Amor & sorte

Jenna Evans Welch · Capítulo 4 de 15 · parte 1/2

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Amor & sorte

Falésias de Moher

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

 

 

Cada vez que um turista vai para a Irlanda e não visita as Falésias de Moher, uma banshee perde a voz. É isso mesmo, meu raio de sol, uma banshee. Afinal de contas, estamos na Irlanda, um lugar cheio de fantasmas estridentes. E como sua guia de turismo e amiga, é minha obrigação dizer que nunca, jamais, em hipótese alguma, alguém deve ir à Irlanda e não visitar as falésias. A viagem não faz sentido sem isso.

E eis o porquê: elas são lindas. De tirar o fôlego, aliás. Mas não daquele jeito suave e doce, como um pôr do sol ou um cordeirinho dando seus primeiros passos. Elas são lindas como uma tempestade — do tipo que enchem a gente de medo e admiração ao mesmo tempo. Você já ficou preso em um carro durante um temporal muito violento? As falésias são lindas desse jeito. São drama, raiva e paz, tudo misturado em uma combinação impressionante.

Estudei as falésias por anos antes de descobrir seu segredo — o que faz com que não sejam meramente pitorescas, mas sim algo capaz de transformar vidas: são lindas porque são contraditórias. Colinas suaves e cobertas de musgo transformam-se em rochedos escarpados aterradores. O mar revolto contrasta com o céu sereno. Os visitantes ficam parados em volta, tomados por uma mistura de reverência e euforia. Antes de conhecer as falésias, eu sabia que o belo podia ser agradável e inspirador. Depois, soube que também podia ser severo e lúgubre.

Na verdade, as falésias são iguaizinhas a certo coração que conheço. Sabe qual? Um que já foi capaz de conter tanto uma alegria esmagadora quanto uma tristeza opressiva e, ainda assim, permanecer primorosamente belo?

Claro que você não ouviu isso de mim.

DEVER DE CASA: Que tal a gente descarregar um pouco dessa raiva, chuchu? Quero que você encontre algo para jogar longe. Uma pedra, um pombo irritante, o que quiser. Ponha um nome nesse objeto. Dê-lhe a identidade da coisa que mais incomoda você e a mande pelos ares. Às vezes, um pouco de raiva faz bem. Depois, quero que respire fundo uma vez. E mais outra. Viu como a respiração continua acontecendo? Viu como ela se regula sozinha?

— Trecho de Irlanda para corações partidos: um guia não

convencional da Ilha Esmeralda, 3a edição

— QUE VESTIDO LINDO, IRMÃZINHA. VIROU CORRETORA?

Desviei os olhos do meu livro, pretendendo fazer uma careta para Archie, mas na metade do caminho perdi as forças e a expressão acabou se tornando algo entre o desgosto e o desdém. Depois de um dia daqueles, não tinha sobrado qualquer impulso homicida em mim.

Archie, sendo Archie, interpretou minha passividade como um convite e se jogou com tudo no sofá, quase me fazendo derrubar o guia.

— Tá maluco? — reclamei, e fui tomada por um pânico repentino ao me dar conta de que estava lendo um livro com “corações partidos” no título.

O guia tinha praticamente pulado para os meus braços da prateleira da pequena biblioteca no canto do salão de festas do hotel. A biblioteca era conveniente por vários motivos. Não só fornecia uma boa visão de minha mãe ainda furiosa, como também tinha um aroma reconfortante de lavanda e poeira, além de estar cheia de livros interessantes que pareciam ter sido descartados por hóspedes ao longo dos anos. Em outras palavras, era o esconderijo perfeito.

Irlanda para corações partidos havia chamado minha atenção de cara, apesar de não ter uma aparência muito impressionante. A capa era decorada com trevos em forma de coração, e uma mancha de xícara de café cobria parte do título, que era longo demais. Mas a capa não importava, pois eu estava na Irlanda e tinha um coração partido. Era o livro perfeito para mim.

— O que você está lendo? — perguntou Archie enquanto eu tentava esconder o livro atrás das almofadas.

— Uma casa na campina — respondi, dizendo a primeira coisa que me veio à cabeça. Quando era criança, eu tinha demorado a aprender a ler, mas depois que comecei, li os volumes daquela série até se desintegrarem. — Além disso, você não deveria pular na mobília. Acho que este sofá é uma antiguidade.

— O hotel inteiro é uma antiguidade.

Ele gesticulou indicando o salão de festas, que tinha mais móveis antigos, candelabros brilhantes e peças de cristal do que eu já vira na vida.

Apesar de ser um local meio pretensioso para um casamento, Ross Manor sem dúvida tinha um ar de casa de campo encantada, graças ao gramado exuberante com roseiras de galhos retorcidos e os travesseiros confortáveis sob os quais brotavam, todas as noites antes de dormir, chocolates em embalagens douradas. Até mesmo os zeladores eram adoráveis — um casal de cabelos brancos com muitas rugas que sempre encurralava os convidados para oferecer chá e biscoitos. “Gnomos de jardim”, foi o apelido que Walter lhes deu. Combinava com eles.

— Nosso pai teria odiado muito este lugar, né? — perguntou Archie.

— Estou tão feliz que ele não esteja aqui.

No início do verão, quando a notícia do noivado de nossa tia assolou nossa casa como um enxame de abelhas muito caro, meu pai foi irredutível. Sua irmã coleciona homens como outras pessoas colecionam copos de shot. Eu me recuso a ir para mais um casamento e passar uma semana inteira tentando encenar um conto de fadas.

Eu me inclinei para a frente, tentando ver o que minha mãe estava aprontando — checagem que eu vinha fazendo a cada quinze minutos. Naquele momento, ela andava pelo salão de festas, arrumando os arranjos de ores que, uma hora antes, tia Mel acusara aos gritos de estarem começando a “de nhar até a morte”. Pelo visto não havia espaço para algumas ores murchas. Não quando os índices de audiência estavam em jogo.

Cinco anos antes, minha tia Mel havia criado um programa de decoração que passou a ser transmitido pela HGTV. Isso signi cava que em uma tarde qualquer eu podia me refestelar no sofá com um pacote de biscoito sabor morango e assistir a Meia Hora com Mel, onde ela ensinava aos telespectadores como transformar um velho palete em uma estante usando apenas uma chave de fenda e um esmalte velho. Ou pelo menos acho que era isso que ela fazia. Nunca consegui assistir a um programa até o m.

Archie indicou tia Mel com a cabeça.

— Como acha que ela convenceu esse aí a se casar com ela?

— O Clark? — perguntei.

