As Portas da Percepção e Céu e Inferno

Aldous Huxley · Capítulo 3 de 12 · parte 1/3

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As Portas da Percepção e Céu e Inferno

As Portas da Percepção

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

FOI NO ANO DE 1886 que o farm acologista alem ão Ludwig Lewin publicou o prim eiro estudo sistem ático do cacto que, depois disso, haveria de receber seu nom e. O Anhalonium lewinü era novo para a ciência, em bora fosse, na verdade, um am igo desde tem pos im em oriais para as religiões prim itivas e para os índios do México e do Sudoeste dos Estados Unidos. Era até m uito m ais que um am igo. Segundo as palavras de um dos prim eiros espanhóis a visitar o Novo Mundo, "eles com em um a raiz a que cham am de peiote e que é por eles venerada com o a um deus".

O porquê de tal veneração evidenciou-se quando psicologistas eminentes, tais como Jaensch, Havelock Ellis e Weir Mitchell, começaram suas experiências com a mescalina — o princípio ativo do peiote. Não há dúvida de que eles as interrom peram em um ponto m uito aquém da idolatria, m as tudo nos leva a situar a m escalina em posição ím par entre os dem ais alcalóides. Adm inistrada em doses adequadas, ela m odifica m ais profundam ente a qualidade da percepção que qualquer outra droga à disposição do farm acologista, a isso aliando o fato de ser m enos tóxica que as dem ais.

A pesquisa sobre a m escalina tem sido realizada esporadicam ente, desde os dias de Lewin e Havelock Ellis. Os quím icos não se lim itaram a isolar o alcalóide; conseguiram tam bém realizar-lhe a síntese, com o que não m ais ficaram à m ercê das escassas e problem áticas coletas de um cacto do deserto. Os alienistas têm , eles m esm os, feito uso da m escalina, buscando assim conseguir um a m elhor e m ais direta com preensão dos processos m entais de seus pacientes. Infelizm ente, por trabalharem baseados em um núm ero m uito reduzido de provas e dentro de um a faixa de condições por dem ais estreita, os psicologistas apenas observaram e registraram alguns dos m ais im pressionantes efeitos da m escalina. Os neurologistas e fisiologistas chegaram a algum as conclusões a respeito do m ecanism o de sua ação sobre o sistem a nervoso central. E ao m enos um filósofo m ilitante tom ou o alcalóide, ante a luz que este poderia lançar sobre antigos e insolúveis enigm as, tais com o o lugar da m ente na natureza e a relação entre a inteligência e o consciente.

Assim estavam as coisas até que, há dois ou três anos, foi observado um fato novo, talvez de grande im portância.1 Na verdade, havia m uitas décadas que esse fato se apresentava ao vivo, diante de todos, m as, a despeito disso, ninguém se havia dele apercebido até que um j ovem psiquiatra inglês, que atualm ente trabalha no l. A esse respeito, vej a-se: l. HOFFER, Abram ; OSMOND, Hum phry ; SMYTHIES, John. "Schizophrenia: a new approach". Journal of Mental Science, 100(418), j an. 1954. 2. OSMOND, Hum phry. "On being m ad". Saskatchewan Psychiatric Services Journal, 1(2), set. 1952. 3. SMYTHIES, John. "Schizophrenia: a new approach". Journal of Mental Science, 98, abr. 1952. 4. SMYTHIES, John. "The m escalin phe-nom ena". The British Journal for the Philosophy of Science, 3, fev. 1953.

Num erosos outros artigos sobre bioquím ica, farm acologia, psicologia e neurofisiologia da esquizofrenia e dos efeitos da m escalina estão em preparação.

Canadá, se deu conta da grande sem elhança de com posição quím ica existente entre a m escalina e a adrenalina. Pesquisas posteriores revelaram que o ácido lisérgico — um onírico extrem am ente poderoso, derivado da ergotina — apresenta afinidades com essas duas substâncias, em suas características bioquím icas. Veio em seguida a descoberta de que o adrenocrom o, produto de decom posição da adrenalina, pode produzir m uitos dos sintom as observados no inebriam ento por m escalina. E é bem provável que o adrenocrom o sej a o fruto de um a decom posição realizada espontaneam ente no corpo hum ano. Isto nos leva a concluir que cada um de nós é capaz de produzir um a substância quím ica da qual, com o sabem os, doses dim inutas podem criar profundas alterações na percepção. Algum as dessas alterações são sem elhantes às que acom panham essa praga tão característica do século XX que é a esquizofrenia. Será essa doença m ental um a decorrência de um desequilíbrio quím ico e estará o desequilíbrio quím ico, por seu turno, ligado a sofrim entos psíquicos que atuem sobre as glândulas supra-renais? Será arroj ado e prem aturo afirm á-lo. O m áxim o que podem os dizer é que isso constitui um a hipótese plausível. Entretanto, o m istério vem sendo sistem aticam ente desvendado; os detetives — bioquím icos, psiquiatras e psicologistas — acham -se em sua pista.

