Anjos e Demônios
- Mas ele está aqui. E o…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
- O Vaticano removeu e destruiu todas as estátuas do Panteão no final do século XIX.
- Por quê? - perguntou Vittoria, chocada.
- Eram estátuas pagãs, deuses do Olimpo. Infelizmente, isto significa que o primeiro marco se foi e, com ele...
- Qualquer esperança de encontrar o Caminho da Iluminação e os outros marcos?
Três outros Alpha Romeos derraparam atrás dele. O comboio da Guarda Suíça parou cantando os pneus.
- O que está fazendo?! - exclamou Vittoria.
- Meu trabalho - disse Olivetti, ajeitando-se no assento, a voz dura como pedra. - Senhor Langdon, quando falou que explicaria a situação a caminho, presumi que chegaríamos ao Panteão com uma idéia clara da razão por que meus homens estavam ali. Não é o caso. Como estou abandonando obrigações de importância vital pelo fato de estar aqui e, além disso, como acho que não faz muito sentido essa sua teoria de sacrificios de virgens e poesia antiga, não posso em sã consciência continuar. Estou cancelando esta missão agora mesmo.
Ele pegou seu walkie-talkie e ligou-o.
Vittoria inclinou-se para a frente e agarrou o braço dele.
- Não pode fazer isso!
Olivetti bateu com o aparelho no banco do carro e lançou-lhe um olhar furioso.
- Já esteve no Panteão, senhorita Vetra?
- Não, mas...
- Deixe que lhe explique como é o lugar. O Panteão consiste em um único ambiente. Uma construção circular feita de pedra e cimento. Tem uma entrada. Não tem janelas. A entrada é estreita. É guardada o tempo todo por nada menos do que quatro policiais romanos armados que protegem o santuário contra destruidores de obras de arte, terroristas anticristãos e golpes de falsos turistas.
- Aonde quer chegar? - disse ela com frieza.
- Aonde quero chegar? - Os dedos de Olivetti agarravam com força o encosto do banco do carro. - O que acabaram de me contar é totalmente impossível! Será que são capazes de me apresentar uma descrição plausível de como alguém poderia matar um cardeal dentro do Panteão? Antes de mais nada, como é que alguém passaria com um refém qualquer pelos guardas que ficam na entrada? E ainda por cima o mataria e fugiria em seguida? - Olivetti debruçou-se no encosto, seu hálito cheirando a café no rosto de Langdon.
- Como, senhor Langdon? Vamos lá, só uma descrição plausível.
Langdon sentia-se como se o pequenino carro tivesse encolhido em volta dele. Não tenho a menor idéia! Não sou um assassino! Não sei como ele vai agir! Só sei...
- Uma descrição? - repetiu Vittoria com sarcasmo na voz, imperturbável. - Que talo assassino vir em um helicóptero e deixar cair um cardeal marcado a fogo e aos gritos pela abertura do teto, o cardeal bater no piso de mármore e morrer?
- Isso. Temos uma chance, o Panteão. Depois, a trilha desaparece. Olivetti olhou fixo para ambos durante um longo momento e depois voltou a olhar para a frente.
- Encoste - rosnou para o motorista.
O motorista deu uma guinada para junto do meio-fio e enfiou o pé no freio.
A atenção de todos no carro voltou-se para Vittoria. Langdon não sabia o que pensar. Você tem uma imaginação doentia, moça, mas é um bocado rápida.
Olivetti franziu o sobrolho.
- Possível, admito, mas dificilmente...
- Ou o assassino dá uma droga qualquer ao cardeal - disse Vittoria - e entra no Panteão com ele em uma cadeira de rodas, como se fosse um turista idoso. Lá dentro, corta discretamente a garganta dele e sai sem ser notado.
Aquela alternativa fez Olivetti acordar um pouco.
Nada mal!, pensou Langdon.
- Ou - continuou ela -, o assassino poderia...
- Já entendi - interrompeu Olivetti. - Chega.
Ele respirou fundo e soprou o ar dos pulmões. Alguém bateu no vidro com insistência e todos se sobressaltaram. Era um soldado de um dos outros carros. Olivetti abaixou o vidro.
- Tudo bem, comandante? - O soldado estava vestido com roupas civis. Levantou a manga de sua camisa jeans e mostrou um relógio de pulso preto de estilo militar. - Sete e quarenta, comandante. Precisamos de tempo para nos posicionarmos.
Olivetti fez um gesto vago com a cabeça, mas ficou calado alguns instantes. Correu o dedo de um lado para o outro no painel do carro, fazendo uma linha na poeira. Examinou Langdon pelo retrovisor e Langdon sentiu-se medido e avaliado. Finalmente, Olivetti dirigiu-se ao guarda. Havia relutância em sua voz.
- Quero abordagens separadas. Carros na Piazza deila Rotonda, Via degli Orfani, Piazzas Sant'Ignazio e Sant'Eustachio. A dois quarteirões de distância, não menos. Quando estacionarem, preparem-se e aguardem minhas ordens. Três minutos.
- Muito bem, senhor.
O soldado voltou para seu carro.
Langdon fez uma careta para Vittoria com ar impressionado. Ela sorriu de volta e, por um instante, estabeleceu-se entre os dois uma ligação inesperada, um fio de magnetismo.
O comandante virou-se para Langdon, incisivo: - Senhor Langdon, é bom que tudo isso não estoure em cima de nós.
Langdon deu um sorriso constrangido. Como poderia?
CAPÍTULO 57
O diretor do CERN, Maximilian Kohler, abriu os olhos ainda sob o efeito da cromolina e do leucotrieno em seu corpo, dilatando seus tubos brônquicos e seus capilares pulmonares. Respirava normalmente outra vez. Encontrava-se deitado em um quarto particular na enfermaria do CERN, sua cadeira de rodas encostada à cama.
Avaliou a situação e examinou a túnica de papel com que o haviam vestido. Suas roupas estavam dobradas na cadeira ao lado. Lá fora, ouvia uma enfermeira fazendo a ronda.
Permaneceu deitado um longo minuto, à escuta. Depois, procurando fazer o mínimo barulho possível, chegou até a beirada da cama e apanhou sua roupa. Lutando com suas pernas sem vida, vestiu-se. Então, arrastou o corpo e sentou-se na cadeira de rodas.
Abafou a tosse e fez girar as rodas da cadeira até a porta. Movimentou-a manualmente, com cuidado, sem ligar o motor. Quando chegou à porta, espiou para fora. O vestíbulo estava vazio. Silenciosamente, Maximilian Kohler escapuliu da enfermaria.
CAPÍTULO 58
- Sete e quarenta e seis e trinta... preparem-se.-Mesmo quando falava em seu walkie-talkie, a voz de Olivetti não passava de um sussurro.
Langdon agora suava dentro de seu casaco de tweed no banco de trás do Alpha-Romeo, parado em uma praça a três quarteirões de distância do Panteão. Vittoria, sentada a seu lado, tinha toda a sua atenção concentrada em Olivetti, que transmitia as ordens finais.
