As Portas da Percepção e Céu e Inferno
Apêndice Vii
O histórico da evolução da escatologia dem onstra um progresso genuíno —progresso esse que pode ser descrito, em term os teológicos, com o a passagem de Hades para o Céu; em term os quím icos, com o a substituição por m escalina ou ácido lisérgico da adrenolutina e, em term os psicológicos, com o a passagem da catatonia e das sensações de irrealidade para um sentim ento de sublim e realidade na experiência visionária e, finalm ente, para a própria experiência m ística.
APÊNDICE VII
GÉRICAULT FOI UM VISIONÁRIO NEGATIVO, pois, em bora sua arte fosse quase que obsessivam ente fiel à Natureza, essa fidelidade era prestada a um a natureza que havia sido m agicam ente transfigurada para pior, tanto em sua percepção com o na reprodução do que fora apreendido. "Com eço por pintar um a m ulher" — disse ele um a vez — "m as ela acaba sem pre com o um leão". Na verdade, seus quadros acabavam , m ais freqüentem ente, por se revelarem algo bem m enos agradável que um leão — um cadáver ou m esm o um dem ônio. Sua obra-prim a, a prodigiosa A j angada da m edusa, não foi pintada tendo com o m odelos seres vivos, e sim corpos doentios e em decom posição — porções de cadáveres que lhe eram fornecidas por estudantes de m edicina, o busto m acilento e a face am arelada de um am igo que estava sofrendo de um a doença do fígado. As próprias ondas em que se balouçava a j angada, o céu m esm o, têm cor de cadáver. É com o se todo o Universo se houvesse transform ado em necrotério.
E há ainda suas dem oníacas pinturas: O derby, vê-se logo, está sendo disputado no Inferno, destacando-se de um fundo que arde em cham as soturnas de "escuridão visível". O cavalo assustado •pelo relâm pago, exposto na Galeria Nacional, é a revelação, em um breve m om ento roubado à m archa do tem po, da estranheza da peculiaridade sinistra, infernal m esm o, que se esconde nas coisas m ais fam iliares a nós.