Atrás da Porta

Adriana Gavazzoni · Capítulo 4 de 9 · parte 2/3

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Atrás da Porta

– Entra em mim rápido, agora!

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

– Isso não vai acontecer. Já notamos que esse remédio não produz esse efeito em você. Remédios agem de forma diferente em cada paciente, Philip. Confie em mim, aumente a dose para meio comprimido, certo?

– Certo, doutora, confio em você. Preciso pôr minha cabeça em ordem.

– Bom. E o que houve no quesito fantasias esta semana?

– A de sempre... fiquei incitando minha mulher a fazer sexo com um ex-namorado dela.

Era a fantasia recorrente de Philip. Ele sempre fantasiava ver sua esposa fazendo sexo com outros homens. Sofria quando isso acontecia, mas ficava extremamente excitado.

– E ela fez?

– Sim, no começo ela não queria. Eles terminaram faz bastante tempo e ela não tem mais por que encontrá-lo. Mas acabou concordando e gostou. Filmamos todo o encontro. Me masturbei umas dez vezes vendo o vídeo. Acho que danifiquei meu pênis. Está doído, hoje não conseguirei bater nenhuma.

– Viu como estou correta sobre as doses, Philip? Você já estava bem, a masturbação e as fantasias sob controle, e agora voltou à estaca zero.

– Verdade, doutora.

– Por favor, me descreva os eventos e como você se sentiu.

– O de sempre... Ela foi encontrar o sujeito... Eu a ajudei a escolher a lingerie. Ela foi toda linda num conjunto de sutiã, calcinha, meias e cinta-liga e um salto bem alto. Acho que ela faria até um morto levantar. Ela filmou tudo com um gravador que usamos, em forma de chaveiro de carro.

– E você assistiu?

– Sim, estava numa reunião no escritório durante a festa deles.

Philip tinha uma empresa de contabilidade e diversos empregados.

– Eu sabia que ela estava lá, com o cara, me traindo, gozando para outro. A imagem mental que tive disso me fez levantar duas vezes no meio da reunião para me masturbar no banheiro... Acho que pensaram que eu estava com diarreia...

– Provavelmente.

Simone precisou segurar o riso.

– Quando cheguei em casa, assistimos ao filme juntos... Eu a vi seduzindo o sujeito de maneira diferente da que faz comigo, porque ele falava como era boa a forma como eles sempre fizeram... Lembranças... Ela chupou muito o pau dele, eles fizeram sessenta e nove. Ela com certeza chupou ele muito mais do que as rapidinhas que faz para mim, e ele a penetrou por trás antes de qualquer coisa, e ela adorou. Nós não fazemos isso. Fiquei muito excitado e com muito ciúme. Nós transamos, mas não foi o suficiente. Precisei “estapear o bicho” várias vezes vendo a cena.

A linguagem pitoresca dele sempre desafiava a determinação de Simone de manter uma expressão impassível.

– E depois?

– Depois fiquei com ódio da minha mulher. Queria matá-la e esquartejá-la, de tanta raiva. Fui dormir no quarto de hóspedes. Vi que ela ficou magoada, porque diz que não gosta quando eu a entrego para outros homens, se sente desamada. O pior é que eu a amo, doutora, morro de ciúmes dela, odeio quando olham para ela na rua!

– É dor e prazer, prazer e dor, Philip. O quadro de sempre. Já lhe falei, isso é masoquismo puro.

Simone fez uma pausa e levantou uma sobrancelha.

– Eu sei que você não vai gostar dessa ideia. No entanto, agora que estamos estabilizando você com medicamentos, teremos que voltar à sua infância, saber o que houve lá atrás, porque foi isso que o tornou como é hoje.

– Maldita mamãe?

– Nem sempre. Tem alguma recordação de ter sofrido abuso, Philip?

– Não, nenhuma, não acredito que seja o problema.

– Preciso que me conte um pouco sobre sua infância...

– Ok, se realmente é necessário.

– É muito necessário. O masoquismo tem diversas causas. Pode ser um abuso, uma competição entre irmãos... Precisamos tentar chegar às raízes do seu.

– Acho que a última hipótese, doutora... Eu sou o mais novo de três irmãos... Minha mãe só tinha olhos para meu irmão mais velho, Christopher. Ele era o queridinho dela. Ela sempre dizia que o Chris seria rico e bem-sucedido, porque era o mais inteligente de nós três, e que nós não nos preocupássemos, porque ele iria nos ajudar, pois também era bom e generoso. Que piada! O retardado não conseguiu nem entrar na faculdade! Hoje sou o chefe do “menino de ouro”, o maldito patrão dele!

Philip fez aspas no ar para enfatizar o “menino de ouro”.

– Você se sentia amado?

– Pelo meu pai sim. Minha mãe louca me fazia sentir como mais um. Eu não era sequer o estepe, sabe? Porque ainda havia meu irmão do meio antes de mim. Eu era o nada.

– E por que ela teve três filhos, você sabe?

– Sim, eu sei. Ela queria muito ter a Michelle... a filha imaginária. Queria que o primeiro filho fosse homem, ficou orgulhosa de sua proeza, e começou a ansiar por concluir seu projeto de família perfeita, com um filho e uma filha.... Veio meu irmão... E eu fui a última tentativa fracassada. A primeira frase dela quando me viu, ela mesma fez questão de me informar, em público, no meio de uma refeição familiar e depois de ter tomado algumas que quando o médico me pegou e me deu um tapa na bunda, ela disse: “Merda, outro menino!”.

– Você não está exagerando, Philip?

