As Drogas, as Pessoas e as Cidades
Segunda parada – Reflexos da travessia Brasil – Colômbia
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
A gente não tem direito, nos Campos Elíseos, de ir e nem vir. Não só a gente moradores como também usuários […] A gente está lutando para ter nosso direito de volta. Não adianta, gente, vocês me desculpem o que eu vou falar. Não adianta vocês virem aqui todo engravatado, porque tem diploma […] vocês estão lá fora e vocês não sabem o que a gente está passando, o que está acontecendo lá. Vocês têm que ir lá e sentir na pele o que a gente tá passando lá pra vocês falarem assim: “não, aquele usuário ali também é um ser humano. O quê? Só porque ele usa a droga ele vai ser criticado? Ele vai ser esculhambado? Não. Por que eu também vim da droga […] vocês comem, vocês dormem, vocês têm uma cama pra dormir, tem uma roupa da hora pra vestir… e eles lá? Chuva! Ficam tudo lá… a Prefeitura chega ali e molha a rua, a praça ali onde eles ficam, e eles têm que dormir naquele molhado em cima da água. Ah, isso é muito revoltante para nós, porque eu também tenho uma filha usuária de crack que se encontra ali na Cracolândia, e ela também sofre! (Diário de campo, out. 2019)
Na primeira semana dos plantões, o fluxo estourou: os advogados foram ao fluxo, acompanharam as barbaridades e negociaram com os policiais, e assim conseguiram momentaneamente atenuar (um pouco) as investidas da repressão.
O vínculo com a Quadra 36
Carmen dividiu comigo sua dor por perder o negócio ao qual havia dedicado tanto tempo de sua vida: o ferro-velho que ela e Marcelo administravam desde 2002. Era abril de 2018, e em frente ao imóvel na Rua Glete 81 ela me contou que o imóvel tinha sido lacrado com todo o material dentro e só poderiam entrar para retirar tudo. Depois de um suspiro triste, Carmen disse que ela e o marido decidiram retirar seus pertences do local antes mesmo da data marcada para a remoção. Eu, de forma automática e ingênua, pensei que se as pessoas não retirassem seus pertences dos imóveis e forçassem o cumprimento do devido processo legal para as operações urbanísticas na Quadra, talvez demorasse mais tempo para ocorrer a lacração e demolição do imóvel. Amarga ilusão. O argumento de Carmen revelou a intensa pressão que atravessa a vida humana no território: “é muita angústia para gente, a gente não aguenta…” (Diário de campo, 20 abr. 2018).
Dias antes da demolição total em abril de 2018, encontrei Seu Eudes – dono do imóvel e do histórico bar citado anteriormente –, comerciante tradicional português submetido à venda compulsória de seu imóvel e fechamento de seu tradicional comércio. O bar era conhecido pelo bairro como um museu local pois exibia nas paredes curiosos artefatos históricos da região. Em melancólico passeio pela grande casa em que viviam 22 pessoas de sua família em frente ao Largo Coração de Jesus, Eudes mostrou alguns objetos de valor sentimental e financeiro do imóvel, como o enorme balcão de mármore e os antigos azulejos portugueses das paredes do bar. Esses objetos foram retirados por ele para possível reaproveitamento ou venda e para não se tornarem entulhos e poeira pelos golpes da demolição. Ele, indignado, acrescentava:
todas as paredes aqui, colunas, viga etc. tudo passou pelas minhas mãos e do meu pai. Construímos isso tudo. Essa casa tem a história da nossa família […] a gente vive 59 anos no mesmo lugar, e vem o governo e tira a gente de uma hora para outra, ainda sem receber nosso dinheiro por direito. Já estou a mais de um mês tendo gasto, sem a entrada do bar e nada… É muito triste. Meu filho já está querendo ir embora para Portugal. (Diário de campo, abr. 2018)
Em evento denominado Audiência Cidadã, organizado pelo Fórum
Aberto Mundaréu da Luz no dia 3 de abril de 2018,27 Seu Eudes foi enfático em expressar suas necessidades: “o que nós queremos não é bolsa aluguel. Nós queremos uma moradia para continuar morando com nossa família… que é o que nós precisamos!”. Ivete, moradora e conselheira da quadra legitimamente demonstrou preocupação com demandas para além da questão explícita da moradia, e na primeira reunião do conselho gestor atestou seu compromisso com a Quadra 36 e o território: “A gente vai ter o direito de continuar no centro? A escola, a vida está toda no centro”. Apesar de múltiplas situações como essas, que comprovam vínculo com o território, para o poder público a única saída para comprovação de vínculo é via burocratização da vida, por meio de um gélido cadastro.
Desde a primeira reunião oficial do conselho gestor da Quadra 36, no dia 17 de maio, permeou no ar uma pressão, a preocupação da Prefeitura quase obsessiva em torno da ideia de “comprovação de vínculo de moradia” para com a Quadra. O cadastro apresentou o registro de 25 imóveis e 193 selos, ou seja, 193 famílias registradas. Entretanto, as já esperadas especificidades do território logo se apresentaram. O aluguel de camas para pernoite, como moradia transitória muito comum no território, não foi contemplado no processo de cadastramento. Assim, para muitos tornou-se inviável a tal “comprovação de vínculo” com o território exigida para validação cadastral. Porém, para além do modo de viver informal por meio do aluguel de camas, outras dificuldades surgiram diante da complexa obsessão de comprovação formal de vínculo com a Quadra 36.
Seu Matias, comerciante, administrava um bar na Rua Barão de Piracicaba. Nos últimos oito anos, ele forçosamente se deslocou entre três diferentes estabelecimentos. Os dois anteriores, localizados na Rua Dino Bueno, foram também lacrados pela Prefeitura em intervenções legalistas na região. Em 2018, Seu Matias estava havia aproximadamente um ano na Quadra 36. Administrava o bar arrendado e morava com mais dois rapazes em um pequeno quarto no piso superior. Um local pequeno e pouco visível, inclusive pelo lado de fora, de onde só era possível avistar uma pequena janela que mais parecia uma saída para ventilação de ar. Durante os três dias de cadastramento entre final de janeiro e fevereiro de 2018, Seu Matias foi registrado como comerciante do território, porém não como morador. Não perguntaram sobre sua moradia, e ele tampouco explicitou que morava no local. Resultado: com a avalanche de desapropriações no mês de abril, Seu Matias perdeu o comércio e, assim como os outros dois rapazes, perdeu também a moradia. Os nomes dos três entraram como “estudo de caso” para análise. Meses depois, somente Seu Matias teve sua moradia reconhecida, e dentre as poucas alternativas, optou pela carta de crédito e foi embora para o extremo sul da cidade. E foi assim que o vínculo com a Quadra de fato se rompeu. É nesses miúdos da vida que o controle do Estado, por meio de cadastros rígidos da máquina pública, pode aniquilar seletivamente alguns cidadãos, seja na culpabilização das pessoas por não acessarem seus direitos, seja pelo excesso de burocratização, pois “quanto mais você está registrado, mais te fazem desaparecer” (Han, 2012, p.122).
