Atendimento Nutricional a Crianças e Adolescentes: Visão Prática
Capítulo 4 Atividade Física e Esportes
As evidências científicas indicam que a atividade física regular, durante a infância/adolescência, pode reduzir o risco de graves problemas de saúde. Todavia, as estatísticas de sedentarismo superam as estatísticas de atividade física, tornando crianças/adolescentes um grupo vulnerável às doenças crônicas.
A atividade física praticada com frequência proporciona
emoções positivas, que produzem sensação de bem-estar geral, relacionada com aumento da autoestima.
Entre os efeitos psicológicos positivos estão o efeito
antidepressivo e o melhor controle da ansiedade e do estresse. Por todos esses motivos, durante a infância/adolescência são preconizados programas de atividade física que promovam efeitos benéficos fisiológicos, sociais e psicológicos, no presente e na vida adulta.
Inerente ao incentivo à prática de atividade física está o fato de
que as crianças/adolescentes adotem padrões dietéticos saudáveis, visto que essa combinação propicia o crescimento, o desenvolvimento e o amadurecimento, além do trabalho físico e mental. Todavia, a prática esportiva demanda ainda mais energia e nutrientes para promover um desempenho esportivo melhor.
ENERGIA E MACRONUTRIENTES
O gasto energético da criança/adolescente esportista depende da intensidade e do tipo de exercício praticado, além de outros fatores, como massa magra e gasto energético em repouso.
O exercício físico aumenta o gasto energético de maneira distinta
em cada esportista. Em condições normais, esse aumento do gasto energético é compensado por aumento do apetite. Contudo, a ingestão dietética deve ser prescrita para diferentes modalidades esportivas, uma vez que o gasto é distinto entre essas modalidades.
Uma vez calculada a energia, é preciso calcular a distribuição
dos macronutrientes ou nutrientes energéticos.
Os carboidratos são nutrientes fundamentais que exigem
especial atenção, visto que são os principais fornecedores de energia. Com a prática de atividade física, os gastos energéticos estão aumentados, correndo o risco de hipoglicemia, pela diminuição da glicose circulante e até do glicogênio. Com um planejamento alimentar adequado, é possível influenciar e promover o rendimento esportivo. O percentual energético fornecido pelos lipídios (ou gorduras) deve ser o mesmo das recomendações para o grupo etário correspondente, com exceção do aumento proporcional à elevação do aporte calórico da dieta.
As demandas desses nutrientes podem ser expressas em valores
absolutos (gramas/dia), ou em valores relativos ao peso corporal (gramas/quilo de peso corporal/dia). Quando se trata de individualizar as recomendações, pode ser mais proveitoso expressá-las de forma relativa. Para os esportistas de diferentes modalidades, é preferível recomendar os gramas de proteína ou de carboidratos em função do peso corporal, sempre levando em consideração o tipo de exercício físico (força ou resistência) praticado. As necessidades de proteínas relativas ao peso corporal diminuem, progressivamente, desde a primeira infância até a adolescência, contudo, as demandas absolutas de proteínas aumentam. No caso de programas de treinamento de força e/ou de resistência, as demandas de proteínas aumentam muito (1,5 a 1,8 grama de proteínas/quilo de peso corporal).
VITAMINAS E SAIS MINERAIS
Os sais minerais e as vitaminas são necessários para manter o crescimento e o desenvolvimento normais da criança. O consumo insuficiente de sais minerais e vitaminas pode resultar em alterações do crescimento e/ou no surgimento de doenças decorrentes de sua deficiência.
A partir dos 4 anos de idade, as necessidades diárias de
vitaminas em valores absolutos, denominadas cotas dietéticas recomendadas (RDA, do inglês recommended daily allowance), assim como os níveis máximos de ingestão toleráveis (UL, do inglês upper limit — apresentados para alguns micronutrientes), estabelecidos como referência de ingestão dietética (DRI, do inglês dietary references intakes), começam a aumentar.
Essas demandas diárias de vitaminas e sais minerais, em valores
absolutos, são modificadas, segundo o gênero, na segunda etapa da adolescência (14 a 18 anos de idade).
As crianças que praticam atividades esportivas podem ter
deficiências de vitaminas do complexo B, visto que estas atuam no metabolismo energético. Contudo, o uso e, em muitos casos, o abuso de suplementos de sais minerais e vitaminas podem gerar riscos para a saúde.
Não existem estudos comprovando que a suplementação
vitamínica aumente o rendimento esportivo. A suplementação sem indicação pode ocasionar sérios problemas, tanto no caso de vitaminas lipossolúveis quanto hidrossolúveis (como a vitamina C), provocados pelo consumo de doses elevadas por períodos prolongados.