– Estou até sendo modesto, doutora... E para pôr sal na ferida, ainda disse que estava economizando anos de terapia para mim por me contar!

E Philip continuou seu relato de uma infância complicada, de ciúmes dos irmãos, clássico caso de masoquismo em que a criança quer uma mãe que sabe que nunca o amará como ama o outro irmão. A dor de partilhar a mãe que nunca o amaria como ele merecia e que acabara virando uma paranoia sexual de entregar a própria mulher, por medo de que ela nunca fosse realmente dele.

Ah, que bela e complexa era a essência humana!, pensou Simone. E que difícil a arte de criar filhos, uma mãe jamais deveria se comportar dessa forma. No entanto, durante os anos de psiquiatria de Simone, ela havia encontrado algumas que faziam coisas ainda piores.

Simone estava exausta no final do dia, e ainda teria que ir até a universidade para conversar com o reitor. Iria pedir-lhe um afastamento de seis meses das aulas para poder concluir as pesquisas e se dedicar ao novo livro. Ele iria aceitar. Yale sempre apoiava seus pesquisadores e cada livro escrito era mais do que a vitória pessoal do autor, era um belo troféu para a universidade, uma mostra de que a pesquisa e a ciência funcionavam como o motor daquela instituição.

Estava saindo do escritório, a mão na maçaneta, quando Edward a chamou, assustando-a.

– Indo para casa?

Simone pulou e olhou em volta, o coração disparado.

– Nossa, Edward, você me assustou!

– Por que você tem sempre que se mover silenciosamente como uma gato? – ela indagou.

– E quando é diferente? Eu sempre faço isso! – ele riu.

– Não é engraçado! Tente andar como um ser humano normal, você consegue?

– E como anda um ser humano normal? – ele a provocou.

– Para começar, faça barulho! – ela respirou profundamente e soltou o ar.

– Não, ainda não estou indo para casa. Estou a caminho da universidade, e você? Disse Simone.

– Hoje vou para aquele banho que você recomenda, academia, jantar, paz e sossego, não necessariamente nessa ordem.

– Me faz um mega favor se tiver tempo?

– Claro, o que é?

– Precisamos avançar na pesquisa daqueles e-mails. Fale com o tal Victor que quer um encontro, dê uma lida antes no histórico da conversa para se localizar, pode ser?

– Claro, Simmie, deixe comigo.

– Amo você, Ed.

– Eu também te amo, Simmie. Muito!

* * * * *

Inicialmente o reitor não ficou muito feliz com o pedido de Simone de licença. No entanto, a perspectiva de novo volume na biblioteca da universidade conseguiu convencê-lo. Ele lhe concedeu três meses. Apesar de ser metade do que pedira, seria o suficiente para ela concluir a pesquisa. Mais tarde descobriria como terminar o livro.

Quando chegou em casa, pegou mais uma vez o manuscrito. Carl chegaria no sábado e ela gostaria de ler mais antes de falar com ele. O diagnóstico definitivo teria que esperar que ela terminasse de ler, mas já havia formado uma noção de como seria. No entanto, uma troca de ideias e impressões poderia render bons frutos.

Simone estava feliz com a vinda de Carl no sábado. Era bom sinal. Homens com noivas ou namoradas não marcavam encontros aos sábados.

O Diário de Mark

Vamos para a Disney?

E a vida seguia com Lara... E sem ela também. Nos momentos em que ela decidia se afastar, quando eu pensava que estava conseguindo chegar até ela, quebrar as barreiras, principalmente depois que ela me contara sua vida, os abusos que sofrera, a mãe dos infernos, me sentia mais próximo, mas ela se afastava e se fechava e dias depois reaparecia. Seu comportamento era confuso e me frustrava. Mas eu a amava. E aceitava as distâncias entre nós, até na esperança de que ficassem mais e mais curtas.

Uma noite, Lara, eu e Peter saímos juntos. Foi a primeira vez em que saímos em público. Apesar de Peter não poder ser considerado público, mas sim um amigo íntimo, eu me sentia feliz.

– Olá, crianças, que bom ver vocês. Sabem que até formam um casal bonitinho? Óbvio que mais bonito seria eu e o Mark de mãos dadas, mas nós sabemos que ele se recusa a sair do armário.

– Peter, sou capaz de chutá-lo e você ir parar em Cleveland!

Algumas vezes Peter me aborrecia com tanta bobagem. Parecia mais um carro de desfile do orgulho gay. Mas, apesar da maluquice, ele era verdadeiramente família.

– Formamos um lindo trio – disse Lara, dissipando qualquer ideia de casal.

– Sim, ainda mais sexy! – Peter concordou. – Apesar de que, Lara… querer ser você não faz com que eu queira ter você. Chega a me dar arrepios! É quase igual a pensar em comer bacalhau – ughhhh – e fez o famoso gestual exagerado de sempre.

– Obrigada, querido, por me comparar a peixe morto. Agora já me sinto preparada para a noite! Mas pense… se estiver realmente com fome, você consegue ignorar o cheiro...

– Prefiro morrer de inanição sexual antes de fazer isso. Eu nunca transei com uma mulher em toda a minha vida, irei para o túmulo sem experimentar uma!

– Mas como sabe que é ruim se nunca provou? Vamos lá, Pete, eu conheço voluntárias dispostas a recuperar você para a sociedade – e Lara riu com gosto.

– Missão impossível! – eu acrescentei.

– Isso, vão rindo desta queen que vos fala, mas ideias malucas à parte, Lara, concordo com você que somos um lindo trio. Mas vocês dois me queimam o filme, porque qual gay sério vai querer alguém que traz vocês na bagagem? Fala sério! Um trio é demais! Vou morrer sozinho e a culpa é de vocês! Vocês dois deveriam terminar! Mark e eu somos muito mais atraentes.

