Amor & sorte

Jenna Evans Welch · Capítulo 7 de 15

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Amor & sorte

Parque Nacional de Killarney

 

Está aproveitando as florestas maravilhosas da Irlanda, meu amor? Já reparou nas árvores que ficam bem juntinhas, os galhos entrelaçados em um abraço de afeição e apreciação mútuas? Não faz você se lembrar da nossa relação? De como nos compreendemos tão bem?

A mim também, chuchu. A mim também.

Pare um pouquinho e reflita. Você já pensou em quanto trabalho as árvores tiveram? Quantas etapas foram necessárias para cada uma chegar aonde está hoje? Pense em uma daquelas árvores gigantescas do lado de fora de sua janela, por exemplo. Suas ancestrais tiveram que migrar para a nossa bela ilha. Aves e outros animais carregaram avelãs e sementes de carvalho pelas pontes terrestres que antes ligavam a Irlanda à Grã-Bretanha e à Europa. Outras sementes — as leves, como as de bétula e salgueiro — chegaram pelo vento. E isso foi apenas o começo. Uma vez aqui, essas pequenas sementes ainda tiveram muito a fazer. Elas cresceram, estendendo-se em direção ao céu.

Isso me faz pensar no trabalho que você está tendo.

Que trabalho? O seu coração partido, meu amor. A dor que o coração sente. E, ao contrário de tantas outras tarefas, é uma da qual só você pode dar conta. Não há como delegar a outra pessoa ou pegar um atalho. Nós, humanos, adoramos tentar evitar o sofrimento. Queremos um atalho, uma passagem secreta, algo que nos permita avançar sem sentir dor.

Mas a dor é necessária. Faz parte da vida. Para superar um coração partido, é preciso senti-la. E não importa quantas distrações encontre — potes de sorvete, compras, cochilos —, não dá para despistar a dor. Ela não tem outros compromissos nem hora para ir embora. Vai continuar ali, lixando as unhas, esperando até você estar pronta.

É um diabinho persistente.

Então, mãos à obra, paixão. Vamos parar de afogar as mágoas na música, nos cartões de crédito ou de fuçar o perfil de certas pessoas. Vamos confrontar essa dor. Vamos admiti-la. Você tem um trabalho a fazer, e quanto mais cedo começar, mais cedo poderá voltar a saltitar pelas florestas como uma pequena ninfa do bosque.

DEVER DE CASA: Vamos lá, amorzinho? Está pronta? Eu sabia que sim. Encontre uma árvore que chame sua atenção e se acomode junto ao tronco. Então, quando estiver bem confortável, coloque em palavras aquilo que mais machuca seu coração. Não recue. Não desvie o olhar. Apenas encare a dor. “Por que fazer isso com uma árvore?”, você me pergunta. Porque as árvores são ótimas ouvintes, é claro.

— Trecho de Irlanda para corações partidos: um guia não

convencional da Ilha Esmeralda, 3a edição

— ESTOU ODIANDO — DISSE ROWAN PERTO DA ÁRVORE.

— Eu também — concordei.

Tínhamos decidido usar a mesma árvore coberta de musgo, ele de um lado e eu do outro. E até então, o dever de casa estava fazendo meu coração doer ainda mais. O que era o objetivo, acho. Encarar o sofrimento era como olhar para o sol. Ardia.

Eu tremi um pouco, esfregando a pele arrepiada. Minhas roupas estavam encharcadas de novo. Infelizmente, uma noite na garagem do hostel não tinha sido a solução mágica que esperávamos. O banco de trás de Trevo tinha passado de molhado a úmido e, apesar de Bradley ter doado algumas toalhas para o que chamou de Operação Não Vamos Deixar Addie Parecendo um Rato Molhado, meu short tinha absorvido a água antes mesmo de chegarmos à estrada.

Eu também estava lidando com uma nova fonte de estresse. Lina havia conseguido um voo para ela e Ren, e os dois chegariam a Dublin dali a duas noites. Ren até conseguira três ingressos para o Electric Picnic, assim todos poderíamos ir juntos. Ver o e-mail me enchera de insegurança. E se eu não gostasse do Ren? Ou, pior ainda, e se ele não gostasse de mim? Será que um namorado e uma melhor amiga poderiam coexistir se não gostassem um do outro? Caso não fosse possível, quem seria dispensado?

