As Portas da Percepção e Céu e Inferno

Aldous Huxley · Capítulo 2 de 12

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As Portas da Percepção e Céu e Inferno

Prefácio

 

A alusão que aldous huxley faz ao poeta William Blake nos títulos de seus dois ensaios sobre as drogas alucinógenas não deve nos enganar: As portas da percepção (1954) e Céu e Inferno (1956) são m editações escritas à luz radiosa da razão, relatos de experiências com a m escalina que não conduzem a um a adesão im ediata aos paraísos artificiais, m as sim a um a idéia de alargam ento da consciência que não elide seu elem ento reflexivo.

Essa observação é fundam ental por causa da história nada desprezível da recepção de Huxley em um âm bito que ultrapassa os lim ites da cham ada "alta cultura" (na qual ele havia se consagrado como autor dos clássicos Contraponto e Admirável mundo novo). No final dos anos 60, o compositor, cantor e poeta Jim Morrison criou na Califórnia uma banda de rock chamada The Doors, cujo nome fora inspirado na leitura de As portas da percepção. Morrison morreria em Paris em 1971, provavelmente de overdose, mas sua curta e fulminante trajetória — marcada não apenas pelo sucesso musical e por escândalos comuns dentro do universo pop, como também por uma produção poética que chegou a ser comparada à de Rimbaud — acabaria estabelecendo uma ponte entre a poética visionária de Blake, o erotismo sacrificial dos concertos dos Doors e a obra de Huxley, que assim ganharia um a aura de guru da contracultura.

Essa identificação estava sintetizada num trecho do célebre poem a em prosa "O m atrim ônio do céu e do inferno" — "If the doors of perception were cleansed every thing would appear to m an as it is, infinite" ("Se as portas da percepção estivessem lim pas, tudo se m ostraria ao hom em tal com o é, infinito", segundo tradução de José Arantes publicada pela editora Ilum inuras). E, no entanto, a im agem de Huxley com o um a espécie de profeta aristocrático da era hippie não parece resistir à leitura de As portas da percepção e Céu e Inferno. É bem verdade que ele m esm o alim entou a confusão ao colher os títulos dos ensaios nos aforism os de um poeta "m aldito", que m im etizou suas alucinações tanto com as palavras quanto em telas que representam personagens bíblicas em cenários apocalípticos. E tam bém é verdade que Morrison estava sendo fiel à letra de Huxley ao conferir a suas experiências com m escalina e ácido lisérgico um caráter ritual inspirado no xam anism o: afinal, o escritor inglês escolhera a m escalina para seus experim entos j ustam ente por causa da função sagrada que o peiote (raiz da qual é extraída a droga) desem penha nas religiões dos índios am ericanos.

O fato, porém , é que em nenhum m om ento Huxley parece buscar nos alucinógenos um a conversão m ística ou um a ruptura absoluta com o m undo ordinário.

Tam pouco parece m ovido por um desacordo essencial em relação aos cárceres psicológicos e perceptivos da realidade em pírica. Enquanto Blake era um gnóstico para quem "o cam inho do excesso leva ao palácio da sabedoria", Huxley fez do excesso de sabedoria e de curiosidade um cam inho para o palácio do êxtase: é a razão que, percebendo sua insuficiência perante a pluralidade do m undo, busca um a abertura para novas form as de percepção que sej am um a alternativa ao solipsism o (essa perversão do idealism o) e ao behaviorism o (perversão do em pirism o).

Nesse sentido, Aldous Huxley é um perfeito agnóstico.

Vale a pena fazer aqui um pequeno desvio para explicar a origem desse term o.

Afinal, a expressão "agnóstico" foi literalm ente inventada pelo avô de Aldous — o em inente biólogo Thom as Henry Huxley — durante as acirradas polêm icas surgidas depois da publicação de A origem das espécies, de Charles Darwin, em 1859. Ferrenho defensor da teoria da evolução, Thom as Henry se viu na obrigação de rebater as críticas dos criacionistas (religiosos que faziam um a leitura fundam entalista das Escrituras, defendendo a idéia de que o hom em foi gerado por Deus em sua conform ação atual), form ulando então um conceito que passou a ser um estandarte do antidogm atism o e da em ancipação do pensam ento:

Quando cheguei à m aturidade intelectual e com ecei a perguntar-m e se era ateu, teísta ou panteísta, m aterialista ou idealista, cristão ou livre-pensador, percebi que quanto m ais aprendia e refletia m enos fácil era a resposta, até que por fim cheguei à conclusão de que nada tinha a ver com nenhum a dessas definições, com exceção da últim a. A única coisa em que todas essas excelentes pessoas estavam de acordo era a única coisa em que eu discordava delas. Estavam bastante seguras de que tinham atingido um a certa 'gnose' — haviam , com m aior ou m enor sucesso, resolvido o problem a da existência, enquanto eu estava bastante seguro do contrário e possuía um a convicção razoavelm ente forte de que o problem a era insolúvel. [...] Portanto, m editei e inventei o que m e parece ser um rótulo adequado: 'agnóstico'. Pensei nele com o um a antítese sugestiva dos 'gnósticos' da história da Igrej a, que professavam conhecer coisas em que eu era ignorante.

Aldous Huxley foi um legítim o herdeiro do ethos ilum inista e anti-religioso de seu avô. As Portas da percepção e Céu e Inferno são relatos pacíficos de um a experiência extraordinária e sugerem um autor que não transfere para a escrita as fendas e as instabilidades de sua paisagem interior. Estam os longe do estilo candente de um Thom as de Quincey ou de um Artaud — para citar dois outros escritores que associaram drogas a um estado de espírito dem oníaco. Com Huxley, estam os m ais próxim os do ceticism o m oderno de Montaigne ou Hum e; ele desconfia igualm ente do totalitarism o da razão e das quim eras de nossa im aginação e só se interessa por estas últim as em sentido antropológico, com o um a fresta por onde se pode sondar a alm a hum ana.