Em razão de um a série de circunstâncias — que para m im foram extrem am ente favoráveis — vi-m e, na prim avera de 1953, situado bem no m eio de tal busca. Um desses pesquisadores tinha chegado à Califórnia, levado por suas investigações. A despeito dos setenta anos de pesquisas sobre a m escalina, o m aterial psicológico de que se dispunha era ainda incrivelm ente reduzido, e ele estava ansioso por am pliá-lo. Eu m e atravessara em seu cam inho e estava disposto — ou m elhor, decidido — a servir de cobaia. E foi assim que, em um a radiosa m anhã de m aio, tom ei quatro decigram as de m escalina, dissolvidos em m eio copo d'água, e sentei-m e para esperar pelos resultados.

Vivem os, agim os e reagim os uns com os outros; m as sem pre, e sob quaisquer circunstâncias, existim os a sós. Os m ártires penetram na arena de m ãos dadas; m as são crucificados sozinhos. Abraçados, os am antes buscam desesperadam ente fundir seus êxtases isolados em um a única autotranscendência; debalde. Por sua própria natureza, cada espírito, em sua prisão corpórea, está condenado a sofrer e gozar em solidão.

Sensações, sentim entos, concepções, fantasias — tudo isso são coisas privadas e, a não ser por m eio de sím bolos, e indiretam ente, não podem ser transm itidas. Podem os acum ular inform ações sobre experiências, m as nunca as próprias experiências. Da fam ília à nação, cada grupo hum ano é um a sociedade de universos insulares.

Muitos desses universos são suficientem ente sem elhantes, uns aos outros, para perm itir entre eles um a com preensão por dedução, ou m esm o por m útua proj eção de percepção. Assim , recordando nossos próprios infortúnios e hum ilhações podem os nos condoer de outras pessoas em circunstâncias análogas; som os até capazes de nos porm os em seu lugar (sem pre, evidentem ente, em sentido figurado). Mas em certos casos a ligação entre esses universos é incom pleta, ou m esm o inexistente. A m ente é o seu cam po, porém os lugares ocupados pelo insano e pelo gênio são tão diferentes daqueles onde vivem o hom em e a m ulher com uns que há pouco ou nenhum ponto de contato na m em ória individual para servir de base à com preensão ou a ligações entre eles. Falam , m as não se entendem . As coisas e os fatos a que os sím bolos se referem pertencem a reinos de experiências que se excluem m utuam ente.

Contem plarm o-nos do m esm o m odo pelo qual os outros nos vêem é um a das m ais confortadoras dádivas. E não m enos im portante é o dom de verm os os outros tal com o eles m esm os se encaram . Mas e se esses outros pertencerem a um a espécie diferente e habitarem um universo inteiram ente estranho? Assim , com o poderá o indivíduo, m entalm ente são, sentir o que realm ente sente o insano? Ou, na im inência de ser reencarnado na pessoa de um sonhador, um m édium ou um gênio m usical, com o poderíam os algum dia visitar os m undos que para Blake, Swedenborg ou Johann

Sebastian Bach eram seus lares? E com o poderá alguém , que estej a nos lim ites extrem os do ectom orfism o e da cerebrotonia, pôr-se no lugar de outrem que ocupa o lim ite oposto do endom orfism o e da viscerotonia ou (a não ser dentro de certas áreas restritas) com partilhar dos sentim entos de um terceiro que se situe no cam po do m esom orfism o e da som atotonia? Para o behaviorísta inflexível, tais proposições — suponho eu — são desprovidas de sentido. Mas para aqueles que aceitam , do ponto de vista teórico, aquilo que, na prática, sabem ser verdade — isto é, que a experiência possui dois aspectos, um externo e o outro interno —, os problem as apresentados são reais e tanto m ais sérios por serem , alguns, inteiram ente insolúveis, e outros só poderem ser resolvidos em circunstâncias excepcionais e por m étodos que não se acham ao alcance de qualquer um . É, pois, quase certo que j am ais poderei saber o que sentem sir John Falstaff ou Joe Louis. Por outro lado, sem pre m e pareceu possível que, por m eio do hipnotism o, do auto-hipnotism o, da m editação sistem ática, ou ainda pela ação de um a droga apropriada, eu pudesse m odificar de tal form a m inha percepção norm al que fosse capaz de com preender, por m im m esm o, a linguagem do visionário, do m édium e até do m ístico.

Baseado no que j á havia lido a respeito das experiências com a m escalina, eu m e convencera antecipadam ente de que a droga haveria de garantir m inha adm issão, ao m enos por um as poucas horas, no tipo de m undo interior descrito

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por Blake e AE. Mas o que eu esperava não aconteceu. Contava ficar, de

olhos cerrados, a contem plar visões de corpos geom étricos m ulticores, de form as arquitetônicas anim adas, recobertas de gem as e fabulosam ente belas, de paisagens repletas de figuras heróicas, de dram as sim bólicos e perpetuam ente apaixonantes, no lim iar da revelação derradeira. Mas está claro que eu não levava em conta as idiossincrasias de m inha form ação m ental, as realidades de m eu tem peram ento, educação e hábitos.