Eu abracei minhas pernas e olhei as árvores, tentando me concentrar. A oresta estava tomada pelo musgo, cada superfície e cada galho, o que deixava a paisagem com um brilho verde suave.

— É melhor a gente terminar antes que Ian volte — falei.

Nós o havíamos convencido a dar uma volta, mas eu duvidava de que ele casse muito tempo longe. Meu irmão estava ansioso para chegar à próxima parada do Titletrack.

— Ok, você primeiro. Qual é a pior parte para você? — perguntou Rowan.

Era uma escolha difícil. A humilhação pública? Ter decepcionado meu irmão? Uma resposta inesperada me veio à mente.

— Eu não con ei na minha intuição. Havia vários sinais de que alguma coisa estava errada, mas ignorei todos. Estou decepcionada comigo mesma. — Eu suspirei devagar, coberta de tristeza da cabeça aos pés. — E para você? Qual a pior parte?

Rowan se remexeu, esmagando alguns galhos.

— Saber que não tenho controle nenhum sobre a situação.

— Acho que vou roubar essa resposta.

Rowan hesitou.

— Você pode me mandar calar a boca, mas o que aconteceu, exatamente? Você terminou com ele ou foi...

— Foi ele. — Eu apoiei a cabeça no tronco da árvore, meu coração apertado de dor.

Rowan apenas absorveu o meu silêncio por um tempo, então se levantou e veio se sentar do meu lado.

— Ei, Addie, sabe que pode contar comigo, certo? Caso precise conversar...

Meus olhos encontraram os dele. Eram grandes e intensos, prontos para absorver qualquer feiura que eu tivesse para mostrar. De repente, a história horrível subiu pela garganta e foi parar na ponta da minha língua. Eu precisava conversar com alguém sobre tudo o que acontecera, mas estava repassando a história na minha cabeça fazia dez dias e tinha

cado bem claro o papel que eu havia desempenhado: o da garota

ridícula que se joga aos pés de um cara só porque está desesperada para manter seu interesse. Não era muito agradável. Nem algo que fosse cativar novos amigos.

— Obrigada, Rowan, mas acho que já deu por hoje — comentei, levantando às pressas.

Quando chegamos ao carro, Ian nos olhou com descon ança.

— Por que a cara de enterro?

Ele tinha razão. Aquela visita ao Parque Nacional de Killarney tinha piorado meu humor. Eu sempre ouvira dizer que, quando se estava de coração partido, o melhor a fazer era se distrair, e não se concentrar na tristeza. Por que a Autora do Guia insistia tanto em cutucar a ferida?

— Não estamos com cara de enterro — respondeu Rowan. — Só estamos tristes. São coisas diferentes.

— Bem, isso aqui não vai ajudar — falou Ian, jogando seu celular para mim. — Mensagem da nossa mãe. Essa mulher é incansável.

— Que ótimo — resmunguei, olhando a mensagem.

Como está a Itália? Como vão as coisas com Addie?

— Bem, pelo menos ela parece acreditar que estamos na Itália — falei.

Ian não parecia muito convencido.

— Ou está nos testando.

Escrevi para ela. Oi, mãe, aqui é a Addie. As coisas estão ótimas!! A Itália é tão linda e QUENTE. Você tinha razão, só precisávamos de um tempinho juntos!!!! Está um clima superfraternal por aqui!!

Eu me arrependi da mensagem no segundo em que a enviei. Parecia que tinha sido escrita por uma líder de torcida meio maníaca. Uma líder de torcida meio maníaca e obcecada com o fato de que já fazia dias que sua temperatura corporal estava abaixo do normal. Se a pequena imitação de Bradley não tivesse feito minha mãe descon ar de que havia algo errado, a mensagem faria. Ela respondeu na hora: Não sabia que Howard era australiano. Muito interessante!

Ridículo. Ou aquilo era uma armadilha ou ela havia passado tanto tempo com tia Mel que seu cérebro estava derretendo. Ela sabia muito bem que Howard era americano — era um dos pré-requisitos para administrar o cemitério dos soldados americanos.

Eu estava tão distraída tentando decifrar a mensagem de minha mãe que levei vários minutos para perceber que Ian e Rowan estavam discutindo.

— Ian, estou falando sério. Não posso ser pego fazendo uma coisa dessas.