Ao passo que a Prefeitura se esforçava para que o cadastro das pessoas que possuíam vínculo com o território comprovado fosse concluído, era o próprio cadastro que, ironicamente, legitimava as famílias que de fato estavam tendo seus vínculos totalmente rompidos com aquele lugar, com a Quadra 36, com o bairro. Distante da ideia de vínculo na área da Saúde, que resguarda proximidade, abertura e confiança (Ayres, 2004), Ivete desabafou que “Quando o estado chegou ele não pediu licença para entrar”. Nessas circunstâncias, o Estado silenciosamente declarou não possuir qualquer vínculo com a Quadra 36, nem a intenção de cultivá-lo.
Enquanto o poder público seguia no esforço para comprovar formalmente o vínculo burocrático das pessoas com a Quadra, ações do Fórum Mundaréu da Luz buscavam promover o cuidado, criar vínculos e garantir direitos. Professores da Faculdade de Psicologia da Universidade Mackenzie, junto a estudantes dos últimos anos que desenvolvem estágios práticos clínicos, passaram a ofertar atendimento psicológico social gratuito às pessoas que sofrem a violência policial e as ordens de reintegração de posse e despejos. A iniciativa busca também criar um registro de memórias sobre a região contadas pelas pessoas. O projeto, vinculado ao
Laboratório de Estudos da Violência e Vulnerabilidade Social28 (LEVV), busca escutar e acolher as experiências de sofrimento e resistência das pessoas que habitam o bairro, e assim passou a chamar-se Fique Vivo, articulado às ações do contraprojeto
territorial Campos Elíseos Vivo proposto pelo Mundaréu.29 Um dos testemunhos anônimos de registro, extraído da página do projeto Fique Vivo, nos dá um interessante contraponto sobre a percepção local da problemática atual, as estratégias de requalificação e o vínculo com o lugar:
Agora tem toda essa questão em relação a reestruturação da Luz e nós, que moramos aqui, temos pouca informação sobre o que vai acontecer. Esse prédio aqui é patrimônio histórico, mas eu não sei o que eles querem fazer, porque aqui não está à venda, não podem mexer em patrimônio histórico. O povo está perguntando se vai receber apartamento, nós não sabemos nada disso. Eles começaram a tirar o pessoal da outra quadra, e já vão começar a derrubar para fazer um hospital ali. Aqui não precisa de hospital, o que precisa é dar uma organizada, deixar o pessoal cuidar e tratar as pessoas que estão aqui. Dentro do fluxo tem muita gente boa, tem muitas mães sofrendo pelos filhos, tem padre, tem advogado, tem tudo. O povo daqui é de fora, é da Bahia, do Ceará, de Pernambuco. Eles bem sabem que não podem roubar no pedaço, mas um dia fui assaltada na esquina da Rua Helvétia com a Avenida Rio Branco. Eles tomaram minha bolsa e correram para cá. A galera viu e começou a gritar: “roubaram a tia da pensão”.
Eles respeitam muito as pessoas que moram aqui. Eu passo no meio do fluxo com minha filha e eles não mexem com a gente. Se alguém estiver fumando enquanto nós estivermos passando, alguém já fala: “respeita a tia aqui que ela está descendo com um anjo”. Só tenho medo quando eles se revoltam com a polícia, mas o problema não são eles, o problema é a limpeza. Os caminhões da Prefeitura começam a limpar e lavam tudo […] eu custo muito a acreditar que isso aqui pode acabar, porque tem muitas pessoas envolvidas nisso tudo: a Cracolândia, o governo e a polícia! Isso é muito imbróglio, entendeu? De vez em quando a polícia chega, manda você sair e você fica lá fora igual gado, depois volta pra dentro de novo. E assim a gente vive: igual uma boiada.
Eu moro na Cracolândia, mas eu não sou burra, eu tô por dentro das coisas. Eu pago aluguel e, se vão demolir tudo, eu não vou poder ficar com nada, nem me estruturar de novo. Para onde a gente vai? Como que a gente vai fazer para gente poder sobreviver? É muito ruim viver assim! Empata a vida e você não sabe o que fazer. Eu também acho uma pena eles demolirem estes casarões, porque aqui tem muitas histórias que aconteceram antes de a região ser assim. Andando por essas quadras, a gente ainda encontra alguns ferrolhos que deviam ser de escravo, da época do engenho. O bairro ainda tem essas características, é só ver os casarões que se encontram por aqui. Então, por que demolir? Por que não reestruturar, arrumar, fazer um museu, né? Tantas coisas poderiam ser feitas para restaurar o lugar.
Onde estão as 231 pessoas que viviam na Quadra 36?
“Arranca todas as esperanças da gente”
Essa frase expressa as perdas que a realização do projeto urbanístico por meio de uma PPP Habitacional emplacou na subjetividade de Ivete. Um acúmulo de dores e perdas em contraponto à ausência de estratégias de reparações. Triste. Desolador acompanhar o apagamento da história de uma região tão importante da cidade de São Paulo. Assistir o desenfreado avanço das forças econômicas que, sem constrangimento, atropelam a existência de seus cidadãos, seja no concreto, pela implosão de seus lares, seja subjetivamente, pela extração das dignidades. Em um cenário tão doloroso, as tentativas da sociedade civil no conselho gestor de lutar pela garantia direitos em alguns momentos parecia ser motivo de mais violência: “vocês que estão atravancando o processo”, “nós queremos resolver logo essa situação” diziam alguns moradores impacientes ou desesperados.
Obviamente os modelos das PPPs não dialogam com a realidade da população que ocupava a área de Zeis 3 conhecida como Quadra 36. Tanto os apartamentos da PPP Habitacional quanto a oferta da carta de crédito pela CDHU se mostram insuficientes para responder aos danos causados às pessoas expulsas da Quadra 36. Concordo com a urbanista Simone Gatti, que, em 2019, em reunião do Mundaréu da Luz, apontou que os modos de vida informais não se adaptam aos sistemas de financiamento tradicionais.
