Anjos e Demônios
- Mas ele está aqui. E o…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Um derrame fatal. As palavras do comandante fizeram Langdon lembrar as manchetes que lera durante o jantar com alunos no Harvard Commons: PAPA
SOFRE DERRAME E MORRE DORMINDO.
- Além do mais - continuou Olivetti -, a Capela Sistina é uma fortaleza. Apesar de não alardearmos o fato, a estrutura é altamente reforçada e pode resistir a qualquer agressão, exceto de mísseis. Um de nossos preparativos foi examinar cada centímetro da capela esta tarde. Fizemos uma varredura completa procurando grampos e outros equipamentos de escuta. A capela está limpa, é um abrigo seguro e tenho certeza de que a antimatéria não está lá dentro. Não existe lugar mais seguro onde esses homens possam ficar neste momento. E podemos sempre discutir uma evacuação de emergência mais tarde, se for O caso.
Langdon ficou impressionado. A lógica fria e inteligente de Olivetti lembrava-o de Kohler.
- Comandante - disse Vittoria, a voz tensa -, há outras questões a considerar. Nunca se criou uma quantidade tão grande de antimatéria. Só posso fazer uma estimativa de qual seria exatamente o raio de explosão. É possível que uma parte dos arredores de Roma também corra perigo. Se o material estiver dentro de um de seus edificios centrais ou no subsolo, o efeito fora destes muros pode ser mínimo, mas se estiver perto do perímetro, neste prédio, por exemplo... - e ela lançou um olhar cauteloso para fora da janela, para a multidão na Praça de São Pedro.
- Tenho plena consciência das minhas responsabilidades para com o mundo exterior -replicou Olivetti -, que não tornam menos grave esta situação. A proteção deste santuário foi minha única incumbência por mais de 20 anos. Não tenho qualquer intenção de permitir que essa arma detone.
- Acha que pode encontrá-la? - perguntou o camerlengo.
- Deixe que eu discuta nossas opções com alguns dos meus especialistas em vigilância. Existe a possibilidade, se cortarmos a energia elétrica da Cidade do Vaticano, de eliminarmos o fundo de radiofreqüência e criarmos um ambiente limpo o suficiente para conseguir uma leitura do campo magnético daquele tubo.
Vittoria ficou surpresa e depois impressionada.
- O senhor quer apagar a Cidade do Vaticano inteira?
- Talvez. Ainda não sei se é possível, mas é uma opção que quero explorar.
- Os cardeais decerto ficariam imaginando o que teria acontecido - observou Vittoria.
Olivetti fez que não com a cabeça.
- Os conclaves são realizados à luz de velas. Os cardeais jamais saberiam. Depois que o conclave fosse selado, poderia convocar todos os meus guardas, com exceção de alguns poucos do perímetro, e iniciar uma busca. Cem homens poderiam fazer uma boa varredura em cinco horas.
- Quatro horas - corrigiu Vittoria. - Tenho de levar o tubo de volta para o CERN. A detonação será inevitável se as baterias não forem carregadas.
- Existe alguma forma de recarregá-las aqui?
Vittoria sacudiu a cabeça.
- A interface é muito complexa. Teria trazido tudo se fosse possível.
- Quatro horas, então - assentiu Olivetti, de cara fechada. - Ainda temos bastante tempo. Não adianta entrar em pânico. Signore, tem dez minutos. Vá para a capela e sele o conclave. Dê a meus homens um pouco de tempo para que façam o trabalho deles. À medida que nos aproximarmos da hora crítica, tomaremos as decisões críticas.
Langdon conjeturou até que ponto de proximidade da "hora crítica" Olivetti deixaria as coisas chegarem.
O camerlengo estava inquieto.
- Mas o Colégio vai perguntar pelos preferiti... principalmente por Baggia, vai querer saber onde eles estão.
- Vai ter de pensar em alguma coisa, signore. Diga que serviu alguma coisa durante o chá aos quatro cardeais que não lhes caiu bem.
O camerlengo irritou-se.
- Subir ao altar da Capela Sistina e mentir para o Colégio dos Cardeais?
- Para a própria segurança deles. Una bugia veniale. Uma mentira inocente. Sua tarefa será a de manter a paz. - Olivetti encaminhou-se para a porta.
- Agora, se me permitem, preciso agir.
- Comandante - instou o camerlengo -, não podemos simplesmente dar as costas aos cardeais desaparecidos.
Olivetti parou à porta.
- Baggia e os outros estão fora de nossa esfera de influência neste momento. Temos de deixá-los de lado para o bem da maioria. Os militares chamam a isso de triagem.
- Não seria abandono?
Sua voz endureceu.
- Se houvesse alguma forma, signore, qualquer uma neste mundo, de localizar esses quatro cardeais, eu daria a minha vida para fazer isso. Entretanto... - e ele apontou para a janela do outro lado da sala, de onde se via o mar infinito de telhados romanos reluzindo ao sol do fim da tarde -, não está ao meu alcance fazer uma busca em uma cidade de cinco milhões de habitantes. Não vou gastar um precioso tempo acalmando minha consciência em um esforço inútil.
Sinto muito.
Vittoria fez um aparte inesperado.
- Mas, se nós pegássemos o assassino, o senhor não o faria falar?
Olivetti respondeu, sério.
- Soldados não podem se dar ao luxo de serem santos, senhorita Vetra. Acredite, simpatizo com sua motivação pessoal para pegar esse homem.
- Não é somente pessoal - explicou ela. - O assassino sabe onde está a anti- matéria.., e os quatro cardeais.
Se conseguíssemos encontrá-lo...
- E fazer o jogo deles? - disse Olivetti. - Afastar toda a proteção do Vaticano para correr centenas de igrejas é o que os liluminati esperam que façamos, desperdiçando tempo e potencial humano quando deveríamos estar procurando... ou, pior ainda, deixando o Banco do Vaticano totalmente desprotegido.
Sem falar nos outros cardeais.
Era um argumento irrefutável.
- E a polícia de Roma? - perguntou o camerlengo. - Poderíamos alertar toda a cidade pedindo reforços para a crise. Solicitar a ajuda deles para encontrar o raptor dos cardeais.
- Seria outro erro - disse Olivetti. - O senhor sabe o que os carabinieri romanos acham de nós. Teríamos uma colaboração sem muito empenho de uns poucos homens e, em contrapartida, eles divulgariam a nossa crise para a imprensa mundial. Exatamente o que querem nossos inimigos. Vamos ter de lidar com a imprensa muito breve, de qualquer modo.
Farei de seus cardeais luminares da mídia, foram as palavras do matador. O corpo do primeiro cardeal vai aparecer às oito. Depois aparecerá um a cada hora. A imprensa vai adorar.
O camerlengo falou novamente, um traço de indignação em sua voz.
- Comandante, não podemos em sã consciência deixar de fazer alguma coisa pelos cardeais desaparecidos!
Olivetti encarou o camerlengo com firmeza.
- A oração de São Francisco, signore. Lembra-se dela?
O jovem padre pronunciou uma única frase com um tom dolorido.
- "Deus, dê-me forças para aceitar as coisas que não posso mudar."