– Peter, você é um doente – disse Lara. – Sua sorte é que é engraçado. Mas acho que tem alguém querendo-o ali naquela mesa, apesar da nossa companhia. Dá uma olhada naquele cara – e virou-se na direção do homem de meia-idade que observava Peter.

– Meu Deus! O maldito Jonathan Harris exumado! Estamos definitivamente Perdidos no Espaço! Eu me achando o mister gay América e você tentando me arrumar um refugiado do cemitério! Grande amiga! Sabe o que você merecia? Uma boa surra de sapatos Louboutins!

Caímos os dois na gargalhada, olhando a cara indignada de Peter.

– Vocês se acham muito engraçados, não é?

– Desculpe, Peter, mas foi irresistível ser uma vez quem tira sarro de você, e não o contrário. E quem diabos é Jonathan Harris?

– Quem é Jonathan Harris? “Eu sou um doutor e não um explorador espacial.” “Preto sempre foi a minha cor.” Ah, vão procurar no Google, pelo amor de Deus.

– Tá certo. Deixa pra lá. Ei, sabia que nós três temos algo superespecial em comum?

– Além de sermos lindos? – brincou Lara.

– O que, Peter? – já fiquei imaginando a bomba que viria...

– Todos somos ex-cunhados! Mark era marido da minha irmã, eu era do namorado do seu irmão, Lara. Então isso nos faz parentes!

Ele estava já bem alcoolizado e nos abraçou e começou a distribuir beijos.

– Verdade, temos isso em comum!

– Ei, o que vocês dois vão fazer este fim de semana? – perguntou Lara do nada.

O que você quiser, pensei...

– Sem planos – eu respondi.

– Eu???? Acho que vou fazer uma maratona de Poderoso Chefão. Estou solteiro, me consolarei com Corleone Jr.

– Peter, mais uma vez? Acho que é a décima maratona só este ano. Você é insano – disse Lara.

– O que eu fiz para vocês me tratarem tão desrespeitosamente? – provocou Peter, imitando a voz de Don Corleone.

Lara levantou um dedo:

– Eu tenho uma ideia! Vamos pegar um avião e ir para a Disney World! São duas horas de voo e estaremos lá com todas as montanhas-russas à nossa disposição!

Lara estava excitada como uma criança diante da própria ideia. Vi um lado dela que somente havia observado no dia em que a conheci: o sorriso que faz qualquer pessoa se dobrar à sua vontade, a traquinagem no olhar, a criança feliz que ainda morava dentro dela. Eu faria qualquer coisa para ver aquele lado dela mais vezes.

– Estou dentro – disse rápido. – E você, Peter?

– Michael ou Mickey? Mickey, claro! Vamos embora passar um fim de semana rindo. Se tudo der errado, termino nos braços de um Pateta.

* * * * *

E assim fomos para a Disney os três. Foi um dos melhores fins de semana da minha vida. No parque, Lara se tornou uma criança de coração leve. Ria de tudo, queria ir em todos os brinquedos, e descobri: era alucinada por montanha-russa. Saía de uma e entrava em outra. Por sorte, era época de poucas filas, mas foi muito engraçado ouvi-la gritando histericamente na Splash Mountain, para aterrissar toda encharcada e risonha, feliz como se não existisse passado nem futuro.

Penso que, se eu ainda não estivesse apaixonado por Lara, me apaixonei para sempre naquele momento em que ela se converteu numa menina diante dos meus olhos. Era preciso vê-la com duas orelhas na cabeça, tirando fotos abraçada a Minnie Mouse, para ter uma ideia de sua meninice.

Peter também foi uma companhia fantástica. Fazia palhaçadas e ria de tudo. E sumiu providencialmente ao cair do dia, alegando que iria se encarregar de um “corpo escultural” que havia parado diante dele na fila do Small World, ao qual ele foi só, porque eu e Lara nos recusamos a ir. Estávamos cansados e com fome.

O sexo naquele fim de semana foi atípico: suave e calmo, pois estávamos exaustos do dia de brincadeiras. Mas eu me sentia leve, feliz, estava apaixonado e sentia Lara mais próxima do que nunca. Uns dias para lembrar para sempre. Me esqueci da vida normal e que era um advogado respeitável.

* * * * *

Quando voltamos para Nova York, eu esperava que ela fosse para minha casa ou me convidasse para a dela, mas ela me deu um beijo de leve na boca e pediu:

– Me deixa em casa?

– Deixo, sim. Falei na minha política de deixá-la livre, contudo fiquei magoado. Tentei não deixar transparecer. Um fim de semana perfeito e, de repente, nada mais. Tão perto e tão distante ao mesmo tempo.

Mas havia apreendido que não se pergunta o porquê para Lara, apenas se respeita sua decisão. E ela acabou me ensinando com o tempo que eu também tinha esse direito, de não dar explicações e viver mais de acordo com o que eu queria e menos com as expectativas do mundo. Ela me ensinou a ser mais leve, menos certinho e mais levado pela correnteza.

Eu também estava me dando direito de não ir a eventos que nada me diziam, de viver a vida como me encantava. A lição de Lara não deixava de ter um lado bom: o lado de ser livre.

Ela amava ser livre. Era assim que eu definia Lara: liberdade era tudo para ela, e ela faria qualquer coisa para não ser engaiolada. Aprendi a deixar a porta aberta... meu passarinho ia e vinha como queria, mas estava sempre voltando... e por ora isso bastava. Talvez a ideia de casamento fosse errada. Talvez um relacionamento saudável não fosse um eterno “bom dia, boa noite”, mas sim um “olá, há quanto tempo… senti saudades”.

