Atrás da Porta

Adriana Gavazzoni · Capítulo 4 de 9 · parte 3/3

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Atrás da Porta

– Entra em mim rápido, agora!

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

No dia seguinte, Lara não tocou no assunto, nem eu. Eu ainda não tinha capacidade de fazer isso. Tentava me dizer que quem fora para casa dormir abraçado com Lara tinha sido eu, mas minha mente, ainda bastante arcaica, me atormentava. Eu me sentia traído, envergonhado por não ter impedido os acontecimentos, mas me consolava com a transa quente com a francesinha.

Lara voltou ao comportamento normal, como sempre fazia depois de um sexo explosivo. Isso me ajudou a encarar normalmente os fatos e a novamente me ordenar a sentir, aproveitar, experimentar, não planejar e não julgar com minha forma tradicional de ver o mundo – ao menos enquanto estivesse com aquela mulher.

Quando já acreditava que todas as surpresas de Paris haviam sido desembrulhadas, veio outra inacreditável. Ela me avisou que tinha um compromisso no sábado pela manhã, perguntou se eu gostaria de ir com ela, e sim, eu gostaria, naturalmente.

Chegamos ao Park Monceau por volta das onze horas da manhã. Havia três senhores nos aguardando sentados num banco. Quando viram Lara, a recepcionaram com alegria. Ela me apresentou a eles dizendo que eram amigos de sua avó, os três mosqueteiros de Emma. Lara os havia herdado após a morte da avó.

Hervé, Théophile e Maurice eram bastante simpáticos. Todos falavam inglês em vários níveis e sempre com uma carga extra de sotaque no R, mas eu os compreendia bem. Os velhos meninos eram falantes e divertidos.

Fomos a um restaurante nas proximidades e o clima do almoço foi de alegria, com os velhotes divertidos e falantes. Comemos uma tradicional ratattouille, um cozido de legumes sensacional.

– Mark, vous avez de la chance! – Você tem sorte, traduziu Hervé. – Lara é uma menina encantadora, puxou a avó dela!

– Emma era ainda mais linda – suspirou Théophile.

– Tão linda quanto Lara, e tão encantadora também – disse Maurice.

– Pelo que vejo, vocês eram muito amigos da avó de Lara.

– Ah, sim, Emma foi a mulher mais fantástica que já conheci – suspirou novamente Théophile.

– Théo – chamei-o pelo apelido que ele insistiu que eu usasse. – Me parece que você foi apaixonado por ela.

– Todos fomos – disse Maurice.

– Todos? E ainda são amigos? Nenhuma dúvida sobre isso?

– Claro que não! Emma não era de ninguém, era do mundo, e nós ficávamos felizes em tê-la conosco. Ela nos ensinou muito sobre a alegria de viver.

– Essa menina aqui – disse Hervé, acariciando os cabelos de Lara – herdou muito de Emma, menos a altura, porque Emma era desse tamanico – e mostrou com a mão o que seria uma micromulher. – Você deve ser especial, Mark, ela nunca trouxe ninguém para nos conhecer.

Essa notícia me fez esquecer Le Mask, sentimentos confusos de traição. Fui inundado por aquela sensação de ser especial que todos os apaixonados têm quando alguém lhes comunica que o objeto de sua paixão faz algo “só com ele”.

– Meu amigos, Mark é realmente especial – disse Lara, e sorriu para mim ternamente. – “Me peça para pular da Torre Eiffel e irei agora”, pensei.

– Lara também, Mark, cuide dela, ou você vai ver os três mosqueteiros em ação – Maurice me alertou com o dedo levantado.

Minha imaginação é fértil: fiquei visualizando aqueles três velhotes, já bem judiados pela vida, em ação, com espadas e capas, e tive que sorrir.

Nos despedimos no final do almoço com a promessa de Lara de revê-los em breve. Lara decidiu retornar ao Parc Monceau e nos sentamos por ali, perto da Colonnade, apenas apreciando o mundo girar. Estávamos tendo momentos preciosos de intimidade.

– Você sempre os vê quando vem à França? – perguntei.

– Sim, sempre que venho guardo um momento para eles. São uma parte do que me sobrou de Emma.

–Ela era muito importante para você, não?

– Ela foi meu porto seguro no meio da tormenta, foi quem deu sentido a tudo que vivi e me mostrou que eu podia ser normal dentro do que havia vivido.

– Ela a ajudou depois do “episódio”? – eu não sabia como chamar a história de Lara.

– Sim, quando nos mudamos para Nova York ela mais ou menos morou conosco –tinha um apartamento dela, para “escapadas”, mas passou a nos administrar e nos cuidar.

– Vocês eram próximas antes disso?

– Ela odiava minha mãe e havia se afastado um pouco, segundo ela, para que meu pai pudesse viver tranquilo com suas escolhas. Não queria que ele se sentisse vigiado. Foi ela que me apresentou Paris, me trouxe para conhecer a cidade, queria me ensinar sobre arte e beleza. Eu sempre a amei.

– Ela me parece ter sido uma mulher sábia.

– E era: sábia, louca, doce, tudo em uma só pessoa.

– Ela sabia do que aconteceu com você? – olhei para ela em busca de aprovação para continuar no assunto.

– Minha mãe fez questão de manter em segredo meus “estudos” em Paris. Penso que acreditava que Emma poderia fazer uma visita e desmascará-la. Depois que tudo veio à tona, ela soube. Eu não conseguia falar sobre o assunto, ainda tenho dificuldades de falar, como você bem sabe. Naquela época, então, era tudo recente e eu vivia num emaranhado de medo, insegurança e culpa.

– Culpa?

