As Portas da Percepção e Céu e Inferno

Aldous Huxley · Capítulo 10 de 12

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As Portas da Percepção e Céu e Inferno

Apêndice Vi

Na Natureza, com o nas obras de arte, o isolam ento de um obj eto tende a em prestar-lhe um valor absoluto, para conferir-lhe aquele significado m ais que sim bólico que se pode identificar com a existência.

But theres a tree — ofm any, one — A singlefield which I have loohed upon: Both of them speak of som ething that is gone.

Aquele algo que Wordsworth j á não m ais podia ver era o "brilho visionário".

Aquele brilho, lem bro-m e bem , e aquela im portância intrínseca eram as características de um carvalho solitário, que podia ser visto do trem , entre Reading e Oxford, vicej ando no topo de um pequeno outeiro, em m eio a vasta extensão de terreno cultivado, e que se proj etava contra o pálido céu do Norte.

Mas há um a árvore - dentre m uitas um a – Um único cam po para o qual lancei o olhar: / Falam am bos de algo que se foi.

Os efeitos do isolam ento, com binados com os da proxim idade, podem ser estudados, em toda a sua m ágica singularidade, em um a extraordinária pintura de um artista j aponês do século XVII que foi tam bém fam oso esgrim ista de seu tem po e estudioso da doutrina zen. Representa um açor em poleirado na ponta de um galho seco, "esperando não se sabe o quê", m as no m ais alto estado de tensão. Acim a, abaixo e em torno da ave, nada. O pássaro em erge do Vazio, daquela condição eternam ente inexprim ível e destituída de form a que, não obstante, é a própria substância do m últiplo, concreto e transitório Universo. Aquela ave, em seu galho seco, é o que m ais se aproxim a do gélido tordo de Hardy. Mas, enquanto o tordo vitoriano insiste em nos querer ensinar qualquer coisa, o açor do Extrem o Oriente contenta-se apenas com existir, em estar, intensa e com pletam ente, lá.

 

APÊNDICE VI

MUITOS ESQUIZOFRÊNICOS PASSAM a m aior parte de seu tem po em um lugar que não é a Terra, o Céu, nem tam pouco o Inferno, m as sim um m undo cinzento e um broso, povoado de fantasm as e quim eras. O que se dá com esses portadores de psicoses ocorre tam bém , em bora em grau m uito m enor, com certos neuróticos atingidos por um a form a m ais branda de doença m ental. Recentem ente, chegou-se à conclusão de que é possível produzir esse estado de vida angustiante adm inistrando a um paciente um a pequena dose de um dos derivados da adrenalina. Para os vivos, as portas do Céu, do Inferno e do Purgatório abrem -se, não por m eio de pesadas chaves duplas de m etal, m as sim pela presença no sangue de um conj unto de substâncias quím icas e pela ausência de outras tantas. O m undo das som bras, habitado por alguns esquizofrênicos e neuróticos, lem bra de perto o m undo dos m ortos, tal com o é descrito em algum as das religiões m ais antigas. Assim com o as alm as penadas de Sheol e do Hades, de que nos fala Hom ero, essas criaturas m entalm ente desequilibradas perderam o contato com a m atéria, com o idiom a e com seus sem elhantes. Não têm interesse na vida e acham -se condenadas à inutilidade, à solidão e a um silêncio apenas quebrado por seus próprios grunhidos e sons inarticulados.