O Diário de Mark

Ah, não! Mamãe novamente!

Lara me telefonou e perguntou se podia ir até meu apartamento. Ela era neurótica por não ter espaços invadidos e não invadi-los. Ligava sempre e exigia o mesmo.

Chegou nervosa, tensa. Abracei-a, ela se soltou rapidamente e foi até a janela. Abriu-a como se precisasse respirar e ficou lá um tempinho olhando para fora. Eu já estava acostumado a não fazer mil perguntas e dei o tempo de que precisava, até que ela se virou e me olhou. Só então perguntei:

– O que houve, Lara?

– Pode preparar um uísque para mim? Preciso de um antes de começar a lhe contar mais uma tragédia. Acho que vou nomeá-lo fiel depositário das tragédias de Lara…

– Dia ruim?

– Vida ruim!

Preparei o uísque como ela gostava, estendi-lhe o copo e disse:

– Quer falar?

– Sim… Debbie me ligou…

– Quem é Debbie?

– Minha irmã.

– Ah, sim, você me disse o nome um dia, mas não me lembrava, desculpe.

– Ok. A Sabine ligou para ela e a Debbie, tadinha, que é toda frágil, resolveu ouvi-la depois que a cretina a convenceu de que era importante.

– E o que sua mãe queria?

– Tentar emocionar a Debbie. E conseguiu! Disse que vai morrer de câncer!

– É verdade?

– Com a Sabine, nunca dá para saber, mas acho que não teríamos essa sorte!

– E você disse isso para sua irmã?

– Disse… claro que ela ficou chateada. Falou que não entende… que nunca ninguém conversou com ela sobre nossa mãe, que a Sabine pediu para conhecer as netas, que tem arrependimentos.

– A sua irmã não sabe da sua história?

– Exatamente. Optamos por não contar. A Debbie sempre foi tranquila, não é questionadora. Contamos que a vaca da Sabine nos abandonou pelo senador. Ela ficou arrasada, mas aceitou. Era pequena, na época, e minha mãe… bem, nunca se interessou muito por crianças… Só que agora vem a vadia com essa historinha de merda de que vai morrer e eu não sei o que fazer!

Quando Lara estava irritada, seu vocabulário era vulgar. Eu só imaginava onde teria aprendido tais palavras.

– Quer conselho?

Eu tinha aprendido, depois de ouvir a história de Lara, que era melhor perguntar antes de abrir a boca.

– Quero! Porque estou preocupada. Aquela insana vai se aproximar da Debbie, que tem duas menininhas, e eu não sei se do jeito que me rifou na praça não vai rifar as meninas... Além do mais, não quero aquele saquinho de merda novamente na nossa vida! Entenda, Mark, cada vez que sou obrigada a olhar para aquela mulher me lembro de tudo!

Fiz um sinal para ela sentar ao meu lado, antes que furasse meu tapete de tanto caminhar de um lado para outro. Ela se sentou segurando o copo com as duas mãos.

– Fale com sua irmã. Conte toda a história, com detalhes. Ela tem o direito de saber por que você se comporta assim. Senão não faz sentido para ela. Você é uma boa pessoa, jamais viraria as costas para uma doente terminal. Ela precisa entender…

O tempo que passei com Lara me mostrou que ela tinha compaixão pelos necessitados, animais doentes e amigos em dificuldade. Não havia nada frio ou rude nela, seu sofrimento vinha de uma extrema sensibilidade.

– Por que acha que eu deveria fazer isso?

– Porque, se não fizer, sua irmã nunca vai entender. Se deixar assim, sua mãe vai voltar com tudo, vai até virar a avó do ano, se você duvidar.

– Deus! Quando acho que enterrei essa história, tenho que revivê-la mais e mais. Você tem razão, o que está dizendo faz sentido.

Lara pôs as mãos no rosto em sinal de cansaço.

– Não sei se tenho forças.

– Só você pode decidir isso, Lara. Se conseguir, penso que é o melhor a fazer. Você poderia tentar ouvir a opinião do seu terapeuta…

– Já falei com ele e é igual à sua.

– E o seu irmão, sabe de tudo? Penso que você precisa falar com ele também.

– Ele também não sabe… Havia uma boa diferença de idade entre nós, o Sean tinha somente oito anos quando meus pais se separaram. Não havia como esclarecer as coisas. Era um assunto complicado e eu e meu pai não queríamos falar sobre ele. Penso que no fundo os dois desconfiam que exista algo mais, porque havia muita mágoa e eu e meu pai não falávamos sobre o assunto – ponderou Lara.

– Pode ser, Lara. Veja, com o tempo e sem as devidas explicações, o que seus irmãos podem ter é apenas vontade de rever a mãe. Eles não tem motivos reais para odiá-la. Seu pai ainda é vivo?

– Não. Morreu recentemente.

– Então é isto: a morte dele deixou um vazio, um espaço para a entrada da mamãe arrependida… Além do mais, teoricamente, o problema era entre sua mãe e seu pai… Não foram os filhos que se divorciaram… Para eles, ela não era má, era?

– Ausente, apenas… Via-os por alguns momentos, quando estavam limpos e arrumadinhos. Segundo dizia, era melhor qualidade de tempo do que quantidade… ou seja, tudo que você conseguir fazer com seus filhos em quinze minutos por dia, faça!

– Quinze minutos?

– Sim, algumas vezes. Às vezes ela nem nos via, mas fins de semana eram um sonho: todos arrumados para a foto da família perfeita!