– Culpa. Eu me sentia suja, passava o tempo me perguntando por que havia me colocado naquela situação, minhas tentativas infantis de chamar a atenção de um homem mais velho haviam me feito um brinquedo dele por quase quatro anos, haviam destruído minha família.

– Meu Deus, Lara, você era uma menina, que culpa poderia ter?

– Eu tivera prazer naquele relacionamento doente, Mark. O sexo me dava prazer, a estada em Paris me dava prazer, eu me sentia horrível, não me sentia uma pessoa digna. Meu pai ficara sem a esposa e com uma filha problemática nas mãos. Meus irmãos perderam a mãe, nos mudamos da nossa casa de infância e perdemos nossos amigos, e eu me sentia a causadora de tudo isso.

– Você não teve culpa de nada Lara, sua mãe já traía seu pai, vendeu-a para aquele merda, que culpa você poderia ter?

– Eu pensava que se tudo isso fosse verdade e a culpa não fosse minha, por que então eu gostava do sexo que fazia com ele? Eu o desprezava, mas havia gostado das experiências sexuais... de todas...

– Porque sexo é bom!

– Sim, muito. Mas aí entrou Emma. Ao contrário da minha mãe, que nunca se dignou a ter uma conversa séria sobre o assunto, Emma começou a conversar comigo, me explicar coisas da vida, e conseguiu me fazer entender que sexo e sentimentos não vêm necessariamente juntos, que sexo é uma necessidade fisiológica, não precisa estar ligado à emoção. Ela me disse uma vez: “Sexo, Lara, é bom até quando é ruim. O único problema é que quando, feito com pessoas que não apreciamos emocionalmente, elas deveriam se reduzir a pó, e o vento deveria carregá-las após nos proporcionarem um orgasmo”. E ela tinha razão.

– Ela foi ótima, era muito avançada para uma avó, não?

– Ela era jovem de espírito e livre, namorava, viajava, tinha dez mil interesses e talentos, dançava tango, amava dançar, falava diversas línguas, pintava, contava histórias, era fantástica. Emma tinha milhares de amigos e fãs. Todos os amigos que vinham à nossa casa amavam ficar com Emma, ouvindo suas histórias e seus conselhos.

– Ela era a mãe que todo mundo quer ter.

– Mais que isso, era o coração e a alma da família. Meu pai foi acolhido e confortado; meu irmão contou para ela que tinha sentimentos estranhos por homens e ela o ajudou a passar pelo drama de enfrentar a sexualidade e descobrir que era gay; minha irmã queria ser “menina”, brincar de casinha, ter filhos e ser feliz assim, e ela a apoiou; e para mim, bom, para mim foi o que fez o mundo ter sentido.

– Você sente muita falta dela?

– Todos os dias. Faz cinco anos que ela se foi – disse Lara com os olhos cheios de lágrimas. – Perdê-la foi terrível para mim. Fiquei em pé apenas pelas lições dela. No final, ela estava bem doente e me preparando para sua partida. Foi cremada. Viemos todos a Paris para jogar suas cinzas do alto da Torre Eiffel, como ela queria. Queria ir com o vento em mil direções, dizia. Já que não podia ser onipresente em vida, queria sê-lo na morte.

– Acho que você tem muito dela, esse espírito livre.

– Tenho, mas com meus monstros dentro do armário, o que Emma não tinha. Não acreditava em passado, só no hoje. Dizia que ontem já era, amanhã não era possível saber se seria, mas hoje era o momento que valia. Dizia que não tinha pendências com o passado, que tudo estava solucionado.

– E você? Tem pendências com o passado?

– Várias! Não herdei isso da Emma. Tenho ódios que não consigo resolver.

– Se eu fosse você, me sentiria da mesma forma.

– Será, Mark? Você me parece tão... “direito”. Tudo feito de acordo com as regras, vida direita, carreira direita, seus pais devem se orgulhar de você!

– Meu pai sim. Minha mãe morreu quando eu tinha dois anos e eu não tive a Emma.

– Eu não sabia; seu pai se casou novamente?

– Pior que não, acho que ele amava muito minha mãe, desses amores que não se fazem mais. Ele nunca quis pôr ninguém no lugar dela, me criou sozinho.

– É, meu amigo querido, mãe não é nosso forte – disse isso, aproximou a cadeira, encostou a cabeça no meu ombro e ficamos ali, vendo o tempo passar, em completa harmonia.

Capítulo Quinze

 

Enfim veio o sábado. Carl telefonou cedo para Simone sugerindo uma mudança de planos. Ele chegaria à cidade por volta das quatro horas da tarde, discutiriam o caso e depois iriam jantar. Ela concordou e lhe disse que poderiam conversar no escritório. Ela planejava se comportar de forma profissional, ao menos durante parte do encontro, apesar do jeans sexy que imaginava usar.

Carl chegou um pouco mais tarde que o esperado. Viera dirigindo de Nova York. Contou-lhe que adorava dirigir e explicou que fora almoçar com seu amigo Peter e não conseguira sair mais cedo.

Simone abriu a porta para ele. Estava sozinha no consultório naquele dia, ele estendeu a mão para cumprimentá-la de jeito formal, mas então se aproximou e lhe deu um beijo no rosto. “Um começo promissor”, ela pensou.

– Maravilhoso ver você, Simone! Por favor, desculpe-me a impaciência de falar com você antes que finalize a leitura, mas realmente preciso entender as coisas melhor. Este caso está me deixando louco.

Simone fez uma anotação para a falta de cumprimentos pessoais, do tipo: “Você está bonita etc.”, o que denotava certa ausência de interesse pessoal – mais um homem encantado apenas por seu cérebro, ela sofreu com a ideia.