- A formação de combate será um cerco de oito pontos. O alvo pode reconhecê-los, portanto vocês ficarão pas-visibles. Empreguem somente força nãomortal. Precisamos de alguém para vigiar o telhado. O alvo é prioritário. O refém é secundário.
Credo, pensou Langdon, arrepiado com a eficiência com que Olivetti dissera a seus homens que o refém poderia ser sacrificado por razões estratégicas. O refém é secundário.
- Repetindo. Intervenção não-mortal. O alvo tem de estar vivo. Agora, vão!
Vittoria estava perplexa, quase zangada.
- Comandante, ninguém vai entrar?
- Entrar? - repetiu Olivetti.
- É! No Panteão! Onde se supõe que tudo vá acontecer!
- Attento - disse Olivetti, seus olhos se congelando. - Se houve mesmo infiltração em minhas fileiras, meus homens podem ser reconhecidos. Seu amigo acabou de avisar que esta pode ser a única chance de pegarmos o alvo. Não tenho nenhuma intenção de espantar essa pessoa fazendo meus homens invadirem o local.
- E se o assassino já estiver lá dentro?
Olivetti verificou o relógio.
- O alvo foi bem específico. Oito horas. Temos 15 minutos.
- Ele disse que mataria o cardeal às oito horas. Mas pode já ter entrado antes com a vítima. E se seus homens virem o alvo sair mas não souberem que é ele? Alguém precisa ir verificar se há algum suspeito lá dentro.
- É arriscado demais a essa altura.
- Não se a pessoa que entrar não puder ser reconhecida.
- Disfarçar alguém levaria tempo demais e...
- Estou me referindo à minha pessoa - disse Vittoria.
Langdon voltou-se para ela.
Olivetti foi enfático.
- De jeito nenhum.
- Ele matou meu pai.
- Exato, e pode saber quem a senhorita é.
- O senhor ouviu o que ele disse ao telefone. Não tinha a menor idéia de que Leonardo Vetra sequer tivesse uma filha. Com certeza, não sabe quem sou. Eu poderia entrar como uma turista qualquer. Se visse alguma coisa suspeita, iria para a praça e faria sinal para seus homens entrarem.
- Desculpe, mas não posso autorizar isso.
- Comandante? - Ouviu-se o chamado no aparelho de Olivetti. - Temos um problema no ponto norte. A fonte está bloqueando a nossa linha de visão. Só poderemos enxergar a entrada se nos deslocarmos para o meio da piazza. Qual é a sua ordem? Permanecermos sem visão ou ficarmos vulneráveis?
Vittoria aparentemente não agüentava mais.
- Chega. Estou indo.
Ela abriu a porta do carro e saiu.
Olivetti largou o walkie-talkie e saltou do carro, contornando-o na frente de Vittoria.
Langdon saiu também. Que diabos ela está fazendo?
Olivetti postou-se no caminho dela.
- Senhorita Vetra, seus instintos são bons, mas não posso deixar um civil interferir.
- Interferir? Vocês estão fazendo um vôo cego. Quero ajudar.
- Eu gostaria muito de ter um contato lá dentro, mas...
- Mas o quê? - ela o interpelou. - Mas eu sou uma mulher?
Olivetti ficou calado.
- É bom que não tenha sido isso o que o senhor ia dizer, comandante, porque sabe muito bem que a idéia é boa, e se deixar que uma bobagem machista dessas, um preconceito arcaico...
- Deixe eu fazer o meu trabalho.
- Deixe eu ajudar.
- É perigoso demais. Não teríamos nenhuma linha de comunicação com a senhorita. Não posso deixá-la
levar um walkie-talkie, iria denunciá-la.
Vittoria enfiou a mão no bolso de sua blusa e tirou seu telefone celular.
- Uma porção de turistas carrega telefones celulares.
Vittoria abriu o telefone e imitou uma chamada:
- "Oi, querido, estou dentro do Panteão. Você precisava ver este lugar, que maravilha!" -Ela fechou o telefone e fulminou Olivetti com o olhar. - Quem vai descobrir? Não há risco nenhum! Deixe que eu espione para vocês! - Fez um gesto para o celular de Olivetti preso no cinto dele. -Qual é o seu número?
Ele não respondeu.
O motorista vinha acompanhando a conversa e aparentemente tinha algumas opiniões a dar. Saiu do carro e puxou Olivetti para um lado. Cochicharam durante alguns segundos, ao fim dos quais Olivetti voltou e disse a Vittoria:
- Programe este número. - E ditou-lhe o número do seu telefone.
Vittoria programou o seu celular.
- Agora, ligue para o número que lhe dei.
Vittoria pressionou a discagem automática. O telefone no cinto de Olivetti começou a tocar. Ele o atendeu e falou:
- Entre no prédio, senhorita, olhe em torno, saia do prédio, depois ligue para mim e diga o que viu.
Vittoria fechou o telefone.
- Obrigada, senhor.
Langdon foi tomado por uma onda repentina e inesperada de instinto protetor.
- Espere aí - disse ele para Olivetti. - Vai mandá-la entrar lá sozinha?
- Robert, não faz mal - disse Vittoria, com ar mal-humorado.
O motorista da Guarda Suíça cochichou mais alguma coisa no ouvido de Olivetti.
- É perigoso - Langdon disse a Vittoria.
- Ele tem razão - confirmou Olivetti. - Nem os meus melhores homens trabalham sozinhos. Meu tenente acabou de lembrar que a encenação será mais convincente com vocês dois.
Com nós dois? Langdon hesitou. Na verdade, o que eu queria dizer era...
- Com vocês dois entrando juntos - disse Olivetti. - Vão parecer um casal em férias. Também podem dar apoio um ao outro. Fico mais tranqüilo assim.
Vittoria deu de ombros.
- Por mim, está bem, mas temos de andar ligeiro.
Langdon deixou escapar uma praga em voz baixa.
Olivetti apontou para a rua.
- A primeira rua por onde têm de ir é a Via degli Orfani. Dobrem à esquerda e, com dois minutos de caminhada, no máximo, sairão direto no Panteão. Vou ficar aqui comandando meus homens e esperando sua chamada. Gostaria que tivessem proteção. - Pegou seu revólver. - Algum de vocês sabe atirar?
O coração de Langdon acelerou-se. Não precisamos de arma nenhuma!
Vittoria estendeu a mão.
- Consigo acertar um golfinho saindo da água a 40 metros de distância da proa de um barco em movimento.
- Ótimo - Olivetti entregou-lhe a arma. - Vai ter de escondê-la.
Vittoria olhou para seu short. Depois, olhou para Langdon.
Ah, não faça isso! Pensou ele, mas Vittoria foi mais rápida. Abriu o paletó dele e colocou o revólver em um dos bolsos internos. Ele teve a impressão de que uma pedra caíra dentro de sua roupa. O único consolo era o fato de o Diagramma estar no outro bolso.
- Nossa aparência é bem inofensiva - disse Vittoria. - Vamos embora.