– Ok, então não há grandes laços afetivos entre eles... Mas, pelo que diz, há fortes laços entre vocês três. Como você era com eles?

– Eu era a máscara da irmã feliz, descolada, inteligente. Eles sempre me admiraram. Nunca deixei que notassem o lado negro que eu carrego. Apreendi rápido a pôr máscaras, Mark...

– Lembrar de tudo que você passou ainda dói muito?

– Acho que vai doer para sempre, Mark. É como se houvesse uma fenda dentro de mim. Tento me esquecer e sempre aparece algo para me atormentar.

– Como é essa dor, quer falar um pouco?

– É uma enorme sensação de solidão... Não do tipo que você sente quando perdeu alguém próximo ou um pedaço de si... Não é fácil explicar... Parece que sou sempre incompleta... Busco e tento completar esse vazio e não consigo. E cada vez que tento ser feliz, vêm do nada as Sabines, as imagens... E essa fome dentro de mim, que nunca sacio...

– Fome?

– Fome do pedaço de mim que perdi... Meu melhor lado... Minha inocência... Mas vou conseguir atropelar essa mulher...

Era incrível como Lara não conseguia mergulhar muito tempo na dor... A dor estava ali, nítida, palpável, quase na superfície... Mas quando ia ficar profunda, ela colocava a tal “máscara” que mencionara há pouco e a criança perdida desaparecia, dando lugar a uma mulher forte e determinada.

– Vou ligar para os dois e propor um encontro da verdade… Você tem razão, vai ser melhor. Talvez eu expulse de vez meus demônios.

Ela pegou a bolsa que jogara sobre uma poltrona e foi rumando para a porta.

– Fica para jantar! Frito um ovo como ninguém.

– Não, hoje não, apesar de ser tentador o ovo… – ela piscou um olho. – Vou para casa clarear minha mente e pensar melhor em tudo isso, mas acho que você tem razão, Mark, só me falta a coragem.

Lara sumiu mais uns dias e depois retornou me contando que conseguiu falar com os irmãos. Pediu ao irmão que viesse urgente do Texas e fez uma reunião com ele e a irmã. Segundo ela, foi um momento difícil e dolorido para todos. “Quase uma ópera bufa”, disse.

A sinceridade do seu relato fez com que os irmãos decidissem manter a mãe a distância. A família deles se uniu novamente para não permitir a aproximação de Sabine com sua súbita onda de “amor materno”. No final Lara havia saído vitoriosa, mas estava emocionalmente exausta. Precisava se refugiar em Paris, por isso me telefonou e pensei imediatamente: “Lá se vai a mulher por mais algumas semanas”. Antes que meu pensamento tétrico se instalasse, porém, ela me deu a boa notícia. Queria minha companhia!

Fiz o que jamais faria antes: posterguei prazos, clientes, audiências, pedi uma breve licença para me ausentar da universidade, fiz as malas e fui para Paris. Espontaneidade uma vez na vida!

Capítulo Catorze

 

Simone não se sentia cansada. O texto que estava lendo era absorvente. Se fosse um romance, seria um best-seller, daqueles impossíveis de largar. Enquanto lia, se esquecia da vida, de comer e de descansar. Era quase meia-noite e estava sentada, enrodilhada sobre sua poltrona favorita, com uma taça de vinho na mão e o estômago roncando.

Estava enfim pensando no que havia para comer. Foi até a cozinha e abriu a geladeira para encontrar uma salada sem graça de macarrão com azeitonas que Lola havia deixado. Vasculhou os armários e encontrou um pacote de pipoca, colocou-o no micro-ondas, encheu a taça novamente e voltou a ler. Um pouquinho mais, ela pensou. Só mais algumas páginas.

O Diário de Mark

Paris

Lara adorava Paris. Dizia que, apesar de tudo que havia vivido com o filho do senador naquela cidade, amou Paris desde a primeira vez em que desembarcou no aeroporto, aos oito anos, com a avó.

Para Lara, Paris era um refúgio mágico e toda vez que precisava encontrar seu equilíbrio, fugia para lá, para o pequeno apartamento que herdara da avó.

Eu havia estado apenas uma vez na cidade, por poucos dias e a trabalho, representando um cliente numa audiência de arbitragem na Câmara Internacional de Comércio. Não tivera muito tempo para passear.

Minha imagem de Paris era de uma cidade antiga, cheia de pessoas mal-humoradas pela rua, e pato cru para comer. Realmente eu não entendia muito bem o conceito da cidade. Logo, mes souvenirs não coincidiam com os de Lara.

Fui para Paris com Lara somente porque sabia que uma semana com ela seria uma semana no paraíso. Teria ido a Marte se ela quisesse. E sabia que ela precisava de um tempo depois dos problemas familiares recentes.

Logo que chegamos, me impressionei com a fluência de Lara na língua. Meu francês é limitado a bon jour, merci e au revoir, mas Lara se comunicava com perfeição – dentro da minha compreensão, perfeição é falar rápido e se fazer entender.

A visão da Torre Eiffel é fascinante. Conforme fomos nos aproximando do local onde Lara tinha seu apartamento, ela ia aumentando de tamanho.

– La Vielle Damme – disse Lara com reverência.

– O quê?

– A velha senhora – apontou o dedo para a torre. – Toda vez que a vejo, sei que voltei para casa!

– Para você Paris é lar?

– Paris foi uma dura lição de vida, mas também o foi Emma, que é metade francesa, o que faz de mim uma parte francesa!

– Uau! Não sabia disso! Achei que era italiana!

– Por quê?!

– Suas mãos estão sempre se movendo.

