Anjos e Demônios
- Mas ele está aqui. E o…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
- Algo me diz que você recentemente encontrou a resposta e que é por isso que estamos aqui.
- Correto - disse Langdon, permitindo-se um raro momento de orgulho por seu trabalho. -Conhece um livro de Galileu chamado Diàlogo?
- Claro. Famoso entre os cientistas como a suprema traição científica.
Traição não era bem a palavra que Langdon teria usado, mas compreendia o que Vittoria queria dizer. No início da década de 1630, Galileu quis publicar um livro endossando o modelo heliocêntrico do sistema solar formulado por Copérnico. O Vaticano, porém, só permitiria que o livro fosse lançado se Galileu incluísse nele provas igualmente convincentes do modelo geocêntrico adotado pela Igreja, um modelo que Galileu sabia estar completamente errado. Galileu não teve escolha senão ceder à exigência da Igreja e publicou um livro que dava o mesmo espaço para os dois modelos, o certo e o errado.
- Como deve saber - prosseguiu Langdon -, apesar da concessão de Galileu, o Diálogo ainda foi considerado herético e o Vaticano colocou o cientista em prisão domiciliar.
- Nenhuma boa ação passa sem punição.
Langdon achou graça.
- É mesmo. Entretanto, Galileu era persistente. Enquanto estava preso em casa, escreveu secretamente um manuscrito menos conhecido que alguns estudiosos às vezes confundem com o Diàlogo. Esse livro se chama Discorsi.
Vittoria concordou.
- Sei qual é. Discursos sobre as Marés.
Langdon parou, admirado por ela conhecer a obscura publicação sobre os movimentos dos planetas e seu efeito sobre as marés.
- Não se esqueça de que está falando com uma fisica italiana cujo pai idolatrava Galileu.
Não eram os Discorsi, porém, que estavam procurando. Langdon explicou que aquele livro não fora o único trabalho de Galileu durante o seu confinamento. Os historiadores acreditavam que ele também escrevera um livreto pouco conhecido chamado Diagramma.
- Diagramma delia Veritá - citou. - Diagrama da Verdade.
- Nunca ouvi falar deste.
- Não me espanta. Diagramma foi o livro mais secreto de Galileu, supostamente uma espécie de tratado sobre fatos científicos que ele considerava verdadeiros, mas que não estava autorizado a divulgar. Como alguns dos seus manuscritos anteriores, Diagramma foi contrabandeado para fora de Roma por um amigo e discretamente publicado na Holanda. O livrinho tornou-se muito popular no submundo científico europeu. Até que o Vaticano tomou conhecimento dele e iniciou uma campanha de queima de livros.
Vittoria agora estava intrigada.
- E você acha que Diagramma continha a pista? O segno? A informação sobre o Caminho da Iluminação?
- Diagramma foi como Galileu fez a notícia correr. Disto estou certo.
Langdon enveredou pela terceira fileira de câmaras de vidro e continuou examinando as etiquetas de identificação.
- Os arquivistas vêm procurando um exemplar do Diagramma há anos. No entanto, com as queimas de livros promovidas pelo Vaticano e o baixo coeficiente de permanência do livro, este desapareceu da face da Terra.
- Coeficiente de permanência?
- A durabilidade. Os arquivistas classificam os documentos de um a dez segundo sua integridade estrutural. Diagramma foi impresso em uma variedade muito frágil de papiro. Parece o material dos nossos lenços de papel modernos. Vida útil de pouco mais de um século.
- Por que não se usou um material mais forte?
- Foi uma determinação de Galileu para proteger seus seguidores. Dessa forma, qualquer cientista que fosse apanhado com um exemplar poderia simplesmente jogá-lo na água e o livro se dissolveria. Era um meio excelente de destruir uma prova, mas foi terrível para os arquivistas. Acredita-se que apenas um exemplar do Diagramma tenha subsistido além do século XVIII.
- Um? - uma expressão encantada passou pelo rosto de Vittoria enquanto ela corria os olhos pela sala. – E está aqui?
- Confiscado pelo Vaticano na Holanda logo depois da morte de Galileu. Venho solicitando permissão para vê-lo há anos. Desde que percebi o que havia nele.
Como se lesse a mente de Langdon, Vittoria deslocou-se para o outro lado e começou a examinar a fileira seguinte, dobrando o ritmo da busca.
- Obrigado - disse ele. - Procure etiquetas de referência que tenham alguma coisa a ver com Galileu, ciência, cientistas. Vai saber quando encontrar uma.
- Está bem, mas ainda não me contou como descobriu que a pista estava no Diagramma. Teve alguma relação com o número que vocês sempre viam nas cartas dos Iliuminati? 503?
Por um instante, Langdon reviveu o momento da revelação inesperada: 16 de agosto. Dois anos atrás. Ele estava à margem de um lago, na festa de casamento do filho de um colega. O som de gaitas de fole repercutiu sobre as águas quando os noivos e acompanhantes fizeram sua entrada espetacular através do lago em uma barcaça. A embarcação fora decorada com flores e guirlandas. No casco, ostentava um número pintado em algarismos romanos: DCII.
Curioso com o número, Langdon perguntou ao pai da noiva:
- Por que o número 602?
- 602?
Langdon apontou para a barcaça.
- DCII é 602 em algarismos romanos.
O homem deu uma risada.
- Não são algarismos romanos. É o nome da barcaça.
- O DCII?
O homem assentiu.
- O Dick e Connie II.
Langdon ficou encabulado. Dick e Connie eram os noivos. A barcaça evidentemente recebera aquele nome em homenagem a eles.
- O que aconteceu com o DCI?
O homem fez uma careta.
- Afundou ontem durante o almoço do ensaio do casamento.
Langdon achou engraçado, mas disse assim mesmo:
- Que pena.
E olhou novamente para a barcaça. A DCII, pensou. Como se fosse um QEII em miniatura. Um segundo depois, tudo ficou claro em sua cabeça.
E Langdon continuou a contar a Vittoria:
- Como já disse, 503 é um código. Um estratagema dos Iliuminati para esconder o que na realidade era um algarismo romano. O número 503 em algarismos romanos é...
- DIII.
- Rápida, hein? Não me diga que é uma Illuminata.
Ela riu.
- Uso algarismos romanos para codificar estratos pelágicos.
Claro, pensou Langdon. Quem não o faz?
- E qual é afinal o significado de DIII?
- DI, DII e DIII são abreviaturas muito antigas. Os cientistas da antiguidade usavam-nas para fazer distinção entre os três documentos de Galileu que mais eram confundidos.
Vittoria quase perdeu o fôlego ao dizer:
- Diàlogo... Discorsi... Diagramma.
- D-um, D-dois, D-três. Todos eles científicos. Todos, motivo de controvérsia. 503 é DIII. Diagramma. O terceiro dos livros de Galileu.
Vittoria estava sob o impacto da revelação.
- Mas uma coisa ainda não faz sentido. Se esse segno, essa pista, essa mensagem sobre o Caminho da Iluminação estava realmente no Diagramma de Galileu, como o Vaticano não descobriu nada quando se apossou de todos os exemplares?