- Acredite em mim - concluiu Olivetti -, esta é uma dessas coisas.
E saiu.
CAPÍTULO 44
O escritório central da BBC - British Broadcast Corporation - fica em Londres, a oeste de Picadilly Circus. A linha telefônica externa tocou e uma jovem editora atendeu.
- BBC - disse ela, apagando seu cigarro Dunhill.
A voz ao telefone era áspera, com um sotaque do Oriente Médio.
- Tenho uma história sensacional em primeira mão que deve interessar à sua emissora.
A editora pegou uma caneta e papel.
- A respeito de quê?
- Da eleição do Papa.
Ela fez uma careta, enfastiada. A BBC divulgara na véspera uma história sobre o mesmo assunto e tivera uma audiência medíocre. O público, aparentemente, não estava muito interessado na Cidade do Vaticano.
- Sob que aspecto?
- Vocês têm um repórter de TV em Roma cobrindo a eleição?
- Acho que sim.
- Preciso falar diretamente com essa pessoa.
- Sinto muito, mas não posso lhe dar o número dele sem ter uma idéia...
- O conclave está ameaçado. É tudo o que posso adiantar.
A editora tomou notas.
- Seu nome, por favor?
- Meu nome não tem importância.
- E o senhor tem como provar o que alega?
- Tenho.
- Gostaria muito de receber a informação, mas não é nossa política dar os números de telefones de nossos repórteres, a não ser que...
- Compreendo. Vou entrar em contato com outra emissora. Obrigado por sua atenção. Até lo...
- Um momento - disse ela. - Pode aguardar um pouco?
A moça pôs a ligação na espera e alongou o pescoço. A arte de identificar as potenciais chamadas de pessoas excêntricas ou malucas não era de modo algum uma ciência perfeita, mas aquele homem acabara de passar pelos dois testes de autenticidade de uma fonte telefônica. Recusara-se a dar seu nome e mostrara-se impaciente para desligar. Charlatães e maníacos por um pouco de fama em geral ficavam se lamentando e fazendo pedidos insistentes.
Para sorte dela, os repórteres viviam com medo de perder uma boa história e por isso raramente se queixavam por ela lhes passar os ocasionais psicóticos que os decepcionavam. Desperdiçar cinco minutos do tempo de um repórter era perdoável. Perder uma boa manchete, não.
Bocejando, ela olhou para o seu computador e digitou as palavras "Cidade do Vaticano' Quando viu o nome do repórter que estava cobrindo a eleição papal, deu uma risadinha. Era um funcionário novo que a BBC acabara de trazer de um tablóide londrino de má qualidade para fazer a cobertura mais rotineira. Os chefes obviamente o tinham feito começar pelo degrau mais baixo.
Ele estaria provavelmente morto de tédio, esperando a noite inteira para gravar sua matéria de dez segundos ao vivo. Ficaria talvez até agradecido por uma interrupção da monotonia.
A editora da BBC anotou o número do celular via satélite do repórter na Cidade do Vaticano. Depois, acendendo outro cigarro, deu o número ao interlocutor anônimo.
CAPÍTULO 45
- Não vai funcionar - disse Vittoria, andando de um lado para outro no escritório do Papa.
Ela se dirigiu ao camerlengo.
- Mesmo que uma equipe da Guarda Suíça consiga filtrar a interferência eletrônica, terão de estar praticamente em cima do tubo de antimatéria para detectar um sinal qualquer. E isto se o tubo estiver em local acessível e não existirem outras barreiras a isolá-lo. E se estiver enterrado dentro de uma caixa de metal em algum ponto do terreno? Ou dentro de um duto de ventilação feito de metal? Não haverá meio de rastreá-lo. E se houver mesmo espiões naGuarda Suíça? Quem garante que a busca será confiável?
O camerlengo tinha uma expressão esgotada no rosto.
- O que propõe, senhorita Vetra?
Vittoria agitou-se. Não é evidente?
- Proponho, senhor, que tome outras precauções imediatamente. Podemos torcer, contra todas as probabilidades, que a busca do comandante seja bem- sucedida. Ao mesmo tempo, olhe lá para fora, pela janela. Está vendo toda aquela gente? Aqueles prédios do outro lado da piazza? Os carros da imprensa?
Os turistas? Estão todos provavelmente dentro do raio da explosão. O senhor tem de agir agora.
O camerlengo concordou, apático.
Vitória ficou frustrada. Olivetti convencera a todos de que havia tempo de sobra. Mas Vittoria sabia que, se a notícia do problema no Vaticano vazasse, toda a área estaria cheia de espectadores em questão de minutos. Ela presenciara uma cena assim certa vez do lado de fora do prédio do parlamento suíço. Durante um incidente envolvendo reféns e uma bomba, milhares de pessoas haviam se reunido diante do prédio para assistir ao desenlace da situação. Apesar dos avisos da polícia de que era perigoso permanecer ali, a multidão aglomerava-se cada vez mais perto do edificio. Nada desperta mais o interesse humano do que a tragédia.
- Signore, o homem que matou meu pai está à solta por aí. Cada célula do meu corpo deseja sair daqui correndo para caçá-lo. Mas estou aqui no seu escritório porque me sinto responsável pelo senhor. Pelo senhor e pelos outros. Há vidas em perigo, signore. Está me ouvindo?
O camerlengo não respondeu.
Vittoria escutava seu próprio coração em disparada. Por que a Guarda Suíça não conseguira rastrear a maldita ligação? O assassino Iliuminati é a chave de tudo! Ele sabe onde está a antimatéria e, diabos, também sabe onde estão os cardeais! É só pegar o assassino e tudo se resolve.
Vittoria percebeu que estava começando a se sentir desestabilizada, um tipo estranho de angústia dos tempos da infância de que se lembrava apenas vaga- mente, dos anos de orfanato, da falta de instrumentos para lidar com a frustração. Agora você tem os instrumentos, disse a si mesma, sempre tem. Não adiantava, porém. Seus pensamentos interferiam, estrangulando-a. Ela era uma pesquisadora, uma pessoa cuja função era resolver problemas. Mas aquele problema não tinha solução. Quais os dados de que precisa? Disse a si mesma para respirar fundo e, pela primeira vez na vida, não conseguiu. Estava sufocada.
A cabeça de Langdon doía, ele tinha a sensação de estar somente no limiar da racionalidade. Observava Vittoria e o camerlengo, mas sua visão estava nublada por imagens horrendas: explosões, o alvoroço da imprensa, o espoucar dos flashes das máquinas fotográficas, quatro corpos marcados a fogo.
Shaitan... Lúcifer... Aquele que traz a luz... Satan...
Afastou as imagens demoníacas de sua mente. Terrorismo calculado, lembrou a si mesmo, agarrando-se à realidade. Caos planejado. Recordou-se de um seminário em Radcliffe de que participara como ouvinte quando estava pesquisando o simbolismo pretoriano. Desde então, modificara sua maneira de ver os terroristas.
- O terrorismo - começara o professor - tem um objetivo em especial. Qual é?
- Matar pessoas inocentes? - arriscou um aluno.
- Incorreto. A morte é apenas um subproduto do terrorismo.