– Como lhe disse ao telefone, Carl, ainda não tenho um diagnóstico completo. Cheguei na leitura até a viagem deles a Paris. Pode ser que o rumo dos acontecimentos mude até o final, mas a princípio posso lhe dar algumas explicações.

– Ótimo, perfeito, preciso disso – disse ele, esfregando as mãos.

Certamente, pensou Simone, ele tinha uma questão ética ali. Estava defendendo um inocente ou um criminoso? Mas, até para um advogado experiente, a sensação de defender um inocente deveria ser mil vezes melhor.

– Estou praticamente convencida da inocência de Mark – sentenciou hesitante Simone, que detestava emitir opiniões antes de concluir um trabalho.

– Praticamente?

– Sim. Como lhe disse, até o final pode haver alguma mudança que indique um caminho diferente.

– Certo.

– Ele me parece uma pessoa correta. Poderia dizer que é rígido. Apesar disso, em certo ponto se deixa levar pelo comportamento da Lara. Mas isso é normal. Pessoas organizadas e corretas tendem a se deixar atrair pelas desestruturadas, e vice-versa. Pessoas desequilibradas tendem a buscar no equilíbrio do outro estrutura para a própria vida. Normalmente não funciona, pois acabam levando o outro para o buraco.

– Você acha que ela chegou a gostar de Mark ou ele era apenas um pilar para ela se escorar?

– Impossível ter certeza, mas há um nítido envolvimento dela. Pode ser apenas pela sensação de segurança que ele proporciona. Estava sempre à mão, pelo que pude notar, mas da forma como ele escreveu, e isso pode ser apenas a percepção dele, parece-me que há sentimentos de Lara por Mark.

– Por que Lara era assim?

– Assim como?

– Escorregadia, meio maluca, extremamente promíscua...

– É uma longa explicação. Lara, pelo que vi, tinha uma personalidade sadomasoquista, com alto grau de autodestruição. Ela amava o perigo… sexo com desconhecidos, montanha-russa, locais arriscados. Era como se buscasse, de forma inconsciente, ser punida pelo abuso sofrido na infância.

– Personalidade sadomasoquista? São pessoas que gostam de infligir dor ou que sentem prazer na dor, não? Sou advogado, Simone, ouço falar nesses termos, mas o significado sempre é mais complexo do que aparenta.

– Sim, para simplificar, é isso. Na verdade, são pessoas que tiram prazer da dor, própria ou alheia. Quando é própria, é masoquismo; quando alheia, sadismo. Mas na verdade são duas faces da mesma moeda, um contém o outro.

– Quem provoca dor também sofre?

– Não de propósito, mas sim, sofre. Lara sofreu em vários momentos. Penso que Mark escreveu o que viu, mas temos que ir além da impressão dele para ver mais profundamente. Há indicação clara de que Lara não queria ser como era, pois isso a fazia sofrer.

– Ela tinha como não ser como era? Ela teve escolha?

– Provavelmente não, Carl. Ela tinha muitas feridas mal cicatrizadas, foi submetida a um tratamento cruel numa idade em que a personalidade está adquirindo contornos. A adolescência é a idade da rebeldia, mas paradoxalmente é tempo de fazer parte de um grupo, de se identificar com a matilha. Lara não se rebelou nem pertenceu. Não podia se rebelar, porque pesavam sobre ela chantagem e dominação; e não podia pertencer ao grupo de adolescentes porque não era igual a eles.

– Pobre Lara.

– Pobre Lara, pobre Mark, que foi atraído por uma mulher mais complicada do que ele dava conta de lidar. Ele não me parece sadomasoquista, mas se adaptou a Lara, passou a realizar as fantasias dela para fazê-la feliz.

– Mas ele também parece ter realizado as dele…

– Será? Para mim, parece mais que a única fantasia dele era ter aquela mulher para si, exclusivamente, sem maluquices…

– Difícil dizer… Parece que ele sentia prazer nas loucuras dela…

– Sentia, mas temos que ter em mente que a narrativa é escrita apenas sob o ponto de vista dele, por isso precisarei falar com algumas pessoas que conheceram Lara, até com o próprio Mark, porque uma coisa é colocar sentimentos num papel, outra é falar sobre eles com um completo gestual corporal, que permite uma bela leitura. Me daria um entendimento melhor.

– Certamente, você vai falar com quem quiser. Eu apenas gostaria que terminasse antes o texto, emitisse uma opinião, para depois entrevistar outras pessoas. Seus pensamentos serão menos preconceituosos dessa forma.

– Você acredita na narrativa de Mark?

– Acredito. Mark é o que você disse, um tipo que segue as regras à risca, não um mentiroso. É muito honesto.

– Eu também acredito… mas há bastante trabalho… Concordo em terminar o texto antes de abordar as pessoas. Também não pesquisei na internet a história, para não me influenciar, como você pediu. Farei tudo isso quando terminar. E Lara, você acha que ele fez uma descrição fiel dela?

– Penso que ele descreveu tudo o que conseguiu lembrar.

– Falando em lembrar, que ótima memória!

– Advogados…

Carl ficou em silêncio, caminhou até a janela com as mãos no bolso e ar pensativo, virou-se e disse:

– Qual é o seu primeiro veredito, Simone?

– Sem terminar? Não sei. Não tenho bases sólidas para falar. Minha impressão, até aqui, conforme disse quando começamos a conversar, é que, se há um inocente nessa história, é Mark. E, pelo desenrolar dos fatos, acho que Lara teve sorte de não ter sido morta na adolescência… O final fatídico dela me parece que estava escrito desde aquela época, apenas tardou a acontecer.

– Você acredita em Mark, posso ver isso… – Carl parecia nitidamente aliviado.

– Até aqui.

