Atendimento Nutricional a Crianças e Adolescentes: Visão Prática

Capítulo 1 Crescimento Físico – Aspectos Gerais

O crescimento é um processo dinâmico e contínuo, expresso pelo aumento do tamanho corporal. Caracteriza-se pela somatória de fenômenos celulares, biológicos, bioquímicos e morfológicos e constitui um dos indicadores de saúde da criança.

Por definição, crescimento significa o processo resultante da

multiplicação e da diferenciação celular, que determina alterações progressivas nas dimensões do corpo inteiro ou de partes e segmentos específicos, em relação ao fator tempo, do nascimento à idade adulta. O crescimento é resultado da divisão celular (hiperplasia) e do aumento do tamanho das células (hipertrofia), com consequente aumento das estruturas e massa corporal do indivíduo, sendo modulado pela interação de fatores genéticos, ambientais, constitucionais e nutricionais.

Apesar das diferenças conceituais existentes sobre crescimento e

desenvolvimento, as investigações científicas sobre o assunto atestam que são processos simultâneos e diferenciados. Muitas vezes os conceitos de crescimento e desenvolvimento são utilizados de forma comum e indiscriminada, especialmente devido à existência de forte interação entre ambos. Todavia, referem-se a processos que, embora sejam indissociáveis e de impossível ocorrência isolada, constituem fenômenos diferentes que sempre demonstram correspondência direta entre si.

O desenvolvimento caracteriza-se pela sequência de

modificações evolutivas em órgãos e sistemas do organismo humano, que induzem ao aperfeiçoamento de suas complexas funções. Desse modo, o crescimento refere-se essencialmente às transformações quantitativas, enquanto o desenvolvimento engloba, de modo simultâneo, tanto as transformações quantitativas quanto as qualitativas. O desenvolvimento também é resultante de aspectos associados ao próprio processo de crescimento físico, à maturação biológica e às experiências vivenciadas no atributo considerado: desempenho motor, emocional, social, cognitivo etc.

O crescimento é influenciado por fatores intrínsecos, como a

genética, e extrínsecos, entre os quais se destacam a alimentação, a saúde, a higiene, a habitação e os cuidados gerais com a criança, que atuam acelerando ou restringindo tal processo.

O crescimento pôndero-estatural e de órgãos e/ou sistemas

apresenta variações em sua velocidade, caracterizando suas denominadas fases. O crescimento saudável é alcançado com alimentação adequada. Na fase inicial da vida, o leite humano é indiscutivelmente o alimento que reúne as características nutricionais ideais, com balanceamento adequado de nutrientes, além de desenvolver inúmeras vantagens imunológicas e psicológicas, importantes na diminuição da morbidade e da mortalidade infantil. A amamentação é, então, importante para a criança, para a mãe, para a família e deve ser continuamente incentivada. Vale ressaltar que, em relação ao crescimento linear, pode-se dizer que a estatura final do indivíduo resulta da interação entre sua carga genética e fatores do meio ambiente, os quais permitirão maior ou menor expressão de seu potencial genético. As interações genético-ambientais e nutricionais se contrapõem às ideias mecanicistas, segundo as quais apenas os genes determinariam as características dos indivíduos.

A alimentação adequada é fundamental nos dois primeiros anos

de vida, pois nesta fase o crescimento é intenso, havendo redução gradativa do 1 o o para o 2 ano. A fase do nascimento até os 2 anos distingue-se pelo rápido aumento da dimensão corporal. Muitas crianças duplicam seu peso nos cinco primeiros meses e triplicam ao final do primeiro ano. De 1 a 2 anos, a criança aumenta em 200% seu peso corporal, 55% sua estatura e 40% seu perímetro cefálico. Após os 2 anos, a velocidade de crescimento se estabiliza em patamares menores e, na adolescência, com o início da puberdade, há novamente aumento do ritmo de crescimento.

As condições nutricionais da gestante influenciam diretamente

no crescimento futuro da criança, especialmente até os 18 meses, quando este processo passa a ser determinado pelo potencial genético, devendo manter-se em um mesmo canal de crescimento até os 10 anos de idade, quando se inicia a puberdade.

Embora ainda não tenha sido claramente estabelecida a

influência da nutrigenômica no crescimento infantil, sabe-se que, caso a criança não tenha bom estado nutricional, ela não atingirá seu potencial máximo de crescimento. A diminuição do crescimento na infância e na adolescência contribui, significativamente, para os déficits de estatura constatados nos adultos. Atualmente, preconiza-se que o déficit nutricional é o fator preponderante no crescimento, independentemente da condição social. Nesse contexto, é de suma importância destacar que os três primeiros anos da vida representam o período mais importante, pois é o período de maior vulnerabilidade. Nesta fase, o aparecimento de doenças infecciosas e de desnutrição pode também causar alterações significativas no sistema nervoso central. Por outro lado, esta é a etapa do ciclo da vida com maiores possibilidades de reversão de danos causados por doenças e deficiências nutricionais, inclusive de micronutrientes.

Romani e Lira (2004), em uma extensa revisão sobre os fatores

determinantes no crescimento de criança, verificaram que os fatores extrínsecos interagem, diretamente, com a carga genética e permitirão maior ou menor expressão do potencial genético. Ele cita ainda que novos estudos longitudinais são necessários para estabelecer todos os fatores de risco, tendo em vista as mudanças no perfil epidemiológico dos problemas nutricionais, a chamada “transição nutricional”, com possíveis implicações sobre o crescimento infantil.