- Podem ter visto e não ter percebido o que viam. Lembra-se dos marcos dos Iliuminati? A habilidade para esconder o que está à vista? A dissimulação? Tudo indica que o segno estava oculto da mesma maneira, bem à vista. Invisível para aqueles que não o estavam procurando. Também invisível para os que não o compreendiam.
- Como assim?
- Galileu escondeu-o muito bem. De acordo com os registros históricos, o segno foi revelado de uma forma que os Illuminati chamavam de lingua pura.
- A linguagem pura?
- Sim.
- Matemática?
- É a minha opinião. Parece bastante óbvio. Galileu era um cientista, afinal de contas, e estava escrevendo para cientistas. A matemática seria a linguagem lógica para elaborar a pista. O livreto chama-se Diagramma e, assim, diagramas matemáticos poderiam fazer parte do código.
A réplica de Vittoria soou apenas ligeiramente mais esperançosa.
- Galileu poderia ter criado algum tipo de código matemático que passasse despercebido ao clero.
- Tenho a impressão de que você não ficou muito convencida - disse Langdon, prosseguindo em seu caminho.
- Não fiquei. Talvez porque você mesmo não esteja. Se tinha tanta certeza sobre o DIII, por que não publicou nada a respeito? Então, alguém que tivesse acesso aos Arquivos Vaticanos poderia ter vindo aqui e analisado o Diagramma há muito tempo.
- Eu não quis publicar nada - respondeu Langdon. - Trabalhei tanto para conseguir a informação que... – ele se calou, constrangido.
- Também queria a glória - completou ela.
Langdon sentiu seu rosto corar.
- De certa forma, sim. É que...
- Não fique tão encabulado. Está falando com uma cientista. Publicar ou perecer. No CERN, chamamos a isso de "comprovar ou sufocar'
- Não se tratava só de ser o primeiro. Receava que as pessoas erradas encontrassem a informação no Diagramma e sumissem com ela.
- As pessoas erradas seriam do Vaticano?
- Não que sejam erradas por si, mas a Igreja sempre fez pouco caso da ameaça dos Illuminati. No princípio da década de 1900, o Vaticano chegou ao cúmulo de afirmar que os liluminati eram uma fantasia criada por imaginações exaltadas, O clero achou, e talvez com certa razão, que a última coisa que os cristãos precisavam saber era que existia um poderoso movimento anti- cristão se infiltrando em seus bancos, sua política e suas universidades. - O verbo é no tempo presente, Robert, lembrou a si mesmo. EXISTE uma poderosa força anticristã se infiltrando em seus bancos, sua política e suas universidades.
- Portanto, você acha que o Vaticano teria ocultado qualquer prova que comprovasse a ameaça dos liluminati?
- É muito possível. Qualquer ameaça, seja ela real ou imaginária, enfraquece a confiança no poder da Igreja.
- Mais uma pergunta. - Vittoria parou e encarou-o como se ele fosse um extraterrestre. -Está falando sério?
Langdon parou também.
- O que quer dizer com isso?
- É esse mesmo o seu plano para salvar a situação?
Ele não teve certeza se o que viu nos olhos dela era pena misturada com diversão ou puro terror.
- Você diz, encontrar o Diagramma?
- Não, quero dizer encontrar o Diagramma, localizar um segno de 400 anos de idade, decifrar um código matemático e seguir uma antiga trilha de obras de arte que somente os cientistas mais brilhantes da História conseguiram seguir... tudo isso nas próximas quatro horas.
Ele encolheu os ombros.
- Estou aberto a outras sugestões.
CAPÍTULO 51
Robert Langdon estava do lado de fora do Arquivo Câmara 9 lendo as itiquetas nas estantes: BRAHE... CLAVIUS... COPERNICO... KEPLER... NEWTON...
Leu os nomes outra vez e ficou apreensivo. Cá estão os cientistas, mas onde stá Galileu?
Dirigiu-se a Vittoria, que verificava os assuntos de uma câmara próxima.
- Encontrei o assunto certo, mas está faltando Galileu.
- Não está, não - disse ela, séria, ao passar para a câmara seguinte. - Ele está aqui. Mas espero que você tenha trazido seus óculos de leitura, porque esta câmara inteira é dedicada a ele.
Langdon correu para lá. Vittoria tinha razão. Todas as etiquetas de identificação da Câmara 10 tinham a mesma palavra-chave.
IL PROCESO GALILEANO
Langdon deixou escapar um assobio baixo ao ver que Galileu tinha sua própria câmara.
- O Caso Galileu - maravilhou-se, espiando através do vidro os contornos escuros das estantes. - O mais longo e dispendioso processo da história do Vaticano. Quatorze anos e 600 milhões de liras. Tudo aqui.
- Tem uma certa quantidade de documentos legais.
- Acho que os advogados não mudaram muito no decorrer dos séculos.
- Nem os tubarões.
Langdon encaminhou-se para um grande botão amarelo ao lado da câmara. Apertou-o e uma série de luzes acendeu-se lá dentro no teto. Eram luzes vermelhas, escuras, e transformaram o cubo em uma reluzente célula rubra contendo um labirinto de estantes muito altas.
- Meu Deus - disse Vittoria, assombrada. - Vamos trabalhar ou nos bronzear?
- O pergaminho e o velino desbotam, por isso a iluminação das câmaras é sempre feita com luzes escuras.
- Dá para se enlouquecer ali dentro.
Ou pior, pensou Langdon, encaminhando-se para a única entrada da câmara.
- Uma palavrinha de aviso, O oxigênio é oxidante e, por isso, as câmaras herméticas contêm muito pouco dele. Aí dentro é um vácuo parcial. Você vai precisar fazer esforço para respirar.
- Ora, se os velhos cardeais conseguem sobreviver a isto...
Verdade, concordou Langdon. Tomara que tenhamos a mesma sorte.
A entrada da câmara era por uma única porta giratória eletrônica. Langdon observou o arranjo habitual de quatro botões de acesso no vestíbulo interno da porta, um botão para cada compartimento. Quando se pressionava um deles, a porta motorizada era acionada, fazia a meia rotação convencional e então parava - o procedimento-padrão para preservar a integridade da atmosfera interna.
- Depois que eu entrar - explicou Langdon -, basta apertar o botão e vir atrás de mim. Há somente oito por cento de umidade lá dentro, de modo que se prepare para sentir a boca seca.
Langdon entrou no compartimento rotativo e apertou o botão. A porta soltou um zumbido alto e começou a girar. Enquanto acompanhava o movimento dela, Langdon preparou seu corpo para o choque físico que sempre acompanhava os primeiros segundos em uma câmara hermética. Entrar em um arquivo destes era como estar no nível do mar e ir a seis mil metros de profundidade em um instante. Náusea e tonteira eram comuns. Visão dupla, dobre o corpo, lembrou ele, repetindo o mantra dos arquivistas. Seus ouvidos pipocaram. Ouviu-se um silvo de ar e a porta parou.
Ele entrara na câmara.
O que notou em primeiro lugar foi o ar do interior, mais rarefeito do que previra. O Vaticano, aparentemente, levava seus arquivos um pouco mais a sério do que a maioria dos seus congêneres.