Em relação aos sais minerais, é importante assegurar o aporte
adequado de cálcio, para promover mineralização óssea adequada, principalmente nos períodos de máximo crescimento. Já foi demonstrado que a prática de exercícios físicos moderados aumenta a massa óssea máxima (quantidade de tecido ósseo existente para finalizar a maturação esquelética) na adolescência. Isso justifica a recomendação de que crianças/adolescentes pratiquem exercícios que exijam a participação de todos os músculos. Em contrapartida, a prática de exercícios intensos e persistentes, sobretudo por mulheres adolescentes atletas, pode comprometer a mineralização, ocasionando a denominada “tríade das esportistas”: anorexia, amenorreia e osteoporose.
As demandas de ferro, aumentadas pela puberdade e pela
menstruação nas adolescentes, são ainda maiores quando da prática de determinadas atividades esportivas, por causa de hemólise, com perdas urinárias, fundamentalmente, por causa de microtraumatismos.
HIDRATAÇÃO
Atualmente, as bebidas esportivas e as bebidas energéticas são muito populares, especialmente entre crianças/adolescentes. As crianças consomem bebidas esportivas e energéticas como maneira de se manterem hidratadas durante a prática de atividades físicas e esportivas. Contudo, é preciso selecionar cuidadosamente o tipo de bebida com fins de hidratação, antes, durante ou depois do exercício, para prevenir o excesso de açúcar e de calorias, pois elas podem favorecer a erosão dentária e a obesidade. O Committee on Nutrition e o Council on Sports Medicine and Fitness da American Academy of Pediatrics (AAP) revisaram a literatura de 2000 até 2009, no tocante ao consumo dessas bebidas pela população crianças/adolescentes, e recomendam o seguinte:
◆ O consumo de bebidas esportivas e energéticas não é
recomendado para crianças/adolescentes, exceto se participarem de atividades físicas prolongadas e intensas
◆ O consumo de líquidos (água em vez de bebidas esportivas e
energéticas) deve ser aumentado antes, durante e depois do exercício, para prevenir a desidratação
◆ As crianças/adolescentes devem evitar o consumo excessivo de
açúcar, cafeína, carboidratos e outros estimulantes que podem ser encontrados em algumas dessas bebidas, devido à possibilidade de vários efeitos nocivos para a saúde.
A AAP promove orientação e assessoramento aos pais, às
escolas e aos treinadores, a respeito do consumo de líquidos por crianças/adolescentes. A ingestão excessiva de carboidratos, que não é acompanhada por aumento correspondente e persistente do nível de atividade física, é uma das principais causas de sobrepeso e obesidade em crianças/adolescentes.
SUPLEMENTAÇÃO ESPORTIVA NA
INFÂNCIA/ADOLESCÊNCIA
Embora as evidências científicas apoiem de modo significativo as estratégias nutricionais apropriadas e a hidratação saudável para crianças/adolescentes que praticam atividades esportivas, o uso de suplementos dietéticos para melhorar o rendimento esportivo deste grupo etário, quando saudável, não é aprovado nem preconizado pela literatura.
A maioria dos esportistas de categorias juvenis não relatou
consumo de suplementos dietéticos para aumentar o rendimento esportivo. Em um estudo realizado em uma população de jovens esportistas que declararam fazer uso de suplementos dietéticos, a maioria informou que ingeria uma vitamina ou uma combinação de vitaminas/sais minerais, o que é compatível com outros estudos nesse grupo etário. Do ponto de vista de crescimento e desenvolvimento, a American Dietetic Association (ADA) recomenda que a melhor nutrição deve ser fundamentada em estratégias para promover a saúde ótima e reduzir o risco de doenças crônicas em todos os grupos etários, inclusive as crianças, por meio de escolha cuidadosa dos vários tipos de alimentos. A ADA enumera apenas cinco situações para as quais está indicada a prescrição de suplementos dietéticos: gestação, pessoas com dificuldades no aporte alimentar, etilistas, vegetarianos estritos e pessoas com necessidades nutricionais aumentadas (por causa de uma doença crônica ou do uso de medicamento). A única recomendação de suplementação para crianças/adolescentes é a complementação da dieta com vitamina D, se houver ingestão inferior a 400 UI por dia.
Na sua declaração formal sobre nutrição e performance esportiva
de 2009, o American College of Sports Medicine (ACSM) afirmou: “Os suplementos de vitaminas e sais minerais não são necessários se o consumo energético for suficiente para manter o peso corporal e se forem consumidos alimentos variados.”
