As Drogas, as Pessoas e as Cidades

Thiago Godoi Calil · Capítulo 4 de 8 · parte 5/5

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As Drogas, as Pessoas e as Cidades

Segunda parada – Reflexos da travessia Brasil – Colômbia

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Na guerra declarada entre o Estado colombiano e os Estados Unidos contra o Cartel de Medellín, Escobar se tornou um dos protagonistas no fim do século XX. De forma geral, as ações de violência e os ataques terroristas orquestrados pelo cartel eram executados por sicarios, jovens pistoleiros que – como na juventude de Escobar – não tinham nada a perder e que viam no envolvimento com o tráfico de drogas a única possibilidade de reconhecimento social e melhora de status econômico. Para isso, atentados e assassinatos tornaram-se fonte de dinheiro e prestígio, e a morte tornou-se um produto rentável por meio da galopada de homicídios, que se tornou a principal causa de mortalidade no país em 1985 (Riaño-Alcalá, 2006). Segundo a antropóloga Riaño-Alcalá (ibidem, p.34, tradução minha), que investigou as estruturas históricas e sociais da juventude em Medellín, “esta imagem de um jovem despossuído de afinidades ideológicas que recebia dinheiro privado para matar alguém ilustra a magnitude da crise social que estava ocorrendo no país”.

Um dossiê especial35 publicado pelo jornal de Medellín El Colombiano apresenta que só na região metropolitana de Medellín, Escobar é considerado responsável por pelo menos cinquenta atentados que ocasionaram milhares de mortes. Segundo Bowley (2013, p.57), em conversa com seu advogado, Escobar chegou a afirmar que depois de ter crescido e sobrevivido sob as sombras da época de La Violencia, percebeu que o terrorismo “era a única maneira para os pobres de contra-atacar”.

Entre 1991 e 1992, a taxa de homicídios na Colômbia era de aproximadamente 80 a cada 100 mil habitantes. Já em Medellín, a taxa superava as 350 mortes a cada 100 mil habitantes (Cardona et al, 2005). Como alternativa polêmica e certamente desesperada para atenuar a onda de sangue e medo na sociedade colombiana, o presidente colombiano César Gaviria recuou na política de extradição. Gaviria aceitou a rendição de Escobar à justiça, porém, sob a acusação de apenas um delito, além de aceitar condições ousadas pautadas pelo acusado: ser preso na própria prisão construída por ele e administrada e protegida por seus próprios guardas (ibidem). Dito e feito, surgiu assim a prisão particular de Escobar, La Catedral. Poucas evidências da carreira criminal de Escobar apareciam para a população. Assim, a espetacular perseguição na busca do traficante – que inclusive contou com episódios tragicômicos como sua exitosa fuga da La Catedral – reforçava a imagem de salvador dos pobres. A imagem de herói associada à extravagante ostentação exercida pelos traficantes repercutia com certo apelo positivo no imaginário popular.

 

Estética epopeica

 

Não foi Escobar que inaugurou a extravagância dos traços estéticos que acompanharam sua trajetória. Ainda nos anos 1960, surgiu em Medellín a figura dos camajanes, um grupo de homens jovens que, por meio de linguagens e vestimentas próprias, faziam uma contestação à exclusão social moralizadora. Eram os típicos malandros, que circulavam entre os bares e eram conhecidos por todos da comunidade como continuação de uma cultura patriarcal que se propagava na sedimentação do poder na figura masculina. Com o aumento de viagens aos Estados Unidos nos anos 1970, e o fluxo de camajanes nesse trajeto, o termo sofreu a mutação para a figura do traqueto, que como evolução dos camajanes assumiu a função de abrir mercados para a cocaína nos Estados Unidos (Riaño-Alcalá, 2006). Assim, a união entre dinheiro, poder, ostentação e extravagância norte-americano naturalmente nos remete a Escobar.

Realmente em relação a Pablo, o glamour se justificava. Em 1987 Escobar foi apontado como o sétimo homem mais rico do mundo pela revista Forbes, com o Cartel de Medellín faturando cerca de US$ 3 bilhões de dólares por ano (Michaels, 1987, p.154 apud Jaramillo, 2017, p.S4697). Um dos ícones da estética epopeica de Pablo foi sua enorme fazenda no interior do país chamada Hacienda Nápoles. A fazenda se tornou uma espécie de menagerie que exibia coleções de animais exóticos em referência à nobreza europeia em meados do século XVIII como afirmação de poder e realeza – afinal, cuidar de animais é mais custoso do que cuidar de plantas (Zoo and Aquarium History, 2001, p.2 apud ibidem, p.S4698). Segundo seu filho, Juan Pablo Escobar, um dos animais preferidos do pai era um papagaio adquirido ilegalmente no Brasil por um valor próximo a cem mil dólares, por volta do ano de 1982 (Jaramillo, 2017).

A fazenda Nápoles representava concretamente o poder de mutação e certo controle da realidade que o fenômeno do arribismo apresentava para os grandes nomes do tráfico de cocaína em terras latinas. Pagar pela fragmentação da realidade atravessada por episódios de fantasia, magia e excitação proporcionava aos traficantes de drogas e suas famílias um “viajar além dos limites” (ibidem). Essa possibilidade foi almejada também, mas certamente em outros moldes, para toda a população da Colômbia, pois a entrada na fazenda para visitação era gratuita, e por volta de 1982 aproximadamente 25 mil carros chegavam ao local toda semana. Seu filho afirma que Escobar enfatizava que “enquanto ele estivesse vivo, todos poderiam visitar Nápoles de graça, porque ele queria que os pobres pudessem desfrutar da natureza” (Escobar, J. P., 2014, p.144 apud ibidem, p.S4701).

Próxima às características de um feitiço, a estética pautada pela ostentação narco proporcionada pelo tráfico de drogas paulatinamente engrossava no imaginário dos colombianos das classes mais baixas. Essa “fetichização de um cotidiano extravagante a todos” reforçava cada vez mais a imagem solidária de Escobar e, paradoxalmente, fidelizou um grupo de apoiadores justamente por ostentar o que o povo dificilmente poderia alcançar.