Sou e, até onde m inha m em ória alcança, sem pre fui pouco dado a devaneios. As palavras, m esm o as m ais evocativas, em pregadas pelos poetas, não conseguem produzir im agens em m inha m ente. Não vêm ao m eu encontro visões hipnagógicas no lim iar do sono. Quando m e lem bro de algo, a m em ória não se m e apresenta com o um fato ou obj eto vivido. Por um esforço da vontade, consigo evocar um a im agem não m uito vivida do que aconteceu na tarde da véspera, de com o era o Lungarno antes de as pontes terem sido destruídas ou da estrada de Bay swater quando os poucos ônibus eram verdes e pequeninos, puxados por velhos cavalos a uns seis quilôm etros por hora. Mas essas im agens terão pouca substância, e de form a algum a poderão ter vida própria. Guardam , para os obj etos reais, a m esm a proporção que os fantasm as hom éricos apresentam com relação aos hom ens de carne e osso que vão visitá-los nas som bras. Só quando tenho febre alta é que m inhas im agens m entais adquirem vida independente. Para aqueles cuj a im aginação é fértil, m eu m undo interior terá de parecer curiosam ente m onótono, lim itado e desinteressante. Este era o m undo — um pobre m undo, porém m eu — que eu esperava ver transform ado em algo inteiram ente diferente de si m esm o.

A m odificação que realm ente ocorreu nesse m undo nada teve de revolucionária.

Meia hora depois de ingerir a droga, com ecei a perceber um lento bailado de luzes douradas. Pouco depois surgiram im ponentes superfícies rubras que cresciam e se avolum avam a partir de brilhantes nódulos de energia a assum ir continuam ente as m ais variadas form as. De outra feita, ao fechar os olhos, se m e deparava um com plexo de estruturas cinzentas, de dentro das quais brotavam , incessantem ente, pálidas esferas azuladas que se iam m aterializando e, à m edida que o faziam , deslizavam silenciosam ente para cim a e fugiam de cena. Mas em tem po algum apareceram faces ou form as de hom ens ou anim ais. Nada de paisagens, espaços abissais, m ágico crescim ento e m etam orfose de edificações, nada que lem brasse, por rem oto que fosse, um dram a ou um a parábola. O outro m undo ao qual a m escalina m e conduzira não era o m undo das visões; ele existia naquilo que eu podia ver com m eus olhos abertos. A grande transform ação se dava no reino dos fatos obj etivos. O que tinha acontecido a m eu universo subj etivo era coisa que, relativam ente, pouco im portava.

Eu ingerira m inha poção às onze horas. Hora e m eia m ais tarde estava sentado em m eu escritório, contem plando atentam ente um pequeno vaso de vidro. Continha ele apenas três flores — um a rosa-de-portugal, inteiram ente desabrochada, com sua rósea corola onde a base de cada pétala apresentava um m atiz m ais quente e brilhante; um grande cravo crem e e arroxeado; e, arrogante em sua heráldica beleza, de um púrpura pálido, a flor-do-íris. Por m ero acaso, o pequeno ram alhete violava todas as regras do bom gosto tradicional. Pela m anhã, ao desj ej um , ferira-m e os olhos a vivida dissonância de suas cores. Mas tal j á não era m ais m inha opinião. Não contem plava m ais um a esquisita com binação de flores; via, agora, aquilo m esm o que Adão vira no dia de sua criação — o m ilagre do inteiro desabrochar da existência, em toda a sua nudez.

— Isso é agradável? — perguntou alguém . (Durante essa parte da experiência, todas as conversas foram gravadas, e foi-m e assim possível refrescar a m em ória a respeito do que fora dito.)

— Nem agradável, nem desagradável — respondi. — Apenas existe.

Istigkeit — "existência" —, não era essa a palavra que Meister Eckhart gostava de usar? O Existir da filosofia platônica — com a diferença que Platão parecia ter com etido o enorm e, o grotesco erro de separar Existir de tornar-se e de identificá-lo com a abstração m atem ática — a Idéia. Ele, pobre m ortal, talvez j am ais tivesse visto um ram alhete de flores a brilhar com sua própria luz interior, quase que estrem ecendo sob a tensão da im portância do papel que lhes fora confiado; j am ais deveria ter-se apercebido de que essa tão grande im portância da rosa, do íris e do cravo residia, tão-som ente, naquilo que eles representavam — um a efem eridade que, não obstante, significava vida eterna, um perpétuo perecer que era, ao m esm o tem po, puro Existir; um punhado de porm enores dim inutos e sem par no qual, por algum indizível paradoxo, em bora axiom ático, encontrar-se-ia a divina fonte de toda a existência.