A creatina é um suplemento comercializado para promover a
formação de massa muscular e a perfomance esportiva, sendo atualmente o suplemento ergogênico mais utilizado pelos atletas que desejam “criar” músculos e melhorar a recuperação. A creatina é, comprovadamente, eficaz nos adultos que realizam exercícios de curta duração e alta intensidade, como corridas de velocidade e levantamento de peso, mas não é eficaz para as atividades esportivas de resistência, como as corridas de fundo. A maioria das pesquisas sobre a creatina foi realizada em laboratórios, com atletas de sexo masculino, maiores de 18 anos, e há pouca pesquisa clínica em uma população esportiva saudável com menos de 18 anos de idade. Portanto, gera preocupação que o relato de uso de suplementos para melhorar a perfomance esportiva tenha como idade média um pouco menos de 11 anos de idade. Essa é uma faixa etária muito baixa para relato de consumo de qualquer produto que vise melhorar a perfomance esportiva, mas pode ser um sinal dos esforços de marketing, assim como do crescimento da população infantil, que participa cada vez mais precocemente em competições esportivas. É preciso refletir (e interferir) sobre o conteúdo de substâncias e ingredientes perigosos, em qualquer suplemento que esteja sendo consumido por crianças com 11 anos de idade. Um artigo recente na Revista de Derecho de California (2010) destacou que os adolescentes são, com frequência, um grupo consumidor potencial e suscetível à influência externa. Esse artigo também afirmou que muitos adolescentes fazem uso de creatina monoidratada por causa das propagandas, declarando que esta aumenta a velocidade e a resistência. Em Nova Jersey foi aprovado, por unanimidade, o projeto de lei S-195 que proíbe a venda de creatina a menores de idade.
O uso de suplementos foi relatado tanto por crianças que vivem
com os dois genitores quanto por crianças que vivem com apenas um dos genitores. Outros estudos informam que o genitor ou o treinador são as pessoas que recomendam o suplemento esportivo para o atleta adolescente. Por outro lado, visto que os fitoterápicos podem conter combinações de várias substâncias que não foram aprovadas pela FDA, é preocupante que as crianças/adolescentes estejam consumindo um produto com uma mistura de elementos com consequências desconhecidas. Isso deveria preocupar os genitores, os treinadores esportivos e todos os profissionais de saúde que atendem a essa população. Por fim, é preciso ressaltar que crianças/adolescentes podem ser a referência negativa ou o modelo positivo a seguir para seus irmãos mais novos, no tocante ao uso de suplementos. Essa possibilidade tem de ser lembrada, quando do desenvolvimento de programas educativos.
HÁBITOS E RECOMENDAÇÕES ALIMENTARES PARA
ATIVIDADES FÍSICAS E PRÁTICA ESPORTIVA
De acordo com as demandas nutricionais revisadas para a prática de atividades físicas e esportivas na infância/adolescência, as recomendações alimentares listadas a seguir devem ser respeitadas, bem como deve ser monitorada a adoção de bons hábitos para a vida saudável atual e futura:
◆ Fazer o desjejum ou consumir um alimento antes da atividade
física e da prática esportiva
◆ Distribuir de maneira adequada alimentos/bebidas/preparações
ao longo do dia, observando os horários de treinamento ou competição
◆ Promover o consumo de alimentos de vários grupos, sem
restrição
◆ Monitorar o crescimento e o desenvolvimento, de acordo com a
estatura e a idade
◆ Evitar sobrepeso ◆ Evitar o consumo excessivo de gorduras saturadas, açúcar e
sódio
◆ Consumir quantidade suficiente de cereais e fibras
◆ Não ultrapassar 20% de proteína no valor calórico total da dieta
◆ Manter-se hidratado antes, durante e após o exercício.
Para obedecer a essas recomendações, deve-se, especificamente,
atentar para que o alimento ingerido antes da atividade física ou da competição pertença ao grupo dos cereais; em segundo lugar e, em proporção moderada, uma fonte de carboidratos simples como as frutas ou o mel. Nesse momento, os sucos podem ser uma opção pertinente. Essa refeição, antes da atividade física, deve dar preferência a alimentos pobres em gordura, bem como pode ser incluída uma fonte de proteína.
O consumo de alimentos que forneçam proteína, assim como as
fontes de fibra, não é recomendável nos horários próximos à atividade física, por causa da estimulação digestiva e do tempo de absorção. Os alimentos ricos em proteínas devem ser incluídos nas refeições ao longo do dia.
O consumo de alimentos, bebidas e preparações deve ser
adequadamente distribuído ao longo do dia, promovendo a eficiência energética tanto para a atividade física quanto para o crescimento e o desenvolvimento. Essa conduta evita desajustes que provoquem sobrepeso.
GUIA DE ALIMENTAÇÃO ANTES E DURANTE
COMPETIÇÕES ESPORTIVAS
Antes da competição
Se a competição for no horário matutino, desjejum duas a três horas antes, com um máximo de 500 kcal, incluindo suco, leite ou iogurte desnatado e torradas ou cream-cracker com geleia e queijo fresco.