As mãos de Rowan ao volante estavam tão tensas quanto sua voz, e ele não parava de olhar de relance para o retrovisor. Eu me virei para trás, mas a estrada estava vazia, exceto por uma faixa longa de grama fofa crescendo bem no meio dela. As estradas não tinham a menor chance por aqui — a vegetação da Irlanda as engolia por completo.

— Eu não acho que devemos arriscar.

A boca de Ian se contraiu.

— Rowan, a gente levou três semanas para descobrir onde ca a Sala Vermelha. E você quer jogar todo esse trabalho fora? — Ele apontou o dedo acusadoramente. — Achei que você fosse um fã de verdade.

— Opa — falei, me empertigando.

Aquela era uma acusação grave. Mas não pareceu irritar Rowan.

Ele balançou a cabeça.

— Pare de ser infantil. Não querer visitar a Sala Vermelha e não querer me meter em problemas são duas coisas bem diferentes.

Aquilo parecia interessante. Larguei o celular de Ian e me inclinei para a frente, tentando ler a próxima parada no mapa.

— O que é Torc Manor?

Rowan inclinou a cabeça de leve para Ian.

— Devo contar a ela, ou você quer contar?

— Pode falar — disse Ian, baixando a cabeça para o mapa.

Quando ainda estávamos no hostel, ele tinha arrancado a ta isolante da janela e agora estava com a mão direita para fora, os dedos ao vento.

— Estou esperando — falei.

Rowan suspirou, então encontrou meus olhos curiosos.

— Torc Manor é uma casa de verão que pertencia ao tio do baterista. Eles gravaram um álbum inteiro na sala de estar.

— Ela é chamada de Sala Vermelha — interrompeu Ian. Sempre que

cava empolgado com uma história, precisava contá-la. — Eles tinham

planejado um álbum mais animado e leve, mas a sala estava cheia de cortinas pesadas e carpete, e o tecido acabou absorvendo parte do som, deixando as músicas diferentes. Depois disso, começaram a compor músicas com um ar mais melancólico. Até recriaram aquela atmosfera em estúdios de gravação usando travesseiros e outros objetos. A sala mudou a direção musical deles.

Era o tipo de curiosidade sobre bandas que Ian adorava descobrir. Graças a ele, eu sabia muitas dessas — exemplos: Paul McCartney ouviu a melodia de “Yesterday” em um sonho, e Bill Wyman foi convidado para fazer parte dos Rolling Stones só porque tinha acesso a um ampli cador. Não era de admirar que o joelho de Ian tivesse passado de um leve balançar para uma verdadeira agitação. Visitar algo tão icônico para ele quanto a Sala Vermelha seria a realização de um sonho.

— Ok... — Estudei o rosto sombrio de Rowan, dando tempo para que as reticências de minha resposta cassem claras. Então o cutuquei no ombro. — E qual é o problema? Por que você está tão nervoso?

Rowan exalou com força, ajeitando os óculos.

— Não quero ser pego invadindo uma casa. As aulas vão começar em breve, e se eu arrumar problemas com a lei, serei expulso.

— “Invadir” é uma palavra muito forte — comentou Ian, um sorriso de orelha a orelha. — Eu pre ro “entrada ilegal”.

Invadir uma casa? Eu parei de cutucar Rowan, transferindo meu dedo para o ombro de Ian.

— Sem chance. A prioridade número um é impedir que nossos pais descubram nossa viagem alternativa. O que signi ca não fazer nada que possa atrair a atenção da polícia.

— Ninguém vai chamar a polícia. — Ian puxou um tufo de cabelo. — Por que vocês dois estão sendo tão dramáticos? Só vamos dirigir até lá, tirar algumas fotos e sair. Os donos nunca vão nem saber que estivemos ali.

— Até as fotos da casa deles aparecerem na internet e eles se lembrarem de como você os incomodou com seus e-mails durante um mês inteiro. — Rowan tirou os olhos da estrada e deu algumas batidinhas no queixo, ngindo estar pensativo. — O que dizia mesmo no último e-mail deles? Ah, sim. Acho que palavras exatas foram: “Se você se aproximar de nossa propriedade, não hesitaremos em noti car as autoridades.”

— Mas eles não disseram quais autoridades — contrapôs Ian, ainda sorrindo. — Talvez estivessem falando dos responsáveis pela distribuição de água na cidade. Ou da maior autoridade em mudanças climáticas do país.