Continuei a observar as flores e, em sua luz vivida, eu parecia captar o equivalente qualitativo da respiração — m as de um a respiração sem retornos a um ponto de partida, sem refluxos periódicos, m as antes em um fluxo, repetido, da beleza para um a beleza m ais sublim e, de um significado profundo para outro ainda m aior.

Palavras tais com o Graça e Transfiguração vieram -m e à m ente, e isto, sem dúvida, era o que, entre outras coisas, queriam elas significar. Meus olhos se encam inhavam da rosa para o cravo, e daquela incandescência de plum as para as suaves volutas de am etista anim ada, que era o íris. A Beatífica Visão, Sat Chit Ananda — Existência-Consciência-Beatitude —, pela prim eira vez entendi, não em term os de palavras, não por insinuações rudim entares, vagam ente, m as precisa e com pletam ente, o que queriam significar essas sílabas prodigiosas. E lem brei-m e, então, de um a passagem que lera em um dos ensaios de Suzuki: "Que é o Dharm a-Corpóreo do Buda?". (O Dharm a-Corpóreo do Buda é outro m odo de se referir à Mente, à Peculiaridade, ao Vazio, à Divindade.) A pergunta foi feita, em um m osteiro zen, por ardente e perplexo noviço. E, com a vivaz insensatez de um dos Irm ãos Marx, respondeu-lhe o superior: "A sebe ao fundo do j ardim ". "E poderia eu perguntar" — retrucou tim idam ente o noviço — "qual o hom em que concebeu essa verdade?" A que Groucho, dando-lhe um a pancada nas costas com seu bastão, responde: "Um leão de cabelos de ouro!".

Quando li esse diálogo, achei-o pouco m ais ou m enos um am ontoado de insensatez. Agora, porém , tudo está tão claro com o o dia, tão evidente quanto o postulado de Euclides. Não há a m enor dúvida de que o Dharm a-Corpóreo do Buda sej a a sebe do fim do j ardim . Ao m esm o tem po, e com igual certeza, ele é estas flores, ele é qualquer coisa que desperte a atenção de m eu ego (ou m elhor, de m inha bem -aventurada despersonalização, liberta por um m om ento de m eu abraço asfixiante).

Assim tam bém os livros, que recobrem as , paredes de m eu escritório: tais com o as flores, eles tam bém luziam , quando para eles olhei, com cores m ais brilhantes, com um a im portância m ais profunda. Livros verm elhos de rubi; livros de esm eralda; livros de ágata, de água-m arinha, de topázio; livros de lápis-lazúli de cor tão intensa, tão intrinsecam ente im portantes que pareciam a ponto de sair das estantes para m elhor atrair m inha atenção.

— Que m e diz das relações espaciais? — perguntou o investigador enquanto eu olhava os livros.

Era difícil responder. Na verdade, a perspectiva se tornara bastante estranha e as paredes da sala j á não m ais pareciam encontrar-se em ângulos retos. Mas não eram esses os fatos realm ente im portantes. O que m ais ressaltava era a constatação de que as relações espaciais tinham perdido m uito do seu valor e de que m inha m ente tom ava contato com o m undo exterior em term os de outras dim ensões que não as de espaço. Em situações norm ais o olho se preocupa com problem as tais com o Onde? — A que distância? — Com o se situa em relação a tal coisa?. Durante a experiência com a m escalina, as perguntas tácitas a que a visão responde são de outra ordem . Lugar e distância deixam de ter m uito interesse. A m ente elabora a com preensão das coisas em term os de intensidade de existência, profundidade de im portância, relações dentro de um determ inado padrão. Eu olhava para os livros, m as não m e preocupava, em absoluto, com suas posições no espaço. O que notava, o que se im punha por si m esm o a m inha m ente, era o fato de que todos eles brilhavam com um a luz viva e que, em alguns, o resplendor era m ais intenso que em outros. Nesse instante, a posição e as três dim ensões eram questões de som enos. Não, evidentem ente, que a noção de espaço houvesse sido abolida. Quando m e levantei e pus-m e a andar, eu o fiz com toda a naturalidade, sem erros de apreciação sobre a posição dos obj etos. O espaço ainda estava ali; m as havia perdido sua prim azia. A m ente se preocupava, m ais do que tudo, não com m edidas e lugares, e sim com a existência e o significado.

E, de par com essa indiferença pelo espaço, adquiri um descaso ainda m aior pelo tem po.

— Parece haver bastante — foi tudo o que pude dizer quando o m eu inquiridor m e pediu que dissesse qual a noção que tinha dessa dim ensão.

Bastante; m as pouco se m e dava saber, exatam ente, quanto. Poderia, está claro, olhar para m eu relógio; m as ele, sabia-o eu, estava em outro universo. Essa m inha experiência tinha sido, e ainda era, de duração indefinida, tam bém podendo ser considerada um perpétuo presente, criado por um apocalipse em contínua transform ação.