Ela deu o braço a Langdon e encaminhou-se para a rua.
O motorista falou:
- Boa idéia, ir de braços dados. Lembrem-se de que são turistas. Talvez, até recém-casados. Dar as mãos não seria melhor ainda?
Quando dobraram a esquina, Langdon poderia jurar que vislumbrou um leve sorriso no rosto de Vittoria.
CAPÍTULO 59
A "sala de concentração" de tropas da Guarda Suíça fica ao lado do quartel do Corpo
de Vigilanza e é usada sobretudo para planejar a segurança nas ocasiões em que o Papa aparece em público e nos eventos públicos do Vaticano. Naquele dia, entretanto, estava sendo usada para outra coisa.
O homem que falava à força-tarefa reunida era o segundo em comando da Guarda Suíça, o capitão Elias Rocher. Rocher tinha o tórax arredondado como um barril e o rosto de traços macios, como se feitos de massa. Vestia o tradicional uniforme azul de capitão com seu toque pessoal: uma boina vermelha colocada de lado na cabeça. Sua voz era surpreendentemente cristalina para um homem tão grande e, quando ele falava, seu timbre possuía a clareza de um instrumento musical. A despeito de sua inflexão precisa, os olhos de Rocher eram enevoados como os de um mamífero noturno. Seus homens chamavam-no de orso, urso cinzento. Às vezes, gracejavam dizendo que Rocher era "o urso que andava à sombra da víbora" O comandante Olivetti era a víbora. Rocher era tão perigoso quanto a víbora, mas ao menos se via quando ele chegava.
Os homens de Rocher mantinham-se vivamente atentos, ninguém mexia um músculo, embora a informação que haviam acabado de receber tivesse feito a pressão deles todos subir.
O tenente Chartrand, um novato, postado no fundo da sala, desejava que tivesse ficado entre os 99 por cento de candidatos que não tinham sido escolhidos para estar ali. Com 20 anos, Chartrand era o guarda mais novo da tropa. Havia apenas três meses que estava no Vaticano. Como todos, fora treinado pelo exército suíço e ainda agüentara dois anos de mais ausbilding em Berna antes de se habilitar para a extenuante prova do Vaticano, realizada em um quartel secreto fora de Roma. Nada em seu treinamento, todavia, o preparara para uma crise como aquela.
De início, Chartrand pensou que as instruções fossem algum tipo de estranho exercício de treinamento.
Armas futuristas? Cultos antigos? Cardeais seqüestrados? Então, Rocher mostrara-lhes o vídeo da arma em questão. Pelo jeito, não se tratava de exercício coisa nenhuma.
- Vamos desligar a energia em determinadas áreas - Rocher estava dizendo - para eliminar a interferência magnética externa. Vamos nos deslocar em grupos de quatro. E usar óculos infravermelhos. O reconhecimento vai ser efetuado com o equipamento habitual de varredura, regulado para campos de fluxo abaixo de três ohms.
Alguma pergunta?
Nenhuma.
A cabeça de Chartrand estava sobrecarregada.
- E se não encontrarmos o material a tempo? - perguntou, na mesma hora arrependendo-se de ter perguntado.
O urso cinzento lançou-lhe um olhar sob sua boina vermelha. E dispensou o grupo com uma saudação soturna:
- Vão com Deus.
CAPÍTULO 60
A dois quarterões do Panteão, Langdon e Vittoria passaram a pé por uma fila de táxis estacionados, os motoristas dormindo nos bancos da frente. A hora da soneca era eterna na Cidade Eterna, o cochilo coletivo no mesmo horário sendo lá uma extensão aperfeiçoada do hábito das sestas vespertinas nascido na antiga Espanha.
Langdon esforçou-se para concentrar seus pensamentos, mas a situação era por demais fora do comum para ser assimilada racionalmente. Seis horas antes, ele estava dormindo profundamente em Cambridge.
Agora, encontrava-se na Europa, no meio de uma batalha surreal de antigos titãs, carregando um revólver no bolso de seu paletó de tweed e de mãos dadas com uma mulher que tinha acabado de encontrar.
Olhou para Vittoria. Estava inteiramente voltada para o que os esperava. Havia força no seu aperto de mão, a força de uma mulher determinada e independente. Os seus dedos envolviam os dele com o conforto de uma aceitação inata. Sem hesitar. Langdon sentiu uma atração crescente por ela. Seja realista, disse para si mesmo.
Vittoria notou o constrangimento dele.
- Relaxe - disse ela, sem virar a cabeça -, temos de parecer recém-casados.
- Estou relaxado.
- Você está esmagando a minha mão.
Langdon enrubesceu e aproximou os dedos.
- Respire através dos seus olhos.
-Como é?
- Serve para relaxar os músculos. Chama-se pranayama.
-Piranha?
- Não, não é nome de peixe. Pranayama. Ora, deixe para lá.
Dobraram a esquina para a Piazza della Rotonda e o Panteão ergueu-se diante deles. Langdon admirou-o, como sempre, com reverência, O Panteão. Templo de todos os deuses. Deuses pagãos. Deuses da natureza e da Terra. A estrutura, vista de fora, parecia mais compacta e fechada do que ele se lembrava. As colunas verticais e os pronaus triangulares obscureciam o domo circular que ficava atrás.
Ainda assim, a ousada e vaidosa inscrição acima da entrada garantia-lhe que estavam no lugar certo. M AGRIPPA L F COS TERTIUM FECIT. Langdon mais uma vez se divertiu com a tradução: Marcus
Agrippa, cônsul pela terceira vez, construiu isto.
Tão modesto, pensou, correndo os olhos pelo espaço ao redor. Alguns turistas perambulavam com câmeras de vídeo na mão. Outros estavam sentados no café ao ar livre La Tazza di Oro, saboreando o melhor café gelado de Roma. Junto da entrada do Panteão, quatro policiais romanos armados vigiavam, atentos, como Olivetti predissera.
- Tudo bastante tranqüilo - comentou Vittoria.
Langdon concordou, mas sentia-se preocupado. Agora que estava ali, o cenário todo não lhe parecia muito real. Apesar da confiança de Vittoria, que acreditava que ele estivesse certo, Langdon deu-se conta de que pusera todos na linha de fogo. O poema Illuminati subsistia. Da tumba terrena de Santi com a cova do demônio. SIM, afirmou internamente. Era ali. A tumba de Santi. Já estivera muitas vezes sob o óculo do Panteão, junto ao túmulo do grande Rafael.
- Que horas são?
Langdon verificou o relógio de pulso.
- Sete e cinqüenta. Dez minutos para o espetáculo começar.
- Espero que esses guardas sejam bons - disse Vittoria, observando os turistas esparsos entrando no Panteão. - Se alguma coisa acontecer ai dentro, vamos ficar todos sob fogo cruzado.
Langdon soprou fortemente o ar dos pulmões enquanto se encaminhavam para a entrada. A arma pesava em seu bolso. Imaginou o que aconteceria se os policiais o revistassem e encontrassem a arma, mas eles nem o olharam duas vezes. O disfarce deveria estar mesmo convincente.
