As Drogas, as Pessoas e as Cidades
Segunda parada – Reflexos da travessia Brasil – Colômbia
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
É impressionante o descompasso das ações em uma sociedade que apresenta diversos obstáculos ao acesso digno à serviços de saúde e acolhimento, em que as pessoas são atravessadas por projetos urbanísticos que higienizam os espaços e privatizam os direitos dos cidadãos. A história nos apresenta como os decretos que formaram, transformaram e renovaram o centro de Bogotá estavam diretamente relacionados à pobreza e à concentração de pessoas em situação de rua. Porém, paradoxalmente, a constatação da presença dessas pessoas aparecia nos documentos oficiais sob o discurso de “vazios urbanos” (Suárez, 2012). As dinâmicas se acomodaram escondidas visualmente na cidade, porém publicizadas rapidamente pelos meios de comunicação em matérias que faziam referência ao Bronx como “el infierno” o “la calle maldita”. Foi um processo de guetização que determinou limites objetivos e subjetivos no imaginário citadino em Bogotá (Avendaño et al., 2019). A realização desses projetos derivou de uma “distribuição controlada” de tais dinâmicas, justificando intervenções urbanísticas ligadas às ideias de “patologização do território e da valoração moral dos hábitos dos seus moradores” (Suárez, 2012, p.164).
Assim, a ânsia por investimentos estrangeiros e a melhoria da imagem internacional de Bogotá fez com que milhares de seus cidadãos se tornassem praticamente invisíveis para a gestão pública e alvos concretos de violência estatal.
Fumigações urbanas – intervenção no Bronx
E assim ocorreu. Com a saída de Enrique Peñalosa do cargo de prefeito em 2001, o programa de renovação urbana ficou paralisado durante os mandatos seguintes, mas entrou novamente em cena com a reeleição e segundo mandato de Enrique Peñalosa em 2015. Em 28 de maio de 2016, Peñalosa retomou sua ambição, e a partir de um grande operativo repressivo da polícia de Bogotá feriu mais uma vez os direitos humanos e as liberdades democráticas com afiados objetivos econômicos e de controle da população.
Quando estive em Bogotá, Alberto, interlocutor e escritor local, relatou que a operação começou na madrugada de 28 de maio de 2016. Veículos pararam na rua central do Bronx com mais de cem membros da polícia. Outros caminhões oficiais se aproximaram e fecharam as saídas em torno do local. Bronx sitiado. Ao todo, foram aproximadamente 2 mil oficiais das forças de segurança, dentre eles, 180 militares. Bombas, violência e enormes filas para revistas pessoais generalizadas. Segundo informe especial da revista Semana de junho de 2016, “na intervenção havia 1600 pessoas no local, e todas tiveram que coercitivamente fazer uma fila para ser identificadas, inclusive com a possibilidade de identificação pela digital”. Nesse processo, foram identificados 149 adolescentes, além de 35 pessoas que apareceram nos registros oficiais como desaparecidas, trinta homens e cinco mulheres. É possível que o Bronx as tivesse acolhido.
Depois da ação, muitos ficaram por tres dias na vizinha Plaza España, a aproximadamente duzentos metros do local. Cartucho e Bronx denunciam uma repetição cíclica no centro da capital do país. Cerca de 3 mil pessoas conectadas com o território do Bronx foram pulverizadas pela cidade. Muitas passaram a viver precariamente em canalizações de água de chuva e esgoto, algumas desapareceram e outras morreram afogadas sob suspeitas de ação criminosa do Estado no controle da vazão da água (Ritterbusch; Cilencio, 2020). No informe especial da revista Semana de junho de 2016, um mês após a operação, Peñalosa afirmava que era necessário atuar em várias frentes, mas a primeira delas era a segurança pública, como ação ativa de coibir o tráfico de drogas, enaltecendo “a mais grande e ambiciosa intervenção realizada até agora no Bronx” (Viaje al infierno, 2016, p.21, tradução minha). A reportagem acrescenta que o Bronx era o responsável por um quinto de toda a movimentação financeira da venda de drogas ilícitas em Bogotá, que contava com mais de oitenta pontos de venda em 2016.
A intervenção no Bronx também pulverizou as alternativas de cuidado que se estabeleciam lentamente no território, os Centros de Atención Móvil a la Drogadicción (Camad), um equipamento que atuava na lógica da redução de danos com pessoas que fazem uso de drogas e colaborava no planejamento de um “Centro de Consumo Supervisado para habitantes de calle” (Tovar et al., 2017). Ambas as propostas e práticas se diluíram após a intervenção, e a perspectiva do cuidado nitidamente foi colocada em segundo plano.
Para além da dispersão em pequenos grupos, no centro da cidade a dinâmica em torno do crack/basuco vem se reaglomerando pela região do bairro de Santa Fe. No momento que estive em Bogotá entre 2018 e 2019, pude conferir a dispersão já concentrada em alguns pontos no centro. Alocado no bairro de Santa Isabel próximo à Carrera 30 à oeste do centro, já no primeiro dia na cidade deparei com a Calle 6 e seu canal fluvial que abriga dezenas de pessoas em situação de rua desde a operação no Bronx em 2016. Havia chovido em Bogotá, e o fluxo de água estava turbulento e com forte corrente. É nesse canal que Ritterbush e El Cilencio (2020) assinalam a trágica morte de uma pessoa afogada após a grande intervenção. Já no dia seguinte, havia ali somente um mísero filete de água, indicando a possibilidade e o risco de repentinas variações no nível e fluxo de água, seja justificado pela chuva ou não.
Nas margens da Carrera 30, entre tragos de cigarros de palha mineiros conheci Carlos, um carroceiro que sobrevive da reciclagem. Ao apresentar o tema que trabalho, Carlos me informou sobre algumas pequenas concentrações de pessoas em situação de rua e uso de drogas no espaço público: Plaza España, Plaza Pepa e Canal da Calle 6, entre outros. No dia seguinte segui essa rota indicada enquanto caminhava em direção ao centro da cidade. No trajeto vi carroceiros e algumas poucas concentrações de pessoas fumando crack/basuco nas ruas e praças. De longe ouvi: “brasileño!”. Era Carlos. Juntei-me a ele e seus colegas na Plaza Pepa. Um deles, Jonas, curiosamente me contou que morou mais de vinte anos em Nova York nos Estados Unidos, e ganhou fortunas vendendo crack por lá. Acrescentava que naquela época não fazia uso, e disse que começou a usar quando voltou para a Colômbia, e desde então não conseguiu mais parar. Penso nas problemáticas sociais estruturais de nossas sociedades no continente latino, e em como a desigualdade intrínseca empurra pessoas para situações de extrema vulnerabilidade econômica associada ao modo de vida na rua, e nessas condições, é possível que o uso de substâncias inicie ou se intensifique (Calil, 2015). Seguem as armadilhas de contextos latinos na perpetuação de segregações a partir de uma colonialidade interna.