A trajetória da produção social, política e econômica da região conhecida por Cracolândia e os detalhes das decisões urbanísticas e suas consequências para a população local são elementos importantes para a análise do papel do Estado na garantia ou na violação de diversos direitos. A atuação do Estado nesse território nos faz ter a certeza de que as memórias, imaginários e complexidades criadas a partir da Cracolândia não se apagam com tiros, bombas e cassetetes.
2.3. Medellín – Afirmação
narcoestética A herança de Escobar como sustentação de um
imaginário narcoestético
Medellín es un fantasma del que creo que escapé, pero cada tanto, para confundirme, me sonríe desde el espejo.
Andrés Burgos, jornalista, escritor e diretor de cinema 30 paisa
De fato, as primeiras informações que tive sobre a cidade de Medellín foram por meio dos acontecimentos em torno da dinâmica do tráfico de drogas e do poderoso Cartel de Medellín, que foi chefiado pela figura de Pablo Emilio Escobar Gaviria, vulgo Pablo Escobar. Até o início da escrita deste livro, conhecia pouco sobre a cidade por meio de séries de televisão, documentários e matérias de jornais. Uma das constatações iniciais foi que muitos na cidade ainda hoje apresentavam admiração pela figura do poderoso e lendário traficante. Eu estava ciente que as histórias sobre inteligência, poder, violência, enormes quantidades de cocaína, ascensão social, conquista e disputa deixavam o rastro de um legado que soava como algo originário de um mundo fantástico. Não sabia o que esperar, mas minha chegada a Medellín logo apresentou as primeiras pistas.
Após apreciar a serpentante descida pelas montanhas do Valle de Aburrá, desembarquei do ônibus na rodoviária da zona norte da cidade conhecida como Terminal Caribe. Era segunda-feira, 12 de novembro de 2018, aproximadamente 6 horas da manhã, e a primeira imagem que me saltou aos olhos quando pisei em solo paisa foi a curiosa estética do morro de Moravia. Uma bonita horta urbana. Moravia surgiu e se desenvolveu literalmente em cima de uma montanha de lixo, e a horta urbana é produto de um longo processo de disputas políticas e comunitárias na busca por garantias e dignidade. Para além da complexa história e consequências do processo de Moravia, o fato é que fui recebido na cidade por esse apelo estético. Uma horta que brota e encanta forasteiros recém-chegados; a barganha pela imagem que conforta os políticos locais, sejam os do passado ou atuais. Imagens como essa e a amplamente divulgada rede de transportes públicos da cidade foram as primeiras informações que obtive sobre a atual Medellín. A cidade se apresentava como uma cidade moderna, que buscava se afastar da imagem relacionada à força do tráfico de drogas tão presente nas décadas de 1980 e 1990. Pouco se fala disso oficialmente, porém na informalidade do dia a dia, as referências a essa época convivem cotidianamente com os cidadãos paisa, e os traumas dos anos de violência permanecem ainda bastante vívidos.
Aprofundar sobre Moravia é assunto para outra escrita, mas logo se fará explícita essa breve referência no início deste capítulo. O que primeiramente quero registrar é meu primeiro contato com o imaginário que se tece sobre essa cidade. Cheguei na alvorada do sol, e o apartamento que aluguei na cidade estaria disponível somente a partir das 11 horas da manhã, então pensei na possibilidade de visitar o famoso túmulo de Pablo Escobar – afinal, minha referência é que cemitérios são espaços que estão abertos desde muito cedo. Em rápido acesso à rede pública de internet Medellín digital na estação de metrô Caribe, descobri que o cemitério é muito próximo à estação de metrô Sabaneta, no município de Itaguí, que integra a região metropolitana de Medellín no extremo sul do Vale. Com mochila grande nas costas, foi uma opção interessante e oportuna para sentir a atmosfera narcoestética, já que o trajeto não me exigiria grandes caminhadas.
A viagem de metrô foi de aproximadamente trinta minutos. No caminho, um rapaz sentou-se ao meu lado. Além de me narrar sobre o breve período em que morou no Chile e que agora trabalha em uma fábrica de cervejas em Itaguí, ele apontou pela janela o bonito relevo da cidade e as montanhas do lado oriental do rio Medellín na cordilheira dos Andes. Eu não havia informado para onde estava indo, e próximo à estação Sabaneta ele espontaneamente disse que ali se localizava o cemitério de Pablo Escobar. Achei curioso pois pareceu estar me apresentando um ponto turístico local, e comentei que imaginava haver alguma polêmica sobre isso em Medellín. Ele confirmou a dualidade de que muita gente gosta de Escobar, mas também muita gente o odeia. Perguntei: “e você, gosta ou não?”. Ele respondeu: “gosto pelas coisas boas que ele fez, pois ele realmente ajudou muita gente, mas não gosto da violência que gerou. Isso também fez muito mal para todos”.
Perto das sete da manhã eu já estava próximo ao Cemitério Jardines Montesacro. Leituras prévias me deram a pista de que a tumba de Escobar se encontrava atrás do prédio principal rodeado por frondosas árvores e flores. Realmente não foi difícil encontrar, além da exuberante flora natural ao redor, trilhas marcadas pelo movimento de passos humanos no gramado que evidenciaram um caminho bastante frequentado. Ao me aproximar, observei de longe que três pessoas estavam ali. Duas mulheres e um rapaz, aparentemente jovens colombianos. Aguardei distante, mas
instintivamente busquei as lápides com o olhar.31 Confesso meu desejo de ler o nome de Pablo Escobar na lápide, quase como uma certificação real e palpável da existência do famoso herói-bandido.
Para minha surpresa, as lápides não estavam lá (Figura 14 e Figura
15).
Figura 14 – Homenagem a Escobar
Fonte: desenho elaborado pelo autor.
Figura 15 – Cemitério Montesacro
Fonte: desenho elaborado pelo autor.
“Não pode faltar o nome de Pablo”, ela dizia.
Os outros dois esperavam em silêncio um pouco afastados. Ela terminou, conversaram, tiraram fotos e então me aproximei. O rapaz me explicou parte do mistério: as lápides haviam sido retiradas para reforma, pois em algumas semanas a morte de Escobar completaria 25 anos, já que sua morte ocorrera em 2 de dezembro de 1993. Uma funcionária do cemitério confirmou a informação e acrescentou: “a irmã de Pablo que conserva periodicamente o túmulo retirou as lápides na semana passada para trocar por novas antes da comemoração e homenagem de sua morte”. Como disse, apenas parte do mistério se esclareceu. A jovem sentada no chão escrevia o nome de Pablo para que o túmulo não ficasse no anonimato. Entretanto, no meu imaginário, a devoção à figura de Pablo permanecia em uma penumbra mítica.