Langdon sussurrou para Vittoria.
- Já atirou com outra coisa além de uma espingarda de tranqüilizante?
- Não confia em mim?
- Como posso? Nem conheço você direito!
Vittoria fez uma cara desapontada.
- E eu que pensei que fôssemos recém-casados.
CAPÍTULO 61
O ar dentro do Panteão estava frio e úmido, pesado de história, O teto amplo flutuava no espaço acima como se não tivesse peso algum - um vão livre de 43 metros, maior ainda do que o da cúpula de São Pedro.
Langdon mais uma vez sentiu um arrepio quando entrou no imenso ambiente. Era uma extraordinária mistura de engenharia e arte. No alto, a famosa abertura circular no teto brilhava com a luminosidade do sol do entardecer. O óculo, pensou Langdon, a cova do demônio.
Tinham chegado.
Langdon acompanhou com os olhos o arco do teto descendo para as paredes com as colunas, o piso de mármore polido sob seus pés. Um leve eco dos passos e murmúrios dos turistas reverberava pelo domo.
Langdon observou os pouco mais de dez turistas que andavam a esmo nas sombras. Você está aí?
- Bem calmo o lugar - disse Vittoria, ainda segurando a mão dele.
Langdon fez que sim.
- Qual é a tumba de Rafael?
Langdon parou um instante, tentando se orientar. Examinou a circunferência do recinto. Tumbas. Altares.
Colunas. Nichos. Indicou um monumento funerário particularmente ornamentado à esquerda, do outro lado do domo.
- Acho que é aquela.
Vittoria esquadrinhou o resto do ambiente.
- Não vejo ninguém que pareça um assassino prestes a matar um cardeal. Vamos dar uma olhada por aí?
Langdon concordou e os dois saíram andando.
- Há somente um lugar aqui onde alguém poderia se esconder. É melhor verificarmos as rientranze.
- Os recessos?
- Isso - ele apontou. - Os nichos na parede.
Ao longo do perímetro, intercalados com as tumbas, havia vários nichos semicirculares formando cavidades na parede. Embora não fossem enormes, eram grandes o bastante para esconder alguém. Lamentavelmente, Langdon sabia que antes continham estátuas dos deuses olímpicos, mas essas esculturas pagãs haviam sido destruídas quando o Vaticano transformou o Panteão em igreja cristã. Veio-lhe um acesso de frustração por saber que estava no primeiro altar da ciência e o marco se perdera. Indagava-se qual seria a estátua e para onde teria apontado. Não concebia emoção maior do que a de encontrar o marco llluminati - a estátua que indicava sorrateiramente o percurso do Caminho da Iluminação. E de novo imaginava quem seria o anônimo escultor liluminati.
- Vou pela esquerda - disse Vittoria, mostrando a metade esquerda da circunferência. -Você, pela direita.
Nos encontramos daqui a 180 graus.
Ele sorriu amarelo.
Quando ela se afastou, Langdon sentiu o horror da situação infiltrar-se de novo em sua consciência.
Enquanto se dirigia para a direita, a voz do assassino parecia sussurrar no espaço vazio que o rodeava.
Oito horas. Sacrificios de virgens nos altares da ciência. Uma progressão matemática e mortal. Oito, nove, dez, onze... e à meia-noite. Olhou o relógio de pulso: 7h52. Oito minutos.
Caminhando para o primeiro nicho, passou pela tumba de um dos reis católicos da Itália. O sarcófago, como muitos outros em Roma, fora colocado obliquamente à parede, uma posição meio desajeitada. Um grupo de visitantes dava a impressão de estar perplexo com aquilo. Langdon não se deteve para explicar.
As tumbas cristãs muitas vezes não eram alinhadas com a arquitetura para que ficassem voltadas para o leste. Tratava-se de uma antiga superstição que uma das turmas de Simbologia de Langdon chegara a discutir no mês anterior.
- Isso é totalmente absurdo! - uma aluna na fila da frente exclamara quando Langdon explicou a razão por que as tumbas eram viradas para leste. - Por que os cristãos iriam querer suas tumbas voltadas para o sol nascente? Estamos falando de cristianismo, não de adoração ao Sol!
Langdon sorriu, andando diante do quadro-negro e comendo uma maçã.
- Senhor Hitzrot! - gritou ele.
Um rapaz que cochilava no fundo da sala sentou-se, sobressaltado.
- Eu?
Langdon apontou para um pôster sobre arte renascentista pendurado na parede.
- Quem é aquele homem ajoelhado diante de Deus?
-É... um santo?
- Muito bem. E como sabe que é um santo?
- Por causa do halo?
- Excelente, e esse halo dourado lembra alguma coisa?
Hitzrot abriu um sorriso.
- Claro! Aquelas coisas egípcias que estudamos no semestre passado. Aqueles... humm... discos solares!
- Obrigado, Hitzrot. Pode continuar a dormir. - Langdon dirigiu-se de novo à turma. - Os halos, como grande parte da simbologia cristã, foram tirados da antiga religião egípcia baseada na adoração ao Sol. O cristianismo está cheio de manifestações de adoração ao Sol.
- Desculpe - disse a moça da fila da frente -, mas vou sempre à igreja e não costumo ver tanta adoração ao Sol assim!
- É mesmo? O que você comemora no dia 25 de dezembro?
- O Natal. O nascimento de Jesus Cristo.
- No entanto, de acordo com a Bíblia, Cristo nasceu em março. Por que, então, se comemora a data no final de dezembro?
Silêncio.
Langdon prosseguiu.
- O dia 25 de dezembro, meus amigos, é o dia da antiga festa pagã do sol invictus, o Sol Invicto, que coincidia com o solstício de inverno. É aquela maravilhosa fase do ano em que o Sol retorna e os dias começam a ficar mais longos outra vez.
Ele comeu mais um pedaço de maçã e continuou.
- As religiões vitoriosas costumam adotar as festas já existentes para tornar a conversão menos chocante.
Chama-se a isto de transmutação. Ajuda as pessoas a se acostumarem com a nova fé. Os devotos mantêm as mesmas datas santas, rezam nos mesmos locais sagrados, usam uma simbologia semelhante e apenas substituem o deus anterior por outro diferente.
A essa altura, a moça da frente estava furiosa.
- O senhor está insinuando que o cristianismo não passa de uma espécie de adoração ao Sol em outra embalagem!
- De jeito nenhum. O cristianismo não tomou elementos emprestados somente da adoração ao Sol. O ritual da canonização cristã foi tirado do antigo rito de deificação de Euhemerus. A prática de "comer Deus' ou seja, a Santa Comunhão, foi copiada dos astecas. Até o conceito de Cristo morrer por nossos pecados pode-se dizer que não é exclusivamente cristão: o auto-sacrifício de um rapaz para absolver os pecados de seu povo aparece nos registros das mais remotas tradições associadas a Quetzalcoatl.
A moça disse, com ar feroz.
- Quer dizer que nada no cristianismo é original?