Ai, Ian.

Aquele plano — independentemente dos detalhes — era a cara do meu irmão. Uma pitada de perigo, duas de fatos desconhecidos sobre música, três de rebeldia. Com mais um punhado de jalapeños e alguns marshmallows, era a receita típica de Ian. Nada do que eu dissesse ia fazer diferença. Era melhor poupar minhas energias — eu poderia precisar delas para sair correndo. Dei de ombros, tentando mandar para Rowan uma mensagem telepática de que não havia esperança, mas seus olhos estavam xos na estrada.

— Procure pela cerca quebrada e coberta de musgo alguns quilômetros depois da placa torta com o limite de velocidade — disse Ian, lendo as instruções em seu celular. Ele pôs a cabeça para fora da janela e seu cabelo estufou como um dente-de-leão gigante ao vento. — Addie, você viu aquela placa lá atrás? Parecia meio torta?

— Era um anúncio de Guinness — falei.

— Mas, Ian, e aquela outra fã que foi presa? — Rowan não conhecia Ian havia tempo su ciente para entender o que estava enfrentando. — Não foi há tanto tempo assim. Você sabe que os donos estarão de sobreaviso. Devem estar dormindo com espingardas debaixo dos travesseiros.

— Uma fã foi presa?!

Eu dei um peteleco na parte de trás da cabeça de Ian. Será que a parte do seu cérebro que era fã daquela banda tinha eliminado completamente a parte responsável pelo bom senso?

O sorriso de Ian só cresceu.

— Isso já faz um ano, e aquela garota vivia perseguindo eles. Você não pode entrar na casa de um estranho quando tem alguém em casa.

— Mas pode entrar quando não tem ninguém? — perguntei, querendo esclarecer a questão.

— Ah, ela fez mais do que entrar. — Rowan tirou os óculos e esfregou os olhos como se fosse um homem de negócios velho e cansado. Como se tratava de Rowan, no entanto, era um homem de negócios velho, cansado e até bem bonitinho. — Ela preparou um sanduíche de presunto com banana na cozinha e comeu enquanto rolava pelo carpete. Os donos estavam dormindo no andar de cima e ela acabou acordando os dois.

— Eca! Presunto com banana? Isso tem relação com a banda ou é algum sanduíche típico irlandês?

— Com certeza não é irlandês — respondeu Rowan, abrindo um sorriso irônico. — Você não cou sabendo? A gente se alimenta só de batatas e ensopado de carne.

Ian juntou as mãos em súplica e projetou o lábio inferior, fazendo um beicinho.

— Qual é, pessoal. Prometo não fazer um sanduíche nojento e rolar no carpete. Ninguém vai ver a gente. Ninguém vai car sabendo.

Eu balancei a cabeça, enojada.

— Ian, esse truque do beicinho parou de funcionar faz uns dez anos.

O beicinho cou ainda maior.

— Essa técnica é bem-sucedida em pelo menos setenta e três por cento das vezes. Como acha que passei em espanhol no ano passado? A señora Murdock não resistiu.

Eu estava impaciente.

— Não tente mudar de assunto. Rowan está dizendo que não quer ir para Torc Manor, então não vamos para Torc Manor.

— Aquela era a placa torta com o limite de velocidade! — gritou Ian, quase saindo da janela. — Estamos quase lá. Rowan, precisamos ir.

— Tudo bem. — O olhar de Rowan alternava entre meu irmão e a estrada. — Mas escute bem: eu não posso ser pego. Não posso mesmo. Meus pais já estão muito estressados. Não posso piorar as coisas.

— É isso aí! — gritou Ian.

Rowan pisou no freio, e Ian quase caiu pela janela. Meu irmão aproximou o rosto da cerca alta coberta de hera. Uma grande placa dizendo cava ao lado de outra ainda maior com

os dizeres .

Eu apontei para a imagem na placa.

— Que gracinha de cachorro feroz rosnando.

Ian acenou com desdém.

— Essa placa é mentira. Em geral as pessoas que penduram isso só têm um peixinho dourado.

— Rowan tem um peixinho dourado — falei.

A boca dele se contorceu, contendo um sorriso.

— Tinha, Addie. Tinha.

— Olha, a gente só precisa seguir o plano e vai dar tudo certo. Nós já sabemos que a sala ca no térreo, de frente para o quintal. Devo levar uns dez segundos para encontrar. Rowan, você só precisa dirigir até lá e esperar. Eu faço o resto.