O sol ficava mais forte e aos poucos mais pessoas chegavam ao local, inclusive acompanhadas por guias turísticos para visitar o
túmulo de Escobar e demais personalidades32 do mundo do tráfico de drogas e contrabando, que obviamente com menos ênfase, também recebem flores de homenagens e lembranças. Um guia se aproximou com duas moças. Falavam português, eram brasileiras, e uma delas, de modo caricato, vestia uma camiseta com o rosto de Pablo. O guia disse: “no funeral de Escobar aproximadamente 20 mil pessoas acompanharam o enterro”. E uma das moças sabiamente perguntou: “de tristeza ou de alegria?”. A resposta do guia foi: “neste caso de tristeza, muita gente realmente o admira ainda hoje”.
Essa é a expressão do polêmico narcoturismo em Medellín. Um empreendedorismo que apresenta virtudes de como vender bem uma história. Não sabemos se a quantidade de pessoas relatada pelo guia era real ou não, mas a verdade é que os números pouco importam, pois realmente um enorme grupo de pessoas realmente acompanhou o velório de Escobar mesmo com a estratégia da Prefeitura local que adiou o velório para o dia anterior ao agendado pela família na tentativa de evitar retaliações e homenagens populares a Pablo (García, 1993). Essa breve introdução nos mostra como Medellín segue com o desafio de manter um olhar necessário sobre sua história.
A ambiguidade que se apresentou no metrô, no cemitério e em diversas outras questões da vida cotidiana de Medellín traz alguns dos pontos-chave desta reflexão que se encontram sob os conceitos de narcoestética (Cohen, 2016) e narcocultura, conceitos que surgiram em meados dos anos 1980, como reivindicação de uma identidade e forma de resistência. Eu, como investigador brasileiro recém-chegado à cidade, fui conhecer esse ponto da cidade que não sei se podemos chamar de turístico, mas com segurança podemos validá-lo como dicotomia simbólica no imaginário de um povo.
Histórico de delinquência em Medellín
– informalidade como sobrevivência
A cidade de Medellín deriva da antiga Villa de Nuestra Señora de la Candelaria. O povoado foi considerado vilarejo em 1675 com um total de 288 famílias, sendo apenas um quinto dessa população composta pela elite branca espanhola, e a maioria por pessoas mestiças e mulatas. A centralidade de seu mercado entre as demais localidades da província e as vastas terras férteis para plantio e criação de animais à beira do rio fez com que o vilarejo prosperasse com solidez, e com o passar dos anos, a cidade se tornou a capital do departamento de Antioquia (Cardona Rodas, 2015).
A partir de 1750, quando Medellín passou a demonstrar crescimento demográfico significativo, foram ficando escassas as possibilidades de terras que pertenciam prioritariamente a crioulos e colonos espanhóis donos de minas, comércios e afins. Assim, as pessoas com menor poder aquisitivo acomodaram-se nas encostas das montanhas do Vale de Aburrá (Jurado, 1996). A falta da disponibilidade de terras associada ao modesto desenvolvimento industrial foi determinante para o início e perpetuação da malha de pobreza em Medellín. Trabalhos informais e temporários, como as muitas mulheres e homens envolvidos em atividades relacionadas aos ciclos agrícolas entravam nesse rol de pessoas vagas (em situação de rua) que por apresentarem flexível envolvimento com a dinâmica urbana eram malvistas pela sociedade colombiana. Em Medellín imperava a noção de trabalho fixo, urbano, regulamentado. É uma cidade que formalmente se estruturou pautando a ordem como eixo cervical. Porém, como consequência natural das desigualdades políticas e econômicas, dinâmicas informais se fortaleceram e se enraizaram no acontecer da vida cotidiana.
A falta de oportunidades de emprego formal alimentou as desigualdades características de aglomerações urbanas de colonização europeia, seja portuguesa ou hispânica. A minoria de ricos se separava da massa de pobres, mulatos e índios, desencadeando a aparição de novos papéis sociais como os “ociosos, ladrões, vagabundos e indigentes” (ibidem, p.247, tradução minha), dotados de carregado valor moral. No início dos anos 1800, dos aproximadamente 31 mil habitantes de Medellín, estimava-se que quinhentos eram vagos, e assim a presença marcada da população pobre deixava de ser vista como alvo de caridades religiosas e passava a ser percebida como um incômodo no processo de produção capitalista, ou seja, significava perda de força de trabalho e prejuízo econômico (ibidem).
Durante o século XIX, a estigmatização como delinquentes e vagos já justificava intervenções estatais. O pensamento colonial acreditava que os mestiços, por causa da mistura racial, eram inquietos e mais propensos à desordem do que os demais grupos da sociedade (ibidem), e assim surgiram leis que proibiam a “vagancia” pois não traziam riquezas às duas grandes majestades, Deus e o Rei espanhol (ibidem). No início do século XIX surgiram as primeiras estratégias legais de controle social com o objetivo de examinar quem eram “os verdadeiros pobres” incapazes de trabalho, com sanções punitivas para quem fosse categorizado como “falso mendigo” (ibidem). A partir daí, a onda de intolerância e de “extermínio aos vagos e pobres” irrigou as ruas e praças de Medellín, incluindo a coerção e expulsão para zonas periféricas, a privação do voto e a consequente não participação política.
A prosperidade econômica da cidade atraiu pessoas de outras partes do país, e por se tornar o centro industrial e comercial da região, em 1826 Medellín passou a ser capital do departamento de Antioquia. Já no início do século XX Medellín tornou-se destino de muitos camponeses e empreendedores que passaram a ver na capital do departamento excelentes possibilidades de progresso. Estima-se que entre 1912 e 1914 chegaram cerca de 14 mil pessoas na cidade, que na época contava com 40 mil habitantes (Riaño-Alcalá, 2006). A antropóloga Riaño-Alcalá acrescenta que com a chegada dessa elite empreendedora, introduziu-se uma “ideia de modernização que promoveu a eliminação de qualquer traço de origem rural ou indígena na cidade. Como disse Mary Roldán, ‘Antioquia converteu-se o teatro experimental das noções burguesas de progresso’” (Roldán, 1992 apud ibidem, p.6, tradução minha).