- Uma exibição de força?
- Não. Não existe forma mais fraca de persuasão.
- Causar terror?
- Sendo muito conciso, sim. Simplesmente, o objetivo do terrorismo é criar terror e medo. O medo abala a confiança nas instituições. Enfraquece o inimigo de dentro para fora, causa inquietação nas massas.
Escrevam isto: o terrorismo
não é uma expressão de raiva. O terrorismo é uma arma política. Quando se acaba com a fachada de infalibilidade de um governo, acaba-se com a fé do povo.
Perda de fé...
Seria esta a questão? Langdon imaginava como os cristãos de todo o mundo reagiriam quando soubessem que quatro cardeais haviam sido sacrificados como se fossem cães mutilados. Se a fé de um religioso consagrado não era capaz de protegê-lo das maldades de Satã, que esperança restava para nós? A cabeça de Langdon latejava mais agora, ouvindo vozes ao longe sobrepondo-se umas às outras...
A fé não protege ninguém. Remédios e air-bags é que protegem as pessoas. Deus não protege ninguém. A inteligência, sim. Esclarecimento. Tenha fé somente em algo com resultados tangíveis. Há quanto tempo não se ouve falar que alguém andou sobre a água? Os milagres modernos são realizados pela ciência... computadores, vacinas, estações espaciais... até o milagre divino da criação. A matéria vinda do nada... em um laboratório. Quem precisa de Deus? Não! A ciência é Deus.
A voz do assassino ressoava na mente de Langdon. Meia-noite... progressão matemática da morte...sacrifici vergini nell'altare di scienza.
Então, de súbito, como uma multidão que se dispersa ao ouvir um tiro, as vozes se foram.
Robert Langdon levantou-se num pulo. Sua cadeira caiu para trás, batendo com força no chão de mármore.
Vittoria e o camerlengo tiveram um sobressalto.
- Deixei escapar... - Langdon murmurava, como se estivesse enfeitiçado.
- Estava bem na minha frente.
- Deixou escapar o quê? - perguntou Vittoria.
Langdon dirigiu-se para o padre.
- Padre, durante três anos requeri acesso aos Arquivos do Vaticano. O acesso me foi negado sete vezes.
- Senhor Langdon, sinto muito, mas este não é o momento apropriado para fazer queixas como essa.
- Preciso ter acesso imediatamente. Os quatro cardeais desaparecidos. Talvez eu consiga descobrir onde eles vão ser mortos.
Vittoria olhava fixo para ele, certa de não ter compreendido bem.
O camerlengo tinha a expressão perturbada de alguém que está sendo vítima de uma brincadeira cruel.
- Espera que eu acredite que essa informação está em nossos arquivos?
- Não posso prometer localizá-la a tempo, mas, se me deixar entrar...
- Senhor Langdon, tenho de estar na Capela Sistina dentro de quatro minutos. Os arquivos estão do outro lado da cidade.
- Você está falando sério, não está? - interrompeu Vittoria, encarando Langdon, parecendo entender a intensidade de seu empenho.
- Não é hora para brincadeiras - respondeu Langdon.
- Padre - disse Vittoria, dirigindo-se ao camerlengo -, se houver uma chance, por menor que seja, de sabermos onde essas mortes vão ocorrer, poderíamos cercar os locais e...
- Mas, e os arquivos? - insistiu o camerlengo. - Como é possível que contenham alguma pista?
- Se eu fosse explicar - disse Langdon -, gastaria um tempo que o senhor não tem. Mas, se eu estiver certo, podemos usar as informações para pegar o Hassassin.
O camerlengo esforçava-se para acreditar, mas não conseguia.
- Os códices mais sagrados da cristandade encontram-se naquele arquivo. Tesouros que eu próprio não tive o privilégio de ver.
- Estou ciente disso.
- O acesso só é autorizado por decreto do curador e do Conselho dos Bibliotecários Vaticanos.
- Ou - completou Langdon - por mandado papal. Está escrito em todas as cartas de recusa que seu curador me mandou.
O camerlengo concordou.
- Não quero ser indelicado - insistiu Langdon -, mas, se não me engano, o mandado papal sai deste escritório. Que eu saiba, hoje é o senhor quem está incumbido dessa função. Considerando-se as circunstâncias...
O camerlengo tirou um relógio de bolso de sua batina e consultou-o.
- Senhor Langdon, estou preparado para dar minha vida, literalmente, para salvar a Igreja esta noite.
Langdon viu apenas a verdade refletida no olhar do padre.
- Esse documento - disse o camerlengo -, o senhor acredita realmente que está aqui? E que pode nos ajudar a localizar as quatro igrejas?
- Eu não teria feito inúmeras solicitações de acesso se não estivesse convencido disso. A Itália é um tanto longe demais para se vir ao acaso quando se vive de um salário de professor. O documento é um antigo...
- Por favor - o camerlengo interrompeu-o. - Perdoe-me. Minha cabeça não consegue processar nenhum detalhe a mais neste momento. O senhor sabe onde os arquivos secretos estão?
Langdon sentiu uma onda de excitação.
- Atrás do Portão de Sant'Ana.
- Estou impressionado. A maioria dos estudiosos pensa que se chega lá por uma porta secreta atrás do Trono de São Pedro.
- Não. Ali fica o Archivio delia Reverenda di Fabbrica di S. Pietro. Um engano comum.
- Um bibliotecário docente acompanha todos os que entram em todas as ocasiões. Esta noite, não há nenhum docente, todos saíram do Vaticano. O que me pede é um acesso com carta branca. Nem os nossos cardeais entram lá sozinhos.
- Vou tratar os seus tesouros com o maior respeito e cuidado. Seus bibliotecários não vão encontrar qualquer vestígio da minha presença.
Os sinos de São Pedro começaram a tocar. O camerlengo verificou a hora em seu relógio.
- Preciso ir - fez uma pausa tensa e olhou para Langdon. - Vou mandar um guarda suíço encontrá-lo no local dos arquivos. Senhor Langdon, estou depositando minha confiança no senhor. Agora, vá.
Langdon não encontrou palavras.
O jovem padre parecia agora ter um porte e uma presença quase sobrenaturais. Estendeu a mão e apertou o ombro de Langdon com uma força surpreendente.
- Quero que encontre o que vai procurar. E depressa.
CAPÍTULO 46
Os Arquivos Secretos do Vaticano estão situados na extremidade do Pátio Bórgia, em uma elevação a que se chega pelo Portão de Sant'Ana.
Contêm mais de 20.000 volumes e, dizem, guarda tesouros como os diários perdidos de Leonardo da Vinci e até livros não publicados da Bíblia Sagrada.
Langdon atravessou com passadas vigorosas a deserta Via della Fondamenta rumo aos arquivos, mal acreditando que lhe fora concedido o acesso tão ambicionado. Vittoria seguia a seu lado, acompanhando-o sem o menor esforço. O cabelo dela ondulava levemente à brisa e Langdon aspirava seu perfume de amêndoa. Sentiu seus pensamentos se dispersarem e fez um esforço para se concentrar.
Vittoria disse:
- Vai me contar o que vamos procurar?