No caminho ao centro, foi visível alguma movimentação de venda de drogas no varejo nos arredores da Plaza España já próximo à região do antigo Bronx no distrito de Los Mártires. Ao me aproximar do ponto onde esteve o Bronx foi impossível deixar de notar a ostensiva presença de oficiais da Polícia Nacional com metralhadoras em punho, ruas isoladas para a entrada de carros e no mínimo uma dupla de policiais fazendo o controle em cada esquina. Não localizei de imediato onde era a conhecida intersecção de ruas que formavam a “L”, mas ao virar uma esquina fui preenchido pela certeza de que havia chegado.
Vi uma paisagem devastada, erma e com restos de demolições. Ruas isoladas inclusive para pedestres, e dentro da área restrita, um ônibus da polícia e um punhado de oficiais. Apenas um edifício central permanecia de pé. Numa esquina, na calçada em frente à extinta “L”, tomei um café em um bar vazio. Perguntei para Inés, a mulher que me servia um café já adoçado, sobre o movimento do bar após a intervenção, e se ela sabia o que planejavam fazer ali. Ela, sem esperanças disse: “o movimento era melhor, não é? Agora está tudo mais vazio. Estamos esperando fazerem alguma coisa aí para voltar o movimento. Agora o que vão fazer eu não sei não. Dizem muita coisa que vão fazer aí, cada hora uma coisa…, mas até agora nada. Já faz mais de dois anos, foi em maio de 2016”.
Como veremos, a falta de informação e perspectiva para os habitantes locais se assemelha à realidade paulistana. As primeiras caminhadas pela região do extinto Bronx me surpreenderam com detalhes que colocavam a toda hora São Paulo e Bogotá em contato. A abundância de comércios de eletrônicos e automobilísticos no entorno é similar à região da Santa Ifigênia no bairro da Luz em São Paulo, e a Paróquia do Sagrado Coração de Jesus de Bogotá, logo ao norte do Bronx, me traziam um estranho e fascinante espanto ao lembrar do Largo Sagrado Coração de Jesus da Cracolândia em São Paulo.
Como os trajetos trágicos desses espaços poderiam se conectar tanto?
Logo ao lado da Carrera Décima está o Parque Tercer Milenio, a intervenção que literalmente sepultou o Cartucho sob a máscara de um novo espaço público com área verde, mas que atualmente expressa melancólica vitalidade humana. Quando caminhei pelo lado sul do parque, repentinamente entrei em uma rua em que a dinâmica do Cartucho/Bronx parecia ainda permanecer. Somente a avenida como fronteira: de um lado o parque verde, moderno e reformado, do outro, ruas precárias, miséria, venda de drogas e adolescentes cheirando inalantes em sacos plásticos.
Ao norte da área do antigo Cartucho/ Bronx está o distrito de Santa Fe. Atualmente é a zona de tolerância que concentra massiva prostituição além de tráfico e uso de drogas: maconha e crack/ basuco, e recentemente o desafiador aumento do uso de heroína injetável. Hoje, o distrito é também ponto final de diversas pessoas do fluxo de imigração venezuelana que desembarca em Bogotá. A dinâmica das pessoas em situação de rua está presente: carroças, carroceiros e pequenos focos de uso de drogas espalham-se pelo
“bairro das esquinas redondas”.6
Ali encontra-se a Fundación Procrear, uma instituição que atende pessoas em situação de rua em Bogotá. A proposta principal é a construção de vínculos, e nessa perspectiva o “centro de escuta” tem papel fundamental. É um espaço de convivência aberto ao público e à comunidade, que desenvolve atividades na perspectiva da redução de danos com pessoas em situação de rua e/ou que fazem uso de drogas. Fui conhecer o espaço, e segundo o coordenador Juan Carlos Celis, o bairro recebeu parte da “diáspora do Bronx” após a intervenção em 2016. Espaço de acolhimento com
aguapanela 7 , jogos e outras atividades, o Procrear se tornou um ponto de encontro entre a população local como pessoas que usam drogas, carroceiros, profissionais do sexo e adolescentes, entre outros. O cuidado em relação às drogas permeia o cotidiano, e percebi a distribuição de insumos de prevenção.
Em uma troca de experiências entre a realidade brasileira e colombiana em torno do crack/basuco e Cracolândia/Bronx, um carroceiro ativo no dia a dia da instituição, Julián, me disse:
No caso de estrangeiros, como você, o pessoal ia lá para conhecer, comprar drogas, e no começo o pessoal te tratava muito bem, mas depois acabavam sequestrando você para pedir dinheiro em troca. Acham que só porque é estrangeiro tem muito dinheiro. E na realidade nem sempre é assim, há estrangeiros que vêm trabalhar, estudar etc, para abrir seu caminho de vida, e depois ganhar algum dinheiro… (Diário de campo, 12 dez. 2018, tradução minha)
Julián vive do trabalho de reciclagem, e no contraponto do estigmatizante conceito de limpeza social, a atividade de reciclar materiais garante uma política informal de cuidado com a cidade e sua população. Mas a história nos apresenta os desafiadores interesses em torno do avanço de determinadas práticas sociais e urbanísticas.
Limpeza urbana… ou social?
Paralelo ao reduzido imaginário social dos indivíduos “descartáveis”, a reciclagem de materiais tornou-se a principal e histórica forma de renda e sobrevivência da população local. Com a abertura do aterro sanitário de Doña Juana no extremo sul da cidade em 1989, e a legislação local afirmando ilegalidade na construção de moradias em seus arredores, encerrou-se a oportunidade de trabalho nos conhecidos “lixões”. Esse fator dispersou pela cidade pessoas em busca de lugares para viver e reciclar, e o Cartucho era o local ideal. Os casarões foram se transformando em armazéns de reciclagem, criando um espaço econômico, uma economia local, e certamente essa característica transformou a paisagem do território que aos poucos se consolidou como ponto de encontro de recicladoras e recicladores – como continua sendo até os dias atuais.
