacilou, e escolhi um ponto no mar para olhar xamente, estabilizando minha visão. — Você é bom nos estudos, nos esportes, escreve bem... e é claro que você tinha razão sobre Cubby. Estava completamente certo. E lá no fundo eu sabia disso o tempo todo.
Ian passou as mãos no cabelo, uma expressão confusa no rosto.
— Então por que...
Eu o interrompi de novo. Precisava mesmo que ele ouvisse.
— Ian, eu quei com Cubby o verão inteiro porque queria que alguém me visse. Que alguém me enxergasse de verdade. E não me comparasse a vocês três. — Eu respirei fundo. — Eu só queria ser mais do que a Bennett número quatro, a lha medíocre.
— Medíocre? — Os olhos de Ian se arregalaram de descrença. — Por que você nunca me disse que se sentia assim?
— Por que eu faria isso? É tão óbvio que chega a ser ridículo. — Um pássaro saltou feliz perto de nós, com uma batata frita presa no bico. — E, Ian, eu sinto muito por ter enviado a foto, mas...
— Opa, opa, opa. Espere um pouquinho aí. — Ian ergueu as mãos. — Acha que estou bravo porque você mandou a foto? — Ele me encarou, o joelho quicando. — Addie, não é nada disso. Enviar ou não uma foto é decisão sua. É o seu... corpo.
Nós dois zemos uma careta desconfortável. Aquilo estava muito fora dos assuntos normais de irmão e irmã. Pelo menos para nós dois.
— Desculpe — disse ele rapidamente, as bochechas cando
vermelhas. — Eu não sei se estou me expressando direito, mas o que quero dizer é que não quei com raiva por você ter mandado a foto. Cubby ter mostrado ela para o time inteiro não foi culpa sua. Ele é o responsável por isso. — Ian chutou uma pedra solta. — Fiquei com raiva por você não ter con ado em mim quando avisei que deveria manter distância dele. Passei anos convivendo com Cubby. Vi como ele mudou, e eu só queria proteger você.
Lágrimas surgiram em meus olhos e eu me encolhi, apoiando os cotovelos no joelho. Parecia que o nó em meu peito nunca ia desatar.
— Ian, sinto muito por ter feito você ser expulso do time — sussurrei.
Ele suspirou devagar.
— Acho que agora é a minha vez de esclarecer uma coisa. Não fui totalmente sincero lá no quarto. Eu estava com raiva e só queria convencer você.
Eu me empertiguei na hora.
— Então você ainda está no time?
Meu irmão balançou a cabeça.
— Não, estou fora com certeza. Mas a culpa foi minha, não sua.
— Então não teve nada a ver com a foto?
— Bem... — Ele hesitou. — Eu não diria isso. Mas não foi só por causa da briga com Cubby. Quer dizer, eu realmente perdi o controle naquele dia. Mas foram as outras brigas que me zeram ser expulso.
— Brigas? — Eu o encarei, surpresa. — No plural? Quantas?
Ian hesitou outra vez.
— Não tenho certeza. E vou ser sincero: no começo eram por sua causa, quando alguém dizia alguma gracinha pra me irritar. Mas depois eu surtei. Não suportava mais os outros jogadores, e qualquer coisa me deixava furioso. O treinador me deu vários avisos, até que...
Ele se moveu, ajeitando a postura.
— Mas não tem problema eu ter sido expulso, porque odeio futebol americano. Sempre odiei, sempre vou odiar.
— O quê? — Eu desviei os olhos do mar. Gostar mais de escrever do que de jogar não era o mesmo que odiar futebol americano. E como ele poderia odiar o esporte sendo tão talentoso? — Você odeia os treinos ou...?
Ian balançou a cabeça, fazendo o cabelo cair no rosto.
— Não, eu odeio o esporte em si. Tudo sobre ele. — Seus olhos encontraram os meus. — Eu odeio os treinos, odeio os jogos, os preparativos, as comemorações, os uniformes... Eu odeio que as pessoas me tratem de maneira diferente, como se eu fosse especial, só porque sou bom nisso. E já me sinto assim faz muito tempo. Quando descobriram que eu levava jeito, foi como se tivessem colocado uma fantasia de jogador de futebol americano em mim e ninguém conseguisse enxergar nada além disso. Todos só queriam que eu me encaixasse nesse estereótipo, mas ele nunca... me serviu.