O tombo simbólico

 

O fim da caça ocorreu em 2 de dezembro de 1993 com a morte de Escobar em um tiroteio com a Polícia Nacional em um telhado de uma casa em zona residencial da classe média de Medellín. Voltando à situação inicial deste capítulo no Cemitério Montesacro: a jovem reivindicava o não anonimato de Pablo mesmo 25 anos após seu tumultuado velório com teor de devoção. O fato é que Escobar virou lenda, seja como vilão ou como herói, e as percepções e discursos referentes a ele drasticamente variam entre polos opostos, mas Bowley (2013, p.62, tradução minha) cuidadosamente aponta que “Nenhum dos lados apresenta uma única verdade sobre a identidade de Escobar. No entanto, na criação de uma lenda, seja um herói lendário ou um célebre vilão, a verdade não importa tanto quanto a história e o que isso significa para quem a conta”.

É certo que o nome de Escobar ainda ecoa. Desde meados dos anos 2000 a cidade de Medellín se esforça para se apresentar internacionalmente não mais como a mais violenta, mas como uma cidade moderna e inovadora. Empenho não falta na tentativa de apagar seu histórico de violência. O fato é que, independentemente desse trânsito de representações referente à cidade, a violência permanece em foco, seja pelas lembranças da época de Escobar, seja pelo momento atual que tenta arduamente ignorar seu passado. Justamente pela ambiguidade da imagem associada a Escobar, são diversos os atores envolvidos nessa arena da memória, ancorados cada qual em seus mais diversos interesses (Naef, 2018a). Do ponto de vista do discurso oficial do Estado Colombiano, pouco se diz sobre Pablo em museus ou demais instituições públicas. Porém, em âmbito popular, ele circula nas mais diversas subjetividades, expressões artísticas – como televisão, literatura, pintura – e também no que brota informalmente e se instaura em Medellín como os circuitos dos narcotours.

 

Herança?

Podemos pensar herança como um termo que engloba todo o conjunto de bens que uma pessoa falecida transmite aos seus sucessores. No caso de Medellín, o patrimônio é material e simbólico, e os sucessores de uma trajetória envolta pelo tráfico de drogas vão além de um ciclo de herança familiar. A lembrança de Escobar é presente entre muitos, e a partilha de um imaginário, seja positivo, seja negativo, afeta praticamente toda a cidade. Patrick Naef avança em terminologias que possam dar contorno para os desdobramentos que a complexa realidade de Medellín nos apresenta. Para Naef (2018a, p.8), “do ponto de vista teórico, introduzo o conceito de ‘narco-herança’, que permite refletir sobre a gestão de um patrimônio/legado complicado e dissonante […] observando as diferentes formas de representá-lo, do reconhecimento à reformulação e ao recobrimento”.

Para Naef (2018b, p.486), a narco-herança se faz em “objetos, locais e práticas que incorporam e representam a produção ilegal, bem como o consumo de drogas”. A possibilidade de uma narco-herança é composta por elementos que envolvem memória e identidade para um determinado grupo de pessoas, ou seja, a ideia de herança é uma produção contemporânea significativamente influenciada pela cultura atual. Assim é a realidade colombiana e de Medellín, na qual o presente da sociedade naturalmente a coloca em constante contato com o passado. Como herança de sua trajetória, a cidade tornou-se capaz de absorver uma amplitude de oportunidades e expressões relativas à abundância colombiana na economia da coca-cocaína e principalmente da imagem de Escobar, que certamente impactam em seus arranjos subjetivos e sociais (ibidem). Características em torno da dinâmica das drogas apresentam-se ambíguas e peculiares, como por exemplo pacotes turísticos que promovem a visitação em zonas de cultivos ilícitos de

coca.36 Essas ações, além de tornarem-se temas importantes de investigação quando compõem os pilares-chave no imaginário estético e cultural de/sobre um povo, tornam-se também mercadoria de consumo internacional.

A possibilidade de representações identitárias a partir de uma narco-herança não é exclusividade da experiência colombiana. No entanto, na Colômbia torna-se elemento peculiar quando persiste a insistência do poder oficial em recusar o reconhecimento de sua própria história (Taussig, 2013). Outra especificidade do país é a cocaína, substância que, como o ouro e demais economias de ciclo curto, agrega ilegalidade, corrupção, guerrilhas, paramilitarismo, desigualdade e violência, tudo na rota e fluxo do mercado – oficial e não oficial, formal e/ou informal (Naef, 2018b).

Rigorosamente, a cocaína cria movimentos. Desde a dominação dos incas e depois a colonização espanhola, a folha de coca chacoalha o imaginário de nobreza e riqueza, além de injetar muito dinheiro no mercado internacional. Em Medellín, os Pablotours ou narcotours ganham adeptos e mercado, mas seguramente geram desconforto e oposição ao serem qualificados pela mídia local como “pornografia social” (ibidem). Naef ressalta que um dos guias do diversificado menu de opções de narcotours apontou que Escobar é responsável por “colocar a cidade de Medellín no mapa” mundial, ou seja, independente dos motivos dessa conquista, implicitamente afirma que algum reconhecimento é necessário – reconhecimento alimentado por uma demanda, muitas vezes internacional, que torna essa controvérsia altamente sustentável. Sobre a polêmica presente na cidade em relação aos narcotours, um guia turístico, em trabalho de campo de Naef, se justificou pela alta demanda do negócio, e defendeu-se dizendo que “se tem que parar, nós paramos. Mas é um grande desafio porque as pessoas continuam exigentes. Este tipo de tour não precisa de publicidade” (fieldnotes, 8 maio 2015 apud Naef, 2018b, p.494, tradução minha).

As polêmicas giram em torno de argumentos que colocam os narcotours como práticas de apologia à violência ou ao narcotráfico. No fim de 2018 ocorreu o fechamento de um museu dedicado a Pablo que focava suas obras na “perseguição” realizada pelo Estado e nas obras sociais concretamente realizadas por ele. O museu foi idealizado por seu irmão mais velho, Roberto Escobar, que depois de passar quinze anos preso após o desmonte do Cartel de Medellín nos anos 1990 decidiu capitalizar também o passado da família, da cidade e do país. O museu situava-se em imóvel que foi um dos esconderijos de Escobar nos arredores de Medellín, e foi fechado pelo poder municipal sob alegação de que o estabelecimento “não dispunha das autorizações legais” para funcionar como equipamento cultural e turístico. Em reportagem da época, o discurso do prefeito Federico Gutiérrez (apud Medellín, 2018, tradução minha) girou também em torno de que “Medellín se transformou muito fisicamente, a questão é o quanto nos transformamos como sociedade? Precisamos de mais mudanças nas ‘fachadas internas’, desde o interior”. Gutiérrez afirmava a necessidade de estratégias culturais para contar as histórias das vítimas, e não a da “cultura mafiosa”.

