As Portas da Percepção e Céu e Inferno
Apêndice Viii
No Museu Metropolitano há um retrato de criança. E que criança! Em seu casaco lugubrem ente brilhante, o pequenino lem bra o que Baudelaire costum ava cham ar "um Satanás em botão", un Satan en herbe. E um nu de hom em , tam bém no Metropolitano, outra coisa não é senão o "Satanás em botão" j á adulto.
Pelo que de si relatam seus am igos, depreende-se que Géricault via norm alm ente o m undo que o rodeava com o um a sucessão de apocalipses visionários. O fogoso cavalo de um a de suas obras m ais antigas — Officier de chasseurs —, ele o vira certa m anhã na estrada para Saint-Cloud, entre a poeira que os raios do sol estivai realçavam , a em pinar-se e a corcovear entre os varais de um ônibus. Os personagens da Jangada da Medusa foram pintados diretam ente, um a um , na tela virgem . Não houve qualquer esboço prelim inar do conj unto da com posição, nem um estabelecim ento gradual da harm onia de tons e m atizes. Cada revelação particular — de um corpo em decom posição, de um doente apresentando um quadro de hepatite avançada — ia sendo integralm ente reproduzida tal com o era vista e artisticam ente concebida. Por um m ilagre de gênio, cada apocalipse sucessivo se ia adaptando m agicam ente a um a com posição harm oniosa que só existia, quando a prim eira visão apavorante foi transferida para a tela, na im aginação do artista.
APÊNDICE VIII
EM SARTOR RESARTUS CARLYLE DEIXOU o que seu biógrafo psicossom ático, dr. Jam es Halliday, cham a em seu Mr. Carly le, m y Patient [Carly le, m eu cliente] de "um a surpreendente descrição de um estado de espírito psicótico, em boa parte depressivo, m as algo esquizofrênico".
"Os hom ens e m ulheres que m e rodeavam ", escreve Carly le, "em bora falando com igo, não passavam de Figuras; eu tinha praticam ente esquecido que eles estavam vivos, que não eram sim ples autôm atos. A am izade era apenas um a incrível tradição. No m eio de suas ruas apinhadas e de suas reuniões, eu cam inhava solitário; eu era bravio qual tigre na selva, em bora fosse m eu próprio coração, e não o do próxim o, que eu devorava [...] Para m im , o Universo estava inteiram ente vazio de Vida, de Finalidade, de Volição, até de Hostilidade; não passava de um a m áquina a vapor im ensa e inteiram ente im produtiva, avançando, em sua com pleta indiferença, para esm agar-m e, m em bro após m em bro [...] Inteiram ente sem esperança, tam pouco sentia eu um m edo definido, fosse ele ao Hom em ou ao Dem o. E, no entanto, por estranho que pareça, vivia em contínuo, indefinido e lânguido pavor; trêm ulo, pusilânim e, apreensivo sem saber por quê; parecia que todas as coisas — do Céu e da Terra — iriam fazer-m e m al; era com o se o Céu e a Terra não passassem de im ensas m andíbulas de um m onstro devorador, enquanto eu, em agonia, esperava ser por elas esm agado".
Renée e o idolatra dos heróis fizeram , com o se vê, descrições de experiências sem elhantes. O Infinito era apreendido por am bos, m as sob a form a do sistem a, da "im ensa Máquina a Vapor". Ainda para am bos, tudo era im portante, m as negativam ente im portante, de m odo que cada acontecim ento era inteiram ente desorientador; cada obj eto, intensam ente irreal; cada ser hum ano, prenhe de volição, era considerado um boneco m ecânico, m ovendo-se grotescam ente para o trabalho e as distrações, am ando, odiando, pensando, sendo eloqüente, heróico, santo ou o que m ais se pudesse querer, m esrno porque os autôm atos nada valem se não forem versáteis.
{1} Pseudônim o literário de George William Russell (1867-1935), poeta e pintor irlandês.
{2} Arfoat - m onge budista que atingiu a luz; santo budista.
{3} Weltanschauung ("visão do m undo") é um a concepção filosófica do universo com o decorrência do rum o dos acontecim entos no m undo com o um todo.
{4} Bodhisattva - santo budista; aquele que, seguindo as pegadas do Buda, deverá, em encarnação futura, tornar-se tam bém um Buda.
{5} Técnica de usar pontos individuais de tinta que j untos fazem um a im agem .
{6} Yggdrasil - freixo gigante da m itologia escandinava, que sim boliza o Universo.
{7} Ver Apêndice I.
{8} Ver Apêndice II.
{9} Ver Apêndice III
{10}
Ver Apêndice IV.
{11} Coom araswam y, A. K. The Transform ation of N ature inArt, p. 40.
{12}
Ver Apêndice V.
{13} Séchéhay e, M. A. Journal dune schizophrène. Paris, 1950.
{14}
Ver Apêndice VI.
{15} Ver Apêndice VII.
{16}
Ver Apêndice VIII.
{17} Ver The Biology ofHum an Starvation [A biologia da fom e hum ana], por A. Key s (University of Minnesota Press, 1950) e os relatórios recentes (1955) da pesquisa sobre o papel das carências de vitam inas nas doenças m entais, realizada na Califórnia Meridional pelo dr. George Watson e seus assistentes.
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Aldous Huxley
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