Eu nunca tinha considerado a possibilidade de Ian não gostar de futebol americano. De repente, tudo fez sentido: ele sair correndo dos treinos, o mau humor antes dos jogos, o modo como evitava o assunto quando o resto do mundo só queria falar nisso. Tinha estado bem debaixo do meu nariz esse tempo todo.
— Ian, eu não fazia ideia. Deve ter sido...
— Horrível? — completou ele, as sobrancelhas franzidas.
— Horrível — repeti. — Por que não me contou?
Ian balançou a cabeça.
— Eu não queria decepcionar você. Todo mundo ca tão animado por eu ser quarterback, e você sempre foi aos meus jogos e... — Ele suspirou alto. — Eu quero ser como você, Archie e Walter. Quando estão em campo, é como se virassem quem realmente são. Vocês se divertem tanto. Eu nunca senti isso.
— Mas você se sente assim escrevendo. E com Titletrack.
— Isso aí — disse ele. — É por isso que esta viagem era tão importante para mim. Eu imaginei que, se conseguisse escrever algo incrível e meu artigo fosse pulicado em uma revista importante, nossos pais cariam menos chateados comigo por desistir do futebol americano.
Eu pressionei meus lábios, mal contendo um sorriso.
— Então o que você está dizendo é que precisa contar algo para os nossos pais?
Ele grunhiu, mas um sorriso surgiu em seu rosto.
— Eu sei. Não ca pegando no meu pé, não. Só preciso de mais um tempo.
— Você está brincando, né? É claro que vou encher seu saco. Pelo menos tanto quanto você encheu o meu.
— Aí estão vocês! — Rowan apareceu de repente ao lado do banco, assustando nós dois. — Eu não fazia ideia de onde vocês tinham se metido. Acabei perguntando a um bartender e... — Ele parou ao ver minhas bochechas ainda úmidas de lágrimas. — Opa, o que houve? Aconteceu alguma coisa?
— Mais ou menos — respondi. Rowan estava com o guia na mão, e vê-lo me deu uma ideia. — Ei, Ian, quer fazer o dever de casa de Cobh com a gente? Eu acho que pode ajudar.
— Boa ideia — concordou Rowan. — Aposto que você vai gostar.
Ian puxou o cabelo para trás, prendendo-o com um elástico que tirou do pulso.
— Sei lá... Preciso falar com uma árvore? Ou beijar alguma coisa?
Eu balancei a cabeça.
— A gente precisa desenhar algo que não se realizou da maneira que sonhávamos. Depois é só fazer um barco com o papel e colocá-lo no mar.
Ele soltou um “Hum...”, mas, pelo jeito que olhou o livro, cou claro que estava interessado.
— Eu estava atrás de você porque queria fazer a atividade antes que escurecesse. Até perguntei lá no pub se eles tinham papel, mas só consegui arrumar isso aqui.
Rowan me entregou alguns pan etos velhos anunciando o show de um violinista local.
— Serve.
Entreguei um papel para cada um e depois nos afastamos um pouco, sentando no chão com os pan etos à nossa frente. Não levei muito tempo pensando no que desenhar. Cubby e eu, andando pelo corredor da escola, o braço dele nos meus ombros, sussurros admirados vindos de todas as direções.
O desenho em si cou péssimo, apenas um pouco mais so sticado do que bonequinhos de palito, mas pôr aquilo para fora fez com que eu me sentisse diferente por dentro. Mais uma vez, a dor persistia, mas parte do peso tinha sido transferida para a ponta do lápis, materializando-se em algo que eu podia ver. Algo que eu podia mandar embora.
Caminhamos juntos até a beira do mar, seguindo as instruções da Autora do Guia para construir o Barco do Fim do Amor. Enquanto colocava meu barco na água, eu me deixei imaginar como as coisas poderiam ter sido diferentes. Como teria sido se Cubby se importasse comigo como eu me importava com ele. Então deixei o barco partir, observando as ondas o carregarem para longe, onde seria dissolvido pelo sal.
E depois que ele se foi? Ian e Rowan ainda estavam ao meu lado. Firmes. Signi cou mais para mim do que eu esperava.
* * *
Houve uma tempestade no meio da noite, um tamborilar suave que se in ltrou em meus sonhos e pintou o céu do m da manhã com um tom pêssego brilhante. Antes de me levantar da cama, quei de barriga para cima e olhei para as rachaduras no teto, experimentando minha nova sensação de leveza.