Ela apertou meu nariz.

– Ai!

No local onde Lara tinha seu refúgio, ela me informou orgulhosa que o prédio tinha mais de duzentos anos. Não sou fanático por construções antigas, mas assim que ela abriu uma enorme porta de ferro com um código, na Rue de Saint-Dominique, a atmosfera do edifício e do pátio interno me deixou encantado.

Quase todas as construções mais antigas na França são feitas de blocos de arenito e, apesar de ter duzentos anos, o edifício era bem conservado. Tinha formato da letra U e uma espécie de jardim interior bonito, que precisei atravessar com minha mala, porque o táxi nos deixou na calçada. Lara me explicou que o prédio era preservado, logo, nenhum carro entrava.

Para minha sorte, Lara havia trazido só um mala de mão, pois tinha roupas no apartamento. Que maravilha!, uma mulher que não carrega a casa inteira quando viaja!

Havia três portas de entrada, cada um para uma das faces do U. A de Lara era a central. Ela digitou mais um código num painel e desbloqueou outra porta enorme, de ferro, dando para o interior do prédio.

– Modernas essas fechaduras com códigos de duzentos anos!

– Engraçadinho – e me deu um empurrãozinho de leve. – As fechaduras têm no máximo uns dez anos!

– Ah, e eu achando a tecnologia francesa avançada...

– Você ainda vai se ajoelhar para a França, tolinho, espere até entrar nesse elevador.

O elevador era bizarro: parecia uma cela de cadeia dependurada no meio do vão da escada. Cabíamos nele minha mala e eu ou Lara, e isso se eu não respirasse!

– Quinto andar, Mark, encontro-o lá.

Ela me deu sua maleta, fechou a porta de grades e saiu correndo escada acima; será que essa mulher ainda não havia notado que eu sou um cavalheiro? Pelo jeito, não.

Quando nos encontramos, ela arfava e procurava uma chave na bolsa. Abriu a porta e fomos entrando. O apartamento era minúsculo, parecia uma caixinha de lápis de cor, laranja, amarelo, verde, azul, alegre, bem decorado. Tinha jeito de felicidade. Era claro, com enormes janelas e cortinas transparentes que deixavam o sol entrar.

A cozinha, do tamanho de uma de casinha de bonecas, era verde e acoplada a um canto minúsculo. Havia ali apenas um micro-ondas, um armário com três portas acima da pia e três abaixo, e duas placas de aquecer. Ahhh, descobri que mais ao lado havia uma lavadora/secadora de roupas. Me fale sobre uso racional de espaço!

A sala era rodeada de estantes cheias de livros. Havia duas cadeiras muito antigas de um tecido em que predominava o tom laranja, um baú mais antigo ainda entre elas, alguns abajures e um sofá azul, aparentemente confortável, em uma das paredes. Na outra, no lado oposto, ficava uma pequena lareira.

Ainda que pequeno, o apartamento era decorado com extremo bom gosto. Havia tapetes coloridos espalhados pelo chão, almofadas de vários tamanhos aqui e ali, em maravilhosa demonstração da competência de Lara em tornar um pequeno apartamento um lugar maravilhoso, chique e confortável.

Havia ainda um banheiro moderno, exceto pela antiga banheira de louça com patas, e um quarto.

– Seu apartamento é lindo!

– Mark, se pronuncia assim: “estudiô".

– Certo. Peter amaria ter que fazer esses biquinhos para falar…

– Fico feliz que você goste! Vem cá, quero te mostrar uma coisa – abriu uma janela que dava para um minibalcão de ferro batido, estilo Romeu e Julieta, e me mostrou orgulhosa a vista. Dava para avistar a Torre Eiffel, ou melhor, uns trinta por cento dela.

– Você tem um pedaço da torre só para você! Que ótimo!

– Aqui sou feliz! – e sorriu nitidamente contente. E eu fiquei feliz por ela partilhar seu pequeno pedaço de paraíso comigo. Naquele momento, passei a amar Paris vista pelos olhos de Lara, e amei mais ainda aquela mulher.

Lara me fez experimentar todos o pratos típicos que a Cidade Luz tinha para oferecer. Dizia que preconceito não pode existir na culinária.

– Você não pode não gostar o que nunca provou – afirmou. – Isso é ignorância. Prove e odeie ou prove e ame, mas prove – essa era a filosofia de Lara.

Ela me levou a um restaurante tradicional chamado La Fontaine de Mars, na mesma rua do apartamento. Pediu nossos pratos e disse que não me faria arriscar muito para um primeiro dia.

Quando as entradas chegaram, havia um pratinho com seis furinhos redondos e algo escuro, coberto de azeite e ervas. Só Deus sabe o que me aguardava ali.

– O que é isso, Lara?

– Experimente. Se não gostar, pedirei outra coisa para você.

– Sem saber o que é?

– Melhor, o preconceito não vem junto.

Ela pegou um garfinho, espetou algo que parecia uma borracha escura, pôs na boca. Naquele momento comecei a suspeitar que fosse escargot. Nunca tive coragem de experimentar antes, mas decidi que iria em frente, ainda mais depois de ver a reação de Lara, que fechou os olhos e mastigou lentamente. Então ela abriu os olhos e disse:

– Deus existe! – e olhe que ela sempre se declarou agnóstica.

Fiz o mesmo, espetei o “algo”, coloquei na boca e fiquei surpreso com os sabores fantásticos que encontrei num pequeno pedaço de comida: ervas, manteiga, exótico e misterioso, adorei.

– Maravilhoso, Lara! Já havia visto escargot antes, mas deixei para lá. Nunca pensei que pudesse ser tão bom!