Dos livros, m eu interlocutor desviou-m e a atenção para o m obiliário. No centro da sala havia um a pequena m esa para m áquina de escrever. Junto a ela, do lado oposto ao m eu, estava um a cadeira de vim e e, além dela, um a escrivaninha. As três peças formavam um intricado desenho de horizontais, verticais e oblíquas — desenho tanto mais interessante por não estar sendo interpretado em termos de suas relações de espaço. Mesa, cadeira e escrivaninha constituíam uma composição que se assemelhava a algo por Braque ou Juan Gris: uma natureza-morta nitidamente relacionada com o mundo objetivo, mas onde não havia profundidade, nada de realismo fotográfico. Eu examinava minha mobília, não como o utilitário, que tem de sentar-se em cadeiras, escrever em escrivaninhas e em mesas; não como o operador cinematográfico ou o investigador científico, mas como o esteta puro, cuja única preocupação se cinge às formas e suas relações dentro do campo visual ou dos limites de um quadro. Mas, à medida que prosseguia em minha investigação, essa análise puramente estética de cubista foi sendo substituída pelo que poderei apenas definir como sendo a visão sacramentai da realidade: voltei ao estado em que me encontrava quando contemplava as flores — a um mundo onde tudo brilhava, animado pela Luz Interior, e era infinito em sua importância. Assim, os pés daquela cadeira — quão miraculosa a sua tubularidade, quão sobrenatural seu suave polimento! Consumi vários minutos — ou foram vários séculos? — não apenas admirando aqueles pés de bambu, mas em verdade sendo-os, ou m elhor, sentindo-m e neles; ou, em pregando linguagem talvez m ais precisa (pois "eu" não estava em j ogo, do m esm o m odo com o, até certo ponto, "eles" tam pouco o estavam ), sendo m inha Despersonalização na Desindividualização que era a cadeira.

Refletindo sobre m inha experiência, vej o-m e levado a concordar com o em inente filósofo de Cam bridge, dr. C. D. Broad, "que será bom considerarm os, m uito m ais seriam ente do que até então tem os feito, o tipo de teoria estabelecida por Bergson, com relação à m em ória e ao senso de percepção. Segundo ela, a função do cérebro e do sistem a nervoso é, principalm ente, eliminativa e não produtiva. Cada um de nós é capaz de lem brar-se, a qualquer m om ento, de tudo o que j á ocorreu conosco, bem com o de se aperceber de tudo o que está acontecendo em qualquer parte do universo. A função do cérebro e do sistem a nervoso é proteger-nos, im pedindo que sej am os esm agados e confundidos por essa m assa de conhecim entos, na sua m aioria inúteis e sem im portância, elim inando m uita coisa que, de outro m odo, deveríam os perceber ou recordar constantem ente, e deixando passar apenas aquelas poucas sensações selecionadas que, provavelm ente, terão utilidade na prática".

De acordo com tal teoria, cada um de nós possui, em potencial, a Onisciência.

Mas, visto que som os anim ais, o que m ais nos preocupa é viver a todo o custo. Para tornar possível a sobrevivência biológica, a torrente da Onisciência tem de passar pelo estrangulam ento da válvula redutora que são nosso cérebro e sistem a nervoso. O que consegue coar-se através desse crivo é um m inguado fio de conhecim ento que nos auxilia a conservar a vida na superfície deste singular planeta. Para form ular e exprim ir o conteúdo dessa sabedoria lim itada, o hom em inventou, e aperfeiçoa incessantem ente, esses sistem as de sím bolos com suas filosofias im plícitas a que cham am os idiom as.

Cada um de nós é, a um só tem po, beneficiário e vítim a da tradição lingüística dentro da qual nasceu — beneficiário, porque a língua nos perm ite o acesso aos conhecim entos acum ulados oriundos da experiência de outras pessoas; vítim as, porque isso nos leva a crer que esse saber lim itado é a única sabedoria que está a nosso alcance; e isso subverte nosso senso da realidade, fazendo com que encarem os essa noção com o a expressão da verdade e nossas palavras com o fatos reais. Aquilo que, na term inologia religiosa, recebe o nom e de "este m undo" é apenas o universo do saber reduzido, expresso e com o que petrificado pela lim itação dos idiom as. Os vários "outros m undos" com os quais os seres hum anos entram esporadicam ente em contato não passam , na verdade, de outros tantos elem entos com ponentes da am pla sabedoria inerente à Onisciência. A m aioria das pessoas, durante a m aior parte do tem po, só tom a conhecim ento daquilo que passa através da válvula de redução e que é considerado genuinam ente real pelo idiom a de cada um . No entanto, certas pessoas parecem ter nascido com um a espécie de desvio que invalida essa válvula redutora. Em outras, o desvio pode surgir em caráter tem porário, sej a espontaneam ente, sej a com o resultado de "exercícios espirituais" voluntários, do hipnotism o ou da ingestão de drogas. Mas o fluxo de sensações que percorre esse desvio, sej a ele perm anente ou tem porário, não é suficiente para que alguém se aperceba "de tudo o que estej a ocorrendo em qualquer lugar do universo" (um a vez que o desvio não destrói a válvula de redução, que ainda im pede que se escoe por ela toda a torrente da Onisciência), em bora possibilite a passagem de algo m ais — e sobretudo diferente — do que aquelas sensações utilitárias, cuidadosam ente selecionadas, que a estreiteza de nossas m entes considera um a im agem com pleta (ou, no m ínim o, suficiente) da realidade.