– Não vê a menor possibilidade de ele ter matado Lara intencionalmente? – estava próximo à janela, torcendo um globo de cristal que ficava numa mesinha lateral, o único gesto que demonstrava sua agitação.

– Não posso dizer isso, Carl. Existem psicopatas com a personalidade de Mark. São estruturados, bem-sucedidos e têm família… Até o dia em que começam a matar. Mas ele não matou mais, matou?

– Não.

– Ótimo, ele não é um psicopata. Esses, quando começam, dificilmente param. Apenas fazem intervalos, e é difícil dizer o que os faz recomeçar.

Trocaram ideias por mais um tempo. Eram quase seis da tarde, cedo ainda para jantar. Simone convidou Carl para um drinque em sua casa, ele aceitou e foi até lá seguindo-a em seu Mercedes preto.

Estacionou o carro em frente à casa de Simone, enquanto ela parava na garagem, e se encontraram na porta da frente. Simone encontrou facilmente a chave onde a mantinha, dentro de sua bolsa superorganizada.

– Bonita sua casa, Simone – ele falou ao entrar.

– Obrigada, Carl. Entre e fique à vontade. Sente-se. O que você toma?

– Uma taça de vinho, se você tiver.

Carl escolheu o lugar favorito dela no sofá para se sentar, no entanto ela não reagiu. Fez uma nota mental de conversar com o Dr. Edgar sobre essa sua nova obsessão por lugares.

– Sim, claro. Não sou nenhuma conhecedora, mas tenho um amigo que me dá sugestões. Tenho branco e tinto, o que prefere?

– Branco.

– Um Chardonnay Chateau Monthelena, você gosta?

– Excelente! Seu amigo conhece bem vinhos. Essa vinícola já ganhou grandes prêmios com seu Chardonnay.

– Que bom que aprova, fico feliz.

Simone pegou o vinho de uma pequena adega na cozinha, abriu a garrafa lentamente, como Edward lhe havia ensinado, serviu duas taças, agradecendo mentalmente a ajuda de Edward na escolha dos vinhos. Se aproximou para entregar a taça e viu pela janela um táxi amarelo parado na rua em frente à casa. Será que havia chegado alguém?

– Só um minuto, Carl, parece que tenho visitas inesperadas. Vou verificar.

– Fique à vontade, Simone, posso ver suas fotos? – perguntou, se dirigindo ao piano.

– Claro.

Quando Simone abriu a porta e olhou para fora, o táxi arrancou. “Endereço errado”, pensou, e retornou ao seu convidado.

– Engano, acho.

Eles ficaram conversando por um longo tempo, trocando opiniões sobre o caso, antes de sair para jantar. Quando saíram, Simone observou o mesmo táxi, mas dessa vez do outro lado da rua, em frente à casa do vizinho.

Carl pediu a Simone a recomendação de um bom restaurante e eles foram até o favorito dela, Alice in Wonderland, local contemporâneo e simpático. A atmosfera era romântica, poucas luzes bem posicionadas, mesas bonitas e bem postas e garçons amigáveis, que sabiam exatamente quando aparecer e quando desaparecer.

Escolheram uma mesa perto de uma janela de onde podiam ver o jardim maravilhoso, graças à iluminação externa.

Rapidamente decidiram a comida e o vinho e passaram um hora ou mais falando amenidades. Carl era reservado e, salvo um comentário pessoal ou outro e observações irrelevantes, falava só do mundo, nada da vida pessoal.

Depois do jantar, para frustração de Simone, Carl disse que precisava voltar a Nova York e a deixou em casa. Simone tinha esperanças de um desfecho melhor para a noite.

* * * * *

Simone se instalou em frente à TV e, pelo efeito do vinho ou pela frustração, dormiu. Acordou um pouco mais tarde assustada, achou que tinha ouvido um barulho, provavelmente uma cena da TV, disse para si mesma. Desligou o aparelho e foi dormir.

Capítulo Dezesseis

 

Simone acordou bem cedo naquele domingo, foi até a porta lateral da casa verificar se o jornal já havia sido entregue. Havia combinado com o entregador para deixar ali, pois na porta de entrada o cachorro do vizinho havia usado o jornal como banheiro.

Ao abrir a porta, não conseguiu conter o grito: havia uma mulher nua deitada inerte nos degraus! Simone começou a tremer incontrolavelmente, e a taquicardia fazia parecer que seu coração estava fora do peito, de tão rápido e forte que batia.

“Respire!” – ordenou a si mesma, fazendo um esforço supremo para se acalmar. Fechou os olhos e inspirou, enchendo os pulmões, depois exalou lentamente, abriu os olhos e olhou para baixo. “Agora você tem que checar se ela está respirando”, disse em voz alta, “e então chame alguém”.

Juntando coragem, Simone se abaixou e pôs dois dedos na carótida da mulher, mas ao tocá-la percebeu que a pessoa deitada nos seus degraus estava fria, morta fazia algumas horas.

Abalada, Simone teve dificuldades para caminhar. Atordoada, ligou para Edward:

– Ed, pelo amor de Deus.

– O que houve, Simone? – a voz dele era de sono.

– Tem um corpo na minha porta!

– O quê? – ele gritou. – Como assim um corpo na sua porta? Como ele foi parar aí?

– Um corpo, uma mulher nua, morta nos degraus da minha porta! Alguém pôs uma mulher morta na minha porta lateral.

– Não toque em nada, volte para dentro de casa, vou chamar a polícia e já chego aí.

– Venha rápido, Ed, por favor. Estou apavorada e já toquei nela, está fria!

– Fique calma, tome um banho, estou a caminho.