O nó continuava no meu peito, mas Ian e eu estarmos apoiando um ao outro fazia tudo parecer mais fácil.
Eu me vesti e fui para o quarto dos meninos. Encontrei os dois esparramados na cama, Rowan vestindo uma camiseta rosa com um gato montado em uma orca e Ian debruçado em seu mapa.
Eu apontei para a camisa de Rowan.
— Quantas dessas você tem?
— Um número insu ciente. E bom dia para você também — disse ele, sua covinha me fazendo sorrir.
Apontei para o mapa de Ian.
— Mais uma parada antes do Electric Picnic?
Ele sorriu, pulando da cama.
— O Castelo de Cashel. Ainda não consigo acreditar que o show é hoje.
— Não acredito que a Lina chega hoje. — Eu ainda estava nervosa, mas agora que a tensão entre mim e Ian havia diminuído, contar tudo para Lina parecia mais fácil.
Rowan checou o celular.
— Connor disse que podemos pegar o carro depois das dez. Alguém quer tomar café da manhã primeiro?
— Sim! — respondemos Ian e eu em uníssono.
Miriam tinha saído cedinho para ir a uma reunião em Dublin, então, depois de nos despedirmos dos funcionários, arrastamos as malas até a rua principal e paramos em um café azul-cobalto com os dizeres
’ : escritos em letras
douradas na janela. O pequeno sino da porta tocou quando entramos, e pedimos ovos e torradas para a mulher atrás do balcão.
Eu queria aproveitar a vista do mar o máximo de tempo possível, então, enquanto esperávamos pela comida, escolhi uma mesa perto da janela, segurando a caneca quente de chá de hortelã com ambas as mãos.
Lá fora, turistas passavam na calçada, e eu os observava distraidamente, pondo açúcar em minha xícara e pensando em Lina, ignorando a conversa de Rowan e Ian. Fazia mais de três meses que eu não a via. Como seria nosso reencontro? Nossa amizade continuaria igual a antes da mudança dela? Ou teríamos que nos acostumar uma com a outra de novo?
Nossos pratos tinham acabado de chegar quando, de repente, um dos pedestres me tirou do meu devaneio de hortelã. Ele era alto com ombros largos, usava fones de ouvido enormes e caminhava de um jeito descontraído que me lembrava...
— Walter! — exclamei.
Ele olhou para a janela e parou, encarando Ian.
— NÃO. — Ian deixou a colher cair em sua xícara, respingando chá para todo lado.
Meu instinto era me esconder debaixo da mesa, mas o olhar de Walter passou de Ian para mim e, de repente, estávamos fazendo contato visual. E ele parecia furioso.
— Isso não pode estar acontecendo de novo — resmungou Rowan. — Esta ilha é pequena demais.
— Quem é esse? — perguntou nossa garçonete, com um jarro de água na mão. Walter encostou o rosto na vitrine, sua respiração embaçando o vidro. — Ele é perigoso?
— Só um pouco — murmurei, cando de pé.
Walter tirou os fones de ouvido e marchou para a entrada, os lábios já se movendo em uma bronca que tivemos o privilégio de ouvir no segundo em que ele abriu a porta.
— ... dois são inacreditáveis! — gritou ele. — Aqui estou eu, fazendo o meu melhor para esquecer que Addie apareceu do nada no Castelo Blarney, e agora vocês estão aqui TOMANDO CAFÉ DA MANHÃ. — Rugiu as últimas palavras como se fosse uma das maiores afrontas que alguém já havia cometido contra ele.
Segredos e Walt não eram uma boa combinação.
— Senhor, acalme-se — ordenou a garçonete, segurando a bandeja como um escudo. — Posso oferecer uma xícara de chá? Talvez um dos nossos sabores mais calmantes? Camomila? Lavanda com limão? É por conta da casa.
— Ele não é muito fã de chá, mas obrigada — respondi educadamente.
— Walt, que calmo — mandou Ian, afastando-se da janela. — Cadê a nossa mãe?
Walt arrancou os fones de ouvido do pescoço.
— O que vocês estão fazendo aqui?
Eu gesticulei para Ian.
— Rowan e eu explicamos tudo no Castelo Blarney. Estamos trabalhando na redação de Ian.