- Um livrinho escrito por um sujeito chamado Galileu.
- Você não perde tempo - comentou ela, surpresa. - O que há nele?
- Supõe-se que contenha algo chamado ii segno.
- A indicação, a senha?
- Pista, sinal.., depende da sua tradução.
- Indicação para quê?
Langdon apertou o passo.
- Para um local secreto. Os liluminati do tempo de Galileu precisavam se proteger do Vaticano e por isso criaram um local de reuniões ultra-secreto aqui em Roma, a que chamaram de Igreja da Iluminação.
- Muita audácia chamar de igreja um antro satânico.
Langdon abanou a cabeça.
- Os Illuminati de Galileu não eram nem um pouco satânicos. Eram cientistas que reverenciavam o conhecimento, as luzes. Seu ponto de encontro era apenas o lugar onde podiam se encontrar em segurança e discutir tópicos proibidos pelo Vaticano. Embora se saiba que esse lugar existiu, até agora ninguém jamais o localizou.
- Quer dizer que os Iliuminati sabiam manter segredo.
- Sem dúvida. Na realidade, eles nunca revelaram a localização de seu esconderijo para ninguém mais fora da fraternidade. Esse segredo protegia-os, mas, ao mesmo tempo, criava um problema quando se tratava de recrutar novos membros.
- Não poderiam crescer se não fizessem propaganda - disse Vittoria, as pernas e o raciocínio acompanhando-o perfeitamente.
- Exato. Rumores sobre a fraternidade de Galileu começaram a correr por volta de 1630, e cientistas de todo o mundo fizeram peregrinações secretas a Roma na esperança de se juntar aos Illuminati, ávidos por uma oportunidade de olhar através do telescópio de Galileu e ouvir as idéias do mestre. Infelizmente, porém, por causa do sigilo mantido pelos Illuminati, os cientistas que chegavam em Roma nunca sabiam aonde ir para assistir às reuniões ou a quem se dirigir com segurança. Os Iliuminati queriam sangue novo, mas não podiam se arriscar divulgando seu paradeiro.
- Era então uma situazione senza soluzione - comentou Vittoria.
- Pois é. Um beco sem saída, como se diz.
- E o que eles fizeram?
- Eram cientistas, portanto examinaram o problema e encontraram uma solução. Uma solução brilhante, para ser franco. Os llluminati criaram uma espécie de mapa engenhoso que orientava os cientistas para seu refúgio.
Vittoria diminuiu o passo, cética.
- Um mapa? Meio imprudente. Se uma cópia caísse nas mãos erradas...
- Não havia possibilidade - disse Langdon. - Não existiam cópias em lugar algum. Não era o tipo de mapa que cabe em uma folha de papel. Era enorme. Uma trilha marcada de várias maneiras através da cidade.
Vittoria diminuiu ainda mais o passo.
- Setas pintadas nas calçadas?
- De certo modo, sim, mas com mais sutileza. O mapa consistia em uma série de marcos simbólicos disfarçados cuidadosamente em locais públicos pela cidade afora. Um marco levava ao outro, e assim por diante, formando uma trilha que acabava levando ao refúgio dos Iliuminati.
Vittoria olhou-o de soslaio.
- Parece mais uma caça ao tesouro.
Langdon sorriu timidamente.
- E realmente não deixa de ser. Os Illuminati chamavam a sua seqüência de marcos de "Caminho da Iluminação" E quem quer que desejasse fazer parte da fraternidade tinha de segui-la toda até o fim. Uma espécie de teste.
- Mas, se o Vaticano quisesse encontrar os liluminati - argumentou Vittoria -, bastaria que também seguisse os marcos.
- Não. O caminho estava oculto. Era um quebra-cabeça, construído de tal forma que apenas determinadas pessoas teriam a capacidade de encontrar os marcos e adivinhar onde estava escondida a igreja dos Illuminati. Os Illuminati pretendiam que fosse uma espécie de iniciação, funcionando não apenas como medida de segurança mas também como um processo de seleção em que somente os cientistas mais brilhantes chegassem à sua porta.
- Não pode ser. No século XVII, os homens do clero estavam entre os mais instruídos do mundo. Se esses marcos ficavam em lugares públicos, com certeza existiriam homens do Vaticano capazes de encontrá-los.
- Sem dúvida - disse Langdon -, se eles soubessem dos marcos. Mas não sabiam. E nunca perceberam a existência dos marcos porque os Illuminati os prepararam de uma forma que os clérigos jamais suspeitariam que fossem o que eram. Utilizaram um método que em simbologia é chamado de dissimulação.
- Camuflagem.
Langdon surpreendeu-se.
- Você conhece o termo.
- Dissimulacione - disse ela. - A melhor forma de defesa da natureza. Experimente achar um peixe-trombeta flutuando verticalmente no meio da vegetação marinha.
- Pois é. Os Iliuminati empregaram o mesmo conceito. Criaram marcos que desapareciam contra o pano de fundo da antiga Roma. Não podiam usar ambigramas nem simbologia científica porque seria um recurso visível demais, de modo que convocaram um artista Illuminatus, o mesmo prodígio anônimo que criara seu símbolo ambigramático "Illuminati' e encomendaram-lhe quatro esculturas.
- Esculturas Illuminati?
- Sim, esculturas que deveriam seguir duas rigorosas diretrizes. Primeiro, serem parecidas com o resto das obras de arte de Roma, serem obras de arte que o Vaticano nunca desconfiasse que pertenciam aos Illuminati.
- Arte religiosa.
Langdon concordou, animado, falando agora mais depressa.
- E a segunda diretriz eram os temas das quatro esculturas, que tinham de ser muito específicos. Cada uma delas teria de ser um tributo sutil a um dos elementos da ciência.
- Quatro elementos? - disse Vittoria. - Há mais de cem.
- Não no século XVII - lembrou Langdon. - Todos os alquimistas acreditavam que o universo se constituía de apenas quatro substâncias: Terra, Ar, Fogo e Água.
A cruz primitiva, Langdon sabia, era o símbolo mais comum dos quatro elementos -quatro braços representando Terra, Ar, Fogo e Água. Além disso, entretanto, existiam literalmente dezenas de ocorrências simbólicas de Terra, Ar, Fogo e Água através da História - os ciclos da vida pitagóricos, o Hong-Fan chinês, os rudimentos junguianos do feminino e do masculino, os quadrantes do zodíaco. Até os muçulmanos reverenciavam os quatro elementos, embora no Islã fossem conhecidos como "quadrados, nuvens, raios e ondas' Para Langdon, porém, era um uso mais moderno que sempre lhe dava arrepios – os quatro graus místicos de Iniciação Absoluta dos maçons: Terra, Ar, Fogo e Água.
Vittoria estava um pouco zonza.
- Quer dizer que esse artista Illuminati criou quatro obras de arte que pareciam religiosas, mas eram na realidade tributos à Terra, ao Ar, ao Fogo e à Água?