A concentração de carroceiros gera desconforto na sociedade, e o crescimento dessa atividade despertou interesse de investigações na academia. Apesar de, de uma forma geral, essas pessoas serem estigmatizadas como “usuários de drogas”, e os armazéns de reciclagem como ponto de venda do tráfico (biqueiras), acadêmicos afirmam que essa prática constitui uma espécie de cultura de subsistência em um sistema de valores próprios, atuando como “os antigos povoados de ‘caçadores-coletores’, categorizando-os como nômades urbanos” (Morris; Garzón, 2010; Calil, 2015, tradução minha). Portanto, a atenção a esse fenômeno, sua lógica como forma de subsistência e razão de existir, permite-nos aproximarmo-nos de nossa própria sociedade, assim como construir a memória da cidade de Bogotá.
Segundo uma das líderes recicladoras na época Cartucho, Olga Lucía Pico, a quantidade de recicladores chegou a cerca de 115, uma imensa minoria que se vinculava ao território e sobrevivia da reciclagem. Em 1998, o censo realizado pelo Idipron estimou 1.140 recicladores, sendo 69,7% homens e 30% mulheres. Entretanto, a antropóloga María Teresa Salcedo afirma que os planos de renovação urbana do centro de Bogotá não consistiram em formalizar a atividade de reciclagem, mas só em acabar com o Cartucho, introduzir o Parque Tercer Milenio (PTM) e por fim aumentar o valor da terra em seus arredores. Assim, o que restou aos recicladores e recicladoras foi migrar para outras zonas da cidade. Ainda segundo a líder recicladora Olga Lucía Pico: “nos prometeram muitas coisas, como um famoso ecoparque de reciclagem para recicladores, um bairro famoso para quem não tinha casa, e nós não temos! […] eles só treinaram algumas pessoas para aprender a reciclar, mas nós já sabíamos como reciclar” (entrevista ao projeto En un Lugar Llamado Cartucho, 2010 apud Morris; Garzón, 2010, p.63, tradução minha).
O fato é que a reciclagem consistiu em uma das principais atividades geradoras de renda. Essa prática consolidou-se na cidade, e somente em 2004, os recicladores recuperavam diariamente 592 toneladas de materiais recicláveis. (Morris; Garzón, 2010, p.65). Em 2009, estimou-se aproximadamente 70 mil famílias em Bogotá que sobreviviam da prática de reciclagem (Ley de Comparendo Ambiental…, 2009). Porém, a Lei 1259 de 2008 aprovou multa (993.800 pesos colombianos) a quem abrisse sacos de lixo colocados para coleta, prática comum no processo de separação dos diferentes materiais entre os recicladores (Calil, 2015). Infelizmente, reitero o raciocínio de outros pesquisadores, ao intuir que “a reciclagem popular informal, localizada principalmente no Cartucho e em vários setores da cidade, pouco a pouco tem sido destinada a desaparecer ” (Morris; Garzón, 2010, p.66, tradução minha).
Julián é um sobrevivente dessa prática, e me confidenciou que já chegou a carregar 600 kg de material em sua carroça. Em Bogotá, as carroças parecem mais baratas que em São Paulo, custando próximo a cem reais cada uma. Julián trabalha preferencialmente com papelão, pois “é sempre mais fácil de encontrar” dizia ele, acrescentando que não fica somente pelo bairro de Santa Fe, mas também se desloca para outras regiões da cidade, como a zona norte, onde possui contatos diretos já articulados para coleta de materiais, e cita uma loja de animais para a qual vende jornais velhos coletados em outros espaços. Na capital colombiana, o preço de venda do papelão é de aproximadamente R$0,50 reais o quilo.
Julián acrescentou que só ali em Santa Fe existem pelo menos dez pontos de venda de material reciclável. Para ele, o bairro vem se mostrando um polo de sobrevivência sob as margens da informalidade. Comentou que os pontos de venda ganham 150 pesos de lucro por cada kg de papelão comprado. Assim, com a venda de uma tonelada, o ponto ganha 150 mil pesos, aproximadamente duzentos reais. Como os carroceiros da Cracolândia de São Paulo (Calil, 2015), os bogotanos agenciam uma eficiente leitura da cidade e das possibilidades de sobrevivência nesse tipo de economia extremamente importante e necessária, mas criminalizada pela informalidade.
Corredor de informalidade
Em outro dia que estive na Fundación, um dos educadores do espaço, Jorge, informou que no fim de 2018, a média de frequentadores chegava a aproximadamente sessenta pessoas por dia. Contudo, Jorge fez questão de acrescentar que até 2017 atendiam muito mais pessoas, chegava a 120, 130, mas “Com a visita do Papa a Bogotá no ano passado (2017), levaram muitos moradores de rua para a periferia, alguns foram para abrigos, mas a maioria ficou nas ruas. E nem todos voltaram para o centro”, disse ele. As mesmas estratégias de maquiagem urbana que vimos em cidades brasileiras durante a Copa do Mundo em 2014.
Em novembro de 2018 um rapaz me pediu fogo enquanto caminhava pela Calle 15 com a Carrera 17 um pouco ao sul do bairro de Santa Fe. Emprestei. Seu nome era Dátolo. Enquanto ele acendia seu cigarro, pediu licença para acender também seu cachimbo de crack. Respondi que sim e passamos a conversar ali soltos na esquina, até que Dátolo me convidou para nos sentarmos na calçada. Com postura bastante respeitosa, todos pareciam conhecê-lo por ali. Pessoas passavam e o cumprimentavam, até que certa hora, uma moça do mercadinho ao lado chamou-o e pediu seu auxílio. Ele, atento, pediu para que eu olhasse suas coisas e foi ajudá-la. Em poucos minutos Dátolo estava de volta, e seguimos conversando sentados na rua em frente a sua carroça, enquanto ele dava suas “pauladas” de crack/basuco.
Dátolo estava com 35 anos, praticamente a mesma idade que eu na época, mas ele parecia mais velho. Sua pele apresentava desgastes consequentes de outros ritmos de alimentação, sono, sol e água entre outras diferenças que apartavam nossos mundos. Ele me dizia que na rua “não se vive, se sobrevive”, mas curiosamente confidenciou que, para ele, um fator importante da vida na rua é a adrenalina: “eu gosto muito”, dizia. Encontrei Dátolo algumas vezes durante os dois meses que estive em Bogotá. No dia de seu aniversário de 36 anos, em 19 de novembro de 2018, ele me contou que conheceu o antigo Cartucho quando tinha 9 anos de idade. Frequentou o local até os 16 quando o extinguiram, em 1998. Tentei saber mais sobre sua história, mas a conversa era constantemente atravessada pela frenética dinâmica da rua: pessoas chegavam, saiam, pediam cinza, tragos, isqueiros, cigarros, etc.; era uma agitação que tornava a continuidade de uma conversa um verdadeiro desafio.