Como ferramenta de obstrução, a via legal se apresenta viável, mas os desejos e intenções por trás do embargo por parte do governo são muitos. No imaginário do poder estatal colombiano, permitir tal prática é a perpetuação de um olhar tendencioso sobre a história. Entretanto, Roberto Escobar é elemento vivo e ainda ativo no legado de Pablo (Naef, 2018a). É possível deslegitimar uma história que ainda se escreve?

O incômodo do Estado é justamente a admiração que Pablo recebe da população, e como resposta visa explicitamente apagar esse capítulo da história. Oficialmente, o museu Casa de la Memória em Medellín é um dos raros equipamentos públicos que dedicam breves espaços e atenção para narrar essa etapa da história. A diretora do museu, Adriana Valderrama (apud Encartados…, 2017, tradução minha), apontou que a questão do tráfico não tem sido tratada nem pela institucionalidade pública, nem pela sociedade colombiana, “pois o tráfico de drogas e a cultura da máfia é algo que ainda se vive nos bairros, como vítimas, só podemos falar disso com as portas fechadas e somente com familiares ou amigos”.

Em paralelo, as produções artísticas em torno do tema limpam a mancha de esquecimento, principalmente as séries de televisão (Patrón del mal – 2012; Narcos – 2015) que se destacam como

sucessos bombásticos televisivos locais e mundiais. 37 Outras produções cinematográficas, como La virgem de los sicários (Barbet Schroeder, 2000) e Vendedora de rosas (Victor Gaviria, 1998), ambas premiadas em festivais internacionais, alimentam o glamour e possíveis aspirações violentas no cenário colombiano. De fato, há uma exacerbada fetichização da imagem quase mítica de Pablo, que envolto de certo heroísmo legitimado e exagerado pela fantasia de Robin Hood acaba nublando as dores e discursos das inúmeras vítimas da violência. Há espaço para outras narrativas ao redor das consequências da existência e práticas de Escobar para a sociedade colombiana?

O professor e jornalista Mauricio de Builes apresenta o necessário contraponto dos narcotours tradicionais focados no turismo fetichizado e capitalista das canecas e dos ímãs de geladeira com

fotos de Escobar. Builes criou o Projeto Narcotour38 em 2017 como um exercício de memória histórica, para amplificar as vozes das vítimas e familiares afetados pela violência. Nas palavras de Builes (apud Ruiz, 2020), em entrevista para o jornal El Tiempo, 25 anos depois da morte de Pablo, o projeto visa “fazer um exercício de memória jornalística e histórica, mas do lado desconhecido e necessário. Um narcotráfico contado por meio das vozes de vítimas e testemunhas de uma era que não queremos repetir” (tradução minha).

Oposto à posição do Estado colombiano, na entrevista citada Builes argumenta que em vez de eliminar essa história, poderia ser mais produtivo um processo de formação com os guias e programas de narcotours, em que o acesso a informações reais e importantes sobre a violência relacionada a esse período poderia enriquecer a informação já transmitida. De fato, olhar para a história por diferentes ângulos parece fundamental para uma compreensão mais rica sobre a cultura e a identidade local. Para o professor, seria importante que a floresta, as praias e inclusive o café colombiano se consolidassem como atrativos turísticos antes da turistificação dos anos mais violentos da história do país. Entretanto, a ambiguidade impera, e o crescimento da simplificada representação heroica e lendária é de fato atrativa para o turismo internacional. Em 2016 Medellín foi reconhecida como o destino turístico mais popular da

América do Sul.39

Essa simplificação excessiva das narrativas relacionadas ao tráfico de drogas não é privilégio colombiano, mas talvez de

cenários latinos. No México e no Rio de Janeiro no Brasil,40 onde desde 2008 ocorrem tours incluindo no pacote um “papo com o traficante”, é perceptível o apelo ao fascínio fetichizado sobre o mundo do crime glamoroso. O glamour atrai, e o aumento de curiosos nutre o estabelecimento de oportunidades econômicas por meio de dinâmicas turísticas. Mas o que fascina nessa glamorização?

A possibilidade de estar em contato com a excentricidade do mundo do crime sem estar exposto de fato à violência e os riscos que o caracterizam parece ser o trunfo capitalizado pelos narcotours nessa arena de disputa entre forças oficiais e populares (Naef, 2018b). Naef (2018a) complementa que para além de museus e memoriais oficiais, a cultura popular e o turismo possuem uma força orgânica significativa na construção da memória. O fascínio e a demanda turística sustentam-se à luz de conceitos emprestados da antropologia do turismo, como banalização, glamorização e mercantilização, e nessa toada, os narcotours seguem preenchendo o balaio entre promoção e apagamento, gerando concomitantemente fascínio e rejeição.

Porém, a realidade desses contextos é bastante complexa. Em países como Brasil, México e Colômbia, onde a ilegalidade perpassa diversas atividades e segmentos da sociedade, inclusive na política, a distinção entre vítimas e agressores nem sempre é facilmente definida (ibidem). A complexidade dos elementos e os diferentes pontos de vista relacionados à “narco-herança” evidencia a necessidade de olhares transversais e interdisciplinares para compreensão dos fatores históricos e políticos na construção da memória sobre a violência e a formação identitária desses territórios. A identidade é expressada por diversos produtos culturais como novelas, séries, gibis e pinturas emblemáticas do artista colombiano Fernando Botero. Como se não bastasse uma, Botero realizou uma segunda peça, já como resposta ao fascínio pela Escobarmania que passou a despontar em Medellín. As duas pinturas ilustram a morte de Escobar, ou seja, o fim do poderio do Cartel de Medellín. Entretanto, as imagens produzidas anos depois de seu falecimento praticamente selam a figura heroica e apoteótica de Escobar e sua morte no imaginário colombiano e de todo o mundo. A seguir, as quatro imagens de Botero referentes a Escobar

(figuras 18, 19, 20 e 21).

Figura 18 – A tela La muerte de Pablo Escobar, de Fernando

Botero, 1999

 

Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/geral-46406811.

Figura 19 – A tela Pablo Escobar muerto, de Fernando

Botero, 2006

 

Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/geral-46406811.

 

Figura 20 – O massacre, de Fernando Botero, 2000

 

Fonte: https://www.jornaldocomercio.com/site/noticia.php?

codn=84496.

Figura 21 – O carro-bomba, de Fernando Botero, 1999

 

Fonte: https://www.jornaldocomercio.com/site/noticia.php?

codn=84496.