- Exatamente - disse Langdon, dobrando na Via Sentinel em direção aos Arquivos. - As peças misturaram-se ao mar de arte religiosa espalhado por Roma. Doando essas obras anonimamente para igrejas específicas e usando sua influência política, a fraternidade instalou as quatro peças em igrejas criteriosamente escolhidas em Roma. Cada uma delas, é claro, era um marco apontando sutilmente para a igreja seguinte onde estava o próximo marco. Funcionava como uma trilha de pistas disfarçada de arte religiosa. Se um candidato a Iliuminati encontrasse a primeira igreja e o marco que correspondia à Terra, podia seguir para o do Ar, depois para o do Fogo, o da Água e, por fim, para a Igreja da Iluminação.
Vittoria achava a explicação cada vez menos clara.
- E tudo isso tem alguma coisa a ver com pegarmos o assassino liluminati?
Langdon riu e deu a última cartada.
- Ah, claro. Os Illuminati tinham uma denominação muito especial para essas quatro igrejas. Os Altares da Ciência.
Vittoria franziu a testa.
- Desculpe, mas isso não signif... - ela parou de falar. - L'altare di scienza! - exclamou. - O assassino liluminati. Ele disse que os cardeais seriam sacrificios de virgens nos altares da ciência!
Langdon sorriu para ela.
- Quatro cardeais, quatro igrejas. Os quatro altares da ciência.
Ela estava assombrada.
- Quer dizer que as quatro igrejas onde os cardeais vão ser sacrificados são as mesmas que marcam o antigo Caminho da Iluminação?
- Acredito que sim.
- Mas por que o assassino nos daria essa pista?
- Por que não? Poucos historiadores sabem sobre essas esculturas. Ainda por cima, pouquíssimos acreditam que existam. E sua localização permaneceu secreta por 400 anos. Decerto os Illuminati confiavam que o segredo fosse mantido por mais cinco horas. Além disso, eles não precisam mais do Caminho da Iluminação. Seu refúgio secreto provavelmente já desapareceu faz tempo. Vivem no mundo moderno.
Encontram-se em salas de reuniões da presidência de bancos, em restaurantes de clubes e campos de golfe particulares. Esta noite, querem tornar públicos seus segredos. É o seu grande momento. A grande revelação.
Langdon temia que a grande revelação dos Illuminati viesse acompanhada de mais uma característica paralela que ele ainda não mencionara. As quatro marcas a fogo. O assassino declarara que cada cardeal seria marcado com um símbolo diferente. Para provar que as lendas antigas são verdade, dissera ele. A lenda das quatro marcas ambigramáticas era tão antiga quanto os próprios liluminati: terra, ar, fogo, água - quatro palavras trabalhadas em perfeita simetria. Como a palavra Illuminati. Cada cardeal deveria ser marcado com um dos antigos elementos da ciência. O boato de que as quatro marcas eram em inglês e não em italiano ainda servia de tema de discussão entre os historiadores. O inglês parecia ser um desvio fortuito da sua língua natural... e os Illuminati não faziam nada ao acaso.
Langdon enveredou pelo caminho revestido de tijolos diante do prédio dos arquivos. Imagens horripilantes agitavam sua mente. O plano geral dos liluminati começava a revelar sua paciente grandiosidade. A fraternidade jurara manter-se na surdina por quanto tempo fosse necessário, acumulando influência e poder suficientes para que pudesse reemergir sem medo, declarar sua posição e lutar por sua causa em plena luz do dia. Sem se esconder mais. Alardeando seu poder, confirmando os mitos conspiratórios. Aquela noite seria uma façanha publicitária mundial.
Vittoria anunciou:
- Lá vem nosso acompanhante.
Langdon levantou a cabeça e viu um guarda suíço atravessando às pressas um gramado adjacente em direção à porta da frente.
Quando o guarda avistou os dois, parou. Olhou para eles como se estivesse tendo uma alucinação. Sem dizer palavra, virou-se de costas e pegou seu walkie-talkie. Aparentemente sem acreditar no que lhe haviam mandado fazer, o guarda falou em tom urgente com a pessoa do outro lado. Langdon não conseguiu decifrar a vociferação que o rapaz ouviu de volta, mas a mensagem era bem clara. O guarda se encolheu, guardou o walkie-talkie e virou-se para eles com uma cara aborrecida.
Mudo, conduziu-os para o interior do prédio. Passaram por quatro portas de aço, duas entradas fechadas com chave privativa, desceram uma comprida escadaria que dava em um saguão com duas fechaduras digitais. Atravessaram uma série de portões eletrônicos e chegaram à extremidade de um longo corredor, diante de largas portas duplas de carvalho. O guarda parou, examinou-os de alto a baixo outra vez e, resmungando, encaminhou-se para uma caixa metálica presa na parede. Destrancou-a e digitou um código.
As portas emitiram um zumbido e a cavilha se abriu.
O guarda voltou-se, falando com eles pela primeira vez.
- Os arquivos estão atrás daquelas portas. Recebi instruções para acompanhá-los até este ponto e voltar para cumprir outras ordens.
- Vai embora? - perguntou Vittoria.
- A Guarda Suíça não tem acesso aos Arquivos Secretos. Os senhores estão aqui somente porque meu comandante recebeu uma ordem direta do camerlengo.
- Mas como vamos sair?
- Segurança monodirecional. Não terão dificuldade alguma.
Sendo aquilo tudo o que tinha para dizer, o guarda girou nos calcanhares e marchou para a saída.
Vittoria fez um comentário qualquer, mas Langdon não a escutou. Sua mente estava concentrada nas portas duplas à sua frente, conjeturando que mistérios guardariam.
CAPÍTULO 47
Apesar de saber que estava em cima da hora, o camerlengo Cano Ventresca ia andando devagar. Precisava de um tempo a sós para ordenar seus pensamentos antes de fazer a prece de abertura. Tanta coisa estava acontecendo. Seguindo pela Ala Norte, imerso em sombria solidão, o desafio dos últimos 15 dias pesava em cada um de seus ossos.
Cumprira seus santos deveres ao pé da letra.
Como determinava a tradição do Vaticano, logo depois da morte do Papa o camerlengo constatara pessoalmente o óbito pousando os dedos na artéria carótida do pontífice, escutara se ainda respirava e em seguida chamara-o pelo nome três vezes. Por lei, não havia autópsia.
Então, ele selara o quarto de dormir do Papa, destruíra o Anel do Pescador e o sinete usado para fazer os selos de chumbo e tomara as providências necessárias para as exéquias. Tendo terminado, iniciara os prepararativos para o conclave.
Conclave, pensou. A barreira final a ultrapassar. Era uma das mais antigas tradições da cristandade. Hoje em dia, pelo fato de em geral o resultado do conclave já ser conhecido antes do seu começo, o processo era criticado, considerado obsoleto - visto mais como uma paródia do que uma eleição. O camerlengo sabia, porém, que isso se devia a uma falta de compreensão. O conclave não era uma eleição. Era uma antiga e mística transferência de poder. A tradição não tinha idade... o segredo, as tiras de papel dobradas, a queima das cédulas, a mistura de antigos produtos químicos, os sinais de fumaça.