Quando Ian cava assim, não havia o que fazer. Eu não seria capaz de impedi-lo. Rowan também não, e nem todas as placas do mundo. Nossa melhor opção era fazer exatamente o que ele queria: entrar lá, tirar uma foto e sair correndo.

— Tudo bem. — Rowan suspirou, revirando os olhos para o teto.

Ian saiu, saltitante, e pegou seu caderno.

— Valeu, cara. Eu te devo uma.

Rowan pôs o carro em marcha a ré.

— Deve mesmo.

— E eu? — perguntei, puxando as pernas para fora da pequena fenda atrás do banco do carona. Ao longo do dia, eu havia chegado a um estado mental preocupante, e agora aceitava minhas pernas dormentes como algo normal.

Ian deu tapinhas na minha cabeça.

— Valeu, Addie. Hã... também te devo uma?

Eu empurrei a mão dele.

— Não, estou perguntando o que você quer que eu faça enquanto tira fotos da sala dessas pessoas. É para eu ir junto?

— Não. É melhor você car onde está. Tome conta das coisas de Rowan.

Ele tentou dar mais tapinhas na minha cabeça, mas desviei.

Eu estava prestes a insistir que queria ir junto, mas, quando me endireitei, Ian já estava fazendo seu aquecimento, um ritual que eu havia testemunhado milhares de vezes. Primeiro amarrava e desamarrava os sapatos — uma, duas, três vezes —, então estalava o pescoço, terminando com uma sacudida de ombro rme.

Observá-lo me acalmou. Se alguém conseguiria fugir de um cão raivoso, seria ele. Se não fosse o quarterback do time, seria o running back. Era o jogador mais rápido da equipe.

Havia também o fato mais ou menos reconfortante de que Ian tinha muita sorte. Por exemplo, caso os proprietários nos vissem e decidissem atirar em nosso carro com um lança-chamas, Trevo escolheria aquele exato momento para acertar um buraco na pista e Ian seria projetado para fora do carro na hora certa, aterrissando na grama macia e sobrevivendo àquela provação completamente ileso. Já Rowan e eu acabaríamos carbonizados.

* * *

— Cadê ele? Já faz uma eternidade — murmurou Rowan.

Nossos olhos se voltaram para o relógio do painel. Não chegava a ser uma eternidade, mas já tinha passado muito dos dois minutos que Ian prometera antes de desaparecer pela janela. Agora nós dois o imitávamos, cheios de tiques nervosos.

Torc Manor estava se esforçando muito para ser uma casa charmosa, e os ingredientes estavam todos lá: um telhado bem inclinado, janelas brancas, canteiros de ores bem-cuidadas. Porém, quanto mais tempo passávamos ali na frente, mais eu percebia que havia algo estranho no lugar. Lençóis grossos e brancos cobriam as cadeiras do pátio, e as árvores na propriedade cresciam em um emaranhado selvagem, tapando o céu com seus galhos e fazendo a tarde parecer muito mais escura do que de fato estava.

Pelo menos Ian tinha razão sobre não haver ninguém em casa. Não havia sinais de vida — nenhum carro na garagem, nenhum sapato na porta e nenhum barulho. Até mesmo pássaros e insetos estavam quietos.

De repente, Rowan se abaixou.

— Você viu aquilo?

Meu coração disparou quando segui seu olhar até a janela do andar de cima. Mas as cortinas estavam fechadas, e não vi sinal de movimento.

— O quê?

— Achei que tinha visto alguma coisa. Um clarão branco. — Ele pigarreou. — Desculpe, estou sendo um idiota. Não lido bem com estresse.

De repente Ian se materializou ao lado da janela do carro, me dando um susto tão grande que bati o braço no peito de Rowan, acertando-o com um baque surdo.

— Ai!

— Desculpe, Rowan.

Aquele não era um incidente isolado. A Addie Assustada era uma Addie Desastrada. Certa vez, durante uma cena particularmente tensa de um lme, eu tinha derramado pipoca em uma la inteira de espectadores. Agora, quando ia ao cinema, eu precisava pegar punhado por punhado do colo de um acompanhante.

Ian cruzou os braços, um sorriso satisfeito no rosto.

— Por que está tão nervosa? Eu já falei, não tem ninguém.