Em determinado momento um rapaz se aproximou de nós e ofereceu um punhado de maconha. Respondi que não queria, e ele e Dátolo trocaram algumas palavras que não compreendi, e em segundos o cenário mudou: o rapaz se afastou, guardou a maconha em um papel que pegou no chão e sacou uma pequena faca da meia de sua perna esquerda. Atacou Dátolo com um golpe seco na garganta – Dátolo se esquivou por pouco, correu e entrou na próxima rua, a Calle 15. O rapaz recuou. Dátolo retornou com uma enorme pedra nas mãos. Assistir esse ataque em minha frente me cobriu de medo. Sem compreender a causa do ocorrido, foi fácil assimilar a fagulha de um desentendimento e a possibilidade de um ataque fatal. Meu corpo tremia enquanto eu me aproximava novamente de Dátolo para tentar apaziguá-lo da confusão. Ele pareceu entender, deixamos a zona do conflito e relaxamos enquanto ele devorava um saco de comida que ganhou de moças de um comércio ao lado. Restos de arroz, frango e mandioca; mãos sujas e voracidade. Para celebrar seu aniversário me dispus a comprar uma cerveja para um brinde. Dátolo me pediu para comprar uma bebida específica, mas não compreendi. Ele me acompanhou ao mercadinho e voltamos com a garrafa em mãos: parecia uma cachaça, um tipo de corote. Copos descartáveis para o brinde.
Ao abrir a garrafinha de vidro percebi que era álcool farmacêutico com 70% de volume alcoólico. Meu espanto automaticamente questionou se Dátolo bebia isso com frequência. Dátolo, como que me testando, respondeu: “é isso que vamos brindar! Assim você conhece um pouco das animalidades da vida nas ruas”. Perguntei se a referência aos animais é devido a brutalidade e ele confirmou que sim, que “nas ruas, alguns humanos encontram estratégias que se aproximam da animalidade para sobreviver, como um cachorro”. Ironicamente, seu cachorro, chamado Diablo, esteve todo o tempo deitado ao nosso lado. Sobre as dificuldades e riscos da vida na rua, Dátolo disse não gostar de coisas materiais e em certo momento afirmou: “Se você é uma pessoa humilde, transparente, não terá muitos problemas… Mas eu, eu gosto da adrenalina”. De fato, a esquiva da facada minutos antes me fez perceber que a adrenalina flui intensamente nos corpos da rua.
Em 4 de dezembro de 2018 passei novamente pela área que constituía o Bronx nos arredores de Santa Fe e Los Mártires, aproximadamente um mês depois que cheguei a Bogotá. Nesse dia, surpreendentemente acompanhei as demolições dos últimos prédios centrais que formavam o quarteirão da antiga “L” em 2016. Fiquei surpreso. Estariam iniciando algo no local? Inés, que apaticamente me servia os cafés no bar vazio, dizia que já fazia meses que não demoliam algo por ali. Quando perguntei se achava que iniciariam algo, ela respondeu: “não não… Só estão demolindo mesmo, isso aí ainda vai demorar”. Desesperançosamente, Inés transmitia sentimentos desacreditados.
Enquanto estive em Bogotá, percorri o trajeto entre Santa Fe e Santa Isabel, passei por San Victorino, Santa Inés, Los Mártires, o antigo Bronx, Estanzuela, La Pepa e, enfim, o canal da Calle 6, locais que, entre 2018 e 2019, concentraram grande parte da população de rua da cidade. O projeto de intervenção urbana Voto
Nacional,8 que está em andamento e visa transformar toda a região, abarca essas localidades, inclusive a região alvo da desesperança de dona Inés. Pontos de dinâmicas módicas e populares praticamente se conectam como elos em um corredor de informalidade em uma Bogotá mascaradamente moderna – praticamente uma linha contínua de modos de vida informais, que partem do centro da cidade rumo a noroeste até as zonas periféricas, como o distrito de Kennedy.
Como mais uma repetição, em 2019 os noticiários apontavam mais uma grande concentração de pessoas em situação de rua e/ou que fazem uso de crack/basuco no bairro María da Paz, em Kennedy, já aclamado pela mídia local como Nuevo Bronx (Noticias Caracol, 2017). A sequência das trajetórias das cenas de uso de Bogotá insiste em afirmar que memórias não se apagam deslocando-as de lugar.
São Paulo – O arquipélago de pedra
paulistano
Em trabalho de campo em meados de 2017, um interlocutor local se referiu à Cracolândia como o “arquipélago do crack”. Os canteiros da “praça do cachimbo” – expressão que faz referência à esquina da Rua Helvétia com a Alameda Cleveland, local onde está a concentração de pessoas que usam crack – determinam as ilhas, as “latitudes” e localizações das pessoas na organização interna do
fluxo.9 Utilizo o termo “arquipélago” para representar os inúmeros pontos do centro da cidade que essa dinâmica em torno do uso de crack já assumiu ao longo das últimas três décadas. A transitoriedade do “fluxo” fica na memória de ruas e esquinas da região da Luz. Logradouros como Protestantes, Triunfo, Gusmões, General Osório, Duque de Caxias, Julio Prestes, Princesa Isabel, Andradas, Barão de Piracicaba, Helvétia, Glete, Cleveland, Nothmann e Dino Bueno caracterizam e relacionam-se, em diferentes momentos da história, com o termo Cracolândia, que acompanha o bairro desde a chegada do crack na região central. Antes de refletir sobre a atualidade da Cracolândia, vale resgatarmos a trajetória dessa parte da cidade, que historicamente acolhe dinâmicas não só informais, mas também carregadas pelo peso moral socialmente construído em torno das drogas ilícitas. Essa zona, que engloba os bairros da Luz, Campos Elíseos e Santa Efigênia, é conhecida como região da Luz, e assim serão as referências ao território ao longo do texto.
A região da Luz, ponto tradicional da cidade de São Paulo, concentra além do Jardim Público duas antigas e importantes estações de trem. A zona é conhecida também como Cracolândia, devido à grande concentração de pessoas que fazem uso de crack há pelo menos três décadas. Para traçar um histórico desse território considero importante destacar quatro momentos nessa trajetória. Primeiro, o início da presença social, que chega por meio da igreja ainda no período colonial (Calil et al., 2017). Posteriormente, a ocupação por uma elite já no processo agudo de urbanização no século XIX. Em terceiro lugar, a instalação da rodoviária em frente à Praça Júlio Prestes em 1961. Esse terceiro momento é apontado como o fator que instaura definitivamente os processos de transformações urbanísticas e sociais na região (Calil, 2015; Branquinho, 2007). Por fim, a territorialização do uso de cocaína fumada, o crack, a partir da década de 1990.