 

Além de ilustrar a personagem que se tornou Escobar, o artista pinta, também em tinta a óleo, quadros que retratam a violência cotidiana em toda a Colômbia em meados dos anos 1980 e 1990. As peças fazem referência aos inúmeros ataques com carros-bomba, além de outras cenas de tocante barbárie provocadas pelo tráfico de drogas nas cidades do país. Dessa forma, independentemente da dicotomia intrínseca ao tema, as expressões artísticas de diversas naturezas colaboram para disseminar e informar sobre o legado de violência na história da Colômbia, assim como de Medellín especificamente (Naef, 2018a).

Autores e artistas locais contemporâneos inauguram o conceito de narcoestética (Rincón, 2009), que amplia as análises sobre a influência das identidades de glamosos traficantes e seus acessórios, das cirurgias plásticas que modelavam os corpos das mulheres colombianas e das marcas da violência que ficam na subjetividade de uma sociedade.

Nas palavras de Naef (2018a, p.11), as drogas não são “apenas um negócio, mas uma estética embutida na história e na cultura colombianas, que se manifesta na música, na televisão, na linguagem e na arquitetura”. A meu ver, a atenção a este tema inaugura novos ângulos de visão sobre as dinâmicas e reverberações dos territórios psicotrópicos, que aglutinam diversas características reais e imaginárias em torno do comércio e consumo de substâncias (Fernandes, 1998; Fernandes; Pinto, 2004).

 

Opulência monegasca

 

O legado material e simbólico de Escobar na cidade e nos habitantes de Medellín é visível e perceptível. Para além do processo de Moravia, que resultou na criação do Bairro Pablo Escobar, outros ícones, inclusive arquitetônicos, fazem referência a Pablo e estão distribuídos pela cidade. No início de 2019, quando eu iniciava minha estadia em Medellín, fiquei sabendo pelos jornais da implosão do Edifício Mónaco, imóvel residencial da família Escobar em Poblado, um dos bairros nobres na zona sul da cidade. Recordei que em dezembro do ano anterior os jornais colombianos informavam que a implosão estava prevista para fevereiro. Aconteceu. Em 22 de fevereiro de 2019 o Edifício Mónaco desapareceu da paisagem. O imóvel tinha quase 5 mil metros quadrados, oito andares e doze apartamentos, além de piscinas, quadras e um cofre do tamanho de um quarto.

A intenção da Prefeitura de Medellín foi demoli-lo para ali construir um parque-homenagem para honrar as 46.612 vítimas do narcotráfico entre 1983 e 1994. Certamente é importante ampliar a narrativa para a questão das vítimas, e de fato o grande turismo associado a Escobar contrasta com as lacunas de representatividade e organizações dedicadas às vítimas. O curioso é que esse número absoluto de vítimas no discurso público inclui todas as mortes decorrentes do conflito armado, incluindo traficantes, sicários e possivelmente o próprio Pablo Escobar. O projeto do Parque Memorial Inflexión é fruto de arquitetos da Universidade Nacional da Colômbia e vencedor do concurso público internacional promovido pela Prefeitura Municipal de Medellín que envolveu outros 44 projetos (Benavides, 2019).

Ironicamente, após a demolição, os controversos depoimentos da população local explicitaram ao mesmo tempo que ratificaram a dualidade presente na cidade. O jornal comunitário Gente Belén publicou, na primeira semana de março, uma matéria simplória narrando os fatos e com muitos relatos de cidadãos paisas, com depoimentos como “Mostra como nossos governantes são incapazes de usar a história a favor das novas gerações; poderia ser usado para uma solução de habitação, mas ao melhor estilo do traficantes, foi derrubado com uma bomba”; “Vai ser um futuro ponto turístico onde vão dizer ‘Pablo morava aqui’, vão vender fotos, camisetas e outras lembrancinhas” e “não vejo a diferença de terem derrubado aquele prédio, sabe o que eles vão chamar o que eles vão fazer lá? Parque do Paulo”. Esses depoimentos denunciam a pouca criatividade e responsabilidade do poder público de tratar a memória da cidade e seus habitantes.

A demolição de fato é controversa, pois há quem diga que essa estratégia não faz outra coisa a não ser ampliar a morbidez e o fetiche em relação ao império e à ousadia de Escobar (Llinás, 2019). Uma das vítimas, Gonzalo Rojas Peña (apud Hernández, 2018, tradução minha), em entrevista para o jornal El Espectador, disse: “Acho que o que deve ser feito é um exercício de construção de memória no sentido de não querer acabar com tudo e dizer que Pablo Escobar praticamente não existiu, é como querer cobrir o sol com o dedo, querer cobrir uma realidade forte e transcendental na história deste país”.

Gonzalo é filho de uma das 107 vítimas que estavam no avião da Avianca que explodiu sob responsabilidade de Escobar em 1989. Será uma homenagem às vítimas ou uma tentativa de apagar o passado criminoso e violento? A demolição do edifício teria alguma intenção midiática do prefeito Gutiérrez? Assim como Gonzalo, questiono se o edifício não poderia ser aproveitado para moradia, escolas, centros culturais ou hospitais. O risco é eliminar as pistas que poderiam ser educativas para as futuras gerações sobre uma parte da história que certamente não se pode repetir.

Reconheço a importância da homenagem às vítimas para a reparação dos traumas ocasionados pela violência. Tornar-se vítima é algo sério, e o historiador Jorge Orlando Melo aponta a necessidade de individualizar as vítimas e trabalhar cada caso especificamente com o devido respeito e o cuidado para não generalizar a dor e criar uma genérica vitimização massiva. Essa parece ser a estratégia adotada pela Prefeitura de Medellín.

A questão é que a história é sempre inexata, incompleta, o que impossibilita a crença de uma única versão oficial. Lidamos com fragmentos que remontam distintos olhares, compreensões e sentidos sobre a história. Mas onde está então a participação das vítimas no processo? Segundo a advogada da Corporación Jurídica Libertad Adriana Arboleda, que trabalha com vítimas de desaparecimento forçado, oferecer dignidade implica participação ativa das vítimas no processo de reparação, e Medellín historicamente é uma cidade irrigada pela ilegalidade e corrupção, em que “Todos os tipos de direitos são violados, porque se privilegia os interesses de alguns traficantes ou empresários que estão por trás de todos esses empreendimentos criminosos”. A decisão e acintenção do prefeito se tornaram ainda mais controversas e duvidosas, quando ainda em 2018 promoveu divulgação midiática de um vídeo em que proferiu a primeira marretada simbolizando o início das demolições (Hernández, 2018).