Olhei para a casa outra vez. Eu ainda sentia que alguém estava nos observando.

— A gente pode ir embora? Este lugar é esquisito.

Ian balançou a cabeça.

— As janelas dos fundos são altas demais. Eu preciso que venha comigo para eu levantar você.

Meu instinto dizia para assumir o volante e tirar a gente dali, mas a razão me disse para aceitar o plano de Ian e acabar logo com aquilo. Além disso, gostei de ele estar me pedindo ajuda. Foi como nos velhos tempos, pré-Cubby.

— Precisamos ser rápidos.

Ian me arrastou até os fundos da casa. O gramado ali atrás era muito bem cuidado, com um pequeno muro de roseiras podadas. O vento soprava pelas árvores, produzindo um uivo baixo e estridente.

— Eu acho que é aquela ali — disse ele, apontando para uma grande janela.

— Vamos olhar.

Ele se ajoelhou para que eu pudesse subir em seus ombros, então, em um movimento um pouco instável, cou de pé. Eu me inclinei para a frente, tomando cuidado para não tocar a janela imaculada.

— Incrível — falei, por m. — Você encontrou a Sala Vermelha na primeira tentativa.

— É sério? Como ela é?

Ele se agitou, animado, e precisei agarrar seus cabelos para não cair.

— É... vermelha.

Cortinas vermelhas pesadas caíam até o tapete bordô, e os sofás e as cadeiras com estofado também em tons de vermelho completavam a decoração. Até o retrato sobre a lareira mostrava uma ruiva segurando um ramalhete de papoulas.

Ele me passou o celular, mas por causa da luz e por estar bem próxima ao vidro, eu só conseguia ver meu próprio re exo.

— Você consegue chegar um pouco para a direita? O re exo está atrapalhando.

Ian se moveu, tropeçando em uma mangueira de jardim, mas recuperou o equilíbrio rapidamente. Dessa vez a imagem cou perfeita. Tirei várias fotos, capturando o máximo possível de ângulos.

— Vão car ótimas.

— Addie, muito obrigado. É uma grande ajuda!

A empolgação em sua voz diminuiu o abismo entre nós.

— Eu li seus artigos — falei, agarrando aquela pequena ponte que nos conectava.

Ele parou de se balançar na hora, e os ombros caram tensos. Minha opinião ainda importava para ele.

— E?

— Achei incríveis — respondi, sem rodeios. — De verdade. Você nasceu para escrever sobre música.

Ele apertou meu tornozelo.

— Obrigado, Addie. Isso signi ca muito para mim. Eu queria mostrar para você faz um bom tempo, mas no começo foi legal manter um segredo, porque assim a pressão era menor. E aí no verão... — Ele hesitou.

Um silêncio longo e desconfortável preencheu o ar, e de repente me senti desesperada para manter o clima de camaradagem. Estava com saudade da nossa amizade sem complicações.

— Ian, talvez você esteja certo. Talvez eu deva mesmo contar para a nossa mãe.

As palavras saíram da minha boca rápido demais e não pude impedi-las. Ah, não. Por que eu disse isso?

— Sério? — A voz de Ian ecoou pela casa, seu alívio pesado como uma âncora. — Você nem imagina como co feliz em ouvir isso. Contar para ela é a coisa certa a fazer. Isso é ser adulta, sabe? Você precisa assumir seus erros.

Erros. A palavra provocou uma onda de contrariedade. Mas eu não podia me dar ao luxo de sentir raiva; precisava me concentrar em diminuir suas expectativas.

— Ian, escuta...

Eu apoiei meus dedos no vidro e respirei fundo. Mas antes que pudesse dizer a próxima frase, algo chamou minha atenção e olhei para cima. Uma mulher estava parada diante da janela, uma veia latejando na testa pálida, o rosto tão perto de mim quanto meu re exo. Sua boca se abriu em um grito mudo.

— Aaaaaah! — gritei, jogando o corpo para trás.

— Addie!

Ian tentou me equilibrar, balançando para a frente e para trás, mas caí de costas, batendo com a cabeça em algo duro. Uma pedra? Minha visão foi tomada por pontinhos escuros.

— Addie, você está bem? Por que gritou?

Ian estava agachado ao meu lado, os olhos tomados pelo pânico.

— Porque... — Meu cérebro estava confuso demais para explicar.