Langdon lutou contra o reflexo da náusea e relaxou o peito enquanto seus capilares pulmonares se dilatavam. A sensação de aperto passou depressa. O golfinho em ação, refletiu, satisfeito que suas 50 voltas por dia na piscina servissem para alguma coisa. Respirando mais normalmente, olhou em volta.
Apesar das paredes transparentes, sentiu a ansiedade conhecida. Estou dentro de uma caixa, pensou. Uma caixa vermelha como sangue.
A porta zumbiu atrás dele e ele se virou para ver Vittoria entrar. Quando ela chegou, seus olhos imediatamente começaram a lacrimejar e sua respiração ficou pesada.
- Espere um minuto - disse ele. - Se ficar tonta, abaixe a cabeça.
- Sinto... - Vittoria engasgou - como se estivesse.., mergulhando com um cilindro de mergulho... com a mistura errada.
Langdon esperou que ela se ambientasse. Sabia que ficaria bem. Vittoria Vetra estava em excelente forma, ao contrário das trêmulas ex-alunas de Radcliffe que Langdon certa vez acompanhara em uma visita à câmara hermética da Biblioteca Widener. O passeio terminara com Langdon fazendo respiração boca a boca em uma senhora idosa que quase aspirara a própria dentadura.
- Está melhor? - perguntou.
Vittoria sacudiu a cabeça.
- Viajei no seu maldito avião espacial, então achei que você me devia essa.
Ela sorriu.
- Touché.
Langdon estendeu a mão para uma caixa ao lado da porta e tirou de lá luvas brancas de algodão.
- Vai ser uma ocasião formal? - brincou ela.
- O ácido dos dedos. Não podemos manusear os documentos sem elas. Vai precisar usá-las.
Vittoria colocou as luvas.
- De quanto tempo dispomos?
Langdon verificou seu relógio de Mickey Mouse.
- São pouco mais de sete horas.
- Temos de encontrar essa coisa em menos de uma hora.
- Na realidade - disse Langdon -, não temos esse tempo todo. - E apontou para um duto gradeado de entrada de ar. - Normalmente, o curador deve ligar um sistema de reoxigenação quando alguém está dentro da câmara, o que não está ocorrendo hoje. Em 20 minutos, ficaremos sem ar.
Vittoria empalideceu visivelmente apesar da luminosidade avermelhada. Langdon sorriu e alisou suas luvas.
- Comprovar ou sufocar, senhorita Vetra. Mickey está em movimento.
CAPÍTULO 52
Gunther Glick, o repórter da BBC, ficou uns dez segundos parado com o celular na mão antes de afinal desligá-lo.
Chinita Macri observava-o do banco de trás do furgão.
- O que aconteceu? Quem era?
Glick sentia-se como uma criança que ganhou um presente de Natal e tem medo de que o presente não seja realmente para ela.
- Acabei de receber uma dica. Algo está acontecendo dentro do Vaticano.
- Chama-se conclave. Grande dica essa.
- Não, não é isso. Uma coisa importante. - Ponderou se a história que o homem lhe contara poderia ser verdadeira. Glick sentiu uma ponta de vergonha quando percebeu que estava rezando para que fosse. – E se eu lhe contasse que quatro cardeais foram seqüestrados e vão ser assassinados, um de cada vez, em quatro igrejas diferentes esta noite?
- Eu diria que alguém no escritório com um senso de humor doentio está passando um trote em você.
- E se eu lhe disser que ele vai nos dar antes da hora a localização exata do primeiro assassinato?
- Só queria saber quem foi o louco com quem você acabou de falar.
- Ele não disse o nome.
- Talvez porque estivesse doidão?
Glick já esperava a reação sarcástica de Macri, mas ela estava esquecendo que ele lidara com mentirosos e lunáticos por mais de dez anos no British Tattler. Aquele homem não era uma coisa nem outra. Falara de modo frio e racional. Lógico. Vou telefonar novamente para você um pouco antes das oito, dissera o homem, para avisar onde vai acontecer o primeiro assassinato. As imagens que você vai gravar vão torná-lo famoso. Quando Glick perguntou por que estava recebendo aquelas informações, a resposta veio gélida como o sotaque oriental do homem. A mídia é o braço direito da anarquia.
- Ele me disse mais uma coisa - disse Glick.
- O quê? Que Elvis Presley acabou de ser eleito Papa?
- Acesse o banco de dados da BBC, por favor. - A adrenalina de Glick estava aumentando. - Quero ver que outras histórias já publicamos sobre esses caras.
- Que caras?
- Faça o que estou pedindo, está bem?
Macri suspirou e acessou o banco de dados da BBC.
- Só mais um minuto.
A cabeça de Glick dava voltas.
- O homem fez muita questão de saber se eu tinha um cinegrafista para gravar as imagens.
- Você tem uma cinegrafista.
- E se tínhamos condições de transmitir ao vivo.
- Um ponto cinco três sete megahertz. Qual é o assunto? - Ouviu-se um bipe: o banco de dados estava disponível. - Pronto, estamos conectados. O que você quer procurar?
Glick deu-lhe a palavra-chave.
Macri encarou-o, séria.
- Tomara que você esteja mesmo brincando.
CAPÍTULO 53
A organização interna da Câmara 10 não era tão intuitiva quanto Langdon esperava, e o manuscrito do Diagramma aparentemente não estava junto com outras publicações semelhantes de Galileu. Sem ter acesso ao Biblion e a um localizador computadorizado de referências, Langdon e Vittoria não tinham como prosseguir.
- Tem certeza de que o Diagramma está aqui? - perguntou Vittoria.
- Absoluta. Consta da listagem tanto do Uffi cio deila Propaganda della Fede quanto do...
- Ótimo. Contanto que você tenha certeza...
Ela foi para a direita e ele, para a esquerda. Langdon começou a busca manual. Precisava apelar para todo o seu autocontrole para não parar e ler cada tesouro pelo qual passava. A coleção era maravilhosa. O Experimentador, Mensageiro das Estrelas, História e Demonstração sobre as Manchas Solares, Carta à Grã-Duquesa Cristina, Apologia pro Galileo... E assim por diante.
Foi Vittoria quem finalmente tirou a sorte grande do outro lado da câmara. Sua voz rouca soou alta: - Diagramma delia Verità!
Langdon correu ao encontro dela através da névoa avermelhada.
- Onde?
Vittoria apontou e ele percebeu de imediato por que não o haviam encontrado antes. o manuscrito estava em uma caixa especial para in-fólios, não nas prateleiras. Essas caixas eram um recurso comum para se guardar páginas soltas. A etiqueta colocada na frente do recipiente não deixava qualquer dúvida sobre seu conteúdo.
DIAGRAMMA DELLA VERITÀ
Galileo Galilei, 1639
- Diagramma. - Deu um sorriso largo para ela. - Bom trabalho. Agora me ajude a tirar essa caixa daí.
Vittoria ajoelhou-se ao lado dele e os dois puxaram a caixa. A bandeja de metal sobre a qual estava colocada deslizou, movida por rodízios, e deixou à mostra a parte superior da caixa.