Edward chegou em tempo recorde, e a polícia minutos depois. Foram todos juntos ver o corpo. Era uma mulher jovem, por volta dos trinta anos, sem sinais aparentes de violência, salvo marcas no pescoço que sugeriam a provável causa da morte como estrangulamento, mas havia sêmen sobre o corpo. Aparentemente o serial killer atacara novamente. A assinatura estava lá, mas o padrão fugia um pouco, porque não havia os clássicos sinais de tortura.

Um dos policiais virou-se para Simone e disse:

– Dra. Bennet, precisaremos que a senhora compareça à delegacia para prestar esclarecimentos.

Edward se dirigiu a ele antes que Simone respondesse.

– Carlo, podemos fazer isso amanhã? Acho que Simone teve um grande choque. Prometo levá-la bem cedo amanhã, no primeiro horário.

Carlo hesitou um pouco, mas assentiu. Alguns minutos depois uma ambulância chegou para levar o corpo para o necrotério.

– Detetive, existe alguma forma de deixar a imprensa fora disso? – Simone perguntou. – Não gostaria do meu nome envolvido num crime.

– Vai ser praticamente impossível evitar que a imprensa descubra isso, mas penso que ao menos podemos dar um jeito de deixar seu nome e endereço fora do noticiário. Até aqui é o que conseguimos fazer com outras vítima do caso – Carlo respondeu. – Estamos fazendo o possível para trabalhar em silêncio até conseguirmos mais pistas. Se a imprensa começar a dar cobertura, corremos dois riscos: ou o assassino se assusta, passa a cometer seus crimes em outro lugar e o perdemos de vista, ou consegue a notoriedade que pode estar procurando e começa a matar com mais frequência – explicou o policial.

– Entendo. Agradeço o que puder fazer, detetive.

Carlo assentiu.

– Tente relaxar, Dra. Bennet. Sei que não será fácil – e, virando-se para Edward, continuou:

– Você ficará com a Dra. Bennet? Senão deixarei um de meus homens aqui. Estou preocupado.

– Ficarei. Qualquer coisa que aconteça aviso vocês. Trouxe minha arma, pois também estou preocupado. Simone descobriu a ligação dos crimes com a série de TV a que assistia e parece que o assassino quis lhe dar um recado... – analisou Edward.

– Se esse for o caso, Ed, são más notícias. Significa que há um assassino em nosso meio, o que é pior, porque somente a polícia, você e a doutora sabiam da ligação com a série.

– Não havia pensado nisso, Carlo, mas teremos que analisar com atenção para ver como essa informação pode ter vazado!

O policial partiu e Edward e Simone entraram.

– O que você acha, Ed? Pode ser alguém próximo a nós? Um policial?

– Não sei, Simone, às vezes não, porque falamos ao telefone sobre o caso e alguém pode ter escutado. Não gostaria sequer de imaginar que um policial possa estar envolvido. Policiais têm facilidade de conseguir todo tipo de armas, e o assassino não usou armas de fogo até agora.

– Você acha que foi um recado para eu me manter calada?

– Ainda é cedo para dizer. É estranho, porque aconteceu poucos dias depois que ligamos os pontos entre a série de TV e o assassino. Falando em série, esse corpo jogado nos degraus tem a ver com algum episódio a que você tenha assistido?

– Não, nenhum que eu me recorde. Mas ainda me faltam os últimos dois para ver.

– Parece realmente um recado. Vamos lá, vou preparar seu café da manhã. Como você está?

– Sentindo na pele como se gera um trauma para uma vida. Acho que nunca mais abrirei aquela porta sem recear encontrar um cadáver.

Edward passou o braço pelos ombros de Simone.

– Calma, vai passar. Temos sorte de que nosso treinamento nos dá mecanismos para nos ajudar a lidar com esse tipo de coisa. Se ficar pesado, eu tento hipnose com você. Vamos enfrentar isso juntos, estou com você.

– Obrigada, Ed.

Simone se aninhou no peito de Edward, era reconfortante ter o bom amigo ao seu lado.

– Juro que não sei como você consegue trabalhar com a polícia, todos esses corpos que vê... Eu tinha dificuldades com cadáveres na escola de medicina. Por isso nunca quis ser cirurgiã.

– Não vejo tantos... Normalmente apenas as fotografias das cenas dos crimes... Mas cada vez que trabalho num caso horrível assim, penso que, se eu não ajudar, crimes ficarão sem solução, então isso ameniza o impacto. Acho que tentar fazer o bem é natural no ser humano e uma emoção mais compensadora que o lado feio das coisas. Vai passar, minha amiga... Eu tinha pesadelos quando comecei a ajudar a polícia, mas depois de um tempo eles passam.

– É, o tempo cura tudo – disse Simone. – Saturno, o deus do tempo na mitologia, comia os próprios filhos...

– É a maior das verdades: nada como o tempo. Pense nisso!

– É... vou tentar pensar nisso. Vou tomar um banho e comemos, pode ser?

– Claro, pode deixar que me viro por aqui.

* * * * *

O dia passou rápido. Edward fez companhia a Simone e se recusou a deixá-la sozinha. Levou-a para seu apartamento para passar a noite lá. No dia seguinte, foram juntos à delegacia para prestar esclarecimentos.

Simone nunca havia estado na delegacia de polícia local. A atmosfera dentro do edifício era estranhamente mais calma do que ela esperava – talvez porque ainda fosse cedo, pensou.

Carlo encontrou Simone e Edward e os acompanhou até uma pequena sala de interrogatório. As paredes eram pintadas de branco e não havia quadros ou outra decoração, apenas um mesa pequena e marrom com um computador e cadeiras desconfortáveis em volta. Carlo apontou as cadeiras, indicando que eles deveriam se sentar, deu a volta e sentou-se atrás da mesa. Depois de ajeitar o computador, contou a eles que a mulher havia sido morta por volta das vinte horas do sábado. Explicou que chegaram a essa conclusão seguindo a equação de Glaister, que determina o tempo de esfriamento após a morte.