O cérebro é dotado de um certo núm ero de sistem as enzim áticos que servem para coordenar seu funcionam ento. Algum as dessas enzim as visam a regular o fluxo de glicose destinado a alim entar as células cerebrais. A m escalina, inibindo a produção dessas enzim as, dim inui a quantidade de glicose à disposição de um órgão que tem um a fom e constante de açúcar. E o que acontece quando o m etabolism o do açúcar no cérebro é reduzido pela m escalina? O núm ero de casos observados é dim inuto e, pois, ainda não nos é possível apresentar um a resposta conclusiva. Mas o que tem acontecido à m aioria daqueles que tom aram o alcalóide, sob controle, pode ser assim resum ido:

1. A capacidade de lem brar-se e de raciocinar corretam ente não sofre redução perceptível. (Ouvindo os registros de m inha conversação, quando sob o efeito da droga, nada m e leva a concluir que estivesse m ais estulto do que sou sob condições norm ais.)

2. As im pressões visuais tornam -se grandem ente intensificadas e o olho recupera um pouco da inocente percepção da infância, quando o senso não se achava direta e autom aticam ente subordinado à concepção. O interesse pelo espaço dim inui e a im portância do tem po cai quase a zero.

3. Em bora o intelecto nada sofra e a percepção sej a grandem ente aum entada, a vontade experim enta um a grande transform ação para pior. O indivíduo que ingere m escalina não vê razão para fazer sej a o que for, e considera profundam ente inj ustificável a m aioria das causas que, em circunstâncias norm ais, seriam suficientes para m otivá-lo e fazê-lo agir. Elas não o preocuparão, pela sim ples razão de ter ele m elhores coisas em que pensar.

4. Essas melhores coisas podem ser experim entadas (tal qual se deu com igo) lá fora, aqui dentro ou em am bos os m undos — o interior e o exterior, sim ultânea ou sucessivam ente. Que elas são m elhores, isso parece axiom ático a quem quer que tom e m escalina, desde que possua um fígado são e um a m ente isenta de angústias.

Esses efeitos da m escalina constituem o tipo de reação que se poderia esperar de um a droga com o poder de reduzir a eficiência da válvula redutora que é o cérebro.

Quando esse órgão é atingido pela carência de açúcar, o subnutrido ego se enfraquece, j á não m ais se pode perm itir em preender suas tarefas rotineiras e perde todo o interesse por essas relações de tem po e espaço que possuem tão grande valor para um organism o preocupado com a vida neste m undo. Assim que a Onisciência vence a barreira daquela válvula, com eçam a ocorrer todas as espécies de fatos desprovidos de utilidade biológica. Em certos casos, poderão dar-se percepções extra-sensoriais. Outras pessoas podem descobrir um m undo de visionária beleza. Ainda outras têm a revelação da glória, do infinito valor e da significação da existência prim eva, do fato obj etivo e não conceituado. No estágio final da despersonalização há um a "obscura noção" de que Tudo está em todas as coisas — de que Tudo é, em verdade, cada coisa. Isso é, no m eu entender, o m áxim o a que um a m ente finita pode alcançar em "aperceber-se de tudo o que está acontecendo em qualquer parte do universo".

A esse respeito, quão significativa é a enorm e am pliação da percepção das cores sob o efeito da m escalina! Para certos anim ais, a capacidade de distinguir determ inados m atizes possui grande im portância biológica. Mas, além dos lim ites de seu espectro utilitário, a m aior parte dos seres vivos apresenta com pleta insensibilidade às cores.

Assim as abelhas, que consom em quase todo o seu tem po "desflorando as frescas virgens da prim avera", só conseguem distinguir um as poucas cores, conform e Von Frisch o dem onstrou. A grande percepção às cores de que o olho hum ano é capaz é um luxo biológico — inestim avelm ente precioso para nós, com o seres intelectuais e espirituais, m as desnecessário à nossa sobrevivência com o anim ais. A j ulgar pelos adj etivos que Hom ero lhes pôs nas bocas, os heróis da Guerra de Tróia m al ultrapassavam as abelhas em sua capacidade para distinguir cores. Ao m enos sob esse aspecto, o progresso da hum anidade tem sido prodigioso.