- Sem cadeado? - disse Vittoria, surpresa por só haver um fecho simples.
- Nunca. Às vezes existe a necessidade de se remover os documentos com rapidez, como no caso de incêndios ou enchentes.
- Então, abra-o.
Langdon não precisou de uma segunda ordem. Com o sonho de sua vida acadêmica bem ali na frente e o ar da câmara cada vez mais rarefeito, ele não titubeou. Abriu o fecho e levantou a tampa. Dentro, no fundo, havia uma bolsa de pano preto. A capacidade de ventilação do tecido da bolsa era crucial para a preservação de seu conteúdo. Estendendo as duas mãos e mantendo a bolsa na horizontal, Langdon tirou-a de dentro da caixa.
- Pensei que fôssemos encontrar um baú do tesouro - disse Vittoria -, mas isso aí parece mais uma fronha.
- Venha comigo - disse ele.
Segurando a bolsa com os braços estendidos como se fosse uma oferenda sagrada, Langdon se encaminhou para o centro da câmara, onde encontrou a costumeira mesa de tampo de vidro especial para examinar documentos. A localização central da mesa tinha como objetivo diminuir ao máximo o deslocamento dos documentos, mas os pesquisadores gostavam da privacidade proporcionada pelas estantes ao redor. Nas câmaras mais importantes do mundo faziam-se descobertas que definiam carreiras, e os pesquisadores não gostavam que os rivais bisbilhotassem através do vidro enquanto eles trabalhavam.
Langdon pousou a bolsa de pano na mesa e desabotoou-a. Vittoria postou-se de pé a seu lado.
Remexendo em uma bandeja que continha instrumentos de arquivista, Langdon pegou uma tenaz com as pontas revestidas de feltro, grandes pinças com discos achatados no final de cada haste. À medida que sua excitação aumentava, receava acordar a qualquer momento em Cambridge diante de uma pilha de provas para corrigir. Respirando fundo, abriu a bolsa de pano. Com os dedos trêmulos nas luvas de algodão, introduziu a pinça na bolsa.
- Relaxe - disse Vittoria. - Não é plutônio, é papel.
Langdon fez as hastes da pinça deslizarem em torno da pilha de documentos dentro da bolsa e teve o cuidado de aplicar pressão idêntica nos dois lados. Em seguida, ao invés de puxar o documento, ele o manteve no lugar e puxou a bolsa - um procedimento empregado pelos arquivistas para reduzir ao mínimo a força de torção sobre o material. Só depois de remover a bolsa e acender a luz especial de exame sob a mesa é que ele voltou a respirar normalmente.
Vittoria parecia um espectro, iluminada de baixo para cima pela luz da mesa de vidro.
- Folhas pequenas - disse ela, a voz reverente.
Langdon concordou com um gesto de cabeça. A pilha de fólios diante deles era como as páginas soltas de um pequeno livro de bolso. A primeira folha era uma capa desenhada a bico-de-pena com o título, a data e o nome de Galileu escritos de próprio punho.
Naquele instante, Langdon esqueceu o espaço exíguo, esqueceu sua exaustão e a situação horrível que o levara até ali. Apenas contemplou o livro, extasiado.
O contato direto com a História sempre deixava Langdon entorpecido de tanta reverência, era como estar vendo de perto as pinceladas na Mona Lisa.
O papiro esmaecido, amarelado, não deixava em Langdon qualquer dúvida quanto à sua idade e autenticidade, mas, exceto pelo inevitável desbotamento, estava em excelente estado. Pigmento ligeiramente descolorido. Pequenas falhas na coesão do papiro. Mas, de modo geral, em ótimas condições. Ele examinou o desenho decorativo da capa, feito à mão, sua vista já se embaçando por causa da falta de umidade. Vittoria mantinha-se em silêncio.
- Passe-me a espátula, por favor - Langdon apontou para uma bandeja ao lado de Vittoria, cheia de instrumentos em aço inoxidável especiais para uso em arquivos. Ela entregou-lhe a espátula. Langdon pegou-a e viu que era uma espátula de boa qualidade. Correu os dedos pela lâmina para remover qualquer estática possível e, em seguida, com o maior cuidado, fez a lâmina deslizar sob a capa. Levantou a espátula e abriu o livro.
A primeira página era escrita à mão com uma caligrafia minúscula, estilizada, quase impossível de ler.
Langdon logo percebeu que não havia diagramas nem números na página. Tratava-se de um ensaio.
- Sistema heliocêntrico - disse Vittoria, traduzindo o cabeçalho no Fólio 1. Ela correu os olhos pelo texto. - Parece que Galileu está renunciando ao modelo geocêntrico de uma vez por todas. Mas é italiano antigo, portanto não posso garantir nada sobre a tradução.
- Esqueça - disse Langdon. - Estamos procurando matemática. A linguagem pura.
E usou a espátula para virar a página seguinte. Outro ensaio. Nada de matemática ou diagramas. As mãos de Langdon começaram a suar dentro das luvas.
- Movimento dos Planetas - disse Vittoria, traduzindo o título.
Langdon fechou a cara. Em qualquer outra ocasião, teria ficado fascinado com aquela leitura. Por incrível que pareça, o modelo atual da NASA de órbitas planetárias, observado através de telescópios de última geração, era quase idêntico ao das previsões originais de Galileu.
- Nada de matemática - declarou Vittoria. - Ele está falando aqui sobre movimentos retrógrados e órbitas elípticas, ou algo assim.
Órbitas elípticas. Langdon lembrou que grande parte dos problemas de Galileu com a Justiça começaram quando ele afirmou que o movimento dos planetas era elíptico. O Vaticano exaltava a perfeição do círculo e insistia que o movimento celeste deveria ser somente circular. Os Illuminati de Galileu, entretanto, também viam perfeição na elipse, reverenciando a dualidade matemática de seus dois focos iguais. No mundo atual, a elipse dos Illuminati ainda era encontrável nas modernas pranchetas de desenho dos maçons e nos projetos dos alicerces dos seus prédios.
- Próxima - disse Vittoria. - Langdon virou a página.
- Fases lunares e movimentos das marés - disse ela. - Não tem números nem diagramas.
Ele virou mais uma página. Nada. Continuou virando páginas, umas dez ou mais. Nada. Nada. Nada.
- Pensei que ele fosse matemático - disse Vittoria. - Aqui só tem texto.
Langdon sentiu o ar em seus pulmões começando a rarear. Suas esperanças também estavam menos densas. A pilha de folhas diminuía.
- Nada aqui - disse Vittoria. - Matemática nenhuma. Umas poucas datas, um ou outro número-padrão, mas nada que pudesse ser uma pista.
Langdon virou o último conjunto de folhas e suspirou. Era também um ensaio.
- Livro pequeno - disse Vittoria, de cara fechada.
Langdon fez que sim com a cabeça.
- Merda, como se diz em Roma.
É mesmo uma merda, pensou Langdon. Seu reflexo no vidro parecia zombar dele, como a imagem de si mesmo que vira na janela de sua casa naquela manhã. Um fantasma envelhecido.
- Tem de haver alguma coisa - disse ele, o desespero rouco em sua voz espantando-o. -O segno está aí em algum lugar. Tenho certeza!