– Dra. Bennet, preciso lhe fazer algumas perguntas. Onde a senhora estava por volta das vinte horas?

– Jantando com um cliente, detetive.

– Ele poderia atestar isso?

– Por quê? Sou suspeita, agora? Lembre-se, detetive, que sou uma mulher… Havia esperma sobre o corpo…

– Não, doutora, é apenas uma pergunta – ele balançou a cabeça. – Seu cliente poderia confirmar?

– Penso que poderia sim, mas não gostaria de envolvê-lo. Conforme disse, é um cliente para o qual faço um trabalho e que veio de Nova York para conversarmos. Além do mais, havia muitas pessoas no restaurante que poderiam atestar isso sem envolver meu cliente.

– Eu não sabia que seu cliente estava na cidade – Edward observou, com surpresa na voz.

– Ele esteve aqui por poucas horas – Simone respondeu rapidamente.

– Ele ficou muito tempo com você, doutora?

– Sim, conversamos por um tempo em meu escritório, tomamos um vinho em minha casa e fomos jantar.

– A doutora voltou que hora para casa?

– Por volta das vinte e três.

– E seu cliente?

– Voltou para Nova York.

– Talvez precisemos conversar com ele.

– Insisto que meu cliente só seja incomodado como último recurso. Ele é advogado e tenho certeza de que não gostaria de ser interrogado pela polícia.

– Vou tentar, Dra. Bennet. Não notou nada estranho naquela noite? Não ouviu nenhum barulho?

– Não, não vi nem ouvi nada de extraordinário. A porta lateral não é visível da rua...

– Pense bem, doutora. Do que consegue lembrar?

– Espere um pouco, pensando bem, houve algo. Adormeci diante da televisão e um barulho me acordou por volta da meia-noite... Mas achei que fosse do programa que estava passando na TV.

Carlo assentiu e disse:

– Vamos fazer ainda os testes do esperma, para saber se é o mesmo do assassino que vem atuando na área e para verificar o tempo que estava sobre o corpo. Provavelmente descobriremos que o barulho que a doutora ouviu foi do assassino colocando o corpo em seu jardim.

– É arrepiante tudo isso! Me deixa desconfortável. Sempre me senti segura em casa, agora já não sei mais!

– Nada mais que se lembre? Às vezes, quando a pessoa sofre um choque, demora para se lembrar de certos detalhes, mas a memória retorna com o tempo e, mesmo que possa não parecer importante para a senhora, pode nos dar algumas pistas – Carlo afirmou.

– Ontem, quando estava em casa com meu cliente, vi um táxi estacionado em frente de casa. Achei que era uma visita, mas, quando abri a porta, ele partiu... Depois o vi do outro lado da rua, em frente à casa dos vizinhos.

Edward olhou preocupado para Simone. Sem dúvida se perguntava por que ela não havia mencionado isso mais cedo.

– Quem são eles?

– Os Peddinghouse. Um casal idoso e tranquilo que mora na rua.

– Vamos ter que falar com eles.

– Também têm acontecido coisas estranhas... mas não sei se podem estar relacionadas...

– Tais como?

– Algumas vezes, nas últimas semanas, chego em casa e tenho a impressão de que alguém esteve por lá... É só uma impressão... porta-retratos fora do lugar... nada roubado... outro dia havia uma janela aberta e tive certeza de que a casa estava toda fechada quando saí para trabalhar... Pensei que talvez minha faxineira tivesse mudado de dia sem me avisar. Ela é recordista mundial em limpar e não deixar as coisas no mesmo lugar...

– Doutora, precisamos que converse com sua faxineira sobre isso. É para sua segurança. Pode ser que alguém esteja entrando em sua casa. Pode telefonar agora? Dependendo do que ela disser, vamos ter que vasculhar a casa, e nesse caso eu recomendaria que ficasse em outro lugar por um tempo.

– Ai, não! Sair da minha casa! Era tudo que me faltava! Vou ligar para a Lola agora.

Posso pedir para ela arrumar algumas coisas para mim – retirou o celular da bolsa para ligar para a empregada, mas o policial a deteve.

– Doutora, se importa de usar nosso telefone? Gostaria de ouvir as respostas dela em primeira mão.

– Sem problema, detetive.

Simone deu o número ao policial e ele ligou do telefone sobre a mesa. Enquanto tocava, ele pressionou o botão do viva-voz.

– Olá, Dra. Simone, em que posso ajudá-la? – Lola tinha um sotaque latino acentuado.

– Olá, Lola, como está?

– Bem, doutora. Está tudo bem com a senhora?

– Sim, sim. Escute, Lola, estou telefonando para perguntar se você mudou o seu dia de limpeza na minha casa na semana passada. Você foi lá no sábado?

– Nunca, doutora! – Lola soou escandalizada pela sugestão de Simone. – Eu não faria isso sem falar com a senhora primeiro!

– É preciso que tenha certeza, Lola.

– Por todos os santos, pela Virgem Maria, juro que não fui à sua casa no sábado!

– Ok, Lola, não precisa jurar. Sei que está falando a verdade, mas era importante que eu tivesse certeza. Obrigada.

– De nada, doutora. Falando nisso, estou em sua casa hoje, está tudo certo? – ela pareceu preocupada.

Simone assentiu. Lola ia todas as segundas, quartas e sextas-feiras à casa de Simone. Como era segunda-feira, era certo que iria.

– Sim, claro que está! Não é necessário fazer o jantar, vou comer fora hoje. Tenha um ótimo dia.

