Carrie
À noite do baile
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
P.: Sr. Quillan, seria possível discutirmos apenas a noite de vinte e sete? 22h3Omin por favor?
R.: E não estamos?
P.: Espero que sim. Continue.
R.: Bem. Plessy me trancou lá por volta de uma e quarenta e cinco da manhã, e fui dormir direto. Apaguei. por assim dizer. Acordei lá pelas quatro horas do dia seguinte, tomei três Alka-Seltzers e fui dormir de novo. Ë jeito meu. Consigo dormir até a ressaca passar de todo. Otis, o Grandão, já me disse para eu descobrir como faço isto e tirar patente. Disse que assim poderia evitar um monte de dor e sofrimento no mundo.
P.: Acredito, sr. Quillan. Mas agora me diga quando foi que acordou novamente.
R : Lá pelas dez da noite de sexta-feira. Estava com uma bruta fome, por isso resolvi descer para pegar uma bóia.
P.: E aí o senhor saiu sozinho da cela aberta?
R.: Saí, claro. Sou um grande sujeito quando não estou de porre. Uma vez até...
P.: Limite-se a contar ao júri o que aconteceu depois de
sair da cela.
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R.: Aconteceu que o alarme contra fogo desandou a tocar. Fiquei com um medo dos diabos. Nunca mais tinha ouvido aquela sirene desde o fim da guerra do Vietnà. Por isso subi correndo as escadas, mas, merda, lá em cima não tinha ninguém. Droga, disse eu comigo, Plessy vai ver só. Sempre tem gente por lá, caso alguém tenha que ser trancafiado Fui então para a janela e olhei pra fora.
P. Dava para ver a escola daquela janela2
R. Claro. Fica do outro lado da rua. Um quarteirao e meio adiante. Todo mundo corria e gritava foi aí que vi Carrie White.
P.: E o senhor já tinha Visto Carrie White antes?
R.: Nunca.
P.: Então como sabia que era ela?
R.: Ë difícil explicar.
P.: Dava para ver distintamente"?
R.: Estava em pé debaixo de um poste de luz, junto de um hidrante. na esquina de Main & Spring.
P Aconteceu qualquer coisa?
R.: Por Deus, acho que sim. Toda a parte de cima do hidrante explodiu em três direções. Pra esquerda, pra direita e direto pro céu.
P A que horas foi que este. hum. defeito ocorreu?
R.: Lá por volta de vinte para as onze. Não era mais que isto.
P.: E o que aconteceu depois?
R.: Ela saiu andando em direção à cidade. Doutor, o aspecto dela era horrível! Usava um vestido de festa qualquer, ou melhor, o que restava dele. Estava toda molhada por causa daquele hidrante e coberta de sangue. Parecia que tinha acabado de sair de um desastre de automóvel. Mas sorria! Nunca vi um sorriso daqueles. Era a própria caveira sorrindo. Não parava de olhar para as mãos e esfregá-las no vestido, tentando limpar o sangue e achando que nunca ia conseguir, e pensando em derramar sangue por cima da cidade toda, pois eles iam lhe pagar. Era um troço horrível.
P.: Como podia o senhor ter idéia do que ela estava pensando?
R.: Não sei. Não consigo explicar.
P.: Gostaria que daqui por diante, no seu depoimento, o senhor se limitasse ao que viu, sr. Quillan.
R. Tá. Na esquina de Grass Plaza tinha um hidvante que estourou também. Este eu conseguia ver melhor. Os enormes parafusos dos lados começaram a se soltar sozinhos.Eu vi!E o hidrante estourou como os outros. E ela estava feliz!Dizia consigo mesma, assim vão levar uma boa ducha, vão...! perdão. Os carros de bombeiros começaram a passar. e ai eu a perdi de vista. O novo carro de bomba encostou na escola, e começaram a trabalhar nos hidrantes. mas logo viram que não iam conseguir, água. Burton, o chefe, berrava a qualquer coisa e foi aí que a escola explodiu. Santa Maria!
P.: E o senhor deixou a delegacia?