Ele balançou a cabeça com uma expressão enojada.
— Nem vem. Conversei com Archie e ele também achou que essa história tem cara de mentira. Ninguém precisa ir para outro país fazer pesquisa só por causa de uma redação para a faculdade. O que signi ca que você é um mentiroso — disse Walter, apontando para Rowan. — Aposto que você nem usa as colônias de John Varvatos, não é?
Rowan fez uma careta, mas não respondeu.
— Você contou pro Archie? — perguntou Ian com raiva, os pés agitados. O mapa estava aberto na mesa, e ele o empurrou para o lado com um movimento rápido.
Walter franziu a testa.
— Claro que sim. Eu precisava contar para alguém.
Lancei um olhar nervoso para a janela. Ele não tinha respondido à pergunta de Ian sobre o paradeiro da nossa mãe.
— Cadê a mamãe? — insisti.
— Na catedral. Eu a convenci a me deixar car de fora dessa vez.
A catedral cava a apenas dois quarteirões de distância. Quão perto passamos de dar de cara com eles?
Walt voltou seu olhar furioso para Ian.
— Agora, pela última vez, o que vocês estão fazendo na Irlanda?
A garçonete se desequilibrou ao ouvir o tom dele, e olhei preocupada para o meu prato de ovos mexidos. O café da manhã estava arruinado. E Walt não acreditaria mais em nossas mentiras. Hora de abrir o jogo.
Suspirei.
— Ian, conte logo pra ele.
Ian pegou um maço de guardanapos e limpou o chá derramado.
— Estamos indo para um festival de música chamado Electric Picnic para ver minha banda favorita, Titletrack, fazer sua última apresentação. Esse era meu plano desde o início. Addie acabou descobrindo, por isso que está aqui também.
Walt ergueu as sobrancelhas.
— Eu sabia! Eu sabia que você estava mentindo. Então esse seu mentor internacional aqui é...
— Sou amigo do Ian — disse Rowan. — E fã do Titletrack. E uso mesmo os perfumes de John Varvatos. Artisan Acqua é meu favorito.
Walt o encarou com descon ança. Ele precisava parar de levar suas fragrâncias tão a sério.
Ian recomeçou a falar:
— Walt, o plano é o seguinte: depois do festival, vamos nos encontrar com vocês em Dublin para pegar o voo...
— Pode parar! — Walter balançou os braços e recuou em direção à porta. — Não me conte mais nada. Apenas tome cuidado e pare de dar de cara com a gente.
— Combinado — respondi, ansiosa.
— Vocês obviamente não estão seguindo o itinerário — insistiu Ian. — Para onde vão agora?
— Eu não sei. Algum castelo?
— Castelo de Cashel?! — Ian bateu com o punho na mesa. — Mas é para onde a gente vai agora!
Rowan balançou a cabeça.
— É um ponto turístico muito popular. Não estou surpreso.
— Bem, vocês não vão mais para o castelo — disse Walt, o pomo de adão subindo e descendo. — Porque se aparecerem por lá, acabou. Mal estou me aguentando agora.
— Walt, por favor. — Eu juntei as mãos em súplica. — Você precisa guardar segredo. Não posso ser expulsa do time de futebol. É só não contar para mais ninguém.
Dos irmãos, Walt e eu éramos os que mais amavam esportes. Ele tinha que entender.
— O que você acha que venho fazendo desde o Castelo de Blarney? Estou tentando ajudar vocês. — Walt tropeçou até a porta, checando a rua antes de abrir. — Eles devem passar mais uns vinte minutos na catedral. É melhor vocês darem o fora daqui. Rápido.
Ele saiu para a calçada, batendo a porta.
— O que a gente faz agora? — perguntei, afastando-me da janela.
— Bem, nós não vamos mais para o Castelo de Cashel. — A expressão de Ian era de pura decepção. — Era bem importante para o artigo.
Rowan empurrou os óculos para cima, acomodando-os melhor no nariz.
— Na verdade... Talvez eu conheça um lugar ainda melhor que o Castelo de Cashel. Precisaremos fazer um pequeno desvio, mas ca perto de Stradbally. E, se os boatos forem verdadeiros, este lugar pode ter relação com Titletrack.
— É mesmo? Onde ca? — perguntei.
Ele sorriu para mim.
— É segredo.