Antes da configuração da cidade, ainda no século XVI em 1579, um casal de portugueses trouxe de Portugal uma imagem da Nossa Senhora da Luz. Ao desembarcar no Brasil, a bela imagem de barro dotada de olhos de vidro foi acomodada em uma pequena ermida nessa zona periférica do pequeno povoado. A imagem da Santa ainda hoje se encontra no Museu de Arte Sacra de São Paulo, também na região da Luz. A região era ponto de passagem de tropeiros, viajantes, comerciantes, devotos etc. (Arroyo, 2010), e rapidamente se tornou uma referência para fiéis da época. Os fiéis que se dirigiam à pequena ermida com suas preces logo começaram a se referir a essa zona como região da Luz, fazendo referência à imagem Santa.
Por dois séculos essa zona foi ocupada por fazendas, até que em 1774 ocorreu a transformação do local com o início da construção do grande mosteiro da Luz. Uma construção arquitetônica imponente, simbolizando o poder da igreja com o objetivo de impulsionar a expansão urbana dessa região. A cidade se expandia, e em 1881, iniciou-se a construção do Santuário Coração de Jesus, no Largo Coração de Jesus, referência local onde atualmente está o “fluxo”, a parte chamada de Cracolândia.
A ascensão do café brasileiro no mercado internacional no final do século XIX favoreceu a construção das estradas de ferro para escoamento da produção do interior do estado de São Paulo até a capital, e posteriormente ao porto de Santos para exportação. Assim, o loteamento urbanístico da região surgiu em 1879 exclusivamente destinado à elite cafeeira, justamente ao lado da estação de trem. Segundo a geógrafa Amalia Ines Geraiges de
Lemos,10 essa manobra estratégica de disposição da elite da cidade próxima às ferrovias perpetua a relação política e econômica unilateral com as metrópoles europeias, produzindo mudanças profundas na sociedade paulistana até meados dos anos 1920.
Amalia acrescenta que, já no início do século XX, a cidade tornou-se um canteiro de obras com inúmeras transformações arquitetônicas e urbanísticas, e os contrastes se acentuaram com a combinação entre a crise da economia cafeeira no final dos anos 1920 e a mudança de uma economia agrário-exportadora para uma economia urbano-industrial. Essa mudança radical fez com que a região perdesse importância econômica, proporcionando a migração da elite paulistana para outras regiões mais afastadas do centro como o bairro de Higienópolis e a Av. paulista (Branquinho, 2007).
Entre as décadas de 1930 e 1940, a popularização da região extrapolava o setor residencial para os setores comerciais e de pequenas indústrias, transformando drasticamente a paisagem e a vida cotidiana. A região atravessou um processo intenso de desvalorização e passou a ser ocupada por uma população com menor poder aquisitivo, e, consequentemente, houve a redução de atenção e investimentos públicos na área. Durante a década de 1940 a cidade de São Paulo cresceu vigorosamente, segundo Nabil Bonduki (2004, p.248) citando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 1940-1950, “passando de 1,3 milhões para 2,2 milhões”.
Junto à industrialização, chegou o advento do automóvel como alternativa ao transporte, favorecendo a introdução de planos de avenidas para dar fluidez ao tráfego de carros (Branquinho, 2007). São Paulo de fato adotou a ótica rodoviarista, privilegiando a construção de avenidas radiais e perimetrais, descartando a acessibilidade local para a região da Luz (Simões Júnior; Righi, 2001). Para a introdução do Plano de Avenidas ocorreram muitas desapropriações e despejos na região central. Novamente segundo Bonduki (2004, p.249), entre 1945 e janeiro de 1947 ocorreram 8.226 despejos formais, totalizando 45 mil pessoas desalojadas. Somente na região da Luz, 86 pessoas foram colocadas na rua sem ter para onde ir, e na época ficaram conhecidas como a “legião dos sem-abrigo”. Já nos anos 1940 vemos um esboço do que viria a se configurar como o bairro setenta anos depois (Calil, 2015).
Na década de 1950, uma intervenção do poder público local ocasionou o fechamento de estabelecimentos de prostituição no bairro ao lado, o Bom Retiro. As profissionais do sexo se deslocaram para bairros vizinhos, como a região da Luz (Branquinho, 2007), e essa atividade estimulou o surgimento de serviços que acompanham esse mercado, como bares, boates, hotéis, restaurantes e cinemas adultos, entre outros. A percepção de uma degradação moral soma-se como mais um marco nessa trajetória (Calil, 2015).
Em 1961, inaugurou-se a rodoviária de São Paulo no cerne do território, na praça Júlio Prestes. Percebe-se como o valor da terra mostra-se determinante nessa trajetória, mas dessa vez não pelo valor da terra em si, mas do que se pode extrair dela. A rodoviária ilustrava o progresso econômico da cidade, e a grande circulação de veículos transformou drasticamente a paisagem e a atmosfera local. A grande movimentação de pessoas, muitas delas migrantes, consolidou a oferta de hotéis baratos, comércio ambulante e acentuação do meretrício. A cidade crescia, e segundo Milton Santos (1993, p.14), como consequência ao crescimento econômico obtido vem no pacote “a concentração de riqueza e as injustiças, já grandes, de sua distribuição. Entre as pessoas e entre os lugares”.
A popularização das moradias, o maior fluxo de pessoas, as intervenções urbanísticas que favoreceram a fluidez de carros e capital, somadas ao florescer de uma economia informal, dissolveram por completo a identidade inicial “aristocrática” da região. Como em Bogotá, a transferência da rodoviária para outro ponto distante do centro em 1982 ocasionou impactos locais imediatos. Segundo o urbanista Jorge Wilheim, “com a desativação, houve uma estrutura ociosa de hotéis e bares que se tornaram alvo fácil para a degradação da área” (apud Brandalise, 2010). O esvaziamento e a consequente desvalorização no preço dos imóveis possibilitaram a ocupação por empresas de transporte rodoviário menores, muitas delas clandestinas, que até recentemente ainda atuavam no território principalmente com destino ao Maranhão e Paraguai.
A saída da rodoviária causou uma inacessibilidade para o bairro, que ficou escondido em um canto da cidade entre as grandes avenidas Rio Branco e Duque de Caxias e as linhas de trem. Com a sedimentação de um modo de vida em torno de bares, cortiços, pensões e hotéis baratos, quando o crack chegou ao centro de São Paulo na década de 1990, não à toa o uso e comércio da substância se territorializou na região da Luz. A sobrevivência por meio de mercados informais e por vezes ilegais e a dinâmica em torno das drogas passaram a redesenhar a identidade local (Calil, 2015).