Nosso novo tio estava parado perto do bar, mantendo-se de pé com certa di culdade. Desde que anunciaram o noivado, ele parecia aturdido, como se estivesse sendo carregado por uma correnteza forte demais. Como sempre. Os tios número um e dois tinham exibido essa mesma expressão. Certa vez, ouvi meu pai descrever a tia Mel como uma correnteza. Minha mãe cou com raiva, e meu pai, coberto de razão. Minha mãe só cava brava quando as pessoas diziam a verdade.

— Deve ter sido o dinheiro dela. E seu estilo “eclético-moderno-descontraído” — completei, imitando a voz de tia Mel.

— Mas será que isso é su ciente? Nossa mãe disse que ela o obrigou a perder dez quilos.

— E a raspar o bigode — acrescentei.

— A sociedade deveria tê-lo obrigado a raspar aquele bigode. Parecia que ele tinha um rato molhado grudado na cara.

Eu ri, minha primeira risada sincera em dez dias, e saiu meio rouca, como uma porta que não era aberta havia muito tempo.

Archie deu um sorriso.

— É bom ouvir essa risada. Já fazia tempo. Você tem estado meio... deprimida.

Meu humor despencou de novo. Ele estava certo. Toda vez que eu me esquecia, mesmo que por um instante, como seria o próximo ano na escola, Cubby ressurgia, um peso em meus ombros, fazendo meu estado de espírito afundar. Como pude ser tão burra?

— Você e Ian se saíram bem suplicando de joelhos? — perguntou Archie.

Assenti, grata pela mudança de assunto.

— Eu, sim. Ian só cou lá parado, fazendo cara feia.

Archie gemeu.

— Ou seja, sendo Ian.

— Exatamente.

Tinha sido que nem nas falésias com os turistas. Eu tentando me explicar enquanto Ian se ngia de morto. Pelo menos, dessa vez ele tinha

cado de pé.

— Falando nisso, cadê ele? — perguntou Archie.

Apontei com o queixo.

— Ali, ó. Sentado naquela cadeira que parece um trono.

Ian tinha adotado a mesma estratégia de sobrevivência que eu: encontrar uma peça de mobília antiga fora do caminho para passar o tempo e ngir que está em qualquer outro lugar. Só que ele havia passado a noite inteira mandando mensagens para alguém, com uma expressão que eu só poderia descrever como alegre.

— Ele está sorrindo? — perguntou Archie, incrédulo. — Depois de tudo que aconteceu hoje? Que esquisitão.

Mordi a língua, lutando contra o impulso de defendê-lo. Era assim que nossa família sempre se alinhara: Ian e Addie versus Walter e Archie. Às vezes formávamos outras alianças, mas as principais eram essas. Será que eu tinha estragado isso para sempre?

— Ele está sorrindo para o celular desde que saímos das falésias. Não sei com quem anda conversando, mas deve ser coisa boa.

— Provavelmente alguma garota — comentou Archie.

— Duvido.

Todas as garotas do universo eram apaixonadas pelo Ian, mas ele mal as notava, o que me deixava com a tarefa ingrata de afastar todas as pretendentes que achavam que se aproximar de sua irmã mais nova era o caminho para seu coração. Rá.

Archie puxou minha manga.

— Mas falando sério. Nesse vestido, você está parecendo a Miss Corretora de Imóveis.

Dessa vez, a cara feia veio sem esforço.

— Qual é, Archie? Você viu o que aconteceu com meu vestido lá nas falésias. Eu não tinha muitas opções. Tive que pegar um da nossa mãe.

— Ela não tinha nada com menos cara de... corretora?

— Você conhece mesmo ela?

— Só por alto. É aquela que vive gritando com a gente? De cabelo curto? Que de vez em quando aparece em outdoors?

Eu estremeci.

— A gente precisa convencê-la a não fazer isso este ano.

— Boa sorte. Aqueles outdoors estão pagando minha faculdade.

— O futebol americano está pagando sua faculdade. E a de Walt. E Ian provavelmente vai ser o primeiro estudante universitário na história a ganhar um salário para jogar. Sou a única que vai precisar daqueles outdoors para pagar a faculdade.

Eu não estava me fazendo de coitadinha. Era a mais pura verdade. Meus irmãos caram com todos os genes de atletas naturais, e só tinha me restado fazer o melhor possível com meus genes de atleta esforçada. Eu era boa, mas não era a craque do time. O que era péssimo quando havia santuários dedicados a seus irmãos no salão de atletismo.

A expressão de Archie se suavizou.

— Ei, não desista de jogar na faculdade ainda. Vi uma grande melhora na sua técnica ano passado. Você tem chance.

Dei de ombros. Não estava com cabeça para uma conversa motivacional.

— Isso se eu não estragar tudo com Ian.

— Claro que não vai. Você vai se divertir com a Lina, enquanto Ian... Sei lá. Vai ser o Ian.

Ser o Ian. Era quase um esporte olímpico radical. Música, futebol americano, escola — tudo vivido em uma intensidade maior do que o resto das pessoas.

— Você sabe por que ele quer ir para a Itália? Acho que o Ian não vai muito com a cara da Lina. Ela morou com a gente por seis meses e ele quase não conversou com ela. Será que é só para me torturar?

Ele deu de ombros.

— Lina? Ah, não tem motivo para ele não gostar dela. Ela é engraçada e meio diferente. Além disso, tem aquele cabelo maluco. Quando ela foi embora mesmo?

Eu ia dizer o número exato de dias, mas sabia que isso soaria neurótico.

— No início de junho.

— E ela vai car na Itália de vez?

Senti meus ombros desabarem.

— É. — Era quase como ser condenada à prisão perpétua. — Ela vai

car por lá até o m do ano letivo. O pai dela gosta muito de viajar,

então eles vão para tudo que é canto. Em outubro ele vai levar Lina e o namorado dela para Paris.

Lina tinha um namorado. Outra coisa que havia mudado. No último ano, Lina passara por muitas mudanças, começando quando sua mãe, Hadley, foi diagnosticada com câncer de pâncreas. Uma dor conhecida tomou minha garganta, a que surgia sempre que eu pensava em Hadley. Ela era especial, sem dúvida — criativa, aventureira, caótica, e com o grau de proximidade perfeito para fazer a gente se sentir cuidada mas não sufocada.

Às vezes eu sentia como se tivesse perdido Hadley duas vezes — uma por mim e outra por Lina. Eu tinha cado tão desesperada para tirar Lina do sofrimento no qual ela parecia estar afundando que eu mesma

cava quase doente de preocupação.