Embora o padrão de crescimento de um modo geral varie

individualmente, a criança (dos 2 anos de vida até a puberdade) ganha em média dois a três quilos de peso corpóreo e cresce 6 a 8 cm em estatura por ano. Como a velocidade de crescimento é particularmente mais elevada nos primeiros 2 anos, este período é considerado o mais vulnerável aos distúrbios de crescimento. Como indicador de influências ambientais negativas sobre a saúde da criança, o déficit estatural é melhor que o ponderal, sendo o indicador mais sensível de má nutrição nos países.

A partir dos 2 aos 3 anos de idade, há crescimento linear de 8

cm, e entre os 3 e 4 anos, há crescimento de 7 cm. Dos 3 aos 6 anos, a velocidade de crescimento diminui. Nesta fase, as crianças tornam-se mais compridas e mais esguias, perdem a face redonda típica do bebê e os músculos abdominais desenvolvem-se, diminuindo a barriga. Dos 4 anos até o início da puberdade, o ritmo médio de crescimento é de 4 a 6 cm centímetros por ano, tornando-se mais lento conforme mais próximo estiver do início da puberdade. As diferenças entre os sexos, nesta fase, são pequenas, porém o padrão de maior adiposidade nas meninas já se inicia aos 6 anos. As meninas apresentam porcentagem de peso maior de gordura do que os meninos, até mesmo na idade pré-escolar, mas estas diferenças na massa magra corporal e gordura não se tornam significativas até a adolescência. Este período também é crítico para o aparecimento do sobrepeso e, consequentemente, da obesidade na próxima fase. Torna-se bastante importante verificar as preferências e aversões alimentares, que ocorrem na fase pré-escolar, pois as crianças costumam limitar a variedade de alimentos ingeridos, diminuir o consumo de vegetais e carnes e ter preferência por doces e guloseimas. É necessário paciência, pois elas prolongam muito as refeições e distraem-se facilmente.

Na fase escolar, a estatura alcançada reflete muito mais o

passado nutricional do que a situação presente, pois os riscos mais significativos no comprometimento do crescimento já foram em parte superados. Porém, essa fase precede o estirão pubertário, favorecendo o fenômeno de repleção energética, como forma de guardar energia para o intenso crescimento que ocorre a seguir. Durante este período da vida, as crianças tendem a comer menos frequentemente durante o dia, apesar de a ingestão alimentar aumentar. Novamente é necessário paciência, pois a mídia passa a ter forte influência na alimentação, modificando suas atitudes e escolhas alimentares; esses escolares tendem a preferir alimentos energéticos e com alto teor de sódio. Intervenções antes dos 10 anos de idade reduzem a gravidade das doenças causadas pelos maus hábitos alimentares de maneira mais eficiente do que as mesmas intervenções na fase adulta.

A estatura média das crianças, dos 7 aos 10 anos de idade,

aumenta em média de 5 a 6 cm, e o peso em 2 a 3 kg por ano, quando se inicia a sinalização para a puberdade. Em geral, o crescimento é estável e lento durante os anos pré-escolar e escolar, mas pode ser irregular em algumas crianças, com períodos de não crescimento seguidos de estirões.

As proporções corporais das crianças pequenas mudam de forma

significativa após o primeiro ano. Há pouco crescimento da cabeça e dos membros; as pernas, especialmente, têm crescimento maior do que o do tronco, o que reflete uma proporção corporal mais madura. Até os 7 anos, o tronco representa 55% da estatura total, porém aos 10 anos diminui para 45%. Com o caminhar e o aumento da atividade física, as pernas estabilizam-se, enquanto os músculos abdominais e das costas tornam-se mais firmes para suportar a criança, agora ereta. Essas alterações são graduais e acontecem no decorrer dos anos e, por não serem agudas, muitas vezes são imperceptíveis. É nesta fase, porém, que comumente desenvolve-se a obesidade, devendo os pais e responsáveis ficarem atentos.

Stein et al. (2010), em um estudo de coorte, verificaram que os

fatores socioeconômicos, bem como o estado nutricional da mãe durante a gestação e o peso ao nascer, são intervenientes em potencial, e atuam como preditores do crescimento linear durante a fase escolar. Observaram também que existe correlação direta entre o peso do escolar e o do adulto, sugerindo que as intervenções em nível populacional devem ser conduzidas nesta fase, para que a criança não sofra problemas na velhice. Dados semelhantes foram encontrados por Lourenço et al. (2012), com crianças brasileiras da região do Amazonas.

Após os 10 anos ocorre a puberdade, e as diferenças entre

meninos e meninas tornam-se mais evidentes. As meninas, devido à maturação sexual, crescem (8 a 9 cm/ano) e aumentam de peso ligeiramente mais rápido do que os meninos. Essa aceleração ocorre até seis meses antes da menarca (primeira menstruação) e desacelera após este episódio. Os meninos crescem em média 10 cm/ano, porém este pico se inicia entre 11 e 13 anos. Aos 10 anos, as meninas são em média 1 cm mais altas do que os meninos e 1 kg mais pesadas, com maior depósito de gordura corporal.

Dessa maneira, o estudo sobre o crescimento infantil deve ser

objeto permanente de investigação, devido especialmente às repercussões que acarreta a longo prazo no organismo humano.

 

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