Entretanto, o aumento da população de baixa renda, o número de cortiços, a prostituição, o trabalho informal, o comércio ilegal e o uso de drogas, incluindo o crack, trouxeram de fato outras funções e sentidos para esse espaço urbano. Segundo Frúgoli e Spaggiari (2010, p.16), ao longo do tempo o termo “cracolândia” foi se aproximando cada vez mais ao nome do bairro, enfatizando “certa dimensão territorial, com uma tendência a ser fixado espacialmente do ponto de vista da representação, como ocorreu efetivamente no bairro da Luz, que praticamente passou a ser sinônimo de cracolândia”. Assim, atividades praticadas na rua, nos espaços públicos e com alta visibilidade para a população e os veículos de comunicação configuram um cenário propício para inúmeras respostas imediatas de intervenção pelo poder público.
Em 2005, a chamada Operação Limpa iniciou a execução de grandes intervenções do poder público com o objetivo de acabar com a Cracolândia. Durante essa operação, as pessoas em situação de rua e/ou que fazem uso de drogas migraram para dois quarteirões ao lado. A Operação Limpa se mostrou bastante repressiva e excludente em relação às pessoas que usam drogas. Nessa época foi lançado o Projeto NovaLuz, um plano de renovação urbana que explicitamente não incluía a população local, e assim, a região, e consequentemente seus habitantes, se tornaram alvos de insistentes intervenções violentas e coercitivas pelas forças policiais do Estado (Calil, 2015).
Em 2009 e 2010 se iniciaram as ações do Programa Centro Legal. O propósito do programa era o rápido e eficiente encaminhamento das pessoas ao sistema de saúde. Para isso, inauguraram três serviços como portas de entrada: dois ambulatórios de assistência médica, o AMA-Boraceia e o AMA-Centro e o Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), os dois primeiros de administração municipal, e o terceiro, um equipamento do Governo do Estado de São Paulo. Em 2010 e 2011, as pessoas que usavam crack passaram a se estruturar no território. Além da construção de barracos improvisados nas calçadas, elas passaram a ocupar alguns imóveis nas ruas Dino Bueno e Helvetia. Diversos atores como agentes de saúde, profissionais do Centro de Atenção Psicossocial especializado em Álcool e Drogas (Caps-AD) da Sé e movimentos sociais estavam articulando oficinas em conjunto às quartas-feiras, o que finalmente inaugurava uma rede de cuidados se fortalecendo.
Contudo, no início de 2012, o prefeito Gilberto Kassab emplacou a Operação Sufoco, conhecida popularmente e nos meios de comunicação como Operação Dor e Sofrimento. Os nomes dizem bastante coisa. O objetivo era claro: expulsar sistematicamente as pessoas por meio da repressão policial, para que assim buscassem apoio nas tímidas ações de saúde e assistência que ofertavam vagas para internação em comunidades terapêuticas. Meses após a ação, o Ministério Público (MP) abriu um inquérito contra o Governo
do Estado sob a denúncia de violação dos direitos humanos.11 Segundo relatório final desse inquérito, concluiu-se que
Tal operação policial do Governo Estadual “atropelou” aquelas iniciativas e, sem qualquer planejamento global que levasse em conta aquelas providências, abortou as iniciativas dos órgãos e, ao mesmo tempo, não construiu qualquer solução consistente para o problema da Cracolândia (p.40). O certo é que a apuração aqui realizada demonstra que os órgãos
assistenciais e de saúde não foram consultados em momento algum sobre a pertinência ou conveniência de se promover uma forte ação repressiva contra os dependentes químicos da região. Na verdade, não foram sequer avisados! (p.41)
Rapidamente começaram as críticas em relação à estratégia adotada pelo poder público e assim entrou em cena a Defensoria pública, que iniciou atendimento com distribuição de pastas sobre direitos humanos na região e coleta de relatos de violações. Foram 79 registros de violações em apenas onze dias. Em ação isolada, a Defensoria Pública conseguiu um habeas corpus preventivo para uma pessoa que faz uso de crack, impedindo que ela fosse revistada sem justo motivo. Alternativas ainda modestas para contrapor a arbitrária violência policial finalmente começavam a se apresentar. A repercussão da intervenção policial atingiu dimensões nacionais e as diferenças se demarcavam na opinião pública, que parecia dividida. Nesse cenário, cresceu o ativismo e o diálogo sobre a temática das drogas e outros movimentos sociais começaram a se manifestar. No objetivo de expulsar as pessoas do território, a Operação Sufoco conduzida por Kassab foi um fracasso. Em pouco tempo o uso e comércio de crack retornou para o mesmo local nas imediações das Ruas Helvétia e Dino Bueno, um ciclo muito semelhante ao que acompanhamos no Cartucho/Bronx em Bogotá.
Assim, aos poucos cresceu o fetiche sobre a Cracolândia, que vem se tornando produto político neste início do século XXI. O território passou a figurar em discursos eleitoreiros como justificativa de intervenção, venda e introdução de projetos de requalificação urbana. Em janeiro de 2013, a nova gestão municipal sob o comando de Fernando Haddad apresentou uma mudança no cenário. Enfim se esboçou uma tentativa de escuta e possibilidade de colocar em contato a gestão pública e os atores sociais do território. Um ano depois, em janeiro de 2014, surgiu o Programa De Braços Abertos, que com uma proposta mais humana, pautada pelos princípios da redução de danos, garantiu direitos como moradia, trabalho, renda e alimentação às pessoas que faziam uso de drogas no próprio território, sem exigência imperativa da abstinência.
Com o início do De Braços Abertos, a dinâmica mudou. A intenção de dialogar intersetorialmente, inicialmente entre as secretarias da Saúde, Assistência Social e Trabalho, e posteriormente com outras secretarias como a de Cultura e Direitos Humanos, foi evidente para um avanço significativo na oferta de cuidado e acesso aos direitos. Segundo relatos de pessoas que fazem o uso de crack, o programa foi importante para auxiliar no processo de reorganização pessoal. Paralelamente ao programa De Braços Abertos da Prefeitura, havia o Programa Recomeço, do Governo do Estado, que visa à abstinência total e à internação das pessoas. A disputa pelo modelo de cuidado fragmentava os processos das pessoas. A inovação do programa De Braços Abertos apresentou iniciativas interessantes por parte do governo municipal entre 2013 e 2016, porém, durante o mesmo período permaneceram a violência e a repressão policial por ambas as esferas governamentais no território (município e estado), principalmente em relação às pessoas em situação de rua e que usam drogas.