Se a competição for no horário vespertino, desjejum de 500 a
800 kcal; a refeição deve ser ingerida aproximadamente três horas antes e deve ser rica em carboidratos, pobre em gordura e em pequeno volume. Os pratos não devem ser muito elaborados nem condimentados. Os alimentos mais úteis são as massas e o pão. O aporte energético deve ser suficiente para que a pessoa não sinta fadiga, visto que a capacidade de manter o esforço prolongado depende do conteúdo de glicogênio muscular armazenado com o treinamento e a dieta prévios.
Se a competição for no horário noturno, desjejum habitual.
Refeição semelhante à descrita anteriormente, embora possa ser um pouco mais abundante. Ingerir lanche de duas a três horas antes, à base de torrada ou cream-cracker com geleia ou mel, queijo fresco ou iogurte desnatado e suco.
Durante a competição
Durante o exercício físico, o mais importante é compensar as perdas de água. Devem ser utilizadas bebidas cuja composição seja de 2,5% de carboidratos (como glicose e/ou frutose) e 10% de dextrinomaltose, visto que está comprovado que essas concentrações favorecem a absorção no espaço intravascular. Atividade física e família
A atividade esportiva na vida dos jovens é geralmente considerada positiva como atividade social e cultural. Exerce efeitos benéficos para a saúde física, mental e emocional, assim como para o crescimento e o desenvolvimento. O fato de que o interesse na prática esportiva hoje é maior deve ser considerado favorável no contexto da saúde do adolescente e da criança.
Numerosas pesquisas sugerem que os genitores e o ambiente
familiar exercem um papel importante na estruturação dos níveis de atividade física das crianças, graças ao suporte e ao exemplo de comportamento. A maioria dos estudos demonstrou os efeitos positivos do suporte dos genitores manifestado como compra de equipamento esportivo, pagamento de inscrições, proporcionando transporte, praticando a atividade com as crianças, observando e supervisionando, assim como oferecendo conforto e discutindo os efeitos benéficos do exercício ou da prática esportiva realizada.
Em estudo longitudinal de meninas com 9 a 15 anos de idade, a
manutenção do nível de atividade física durante esse período foi associada principalmente ao modelo de atividade física dos genitores. Esse trabalho ressaltou o efeito potencial do comportamento dos genitores sobre os níveis de atividade física das crianças. Contudo, ainda não há informações sobre a natureza exata dessa influência, tanto sobre a participação dos genitores e das crianças na atividade física quanto nos hábitos sedentários conjuntos.
Os genitores fisicamente ativos são mais propensos a ter crianças
fisicamente ativas. Em um estudo recente de meninos e meninas com 12 anos de idade, os níveis de atividade física dos genitores apresentavam correlação significativa aos níveis de atividade física dos filhos. As meninas e os meninos, cujos dois genitores eram fisicamente ativos tinham, respectivamente, quase quatro e oito vezes mais probabilidade de participar de uma atividade esportiva, em comparação com as crianças cujos dois genitores eram sedentários.
A pesquisa nessa área poderia ser impulsionada pela análise do
período de tempo durante o dia que os genitores e os filhos praticam atividade física ou seu comportamento sedentário conjunto. Por meio de entrevistas qualitativas, Thompson et al. constataram que as famílias realizam pouquíssima ou nenhuma atividade física em conjunto durante a semana. O programa de atividades relatadas por pais e filhos ao longo da semana foi principalmente de cunho sedentário, como, por exemplo, assistir a televisão. Nos fins de semana, os genitores praticam mais atividade física com seus filhos, mas essas atividades geralmente não incluem toda a família. Em outro estudo, o período de tempo de atividade física dos pais e dos filhos diminuiu de 60 min, inicialmente, para 40 min no acompanhamento. Veitch et al. também constataram que, quando uma família visita algum parque, é nos dias de semana que as crianças participam de algum jogo
com mais frequência. A Figura 4.1 apresenta três pirâmides com sugestões de atividades e adaptações de acordo com a faixa etária.
Figura 4.1 Pirâmides de atividades, com sugestões e adaptações segundo a faixa etária. Adaptada de Garrido et al., 2008.
Os adolescentes podem precisar de menos supervisão dos
genitores durante a atividade física ou podem preferir atividade física com os amigos em vez da família. Pesquisas anteriores já haviam constatado que as crianças praticam menos atividade física com os familiares à medida que crescem.
As meninas e os meninos maiores compartilham mais o
comportamento sedentário com seus genitores do que as crianças menores. Os genitores mais velhos compartilham mais atividades sedentárias com seus filhos do que os genitores mais jovens. Portanto, a substituição dos períodos de tempo gastos por genitores e filhos em atividades sedentárias por atividade física conjunta poderia ter efeitos benéficos para a saúde, especialmente para as meninas, os adolescentes e os genitores mais velhos.
OceanofPDF.com