Recentemente, em paralelo à permanente ocorrência de conflitos, surgiram diversas iniciativas oficiais e não oficiais como museus, memoriais e uma multiplicidade de projetos artísticos para lidar com a constante de violência. Entretanto, o que senti é que diversos atores como vítimas, jornalistas, políticos e inclusive os criminosos coabitam a mesma arena em uma disputa tensa pela preservação, esquecimento ou criação de uma memória. Histórias passadas sobre o mesmo solo que narram fatos e afetos sob diferentes óticas criam uma fricção capaz de disparar produções culturais e compreensões sob duras controvérsias (Naef, 2018b). A reflexão de Naef consiste na mercantilização de um cotidiano violento que atua como reforço para criação de mitos em torno do glamour narco, e assim acaba banalizando a violência na cultura popular e na história de Medellín (idem, 2018a).

O jornalista Cristian Herrera (2018), ao escrever sobre “amor y odio” por Medellín na revista VICE, faz um saldo sobre os sentimentos em relação ao rol de ambiguidades que sacode o pavimento urbano paisa:

 

Essa dualidade insuportável leva muitos ao exílio voluntário e também acaba se tornando o combustível de muitos outros, que lutam nas entranhas do Vale do Aburrá para manter a chama deste matadouro disfarçada de eterna primavera. A cidade que amamos, a cidade que odiamos, a cidade que anseio um dia pare de me sugar tanto por dentro para poder amá-la de raiva. A mesma raiva que sinto por ela.

 

A perseguição real, oficial e judicial por Escobar terminou. Encontraram-no. Seu corpo apareceu morto em cima de um telhado após conflito com a polícia. A presença física de Escobar se esvaiu, e desde sua morte acompanhamos o empenho para o apagamento da imagem de Escobar por parte dos poderes oficiais. Entretanto, a perseguição e a busca no imaginário de cidadãs e cidadãos de Medellín e ao redor do mundo perdura e parece que por mais tempo perdurará. A professora Bialowas Pobutsky (2013, p.696) da Universidade de Oakland aponta para possíveis novas configurações da imagem de uma figura que se tornou lenda para um povo:

 

Em vez de deixar Escobar na obscuridade, onde mitos ilegais falam, a Colômbia deveria engajar seu legado tanto pela cultura popular quanto por projetos mais ambiciosos, projetados para ensinar história às gerações mais jovens. A onipresença de Escobar na mídia torna evidente que o capo não desapareceu do radar; ao contrário, ele está sendo reconfigurado.

 

O Edificio Mónaco também desapareceu. Mas certamente Escobar permanece em pé no imaginário da sociedade colombiana. Memórias não se apagam com escombros. Pilar Riaño-Alcalá

(2006) traz um interessante argumento quando diz que as práticas de memória em um contexto de violência, como a cidade de Medellín, são capazes de restaurar um sentido de lugar nas experiências de descontinuidade e fragmentação que a violência impõe na vida das pessoas. Bialowas Pobutsky (2013) traça outro caminho reflexivo em que Escobar passa a integrar os universos fantásticos de folclores foragidos, tornando-se uma mercadoria excessivamente procurada e que apesar de altamente controversa, dialoga intensamente com os gostos populares, por atração ou repulsa, mas certamente nada indiferente.

As novas representações e sentidos atribuídos ao legado de personagens poderosos do mercado de tráfico de drogas marcam a sedimentação de uma estética para além do feio ou bonito, mas alinham a identidade latina por meio de pontos em comum em torno da desigualdade, da exclusão, de esperança e da violência. Hilderman Cardona Rodas (2016, p.95, tradução minha) aponta como as mudanças físicas e os diversos acontecimentos sociais que a cidade de Medellín atravessou no século XX influenciaram significativamente “as percepções de seus habitantes, os imaginários, as subjetividades, os hábitos, usos, relações e formas culturais, como expressões de uma sociedade emergente vinculada aos rigores do capitalismo”.

Pobutsky (2013) reitera essa relação dialógica característica da cultura de massa capitalista, em que a formalidade e a normatização de significados culturais são constantemente atravessadas pelas forças da cultura e do mercado popular. Assim como a busca por identificação em cenários de exploração do mercado pelo capital, essa tendência de segregação não é exclusividade de Medellín, mas é uma condição compartilhada por outros agrupamentos urbanos na América Latina. Assim, aprofundar olhares sobre a cultura narco pode nos presentear com reflexões importantes e concretas sobre as sociedades latino-americanas contemporâneas (Naef, 2018b, p.19).

 

Medellín e a cocaína fumada

Mesmo depois de grandes esforços para eliminar a imagem de Pablo relacionada à cocaína, a substância permanece presente na vida da cidade. Além da cocaína aspirada oferecida aos turistas e jovens da classe média no Parque Periodista, a poucas quadras dali Medellín também apresenta uma grande aglomeração de pessoas em situação de rua e que fazem uso de crack/basuco. Em 2019 a cena estava localizada na Carrera Cúcuta há poucos metros da Plaza Minorista, um grande mercado municipal de abastecimento da cidade. Mais uma vez, a zona do mercado sustenta as sobrevivências informais e ilegais em cidades da América do Sul.

Díaz foi o meu contato para conhecer a cena de uso, um rapaz que viveu experiências em situação de rua e uso de crack/basuco em Medellín e que atualmente é ativista e luta pela melhoria das condições de vida das pessoas na perspectiva da garantia de direitos. Ele participou de pesquisas junto à professora Amy Ritterbusch e tem muito conhecimento sobre a realidade social e histórica de Medellín. Encontrei-o na entrada da Plaza Minorista para irmos até o comércio de um amigo dele, que estava localizado em frente ao “fluxo” de uso de cocaína fumada em Medellín. Antes de atravessarmos a Avenida De Greiff, vi que na passarela uma moça fugia de um homem que tentava agredi-la com uma madeira. Ela correu em direção a uma concentração de pessoas. Ali estava a dinâmica do crack.