Para acompanhar o prato, ela havia sugerido um vinho Sauterne, adocicado, saboroso, feito de uvas quase passas colhidas tardiamente. Se o tempo parasse naquela hora, o momento seria perfeito: a melhor companhia do mundo, comida deliciosa, vinho dos deuses.

O segundo prato era pato, confit de canard, uma coxa, segundo me explicou Lara, cozida por horas na própria gordura, acompanhada de um molho escuro, adocicado, espesso, fantástico. Batatas douradas, cortadas em cubinhos, acompanhavam. Absolutamente saboroso.

Todos os pratos eram devidamente acompanhados de vinhos ótimos que Lara escolhia.

– Como esses franceses conseguem ser magros comendo desse jeito?

– Penso que aqui se anda mais, porque tudo é feito na manteiga, com muita gordura –ela quebrou um pedaço de pão, passou no molho, pôs na boca e continuou: – Eles também comem muito pão.

Nos dias que se seguiram, fomos a diversos lugares, incluindo museus e exposições. Lara me arrastou por toda a cidade, na maior parte das vezes a pé. Acreditava que era a melhor forma de sentir o lugar. Algumas vezes usávamos o metrô. Lara dizia que era impossível ver tudo se usássemos um carro, ou melhor, meio carro, porque ela tinha um Smart conversível. Não sei como cabíamos, mas à noite o usávamos.

Conforme conhece Paris, você começa a achar que a cidade é como um pacote de presente, embrulhada para deleitar os sentidos. Arte por todos os lados. A comida é divina. Eu estava sempre saboreando algo novo. Lara encontrava motivos para rir aonde quer que fôssemos. Me apaixonei pela cidade.

Lara estava solta, feliz, totalmente à vontade. Dormíamos abraçados, fazíamos sexo normalmente e numa cama.

Na quinta-feira, três dias antes de retornarmos, andamos menos, Lara quis apenas fazer algumas compras para o apartamento de um cliente. Disse-me que à noite iria me mostrar algo.

À noite ela vestiu um vestido preto – no instante em que a vi tive uma ereção! As costas inteiras nuas, a ponto de ver a tatuagem de uma pequena lua que havia no final da espinha, antes de começar o derrière. Calçou botas de cano e salto alto, pôs uma maquiagem sexy, escura e esfumaçada, e seu perfume de sempre. Minha vontade era de arrancar a roupa dela e devorá-la ali mesmo, na sala, mas ela queria sair.

Havia pedido que eu vestisse uma camisa, um blazer e uma calça, e lá estava eu, pronto para partir para mais uma aventura com aquela caixinha de surpresas.

Pegamos um táxi. O motorista mal falava francês. Há muitos estrangeiros na cidade que mal falam a língua. Me senti em casa! Lara explicou o endereço.

Se Paris é linda durante o dia, a noite é mágica. Com as luzes acesas, o ar de romantismo impera e a cidade se transforma numa árvore de Natal gigante.

Fomos ao segundo arrondissement, não muito longe da Ópera de Paris, paramos em um clube privado chamado Le Mask. Lara disse alguma coisa aos recepcionistas e eles nos deixaram entrar. Pagamos uma taxa e escolhemos máscaras que escondiam metade de nossas faces. A atmosfera era sensual ao extremo. Uma máscara negra de renda dava glamour aos traços de Lara, seus olhos verde-azulados brilhavam e os lábios estavam escandalosamente vermelhos.

Mais uma casa de suingue, com certeza. Muito interessante. Ao entrarmos no que parecia uma pista de dança, no primeiro andar, Lara apontou para cima. Pelo teto de vidro, transparente, era fácil ver que as pessoas no andar de cima estavam completamente nuas. Comecei a ficar excitado. Ela me olhou em busca de aprovação e assenti com a cabeça. Eu estava disposto a experimentar todas as sensações com Lara.

Sentamos num sofá de veludo macio. Lara me consultou sobre o que tomar – champanhe, é claro, nacional!

O garçom encheu nossas taças de Veuve Clicquot, brindamos e começamos a beber. Lara tomou um gole, me beijou e passou o champanhe para minha boca – num dos gestos mais eróticos que eu já experimentara, uma gota escorreu por meu queixo e ela a lambeu vagarosamente.

Essa mulher ia me transformar num maníaco. A única coisa em que eu pensava quando estava com ela era meter nela até esgotá-la, e ela sempre vinha com um pequeno truque, uma novidade que me fazia desejá-la cada vez mais.

Tomamos meia garrafa, então Lara me tomou pela mão, me levou até um armário igual a esses de colégio, tirou meu blazer, desabotoou minha camisa e foi desabotoando meu cinto; eu terminei o serviço. Enquanto isso, deslizou o vestido pelo corpo e ficou só de botas. Para variar, estava sem calcinha.

A única coisa que diminuía meu constrangimento era ver que meu membro já estava duro, portanto, eu não teria que andar desfilando flácido pelo salão. Penso que esse é o pesadelo de todos os homens, e nesse sentido sou como a maioria deles.

Entramos numa sala onde todas as pessoas estavam nuas. Eu nunca havia visto algo similar. Haviam belos corpos, corpos em não tão bom estado, mas todos desinibidos em sua nudez. Fui me descontraindo. A situação era tão erótica que eu sentia meu membro latejando, e a vergonha rapidamente foi substituída pelo desejo.

Caminhamos por entre os corpos e mãos que percorriam meu corpo e eu, agora já “experiente”, passei a também acariciar aquelas pessoas. Quando olhei, Lara estava sendo acariciada por um homem com um tipo de corpo que daria inveja a Adônis. O ciúme tomou conta de mim.