Esse caráter moralista no desenvolvimento da cidade atingiu seu auge quando em 1951 foi outorgado o decreto municipal 517, que declarava o bairro de nome Antioquia como a única “zona de tolerância” da cidade. Mas o que seria uma zona de tolerância em Medellín nos anos 1950? Um local escolhido pelo poder público e pela igreja para manter os sujeitos “indesejáveis” segregados do resto da cidade (ibidem). Desdobramentos como o decreto de 1951 ilustram estratégias de controle da elite no desenvolvimento industrial e urbano de Medellín: “uma mentalidade coletiva que estigmatizava os pobres e os ‘diferentes’ se enraizou e começou a se materializar na forma de marcadas diferenciações geográficas e divisões sociais do espaço urbano” (Riaño-Alcalá, 2006, p.9, tradução minha). Entretanto, esse decreto que estabeleceu a zona de tolerância durou apenas dois anos, e a partir de sua extinção, permaneceu em Medellín a subsistência “tolerante” em alguns bairros a partir de economias informais e subterrâneas. Entre os anos de 1960 e 1970, 50% dos novos habitantes decorrentes do processo migratório ocuparam assentamentos ilegais e populares nas colinas e nos pés das montanhas ao redor da cidade (ibidem), e foi nesse contexto que a venda de drogas, primeiramente maconha, instalou-se e consolidou-se em Medellín.
Segundo o historiador e professor da Universidade de Medellín Hilderman Cardona Rodas, na segunda metade do século XX, a cidade começou a apresentar-se como tecido metropolitano, com a construção de bairros circundantes ao centro e a instalação de incontáveis fábricas da indústria têxtil na planície ao redor do rio. Segundo Cardona Rodas (2016, p.93, tradução minha), a cidade foi motivada pelo “clima de produção e prosperidade capitalista que também trouxe consigo fenômenos de pobreza e miséria, o outro lado da bolha do progresso e o desenvolvimento”. A chave para uma mudança na mentalidade tradicional aconteceu somente em 1971, quando a partir de um festival de música se estabeleceram tensões importantes entre os olhares conservadores da elite e da igreja em contraponto com a juventude libertária local (Riaño-Alcalá, 2006). Assim, a circulação de drogas, de dinheiro e arte integrou uma nova compreensão e desenvolvimento da cidade e do cidadão
antioqueño (Figura 16).
Figura 16 – Mapa de Medellín
Fonte: desenho elaborado pelo autor.
No final da década de 1970 a cidade atravessava uma grande crise no mercado das indústrias têxteis, e o índice de desemprego alcançou proporções alarmantes. Nesse período, a economia do tráfico de drogas, principalmente tendo a cocaína como seu produto base, se enraizou nas dinâmicas laborais e financeiras da cidade. Eventos e características específicas da cidade de Medellín apontam experiências concretas de como a economia local, as redes de sociabilidade e as organizações informais criaram um ambiente propício para o empreendedorismo em torno da economia das drogas, uma economia local que rapidamente se interligou a dinâmicas nacionais e internacionais.
Com as já antigas e consolidadas rotas de contrabando de ouro, e mais recentemente cigarros, eletrônicos e bebidas pelo Panamá, não foi surpresa o protagonismo da cidade na organização e distribuição de entorpecentes. Griselda Blanco, originária de Medellín e conhecida como a “rainha da coca”, foi quem abriu canais de distribuição da cocaína colombiana em grande escala para os Estados Unidos, principalmente em Nova Iorque e Miami. E foi Griselda que introduziu Escobar nesse arriscado e rentável mercado da cocaína (ibidem).
Amarras de uma trajetória delinquente – segunda
metade do século XX
A imagem de Escobar cresceu e se solidificou a partir dos lucros advindos dos negócios do tráfico de drogas. Essa súbita mobilidade social ou fenômeno de “arribismo” ou “toque ao paraíso econômico”, como apontado por Cohen (2016), que é proporcionado pelo rentável envolvimento especificamente com o tráfico de cocaína, confere poderes econômicos e consequentemente políticos a cidadãos que havia pouco eram esquecidos ou inexistentes aos olhares do Estado. Historicamente o povo antioqueño é reconhecido pelo trabalho duro, espírito mercador, e não por acaso o negócio do tráfico de drogas prosperou nessa terra de grandes empreendedores. Popularmente, há um ditado regional tradicional típico entre pais e filhos: “Filho, traga dinheiro de uma forma honesta. Se não for possível, traga dinheiro de qualquer forma”. Relata um dos guias dos polêmicos narcotours (passeios turísticos particulares que vendem uma história de Medellín atrelada aos anos de Escobar):
Nos anos 1980, o narcotráfico não era considerado algo ruim. Você tem que entender o contexto. Eles [narcotraficantes] eram considerados empresários muito inteligentes. A cultura era ganhar dinheiro rapidamente e não importava se era bom ou ruim. Isso foi em toda a sociedade […] E faz parte da nossa história. (fieldnotes, 30 abr. 2015 apud Naef, 2018b, p.498, tradução minha)
Porém, a ilegalidade da origem do dinheiro não se ocultou, e assim a perseguição e a disputa entre as forças do Estado e dos traficantes criaram um cenário de extrema violência em solo colombiano. Esse cenário gerou fama indesejada à nação colombiana por apresentar ao mundo as situações aterrorizantes que o país atravessava entre as décadas de 1980 e 2000. Entretanto, a violência disparada nesse momento não era novidade para a história colombiana, uma nação, segundo Pinzón (1999, p.21, tradução minha), destinada “a reconhecer o sangue em suas mãos, sua memória foi envolta em cinzas como uma escrita final que nasce do fogo, do ódio, da ambição, de remoções e do massacre […] De 1500 ao ano 2000 a Colômbia não teve um final de século em paz”.
Uma das trágicas viradas de século foi a Guerra dos Mil Dias, um violento conflito civil na virada do século XIX para o XX, que tomou conta de todo o país, resultando na supremacia do partido conservador no Estado colombiano por décadas em paralelo à intensificação de uma onda católica-cristã (Bowley, 2013). O cenário começou a mudar quando o presidente Enrique Alfredo Olaya, representante do Partido Liberal, foi eleito em 1930. A tensão política se intensificou entre conservadores e liberais, sendo marcada por revoltas e manifestações populares por todo o país. Esse cenário sedimentou uma “forte tensão entre os partidos; especialmente nas áreas rurais conflitos tornaram-se corriqueiros, e até pequenos distúrbios poderiam facilmente fazer com que se transformasse em conflito armado” (ibidem, p.17, tradução minha).