Atravessamos a cena de uso para chegar à sapataria de Jonas, o amigo de Díaz, que a meu ver beirava os 50 e poucos anos. Minhas primeiras sensações foram familiares, pois, apesar de diferenças, senti uma similaridade inquietante com a realidade da Cracolândia paulistana. Vale resgatar descrições dos registros de campo:

 

Andando pela rua vejo muitas pessoas sentadas fumando crack e/ou desmontando aparelhos eletrônicos em busca de cobre e outros materiais recicláveis. Carroceiros circulam entre carroças estacionadas. Duas cordas, uma de cada lado da rua, parecem fazer algum tipo de limite entre a rua e a calçada. As pessoas sentam e se aglomeram nesse espaço para fumar. Estranhamente parece um tipo de organização local para o uso. Música, conversas e bastante lixo pelo chão. A rua está praticamente tomada pelas pessoas. Algumas pessoas auxiliam e recebem algumas moedas em troca dos poucos carros que se aventuram a cruzar de um

lado ao outro. Botecos baratos ao redor e pessoas andando inalando solventes. A venda e compra de crack acontece praticamente em duas barracas em uma das calçadas próximas à esquina com a Calle 57. O preço de uma dose de crak/basuco varia entre 1 mil (um pouco mais de um real) e 2 mil pesos (quase três reais), ou seja, é bem barato. É vendido em papelotes de papel cuidadosamente dobrados, e sua apresentação é um pó branco, diferente do crack em pedra que temos no Brasil. (Diário de campo, 28 fev. 2019)

 

Em outra ocasião:

 

Tomo um café no bar da esquina. Muito movimento na rua. Me remete facilmente à ideia de “fluxo” da craco em São Paulo; pessoas passam carregando diversos tipos de coisas, metais, móveis, sacolas etc. Ao meu lado um homem chega com um grande saco de roupas. Ele lentamente começa a colocá-las na calçada em cima de um lençol. Montava seu mostruário para venda, e o bazar se inicia. Roupas, sapatos, tênis, gorros, meias, eletrônicos etc. Repentinamente chove muito, e na marquise coberta do bar que estou o movimento cresce. Nos poucos minutos que fiquei ali vi algumas pessoas comprarem coisas por um ou dois mil pesos, baratíssimo, é o giro da dinâmica do “fluxo”. (Diário de campo, 28 mar. 2019)

 

Ao chegar à sapataria de Jonas, apresentei meu interesse na dinâmica do crack por ali, e ele me disse que fazia seis meses que a concentração de pessoas que fazem uso de crack estava em frente a sua sapataria. Acrescentou que antes as pessoas ficavam nas margens do Rio Medellín, mas a polícia os havia empurrado para a Avenida De Greiff. Estabeleceram-se ali um tempo e novamente a polícia os empurrou para a Carrera Cúcuta. De fato, na Avenida De Greiff, bem mais visível para os olhos da cidade, Díaz me mostrou bloquetes quebrados na calçada como resultado de confrontos anteriores com a polícia: “as pessoas arrancavam para revidar a violência policial”, dizia ele.

Jonas parecia surpreso com a chegada da dinâmica do crack ali na rua, e ao conversarmos sobre possíveis soluções para a questão, ele não demonstrou ter perspectivas de melhoras em breve. Ele comentou sobre os Planes Parciales de Renovación Urbana, e que ali seria desenvolvido o Plan Parcial Chagualo. Disse que muitos dos proprietários já haviam sido notificados pela Prefeitura, e questionou as alternativas apresentadas pelo poder público: “isso acontece da forma que querem, mesmo que a pessoa não queira sair vai ter que sair. Mas vou te falar, essa dinâmica do uso de drogas deve ficar aqui por pelo menos mais uns cinco ou seis anos”.

Nas semanas seguintes voltei algumas vezes com Díaz à sapataria de Jonas. Em abril de 2019 o convidei para um almoço, pois senti que assim seria mais tranquilo para conversarmos sobre os efeitos das políticas de drogas e urbanísticas em seu dia a dia na sapataria. Entretanto, no dia 15 de abril, quando fui encontrá-lo às 11 horas da manhã, mais uma aproximação com a cena de uso paulistana: ao me aproximar do bar de esquina no qual eu costumava tomar um café, vi uma grande quantidade de policiais. Eram oficiais da Polícia Nacional, complementados por outro grupo de oficiais da Escuadrón Móvil Antidisturbio (Esmad). Estavam de roupas pretas, empunhavam escudos, armas e munição não letal, capacetes e diversos outros equipamentos de combate. Da dezena de vezes que fui à sapataria na Carrera Cúcuta, essa foi a única vez que acompanhei um operativo policial. Ao me aproximar, instantaneamente um policial me abordou e perguntou o que eu buscava, pois estava ocorrendo um “operativo policial”. Disse que ia ao sapateiro, pois havia marcado de encontrá-lo. Sem diálogo, ele rapidamente pediu para revistar minha mochila. Nesse momento percebi que havia uma grande fila de usuários na calçada do lado esquerdo. A rua já estava vazia, e parecia que todos estavam ali, em fila, à espera. A fila organizava o procedimento de revista pessoal. Na esquina, oficiais da polícia revistavam um por um, roupas e pertences.

Depois de também ser revistado, dei a volta na quadra para tentar acessar a sapataria pelo outro lado. No trajeto, pessoas xingavam a polícia: “tombos hijos de puta!”. Como em São Paulo, senti que estavam promovendo desgaste, culpabilização e mais vulnerabilidade a essa população. Na esquina oposta, outros policiais me barraram. Contei pelo menos 45 oficiais dos dois lados da rua. Camburões, carros, motos e caminhões da polícia nas esquinas. Dessa vez era a polícia que fechava a rua. Apesar da quantidade ostensiva, a postura do operativo não pareceu agressiva fisicamente – me pareceu mais como uma coerção simbólica. Novamente retornei para a esquina inicial e entrei no mesmo bar para poder acompanhar de longe. A fila estava maior. Um senhor ao meu lado disse que ali é a Comuna 10, e que sempre tem essas coisas por ali. Ele me confirmou a história sde Jonas de que estavam na Av. De Greiff e foram para lá recentemente, e narrou histórias de violência nesse setor da cidade. Era Semana Santa, e no embalo, o senhor afirmou que “só Deus pode resolver isso, o ser humano não é capaz de resolver uma situação dessas”. Ele também acrescentou sobre os equipamentos da Prefeitura, da assistência social, mas sabia que a existência desses dispositivos é insuficiente para a complexidade das cenas de uso.

Durante o procedimento policial, observei que no caminhar da longa fila a polícia separou um rapaz. Levaram-no com agressividade puxando-o pela camisa adentrando a rua interditada. Não consegui mais vê-lo. Após alguns minutos, um oficial da Esmad retornou com o rapaz e brutalmente colocou-o dentro de uma viatura: um detido. A revista terminou, o caminhão de lixo iniciou a limpeza na rua, e pouco tempo depois a dinâmica e as pessoas começaram a retornar. Aguardei um pouco, entrei na Carrera Cúcuta e na sapataria encontrei Díaz e Jonas com a porta entreaberta. Eles comentaram que operativos assim por ali são bastante comuns, e que esse talvez estivesse relacionado com o óbito que havia ocorrido por ali na semana anterior.