Lara deve ter notado, porque disse:

– Mark, relaxa, é só prazer, eu não vou embora com ele!

Então, Lara se aproximou do homem e lhe deu um beijo no pescoço. Ele começou a acariciar as nádegas dela. Eu não sabia o que fazer até que ela me incluiu no jogo, deu as costas para mim e eu peguei seus seios em minhas mãos. Apesar de torturado pelo ciúme, meu desejo era ainda maior e eu não conseguia pensar direito. Era erotismo de alta voltagem.

Fomos até um sofá num canto, com distribuidores de camisinhas pelas paredes. Lara retirou duas, me deu uma, deu outra para o Adônis, ele colocou, eu coloquei, Lara se inclinou e começou a sugá-lo. Ficou de costas para mim e eu não tive dúvidas: me aproximei e penetrei-a por trás, fazendo pela primeira vez sexo anal com ela. Não queria saber se ela gostava ou não, eu estava com ódio e tesão ao mesmo tempo.

Lara começou a gemer, não sei se por minha penetração ou pelo sujeito que chupava, e deu um jeito de se posicionar e encaixar o pau de super-homem do sujeito, que falava palavras desconexas em francês. Inclinou-se e eu aprofundei a penetração. Ele também. Sentindo a respiração de nós três ao mesmo tempo, penso que gozamos todos em menos de cinco minutos. Impossível segurar, foi o sexo mais louco de toda a minha vida.

Ao terminarmos de transar, Adônis deu um beijo no rosto de Lara, porque ela não lhe permitiu beijá-la na boca. Nos desencaixamos, ele foi para um lado, nós fomos para o bar.

Eu não conseguia falar nada. Estava impossibilitado de compreender tudo aquilo. Acabara de deixar a mulher por quem estava apaixonado fazer sexo com outro homem, na minha frente, participara e ainda tivera o maior prazer que alguém poderia sentir. Estava ficando maluco.

Pedimos mais uma bebida. Minha cabeça já estava leve. Nos sentamos numa espécie de bar. Lara também não falava, apenas sorvia seu champanhe. Vi que seus olhos se iluminaram, como os de um animal que acaba de encontrar uma presa perfeita. Me pegou pela mão e disse simplesmente:

– Venha, Mark, hora da vingança.

Nos aproximamos de uma mulher pequenina com uma máscara vermelha no rosto. Devia ser uns quinze centímetros mais baixa que Lara, extremamente delicada e bela, cabelos castanhos, os olhos pareciam claros, mas naquela penumbra era impossível dizer a cor. O corpo pequenino era perfeito: seios pequenos, firmes, aparentava ser bastante jovem, no máximo uns vinte e cinco anos.

– Meu presente para você hoje, Mark – dirigiu-se à jovem, falou algo no seu ouvido, me apontou com a cabeça. Vi a menina me olhar como quem admira um par de sapatos numa vitrine e, para minha sorte, assentir com a cabeça. Ela se moveu em minha direção, me olhando nos olhos – azuis, azuis babaloo eram os olhos da diaba.

– Allo, Marrrk – disse, com o R absolutamente francês.

Eu não tinha a mínima ideia de como ela sabia meu nome, mas pouco importava.

Passou as unhas longas pelo meu peito e passei as mãos por seus seios perfeitos. Ela gemeu, me olhou diretamente nos olhos e foi se ajoelhando. Tomou meu membro nas mãos, acariciou minhas bolas, esfregou meu membro e começou a me chupar. Lara se aproximou e colocou um dedo na minha boca, depois me beijou, quase gozo na boca da menina. Eu nunca estivera num sexo a três, fora aquela vez com Lara e a menina que fora expulsa. Enfim, meu sonho iria se realizar.

As duas sereias me arrastaram para uma espécie de cama, eu me deitei, coloquei uma camisinha e a francesinha montou e começou a me cavalgar. Lara aproveitou e pôs seu sexo em minha boca – a sensação erótica perfeita, uma mulher transando com você, outra na sua boca, com o sexo que recentemente havia recebido o membro de outro homem. Era de enlouquecer! Não sei quanto tempo passamos assim, as duas gozaram, eu resolvi segurar e aproveitar mais.

Lara deitou ao meu lado, me pediu para penetrá-la, pegou a francesinha pelos cabelos e fez com que ela a chupasse enquanto eu a penetrava. Acariciava Lara com a língua e me acariciava também. Delirante! Quando terminou, eu estava zonzo.

A francesinha beijou Lara de leve na boca e partiu. Ficamos a sós. Lara me olhou e perguntou:

– Quer mais ou está satisfeito?

Toda a experiência da noite pesou: ver Lara com outro homem, eu transar com outra mulher, corpos nus, champanhe em excesso... Encostei Lara na parede mais próxima, levei a mão até seu pescoço e comecei a apertar.

– Isso, Mark, me odeie! Isso me deixa com muito tesão! Muito! Aperte forte meu pescoço!

Apertei-a e enfiei nela, sem camisinha, sem nada, com força. Eu queria machucá-la como ela tinha feito comigo ao me obrigar a dividi-la com outro; estoquei fundo e forte! Mulher maldita, em vez de choramingar como outras fariam, urrava de prazer, e quanto mais eu apertava seu pescoço, mais ela gostava.

Quando terminamos, estávamos calmos, os dois. Fomos para casa em completo silencio.

Ela se aninhou em mim e dormiu no caminho. Eu não conseguia fechar os olhos, tentando analisar o ódio que estava em mim.

Continuar: parte 3 de 3