– O mesmo para a senhora.

– Acredita que ela esteja dizendo a verdade? – Carlo perguntou.

– Tenho certeza, detetive, ela é uma mulher de confiança e uma católica devota. Nunca juraria por todos os santos se estivesse mentindo. Tem medo de queimar no inferno – Simone assegurou.

– Se a sua empregada não foi responsável por abrir a janela ou mover as coisas, então eu sinto muito, mas isso significa que vamos ter que fazer um pente-fino na sua casa.

– Compreendo – disse Simone, bastante descontente.

– Simone, você pode ficar comigo. Você é mais do que bem-vinda, e assim fico de olho em você. Não a deixaria voltar sozinha para casa de forma alguma!

– Não, Ed, vou atrapalhar você.

– Claro que não! Sou eu, lembra? Além do mais, você faria o mesmo por mim – ele argumentou.

– Quanto tempo até que eu possa voltar para casa, detetive? – Simone perguntou.

– Até termos algumas respostas, não volte. O assassino sabe onde a senhora mora, isso é fato. Esta semana nos ajudou a entender o modus operandi dele, e sua casa não é segura.

– O senhor está certo. Vocês gostariam que eu os acompanhasse até a casa? – ela ofereceu.

– Podemos marcar um horário conveniente para a senhora. Ed me disse que está com a agenda cheia hoje.

Marcaram um encontro na casa dela, então ela e Edward foram para o consultório.

Capítulo Dezessete

 

Estressada e um pouco aérea, Simone não se sentia animada para passar o dia com lunáticos. Enquanto Edward dirigia para o consultório, ela teve tempo de pensar e analisar: uma crise existencial se aproximava. Chegou a questionar por um momento sua escolha profissional: decidira passar a vida num hospício!

Chegaram ao consultório e Simone sequer notou o percurso, entrou, saudou a secretária e

foi direto para a sua sala, era hora hora de atender seu cliente favorito, Philip, meio maluco, mas adorável e que já estava na sala esperando por ela.

– Olá, doutora, a senhora parece cansada hoje. Não está se sentindo bem? – sempre polido, Philip lhe estendeu uma caixinha. – Trouxe-lhe meia dúzia de pastéis de nata com cobertura de chocolate que fiz. O recheio é receita da minha avó. Usei fava de baunilha verdadeira, não aquele diesel engarrafado com cheiro de urina de gato.

Simone olhou para o lenço verde psicodélico que ele estava usando em volta do pescoço. Ou estava com uma enorme dor de garganta ou tinha virado aspirante a cantor de música country. Só faltavam o chapéu e as botas de caubói.

– Obrigada, Philip, seus doces são muito bem-vindos. Estou bem, nada que um chuveiro quente não cure. Algum problema em sua garganta?

– Nenhum problema, foi o Kimbaku.

Enquanto Simone imaginava que tipo de sushi poderia ter se entalado na garganta do sujeito (estava com o raciocínio um pouco lento e pensou que kimbaku soava como nome de comida japonesa), ele retirou o lenço e mostrou manchas vermelhas enormes. Orgulhoso, ainda arregaçou as mangas da camisa e as barras das calças para mostrar as mesmas marcas nos punhos e tornozelos.

Simone não conseguiu evitar levantar uma sobrancelha. Anos de treinamento, mas em choque a sobrancelha insistia em subir, apenas uma, o suficiente para revelar sua incredulidade.

– Kimbaku?

Simone vasculhou mentalmente tudo o que conhecia sobre sadomasoquismo, mas não se lembrava dessa expressão.

– A arte sadomasoquista japonesa das cordas – disse todo contente, como se explicasse que acabara de fazer uma ikebana com flores do campo.

– Acho que dessa vez você exagerou... está todo machucado.

– Não, não estou, são apenas as marcas que as cordas deixam. Só dói de vez em quando, mas quando dói me lembro do prazer e fico muito excitado.

– Pode me descrever no que você se meteu dessa vez?

– Sim, minha mulher estava furiosa com o episódio de outro dia, quando transou com o ex dela, lembra?

– Perfeitamente.

– Ela me pediu para realizar uma fantasia dela: queria que fôssemos a uma casa de submissão, porque gostaria de me ver sendo chicoteado. Fomos a Nova York, porque não queríamos ser reconhecidos por aqui... sabe como é... comunidade pequena... Quando chegamos lá, havia algumas pessoas praticando o kimbaku, que na verdade são cordas amarradas para restringir os movimentos e dar prazer.

Philip parecia estar explicando um experimento cientifico.

– Fiquei encantado quando vi duas mulheres praticando. Pedi que me ensinassem e a dominatrice consentiu. Pedi permissão para minha esposa e ela concordou, então me estiquei no chão de barriga para baixo e elas amarraram minhas mãos e pés juntos, atrás, nas costas. Depois a dominatrice envolveu uma corda no meu pescoço e juntou todas, daí começou a apertar. Quanto mais dor eu tinha, maior era o prazer. Eu sentia as cordas cortando meus pulsos e tornozelos, fiquei tão excitado, doutora, a senhora não pode imaginar!

Simone podia, e isso era o pior.

– E sua esposa?

– Ficou muito excitada de me ver submisso, ergueu o vestido e a safada estava sem calcinha, daí ela se masturbou na minha frente e na frente de todos que ali estavam. Foi a primeira vez que a vi com tanto tesão, acho que vamos entrar para um clube de sadomasoquismo.

– É uma decisão mútua?

– Sim, é, ela gostou muito. Fiquei feliz porque foi algo que gostamos juntos, sem eu pedir nem ela fazer para me agradar, entende?

– Entendo, mas você precisa ter cuidado... pessoas morrem fazendo isso.