De repente, a porta da varanda se abriu com um estrondo, e recuperei a capacidade de pensar rapidinho.

— Brutus, Marshall! Peguem eles!

O som de patas correndo irrompeu pelo pátio, seguido por latidos.

— Addie, a gente tem que dar o fora!

Ian me levantou pelo braço e me arrastou atrás dele enquanto disparava na direção do carro.

Rowan estava falando ao celular e seus olhos se arregalaram quando nos viu.

— O que houve? O quê...?

— Tira a gente daqui!

Ian me empurrou para dentro do carro, depois pulou atrás de mim, e Rowan derrubou o celular, acelerando enquanto dois dos maiores cachorros que eu já tinha visto na vida atacavam os pneus traseiros.

* * *

Embora os cachorros tivessem parado nos limites da propriedade, Rowan passou os dez minutos seguintes dirigindo feito louco, dando guinadas bruscas e ultrapassando todos os carros possíveis.

Minhas mãos não paravam de tremer. Ver a mulher na janela me fez lembrar da brincadeira da Loira do Banheiro. Na época do ensino fundamental, um grupo de meninas apagava todas as luzes do banheiro feminino e depois entoava o nome para o espelho na esperança de que seu fantasma aparecesse. Nada de assustador havia acontecido, exceto pela aparição ocasional do velho zelador, que entrava para nos expulsar. Eu sempre quis saber o que faria caso um rosto aparecesse no espelho, e agora tinha a resposta: iria me encolher e esperar Ian me salvar.

— Siga o meu dedo com os olhos — ordenou Ian, movendo o dedo indicador da esquerda para a direita. — Está sentindo tontura? Náusea?

— Ian...

Eu afastei a mão dele com um tapa. Ele estava seguindo o protocolo de concussão. Todos os atletas da escola tinham sido obrigados a participar de um seminário em março.

— E sensibilidade à luz?

Meu irmão acendeu a lanterna do celular bem nos meus olhos, e eu bloqueei o brilho com minhas mãos às pressas.

— Ian! A concussão é o de menos. Assim você vai acabar me deixando cega. — Eu o empurrei de volta para o banco da frente e toquei a parte de trás da minha cabeça com todo o cuidado. — Dói, mas é só isso. — Eu estremeci, sentindo o galo se formando. — Não tenho uma concussão.

— Bom. — Ian assentiu, apontando para seu olho roxo. — Estamos quites?

Dei de ombros, e Trevo pulou ao passar em um quebra-molas.

— Ela não me viu, certo? — Rowan continuava perguntando. — A gente tem certeza de que essa mulher não me viu, né?

O celular dele continuava tocando desde que o deixara cair, e Rowan en ou uma das mãos entre os assentos, tateando para encontrá-lo.

— Rowan, como isso seria possível? Você cou no carro! — respondeu Ian em tom alegre. Pelo menos ele estava feliz, as fotos o deixaram animado. — Addie, caram incríveis.

Eu sabia que sua felicidade não se devia apenas ao meu incrível talento como fotógrafa — era também por causa do que eu tinha dito antes de mergulhar de cabeça no canteiro de ores. Talvez eu deva mesmo contar para a nossa mãe. Por que eu tinha dito aquilo? Só pioraria as coisas. Hesitante, toquei a parte de trás da cabeça, estremecendo mais uma vez.

— Você derruba pessoas em estacionamentos e sobrevive a ferimentos na cabeça. — O tom de Rowan era divertido, sua preocupação com a possibilidade de ter sido visto en m desaparecendo. — Addie, tenho um novo apelido para você, e acho que é perfeito. — Ele fez uma pausa dramática, e seu olhar encontrou o meu no retrovisor. — Rainha Maeve.

— Quem é essa? — perguntei.

— Uma rainha irlandesa bem famosa. Parte mito, parte verdade. Ela era uma guerreira. Vou procurar uma foto.

Ele silenciou uma nova chamada e, depois de uma rápida busca, passou o celular para mim. Ian chegou mais perto para olhar. Uma mulher loira de cabelos compridos estava sentada em um trono, como se alguém estivesse tentando — sem sucesso — entretê-la. Seu pé estava apoiado em um escudo de ouro.

— Ela parece... legal — falei, tentando disfarçar quanto me sentia lisonjeada. Sempre tinha me identi cado com personagens assim. As princesas delicadas nunca despertaram meu interesse. Quem queria passar o dia sentada em uma torre?