Mordi a parte de dentro da bochecha, resistindo à sensação de desamparo para voltar a prestar atenção em Archie e na viagem.

— Faria mais sentido Ian escolher visitar todos os pontos turísticos que vocês vão conhecer durante a semana. Vocês não vão ao castelo onde

lmaram Coração valente?

Archie se aprumou, como eu sabia que faria. Todos os meus irmãos sabiam as falas desse lme de cor.

— Com certeza vamos conhecer o castelo de Coração valente. Walt trouxe até tinta para a gente interpretar algumas das cenas.

Ah, caramba. Tia Mel ia amar.

— Então, Ian ama esse lme. Ele costumava ver antes de ir dormir. Acho que ele vai para a Itália comigo só para me irritar.

— Talvez ele só queira passar um tempo com a irmã.

— Ah, claro, porque ele tem passado tanto tempo comigo neste verão.

Archie revirou os olhos, mas contra meu sarcasmo não havia argumentos. Ian passara a maior parte do verão trancado no quarto escrevendo redações de admissão para as faculdades e saindo de carro sem dizer aonde ia, sempre com a música no último volume. E então eu me envolvi com Cubby, e meu relacionamento com meu irmão cou daquele jeito.

Sem falar no que havia acontecido no acampamento de futebol americano.

De repente, Archie me encarou, sério.

— Anda logo, Addie, desembucha.

Seu tom era sério, e meu coração disparou.

— Sobre o quê?

— Qual é o problema?

— Com... Ian? — perguntei, hesitante. Por favor, tomara que ele não tenha ouvido.

Archie balançou a cabeça. Senti meu coração ir parar na garganta, fazendo minha voz explodir com raiva.

— Bem, então não sei do que você está falando.

— Calma, maninha. Não é de mim que você está com raiva. — Ele me encarou de novo. — Eu ouvi o que o Ian falou. Antes de você empurrá-lo.

Minha respiração cou entalada enquanto eu tentava lembrar

exatamente o que Ian tinha dito. Que conclusões Archie podia tirar de uma única conversa aos sussurros?

— O que você ouviu?

— Você está com algum tipo de problema? O que Ian quer que você conte para nossos pais?

Archie não sabe o que aconteceu. Eu afundei no sofá, aliviada.

— Não estou com problemas.

Por enquanto era verdade. Contanto que a história não se espalhasse ainda mais, eu não estava em apuros. Humilhada e com o coração partido? Sim. Em apuros? Não. Era por isso que eu não ia contar para minha mãe.

Archie me estudou, a cabeça apoiada na mão.

— E aí? Isso tem a ver com algum cara? Imagino que seja alguém do time de Ian, para ele estar tão irritado.

Aquele tom era de incredulidade? Meu corpo cou tenso.

— Por quê? Acha tão impossível assim um jogador de futebol americano popular gostar de alguém como eu? — retruquei com raiva.

— O quê? Claro que não. — Ele levantou as mãos, na defensiva, os olhos azuis arregalados. — Addie, não foi isso que eu falei. Por que você está tão estranha?

Porque meu coração dói. Porque, na verdade, é sim impossível alguém como Cubby gostar de alguém como eu. Mantive os olhos xos no estofamento de veludo verde, roçando a unha do polegar em um rasgo no assento. Lágrimas ardiam em meus olhos.

— Mamãe e Walt ouviram?

Ele balançou a cabeça.

— Ela estava negociando um contrato discretamente pelo celular, e Walt escondeu fones de ouvido embaixo do cabelo. Ele nem reparou que vocês tinham caído até todo mundo começar a surtar.

Pelo menos foi Archie quem ouviu, não Walter. Dos meus irmãos, Archie era o mais normal quando se tratava de guardar segredos. Ou seja, na maioria das vezes ele cava de bico fechado. Os outros dois eram extremos. De um lado estava Ian. No segundo em que você contava qualquer coisa para ele, sua boca virava um túmulo — por isso eu não estava com medo de ele contar aos nossos pais sobre Cubby. Walt era exatamente o oposto. Toda vez que ele precisava guardar segredo, era como uma batata quente — era só uma questão de tempo até ele passar a informação para alguém, em geral a última pessoa que você queria que

casse sabendo.

— Se esse cara sacaneou você, seria um prazer fazer uma visitinha antes de eu voltar para a faculdade. Talvez possa esperar ele pegar a estrada e me distrair ao volante? Dar ré sem olhar para trás? Só preciso de um nome. — O tom dele tinha passado de descontraído para intenso, o que era raro.

— Não. Archie, não quero que você atropele ninguém — falei num tom decidido, caso a brincadeira tivesse um fundo de verdade.

— Tem certeza?

— Absoluta — a rmei, engolindo o choro. — Não é como se isso fosse resolver alguma coisa.

— Ah, mas resolveria. Ele ia parar de mexer com quem não deve.

Eu agarrei seus ombros.

— Archibald Henry Bennett. Prometa que não vai fazer nada.

— Tem certeza?

— Prometa.

— Está bem. Eu prometo.

Mas que inferno. Irmãos. Era como ter um bando de cães de guarda que de vez em quando se voltam contra você. Essa conversa tinha me deixado exausta. O dia inteiro tinha me deixado exausta, na verdade.

— Bem, obrigada pela conversa, mas eu preciso car um pouco sozinha — falei, inclinando a cabeça em direção à porta de modo nada sutil.

Eu havia aprendido fazia muito tempo que sutilezas não levam a lugar algum quando se está lidando com garotos, pelo menos não com os da minha família. Quanto mais direta for, melhor.

Archie se levantou e me deu um tapinha desajeitado no ombro.

— Pode contar comigo, Addie.

— Obrigada.

Inclinei a cabeça para a porta mais agressivamente.

— Está bem, está bem. Já estou indo.

Ele foi embora, sua lista de tarefas imaginária iluminada em neon acima de sua cabeça. Ajudar a irmã mais nova. Feito.

* * *

Assim que Archie saiu do meu campo de visão, peguei o guia e acendi o abajur empoeirado ao lado da estante. Tentei me concentrar nas palavras, mas Ian acabava me distraindo. Ele não se levantou da cadeira nem uma vez e estava concentrado em seu celular como se não existisse mais nada no mundo, o cabelo caído no rosto.

Logo depois do Natal, meu irmão tinha resolvido parar de cortar o cabelo e não mudou de ideia nem com as súplicas e ameaças da nossa mãe. Agora o cabelo estava quase nos ombros e era um lembrete constante de como a genética é injusta. Meus irmãos puxaram os cílios grossos da minha mãe e o cabelo escuro ondulado dela. O cabelo louro e

no da minha avó tinha pulado uma geração, ignorando meu pai, que

saiu moreno, para cair bem em mim.