- Quem sabe você se enganou sobre o DIII?
Langdon lançou-lhe um olhar duro.
- Tudo bem - concordou ela. - DIII faz sentido. Mas e se a pista não for matemática?
- Lingua pura. O que mais poderia ser?
- Arte?
- Não há diagramas nem ilustrações no livro. Tudo o que sei é que lingua pura se refere a algo que não é italiano. Matemática seria a resposta lógica.
- Também acho.
Langdon recusava-se a admitir a derrota tão depressa.
- Os números podem estar escritos por extenso. A matemática deve estar em palavras em vez de em equações.
- Vai levar algum tempo ler todas as páginas.
- Não temos tempo. Vamos ter de dividir o trabalho. - Langdon virou a pilha de folhas e voltou para a primeira página. - Sei italiano o suficiente para localizar números. - Usando a espátula, dividiu a pilha como se fosse um baralho de cartas e depositou as primeiras seis diante de Vittoria. - Está aí, tenho certeza.
Vittoria estendeu a mão e virou a primeira página com a mão.
- Espátula! - exclamou Langdon, pegando uma outra ferramenta na bandeja. - Use a espátula.
- Estou usando luvas - resmungou ela. - Que estrago poderia fazer?
- Não discuta, use a espátula.
Vittoria obedeceu.
- Está sentindo o mesmo que eu?
- Tensão?
- Não, falta de ar.
Langdon também sentia, inegavelmente. O ar ia ficando muito rarefeito mais depressa do que ele imaginara.
Sabia que tinham de se apressar. Tentar desvendar enigmas dentro de arquivos não era novidade para ele, mas em geral tinha mais do que uns poucos minutos para trabalhar neles. Sem falar, inclinou a cabeça e começou a traduzir a primeira página de sua pilha.
Apareça, droga! Apareça!
Ao dobrar uma esquina ele os viu, exatamente como os havia deixado - quatro velhos apavorados atrás das barras de ferro enferrujado de um cubículo de pedra.
- Qui êtez-vous?- perguntou um dos homens, em francês. - O que quer de nós?
- Hilfe! - disse outro, em alemão. - Deixe-nos ir embora!
- Tem noção de quem somos nós? - perguntou outro ainda, em inglês com sotaque espanhol.
- Silêncio - ordenou a voz áspera. Havia um tom de inevitabilidade na palavra.
O quarto prisioneiro, um italiano calado e pensativo, vislumbrou o vazio negro do olhar de seu captor.
Seria capaz de jurar que enxergou o inferno lá dentro. Que Deus nos ajude, pensou.
O matador olhou o relógio e depois voltou-se para os prisioneiros.
- E agora - disse ele -, quem vai ser o primeiro?
Nos Arquivos do Vaticano, dentro da Câmara 10, Robert Langdon recitava números em italiano enquanto examinava superficialmente o manuscrito diante de si. Milie, centi, uno, duo, ter, cincuanta. Preciso de uma referência numérica! Qualquer uma, droga!
Quando chegou ao final do fólio que estava lendo, apanhou a espátula para virar as páginas. Ao alinhar a lâmina com a página seguinte, fez um movimento desajeitado, encontrando dificuldade para segurar a espátula com firmeza. Minutos depois, percebeu que abandonara a espátula e estava virando as páginas com a mão. Opa, disse para si mesmo, sentindo-se quase um criminoso. A falta de oxigênio estava afetando suas inibições. Pelo jeito, vou acabar queimando no inferno dos arquivistas.
- Até que enfim - disse Vittoria, meio sufocada, vendo-o virar as páginas com a mão. Largou e espátula e imitou-o.
- Encontrou alguma coisa?
Vittoria sacudiu a cabeça.
- Nada que seja puramente matemático. Estou lendo por alto, mas não vejo nada que pareça uma pista.
Langdon continuou traduzindo seus fólios com dificuldade cada vez maior.
CAPÍTULO 54
Em algum ponto de Roma, uma figura sombria esgueirou-se por uma rampa de pedra para o túnel subterrâneo. O antigo corredor estava iluminado apenas por tochas acesas, o que tornava o ar pesado e quente. Ao longe, vozes assustadas de homens chamavam em vão, ecoando nos espaços fechados.
Seus conhecimentos de italiano eram, na melhor das hipóteses, apenas claudicantes, e a letra miúda e a linguagem arcaica o faziam avançar lentamente. Vittoria chegou antes dele ao fim de sua pilha e, desanimada, folheou as páginas outra vez. Debruçou-se sobre elas para uma inspeção mais intensa.
Quando Langdon terminou, praguejou em voz baixa e olhou para Vittoria. Ela estava curvada tentando enxergar melhor algo em um de seus fólios.
- O que é? - perguntou.
Ela não levantou a cabeça.
- Suas páginas tinham alguma nota de rodapé?
- Não que eu percebesse. Por quê?
- Esta página tem uma. Está meio escondida em uma ruga do papel.
Langdon tentou ver o que ela estava examinando, mas só conseguiu distinguir um número de página no alto da margem direita da folha. Fólio 5. Levou um momento para registrar a coincidência e, mesmo assim, a associação de idéias lhe parecia vaga. Fólio 5. Cinco, Pitágoras, pentagramas, Iliuminati.
Langdon especulava se os Illuminati teriam escolhido a página cinco para esconder sua pista. Através da névoa avermelhada que os envolvia, ele vislumbrou um pequenino raio de esperança.
- A nota de rodapé tem alguma relação com matemática?
Vittoria fez que não com a cabeça.
- Texto. Uma linha só. Letra muito pequena, quase ilegível.
As esperanças dele se esvaíram.
- Deveria ser matemática. Lingua pura.
- É, eu sei - ela hesitou. - Mas acho que você vai querer ouvir isto.
Havia uma certa excitação na voz dela.
- Diga logo.
Apertando os olhos junto ao fólio, Vittoria leu a frase.
- "O caminho da luz está preparado, o teste sagrado."
As palavras não eram o que Langdon tinha imaginado.
- O que foi que disse?
Vittoria repetiu.
- "O caminho da luz está preparado, o teste sagrado."
- Caminho da luz? - Langdon sentiu suas costas se endireitarem.
- É o que está escrito aqui. Caminho da luz.
À medida que ele assimilava as palavras, um lampejo de clareza penetrava o seu delírio, O caminho da luz está preparado, o teste sagrado. Não tinha idéia de como a frase podia ajudá-los, mas o fato é que era uma referência mais do que direta ao Caminho da Iluminação. O caminho da luz. O teste sagrado. A cabeça dele fazia um esforço semelhante ao de um motor alimentado com gasolina de má qualidade e que está tentando pegar.
- Tem certeza de que a tradução está correta?
Ela ficou indecisa.
- Na verdade - ela lhe lançou um olhar estranho -, não é tecnicamente uma tradução. A frase está escrita em inglês.
Por um instante, ele pensou que a acústica da câmara tivesse afetado sua audição.
- Em inglês?!
Vittoria empurrou o documento para ele e Langdon leu as letrinhas diminutas no pé da página: - The path of light is laid, the sacred test. Em inglês! Por que em inglês em um livro italiano?