- Muito pouco em qualquer religião organizada é inteiramente original. As religiões não começam do zero. Crescem uma a partir da outra. As religiões modernas são colagens, um registro histórico assimilado do esforço humano para compreender o divino.
- Espere aí - disse Hitzrot, agora acordado. - Existe uma coisa cristã que é original. A nossa imagem de Deus. A arte cristã nunca retrata Deus igual a um falcão, a um animal asteca ou algo esquisito assim.
Sempre mostra Deus como um velho de barba branca. Então, a nossa imagem de Deus é original, não é?
Langdon sorriu de novo e respondeu.
- Quando os primeiros cristãos convertidos abandonaram suas divindades anteriores, como os deuses pagãos, os deuses romanos, os deuses gregos, o Sol, Mitra ou o que seja, eles perguntaram à Igreja com quem se parecia o seu deus cristão. Sabiamente, a Igreja escolheu o mais temido, o mais poderoso e aquele cuja aparência era a mais conhecida de que se tinha notícia.
Hitzrot arriscou, cético:
- Um velho com uma barba branca comprida?
Langdon apontou para uma representação da hierarquia de deuses da antiguidade pendurada na parede.
No alto estava sentado um velho com longas barbas brancas.
- Zeus não lhe parece familiar?
A campainha para encerrar a aula tocou naquele exato momento.
- Boa noite - disse uma voz masculina.
Langdon tomou um susto. Estava de volta ao Panteão. Deu de cara com um homem idoso usando uma pelerine azul com uma cruz vermelha no peito. O homem sorriu para ele revelando dentes acinzentados.
- O senhor é inglês, não é? - o homem falava com um sotaque toscano carregado.
Langdon pestanejou, confuso.
- Não, na verdade, sou americano.
O homem ficou embaraçado.
- Oh, desculpe, mas o senhor está tão bem vestido que pensei... Por favor, peço mil desculpas.
- Posso ajudá-lo em alguma coisa? - perguntou Langdon, o coração batendo loucamente.
- Na realidade, achei que talvez eu pudesse ajudá-lo. Sou cicerone voluntário
aqui - e o homem apontou orgulhoso para seu crachá emitido pela prefeitura da cidade. -Meu trabalho é tornar sua visita a Roma mais interessante.
Mais interessante? Ele tinha certeza absoluta de que aquela visita a Roma era interessante até demais.
- O senhor parece um homem distinto - o guia bajulou-o -, sem dúvida mais interessado em cultura do que a maioria das pessoas. Talvez eu possa lhe contar um pouco da história desta construção fascinante.
Langdon sorriu educadamente.
- Muito obrigado, mas eu sou professor de História da Arte e...
- Ótimo! - o rosto do homem se iluminou como se tivesse acertado na loteria. - Então, com certeza, o senhor vai apreciar muito mais!
- Obrigado, mas acho que prefiro...
- O Panteão - começou o homem, embarcando em sua arenga decorada - foi construído por Marcus Agrippa em 27 a.C.
- Sim - interrompeu Langdon -, e reconstruído por Adriano em 119 d.C.
- Era o maior domo do mundo até 1960, quando foi superado pelo Superdomo de Nova Orleans!
Langdon resmungou em voz baixa. O homem era irreprimível.
- E um teólogo do século V chamou o Panteão de Casa do Demônio e declarou que a abertura no teto era uma entrada para os demônios!
Langdon desligou-se do que o outro dizia. Ergueu os olhos para o óculo e a lembrança da cena sugerida por Vittoria projetou uma imagem aterrorizante em sua mente: um cardeal marcado a fogo despencando através da abertura e estatelando-se no chão de mármore. Seria de fato um prato cheio para a mídia.
Langdon deu por si procurando repórteres dentro do Panteão. Nenhum. Respirou fundo. A idéia era absurda. A logística para produzir uma atração como aquela seria despropositada.
À medida que se deslocava para continuar sua inspeção, o guia tagarela seguia-o como um cãozinho carente de afeto. Não posso esquecer, disse para si mesmo, não há nada pior do que um historiador entusiasmado demais.
Do outro lado, Vittoria estava imersa em sua busca. Sozinha pela primeira vez desde que recebera a notícia sobre seu pai, sentiu a crua realidade das últimas oito horas fechando-se em torno dela. Seu pai fora assassinado - cruel e abruptamente. Quase tão dolorosa era a consciência de que o trabalho de seu pai fora corrompido e agora se tornara um instrumento de terroristas.
Atormentava-a a culpa de ter sido a sua invenção o que permitira que a anti- matéria pudesse ser transportada. Era o contador eletrônico de seu tubo especial que agora estava marcando o tempo restante dentro do Vaticano. Na tentativa de contribuir para a busca de seu pai pela simplicidade da verdade, ela se transformara em uma conspiradora do caos.
Estranhamente, a única coisa que parecia estar certa em sua vida naquele momento era a presença de um desconhecido. Robert Langdon. Encontrava um refúgio inexplicável em seu olhar, como a harmonia dos oceanos que ela deixara para trás naquela manhã bem cedo. Sentia-se contente por ele estar ali. Não só fora para ela uma fonte de força e de esperança como utilizara a rapidez de sua inteligência para encontrar aquela chance única de pegar o assassino de seu pai.
Vittoria respirou fundo e continuou a procurar, andando em torno do perímetro do Panteão. Estava assoberbada pelos inesperados desejos de vingança pessoal que haviam dominado seus pensamentos durante todo o dia. Mesmo sendo uma amante declarada de toda forma de vida, queria ver aquele carrasco morto. Não haveria bom carma que a fizesse dar a outra face naquele dia. Ao mesmo tempo alarmada e eletrizada, notava algo correndo em seu sangue italiano que nunca sentira antes: os sussurros dos ancestrais sicilianos que defendiam a honra da família com justiça brutal. Vendetta, pensou ela, pela primeira vez compreendendo o verdadeiro sentido da palavra.
Visões de represálias possíveis incitavam-na a prosseguir. Aproximou-se da tumba de Rafael Santi. Mesmo à distância, via-se logo que se tratava de uma figura especial. Seu sepulcro, ao contrário dos outros, possuía uma proteção de plexiglas e ficava em um nicho da parede. Através da barreira, ela conseguia ver a frente do sarcófago.
RAPHAEL SANTI, 1483 - 1520
Vittoria examinou o conjunto e depois leu a frase na placa descritiva ao lado da tumba de Rafael.
Então, leu de novo.
E mais uma vez.
Um segundo depois, saiu correndo pelo Panteão, chamando, horrorizada:
- Robert! Robert!
CAPÍTULO 62
Langdon avançava pelo seu lado do Panteão com uma certa dificuldade por causa do guia, que não lhe saía dos calcanhares e agora prosseguia em sua incansável narrativa enquanto Langdon se preparava para verificar o último nicho.
- O senhor está gostando um bocado desses nichos! - disse o guia, encantado. - Sabia que a espessura gradativamente menor das paredes é que faz o domo parecer não ter peso?