Em janeiro de 2017, no início da gestão de João Dória (2017-2018), mais uma ação expressiva e violenta por parte da gestão municipal. A intervenção justificou-se por uma alteração no Decreto nº 57.069, de 17 de junho de 2016. A alteração foi a retirada de um parágrafo que dispunha sobre os procedimentos e o tratamento à população em situação de rua durante a realização de ações de zeladoria urbana. Nessa data, 17 de junho de 2016, a Defensoria Pública junto aos movimentos de trabalhadores do território conquistou o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) sobre a atuação da Guarda Civil Metropolitana (GCM) nas ações de zeladoria urbana no território. O TAC previa a proibição ao recolhimento de bens, pertences, documentos ou receitas médicas, entre outros itens, e vedava a remoção forçada de pessoas fora das hipóteses previstas em lei. Com a retirada desse parágrafo e consequente suspensão do TAC, logo foram retomadas as ações violentas de limpeza diária no fluxo e a apreensão de bens da população na região da Luz. A condução das políticas públicas foi aos poucos se reduzindo às manobras jurídicas que oportunamente favorecem um lado ou outro, dependendo do enraizamento moral de cada magistrado. E assim, a violência é legitimada juridicamente.
Sobre esse pano de fundo, a violência policial tornou-se cotidiana no território, e no dia 7 de março de 2017, a Prefeitura apresentou a proposta do novo programa, o Projeto Redenção, desconsiderando o aprendizado nítido que a cidade de São Paulo já havia adquirido com o programa De Braços Abertos (DBA) entre 2014 e 2016 no trato da questão da Cracolândia e suas políticas locais. Após essa
apresentação no início de março, por preocupação12 com uma possível reedição da Operação Sufoco de 2012, o Ministério Público do estado de São Paulo convocou a sociedade civil, universidades e conselhos como o da Infância e Juventude, (CMDCA), da Assistência Social (Comas), da Saúde (CMSSP), o Conselho Municipal de Políticas sobre Drogas e Álcool (Comuda), o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), o Conselho Regional de Psicologia (CRP-SP), o Conselho Estadual de Políticas sobre Drogas (Coned) e a Defensoria Pública de São Paulo para a realização de reuniões junto à Prefeitura para apresentação do Projeto Redenção, buscando efetivar os espaços legítimos de diálogo e a participação social para a formulação de políticas e programas.
Nesse momento, com essa instauração de procedimento administrativo de acompanhamento de políticas públicas
pressionada pelo Ministério Público, 13 iniciou-se um diálogo nitidamente forçado com o poder público municipal. Em uma das primeiras reuniões, que contou inclusive com a presença do prefeito em exercício em 2017 João Dória, diversas entidades e instituições apresentaram suas considerações em relação ao território e as alternativas possíveis de políticas públicas mais humanas e integradas. Entretanto, a postura e fala do prefeito João Dória pareceram resistentes ao diálogo. Após escutar algumas das considerações, Dória afirmou de forma enfática que seguiria as ideias da campanha, mantendo o ideal obsessivo de acabar com a Cracolândia, e se desculpando antecipadamente, se retirou da reunião antes do término devido a outro compromisso em sua agenda. Assim, o protótipo de diálogo foi rompido por imposição da Prefeitura, e dias depois, em 21 de maio, a resposta chegou mais uma vez com grande ação violenta por parte da Segurança Pública (estado e município). Uma ação policial na qual mais de novecentos oficiais avançaram com tiros e bombas com o objetivo de desmantelar a Cracolândia. Violência, remoções e demolições ilegais juntaram-se ao cenário e explicitaram as intenções urbanísticas e os interesses políticos em jogo. Com a intenção de expulsar a população local por objetivos financeiros de interesse imobiliário, a violência policial no território aumentou acentuadamente. Na ocasião, o prefeito João Dória chegou a alegar que havia conseguido “acabar com a Cracolândia” apresentando fotos da rua Helvétia e Dino Bueno desertas sem a concentração de pessoas. No entanto, o “fluxo” havia se deslocado apenas duzentos metros e se restabelecido temporariamente na Praça Princesa Isabel.
Dois dias depois, no dia 23 de maio de 2017, mais um episódio do espetáculo midiático. Enquanto o próprio ex-prefeito João Dória dava entrevistas no local sobre o processo de “revitalização”, simultaneamente ocorriam as primeiras demolições na quadra 38. Porém, o espetáculo da Prefeitura proporcionou ao ex-prefeito presenciar uma cena infame quando a retroescavadeira iniciou a demolição de uma parede de uma pensão e gritos surgiram: “machucaram gente aqui dentro! Nós tava dormindo, o que que está acontecendo? Tem mulher grávida por aqui” (G1, 2017). Sim, o pior aconteceu. A demolição do imóvel iniciou ainda com pessoas em seu interior. Nessa ocasião, três pessoas foram feridas. Após o ocorrido, Dória se ausentou da situação e mais uma vez deixou o local. A administradora da pensão, Valdete, e os moradores afetados, explicaram que não foram avisados da demolição (Prédio demolido…, 2017). Já o secretário de obras da Prefeitura de São Paulo da época, Marcos Penido, alegou que as pessoas haviam sido retiradas e que depois retornaram voluntariamente e se colocaram em risco. O secretário ainda justificou-se acrescentando que o corredor dava acesso a uma pensão clandestina, criminalizando o espaço e as vítimas que ali residiam (Santiago, 2017).
Na noite de 21 de junho de 2017, exatamente um mês após a grande operação policial que resultou no deslocamento do “fluxo” para a Praça Princesa Isabel, acompanhei o surpreendente retorno dessa dinâmica para as imediações da Praça do Cachimbo, próximo às ruas Helvétia e Dino Bueno. Viaturas policiais cercaram a praça e forçaram o único caminho possível em direção ao ponto de origem do “fluxo”. As pessoas caminhavam pacificamente, sem conflito, me parecia que algo havia sido combinado para que acontecesse assim. Quando questionei ao inspetor da GCM sobre o motivo desse novo deslocamento do “fluxo” a resposta foi: “Temos que devolver a praça para a comunidade”. O discurso expresso pela força de segurança pública manifestou nitidamente a compreensão do poder público sobre a situação, e sacramentou a falência das políticas públicas oferecidas ao território. Para o Estado, as pessoas em situação de rua não compõem a comunidade.