Todos tínhamos olhos azuis, mas, mesmo de longe, os de Ian pareciam mais azuis do que o normal, acentuados pelo hematoma ao redor do olho esquerdo, graças a mim. Aquele olho roxo parecia dolorido. E de nitivo. O ponto nal de uma frase longa e infeliz.

De repente, um sorriso se abriu no rosto dele, e meu peito foi tomado por sentimentos con itantes. Porque a verdade é que o sorriso de Ian sempre era cem por cento genuíno. Ian não ngia nada por ninguém. Se alguém arrancasse uma risada dele, era porque tinha sido realmente engraçado. Se o deixasse irritado, era porque a pessoa estava sendo uma idiota completa.

Eu sou uma idiota completa.

O pânico borbulhou em meu peito e eu dei um pulo do sofá, en ando o guia debaixo do braço. Precisava de ar fresco. Imediatamente.

Esperei minha mãe se distrair conversando com a mãe do noivo para me afastar de ninho, colada à parede da pista de dança até chegar às portas e sair para o pátio.

Do lado de fora, parei para respirar o maravilhoso ar puro. Se estivesse escrevendo uma matéria sobre turismo na Irlanda, começaria falando do cheiro. É uma combinação de terra molhada de chuva e outra coisa, um aroma secreto. Como a pitada extra de noz-moscada na receita de rabanada que meu pai e eu tínhamos passado o m de semana do Quatro de Julho aperfeiçoando.

E se meu pai descobrir?

Antes que minha mente pudesse se agarrar a esse pensamento, voltei a andar, descendo a escada e passando por uma fonte que transbordava com a água da chuva. Luzinhas cálidas e cintilantes ladeavam os caminhos do pátio, e as lâmpadas amarelas produziam um zumbido alegre nos pontos em que se sobrepunham. Poças d’água reluziam no chão de pedra, e o vento soprava, frio e perfeito. Como era possível eu me sentir tão péssima em um lugar tão lindo?

Cravei as unhas na palma das mãos, uma dor orescendo em meu peito. Às vezes, eu não sabia se sentia saudade de Cubby ou da imagem perfeita de nós dois que eu criara. Era sempre a mesma cena. Ela começava em meados de setembro, uma ou duas semanas depois do nervosismo da volta às aulas. Nós estaríamos andando pelo corredor, Cubby com o braço ao meu redor de modo casual, os dois perdidos em uma daquelas conversas em que a única coisa que importa é a outra pessoa. Os sussurros nos seguiriam pelos corredores. Aquela ali é Addie Bennett. Eles não são fofos juntos? Eu sei. Como foi que nunca reparei nela antes?

Bem, meu desejo foi atendido. Com certeza os sussurros iam me seguir pelos corredores. Mas não do jeito que eu queria.

Por m, cheguei a uma alcova coberta de hera do outro lado do jardim — uma versão ao ar livre do meu esconderijo na biblioteca — e tentei me sentar de pernas cruzadas, o frio subindo pela saia justa do vestido da minha mãe. Peguei o celular e meu coração deu um salto quando vi uma nova mensagem.

CADÊ VOCÊ??????????????????

Era Lina.

Lina e dezoito pontos de interrogação. Contei duas vezes para ter certeza. Com Lina, pontuação excessiva nunca era um bom sinal. Em geral, suas mensagens pareciam redigidas por uma professora do século XIX que por acaso tinha encontrado um smartphone: usava todas as letras maiúsculas, pouquíssimos emojis e sempre formava frases completas. Vários pontos de interrogação eram o equivalente a Lina se levantar no meio de uma missa e começar a xingar com um megafone. Ela não estava só com raiva, estava furiosa.

Na mesma hora digitei uma resposta bastante vaga.

Desculpa, não posso conversar agora. Tô no casamento :(

Estava cando craque em escrever mensagens vagas. E em evitar telefonemas. O emoji triste me encarou de modo acusador.

— Que foi? — retruquei, irritada. — Para sua informação, tenho um ótimo motivo para não atender as ligações dela.

Eu não queria falar com Lina porque não podia falar com Lina. Ela me conhecia bem demais. No segundo em que ouvisse minha voz, saberia que havia algo errado, e eu me recusava a contar a ela sobre Cubby por telefone. Se Lina ia me julgar, eu queria vê-la fazer isso em pessoa. Também havia outro motivo: a imensa quantidade de coisas que eu precisava contar para ela. Lina não sabia nada sobre Cubby, o que signi cava que eu precisava atualizá-la sobre o verão inteiro.

Eu só tinha que chegar à Itália. Quando estivesse lá, botaria tudo para fora, do início ao m, sem esconder nada. Eu sabia direitinho o que aconteceria em seguida. Primeiro Lina caria em choque, depois confusa. Então bolaria um plano brilhante para me fazer sobreviver à volta às aulas enquanto me tranquilizava e me convencia de que ia car tudo bem.

Ou pelo menos era com isso que eu contava.

Cubby tinha falado comigo pela primeira vez quatro dias depois de nos mudarmos para Seattle. Eu estava fazendo waffles. Waffles de suborno, para ser mais especí ca, e não estava sendo uma tarefa fácil. Archie e Walter caram incumbidos de desempacotar os utensílios de cozinha, e de alguma forma tinham conseguido transformar o lugar em um campo minado. Levei um golpe de assadeira na cabeça e derrubei uma dúzia de ovos inteirinha quando tropecei na máquina de fazer pão. No entanto, quando meu primeiro waffle começou a assar, soltando um cheirinho maravilhoso, soube que tudo valeria a pena.

Respirei fundo, satisfeita. Os waffles precisavam car deliciosos. Eram meu ingresso para o encontro matinal do qual Ian havia me banido. Ninguém grita Addie-sai-daqui-agora para uma pessoa com um prato de waffles quentinhos na mão. Nem mesmo quando se está tentando impressionar seus novos amigos.

— Seu cabelo está sujo de farinha.

E lá estavam elas. As primeiras palavras que Cubby Jones me disse. Realmente não foi o começo mais romântico do mundo, mas eu tinha doze anos na época. Ainda não sabia que nome dar para a atenção que eu insistia em dar para Cubby toda vez que ele estava por perto.

Enquanto tentava limpar a franja com um pano de prato, Cubby se aproximou, farejando o cheiro de waffle no ar. Quando chegou a um metro de mim, percebi o que havia de diferente nele.

— Seus olhos! — exclamei, largando o pano de prato.