Rowan pegou o telefone de volta.

— Eles a enterraram de pé, então ela está sempre pronta para encarar seus inimigos. A melhor parte é que o túmulo dela não para de crescer, porque quem sobe a colina onde ela está enterrada sempre leva uma pedra e acrescenta à pilha. — Ele virou para me olhar rapidamente e disse: — Assim, ela ca cada vez mais forte.

Eu adorei a ideia.

Quando estava prestes a agradecer, o celular de Rowan começou a tocar de novo. Ele apertou com raiva o botão de silenciar.

— Quem é que não para de ligar? — perguntou Ian, o nariz a poucos centímetros das fotos.

— Minha mãe.

As palavras saíram da boca de Rowan em um tom veemente demais para podermos ignorar. Era o mesmo que ele usara ao telefone no posto de gasolina em Limerick.

Ian e eu nos entreolhamos.

— Está tudo bem? — perguntou ele.

Rowan balançou a cabeça de modo brusco.

— Eu não sou amigo dela. Sou lho. Ela precisa parar de tentar jogar seus problemas em mim.

Ele pisou fundo no acelerador, e de repente nós parecíamos prestes a decolar, a paisagem passando em um borrão.

Ian e eu trocamos outro olhar preocupado. A velocidade não parava de aumentar. Ainda estávamos dentro do limite do aceitável, mas a qualquer instante poderíamos chegar perto da velocidade da luz.

Bati de leve em seu ombro.

— Hã... Rowan. Você está indo bem rápido. Quer descansar um pouco? Eu posso dirigir.

— Também posso — ofereceu Ian, as mãos se torcendo nervosamente. — Não tenho como prometer que não vou bater de frente com um muro, mas posso tentar.

— Esquece, gente, eu sou o único com habilitação para dirigir aqui.

Rowan tirou um pouco o pé do acelerador, mas ainda estava bem acima do limite de velocidade. Sua mão agarrava o celular com força.

— Rowan, deixa eu guardar isso para você. — Estendi o braço, tirando o telefone de suas mãos com toda a delicadeza. — Acho que você e seu celular precisam dar um tempo. — Joguei o aparelho discretamente para Ian, então apoiei a mão no ombro de Rowan. — Ei, não sei bem o que está acontecendo, mas você não está sozinho. Pode contar com a gente. — As palavras eram quase idênticas às que ele tinha me dito em Killarney.

Após um longo silêncio, Rowan se curvou para a frente, a velocidade diminuindo aos poucos. Ian me lançou um olhar de aprovação.

— Foi mal, gente. Meus pais estão me pressionando muito. Tem sido um ano muito difícil. Eu só... — Sua voz vacilou.

Ian olhou para mim de novo, e a mensagem era óbvia: Ajude o Rowan.

— Hã... — Eu olhei para baixo, e acabei avistando o guia. — Que tal a gente adicionar mais uma parada do guia? Há um castelo entre Killarney e Cobh. É um pouco fora do caminho, mas parece muito interessante.

— O Castelo de Blarney? — A voz de Rowan se animou na hora. — Excelente ideia. Uma pausa faria bem.

— Hã... — interveio Ian. — É claro que quero que você tenha sua pausa, mas estou preocupado que outra parada nos faça chegar atrasados em Cobh. Mandei e-mails durante um mês até a dona do pub me responder, e mesmo assim ela disse que só tinha uma hora disponível. Não quero arriscar.

Por que Ian estava sendo tão insensível? Será que não percebia como Rowan estava desesperado?

— Ele precisa mesmo de uma pausa — falei, lançando um olhar fulminante para Ian. — Vai ser rápido. Aliás, quantos irlandeses você

cou importunando pela internet durante o verão?

Coitados. Quando cava obcecado, Ian era implacável.

— Só dois — murmurou meu irmão, as pontas das orelhas cando vermelhas.

— A gente tem tempo de sobra. E mais cedo você falou que me devia uma. — Rowan olhou para Ian com expectativa.

Ian hesitou, uma mecha de cabelo desaparecendo em sua boca antes de ele ceder.

— Está bem. Se formos rápidos, vai dar tudo certo. Só não quero que a situação dos tratores se repita.

Rowan e eu compartilhamos um sorriso vitorioso pelo retrovisor.