– Isso não vai acontecer! A dominatrice tem as coisas sob rígido controle.

– E se a dominatrice perder o controle?

– Se ela perder o controle? Acho que posso desmaiar. Quase desfaleci em dado momento, quando ela apertou forte as cordas, todas de uma vez, e me deixou sem ar.

– E como ela sabia quando parar? Vocês combinaram alguma palavra de segurança?

– Havia uma palavra-chave, mas eu não usei. Queria ver meu limite de dor e prazer e quando se chega nele é difícil pedir para parar.

– Você pode terminar encontrando a morte... temo por isso.

Simone ficou alarmada com a incursão mais profunda de Philip nas práticas masoquistas. Parecia que o remédio havia tirado a compulsão sexual, mas não a masoquista, e agora ele estava se envolvendo em práticas arriscadas.

– Comecei a pensar nisso... se a morte não seria prazerosa...

– E você quer isso? Deseja a experiência da morte?

– Não sei, doutora, mas enquanto ela apertava meu pescoço, o prazer se intensificava, e também a sensação de que eu deixaria meu corpo a qualquer momento, numa nuvem de prazer, e que todos os meus problemas desapareceriam. Isso me deu uma paz profunda.

– Quando você faz sexo ou vê sua mulher fazendo, não sente isso?

– Não, foi a primeira vez que me senti assim.

O estado emocional de Philip parecia alarmante. Uma teoria freudiana que abordava o desejo inconsciente de morrer depois de experiências traumáticas não saía da mente de Simone.

– Você praticou sexo também nesse dia?

– Sexo com penetração, não, só a dominação. Gostei muito, realmente. Gozei profundamente com a prática.

– Como foi?

– Durante o tempo em que eu estava imobilizado nas cordas, minha mulher observava, daí ela deu uma sumida e voltou trazendo um desconhecido. Eles se posicionaram de forma a ficar no meu ângulo de visão... eu conseguia sentir o cheiro deles. Ele começou a acariciar o corpo dela, a tocar-lhe os seios e a chupá-los. Ela gemia e olhava para mim. Ele a virou para a parede e penetrou-a por trás, enfiou nela até ela gozar. Então ela se virou para encará-lo, passou as pernas em volta de cintura dele e ele a penetrou novamente. Ele apoiou a bunda dela e a movia com os braços. Ela me olhou o tempo todo, era como se eu estivesse entre os dois. Quando ela gozou e fechou os olhos em êxtase, eu gozei também amarrado nas cordas. A dominatrice não gostou muito, me apertou forte. Se eu tivesse ainda algo para gozar, teria gozado novamente. Depois fiquei em paz.

– Estou preocupada.

– Por que, doutora? Pela primeira vez chego aqui e não estou neurótico, estou feliz, minha mulher feliz com as experiências, o que a preocupa?

– Estou analisando um caso muito parecido com essas práticas que você descreveu, apenas não envolvia cordas, mas asfixia mecânica, com as mãos...

– E ?

– E a praticante morreu.

– Eu não vou morrer, a menos que queira.

– Nenhum ser humano deseja morrer... se estiver bem...

– Qualquer ser humano que tenha chegado perto da experiência que tive vai ansiar pela sensação de paz que a morte proporciona...

– Vou mudar seu medicamento...

– De novo? Para que, desta vez? Esse está bom, doutora!

– Philip, o medicamento que você está tomando não possui os mesmos efeitos colaterais que você experimentou com o anterior, mas tem outros, e um deles é depressão. Se você está falando seriamente em procurar a paz da morte – e fez aspas no ar com os dedos – então me parece que está tendo um pouco de depressão, e eu não posso assumir esse risco. Confie em mim.

– Eu confio, doutora, a senhora sabe disso.

– Vou lhe receitar um novo medicamento e vamos ver se conseguimos equilibrar as coisas um pouquinho melhor. Gosto do que você está tomando agora, no entanto tem alguma coisa faltando, e um medicamento melhor saiu recentemente. Eu gostaria de tentar, tem menos efeitos colaterais, Philip.

Ele riu e disse:

– Isso me lembra uma frase de um filme do Garfield, doutora, quando John fala para o Garfield que ele iria comer uma comida melhor e mais nova, e o Garfield pensava: “Ah, então aquela que você estava me dando era velha e pior!”.

Os dois riram, mas Simone rapidamente recuperou a compostura. O súbito desejo de morte de Philip não era incomum. Algumas pessoas tinham o desejo de morrer para se glorificar pelo sexo; outras, em sua depressão, ansiavam pela paz que a morte traria.

– Philip, compreenda, você nunca deu sinais de depressão. Claro que algumas vezes você está triste, mas nunca a ponto de querer morrer. Eu realmente preciso alterar o seu medicamento.

Simone se recusava a arriscar ter em mãos um homicídio ou suicídio. No campo da medicina, especialmente na psiquiatria, não há certezas, só probabilidades e eliminação. O desejo de morte do Philip tinha boa chance de passar com uma nova medicação. Depois de escrever a receita, ela disse:

– Tente ignorar a descrição na bula, pois pode influenciá-lo. Apenas me relate o que está ocorrendo, certo?

– Ok, doutora. Como disse, confio em você.

Philip parecia resignado à nova medicação e não fez mais perguntas.

– Nenhuma pergunta? – questionou Simone. Sempre que ela trocava a medicação, ele tinha algumas.

– Eu paro imediatamente com o medicamento atual?

– Sim, pode tomar o que receitei hoje à noite, antes de dormir.

E o resto da sessão discorreram sobre os efeitos do novo medicamento, formas de tomar e relatos que o paciente faria. Simone estava com seu alerta vermelho ligado para esse caso.