As Portas da Percepção e Céu e Inferno

Aldous Huxley · Capítulo 6 de 12

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As Portas da Percepção e Céu e Inferno

Apêndice Ii

Esse m istério é, tão-som ente, um caso particular de um m istério m aior e m ais am plo — a natureza das relações entre a experiência visionária e o que se passa no dom ínio das células e dos fenôm enos quím icos e elétricos do organism o. Tocando certas áreas do cérebro com um eletrodo finíssim o, Penfield conseguiu provocar a reavivação de um a longa série de recordações presas a determ inada experiência passada.

Essa reavivação, além de precisa em todos os seus porm enores de percepções, foi tam bém acom panhada por todas as em oções que foram provocadas, a seu tem po, pelos fatos. O paciente, que se encontrava sob anestesia local, achou-se sim ultaneam ente em duas épocas e lugares — na sala de operações, no presente, e no lar de sua infância, a m ilhares de quilôm etros de distância e m ilhares de dias no tem po. Haverá —perguntarem os — algum a região do cérebro da qual o eletrodo de pesquisas possa retirar o Querubim de Blake, a m utável torre gótica de Weir Mitchell, incrustada de brilhantes j óias, ou a paisagem j aponesa, indizivelm ente bela, vista por m eu am igo? E se, com o creio, as experiências visionárias penetrarem em nosso consciente, vindas de algum lugar lá de fora, do infinito da Onisciência, que espécie de padrão neurológico ad hoc será por elas criado para o cérebro receptor e transm issor? E que acontecerá a tal padrão ad hoc quando a visão se esvair? Por que insistem todos os visionários na im possibilidade de repetir, ainda que de m odo vagam ente sem elhante, em form a e intensidade, suas experiências transfiguradoras? Quantas perguntas e, no entanto, quão poucas respostas!

 

APÊNDICE II

NO MUNDO OCIDENTAL, os visionários e m ísticos são hoj e m uito m enos encontradiços do que costum avam ser. Há duas razões principais para essa situação —um a, de natureza filosófica, e outra, de ordem tecnológica ou, m ais precisam ente, quím ica. No quadro atual de nosso universo não há lugar para experiências transcendentais convincentes. Em conseqüência, aqueles que tenham tido experiências dessa ordem , por eles consideradas válidas, são encarados com suspeita e considerados ou lunáticos ou m istificadores. Já não é m ais honroso ser m ístico ou visionário.

Mas não é apenas nosso clim a m ental que é desfavorável ao m ístico e ao visionário; tam bém o é nosso am biente quím ico — um am biente profundam ente diferente daquele em que viveram nossos antepassados.

O cérebro é quim icam ente controlado, e a experiência j á nos dem onstrou que ele pode tornar-se perm eável aos aspectos desfavoráveis (biologicam ente falando) da Onisciência, ante um a m odificacão do equilíbrio quím ico norm al (tam bém do ponto de vista biológico) do organism o.

Durante cerca da m etade de cada ano, nossos ancestrais não com iam frutas, hortaliças verdes e (visto que lhes era im possível alim entar, durante o inverno, m ais de um as poucas cabeças de gado bovino e suíno e algum as aves) consum iam pouquíssim a m anteiga e carne fresca, e poucos eram os ovos de que dispunham . No com eço de cada nova prim avera, a m aioria da população estava sofrendo, com m aior ou m enor intensidade, de escorbuto (ante a falta de vitam ina C) e de pelagra (pela deficiência, em sua dieta, do com plexo B). Aos desoladores sintom as som áticos dessas doenças, associavam -se os não m enos