Os olhos de Cubby eram de cores diferentes. Seu sorriso murchou.

— O nome disso é heterocromia. É só uma coisa genética, não é tão esquisito.

— Não disse que era esquisito. Posso ver? — Agarrei seu braço e o puxei para perto. — Azul e cinza? — sussurrei.

— Violeta — corrigiu Cubby.

Assenti.

— Verdade. Gosto mais desse. Se você estivesse em um lme de cção cientí ca, o olho violeta seria a fonte dos seus poderes.

Ele arregalou os olhos e sorriu, uma expressão de divertimento e surpresa que começou em sua boca e se espalhou devagar até chegar nos olhos de cores diferentes. Foi nesse momento que percebi que havia duas maneiras distintas de olhar para os garotos. Havia o jeito normal — como zera a vida toda — e esse segundo jeito, que fazia a cozinha se entortar de leve e os waffles serem esquecidos na máquina do Mickey Mouse.

 

A despedida com estrelinhas dos recém-casados foi ridícula. Não só meu irmão mais velho, o único que tinha idade para estar bêbado, tentou — e conseguiu — botar fogo em uma das roseiras, como também o segundo câmera estava tendo di culdade para conseguir uma boa tomada da noiva e do noivo. Então tivemos que repetir todo o processo várias vezes até carmos sem estrelinhas e mesmo os convidados que mais queriam aparecer na televisão começarem a se rebelar.

— Os ônibus chegam amanhã de manhã às seis e meia em ponto! — gritou tia Mel por cima do ombro enquanto o Tio Número Três a levava para o hotel.

A cauda do vestido se arrastava atrás dela, varrendo pedaços de confete e estrelinhas queimadas. A despedida tinha sido só para as câmeras. Eles estavam hospedados no Ross Manor com todo mundo.

— Finalmente podemos ir embora — disse minha mãe baixinho, passando a mão pelos cabelos, exausta. Seu rímel estava borrado, o que fazia seus olhos parecerem embaçados.

O resto de nós seguiu atrás dela, arrastando-se em silêncio pela escada verde-escura até nosso andar, e depois entramos um por um em nosso quarto que mais parecia um closet. Apesar de sermos cinco — incluindo dois jogadores de futebol americano universitários que eram só um pouco menores do que o King Kong —, tia Mel havia nos deixado com o que devia ser o menor quarto do hotel.

Um papel de parede oral com textura de veludo decorava o cômodo inteiro, e as camas de meus irmãos ocupavam a maior parte do ambiente, então o único espaço livre era um minúsculo corredor ao longo do pé das camas. Claro que meus irmãos já haviam entupido esse pequeno vão com seu suprimento inesgotável de lixo e porcarias — embalagens de doces, carregadores de celular embolados e mais pares de tênis do que deveriam existir no mundo. Eu tinha uma expressão para de nir aquela mistura: espaguete de irmão.

Entrei no banheiro primeiro e tranquei a porta, abrindo a torneira da banheira o máximo possível. Não tinha a menor intenção de tomar banho. Só precisava abafar o som da bagunça no quarto. Viajar com minha família me dava dor de cabeça.

Tirei o vestido de corretora de imóveis, substituindo-o por uma camiseta larga e shorts pretos de pijama, depois escovei os dentes o mais devagar possível.

— Tenho que fazer xixi, maninha! — gritou Walt, batendo na porta. — Xixi, xixiiii, xi-xi-xixiiii.

Abri a porta para fazer aquela cantoria parar.

— Bela canção. Você deveria seguir carreira.

Ele entrou no banheiro, esbarrando em mim no caminho.

— Eu sabia que você ia gostar.

Atravessei o quarto com cuidado, evitando meia dúzia de minas terrestres em forma de tênis antes de subir na cama e me enrolar bem nos cobertores. Mal podia esperar para dormir. E esquecer. Era como eu vinha lidando com a situação nos últimos dez dias — desde que Ian invadiu meu quarto dizendo que eu tinha estragado a vida dele. A vida dele. Como se fosse ele quem iria passar o ano seguinte inteirinho evitando Cubby e qualquer um que o conhecesse. Meu estômago se embolou tanto quanto os lençóis.

— E aí, qual é o plano, então? Usar minha camiseta até eu esquecer que ela é minha? — A voz de Ian atravessou os cobertores, e descobri a cabeça devagar. Ele estava falando comigo?

Minha mãe abarrotava sua mala como se estivesse recheando um peru de Ação de Graças, e Archie estava com a cara en ada no travesseiro, ainda de terno. Ian se apoiava em uma montanha de travesseiros, um fone de ouvido na orelha, o rosto virado mais ou menos na minha direção.

— Você me deu — respondi, modulando a voz no tom que um roteirista de seriados de comédia indicaria como

. Era uma camiseta muitíssimo confortável com gola e

mangas pretas com os dizeres

em letras maiúsculas.

— Aham, e esse “você me deu” na verdade quer dizer que você foi até minha gaveta e roubou a camisa mais macia que encontrou?

Na mosca.

— Eu posso devolver.

Ian está falando comigo. Falando. Comigo. Um lampejo de esperança se acendeu em meu peito.

— Você por acaso entende a referência? — perguntou ele, socando o travesseiro de cima da pilha para ajeitá-lo.

Seu cabelo estava em uma versão horrenda de um coque samurai, com as laterais irregulares e parte do cabelo caindo nas costas. Ele claramente não tinha assistido ao tutorial Como fazer o coque samurai perfeito que eu havia encaminhado.

— Ian, fui com você até Fleet Street e ouvi o Nevermind inteirinho. Como eu poderia não entender a referência?

Isso tinha sido durante a fase Nirvana dele. Fizemos três excursões diferentes com essa temática, incluindo uma viagem à casa em que Kurt Cobain crescera. Eu até concordei em me fantasiar de Courtney Love no Halloween, mesmo que precisasse usar uma tiara e ninguém conseguisse adivinhar quem eu era.

— Pelo menos você entende. — Ian se virou de lado, mal-humorado. Ele hesitou, então cutucou o celular, a voz um pouco mais alta que um sussurro. — Quando vai contar para a nossa mãe?

Eu gemi debaixo dos lençóis. Ele estava mencionando aquilo de novo. E justo agora? Com minha mãe, Archie e Walt bem ali. Sem falar que ele tinha conseguido um olho roxo por tocar no assunto. Um dos colegas de time de Ian havia mandado uma mensagem para ele perguntando sobre Cubby. E, em vez de esperar até o m da cerimônia, quando

caríamos sozinhos, Ian tinha en ado o celular na minha cara e sussurrado que eu precisava contar para a nossa mãe. Nossos pais descobrirem era a pior coisa que poderia acontecer. Por que ele não entendia isso?