Nos anos seguintes, em meio à tensão generalizada, o nome de Jorge Eliecer Gaitán, político do Partido Liberal, passou a ganhar significativo apoio popular por meio da defesa de direitos trabalhistas e reivindicando a quebra da estrutura oligárquica do Estado colombiano. Assim, com o propósito de destituir o poder das mãos de poucos, Gaitán ficou conhecido como representante e herói do povo (ibidem). Após cargos públicos como prefeito de Bogotá na década de 1930, onde se destacou com reformas sociais que o levaram a ministro da Educação em 1940, enfim Gaitán estava pronto para as eleições presidenciais de 1946. Porém, divergências políticas dentro do Partido Liberal tiveram como consequência a eleição do candidato conservador Mariano Ospina Pérez. A eleição de 1946 trouxe marcas de uma nova etapa na história colombiana, que segundo Jenna Bowley (ibidem, p.18, tradução minha), foi o início de um período marcado pelo “pesadelo de derramamento de sangue tão vazio de significado que é simplesmente conhecido como ‘La Violencia’”, um momento da história em que a extrema polarização política gerou uma violência pautada pelos opostos ideais entre basicamente dois partidos, Liberal e Conservador, que irracionalmente disputaram litros de sangue nas ruas e roças pelo país.
O assassinato de Gaitán em 1948 disparou uma onda de violência conhecida como Bogotazo. O partido conservador foi apontado como mandante do crime, e em revolta popular generalizada justificada mais uma vez por divergências partidárias explícitas, instaurou-se um cenário de guerra nas ruas de Bogotá e muitas pessoas foram mortas em poucos dias. Como resposta, o governo agiu com mais repressão, porém essa estratégia apresentou-se como combustível e inflamou ainda mais os pontos de atrito e hostilidades. Estima-se que aproximadamente 200 mil colombianos foram mortos entre 1946 e 1966, além dos milhares que foram feridos ou removidos forçadamente de sua terra natal durante o período de La Violencia (ibidem).
Na tentativa de retomar o controle da situação para as forças do Estado, em 1958 os partidos Liberal e Conservador realizaram um bizarro acordo de alternar a presidência entre os partidos a cada dezesseis anos. Entretanto, a violência seguiu crescente, e foi nessa conjuntura de disputa política, violência anárquica, falta de legitimidade estatal e consequente humilhação e terror das classes populares que Pablo Emilio Escobar Gaviria, vulgo Escobar, nasceu em 1949 na cidade rural de Río Negro, próximo a Medellín.
Filho de uma professora e um fazendeiro, a família de Escobar poderia ser considerada de classe média na época, mas claramente se posicionava junto às pretensões populares e políticas do Partido Liberal. Assim, a infância de Escobar nunca esteve distante de eventos violentos. Episódios de violência e ameaças eram constantes, como quando tiveram que fugir do pequeno vilarejo de Titiribí ao sul de Medellín após grupos opositores conservadores incendiarem a escola em que sua mãe lecionava, simplesmente por ser uma professora liberal. Segundo ela, Escobar “queria ser grande”, e já aos treze anos de idade foi eleito para o Conselho de Bem-Estar Estudantil de sua escola, quando reivindicou o apoio ao transporte e comida para estudantes pobres. Antes dos vinte anos, sob a companhia de seu primo Gustavo Gaviria, Escobar já se envolvia em esquemas de contrabando de cigarros e tíquetes lotéricos falsificados. Sua ousadia, ambição e imprudência causavam marcas e fama entre os protagonistas das atividades ilícitas em Medellín (ibidem), e o envolvimento com o tráfico de drogas foi um caminho natural.
O ano de 1976 foi um ponto de virada na carreira criminal de Escobar. Preso ao retornar do Equador transportando 39 quilos de cocaína junto com seu primo Gustavo, após o registro dessa prisão não demorou para anunciar sua forma de lidar com o que tentava obstruí-lo, ou seja, a justiça social ao modo de Escobar: tempos depois os dois policiais que os prenderam foram encontrados mortos. A partir de então, Escobar apresentava suas cartas, e para além de futuramente esboçar alçadas no mundo da política, ele imprimia sua “própria política […,] estabelecendo um padrão de lidar com as autoridades que se tornou sua marca registrada” (ibidem, p.33, tradução minha) no imaginário de luta por justiça social. Logo seu lema tornou-se conhecido como “plata o plomo”, ou seja, grana ou chumbo. Assim, atos de violência se perpetuaram em um cotidiano constantemente violento e desigual.
O reflexo de Pablo
Fuiste un conquistador de sueños imposibles, más allá de la leyenda que hoy simbolizas; pocos conocen la verdadera esencia de tu vida.
Mensagem inscrita em lápide de Escobar
A construção da imagem de Escobar, assim como das demais forças do narcotráfico colombiano, tem origem na histórica condição de marginalização política e econômica da juventude colombiana, uma juventude de poucas oportunidades, que aprendeu a conquistar o pouco que tem do modo que fosse possível. Escobar trilhou esse caminho, e o acúmulo de lucros era tanto que o investimento em causas públicas impulsionou aspirações a cargos oficiais na política colombiana. Essa é a figura dos bandidos heróis do povo, que agora podiam rentabilizar e satisfazer seus luxos, assim como oferecer ao seu povo alguma dignidade e prover algumas necessidades. Porém, na figura de Pablo Escobar, o acúmulo de dinheiro nunca foi suficiente, e além de precisar se proteger, tinha a ambição de participar efetivamente das escolhas, decisões e rumos da nação.
Moravia – o bairro popular um pouco ao norte do centro de Medellín citado anteriormente – surgiu a partir de migrações internas do contexto rural para urbano entre as décadas de 1950 e 1970 durante o período conhecido por La Violencia nas décadas de 1940 e 1950. As pessoas instalaram-se ao redor e em cima de um morro dos antigos lixões e viviam em cima e nos arredores dos descartes dos caminhões de lixo. Apesar de o acúmulo de lixo ser anterior a 1977, o espaço foi oficialmente o lixão da cidade desse ano até 1984. Ná década de 1980 a montanha de lixo que chegava a 35 metros de altura abrigava cerca de 15 mil pessoas junto aos 500 mil quilos de lixo que eram despejados ali diariamente (Gama, 2015). Quando estive no Centro de Desenvolvimento Cultural Moravia, em abril de 2019, me atualizei em relação a que o bairro se situa na Comuna 04, local extremamente bem localizado, próximo ao centro, ao hospital, ao metrô, ao Parque do Norte e ao eixo rodoviário norte de Medellín, e é considerado um dos bairros mais densamente povoados da Colômbia.