pungentes indícios de desequilíbrios psíquicos. {17}

O sistem a nervoso é m ais vulnerável que os dem ais tecidos do corpo. Em conseqüência, as deficiências de vitam inas tendem a atuar sobre o estado de espírito antes de agirem , ao m enos de m odo ostensivo, sobre a pele, os ossos, as m ucosas, os m úsculos e as vísceras. A prim eira conseqüência de um a dieta im própria é um a redução da eficiência do cérebro com o instrum ento de sobrevivência biológica. O subnutrido tende a ser dom inado por ânsias, depressões, hipocondria e sentim entos de angústia. Ê tam bém capaz de ter visões, pois quando a válvula redutora — o cérebro — dim inui sua eficiência, m uito m aterial biologicam ente inútil flui para o consciente, vindo lá de fora, do Onisciente. Grande parte das experiências por que passaram os antigos visionários eram aterradoras. Para usar a linguagem da teologia cristã, o Dem ônio revelou-se, em suas visões e seus êxtases, com m uito m aior freqüência do que Deus. Em um a época na qual as vitam inas eram deficientes e a crença em Satanás era universal, isso não seria para surpreender. O sofrim ento m ental, associado a casos ainda que incipientes de pelagra e escorbuto, era agravado pelo tem or ao Inferno e pela convicção de que os poderes do m al eram onipresentes. Esse sofrim ento era capaz de tingir com suas próprias cores sinistras o m aterial visionário adm itido ao consciente através de um a válvula cerebral cuj a eficiência havia sido prej udicada pela subnutrição. Mas, a despeito de suas preocupações com a punição eterna e de suas doenças carenciais, os ascetas de m entalidade espiritual atingiam com freqüência o Céu em suas visões e chegavam m esm o, por vezes, a perceber aquela divina e im parcial Unidade, na qual os pólos opostos se reconciliam . Não parecia haver preço suficientem ente elevado para um lam pej o de beatitude, para o antegozar do ím par.

A m ortificação do corpo pode produzir um sem -núm ero de sintom as m entais indesej áveis; m as pode tam bém abrir um a porta para um m undo transcendental de Existência, Saber e Bem -Aventurança. Eis a razão por que, a despeito de suas desvantagens evidentes, quase todos os que aspiraram a um a vida espiritual, no passado, subm eteram -se a práticas regulares de m ortificação do corpo.

No que tange às vitam inas, cada inverno m edieval era um longo e involuntário j ej um , e a ele se seguiam , pela Quaresm a, quarenta dias de abstinência voluntária. A Sem ana Santa encontrava os fiéis m aravilhosam ente bem preparados, quanto ao equilíbrio bioquím ico de seus organism os, para seus trem endos estím ulos ao pesar e à alegria, para um a conveniente contrição da consciência e um a autotranscendente identificação com o Cristo ressurrecto. Nessa quadra da m ais alta excitação religiosa e do m ais baixo consum o de vitam inas, os êxtases e as visões eram quase que triviais. E era isso que se poderia esperar que acontecesse.

Para os contem plativos do claustro, havia várias Quaresm as por ano. E, m esm o entre os j ej uns, sua dieta era parca em extrem o. Daí aquelas agonias de depressão e hesitação descritas por tantos escritores m ísticos; daí suas terríveis tentações para o desespero e o suicídio. Mas a isso se deviam , tam bém , aquelas "graças gratuitas" sob a form a de visões e frases celestiais, de intuições proféticas, de telepática "com preensão dos espíritos". E, finalm ente, sua "contem plação inspirada", sua "obscura com preensão" da ubiqüidade do Im par.