Mesm o quando tem atiza as drogas em obras de ficção, o escritor inglês parece estar preocupado m enos com o transe que elas provocam em personagens individuais do que com seus efeitos sobre o m ecanism o psicológico das m assas — caso dos narcóticos im aginários consum idos no universo asfixiante de Admirável mundo novo (o soma, que provoca um bem -estar politicam ente anestesiante) e na sociedade utópica do rom ance A ilha (a moksha, um a pílula que "liberta do cativeiro do próprio ego"). Talvez sej a por isso, por essa falta de predisposição ao fantástico ("sou e, até onde m inha m em ória alcança, sem pre fui pouco dado a devaneios"), que, ao provar pela prim eira vez a m escalina, em 1953, Huxley tenha descoberto não um novo continente, m as um novo olhar sobre cenários fam iliares: "Nada de paisagens, espaços abissais, m ágico crescim ento e m etam orfose de edificações, nada que lem brasse, por rem oto que fosse, um dram a ou um a parábola. O outro m undo ao qual a m escalina m e conduzira não era o m undo das visões; ele existia naquilo que eu podia ver com m eus olhos abertos. A grande transform ação se dava no reino dos fatos obj etivos. O que tinha acontecido a m eu universo subj etivo era coisa que, relativam ente, pouco im portava". A essa ausência de figuras sobrenaturais, porém , corresponde a perplexidade diante do caráter transcendente que os obj etos adquirem a partir da alteração do estado de consciência de quem os observa. Descrevendo as transform ações que sofrem as flores de um vaso, um a cadeira ou um sim ples pedaço de tecido na percepção de alguém que ingeriu a droga, Huxley nos revela o "m ilagre do inteiro desabrochar da existência em toda sua nudez" e um a nova dim ensão de tem po, "um perpétuo presente, criado por um apocalipse em contínua transform ação".

A despeito das referências de Huxley ao taoísm o e a m ísticos com o são João da Cruz ou Swedenborg, essa "visão sacram entai da realidade" proporcionada pela m escalina se restringe a um plano estritam ente natural. Huxley adm ira os estados de espírito extáticos porque eles proporcionam exem plos do caráter irredutível da existência — e, sob esse aspecto, o uso argum entativo que Huxley faz de Buda e de Mestre Eckhart tem um a surpreendente sem elhança com o sentido que este grande nom e da m ística renana ou o filósofo j aponês Nishida adquirem na obra de Heidegger. De resto, quando Huxley descreve sua percepção "narcotizada" de um a cadeira com o "m inha Despersonalização na Desindividualização que era a cadeira", a frase parece rem eter exatam ente à distinção que o filósofo de Ser e tempo faz entre o ente manipulável (tal qual instituído pela razão instrumental) e o ser autêntico (cuja eterna irrupção fora encoberta pela dicotomia sujeito-objeto e seria redescoberta pela superação heideggeriana da metafísica).

À diferença de Heidegger, porém , Huxley considera que tanto o esquecim ento da totalidade do ser quanto seu oposto — a abertura da consciência para a irrupção dos acontecim entos —- são um fenôm eno do m undo biológico. Para ele, o cérebro e o sistem a nervoso seriam um a "válvula redutora", que evita — por m eio do caráter seletivo da m em ória e das restrições im postas pela linguagem — que o hom em sej a esm agado pela torrente de inform ações a que sua "onisciência" potencial estaria suj eita.

Seria um anacronism o tentar avaliar a correção dessas afirm ações a partir das descobertas recentes das neurociências. Nem As portas da percepção nem Céu e Inferno são tratados científicos. Huxley cita vários pesquisadores de seu tem po, consulta especialistas, explica a ação quím ica dos diferentes tipos de drogas, defende suas virtudes e aponta seus m alefícios — m as parece se guiar sobretudo por aquele espírito de curiosidade intelectual form ulado por Montaigne na aurora da m odernidade. Céu e Inferno — texto que dá continuidade às experiências relatadas em As portas da percepção — é um a cartografia da m ente cuj a analogia entre os estados possíveis da consciência e as zonas do globo (com sua diversidade de fauna e flora) deve m uito à descrição, feita nos Ensaios de Montaigne, das "m aravilhas" encontradas pelos navegantes nos antípodas das terras civilizadas.

Em Céu e Inferno, essas m etáforas geográficas expressam "a dessem elhança essencial das regiões longínquas da m ente" que as drogas perm item desbravar. Para o leitor de hoj e, elas têm tam bém um significado ético: ensinam a olhar com tolerância e com preensão para essas pequenas epifanias que nos consolam de um m undo em que o prazer é m ercantilizado pela indústria do com bate ao narcotráfico e em que a m ente é agenciada pelos psicofárm acos. Aliás, a proliferação atual das drogas norm alizantes —que reduzem o cérebro a um a glândula e transform am a existência num protocolo — torna ainda m ais urgente a necessidade de transcendência que podem os detectar pela onipresença do uso de alucinógenos nas m ais variadas culturas. Com o escreve Aldous Huxley : "Parece extrem am ente im provável que a hum anidade, de um m odo geral, algum dia sej a capaz de passar sem paraísos artificiais. A m aioria dos hom ens e m ulheres leva um a vida tão sofredora em seus pontos baixos e tão m onótona em suas em inências, tão pobre e lim itada, que os desej os de fuga, os anseios para superar-se, ainda por uns breves m om entos, estão e têm estado sem pre entre os principais apetites da alm a".

MANUEL DA COSTA PINTO