O almoço com Jonas foi suspenso pela ação policial, mas depois, enquanto organizava e buscava ferramentas na caótica sapataria, Jonas me disse que possuía a sapataria há mais de cinquenta anos. O comércio começou com seu pai, e agora ele estava administrando. A sapataria existiu em três imóveis diferentes, mas “sempre aqui pela região”, disse ele. Sobre a nova dinâmica instalada do “fluxo”, disse: “eu não estava aqui quando chegou, creio que foi em um sábado ou domingo, porque quando cheguei aqui na segunda-feira já estava tudo assim. Pensei que ia durar no máximo uns oito dias, que a Prefeitura ia fazer algo, mas nada, já estão aí há sete meses e meio” (Diário de campo, 15 abr. 2019).

Busquei saber sobre o impacto dessa nova dinâmica na rua para a sapataria de Jonas, e ele disse que desde que a dinâmica se instalou ali o movimento dos comércios diminuiu, pois

 

as pessoas têm medo de passar por aqui, vir até aqui. Ainda bem que tenho alguns clientes antigos que mantém o serviço. Temos menos movimento, mas como prestamos um serviço bom e barato, conseguimos manter alguns clientes, mas certamente o movimento baixou. Por exemplo, uma mulher sozinha dificilmente vai vir buscar um comércio aqui, não se atrevem a entrar no meio disso tudo. (Diário de campo, 15 abr. 2019)

 

Enquanto Jonas consertava uma cadeira, perguntei sobre o imóvel da sapataria, se era alugado ou eram os proprietários.

 

É nosso, somos os donos, se fosse alugado não teria como manter o comércio. Uns cinco anos atrás a Prefeitura juntou todos os proprietários e avisaram que vão fazer o Plan Parcial de Renovación de Chagualo, mas ainda não fizeram propostas da valores etc. Não tem jeito, se o Estado quer tirar a gente daqui eles tiram. Esse edifício aí na frente tem quase cinquenta anos, e foi se degradando junto com a cidade. Acho que eles querem desvalorizar o local, para assim conseguir desapropriar por pouco valor e vender para outras pessoas, por isso sinto que não vão mexer com isso nos próximos anos. Aqui em Medellín há muita tolerância com as drogas, há muita droga na cidade. Tudo começou no setor de Guayaquil, lá as barracas de comércio invadiam a rua, tudo misturado com prostituição, drogas, pessoas na rua etc., quando construíram a Minorista foi a primeira estratégia de acabar com isso. E agora veja só, estão aqui ao lado da Plaza Minorista. (Diário de campo, 15 abr. 2019)

 

A leitura de Jonas sobre o desenvolvimento do centro de Medellín, as intenções do Estado e as poucas alternativas que lhe restam me pareceu bastante lúcida. O setor de Guayaquil, ao qual ele fez referência, é a zona do antigo mercado da cidade, uma zona popular que concentrou uma economia informal por muitos anos. Atualmente, após grande intervenção urbana, toda a área da antiga Guayaquil é a famosa Biblioteca EPM e a Plaza Cisneros, não por acaso, na ponta oposta da Carrera Cúcuta. Enquanto conversava com Jonas e Díaz, por aproximadamente duas horas, a dinâmica da “pedra” se recompôs por completo na Carrera Cúcuta depois da saída da Polícia. A dinâmica que concentra uso de cocaína fumada segue marcando imaginários e expressando os traços de desigualdade de cidades latinas. Contudo, em Medellín entra como mais um elemento que dá os contornos da narcoestética local.

 

Narcoestética

 

Como nación, llevamos casi medio siglo conviviendo con y celebrando al narco. El narco es nuestro gran tema nacional.

Omar Rincón

 

Falar de narcoestética me recorda uma situação de anos atrás, que agora ganha mais sentido. Em meados de 2014, chegou a São Paulo o neurocientista Carl Hart, renomado pesquisador norte-americano da área das drogas. Na época, eu integrava a equipe de campo do Centro de Convivência É de Lei e recebemos o contato da assessoria de imprensa do pesquisador para averiguar a possibilidade de ele conhecer a realidade da Cracolândia, a cena pública de uso de crack paulistana, que em 2014 já se postulava com fama internacional. Ao encontrarmos com ele, eu e mais duas pessoas da equipe fomos surpreendidos pela falta de diálogo e caráter doutrinador dos argumentos de reprovação sobre o uso do termo Cracolândia. “Vocês não deveriam utilizar esse nome”, ele dizia, “é um termo estigmatizador que reforça estereótipos”.

Compreendo o sentido desse argumento. Mas parecia que faltava algo. Esse argumento não contemplava as complexidades que surgiam no cotidiano do território. Recordei situações em épocas de intervenção policial na Cracolândia em que pessoas que usam drogas clamavam: “Esse lugar sem a gente não existe! A gente faz esse lugar! Aqui é Cracolândia, porra!” – gritos como resposta às matérias midiáticas que nos dias seguintes à intervenção policial reproduziam o discurso do poder público que perversamente simplificava a realidade afirmando: “Acabamos com a Cracolândia” (Pagnan, 2017), com fotos da rua vazia onde o fluxo se encontrava, quando na realidade a dinâmica permanecia inalterada algumas quadras ao lado.

A antropóloga Pilar Riaño-Alcalá (2006, p.79, tradução minha) aponta a importância das práticas de nomear os lugares, pois a nomeação “situa as pessoas no tempo e espaço histórico, conecta-as com seu passado e estimula um repertório de saberes e histórias locais que ancoram indivíduos com suas paisagens e geografias sensoriais”. Afinal, há toda uma trama de saberes locais e repertórios morais que são compartilhados nesse território pela nomeação Cracolândia.

Voltando ao comentário do especialista internacional, de fato fazia sentido a carga estereotipada do termo, mas reduzir as possibilidades representativas e simbólicas de seu emprego somente a isso parecia-me incompleto. Assim como Riaño-Alcalá, me parece importante entender o sentido e significado de o termo “Cracolândia” persistir no tempo e de alguma forma fornecer e legitimar identidades para algumas pessoas. Eu me perguntava: como não utilizar um termo que é gritado como reivindicação identitária de alguns habitantes do território? Seria a melhor opção anular e não disputar um termo utilizado pelo poder público como forma de justificar ações de limpeza social?