Langdon fez um gesto com a cabeça, sem prestar atenção e se preparando para examinar outro nicho. De repente, alguém o agarrou por trás. Era Vittoria. Ela estava sem fôlego e puxava-o pelo braço. Pela expressão apavorada do rosto dela, Langdon só podia deduzir uma coisa. Ela havia encontrado um corpo. Uma nova onda de temor cresceu dentro dele.
- Ah, sua mulher! - exclamou o guia, visivelmente entusiasmado por ter mais um visitante. Apontou para o short e para as botas de caminhada que ela usava. - Mas ela com certeza é americana!
Vittoria apertou os olhos.
- Sou italiana.
O sorriso do guia murchou.
- Oh, meu Deus.
- Robert - cochichou Vittoria, tentando dar as costas para o guia. - O Diagramma de Galileu. Preciso vê-lo.
- Diagramma? - disse o guia, girando de volta nos calcanhares. - Ora, ora! Vocês dois conhecem história mesmo! Infelizmente, esse documento não pode ser visto. Está guardado nos Arquivos do Vati...
- Pode nos dar licença um instante? - disse Langdon. Não compreendia o pânico de Vittoria. Levou-a para um lado e pôs a mão no bolso, tirando de lá com todo o cuidado o fólio do Diagramma. - O que houve?
- Qual é a data que está escrita aí? - Vittoria perguntou, correndo os olhos pela folha.
O guia estava junto deles outra vez, olhando para o fólio de boca aberta.
- Esse não é... de verdade...
- É uma reprodução para turistas - mentiu Langdon. - Obrigado por sua ajuda. Por favor, minha mulher e eu gostaríamos de ficar a sós um instante.
O guia recuou, sem tirar os olhos do papel.
- A data - Vittoria repetiu. - Quando foi que Galileu publicou...
Langdon mostrou um número em algarismos romanos.
- Esta é a data de publicação. O que está acontecendo?
Vittoria decifrou o número.
- 1639?
- É. Alguma coisa errada?
A expressão de Vittoria tornou-se mais carregada com um mau pressentimento.
- Temos um problema sério, Robert. Muito sério. As datas não combinam.
- Que datas não combinam?
- A tumba de Rafael. Ele só foi enterrado aqui em 1759. Um século depois do Diagramma ser publicado.
Langdon encarou-a, tentando dar sentido ao que ela dizia.
- Não - replicou -, Rafael morreu em 1520, muito antes do Diagramma.
- Sim, mas ele só foi enterrado aqui muito depois.
Langdon estava perdido.
- O que está dizendo?
- Acabei de ler naquela placa. O corpo de Rafael foi trasladado para o Panteão em 1758. Como parte de um tributo histórico a italianos eminentes.
Ao assimilar as palavras dela, Langdon teve a impressão de que lhe puxavam um tapete de baixo dos pés.
- Quando aquele poema foi escrito - afirmou Vittoria -, a tumba de Rafael era em outro lugar qualquer.
Naquela época, o Panteão não tinha nada a ver com Rafael!
Langdon chegou a ficar sem ar.
- Então, isso quer dizer que...
- Pois é! Que estamos no lugar errado!
Ele cambaleou. Não é possível. Eu tinha tanta certeza...
Vittoria correu e agarrou o braço do guia, puxando-o de volta.
- Signore, desculpe, mas onde estava o corpo de Rafael no século XVII?
- Urb... em Urbino - gaguejou ele, agora parecendo desnorteado. - Onde ele nasceu.
- Impossível! - Langdon praguejou baixinho. - Os altares da ciência dos Illuminati eram aqui em Roma.
Tenho certeza!
- Illuminati? - o guia engoliu em seco, olhando de novo para o documento na mão de Langdon. - Quem são vocês, Deus do céu?
Vittoria tomou a frente.
- Estamos procurando por algo que é chamado de a tumba terrena de Santi. Em Roma. Sabe o que pode ser?
O homem mostrava-se inquieto.
- Esta foi a única tumba de Rafael em Roma.
Langdon esforçava-se para pensar, mas sua cabeça se recusava a funcionar direito. Se a tumba de Rafael não estava em Roma em 1639, a que o poema se referia, então? Da tumba terrena de Santi com a cova do demônio? Que diabos é isso? Pense!
- Houve outro artista chamado Santi? - perguntou Vittoria.
O guia deu de ombros.
- Não que eu saiba.
- E alguém famoso, qualquer pessoa? Um cientista, um poeta ou um astrônomo chamado Santi?
O homem agora dava a impressão de querer ir embora.
- Não, senhora. O único Santi de que já ouvi falar era Rafael, o arquiteto.
- Arquiteto? - repetiu ela. - Pensei que ele fosse pintor!
- Era as duas coisas, é claro. Todos eles eram. Michelangelo, Da Vinci, Rafael.
Langdon não soube se foram as palavras do guia ou as tumbas ornamentadas em torno dele que abriram sua mente para a revelação, mas não tinha importância, o pensamento lhe viera. Santi era arquiteto. Daí em diante, a progressão de idéias evoluiu como se fosse uma fileira de dominós caindo. Os arquitetos da Renascença viviam por apenas duas razões: para glorificar a Deus com enormes igrejas e para glorificar dignitários com pródigas tumbas. A tumba de Santi. Seria possível? As imagens agora lhe vinham mais depressa...
A Mona Lisa de Da Vinci.
Os Nenúfares de Monet.
O Davi de Michelangelo.
A tumba terrena de Santi...
- Santi projetou a tumba - declarou Langdon.
Vittoria virou-se.
- O quê?
- Não é uma referência ao lugar onde Rafael está enterrado, é uma referência a uma tumba que ele projetou.
- O que é que você está dizendo?
- Eu não compreendi direito a frase. Não é o túmulo de Rafael que estamos procurando, e sim um túmulo que Rafael projetou para outra pessoa. Não posso acreditar que deixei passar isto. A metade dos trabalhos de escultura feitos na Roma renascentista e barroca destinava-se aos monumentos funerários. - E ele riu, satisfeito com a descoberta. - Rafael deve ter projetado centenas de tumbas!
Vittoria não parecia tão contente.
- Centenas?
O sorriso de Langdon sumiu.
-Ah...
- Alguma delas seria terrena, professor?
De repente, ele se sentiu um incompetente. Sabia muito pouco sobre a obra de Rafael, era uma vergonha.
Se fosse Michelangelo, teria sido mais fácil, mas o trabalho de Rafael nunca o atraíra tanto. Só se lembrava de umas duas tumbas mais famosas de Rafael, mas talvez nem soubesse descrevê-las.
Percebendo o bloqueio de Langdon, Vittoria dirigiu-se ao guia, que ia saindo de fininho. Segurou o braço dele e puxou-o, fazendo com que ficasse de frente para ela.
- Preciso de uma tumba. Projetada por Rafael. Uma tumba que possa ser considerada terrena.
O homem fez uma cara desconsolada.