À medida que o camerlengo se aproximava através das Loggias de Gregório XIII, pensava se o cardeal Mortati já estaria em pânico àquela altura. Mortati com certeza já percebera a ausência dos preferiti. Sem eles, a votação entraria pela noite adentro. A indicação de Mortati para Grande Eleitor, o camerlengo se tranqüilizava, fora uma boa escolha. O homem era um livre-pensador e podia falar com franqueza. O conclave daquela noite precisaria mais do que nunca de um líder.
Quando chegou ao topo da Escadaria Real, teve a sensação de que se encontrava no precipício de sua vida. Dali já se ouvia o rumor de atividade na Capela Sistina, lá embaixo - o burburinho inquieto de 165 cardeais.
Cento e sessenta e um cardeais, corrigiu-se.
Por um instante, o camerlengo estava caindo, mergulhando no inferno, com pessoas gritando, labaredas envolvendo-o, pedras e sangue caindo do céu como chuva.
E, depois, o silêncio.
Quando a criança acordou, estava no céu. Tudo em torno dela era branco. A luz era ofuscante e pura.
Havia gente que dizia que um menino de dez anos não seria capaz de compreender o céu, mas o jovem Carlo Ventresca sabia muito bem o que era o céu. Estava no céu naquele momento. Onde mais poderia estar? Na sua breve década de existência na Terra, Carlo sentira a majestade de Deus - o som atroador do órgão, os domos grandiosos, as vozes elevando-se em cânticos, os vitrais, o reluzir do bronze e do ouro.
Maria, a mãe de Cano, levava-o à missa todos os dias.
- Por que vamos à missa todos os dias? - perguntava ele, não que se importasse.
- Porque prometi a Deus - ela respondia. - E uma promessa que se faz a Deus é a mais importante de todas.
Jamais quebre uma promessa a Deus.
Cano prometeu a ela que nunca o faria. Amava sua mãe mais do que tudo no mundo. Ela era seu santo anjo. Às vezes, chamava-a de Maria Benedetta - Maria Bendita -, embora ela não gostasse nem um pouco disso. Ajoelhava junto dela para rezar, sentindo o doce perfume de seu corpo e escutando o murmúrio da sua voz passando as contas do rosário. Santa Maria, Mãe de Deus... rogai por nós, pecadores... agora e na hora de nossa morte.
- Onde está meu pai? - Carlo perguntava, já sabendo que seu pai morrera antes de seu nascimento.
- Deus é seu pai agora - era a resposta de sempre. - Você é um filho da Igreja.
Cano adorava aquilo.
- Sempre que sentir medo - ela explicava -, lembre-se que agora Deus é seu pai. Ele vai tomar conta de você e protegê-lo para sempre. Deus tem grandes planos para você, Cano.
O menino sabia que ela tinha razão. Já era capaz de sentir Deus em seu sangue.
Sangue...
Sangue caindo do céu como chuva!
Silêncio. E o céu depois.
O céu de Cano - o menino aprendeu quando as luzes ofuscantes foram desligadas - era na realidade a Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Santa Clara, nos arredores de Palermo. Cano fora o único sobrevivente de um atentado terrorista a bomba que demolira a capela onde ele e a mãe estavam assistindo à missa durante o período de férias. Os jornais chamaram a sobrevivência de Cano de Milagre de São Francisco. Por alguma razão desconhecida, Carlo afastara-se da mãe minutos antes da explosão e entrara em uma alcova protegida para apreciar uma tapeçaria que representava a história de São Francisco.
Deus me chamou ali, concluiu ele. Queria me salvar.
Carlo delirava de dor. Ainda via sua mãe, ajoelhada no banco da igreja, soprando-lhe um beijo e, em seguida, com um estrondo, seu corpo docemente perfumado despedaçar-se. Ainda sentia na boca o gosto da maldade humana. Choveu sangue. O sangue de sua mãe! Maria Bendita!
Deus vai tomar conta de você e protegê-lo para sempre, dissera sua mãe.
Mas onde estava Deus agora?
Então, como uma manifestação mundana da verdade de sua mãe, um sacerdote foi ao hospital. Não era um sacerdote qualquer. Era um bispo. Rezou junto à cama de Carlo. O Milagre de São Francisco. Quando Cano se recuperou, o bispo providenciou para que ele fosse morar em um pequeno monastério ligado à catedral onde o bispo exercia sua jurisdição. Carlo vivia ali e ali tinha aulas com os monges. Chegou a ser coroinha de seu novo protetor. O bispo sugeriu que Carlo fosse para uma escola secundária, mas o menino não quis. Não podia estar mais feliz em seu novo lar. Agora vivia de fato na casa de Deus.
Toda noite, Carlo rezava por sua mãe.
Deus me salvou por alguma razão, pensava. Que razão?
Quando completou dezesseis anos, de acordo com a lei italiana, foi obrigado a prestar dois anos de serviço militar. O bispo disse a Carlo que ele seria dispensado desse dever se entrasse para o seminário. Carlo respondeu que planejava entrar para o seminário, mas que primeiro precisava entender a maldade.
O bispo não compreendeu.
Carlo explicou que, se ia passar a vida na Igreja lutando contra a maldade, primeiro precisava entendê-la.
Não imaginava lugar melhor para entender a maldade do que no exército. O exército usava armas e bombas.
Uma bomba matou minha mãe Bendita!
O bispo tentou dissuadi-lo, mas Carlo já se decidira.
- Tenha cuidado, filho - dissera-lhe o bispo. - E lembre-se de que a Igreja o aguarda quando voltar.
Os dois anos do serviço militar de Cano foram terríveis. A juventude dele se passara em silêncio e reflexão. No exército, porém, não havia sossego para se refletir. O barulho era incessante.
Máquinas enormes por toda parte. Nem um momento sequer de paz. Apesar de os soldados irem à missa uma vez por semana no quartel, Cano não sentia a presença de Deus nos seus companheiros. O caos enchia demais as mentes deles para que vissem Deus.
Carlo detestava sua nova vida e ansiava por voltar para casa. Mas estava determinado a perseverar. Ainda não entendia a maldade. Recusava-se a dar um tiro, e assim os militares ensinaram-no a pilotar um helicóptero do serviço médico. Carlo não gostava do ruído nem do cheiro do helicóptero, mas ao menos o deixavam voar pelo céu e ficar mais próximo de sua mãe.
Ao ser informado de que seu treinamento de piloto incluía aprender a saltar de pára-quedas, o rapaz ficou apavorado. Não tinha opção, porém.
Deus vai me proteger, disse a si mesmo.
Seu primeiro salto de pára-quedas foi a mais estimulante experiência física de sua vida. Era como voar com Deus. Depois, ele jamais se cansava daquilo... o silêncio.., a sensação de flutuar... enxergar o rosto de sua mãe nas nuvens brancas ondulantes enquanto ele pairava na descida à terra. Deus tem planos para você, Carlo. Assim que saiu do exército, Cano entrou para o seminário.
Tudo acontecera vinte e três anos antes.
Agora, enquanto descia a Escadaria Real, o camerlengo Carlo Ventresca tentava compreender a cadeia de acontecimentos que o fizera chegar àquela extraordinária encruzilhada.
Abandone todo medo, disse a si próprio, e entregue esta noite a Deus.