Vittoria deu de ombros. Ela também parecia um tanto embriagada.
- Quem sabe é o que eles chamavam de lingua pura? É considerada a língua internacional da ciência. Só falamos inglês no CERN.
- Mas isso foi em 1600 - argumentou Langdon. - Ninguém falava inglês na Itália, nem o...- ele parou, percebendo o que ia dizer. - Nem o clero. - A mente acadêmica de Langdon funcionava agora a todo vapor. - No século XVII - continuou ele, falando agora mais depressa-, o inglês era uma língua que o Vaticano ainda não adotava. Eles usavam o italiano, o latim, o alemão, até o espanhol e o francês, mas o inglês era uma língua totalmente estrangeira dentro do Vaticano. Consideravam-na uma língua corrompida de livres-pensadores, que servia para profanos como Chaucer e Shakespeare. - Ocorreu-lhe de repente a questão das marcas a fogo dos Illuminati, Terra, Ar, Fogo e Água. A lenda de que as marcas eram em inglês agora fazia sentido, um sentido bizarro.
- Quer dizer que talvez Galileu considerasse o inglês la lingua pura porque era a única língua que o Vaticano não controlava?
- É isso mesmo. Ou, talvez, ao redigir a pista em inglês, Galileu estivesse sutilmente restringindo a leitura, excluindo o Vaticano.
- Mas nem chega a ser uma pista - objetou ela. - O caminho da luz está preparado, o teste sagrado? Que diabos quer dizer isto?
Ela tem razão, pensou Langdon. A frase não ajudava nada. No entanto, repetindo-a em sua mente, um estranho fato ocorreu-lhe. Ora, não é interessante? Será que existe alguma possibilidade aí?
- Temos de sair daqui - disse Vittoria, a voz enrouquecida.
Langdon não escutou. The path of light is laid, the sacred test.
- É um pentâmetro iâmbico! - exclamou, contando as sílabas outra vez.
- Cinco dísticos de silabas agudas e breves alternadas.
Vittoria parecia perdida.
- Pentâmetro o quê?
E súbito Langdon estava de volta à Academia Phillips Exeter, em uma aula de inglês de um sábado de manhã. Um verdadeiro inferno na Terra. A estrela do beisebol da escola, Peter Greer, estava tendo dificuldades para lembrar o número de dísticos de um verso pentâmetro iâmbico de Shakespeare. O professor, um animado mestre chamado Bisseli, pulou para cima da mesa e berrou: - Pentâ-metro, Greer! Lembre de pentá-gono! Cinco lados! Penta! Penta! Penta! Deeeus do cééu!
Cinco dísticos, pensou Langdon. Cada dístico tendo, por definição, duas sílabas. Mal podia crer que em toda a sua carreira jamais fizera aquela associação. O pentâmetro iâmbico era uma métrica com simetria que se baseava nos dois números sagrados dos Iliuminati, 5 e 2!
Você está exagerando! Ele disse para si mesmo, tentando afastar o pensamento de sua mente. É uma coincidência sem sentido! Mas a idéia não lhe saía da cabeça. Cinco.., para Pitágoras e o pentagrama. Dois para a dualidade de todas as coisas.
No momento seguinte, uma outra descoberta fez suas pernas bambearem. O pentâmetro iâmbico, por sua simplicidade, era muitas vezes chamado de "puro verso", ou "pura métrica" La língua pura? Seria essa a língua pura a que os liluminati se referiam? The path of light is laid, the sacred test...
- Oh-oh - disse Vittoria.
Langdon viu Vittoria virar o fólio de cabeça para baixo. Sentiu um aperto no estômago. De novo, não...
- Não há possibilidade de essa frase ser um ambigrama!
- Não, não é um ambigrama, mas é... - e ela continuou a virar o documento 90 graus de cada vez.
- É o quê?
Vittoria encarou-o.
- Aquela não é a única frase.
- Existe outra?
- Há uma em cada margem. Na de cima, na de baixo, na da esquerda e na da direita. Acho que é um poema.
- Quatro versos? - Langdon arrepiou-se de excitação. Galileu era poeta?
- Deixa eu ver!
Vittoria não largou a página. Continuava virando-a para ler o que estava escrito nas quatro margens.
- Não vi antes os versos porque estão nas margens. - Ela inclinou a cabeça
para ler a última. - Humm... Sabe de uma coisa? Nem foi Galileu quem escreveu isto.
-O quê?
- O poema está assinado por John Milton.
- John Milton?
O influente poeta inglês que escreveu Paraíso Perdido era contemporâneo de Galileu e um sábio que os aficionados por conspirações colocavam no topo da lista de suspeitos de serem Iliuminati. A suposta aflhiação de Milton à confraria dos Iliuminati de Galileu era uma lenda que Langdon acreditava ser verdadeira. Não só Milton fizera uma bem-documentada peregrinação a Roma em 1638 para "comungar com os homens esclarecidos", como tivera encontros com o cientista durante sua prisão domiciliar, encontros estes retratados em muitas pinturas renascentistas, entre elas a famosa tela de Annibale Gatti, Galileu e Milton, hoje exposta no Instituto e Museu da História da Ciência, em Florença.
- Milton conhecia Galileu, não é? - disse Vittoria, empurrando finalmente o in-fólio para Langdon. - Quem sabe ele escreveu o poema como um favor?
Langdon cerrou os dentes ao pegar o documento com seu invólucro. Deixando-o aberto sobre a mesa, leu a frase no alto. Depois, girou a página 90 graus e leu a frase da margem direita. Girou outra vez e leu a de baixo. Mais um giro final para ler a última e completar o movimento circular. Havia ao todo quatro frases. A que Vittoria encontrara primeiro era na realidade o terceiro verso do poema. Completamente boquiaberto, ele leu os quatro versos de novo na seqüência certa: alto, direita, rodapé, esquerda. Quando terminou, soprou o ar dos pulmões com vontade. Não tinha mais nenhuma dúvida.
- Muito bem, senhorita Vetra, você encontrou.
Ela sorriu com os lábios apertados.
- Ótimo, agora podemos dar o fora daqui?
- Tenho de copiar esses versos. Preciso encontrar lápis e papel.
Vittoria sacudiu a cabeça.
- Esqueça, professor. Nada de bancar o escriba, não temos tempo para isso. Mickey está andando. - Ela tirou o documento da mão dele e se encaminhou para a porta.
Langdon levantou-se.
- Não pode levar isso para fora! É um...
Mas Vittoria já estava longe.
CAPÍTULO 55
Langdon e Vittoria irromperam às pressas pelo pátio do lado de fora dos Arquivos Secretos. O ar fresco fluiu para os pulmões de Langdon como se fosse uma droga inebriante. Os pontos vermelhos em sua vista sumiram rapidamente. A culpa, todavia, não sumiu. Ele acabara de se tornar cúmplice do roubo de uma preciosa relíquia pertencente ao arquivo mais protegido do mundo. O camerlengo dissera: Estou depositando minha confiança no senhor.
- Depressa - disse Vittoria, ainda segurando o fólio e atravessando a Via Borgia na direção do escritório de Olivetti quase em passo de corrida.