A ambiguidade também aparece aí em relação à Cracolândia, e essa ambiguidade de sentidos e valores compõe a noção de narcoestética, que se sustenta justamente em bases da cultura popular. Podemos denominar como cultura popular as múltiplas formas de expressão e de identidade amplamente aceitas de um determinado povo em sua determinada época (Delaney, 2007 apud Naef, 2018a). Segundo Taussig (2013, p.274, tradução minha), “o sistema de justiça depende dos métodos que criminaliza, e é dessa contradição inspirada que surge seu poder mítico. Respeitamos a lei, mas muitas vezes sentimos empatia e até admiração pelo infrator”.

E nesse rol, o limite é tênue entre os elementos que compõem ou não a formação de uma cultura popular, criando amplas possibilidades de sentidos e significados. Os históricos de violência e do crime como possibilidade de ascensão social na Colômbia, e assertivamente em Medellín, entrelaçam as memórias, discursos e representações na estética e no imaginário de seus habitantes. Na Cracolândia temos pontos de contato com a narcoestética, e vale explorar mais as possíveis aplicações desse conceito à realidade paulistana.

Mas o que é, ou como é, então, a narcoestética?

Segundo Rincón (2009), adjetivos peculiares aproximam uma compreensão do fenômeno, descrito como algo estridente, ruidoso, grande e carregado de exagero. Uma estética que envolve objetos, aparência, linguagem, música, esportes, arquitetura, e que em qualquer esfera claramente visa ostentar. Para Alonso Salazar, na leitura de Omar Rincón (ibidem, p.151), narcoestética é “em síntese obstinação da abundância, o grande volume, a ostentação de objetos […] o poder de mostrar”, um apelo de se mostrar melhor do que antes. Essa é também a estratégia de Medellín, que em dias atuais se apresenta ao mundo melhor que antes, como uma cidade moderna. Do mesmo modo, a Colômbia, como nação, busca se mostrar ao mundo como um local que superou as manchas da violência e dos períodos de submissão ao poder do narcotráfico.

Em 2013, uma parceria do Governo colombiano com uma entidade privada de promoção ao turismo lançou o slogan “Colômbia é realismo mágico” com inspirações do artista colombiano Gabriel García Márquez. O slogan apresentou o objetivo de enaltecer elementos fantásticos em cenários e paisagens estonteantes. Entretanto, na boca das pessoas existem também discursos que relacionam a “mágica” à ascensão social possibilitada pelo envolvimento com o tráfico de drogas, como os “fazendeiros mágicos” dos anos 1980, e consequentemente com o imaginário estético de poder, pertencimento e solidariedade que tal dinâmica atribui e possibilita. Mais um elemento em que “duas versões opostas do realismo mágico são confrontadas aqui, ilustrando mais uma vez a herança dissonante associada ao passado difícil da Colômbia” (Naef, 2018a, p.16). Com as contribuições de Patrick Naef podemos aferir que a cultura popular e o turismo empreendedor significativamente contribuem para uma acomodação, uma “mercantilização da violência” e simplificação da história de Medellín. Omar Rincón (2009, p.162 apud Naef, 2018a, p.14, tradução minha) nos possibilita uma interessante reflexão ao atestar que

 

a verdade é que em Narco.lombia, sem peitos, armas e dinheiro, não há felicidade. A sociedade desfruta do gosto da máfia, da verdade do silicone e da ética da arma. Portanto, nossa ficção literária, artística, musical e televisiva; nossa linguagem, nossa arquitetura e nossos gostos; nossa

política e nosso presidente celebram, sem decência, os valores do universo narco. E, o mais extraordinário de tudo, mídias, jornalistas e colombianos não vemos nada de ruim nisso.

 

As expressões artísticas, os narcotours e a persistente admiração pelas figuras do narcotráfico como Escobar criam polêmicas que residem em representações morais e sociais que frequentemente são consideradas ferramentas de apologia ao crime. Na busca por compreensões mais profundas sobre a história e o contexto colombiano, que apresentam a realidade do tráfico de drogas como referência social e moral desde a década de 1970, acompanho Rincón (2015, p.1, tradução minha) que rebate a reduzida ideia de apologia ao crime, apontando os fenômenos como simplesmente o “reflexo dos modos de pensar da Colômbia, onde se encontra mais dignidade e verdade nos traficantes do que nos políticos”.

Como expressão identitária advinda do envolvimento com o tráfico de drogas, é quase natural aplicar juízo de valor ao termo. A narcoestética seria mau gosto? Segundo Rincón, de forma alguma. A narcoestética é a expressão legítima de comunidades que encontram na posse de bens materiais, ou seja, pelo acesso a dinheiro e consumo, a única forma de existir no mundo, independentemente da origem muitas vezes irregular e ilícita das entradas financeiras (idem, 2009). O acesso ao dinheiro e a ascensão social como consequência relacionada ao envolvimento com o mercado das drogas geram identificação e reconhecimento na população. Resgato reflexão de Gabriel Feltran (2014, p.497) sobre a aposta no dinheiro como mediação para o conflito social: “Todos respeitam a riqueza como signo de status. O dinheiro é objetivamente elevado ao estatuto de forma mediadora entre grupos populacionais em conflito, suplantando em muito a legitimidade da lei e da moral, que invariavelmente os afastariam”.

Sociedades como as latino-americanas são berços de desigualdade, em que as necessidades básicas de emprego, renda e moradia não são garantidas por um Estado seletivamente excludente. É pelo consumo que se obtém alguma sensação imediata de inclusão social. Segundo Rincón (2015, p.7, tradução minha), as opções das parcelas menos favorecidas da população são reduzidas ao esporte, prostituição, corrupção, crime e o envolvimento com as drogas, “todas as formas ‘legitimadas’ da moral e da razão popular. É por isso que habitamos, todos nós, como sociedade, a mente do narco e a cultura do narco, tudo isso vale a pena para ter sucesso”.

Dessa forma, Medellín é uma cidade que passa por processos de mercadificação por diferentes lados. A superficialidade rasa alimentada pelas séries de televisão sobre a realidade do tráfico, o despontamento de Medellín como referência de modernização entre as cidades latinas e a excentricidade mórbida dos narcotours são alguns dos aspectos que constantemente afirmam o papel da cocaína na formação subjetiva e material da cidade. Essa teimosia de se recusar a encarar, conviver e aprender com sua história reproduz representações que pouco avançam nas necessidades de ressignificação de um passado de violência e o necessário reconhecimento das vítimas. Assim, como São Paulo e Bogotá, a cidade também segue sendo consumida por si mesma.