R Queria encontrar Plessy, contar pra ele o caso daquela maluca e dos hidrantes.Dei uma olhada para o lado do posto de Teddy Amoco, e meu sangue gelou. Todas as suas bombas estavam com as mangueiras fora dos ganchos. Teddy Duchamps esta morto desde 1968, que Deus o tenha em paz. mas o filho trancava aquelas bombas toda noite exatamente Como Teddy costumava fazer. Mas todos os cadeados, e eram Yale, pendiam arrombados em suas alças. As pontas estavam jogadas no asfalto com os automáticos ligados. A gasolina jorrava pela calçada. correndo para a rua. Santa Maria Mãe de Deus! quando vi aquilo, meu saco se arrepiou. Logo depois vi aquele sujeito correndo de Cigarro aceso.
P E que fez o senhor?
R.Berrei. Berrei qualquer coisa como: Eí! Cuidado com o cigarro! Cuidado!! Olha a gasoíina!! Ele não me ouviu. .As sirenes. Os apitos, os carros zunindo para baixo e para cima. não era para menos. Vi que ia jogar fora o cigarro, e tratei de recuar, me encolhendo na delegacia.
P.:E o que aconteceu depois"?
R Depois? Bem, depois o demônio ficou solto em Chamberlain.
Quando os baldes caíram, ela a princípio só teve consciência de um alto tinir metálico, que cortou a música, e depois ficou inundada por algo quente e molhado. Instintivamente fechou os olhos. Sentiu um grunhido a seu lado, e naquela parte de sua mente, que despertara há tão pouco tempo, sentiu uma dor fugaz.
(tommy)
A música parou dissonante e estrepitosa, algumas vozes continuando ainda como cordas partidas de um instrumento,e no repentino silêncio de antecipação, enchendo a lacuna entre o ato e sua ocorrência, como antecipação à catástrofe, ouviu alguém exclamar claramente:
- Meu Deus, é sangue!
Mais um momento, e como para confirmar-lhe a verdade, para torná-la plena e perfeitamente clara, alguém deu um grito.
Sentada, de olhos fechados, Carrie sentiu o terror se avolumar negro e penetrar-lhe a mente. A mãe afinal tivera razão. Ela tinha sido apanhada mais uma vez, tinha sido lograda, usada para cristo. Levaram-na lá para cima, e diante da escola inteira repetiram a cena da sala de banho... só que a voz dissera
(meu deus é sangue)
algo terrível demais para poder ser contemplado. Se ela abrisse os olhos e fosse verdade, e aí? E aí, meu Deus?
Alguém começou a rir. Uma solitária e assustada risada de hiena e ela abriu os olhos, abriu-os para ver quem era... E era verdade! O pesadelo final se concretizara: estava verrnelha; pingava. Haviam-na mergulhado no próprio segredo do sangue, em frente a todos e seu pensamento
(oh não.., eu... COBERTA... por ele)
se tingira dc um púrpura tétrico, de revulsão e vergonha. Sentiu seu cheiro, o fedor de sangue, aquele cheiro horrível, úmido e cúpríco. Num rápido cintilar de imagens caleidoscópicas viu o sangue escorrer grosso por suas pernas nuas, ouviu o bater constante da água do chuveiro nos ladrilhos, sentiu em sua pele o tamborilar macio dos Modess e toalhas higiênicas e as vozes exortando: TAM-PA! Tam-pa! Sentiu em sua boca o rude e repugnante amargo do horror. Finalmente conseguiram dar-lhe a ducha que queriam.
Uma segunda voz juntou-se à primeira, sendo seguida por uma terceira a risadinha em soprano de uma garota - uma quarta, quinta, e sexta; uma dezena delas, todas rindo. Vic Mooney ria. Podia vê-lo. Petrificado, a expressão de total pavor, mas mesmo assim as gargalhadas brotavam incontroláveis.
Ficou sentada imóvel, deixando as ondas de ruído rebentarem por cima dela. Tudo ainda era belo, ainda havia encanto e magia, mas ela ultrapassara uma linha, e o conto de fadas ficara verde de corrupção e maldade. Ela agora morderia a maçã envenenada, seria atacada por gigantes, devorada por leões.