Dessa forma, urgências atreladas a vaidades políticas e ausência de diálogo se sobrepõem à necessidade de planejamento e construção de propostas mais sólidas. De forma nitidamente atropelada, teve início o Projeto Redenção. A partir de 2017, a região e o fetiche da Cracolândia consolidaram-se como produto político, e as violações de direitos às pessoas em situação de rua e que usam drogas continua de forma arbitrária, expandindo-se para todo o bairro incluindo moradores, comerciantes e trabalhadores. A conjuntura política entre 2017 e 2018 foi de disputas políticas acirradas entre o Governo do Estado e o governo municipal, e certamente os ânimos ricochetearam no jogo de poder entre a Guarda Civil Metropolitana (municipal) e a Polícia Militar (estadual) no território. Como resultado houve o aumento da demonstração de força e consequentemente da violência policial. No pacote da hostilidade e violações de direitos, muitos moradores perceberam-se também vítimas da violência policial cotidiana. Em 19 de setembro de 2017, por volta das 20 horas, Oscar, trabalhador e morador de uma pensão na Rua Helvetia, estava indignado após um efetivo
policial na área. Segundo relato de campo (Figura 9), todos os dias têm esse absurdo acontecendo, essa humilhação […] Você sabe o que é isso? Eu saio da minha casa e vem a Polícia e me aponta uma arma na cabeça? No Rio de Janeiro é o crime que está atazanando a vida das pessoas, os bandidos. E todo mundo não pode sair de casa. Aqui em São Paulo não posso sair de casa porque a polícia que não deixa! Um absurdo! (Diário de campo, 19 set. 2017)
Figura 9 – Violência policial cotidiana nos Campos Elíseos,
região da Cracolândia, São Paulo
Fonte: desenho elaborado pelo autor.
Também em 2017 iniciou-se a construção de diversos prédios de uma Parceria Público-Privada (PPP) Habitacional no terreno onde se localizava a antiga rodoviária demolida em 2010. Os prédios que estão sendo construídos apresentam três tipos de moradia: um, dois ou três dormitórios. Porém, segundo levantamento e caracterização social realizados pelo Fórum Aberto Mundaréu da Luz, existem pelo menos seis diferentes tipos de perfis das famílias e pessoas que residem no bairro, apresentando configurações de até sete pessoas por família, incluindo jovens e idosos. Para concorrer a um apartamento era preciso ter carteira de trabalho registrada na região central e residir longe do centro. Porém, mais uma vez segundo o levantamento do Fórum Mundaréu, a maioria das pessoas que residem no bairro vive de trabalhos informais e mora no centro, o oposto dos requisitos anunciados na concorrência. Os novos empreendimentos imobiliários dialogam com a realidade do bairro? Não, muitos dos apartamentos já foram leiloados para outras pessoas em 2015. Nitidamente a intenção não é trazer qualidade para quem historicamente vive ali, mas sim atrair outras pessoas com maior poder aquisitivo para a região central.
O contra-ataque
Após a desastrosa e violenta ação da segurança pública na região da Luz em maio de 2017, diversos atores sociais se mobilizaram em torno do tema. Um disparo importante para o território surgiu da aproximação da arquiteta e urbanista Raquel Rolnik. Em julho daquele ano, ocorreu o primeiro encontro no teatro Pessoal do Faroeste do que em poucos meses se tornaria o já citado Fórum Aberto Mundaréu da Luz.
O Mundaréu surgiu como um ator político, e o primeiro passo foi reunir atores e frentes de atuação. A ideia era conectar diferentes pessoas, e assim iniciar uma reflexão sobre uma gestão local para o território. As reflexões iniciais giravam em torno da compreensão de que as pessoas desse território – que de forma generalizada se tornavam vítimas das atuais e iminentes ações dos “combos de renovação urbana” – precisavam se conhecer, se conectar, se aproximar pelo afeto, pela memória, pela ideia de conviver. Era uma proposta de mobilizar o bairro da Luz para lutar pelos seus próprios interesses, contrapondo os movimentos higienistas de interesses políticos, econômicos e imobiliários apresentados pelo poder público em composição com iniciativas privadas. Inicialmente, a estratégia adotada pelo fórum foi ocupar a rua.
Em 28 de outubro de 2017, ocorreu a primeira atividade coletiva proposta pelo Mundaréu no bairro. Foi uma atividade na rua, com propostas lúdicas e informativas, e com o objetivo de nos aproximarmos dos moradores iniciamos com uma mesa, papéis e canetas coloridas. Crianças foram chegando. Os desenhos nas mesas começaram a dividir atenção com a colagem de lambe-lambes nos tapumes das obras da PPP, assim como painéis preenchidos pelos moradores sobre as percepções locais e falas abertas no microfone da Rádio Mundaréu. Lançamos e apresentamos a proposta do Fórum para os moradores, para a cidade. Mídias, universitários e a população curiosa timidamente se aproximavam das atividades ao longo do dia. Enquanto a Rádio Mundaréu amplificava os improvisos da batalha de rimas que citavam a realidade de excessiva violência policial na área, crianças se aproximaram de mim e disseram: “Tio, não canta essas coisas não… senão a polícia vai jogar bomba”. É dessa realidade que estamos falando, em que o medo da polícia atravessa as crianças, e transforma o artístico e o lúdico em receio.
Apesar do peso dos relatos das crianças, encerramos a atividade com um sentimento positivo, porém com algumas inquietações acentuadas: quais estratégias podemos adotar para agregar mais vozes do bairro? Como aumentar a participação? Como facilitar diálogos entre os próprios moradores e frequentadores do fluxo? Como enfrentar a excessiva violência policial instaurada na subjetividade comunitária? O que propor para um território tão complexo?
Esse foi o pontapé inicial de uma ideia que se fortaleceu e ganhou corpo ao longo dos meses seguintes.
Campos Elíseos Vivo
No final de 2017, com o avanço da violência policial e o amadurecimento do Fórum Mundaréu da Luz como coletivo, a compreensão do valor da escuta dos diversos atores da comunidade local era unânime. Porém, todos sabíamos que essa estratégia requer investimento a médio-longo prazo. Em um território onde a iminência de erupção urbanística ou policial se faz presente a cada segundo, claramente não tínhamos tempo. Era urgente uma cartada mais aguda.
Assim, o início de 2018 foi a hora de nossa ofensiva. A estratégia do coletivo Mundaréu da Luz foi a elaboração de uma proposta concreta para o bairro, uma proposta viável que pudesse ser apresentada como alternativa possível, além de ser um fato político de peso no enfrentamento da institucionalidade governamental. A aposta era que a criação de um projeto urbanístico viável, capaz de contrapor o projeto da Prefeitura e do Governo do Estado, fosse capaz de evidenciar os prejuízos inerentes ao modelo das PPPs que invalida completamente as necessidades reais da região. Dessa forma, o projeto proposto pelo Mundaréu, intitulado Campos Elíseos Vivo, se propôs a fazer justamente o que o modelo de PPPs nega: escutar a população que reside, trabalha e frequenta o espaço.