- Uma tumba de Rafael? Não sei. Ele projetou tantas! Talvez queira dizer uma capela de Rafael, não uma tumba. Os arquitetos sempre desenhavam as capelas junto com as tumbas.
Ele tinha razão. Langdon perguntou:
- Existe alguma tumba ou capela de Rafael considerada terrena?
- Sinto muito - o outro respondeu -, não sei o que quer. A palavra terrena não se aplica a nada que eu conheça. Tenho de ir embora.
Vittoria estendeu o braço e leu a linha de cima do fólio:
- Da tumba terrena de Santi com a cova do demônio. Significa algo para o senhor?
- Não, nada.
Langdon levantou a cabeça. Esquecera momentaneamente a segunda parte do verso. A cova do demônio?
- Já sei! - ele disse para o guia. - É isso! Sabe se alguma das capelas de Rafael tem um óculo?
O guia sacudiu a cabeça.
- Pelo que sei, o Panteão é o único... - ele fez uma pausa - mas...
- Mas o quê? - exclamaram os dois em uníssono.
O homem então inclinou a cabeça para o lado e andou na direção deles Outra vez.
- Cova do demônio.., seria o mesmo que... buco diàvolo?
- Literalmente, sim - confirmou Vittoria.
O homem deu um ligeiro sorriso.
- Aí está uma expressão que não escuto faz tempo. Se não me engano, buco diàvolo é uma abóbada subterrânea.
- Uma abóbada subterrânea? - perguntou Langdon. - Uma cripta?
- É, mas um tipo específico de cripta. Acho que cova do demônio é uma expressão antiga para uma enorme cavidade funerária localizada em uma capela e sob uma outra tumba.
- Um ossário anexo? - indagou Langdon, identificando imediatamente o que o homem descrevia.
O guia, impressionado, confirmou.
- É! Era exatamente essa a palavra que eu estava procurando!
Langdon considerou a possibilidade. Os ossários anexos eram uma solução barata oferecida pelas igrejas para um incômodo dilema.
Quando as igrejas homenageavam seus membros mais distintos com tumbas ornamentadas dentro do santuário, os familiares sobreviventes dessas pessoas freqüentemente pediam que o resto da família fosse enterrado junto, garantindo assim um cobiçado espaço para suas sepulturas dentro da igreja. No entanto, se a igreja não tivesse espaço ou recursos para criar tumbas para uma família inteira, havia a alternativa de cavar um ossário anexo - um buraco no chão perto da tumba principal, onde se enterravam os membros menos ilustres da família. Esse buraco então era fechado com o equivalente renascentista de uma tampa de bueiro. Apesar de conveniente, o ossário anexo logo saiu de moda por causa do mau cheiro que muitas vezes exalava e se espalhava pela catedral. Cova do demônio, pensou. Nunca ouvira a expressão antes. Era sinistramente apropriada à situação.
O coração dele batia acelerado. Da tumba terrena de Santi com a cova do demônio. Havia apenas mais uma pergunta a fazer.
- Rafael desenhou tumbas com essas covas do demônio?
O guia coçou a cabeça.
- Na verdade, desculpem, mas só me lembro de uma.
Só uma? Não poderia haver resposta melhor.
- Onde? - Vittoria quase gritou.
O guia fitou-os de modo estranho.
- Chama-se Capela Chigi. Túmulo de Agostino Chigi e de seu irmão, ricos patronos das artes e das ciências.
- Ciências? - exclamou Langdon, trocando um olhar com Vittoria.
- Onde? - Vittoria perguntou de novo.
O guia ignorou a pergunta, de novo entusiasmado em poder prestar serviço.
- Se a tumba é terrena ou não, isto não sei dizer, mas sem dúvida é, digamos, diferente.
- Diferente? Como assim?
- Incoerente com a arquitetura. Rafael só foi o arquiteto. Um outro escultor fez a decoração interior, não me lembro quem.
Langdon era todo ouvidos. O mestre Iliuminati anônimo, talvez?
- Quem quer que seja ele, os monumentos do interior da capela são de muito mau gosto -disse o guia. - Dio mio! Que atrocidade! Quem iria querer ser enterrado sob pirâmides?
Langdon mal podia acreditar.
- Pirâmides? A capela contém pirâmides?
- Pois é! - o guia escarneceu. Terrível, não é?
Vittoria puxou a manga do guia.
- Signore, onde fica essa Capela Chigi?
- Mais ou menos a um quilômetro e meio daqui, na direção norte. Na Igreja de Santa Maria dei Popolo.
Ela suspirou.
- Obrigada. Vamos...
- Ei... - disse o guia. - Acabei de lembrar de uma coisa. Que idiota eu sou.
Vittoria parou.
- Não me diga que se enganou.
Ele sacudiu a cabeça.
- Não, mas isso deveria ter me ocorrido antes. A Capela Chigi nem sempre foi conhecida por este nome, Chigi. Antes era chamada de Capeila delia Terra.
- Capela da Terra! - exclamou Langdon.
Vittoria já estava seguindo direto para a porta.
Vittoria Vetra sacou de seu celular enquanto corria pela Piazza delia Rotonda.
- Comandante Olivetti - disse -, estamos no lugar errado!
Incrédulo, Olivetti repetiu.
- Errado? Como, como?
- O primeiro altar da ciência é na Capela Chigi!
- Onde? - agora, a voz dele estava zangada. - Mas o senhor Langdon disse...
- Santa Maria dei Popolo! A um quilômetro e meio daqui rumo ao norte. Leve seus homens para lá agora!
Temos só quatro minutos!
- Mas meus homens estão posicionados aqui! Não tenho como...
- Ande! - Vittoria fechou o telefone com um estalo.
Atrás dela, tonto, saindo do Panteão, vinha Langdon.
Vittoria puxou-o pela mão na direção de uma fila de táxis aparentemente
sem motoristas que esperavam junto ao meio-fio. Ela socou o capô do primeiro carro da fila. O motorista adormecido aprumou-se com um salto dando um grito de susto. Vittoria escancarou a porta de trás, empurrou Langdon para dentro e pulou para o assento ao lado dele.
- Santa Maria dei Popolo - ordenou. - Presto!
Frenético e meio aterrorizado, o motorista pisou fundo no acelerador e saiu numa correria desabalada pela rua.
CAPÍTULO 63
Gunther Glick assumíra o controle do computador, em vez de Chinita Macri, que agora estava curvada no banco de trás do atravancado furgão da BBC espiando a tela por cima do ombro dele.
- Eu disse a você - falou Glick digitando mais algumas palavras. - O British Tattler não é o único jornal que publica histórias sobre esses caras.
Macri chegou mais perto para enxergar melhor. Ele tinha razão. O banco de dados da BBC mostrava que sua distinta rede de emissoras havia descoberto e publicado seis matérias nos últimos dez anos sobre a fraternidade chamada Illuminati. Bem, agora tenho de dar minha cara a tapa, pensou ela.
- Quem foram os jornalistas que redigiram as matérias? - perguntou Macri.
- Os de quinta?
A BBC não contrata jornalistas de quinta categoria.