Estavam novamente rindo dela.
De repente houve a ruptura. A consciência horrível do quanto tinha sido enganada. Um grito surdo, tremendo.
(estão) OLHANDO ( para mim)
estava subindo dentro dela. Tentou ocultá-lo cobrindo o rosto com as mãos e ergueu-se cambaleando. Só pensava numa coisa: correr, sumir do claro, da luz, deixando que a escuridão a envolvesse e ocultasse.
Mas era a mesma coisa que tentar atravessar melado, correndo. Sua mente traidora reduzira a velocidade do tempo. Era como se Deus tivesse passado toda aquela cena de 78 rpm para 33 1/2. Mesmo as gargalhadas soavam mais profundas e vagarosas, como um sinistro e grave retumbar.
Suas pernas se embaraçaram. e quase caiu do palco. Conseguiu se equilibrar, agachou-se, e saltou. As estridentes gargalhadas cresceram. Pareciam rochas em atrito.
Não queria ver, mas via. As luzes eram claras demais; via o rosto de todos. As bocas, os dentes, os olhos. Via, diante do rosto, suas próprias mãos riscadas de sangue coagulado.Miss Desjardin veio correndo em sua direção, O rosto cheio de mentirosa compaixão. Carrie conseguia penetrar com o olhar até a superfície onde a verdadeira Desjardin ria e zombava com rançoso cinismo de solteirona. Sua boca se abriu e saiu uma voz horrível, lenta e profunda:
- Deixe que eu ajudo, meu bem. Meu Deus, estou tão.. Carrie aplicou seu golpe
(vergar)
e Miss Desjardin saiu voando de encontro à parede ao lado do palco, onde ficou caída como uma trouxa.
Carrie correu. Atravessou no meio de todo mundo. As mãos cobriam-lhe o rosto, mas ela conseguia ver através da grade dos dedos. Via a todos em sua beleza, envoltos em luz, cobertos com as brilhantes vestes angelicais da Benquerença. Os sapatos brilhosos, os rostos transparentes, os cuidadosos penteados dos salões de beleza, as roupas cintilantes. Recuavam dela como se fosse a Peste, mas continuavam a rir. Disfarçadamente alguém esticou o pé, e
(isso mesmo era isto que vinha depois exatamente) ela caiu de mãos e joelhos no chão. Saiu engatinhando, o cabelo grudento de sangue pendurado no rosto, e arrastando como São Paulo na estrada de Damasco por ter sido cegada pela luz. Não demoraria, e levaria um chute.
Mas não levou. Conseguiu se por de pé novamente. Tudo começou a se acelerar. Saiu porta afora, atravessou a entrada, desceu voando as escadas, que duas horas atrás ela e Tommy tinham subido tão majestosamente.
(tommy esta morto pagou integralmente integralmente por ter trazido a peste para o lugar ao sol)
Desceu-os em grandes pulos desajeitados, as gargalhadas ecoando atrás dela como ruflar de asas de aves agourentas.
Depois a escuridão.
Fugiu pelo enorme gramado em frente a escola. perdendo as duas sandálias de festa. Conttnuou a correr descalça. A grama aparada parecia veludo, ligeiramente umedecida de orvalho, e as gargalhadas foram ficando para trás. Aos poucos foi se acalmando.
Agora suas pernas realmente se emharaçaram, e ela caiu esticada ao lado do pau da bandeira. Ficou deitada imóvel, a respiração ofegante, o rosto enterrado na grama fria. Lágrimas de vergonha começaram a rolar, tão quentes e pesadas como o primeiro fluxo menstrual. Tinham conseguido vencê-la, derrotá-la de uma vez por todas. Agora estava tudo acabado.
Logo ela se ergueria, iria para casa sorrateiramente por vielas escuras, mantendo-se sempre na sombra, caso alguém estivesse à sua procura, ia em busca da mãe, dizer-lhe que reconhecia estar errada.
(!!NÃO!!)