A m escalina aviva consideravelm ente a percepção de todas as cores e torna o paciente apto a distinguir as m ais sutis diferenças de m atiz que, sob condições norm ais, ser-lhe-iam totalm ente im perceptíveis. Poder-se-ia dizer que, para a Onisciência, os cham ados caracteres secundários das coisas seriam os principais. Contrariam ente a Locke, ela consideraria as cores dos obj etos com o m ais im portantes e, pois, m erecedoras de m aior atenção que suas m assas, posições e dim ensões. Tal com o ocorre com os consum idores de m escalina, m uitos m ísticos percebem cores de um a intensidade preternatural, não só em seu m undo interior com o tam bém no das coisas obj etivas que os rodeiam . Fato idêntico ocorre com os indivíduos suscetíveis a ou que sofrem de psicoses. Há certos m édiuns para os quais as revelações que se m anifestam , por breves períodos, nos indivíduos que ingerem m escalina são um a experiência diária, de todas as horas, por longos espaços de tem po.

Podem os agora, após esta longa m as indispensável excursão ao reino da teoria, voltar àquela m aravilhosa realidade — quatro pés de cadeira, de bam bu, no m eio de um a sala. Quais narcisos silvestres de Wordsworth, eles m e proporcionaram toda sorte de riquezas — a inestim ável dádiva de um a concepção nova e direta da verdadeira Natureza das Coisas, bem com o um tesouro m ais m odesto, sob a form a de com preensão, particularm ente no cam po das artes.

Um a rosa é um a rosa, e nada m ais que um a rosa; m as esses quatro pés de cadeira, além de pés de cadeira eram São Miguel e todos os anj os. Quatro ou cinco horas após o início da experiência, quando com eçavam a cessar os efeitos da deficiência de açúcar no m eu cérebro, levaram -m e para um pequeno passeio pela cidade, no qual estava incluída um a visita, ao cair da tarde, ao que era m odestam ente considerado o m aior drugstore do m undo. Nos fundos do estabelecim ento, entre brinquedos, cartões de felicitações e revistas de histórias em quadrinhos, havia — por estranho que pudesse parecer — toda um a prateleira de livros de arte. Apanhei o prim eiro volum e ao alcance da m ão. Continha obras de Van Gogh, e o quadro que surgiu quando o livro se abriu foi A cadeira — aquele assom broso retrato de um a realidade m etafísica que o pintor louco viu, com um a espécie de reverente terror, e buscou reproduzir em sua tela. Mas essa era um a tarefa em que até o poder do gênio revelou-se totalm ente im potente. Estava claro que a cadeira vista por Van Gogh era, em essência, a m esm a que eu vira. Mas, ainda que incom paravelm ente m ais real do que aquela que a percepção com um deixa entrever, m esm o assim a cadeira do quadro continuava a ser nada m ais que um sím bolo do fato, em bora extraordinariam ente expressivo. O fato fora um a m anifesta Peculiaridade; isto era apenas um em blem a. Esses em blem as são fontes de conhecim entos seguros sobre a Natureza das coisas, e tais conhecim entos podem servir para preparar a m ente que os aceita para ilações im ediatas sobre essa m esm a natureza. Mas isso é tudo. Por expressivos que sej am , os sím bolos j am ais se podem converter nas coisas que representam .

Seria interessante, sob esse aspecto, realizar um estudo das obras de arte que prenderam a atenção dos grandes apreciadores da Peculiaridade. Que tipo de pintura teria Eckhart adm irado? Quais quadros e esculturas contribuíram para a experiência religiosa de San Juan de Ia Cruz, de Hakuin, de Huineng ou de William Law? Essas indagações estão além de m inhas possibilidades de resposta, m as tenho a convicção de que a m aioria dos grandes am antes da Peculiaridade pouco se preocupou com a arte —alguns, recusando-se pura e sim plesm ente a levá-la em conta; outros, contentando-se com trabalhos que olhos de crítico classificariam com o obras de segunda, ou m esm o de décim a classe. (Para um a pessoa, cuj a m ente transfigurada e transfiguradora é capaz de descobrir o Tudo em cada isto, a classificação de um a pintura com o sendo de prim eira ou de décim a categoria, ainda tratando-se de pintura religiosa, será coisa que lhe há de provocar a m ais soberana indiferença.) A arte, creio eu, interessa apenas a principiantes, ou então a essas obstinadas m ediocridades que decidiram satisfazer-se com a contrafação da Peculiaridade, com sím bolos em lugar daquilo que estes significam , com o cardápio elegantem ente apresentado em vez da própria refeição.

