As Portas da Percepção e Céu e Inferno
Apêndice V
Desconhecido por quase trezentos anos, um dos m aiores pintores franceses voltou do túm ulo para reclam ar seus direitos.
Georges de Latour foi um desses visionários extrovertidos cuj a arte reflete fielm ente certos aspectos do m undo exterior, m as o faz em tal estado de transfiguração que o m ínim o porm enor adquire im portância intrínseca, um a m anifestação do Absoluto.
A m aioria de suas com posições versa sobre figuras ilum inadas por um a sim ples vela.
Um a única vela, com o Caravaggio e os espanhóis o dem onstraram , pode dar lugar aos m ais im pressionantes efeitos teatrais. Mas Latour não se interessava por efeitos cênicos.
Nada há de dram ático em suas obras, nada de trágico, patético ou grotesco; não há representação de ações nem apelo ao tipo de em oções que leva as pessoas a buscar o teatro para com elas se excitar e, em seguida, acalm ar-se. Seus personagens são essencialm ente estáticos. Jam ais fazem qualquer coisa; apenas estão lá, do m esm o m odo que um Faraó de pedra, um Bodhisattva de Khm er ou um dos anj os de pés chatos de Piero. E a vela única é em pregada, em cada caso, para acentuar essa intensa, ainda que clássica, presença im pessoal. Exibindo obj etos com uns, subm etidos a um a ilum inação incom um , Latour fazia com que a cham a acentuasse o m istério vivo e a inexplicável m aravilha que é a m era existência. Há tão pouca religiosidade em seus quadros que, em m uitos casos, não é possível concluir se tem os diante de nós um a ilustração da Bíblia ou um estudo de m odelos à luz da vela. Será a Nativiãade, existente em Rennes, a ou apenas um a natividade? E que representará o retrato de um ancião adorm ecido, sob o olhar de um a j ovem ? Seria São Pedro, visitado na prisão pelo Anj o Libertador. É im possível dize-lo. Mas, em bora a arte de Latour sej a quase que inteiram ente destituída de religiosidade, continua a ser profundam ente religiosa pelo que revela, com um a intensidade j am ais excitada, da Onipresença Divina.
Convém acrescentar que, com o indivíduo, esse grande intérprete da im anência de Deus parece ter sido orgulhoso, rude, intoleravelm ente arrogante e avarento; o que vem dem onstrar, um a vez m ais, que nunca se pode encontrar um a correspondência perfeita entre a obra de um artista e seu caráter.
APÊNDICE V
VUILLARD PINTAVA GRANDES-PLANOS que eram , em sua m aioria, de interiores, em bora por vezes ele tam bém reproduzisse j ardins. Em um as poucas obras, buscou com binar a m agia da proxim idade com o encantam ento da distância, representando um canto de aposento de cuj a parede pendia um quadro, seu ou alheio, contendo um a paisagem com árvores distantes, m ontes e céu. Essa era um a oportunidade para tirar o m áxim o efeito de am bos os m undos — o telescópico e o m icroscópico — com um único golpe de vista.
De resto, só m e posso lem brar de um núm ero reduzido de paisagens em grande-plano, pintadas por artistas europeus m odernos. Há um estranho Bosque por Van Gogh, no Metropolitano de Nova York; o m aravilhoso O valezinho de Helm ingham Park, de Constable, na Galeria Nacional de Arte Britânica; um m au quadro de Millais — Ofélia — que, apesar de tudo, é encantador graças a seu intricado de folhagem estivai vista de m uito próxim o. E ainda m e recordo de um Delacroix que vi de relance, há m uito tem po, em um a exposição de penhores — um tronco, com sua ram aria coberta de flores, retratado de m uito perto. E claro que deve haver outras obras, m as, se outras vi, delas j á não m e lem bro.
Sej a com o for, nada há no Ocidente que se equipara às reproduções em grande-plano da Natureza, de autoria dos pintores chineses e j aponeses: um galho de am eixeira em flor; um palm o de haste de bam bu com suas folhas; passarinhos entre arbustos, vistos a pouco m ais de um a extensão de braço; flores, folhagens, aves, peixes e pequenos m am íferos de todas as espécies. Cada pequeno ser vivo é representado com o centro de seu universo, com o a razão de ser — segundo sua própria concepção — para a criação deste m undo e de tudo que nele existe; cada um deles lança sua própria declaração de independência do im perialism o hum ano e, por ironia, zom ba de nossas absurdas pretensões de estabelecer norm as puram ente hum anas para a conduta dos processos cósm icos; cada um repete para si m esm o a sublim e tautologia: sou o que sou.
A Natureza, nas distâncias m édias, nos é fam iliar — tão fam iliar que som os levados a crer que conhecem os realm ente tudo a seu respeito. Já se a exam inarm os m uito de perto, a um a grande distância ou sob um ângulo pouco com um , ela nos parecerá perturbadoram ente estranha, de um a beleza que ultrapassa todo o nosso poder de com preensão. As paisagens em grande-plano, pintadas pelos artistas chineses e j aponeses, são outras tantas dem onstrações de que o sam sara e o nirvana são um a m esm a coisa, e de que o Absoluto se m anifesta em tudo o que existe. Essas grandes verdades m etafísicas, e até pragm áticas, foram representadas pelos artistas do Extrem o Oriente, seguidores da doutrina Zen, de form a peculiar. Todos os obj etos próxim os eram reproduzidos isoladam ente sobre o papel ou a seda virgem . Assim isoladas, essas figuras fugazes adquirem um a espécie de Personalização absoluta. Os artistas ocidentais têm em pregado esse m esm o artifício ao pintar figuras sacras, retratos e, por vezes, m otivos naturais a distância. O m oinho de Rem brandt e os Ciprestes de Van Gogh são exem plos de paisagens distantes em que se conseguiu realçar ao m áxim o determ inado obj eto, isolando-o dos dem ais. A força m ágica de tantas águas-fortes, desenhos e pinturas de Goy a pode ser atribuída ao fato de suas com posições constarem , quase sem pre, de um as poucas silhuetas, ou m esm o de um a única, destacando-se contra o fundo vazio. Essas form as silhuetadas possuem o dom visionário do valor intrínseco, que o isolam ento dos dem ais obj etos am plia até um a intensidade preternatural.