- Mas contratou você.
Glick ficou carrancudo.
- Não sei por que você é tão cética. Os Illuminati estão bem documentados através da História.
- As bruxas, os OVNIs e o monstro do Lago Ness também.
Glick leu a lista de matérias.
- Já ouviu falar de um sujeito chamado Winston Churchill?
- O nome não me é estranho.
- A BBC fez um documentário há algum tempo sobre a vida de Churchill. Bastante liberal, aliás. Sabia que, em 1920, Churchill publicou uma declaração condenando os Illuminati e prevenindo os ingleses sobre uma conspiração de âmbito mundial contra a moralidade?
Macri replicou, irônica:
- E onde saiu? No British Tattler?
Ele sorriu.
- Não, no London Herald. Em 8 de fevereiro de 1920.
- Não é possível.
- Veja para crer.
E ela leu: London Herald. 8 defev.,1920. Que coisa, jamais pensei...
- Bem, Churchill era meio paranóico.
- E não foi só ele - disse Glick, continuando a ler. - Parece que Woodrow Wilson fez três pronunciamentos pelo rádio em 1921 chamando a atenção para o controle crescente dos Illuminati sobre o sistema bancário norte-americano. Quer ouvir um pedaço da transcrição de um desses pronunciamentos?
- Acho que não.
Mas ele leu a citação assim mesmo.
- Ele disse: "Existe um poder tão organizado, tão sutil, tão completo, tão penetrante que ninguém deve falar em voz alta quando fizer críticas a ele."
- Nunca ouvi nada sobre eles.
- Talvez porque em 1921 você fosse muito pequena.
- Engraçadinho.
Macri não ligou para a indireta. Sabia que aparentava a própria idade. Com 43 anos, seus cerrados caracóis negros estavam estriados de cinza. Era orgulhosa demais para pintá-los. Sua mãe, sulista e batista, ensinara Chinita a ter amor-próprio e a ser uma pessoa contente consigo mesma. Se você é uma mulher negra, dizia sua mãe, não há como esconder. Se tentar, vai se dar mal. Levante a cabeça, sorria bonito e deixe os outros quererem descobrir qual é o segredo que faz você rir.
- Sabe quem é Cecil Rhodes? - perguntou Glick.
Macri olhou para ele.
- O financista inglês?
- Esse mesmo. Fundou a famosa instituição com o seu nome, a que distribui bolsas de estudo.
- Não me diga que...
- Um Illuminatus.
- Mentira.
- Não. BBC, 16 de novembro de 1984.
- Nós escrevemos que Cecil Rhodes era um Iliuminatus?
- Com todas as letras. E, segundo a nossa rede de emissoras, as bolsas de estudo Rhodes eram fundos estabelecidos séculos atrás para recrutar as mentes jovens mais brilhantes do mundo para as fileiras dos Illuminati.
- Isso é ridículo! Meu tio foi um bolsista Rhodes!
Glick piscou um olho.
- Bill Clinton também.
Macri já estava ficando zangada àquela altura. Nunca tivera paciência com o jornalismo sensacionalista, de baixa qualidade. Ainda assim, conhecia bem a BBC e sabia que toda matéria que a rede divulgava era cuidadosamente pesquisada e confirmada.
- E desta aqui você deve lembrar - disse Glick. - BBC, 5 de março de 1998. O presidente da Câmara dos Comuns no Parlamento Britânico, Chris Mullin, determinou que todos os membros que fossem maçons declarassem abertamente sua filiação.
Macri de fato se lembrava. O decreto acabara incluindo também policiais e juízes.
- Qual foi mesmo o motivo alegado?
Glick leu: "...preocupação que facções secretas dentro da maçonaria exercessem controle significativo sobre os sistemas político e financeiro."
- Isso mesmo.
- Causou um tremendo alvoroço. Os maçons do Parlamento ficaram furiosos. Com razão. A grande maioria era composta de homens inocentes que haviam entrado para a maçonaria com o objetivo de estabelecer uma rede de contatos e realizar obras de caridade. Desconheciam completamente as antigas filiações da fraternidade.
- Supostas filiações.
- Seja lá o que for. - Glick correu os olhos pelos artigos. - Veja só. Há relatos que associam os liluminati a Galileu, aos Guerenets, na França, aos Alumbrados, na Espanha. Até a Karl Marx e à Revolução Russa.
- A História sempre encontra um jeito de se corrigir.
- Ótimo, quer algo mais atual? Dê uma olhada nisto. Uma referência aos Illumjnati em um número recente do Wall Street Journal.
O nome chamou a atenção de Macri.
- O Journal?
- Adivinhe qual é o jogo de computador pela Internet mais popular nos Estados Unidos hoje em dia?
- Coloque uma Cauda em Pamela Anderson.
- Quase. Chama-se Iliuminati: Nova Ordem Mundial.
Macri leu por cima do ombro dele a sinopse do jogo. "Steve Jackson Games tem um jogo que é um sucesso estrondoso, uma aventura semi-histórica na qual uma antiga fraternidade satânica da Bavária se mobiliza para tomar conta do mundo. Você pode encontrá-lo on-line em..." Macri interrompeu a leitura com uma sensação de repugnância.
- O que esses Iliuminati têm contra o cristianismo?
- Não é só contra o cristianismo - disse Glick -, é contra a religião em geral.
- Ele inclinou a cabeça para o lado e esticou os lábios em um sorriso largo.
- Embora, pelo que ouvi no telefonema que nós acabamos de receber, pareça que eles têm mesmo um fraco pelo Vaticano.
- Ora, tenha dó, você acha mesmo que o cara que ligou é quem diz que é?
- Um mensageiro dos liluminati? Que está se preparando para matar quatro cardeais? -Glick sorriu. - Tomara que seja.
CAPÍTULO 64
O táxi de Langdon e Vittoria completou a corrida desenfreada de cerca de um quilômetro e meio pela ampla Via delia Scrofa em pouco mais de um minuto. Pararam com uma freada arulhenta no lado sul da Piazza dei Popolo quase às oito horas. Como não tinha liras, Langdon teve de pagar o motorista em dólares, e a mais. Ele e Vittoria saltaram depressa do carro. A piazza estava sossegada, exceto pelas risadas de um grupo de freqüentadores sentados do lado de fora do popular Rosati Caffè, um local favorito dos literatos italianos. A brisa cheirava a café expresso e a massa de torta.
Langdon ainda estava em estado de choque por causa de seu engano no Panteão. Bastou um rápido olhar para aquela praça, porém, e seu sexto sentido começou a dar avisos. A piazza estava sutilmente impregnada de significados próprios dos Illumjnatj. Não só a sua forma era uma elipse perfeita, como no centro exato erguia-se um enorme obelisco egípcio, uma coluna quadrada de pedra com uma ponta distintamente piramidal. Despojos dos saques da Roma imperial, os obeliscos espalhavam-se por toda a cidade e eram chamados pelos simbologistas de "Pirâmides Elevadas' extensões voltadas para o céu da sagrada forma piramidal.