— Ian! — sussurrei, irritada.

Ele olhou de relance para nossa mãe e depois me lançou um olhar de advertência. Bufei e me escondi debaixo das cobertas, forçando minha respiração a se acalmar. As chances de eu não explodir com Ian eram tão baixas quanto as de ele não mencionar Cubby a cada oportunidade. Ou seja, quase nulas.

Hora de encerrar aquela conversa.

— Boa noite, Ian.

Eu me en ei ainda mais debaixo do cobertor, mas ainda conseguia sentir o olhar dele fuzilando minhas costas. Poucos minutos depois, eu o ouvi se mexer na cama, a música que saía de seu fone preenchendo o ar entre nós.

Como iríamos sobreviver a uma semana inteira juntos?

* * *

Na manhã seguinte, acordei com o som do que parecia uma briga entre a seção de metais de nossa excepcional banda da escola com nosso grupo de teatro medíocre. Abri um pouquinho os olhos. Minha mãe estava desenrolando a perna dos os do despertador e do abajur.

— Maldito inferno escarrado — murmurou ela.

Ou pelo menos era isso que parecia ter murmurado. Walter tinha razão. Ela precisava parar com aqueles xingamentos.

Abri os olhos meio milímetro a mais. A luz fraca do sol entrava pelas cortinas, e Archie, Walter e seus cabelos incrivelmente bagunçados estavam ao lado da porta, ambos parecendo dormir em pé.

— Vocês pegaram os passaportes? — perguntou minha mãe,

nalmente se libertando.

Eles a olharam com expressões confusas e sonolentas, e ela suspirou antes de se aproximar de mim e me envolver em uma nuvem de hidratante.

— Seu táxi chega às nove. Os gnomos vão bater na porta para acordar vocês. — Ela pressionou a bochecha na minha testa como fazia quando eu era pequena e estava com febre. — Prometa que vai resolver as coisas com Ian. Vocês dois são os melhores amigos que terão na vida.

Que ótimo, pôs o dedo bem na ferida.

— Eu te amo, mãe — falei, fechando bem os olhos.

Ela se agachou ao lado de Ian e murmurou algo para ele, então os três saíram do quarto, fazendo barulho pelo corredor.

Parecia que apenas alguns minutos tinham se passado quando outro barulho me acordou. Eu me sentei na cama, desorientada, mas não o su ciente para deixar de perceber que o quarto do hotel estava diferente. Parecia ter o dobro do tamanho sem Archie, Walter e minha mãe e, além disso, as cortinas tentavam inutilmente barrar a luz forte do sol. O quarto estava silencioso, o que aumentava a sensação de que alguém havia acabado de sair.

— Ian — sussurrei. — Você está acordado?

Ele não se mexeu, o que era normal. Ian podia continuar dormindo não importava o que acontecesse.

Eu me virei de barriga para cima e quei imóvel, apurando os ouvidos. O silêncio do hotel era tão denso quanto morcela. De repente, a porta do nosso quarto se fechou silenciosamente, e então houve uma explosão de passos no corredor. Alguém tinha entrado no nosso quarto. Um ladrão? Um sequestrador europeu? Um dos gnomos?

— Ian — chamei, me levantando da cama. — Alguém entrou aqui. Alguém entrou no nosso quarto.

Estendi a mão para apertar seu ombro, mas, em um instante muito desorientador, minha mão afundou no corpo dele.

Puxei o cobertor e encontrei uma pilha de travesseiros. Sério que ele tinha usado o truque dos travesseiros comigo? Eu me virei, examinando o resto das camas. Vazia, vazia e vazia.

— Ian! — gritei para o quarto silencioso.

Olhei para a porta e o que vi provocou minha primeira pontada de preocupação. Em vez das duas malas azul-marinho que deveriam estar ali, havia apenas uma. A minha.

Corri até o despertador, mas o visor estava desligado. Claro. Minha mãe o havia arrancado da tomada sem querer. Eu precisava encontrar meu celular.

Não estava sob os lençóis, nem entre os cartões-postais e canetas com o logotipo do hotel ou debaixo dos folhetos espalhados. Por m, fui até a janela e abri as cortinas, apenas para minhas retinas serem atacada pela claridade. A paisagem parecia pegar fogo — o verde e a luz do sol se unindo para criar um brilho ofuscante. Ao que parecia, a Irlanda tinha dias de sol, e eram cegantes.

Tropecei até a porta e disparei para fora do quarto, o som dos meus pés descalços ecoando pelo corredor.

No andar de baixo, inspecionei o salão de café da manhã e o saguão, mas o único ser vivo era um gato laranja gordo que se instalara em uma poltrona de veludo. Eu corri para o estacionamento, e o ar frio me atingiu. O sol irlandês era só para inglês ver.

O único veículo no estacionamento era um furgão solitário estacionado ao lado de um canteiro de rosas que balançava ao vento, parecendo mandar mensagens frenéticas para mim. Cadê o Ian? Você perdeu o táxi?

Eu precisava me acalmar. Mesmo que eu tivesse dormido demais, ele não iria para a Itália sem mim. Talvez tivesse saído para dar uma caminhada. Com a mala.

O som distante de um motor sendo ligado me arrancou do transe. Fui na direção do barulho, que foi cando mais alto enquanto eu corria para o estacionamento na lateral do hotel. Quando dobrei a esquina, precisei fazer uma pausa de alguns segundos para processar o que estava vendo.

Tecnicamente aquilo podia ser considerado um carro, mas por pouco. Era minúsculo e quadrado — o cruzamento de um Fusca com um hamster —, com a pintura manchada e o escapamento pendurado a poucos centímetros do chão. Caminhando a passos decididos até ele, mala azul-marinho na mão, mochila pendurada no ombro, estava Ian.

A adrenalina me atingiu com força total. Minhas pernas receberam a mensagem antes de mim, e de repente eu estava atravessando o estacionamento a toda, tendo meu irmão como alvo.

Ele me viu um segundo antes de alcançar a porta do carona, mas já era tarde demais. Colidi com ele como se eu fosse o Hulk correndo para um abraço — ou seja, com muita força. A mochila saiu voando e nós dois caímos no chão pela segunda vez em vinte e quatro horas. Doeu tanto que minha visão cou turva.

— O que você está fazendo? — sibilou Ian com raiva, tentando car de pé.

— O que eu estou fazendo? O que você está fazendo? — gritei de volta, pulando para me livrar da dor da queda.