- Se cair água nesse papiro...
- Calma, quando decifrarmos essa coisa, vamos devolver o bendito Fólio 5.
Langdon acelerou o passo para acompanhá-la. Além de se sentir um criminoso, ainda estava sob o impacto das fascinantes implicações do documento. John Milton era um Iliuminatus. Compôs o poema para Galileu publicar no Fólio 5, longe dos olhos do Vaticano.
Ao saírem do pátio, Vittoria entregou o fólio a Langdon.
- Acha que pode decifrar isso? Ou perdemos todas aquelas células cerebrais à toa?
Langdon segurou o documento com todo o cuidado. Sem titubear, enfiou-o em um dos bolsos internos de seu paletó de tweed para protegê-lo da luz do sol e dos perigos da umidade.
- Já o decifrei faz tempo.
Vittoria estacou.
-Você o quê?
Langdon continuou a andar.
Vittoria foi atrás dele.
- Você só o leu uma vez! Pensei que fosse muito dificil!
Langdon sabia que ela estava certa e, no entanto, ele decifrara o segno com uma única leitura. Uma estrofe perfeita de pentâmetros iâmbicos e o primeiro altar da ciência revelara-se com uma clareza impecável. Tinha de confessar que a facilidade com que realizara a tarefa deixara-o bastante inquieto. Ele era um produto da ética puritana do trabalho. Ainda era capaz de ouvir a voz de seu pai repetindo o velho aforismo da Nova Inglaterra: Se não foi penoso e dificil, é porque você fez errado. Langdon torcia para que o ditado não fosse verdade.
- Já decifrei - disse, andando mais depressa. - Sei onde vai acontecer o primeiro assassinato. Temos de avisar Olivetti.
Vittoria aproximou-se dele.
- Como é que você pode já ter descoberto? Deixe eu ver isso outra vez.
Com o jogo de corpo de um pugilista, ela enfiou a mão com grande agilidade no bolso dele e tirou de lá o fólio.
- Cuidado! - exclamou Langdon. - Não pode...
Vittoria não lhe deu atenção. Com o fólio na mão, ela flutuava ao lado dele, segurando o documento com o braço levantado para enxergar à luz do fim do dia, examinando as margens. Ela começou a ler em voz alta e Langdon fez um movimento para recuperar o fólio mas, sem querer, viu-se enfeitiçado pela voz de contralto e pelo sotaque de Vittoria, que dizia os versos no mesmo ritmo de seus passos.
Por um momento, ao ouvir os versos, Langdon sentiu-se transportado no tempo, como se fosse um dos contemporâneos de Galileu que os escutasse pela primeira vez sabendo que eram um teste, um mapa, uma pista para desvendar os quatro altares da ciência, os quatro marcos que abriam um caminho secreto através de Roma. Os versos fluíam dos lábios de Vittoria como uma canção.
From Santi's earthly tomb with demon's hole, 'Cross Rome the mystic elements unfold. The path of light is laid, the sacred test, Let angels guide you on your lofty quest.
Da tumba terrena de Santi com a cova do demônio
Através de Roma se estendem os místicos elementos.
O caminho da luz está preparado, o teste sagrado,
Que os anjos o guiem em sua busca sublime.
Vittoria leu duas vezes e depois se calou, deixando as palavras antigas ressoarem sozinhas.
Da tumba terrena de Santi, Langdon repetiu em sua mente. O poema era claro como água neste ponto. O Caminho da Iluminação começava na tumba de Santi. A partir dali, através de Roma, os marcos assinalavam o percurso.
Da tumba terrena de Santi com a cova do demônio
Através de Roma se estendem os místicos elementos.
Os místicos elementos. Também estava claro. Terra, Ar, Fogo e Água. Os elementos da ciência, os quatro marcos dos liluminati disfarçados de esculturas religiosas.
- O primeiro marco - disse Vittoria - parece ser na tumba de Santi.
Langdon sorriu.
- Eu disse que não era tão difícil assim.
- E quem é Santi? - perguntou ela, de repente cheia de entusiasmo. - E onde é a tumba dele?
Langdon dissimulou o riso. Impressionante como poucas pessoas sabiam que San ti era o sobrenome de um dos mais famosos artistas da Renascença. Seu primeiro nome o mundo inteiro conhecia: o menino-prodígio que com 25 anos já realizava trabalhos encomendados pelo Papa Júlio II e que, ao morrer, com apenas 38 anos, deixou a maior coleção de afrescos que o mundo jamais conheceu. Santi era um dos monstros sagrados do mundo da arte, e ser conhecido apenas pelo primeiro nome era atingir um nível de fama a que só uma elite restrita tinha acesso, pessoas como Napoleão, Galileu, Jesus e, claro, os semideuses de quem agora Langdon ouvia os clamores vindos dos quartos nos prédios residenciais da Universidade de Harvard: Sting, Madonna, Jewel e o artista antes conhecido como Prince, que agora mudara seu nome para o símbolo , o que fizera Langdon apelidá-lo de "Cruz Tau Cortada por Ankh Hermafrodita".
- Santi - explicou Langdon - é o sobrenome do grande mestre da Renascença, Rafael.
Vittoria espantou-se.
- Rafael? O Rafael?
- O próprio - respondeu, continuando a andar em passo acelerado para o escritório da Guarda Suíça.
- Então, o caminho começa na tumba de Rafael?
- O que na verdade faz bastante sentido - comentou Langdon, enquanto caminhavam. -Os Iliuminati costumavam considerar os grandes artistas e escultores como irmãos honorários nas luzes do conhecimento. Podem ter escolhido a tumba de Rafael como uma espécie de homenagem. - Langdon também sabia que, provavelmente, como muitos outros artistas religiosos, Rafael era um ateu não declarado.
Vittoria colocou o fólio de volta no bolso de Langdon com todo o cuidado.
- E onde ele está enterrado?
Langdon respirou fundo.
- Acredite se quiser, Rafael está enterrado no Panteão.
- No Panteão?
- No Panteão.
Langdon tinha de admitir que o Panteão não era o lugar que esperara para o primeiro marco. Imaginara o primeiro altar da ciência em alguma igreja sossegada, meio afastada, algo mais discreto. Já no século XVII, o Panteão, com seu domo colossal, era um dos locais mais conhecidos de Roma.
- O Panteão é uma igreja? - perguntou Vittoria.
- A mais antiga igreja católica de Roma.
Vittoria fez um gesto de descrença.
- Acha mesmo que o primeiro cardeal poderia ser morto no Panteão? Deve ser um dos pontos turísticos mais movimentados de Roma.
Ele deu de ombros.
- Os Iliuminati disseram que queriam o mundo inteiro assistindo. Matar um cardeal no Panteão com certeza deve chamar a atenção de muita gente.
- Como é que esse sujeito acha que vai matar alguém no Panteão e sair de lá sem ser notado? Seria impossível.
- Tão impossível quanto seqüestrar quatro cardeais dentro da Cidade do Vaticano? O poema é bem preciso.
- E você tem certeza de que Rafael está enterrado no Panteão?
- Já vi a tumba dele muitas vezes.