O j ej um não era a única form a de m ortificação física de que se valiam os prim eiros aspirantes ao m isticism o. A m aioria deles costum ava flagelar-se com o látego de couro cheio de nós, ou m esm o com aram es. Essa flagelação correspondia à dor de um a grande intervenção cirúrgica sem anestesia, e seus efeitos sobre o equilíbrio quím ico do organism o do penitente eram consideráveis. Enquanto durava o suplício, as glândulas liberavam grandes quantidades de histam ina e adrenalina; e, quando as feridas resultantes com eçavam a supurar (com o soía acontecer a todas elas, antes da era do sabão), várias substâncias tóxicas, produzidas pela decom posição da proteína, penetravam na corrente circulatória. Mas a histam ina produz o choque, e este atua sobre a m ente com intensidade nunca inferior a sua ação sobre o corpo. Além do m ais, t grandes quantidades de adrenalina podem provocar alucinações, e i alguns produtos de sua decom posição são reconhecidos com o causadores de sintom as que lem bram os da esquizofrenia. Quanto às toxinas das feridas, elas desorganizam os sistem as enzim áticos reguladores do cérebro, reduzindo sua eficiência com o instrum ento I destinado a perm itir ao indivíduo viver em um m undo onde apenas os biologicam ente aptos podem sobreviver. Isso pode explicar por que costum ava o Cura d'Ars dizer que, quando lhe era dado flagelar-se sem piedade, Deus nada lhe recusava. Em outras palavras, quando a contrição, o horror a si próprio e o tem or ao inferno liberam adrenalina, quando a autoflagelação produz adrenalina e histam ina e quando as feridas infectadas fazem com que os produtos de decom posição da proteína se incorporem à corrente circulatória, a eficiência do cérebro com o válvula redutora fica prej udicada e, com isso, aspectos incom uns da Onisciência (incluindo fenôm enos psíquicos, visões e, se o indivíduo estiver filosófica e eticam ente preparado para isso, experiências m ísticas) fluirão para o consciente do asceta.

A Quaresm a, com o j á vim os, seguia-se a um prolongado período de j ej um involuntário. De m odo análogo, os efeitos da autoflagelação eram com plem entados, naquela época, por m uita absorção involuntária de proteína decom posta. A odontologia era inexistente, os cirurgiões eram carrascos e não havia anti-sépticos. A m aioria das pessoas, portanto, devia levar a vida inteira com focos de infecções; e esses focos, em bora j á não m ais se lhes atribua a paternidade de todas as doenças que afligem o corpo, nem por isso deixam de ser considerados com o capazes de certam ente dim inuir a eficiência do cérebro com o válvula redutora.

E qual será a m oral de tudo isso? Os expoentes de um a filosofia Excelsa hão de responder que, podendo as alterações no equilíbrio quím ico do organism o criar as condições favoráveis à experiência visionária e à m ística, tanto um a com o outra não podem representar o que se proclam a ser — aquilo que, para os que j á as experim entaram , é fora de dúvida que elas constituem . Mas isto, evidentem ente, é um a inconseqüência. A um a conclusão sem elhante chegarão aqueles cuj a filosofia for im propriam ente espiritual. Deus, insistirão eles, é um espírito e, pois, deve ser cultuado em espírito. Portanto, um a experiência que é quim icam ente condicionada não pode ter ligações com a Divindade. Acontece, porém , que, de um a form a ou de outra, todas as nossas experiências são quim icam ente condicionadas; e, se im aginam os que algum as delas são puram ente espirituais, apenas intelectuais ou estéticas, é som ente porque j am ais nos preocupam os em investigar o am biente quím ico interno, na ocasião de sua ocorrência. Além do m ais, é coisa com provada pela história que a m aioria dos contem plativos trabalhou sistem aticam ente para poder m odificar o equilíbrio quím ico de seu organism o, tendo em vista criar condições internas favoráveis à inspiração m ística. Quando não se estavam m atando à m íngua com deficiências de açúcar no sangue e carências de vitam inas, ou a flagelar-se até se intoxicar por m eio da histam ina, da adrenalina e dos produtos de decom posição da proteína, cultivavam a insônia e a prece por longos períodos, em posições desconfortáveis, a fim de provocar os sintom as psicofisiológicos da fadiga. Nos intervalos, esses ascetas entoavam salm os interm ináveis, aum entando assim a concentração de dióxido de carbono nos pulm ões e no sangue ou, se eram orientais, faziam exercícios respiratórios para chegar ao m esm o resultado. Sabem os, hoj e em dia, com o dim inuir a deficiência da válvula redutora por m eio de ação quím ica direta e sem risco de infligir sérios danos ao organism o psicofisiológico.

Quem aspirasse ao m isticism o e volvesse, no atual estado de nossos conhecim entos, ao j ej um prolongado e à violenta autoflagelação seria tão insensato quanto o aprendiz de cozinheiro que se com portasse com o o chinês de Charles Lam b que, para assar um leitão, ateou fogo à casa.