Ele fez menção de pegar a mochila, mas fui mais rápida, envolvendo a alça com os dedos.

— Você estava tentando ir embora sem mim?

— Volte para o quarto. Eu deixei um bilhete no espelho do banheiro.

Ele estava se recusando a fazer contato visual.

— Um bilhete? Esse é o táxi que nossa mãe chamou para nós? Por que é tão caquético?

De repente, o vidro do lado do carona começou a descer aos solavancos. O som de um aplauso lento de admiração encheu o ar, seguido por uma voz com sotaque irlandês.

— Ah, Ian, você apanhou de uma garota! Pena que não gravei. Adoraria ver de novo.

— Rowan!

Ian correu para a janela, soando feliz demais para alguém que havia acabado de ser derrubado em um estacionamento. Ele estava com o mesmo sorriso largo da véspera, aquele de quando estava grudado no celular.

Larguei a mochila no chão e corri até a janela, empurrando Ian para olhar dentro do carro.

— Olá — disse o motorista.

Ele tinha a idade de Ian — ou talvez fosse um pouco mais velho —, cabelo bagunçado, grandes olhos cinzentos e óculos tartaruga de velho, mas que de alguma forma combinavam com ele. Sua camiseta dizia

e exibia um grande felino com espirais no lugar dos

olhos. Com certeza não era um taxista. Ele sorriu e uma covinha encantadora apareceu de um dos lados da boca. Até então eu achava que as covinhas só surgissem em pares.

— Quem é você?

Ele estendeu a mão.

— Eu me chamo Rowan. E você deve ser a Addie.

Seu sotaque era cem por cento irlandês, musical e com vogais suaves que derretiam como calda de chocolate no sorvete.

Eu ignorei tanto a mão estendida quanto o sotaque de calda de chocolate. Mas não consegui ignorar o jeito como ele olhava para mim — como se eu fosse algo raro e empolgante que ele tinha acabado de descobrir no meio da selva.

— Como você sabe quem eu sou?

— Eu sabia que Ian tinha uma irmã chamada Addie. Sinceramente, só um guarda ou uma irmã derrubaria alguém no chão de um estacionamento de cascalho.

Quando não correspondi o sorriso, ele fechou a cara e pareceu um pouco inseguro, levantando os cantos dos óculos com as mãos.

— Ou, pelo menos, suponho que ter uma irmã seja assim. Além disso, você parece uma versão feminina e baixinha do Ian.

— Não me chame de versão feminina do Ian — retruquei com raiva.

No primeiro ano do ensino médio, pelo menos cinco amigos dele

zeram questão de me dizer que eu parecia meu irmão com uma peruca

loira, o que não ajudou nem um pouco minha autoestima.

Ele ergueu a mão.

— Calma. Não falei por mal. Acho que eu também não gostaria se alguém me chamasse de versão masculina de alguma mulher. — A covinha reapareceu. — E eu venho em paz. Então, por favor, não me ataque também.

Ian me empurrou para o lado.

— Desculpa, Rowan. É só uma pedra no caminho. Addie, volte para o quarto. Seu táxi vai chegar mais tarde. O bilhete explica tudo.

Ele tinha acabado de me chamar de “pedra no caminho”?

— Como assim, meu táxi? É nosso táxi. Por que você está aqui conversando com...?

Não terminei a frase. Estava prestes a dizer “Cara da Camisa de Gato”, mas isso pareceu meio mal-educado.

Ian agarrou meu braço, me arrastando para longe do carro e baixando a voz para que o Cara da Camisa de Gato não ouvisse.

— Tenho ótimas notícias: seu desejo foi atendido. Não vou para a Itália com você. É só ler o bilhete, tem todos os detalhes.

O estacionamento pareceu girar uma vez e depois outra. Ele estava falando sério.

— Você não vai para a Itália? Desde quando? — perguntei, meio zonza.

Ele tirou a franja dos olhos e pôs uma das mãos no meu ombro para me reorientar.

— Desde sempre. Vou encontrar você em Dublin para pegar o voo de volta para casa.

Minha mãe tinha comprado passagens de ida e volta para a Itália. A ideia era que voltássemos a Dublin e pegássemos o mesmo avião para casa que o resto da família. Mas parecia que isso não estava mais nos planos.

— Mas... por quê? — quis saber, desesperada.

Rowan nos interrompeu.

— Achei que Addie estava por dentro de tudo. Ela não sabe que vamos para Stradbally?

Eu me distraí por um momento. Ele falava meu nome de um jeito que parecia que estava sendo tocado em um ddle irlandês.

— Eu deixei um bilhete — falou Ian, as bochechas corando. Ele empurrou o cabelo caído no rosto e lançou uma expressão culpada para mim. — É mais fácil assim.

— Mais fácil pra quem? — rebati.

Rowan se inclinou para a janela do lado do carona, o olhar preocupado por trás dos óculos.

— Um bilhete? Não é de admirar que ela tenha atacado você. É uma situação bem suspeita. Você se encontra com um cara aleatório e vai embora para um lugar que ela nunca nem ouviu falar?

Ergui as mãos em um gesto frustrado.

— Até que en m alguém está fazendo sentido aqui.

— Stradbally é uma cidadezinha perto de Dublin — explicou Rowan, olhando para mim. — Mas nós vamos passar em outros lugares primeiro. Temos que fazer uma pesquisa antes de...

— Ei, pode parar por aí! — interrompeu Ian, desesperado. — Por favor, não conte para ela.

Ele me empurrou para fora do caminho e puxou a maçaneta da porta do carro, mas esta não se moveu.

— Não me contar o quê? Ian, não me contar o quê?

Eu agarrei sua mochila. Rowan abriu um sorriso sem graça para meu irmão.

— Foi mal, Ian. Segundo o antigo proprietário, essa porta não abre desde o nal dos anos 1990. Os rapazes sempre precisam entrar pela janela.

— Que rapazes? — perguntei. Como se essa fosse a pergunta mais importante naquele momento.

Ian jogou a mochila para dentro do carro e deslizou pela janela aberta antes de pegar a mala. Tentei agarrá-la, mas ele foi mais rápido.

— Addie, vá ler o meu bilhete e pronto. Vejo você daqui a alguns dias.

Eu me apoiei na janela do carro. Minhas mãos estavam trêmulas.

— Ian, você não estava no carro comigo ontem? Não ouviu o que a mamãe disse sobre não nos metermos em confusão? Isso aqui é a de nição perfeita de confusão.

Os ombros dele murcharam.