Vittoria ainda parecia preocupada, mas balançou a cabeça.
- Que horas são?
Langdon conferiu o relógio.
- Sete e meia.
- O Panteão é muito longe?
- Mais ou menos um quilômetro. Temos tempo.
- O poema falava da tumba terrena de Santi. Acha que significa alguma coisa?
Langdon atravessou na diagonal o pátio da sentinela.
- Terrena? É provável que não haja lugar mais terreno em Roma do que o Panteão. Seu nome vem da religião originalmente praticada ali, o panteísmo, a adoração de todos os deuses, especificamente os deuses pagãos da Mãe Terra.
Quando estudante de arquitetura, Langdon ficara admirado ao aprender que as dimensões da câmara principal do Panteão eram um tributo a Gaea, a deusa da Terra. E que as proporções eram tão exatas que um gigantesco globo caberia perfeitamente dentro da construção com uma folga de menos de um milímetro.
- Está bem - disse Vittoria, mais convencida. - E a cova do demônio? Da tumba terrena de Santi com a cova do demônio?
Langdon não tinha muita certeza quanto a isso.
- A cova do demônio deve ser o óculo - respondeu, tentando adivinhar pela lógica. - A famosa abertura circular no teto do Panteão.
- Mas trata-se de uma igreja - objetou Vittoria, andando sem esforço ao lado dele. - Por que chamariam a abertura de cova do demônio?
Na realidade, Langdon vinha se perguntando a mesma coisa. Nunca ouvira a expressão "cova do demônio' mas lembrava-se de uma célebre crítica feita ao Panteão no século VI cujas palavras pareciam estranhamente apropriadas agora. O Venerável Bede escrevera que a abertura no teto do Panteão fora feita por demônios que tentavam escapar do prédio quando este foi consagrado pelo Papa Bonifácio IV.
- E por que - acrescentou Vittoria quando entraram em um pátio menor - os Iliuminati usariam o nome Santi se ele era de fato conhecido como Rafael?
- Você faz um bocado de perguntas.
- Meu pai costumava dizer o mesmo.
- Duas razões possíveis. Uma, a palavra Rafael tem sílabas demais. Teria destruído o pentâmetro iâmbico do poema.
- Uma interpretação meio forçada, convenhamos.
Langdon concordou com ela.
- Talvez, então, usar "Santi" tornasse a pista mais obscura e só homens muitos esclarecidos reconheceriam a referência a Rafael.
A explicação também não satisfez Vittoria por completo.
- Acredito que o sobrenome de Rafael devia ser muito conhecido na sua época.
- Por incrível que pareça, não, O reconhecimento de alguém por um único nome era símbolo de status.
Rafael evitava usar seu sobrenome, do mesmo jeito que algumas estrelas populares fazem hoje em dia.
Como Madonna, por exemplo. Ela nunca usa seu sobrenome, Ciccone.
Vittoria achou graça.
-Você sabe o sobrenome de Madonna?
Langdon arrependeu-se de ter dado aquele exemplo. Impressionante as bobagens que se aprendem convivendo com dez mil adolescentes.
Ao passarem pelo último portão para chegarem ao escritório da Guarda Suíça, Vittoria e Langdon foram inesperadamente obrigados a parar.
- Para! - bradou uma voz atrás deles.
Os dois se viraram e deram com o cano de um fuzil.
- Attento! - exclamou Vittoria, recuando de um salto. - Cuidado com...
- Non sportarti! - disse o guarda, ríspido, engatilhando a arma.
- Soldato! - chamou alguém do lado oposto do pátio. Olivetti estava saindo do centro de segurança. - Deixe-os passar!
O guarda, desconcertado, objetou: - Ma, signore, é una donna...
- Para dentro! - ele gritou para o guarda.
- Signore, non posso...
- Já! Suas ordens são outras agora. O capitão Rocher vai transmitir novas instruções para a Guarda em dois minutos. Vamos organizar uma busca.
Aturdido, o guarda entrou correndo no centro de segurança. Olivetti veio ao encontro de Langdon, rígido e furioso.
- Nossos arquivos mais secretos? Vou querer uma explicação.
- Temos boas novas - disse Langdon.
Os olhos de Olivetti estreitaram-se.
- É melhor que sejam muito boas.
CAPÍTULO 56
Os quatro carros Alpha Romeo 155 T-Sparks sem identificação dispararam pela Via dei Coronari como caças decolando em uma pista de aviação. Os veículos levavam 12 guardas suíços à paisana armados com semi- automáticas Cherchi-Pardini, bombas de gás asfixiante e cassetetes de alta-voltagem de longo alcance. Os três atiradores de elite seguravam fuzis de mira a laser.
Sentado ao lado do motorista no primeiro carro, Olivetti dirigiu-se a Langdon e a Vittoria, que estavam no banco de trás. Seu rosto tinha uma expressão de raiva.
- Vocês garantiram que me dariam uma explicação plausível e isso é tudo o que têm a dizer?
Langdon estava apertado no pequeno carro.
- Compreendo sua...
- Não, não compreende nada! - Olivetti nunca levantava a voz, mas a sua intensidade triplicou. - Acabei de tirar 12 dos meus melhores homens da Cidade do Vaticano na véspera de um conclave. E o fiz para vasculhar o Panteão baseado no testemunho de um americano que nunca vi antes e que acabou de interpretar um poema escrito há 400 anos. Também acabei de deixar nas mãos de oficiais subalternos a responsabilidade pela busca dessa arma de antimatéria.
Langdon resistiu à vontade de puxar o Fólio 5 de dentro do bolso e sacudi- lo diante do nariz de Olivetti.
- Tudo o que sei é que a informação que encontramos se refere à tumba de Rafael e que essa tumba fica dentro do Panteão.
O oficial que dirigia o carro confirmou.
- Ele tem razão, comandante, minha mulher e eu...
- Dirija - ordenou Olivetti. E voltou-se outra vez para Langdon. - Como alguém poderia cometer um assassinato em um lugar tão movimentado e escapar sem ser visto?
- Não sei - respondeu Langdon. - Mas os Illuminati sem dúvida têm muitos meios. Invadiram o CERN e a Cidade do Vaticano. Foi pura sorte termos conseguido saber onde vai ocorrer a primeira morte. O Panteão é a sua única chance de pegar esse sujeito.
- Mais contradições - reclamou Olivetti. - Única chance? O senhor não disse que havia uma espécie de trilha? Uma série de marcos? Se o Panteão for o lugar certo, podemos seguir a trilha para os outros marcos.
Teremos quatro chances de pegar o assassino.
- Era o que eu esperava - disse Langdon. - Teríamos quatro chances, um século atrás.
Descobrir que o Panteão era o primeiro altar da ciência havia sido para Langdon um momento de prazer com um travo amargo. A História de vez em quando prega peças cruéis naqueles que a perseguem. Seria querer demais que o Caminho da Iluminação estivesse intacto depois de tanto tempo, com todas as suas estátuas no mesmo lugar, mas uma parte da cabeça de Langdon acalentara a fantasia de seguir o caminho até o fim e encontrar o refúgio sagrado dos Iliuminati. Admitia, com muita pena, que isto não seria possível.