Em uma atividade sobre a história local no Centro de Desenvolvimento Cultural Moravia, Juanes, que mediava a atividade junto ao professor Juan Camilo da Universidade de Medellín, perguntou a todos presentes o que sentiam ou imaginavam de Moravia. As respostas majoritariamente foram variações entre lixo, violência, perigo, extrema pobreza, “biqueira” e informalidade. A única variação na imagem local veio de um rapaz que respondeu união e festa – enfim um contraponto à estereotipada Moravia, que nas palavras de Juanes beneficia o poder público local, pois “de um jeito ou de outro a Prefeitura está ganhando com isso”, seja via especulação imobiliária, seja via turistificação desse espaço que certifica Medellín como cidade de festa e modernidade.
No ano de 1982, a cidade iniciou a requalificação estética da área de Moravia para a construção do terminal de transportes Caribe. Nessa época o poder público local iniciou o processo de remoção das pessoas, com a justificativa da realização do projeto Plan Parcial Moravia, também com caráter e intenção estética. Pois então, quando iniciaram as primeiras intervenções do poder público na comunidade, a tensão entre a comunidade e o Estado após a morte de Rodrigo Lara Bonilla gerou conflitos que provocaram um incêndio no local. Escobar, que ascendia no campo político, anunciou que construiria casas para os habitantes desabrigados. De fato, ele foi o responsável pelo processo de realocação das primeiras famílias ao construir rapidamente, e com investimento próprio, centenas de casas populares em um terreno clandestino, onde hoje é a Comuna 09 chamada Buenos Aires. Essa ação foi protagonista nas suas aspirações políticas como um de seus mais expoentes programas sociais, que se chamava Medellín sem Favelas. O bairro foi reconhecido pela Prefeitura local apenas em 2012, e atualmente acolhe aproximadamente 15 mil habitantes. Desde então o bairro é informalmente conhecido como Barrio Pablo Escobar e é visível inclusive nos letreiros informativos dos ônibus pela cidade. Ali vivem pessoas que admiram a imagem de Escobar em Medellín, onde o reconhecem como um herói ou salvador dos pobres (Bowley, 2013). Ao recordar a moça escrevendo o nome de Escobar com as pedras no cemitério, senti que devia caminhar por esse bairro.
Quando estive no Barrio Pablo Escobar em abril de 2019, cheguei por uma longa subida que explicita a geografia periférica do bairro na encosta da montanha. Segui a direção que havia visto no mapa, a direção do Monumento Pablo Escobar. Em uma curva, ao lado da Barbearia El Patrón, estava o monumento em homenagem a Pablo, junto com a imagem do Santo Niño Jesús de Atocha. No monumento a inscrição: “Aqui se respira paz”.
Segui caminhando, subi e vi a vista. Um bairro pobre, casas de alvenaria sem acabamento e vielas estreitas para pedestres na íngreme inclinação da montanha. Bastante residencial, alguns poucos comércios entre as casas. Na parte alta, uma bonita vista do
centro de Medellín (Figura 17).
Figura 17 – Vista do centro de Medellín a partir do Barrio
Pablo Escobar. Abril de 2019
Fonte: desenho elaborado pelo autor.
Entre as casas que permaneceram em Moravia, Pablo forneceu estrutura e iluminação para um campo de futebol para incentivar a prática de esportes e ser alguma alternativa de lazer nessa comunidade à parte do circuito formal urbano. Fez diversas benfeitorias e investimentos comunitários, como estradas e sistemas de iluminação, além de manter forte e constante parceria com a igreja católica. As figuras e o dinheiro do tráfico de drogas de fato estavam proporcionando à população oportunidades concretas que no papel do Estado ficavam apenas como promessas.
Decidi fazer a barba como pretexto para entrar em contato com as pessoas locais. A primeira barbearia em que parei estava cheia. A segunda foi descartada por aparentar discursos previsíveis ao apresentar-se nitidamente turística vendendo souvenirs de Escobar no balcão de entrada. Mais abaixo, a terceira, uma barbearia trivial, comum, era o que eu buscava. Um clima caseiro, em que pareceu possível escutar um discurso distinto ao das palestras estereotipadas vendidas aos turistas que chegam ao bairro nos inúmeros narcotours. A barbearia estava aberta, portas e salão escancarados para a rua, mas ninguém dentro. Um senhor, que estava algumas lojas abaixo, me observou de longe e perguntou, com sinais, o que queria. Arrisquei sinais respondendo com “gestos de fazer a barba”. Ele subiu vagarosamente mancando, entrou em uma pequena porta ao lado e chamou um rapaz. Um menino jovem, de aparentemente 20 anos, apareceu. Foi ele, Andrés, o meu barbeiro.
Perguntei: “Então é aqui o bairro Pablo Escobar?” Ele respondeu afirmativamente. Comentei que estava lendo sobre o processo de realocação de Moravia que deu origem ao bairro, e que foi Pablo que havia construído as casas por ali. Surpreendentemente o menino disse: “Sim, minha avó ganhou esta casa de Pablo. Eu ainda não era nascido. Ela já foi descansar faz quatro anos, e a casa ficou para meu pai e eu. Minha mãe atualmente mora em Pereira”. Imaginei que o senhor que por sinais me recebeu era seu pai. Os dois vivem juntos na parte superior da casa acima da barbearia. “Sua avó conheceu Pablo?”, perguntei. Andrés respondeu que sim, e acrescenta: “ela o cumprimentou pela mão e sempre contou histórias sobre ele. Todos aqui têm muita admiração por ele”. Comentei que me parecia haver uma ambiguidade em Medellín, pois há gente que o admira e há gente que o odeia. O jovem Andrés concordou: “sim, tem toda essa violência, essa parte eu também não gosto, mas ele foi um homem muito generoso” (Diário de campo, 29 abr. 2019).
Atualmente, apesar da violência associada, persiste a edificação e sustentação de uma imagem positiva de Pablo Escobar em Medellín, um homem que cresceu em uma Colômbia de instabilidade política e financeira permeada pela corrupção e que se aventurou em um projeto político para transformações sociais também irrigado por subornos e corrompimento. Com crescente representatividade política entre seus apoiadores, em 1978 Escobar foi eleito suplente no conselho da cidade de Medellín. Em 1980 colaborou na fundação do Partido Liberal, e em 1982 foi eleito suplente na câmara representativa de Envigado, o que lhe conferia imunidade judicial (Bowley, 2013).
Estratégico, com os negócios do narcotráfico ainda ocultos e seu explícito apoio aos mais desfavorecidos, a figura de Escobar fez com que as classes mais baixas exalassem um suspiro de esperança por algo melhor. Em 1983 uma matéria da revista colombiana periódica Semana afirmava essa admiração, e a manchete apontou Escobar como “Robin Hood paisa”. O luxo e a extravagância de Escobar foram expostos para o grande público, assim como suas nítidas intenções políticas de evitar a extradição de criminosos colombianos para os Estados Unidos. Segundo Bowley (ibidem, p.39, tradução minha), a revista Semana questionava: “Quem é Don Pablo? Esse tipo de paisa Robin Hood, que desperta tanto entusiasmo entre centenas de infelizes que refletem em seus rostos uma súbita esperança que não é fácil de explicar em meio a esse ambiente sórdido”.