Avistava a grande porta de bronze da Capela Sistina devidamente protegida por quatro guardas suíços. Os guardas destrancaram a porta e abriram-na. Lá dentro, todas as cabeças se viraram para a porta. O camerlengo passou os olhos pelos homens diante dele, vestidos de batinas negras e faixas vermelhas na cintura. Compreendeu quais eram os planos que Deus lhe reservara. O destino da Igreja fora colocado em suas mãos.
Ele fez o sinal-da-cruz e entrou na capela.
CAPÍTULO 48
Gunther Glick, jornalista da BBC, estava suando, sentado dentro do furgão da emissora que fora estacionado na extremidade leste da Praça de São Pedro, e amaldiçoando seu editor. Embora a primeira matéria mensal de Glick tivesse voltado da mesa do editor coberta de elogios -engenhoso, perspicaz, confiável -, cá estava ele na Cidade do Vaticano fazendo o "Plantão do Papa' Procurava convencer-se de que trabalhar para a BBC dava muito mais credibilidade do que ficar inventando um monte de lixo para o British Tattler, mas ainda assim aquilo não era propriamente a idéia que ele fazia de ser repórter.
A tarefa de Glick era simples. Chegava a ser um insulto, de tão simples. Tinha de ficar sentado esperando um bando de velhos gagás elegerem seu próximo chefe, depois sair do carro e gravar uma reportagem de 15 segundos "ao vivo" com o Vaticano ao fundo.
Genial.
Glick mal acreditava que a BBC ainda deslocasse repórteres para cobrir aquela baboseira. Não há nenhuma rede de notícias norte-americana aqui esta noite. Claro que não! Porque os garotões de lá sabiam como fazer as coisas. Eles assistiam à CNN, faziam uma sinopse e depois filmavam sua reportagem "ao vivo" diante de uma tela azul, superpondo vídeos de arquivo para obter um pano de fundo realista. A MSNBC usava até máquinas de vento e chuva de estúdio para maior autenticidade. Os espectadores não queriam mais a verdade, queriam diversão.
Glick olhou através do pára-brisa e sentiu-se cada vez mais deprimido. A montanha grandiosa da Cidade do Vaticano erguia-se à sua frente como um melancólico lembrete das coisas que os homens podiam realizar quando se empenhavam por elas.
- O que realizei de bom na minha vida? - refletiu em voz alta. - Nada.
- Então, desista - disse uma voz feminina atrás dele.
Glick deu um pulo. Quase se esquecera de que não estava sozinho. Virou-se para o banco de trás, onde a operadora de câmera Chinita Macri estava sentada polindo suas lentes. Ela estava sempre polindo as lentes. Chinita era negra, embora preferisse ser chamada de afro-americana, e também um tanto rude e danada de esperta. Não deixava passar nada. Era meio estranha, mas Glick gostava dela. E ele com certeza estava precisando de companhia naquele momento.
- Qual é o problema, Gunth? - perguntou Chinita.
- O que estamos fazendo aqui?
Ela continuou a polir as lentes.
- presenciando um acontecimento empolgante.
- Uma porção de velhos trancados no escuro é empolgante?
- Você sabe que vai direto para o inferno, não sabe?
- Já estou nele.
- Conte por que está tão aborrecido.
Parecia a mãe dele falando.
- Eu só queria me distinguir de alguma forma no meu trabalho.
- Você escreveu para o British Tattler.
- É, mas nada que tivesse impacto.
- Ah, deixe disso, soube que você escreveu um artigo sensacional sobre a vida sexual secreta da rainha com extraterrestres.
- Obrigado.
- Ei, as coisas estão melhorando, hoje você vai fazer seus primeiros 15 segundos da história da TV.
Glick resmungou. Já conseguia até ouvir as palavras do âncora: "Obrigado Gunther, grande reportagem' E o âncora passaria para a meteorologia.
- Devia ter tentado conseguir um lugar de âncora.
Macri riu.
- Sem experiência? E com essa barba? Nem pensar!
Glick correu os dedos pelo tufo avermelhado de cabelo em seu queixo.
- A barba me faz parecer mais inteligente.
Ainda bem que o telefone celular do furgão tocou, interrompendo mais um comentário sobre os fracassos de Glick.
- Talvez seja a editoria - disse ele, de repente esperançoso. - Será que vão querer as últimas notícias ao vivo?
- Dessa história? - riu Macri. - Você continua sonhando, hein?
Glick atendeu ao telefone com sua melhor voz de âncora.
- Gunther Glick, BBC. Cobertura ao vivo da Cidade do Vaticano.
O homem do outro lado tinha um sotaque árabe carregado.
- Escute com atenção o que tenho para dizer - disse o homem. - Daqui a pouco, vou fazer a sua vida inteira mudar.
CAPÍTULO 49
Langdon e Vittoria ficaram sozinhos diante das portas duplas que levavam ao santuário dos Arquivos Secretos. A decoração do lugar onde estavam era uma mistura incongruente de tapetes sobre pisos de mármore e câmeras de segurança instaladas ao lado de querubins esculpidos no teto. Langdon apelidou-a de Estéril Renascença. Ao lado da entrada em arco havia uma pequena placa de bronze.
ARCHIVIO VATICANO
Curatore, Padre Jaqui Tomaso
Padre Jaqui Tomaso. Langdon reconheceu o nome do curador, que vinha nas cartas de recusa empilhadas em cima de sua escrivaninha, em casa. Caro senhor Langdon, lamento informar que...
"Lamento." Pois sim. Desde que começara o reinado de Jaqui Tomaso, Langdon jamais encontrara um único acadêmico americano não-católico que tivesse recebido autorização para visitar os Arquivos Secretos do Vaticano. el guardiano, chamavam-no os historiadores. Jaqui Tomaso era o bibliotecário mais severo do mundo.
Ao abrir as portas e entrar no recinto, Langdon quase esperava encontrar o padre Jaqui envergando uniforme militar e capacete, montando guarda com uma bazuca na mão. O espaço, porém, estava deserto. Silêncio. Luz suave.
Archivio Vaticano. Um dos sonhos de sua vida.
Quando correu os olhos pelo aposento sagrado, sua primeira reação foi de vergonha. Percebeu que romântico empedernido ele era. A imagem que fizera durante tantos anos daquele lugar não poderia ser mais inexata. Imaginara estantes empoeiradas até o alto cheias de livros esfrangalhados, padres catalogando os volumes à luz de velas e de janelas com vitrais, monges examinando rolos de pergaminhos.
A realidade nem chegava perto.
À primeira vista, a sala parecia um hangar escuro de companhia aérea no qual alguém tivesse construído umas 12 quadras independentes de squash. Langdon evidentemente sabia para que serviam os recintos de paredes de vidro. Não se surpreendeu ao encontrá-los: a umidade e o calor deterioravam antigos velinos e pergaminhos e a conservação adequada exigia câmaras herméticas como aquelas - cubículos vedados que impediam a penetração da umidade e dos ácidos naturais do ar. Langdon já estivera dentro de câmaras herméticas muitas vezes, mas sempre haviam sido experiências perturbadoras... mais ou menos como entrar em um contêiner fechado onde o oxigênio fosse controlado por um bibliotecário.