Devolvi Van Gogh à prateleira e apanhei o volum e seguinte. Era um livro sobre Botticelli. Folheei-o. O nascimento de Vênus, que nunca figurou entre m inhas telas prediletas; Vênus e Marte, aquela beleza tão apaixonadam ente denunciada pelo pobre Ruskin, no ardor de sua enfadonha tragédia sexual; m aravilhosam ente rica e intricada, seguiu-se a Calúnia de Apeles. Por fim , deparei com um quadro m enos conhecido e não m uito bom — Judite. Minha atenção foi despertada e eu m e quedei em bevecido, não pela pálida e neurótica heroína ou por sua serva; não ante a hirsuta cabeça da vítim a ou pela paisagem prim averil que form ava o fundo do quadro, m as ante a purpúrea seda do corpete pregueado e das longas saias que o vento ondulava.

Aquilo era algo que eu j á havia visto, e naquela m esm a m anhã, entre as flores e os m óveis quando, por acaso, olhei para baixo e m inha vista se extasiara ao fixar m inhas próprias pernas cruzadas. Essas dobras de m inhas calças — que labirinto de infinita com plexidade sim bólica! E a textura da flanela cinzenta — quão rica, profunda e m isteriosam ente suntuosa era ela! E lá estava isso tudo, de novo, no quadro de Botticelli!

Os seres hum anos civilizados usam roupas e, pois, não pode haver quadro, sej a ele retrato, narrativa m itológica ou histórica, onde não haj a representação de dobras de tecido. Mas, em bora podendo caber-lhe o m érito da origem , j am ais poderem os atribuir ao hábito do vestuário o exuberante tratam ento que a roupagem vem m erecendo com o tem a principal em todas as artes plásticas. É evidente que os artistas sem pre lhe conferiram um valor intrínseco (ou, quiçá m ais propriam ente, sem pre se aperceberam do valor que ela representava para eles). Quem pinta ou esculpe roupagens está pintando ou esculpindo form as que, em últim a instância, não possuem sim bolism o intrínseco —form as não condicionadas que os artistas, m esm o os m ais fervorosos adeptos do naturalism o, deixam entregues a si m esm as. No com um das Madonas ou dos Apóstolos, os elem entos estritam ente hum anos, inteiram ente sim bólicos, constituem cerca de dez por cento da obra. O restante é form ado por um sem -núm ero de variações coloridas do inexaurível tem a de linhos e lãs am arfanhados. E esses nove décim os não-sim bólicos de um a Madona ou um Apóstolo podem ser tão im portantes, qualitativam ente, quanto o são em quantidade. Não raro, são eles que dão o tom do conj unto da obra de arte, que estabelecem a nota m estra dentro da qual o tem a está sendo executado, que exprim em a disposição de espírito, o tem peram ento, a atitude do artista diante da vida. A serenidade estóica se revela por superfícies suaves, pelas am plas dobras das roupagens de Piero.

Esm agado entre realidade e vontade, entre cinism o e idealism o, Bernini aj usta a verossim ilhança quase caricatural das faces que m odela com vastas abstrações de pano que são a corporificação, em pedra ou bronze, dos eternos lugares-com uns da retórica — o heroísm o, a santidade, a sublim idade a que a hum anidade perpetuam ente aspira, quase sem pre em vão. E há ainda as saias e os m antos perturbadoram ente viscerais de El Greco; as dobras vivas, retorcidas quais cham as, em que Cosim o Tura envolvia seus personagens. No prim eiro, a espiritualidade tradicional se dilui em anônim o anelo fisiológico; debate-se, no segundo, um sentim ento torturado ante a reserva e a hostilidade características deste m undo. Exam inem os, agora, as obras de Watteau; seus hom ens e suas m ulheres em penham -se em lutas, aprontam -se para bailes, em barcam , em relvas de veludo e sob vetustas árvores, para a Citera dos sonhos de todos os am antes; a im ensa m elancolia que os envolve, bem com o a pungente sensibilidade de seu criador, encontram expressão, não nas ações, atitudes ou sem blantes dos personagens, m as no relevo e na textura de suas saias de tafetá, de seus m antos e gibões de cetim . Não há nelas nem um a polegada sequer de superfícies suaves; tudo é um em aranhado de sedas em incontáveis e m inúsculas pregas e rugas em incessante m odulação — reflexo de um a incerteza interior reproduzida com a perfeita segurança de um a m ão de m estre — de tom para tom , de um a cor indefinível para outra. Na vida, "o hom em põe e Deus dispõe". Nas artes plásticas, quem propõe é o assunto; m as quem dispõe é, em últim a instância, o tem peram ento do artista, e em prim eira — ao m enos em retratos, pintura histórica e descritiva — as roupagens e tapeçarias criadas pelo pincel ou pelo buril. Esses dois elem entos podem fazer com que um a festa galante nos faça vir lágrim as aos olhos; que um a crucificação tenha um a tal serenidade que nos alegre a alm a; que um a cena de suplício sej a quase que intoleravelm ente lúbrica; que o retrato de um prodígio de insensatez fem inina (penso, neste instante, no incom parável Mme.

Continuar: parte 2 de 3