Porém, o enriquecimento a partir da exploração e negócios de caráter ilícito não era “nada de novo debaixo do sol” em terras colombianas. Historicamente, a seletíssima elite angariou fortunas a partir da exploração de ouro, esmeraldas, tabaco e escravos nos últimos séculos (Taussig, 2013). O fato é que Escobar passou a representar uma possibilidade de mudança a favor dos mais pobres. Don Pablo já não era mais uma pessoa específica, mas um ideal a perseguir para assim conquistar um pleno gozo da vida com sabor de vingança ante um Estado irresponsável que zela e protege seletivamente.
Até o início dos anos 1980 o tráfico de drogas não era uma grande questão a ser enfrentada na Colômbia. Pouco se falava sobre o tema e os cartéis funcionavam como contraponto às práticas exercidas pelos insurgentes grupos guerrilheiros. Políticos também não se opunham com veemência, afinal muitos se beneficiavam das relações financeiras e de status quo com os
“mágicos”33 fazendeiros, que passaram a integrar a fina gema da sociedade colombiana (Bowley, 2013). As fazendas eram a lavagem de dinheiro do tráfico. O contexto colombiano se tornava cada vez mais complexo, e em paralelo à construção de sua imagem como salvador do povo, Escobar subiu na onda de violência em Medellín associada à preservação do tráfico de cocaína em grande escala, principalmente para os Estados Unidos da América do Norte. O consumo aumentava e o negócio das drogas se aquecia, e no âmbito internacional, a Guerra Fria de fato esfriava.
A cocaína passou a ser uma preocupação política e social quando deixou o pedestal de ser uma droga elegante, cara e aristocrática e começou a destacar-se de forma fumável nas ruas da cidade em forma de crack. Em 1982 a Drug Enforcement Administration (DEA) estimava que entravam em território dos Estados Unidos cerca de 45 toneladas métricas de cocaína por ano – um mercado que gerava centenas de milhões de dólares, e a percepção de alianças entre diferentes grupos para viabilizar esquemas de gigantescas magnitudes em pó e em dinheiro (ibidem). Entretanto, para além do aumento de consumo pela demanda interna, o governo dos Estados Unidos se apropriou da questão das drogas como pano de fundo perfeito para intervenções de interesse geopolítico na América
Latina. A opinião pública 34 preocupava-se com o aumento significativo do consumo de drogas, enquanto o Estado norte-americano aliava o útil ao agradável em ações políticas intervencionistas na Colômbia. Segundo Bowley (ibidem, p.45, tradução minha),
estabelecer um elo entre os narcotraficantes e o comunismo tornou a questão ainda mais quente em Washington […]. Se os traficantes de drogas e as guerrilhas de esquerda estivessem trabalhando juntos, representariam uma ameaça direta aos interesses dos Estados Unidos na Colômbia e Washington faria o que fosse necessário para eliminar esse perigo.
Dessa forma, a Guerra Fria foi reaquecida em outros moldes. A América do Sul tornou-se alvo de novas invasões, pois não demorou para, em 1981, o presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan reconfigurar a questão das drogas como prioridade na política externa dos Estados Unidos para a Colômbia. Assim, os Estados Unidos deixaram de atuar apenas internamente no consumo e na entrada das substâncias nas zonas de fronteira, e passaram a intervir nas terras produtoras, na origem, ou seja, na Colômbia.
Jorge Castañeda, ex-secretário mexicano de Relações Exteriores e investigador das relações entre os Estados Unidos e a América Latina previu esse encaixe, pois em pouco tempo, o combate moral contra as drogas consideradas ilegais preencheu o buraco ideológico deixado pelo fim da escancarada guerra ao comunismo (ibidem). Naturalmente, a figura de Escobar caldeava-se entre herói para alguns e vilão para outros. Para o Estado Colombiano e o Governo dos Estados Unidos, certamente Escobar tornou-se o principal alvo a ser eliminado, e assim iniciou-se a busca simbólica, material e pessoal por Escobar.
Em 1984, quando Escobar ocupava o cargo de suplente na câmara de Medellín, o político colombiano Rodrigo Lara Bonilla fez uma denúncia pública do envolvimento de Pablo com o tráfico de drogas, apontando investigação em curso dos Estados Unidos sobre possível envolvimento do suplente com atividades ilícitas. Após a denúncia, Rodrigo Lara Bonilla intensificou suas investidas. Poucos meses depois, a Polícia Nacional da Colômbia, com apoio norte-americano articulado por Bonilla, desmantelou um grande laboratório de processamento de cocaína nas profundezas da selva tropical colombiana conhecido por Tranquilandia. As apreensões e os prejuízo ao Cartel de Medellín foram enormes: sete aeronaves, 12 mil tambores de produtos químicos diversos e uma estimativa de um bilhão de dólares em cocaína pura (ibidem, p.52). Semanas depois, Lara Bonilla foi executado a tiros em um comício político. Esse assassinato imprimiu sobre a imagem de Pablo o rótulo de criminoso e bandido, ou seja, inimigo do Estado.
Assim, em menos de um ano, a imagem de Escobar transitou de um popular benfeitor que luta por justiça para um criminoso altamente procurado pelo Estado, principalmente quando o então presidente da República da Colômbia, Betancur, avançou na proposta de extradição aos traficantes de drogas. Pablo e demais integrantes dos cartéis colombianos recolheram-se no Panamá e esse foi o ponto de partida da perseguição que jamais permitiu algum momento de tranquilidade a Escobar, que passou a estar constantemente escondido ou fugindo das autoridades colombianas e internacionais.
Em 1986 os Estados Unidos conseguiram firmar o Drug Abuse Act (“ato de abuso de drogas”, tradução minha), que consistiu em estabelecer apoio dos países que concordassem em cooperar com as investidas antidrogas de Washington sob a troca de receber apoio militar e financeiro (ibidem). As intervenções apontavam duas direções: a busca por Escobar e as pulverizações de herbicidas químicos nas plantações de coca nas zonas rurais colombianas. Em um movimento cíclico, a dinâmica da coca e as políticas de drogas novamente produziram violentas intervenções nas zonas rurais do país e os índices de violência escalaram nos anos seguintes.