As câmaras eram escuras, espectrais mesmo, vagamente delineadas por pequenas luminárias em forma de cúpula na extremidade de cada conjunto de estantes. Em meio às trevas daquelas células, Langdon percebia a presença dos gigantes fantasmagóricos, fila após fila de imensas estantes carregadas de história. Era uma coleção e tanto.
Vittoria também parecia deslumbrada. Ao lado dele, contemplava em silêncio os gigantescos cubos transparentes.
Tinham pouco tempo e por isso Langdon não o desperdiçou nem um pouco vasculhando a sala mal iluminada em busca de um catálogo - uma enciclopédia encadernada onde estivesse catalogada a coleção da biblioteca. Tudo o que viu foi o brilho de uma porção de terminais de computador espalhados pela sala.
- Parece que eles têm o Biblion. O índice é computadorizado.
Vittoria ficou esperançosa.
- O que deve acelerar as coisas.
Langdon gostaria de sentir o mesmo entusiasmo, mas tinha a impressão de que a notícia não era tão boa assim. Dirigiu-se a um terminal e começou a digitar. Seus temores confirmaram-se instantaneamente.
- O método antigo teria sido melhor.
- Por quê?
Ele se afastou do monitor.
- Porque livros de verdade não são protegidos por senhas. Será que os físicos são também hackers por natureza?
Vittoria sacudiu a cabeça.
- Só sei abrir ostras.
Langdon respirou fundo e virou-se para o fantástico conjunto de câmaras diáfanas. Aproximou-se da que estava mais perto e tentou enxergar o sombrio interior. Por trás das paredes de vidro havia formas pouco definidas que Langdon identificou como as habituais prateleiras de livros, caixas de pergaminhos e mesas de leitura. Olhou para as etiquetas brilhando no alto de cada conjunto de estantes. Como em todas as bibliotecas, as etiquetas indicavam o assunto dos livros daquelas estantes. Foi lendo os dizeres e andando ao longo da barreira transparente.
PIETRO IL ERIMIT0... LE CROCIATE... URBANO II... LEVANTE...
- Estão etiquetadas - disse ele, ainda caminhando. - Mas não em ordem alfabética por autor.
Não se surpreendeu. Arquivos antigos em geral não eram catalogados em ordem alfabética porque incluíam muitos autores desconhecidos. Também não os catalogavam pelos títulos porque muitos documentos históricos eram cartas sem título e fragmentos de pergaminhos. A maior parte da catalogação seguia a ordem cronológica. O que era desconcertante, no entanto, é que aquela arrumação também parecia não ser cronológica.
Estavam perdendo um tempo precioso.
- Tenho a impressão de que o Vaticano tem seu próprio sistema de catalogação.
- Que surpresa...
Ele examinou as etiquetas outra vez. Os documentos eram originários de muitos séculos, mas todas as palavras-chave, notou Langdon, estavam relacionadas entre si.
- Acho que a classificação é temática.
- Temática? - desaprovou a cientista Vittoria. - Não deve ser eficiente.
Na realidade, refletiu Langdon, examinando-a mais de perto, talvez essa seja a forma mais inteligente de catalogação que já vi. Sempre insistira com seus alunos que procurassem compreender o tom e os temas predominantes de um período em vez de se prenderem a minúcias como datas e obras específicas. Os Arquivos Vaticanos, ao que parecia, haviam sido catalogados de acordo com uma filosofia semelhante. Grandes temas...
- Tudo o que está nesta câmara - disse Langdon, mais confiante -, séculos de material, tem a ver com as Cruzadas. É o tema desta câmara em especial.
- Estava tudo ali, ele se deu conta. Relatos históricos, cartas, arte, dados sociopolíticos,
análises modernas. Tudo junto para incentivar a compreensão mais profunda de um
tópico. Brilhante.
Vittoria franziu o cenho.
- Mas os dados podem estar relacionados a múltiplos temas simultaneamente.
- É por isso que foi feita a remissão recíproca com marcadores especiais. - Langdon apontou, através do vidro, para os marcadores de plástico colorido inseridos entre os documentos.- Esses marcadores indicam documentos secundários localizados em outro lugar junto com seus assuntos principais.
- Certo - disse ela, aparentemente abandonando o assunto. Pôs as mãos na cintura e correu o olhar pelo imenso espaço. Depois, dirigiu-se a Langdon. - Então, professor, como é mesmo o nome dessa obra de Galileu que estamos procurando?
Langdon não pôde deixar de sorrir. Ainda não acreditava muito que estava ali, naquele lugar. Está aqui, pensou. Em algum ponto dessa escuridão, está à espera.
- Venha atrás de mim - disse ele. Começou a percorrer com andar rápido a primeira passagem entre as câmaras lendo a etiqueta de identificação de cada uma delas. - Lembra o que lhe contei sobre o Caminho da Iluminação? Como os liluminati recrutavam novos membros usando um teste complexo?
- A caça ao tesouro - disse Vittoria, seguindo-o.
- O desafio para os llluminati, depois de terem instalado os marcos, foi achar uma forma de dizer à comunidade científica que o caminho existia.
- Lógico - comentou Vittoria. - Senão, ninguém saberia que era necessário procurá-lo.
- Sim, e mesmo que soubessem que existia, os cientistas não teriam como descobrir onde o caminho começava. Roma é enorme.
Langdon passou para o corredor seguinte, examinando as etiquetas enquanto falava.
- Há uns 15 anos, alguns historiadores da Sorbonne e eu descobrimos uma série de cartas dos Illuminati cheias de referências ao segno.
- O sinal. O aviso sobre o caminho e onde ele começava.
- Isso. E, desde então, vários acadêmicos que estudam os liluminati, inclusive eu, descobriram outras referências ao segno. Hoje em dia, é uma teoria aceita que a pista de fato existe e que Galileu a distribuiu profusamente pela comunidade científica sem que o Vaticano jamais soubesse.
- De que maneira?
- Não se sabe ao certo, mas o mais provável é que tenha sido através de publicações impressas. Ele publicou muitos livros e boletins ao longo dos anos.
- De que o Vaticano sem dúvida teve conhecimento. Coisa perigosa.
- É verdade. Mesmo assim, o segno foi distribuído.
- E ninguém jamais o encontrou?
- Jamais. O mais estranho é que, sempre que aparecem alusões ao segno, seja em diários maçônicos, antigas revistas científicas, cartas dos Illuminati ou outras fontes, ele costuma vir representado por um número.
- 666?
Ele sorriu.
- Não, 503.
- Que significa o quê?
- Nenhum de nós foi capaz de descobrir. Fiquei fascinado com o número 503, tentando de tudo para encontrar seu significado: numerologia, referências cartográficas, latitudes. - Langdon chegou ao fim daquela passagem, dobrou para um lado e continuou examinando rapidamente a fila seguinte de etiquetas e falando ao mesmo tempo. - Durante muitos anos, o único indício possível que se tinha era o fato de 503 começar com o número cinco, um dos dígitos sagrados dos Illuminati. - Ele fez uma pausa.