— Qual é, Addie, você mesma disse que não quer que eu vá para a Itália e eu entendo. Até respeito isso. Então pode fazer sua viagem, e eu faço a minha. Só vamos ter problemas se um de nós contar para nossos pais, e sabemos muito bem que a chance de isso acontecer é zero.

— Mas Ian...

— Só vamos dar uma passadinha no Electric Picnic — acrescentou Rowan naquele tom de voz tranquilizador que você usaria para falar com um cão raivoso. — Segunda-feira de manhã acaba. Não precisa se preocupar, irmãzinha ninja.

— Electric o quê?

O Camisa de Gato olhou para mim com pena. Minha voz estava meio histérica. Esganiçada.

— Electric Picnic. É o maior festival de música da Irlanda. Acontece todo ano. Tem várias bandas indie e alternativas. Mas este ano é especial. Adivinha quem é a atração principal?

Rowan fez uma pausa, sorrindo como se eu tivesse acabado de balançar uma sobremesa saída do forno com cheirinho de canela na frente do seu nariz.

— Com certeza não é o Ian — respondi com a voz fraca.

— Sim, sou eu! — falou Ian. — Com certeza. E você não vai estar nem aí porque vai estar ocupada na Itália se divertindo tanto.

— Titletrack vai se apresentar no Electric Picnic — informou Rowan, com um tom de voz que deixava claro que nós dois o havíamos decepcionado.

Titletrack. Na mesma hora me lembrei do pôster enorme pendurado acima da escrivaninha de Ian. Quatro caras com expressões pensativas e uma música que, eu precisava admitir, era única. Eu tinha passado a aguardar ansiosamente a carona de Ian para a escola toda manhã só para ouvi-la.

— Aquela banda que você ama. Do Reino Unido.

— Essa mesma — disse Rowan em tom encorajador. — Só que eles são irlandeses, não britânicos. E Ian está planejando...

— Já chega, Rowan. Addie, divirta-se na Itália.

Ian começou a fechar a janela, mas me joguei em cima do vidro, usando meu peso para impedi-lo de girar a manivela.

— Ian, pare. — Rowan lançou um olhar de reprovação para o meu irmão. — Você ia mesmo fechar a janela na cara dela?

Ian se encolheu sob o olhar acusatório de Rowan e encarou as próprias mãos inquietas como se estivesse tentando tomar uma decisão.

— Addie, depois eu explico tudo. Só não deixe nossos pais descobrirem e vai car tudo bem. Você vai dar um jeito. — Ele respirou fundo e acrescentou depressa: — Você passou o verão inteiro mentindo para todo mundo, então isso vai ser moleza.

Aquela frase tinha sido ensaiada. Ele tinha formulado e guardado na manga em caso de emergência. Caso eu me tornasse uma pedra no caminho.

— Ian... — Meus olhos caram cheios d’água, o que me deixou furiosa, claro. Eu não podia perder o controle, não na frente daquele desconhecido com roupas estranhas, e muito menos quando Ian já estava sentado no carro do desconhecido com roupas estranhas. — Ian, não vai funcionar. Você sabe que eles vão descobrir que você não foi para a Itália e então estaremos fora dos times.

Ele encarou o painel do carro.

— Qual é, Addie. Os times não são a coisa mais importante do mundo.

— Ah, não são? — Minha respiração estava ofegante, formando pequenas explosões no meu peito. O que mais ele ia inventar? Que cabras peidando não são hilárias? — Quem é você e o que fez com meu irmão?

— Esta é minha única chance de assistir a um show do Titletrack. Lamento que você não goste da ideia, mas eu vou e pronto.

Seu tom era seco, severo, os olhos de um azul frio e determinado. Aquela resposta desencadeou uma reação de pânico em cadeia dentro de mim. Havíamos entrado o cialmente no estágio Ian Desa ador, mais conhecido como o estágio Não Volto Atrás de Jeito Nenhum. A menos que eu zesse algo drástico para detê-lo, ele iria mesmo para aquele show.

Era agora ou nunca.

Mergulhei pela janela e arranquei a chave da ignição, então deslizei para fora antes que qualquer um dos dois tivesse tempo de processar o que estava acontecendo.

— Addie! — Ian tirou o cinto de segurança e saiu pela janela. Eu já estava do outro lado do carro, apertando as chaves na palma da mão. — É sério que você vai fazer isso?

— Cara, vocês são muito divertidos! Parecem até um seriado de comédia.

Rowan reclinou o assento, que estalou e fez barulho. Eu me virei para meu irmão.

— Ian, você não pode fazer isso. Você sabe que preciso jogar futebol para conseguir entrar em uma boa faculdade. Não pode fazer isso comigo.

— Seus planos para a faculdade não são problema meu.

Sua voz falhou no meio da frase. Ele estava tentando bancar o durão, mas o verdadeiro Ian estava lá, aquele que sabia quanto eu me esforçava na escola, mesmo que fosse inútil. Às vezes, eu tinha a impressão de que ele se sentia culpado porque as coisas eram sempre fáceis para ele e nada parecia fácil para mim.

Nós nos encaramos, esperando que o outro desse o primeiro passo. Ian avançou em minha direção e corri no sentido oposto, mantendo o carro entre nós.

Ian gemeu.

— Foi mal, Rô. Vou resolver isso pra gente ir. É só um pequeno desvio de percurso.

— Você não quis dizer “uma pedra no caminho”? — perguntei, deixando o tom sarcástico de propósito. — E que história é essa de “Rô”? Você já tem um apelido pra esse cara?

Ian tirou a franja do rosto, tentando chegar mais perto de mim.

— Eu o conheço há mais de um ano.

— Como?

— Pela internet. — Ian avançou, mas escorregou no cascalho, o que me deu tempo de sobra para chegar ao outro lado do carro. Ele se levantou devagar, erguendo as mãos em sinal de rendição. — Tudo bem, tudo bem. Você venceu.

— Não me subestime, Ian. Eu brigo com você há dezesseis anos. Acha mesmo que não sei que ngir se render é uma das suas estratégias?

Ele apenas levantou as mãos mais alto.

— Olha, mesmo que nossos pais descubram, aí nós caremos quites. Eu tenho que lidar com as consequências do que aconteceu com você e Cubby, e você tem que lidar com as consequências de eu car na Irlanda. Agora me devolve as chaves.

— Eu já mandei parar de falar sobre o Cubby. E você car com vergonha na frente dos seus amigos não é uma consequência.

A voz de Rowan saiu pela janela.

— Cubby é seu irmão mais velho?

— Não — respondeu Ian imediatamente, os olhos xos em mim. — Walt é o mais velho.

Continuar: parte 2 de 2