Sua têmpera de aço - que era bem dura - ergueu-se dentro dela e bradou alto a palavra. O cubículo? As infindáveis, delirantes rezas? Os folhetos e a cruz, e apenas aquele pássaro mecânico, o cuco da floresta Negra a marcar as horas, dias, anos e décadas pelo resto) da sua vida?
Como se um vídeo-tape tivesse sido ligado em sua mente, viu Miss Desjardin correndo em sua direção, e viu também como pela força de sua mente ela havia sido atirada fora de seu caminho como boneca de trapos, sem que ela mesma tivesse pensado nisto conscientemente.
Virou-se de costas, os olhos, esgazeados fixando as estrelas. Ela tinha esquecido.
(!!A FORÇA!!)
Estava na hora de lhes dar uma lição. De mostrar a eles umas coisinhas. Ria histericamente. Àquela era uma das expressões favoritas da mãe.
(a mãe vindo para casa largando a bolsa as lentes dos óculos brilhando) bem acho que hoje na loja ensinei umas coisinhas àquela idiota)
O sistema de prevenção contra incêndio! Poderia ligá-lo, ligá-lo facilmente. Deu nova risada, levantou, e começou a marchar descalça em direção às portas de entrada. Ligar o sistema todo e fechar todas as portas! Olhar lá para dentro, deixando que todos a vissem, ficar olhando e rindo enquanto a água lhes estragava os vestidos e ternos, os penteados, o brilho dos sapatos. Sentia unicamente que não pudesse ser com sangue.
A entrada estava deserta. Parou no meio das escadas - VERGAR, e todas as portas bateram, fechando-se sob a força concentrada que dirigia a elas. Os fechos de ar comprimido foram arrancados. Ouviu alguns gritos que a seus ouvidos eram música, doce e divina música.
Por um instante tudo ficou na mesma; depois sentiu que empurravam as portas tentando abri-las. A força de nada lhes adiantou, estavam presos,
(presos)
e a palavra ecoava inebriante em sua mente. Estavam em suas mãos, em seu poder. Poder! Que grande palavra!
Subiu o restante das escadas, olhou para dentro. George Dawson estava comprimido contra o vidro da porta. lutando. empurrando. o rosto contorcido pelo esforço . Havia outros atrás dele, e todos pareciam peixes dentro de um aquário.
Deu uma olhada para o alto e se certificou da existência do sistema de prevenção contra incêndio, com suas válvulas que pareciam margaridas de metal. As tubulações eram em grande quantidade, ela se lembrava disto. Leis de proteção contra inéêndio ou qualquer coisa semelhante.
Proteção contra incêndio! Subitamente lembrou-se dos
(grossos cabos negros semelhantes a serpentes)
cabos de força estendidos pelo palco todo. Não podiam ser vistos pela assistência, estavam escondidos pelas luzes da ribalta, mas tivera que passar por cima deles com cuidado para chegar ao trono. Tommy segurara-lhe o braço.
(água e fogo)
Elevou sua mente até eles, seguiu seu traçado, tocou-os. Frios, cheios d"água. Sentiu o gosto de ferro na boca, de metal frio e úmido, de água tomada no bico de uma mangueira de jardim.
Vergar.
Por um instantc nada aconteceu. Depois todos começaram a se afastar das portas, olhando em volta. Dirigiu-se ao pequeno visor oval da porta do meio e deu uma olhada.
Chovia dentro do ginásio.
Carrie sorriu.
Não tinha conseguido abrir todos, mas verificou que, olhando para aqueles extintores, para todo aquele sistema de sprink1ers, podia seguir o esquema mais facilmente com sua mente. Começou a ligar um atrás do outro. Mas ainda não bastava. Eles ainda não estavam gritando, nem chorando. Não bastava.
(é preciso feri-los feri-los)
No palco, ao lado de Tommy, estava um rapaz, gesticulando corno louco, gritando qualquer coisa. Ficou olhando. Ele desceu e correu em direção ao equipamento do conjunto de rock. Segurou úm dos suportes do microfone e ficou transfigurado. Carne viu com espanto seu corpo executar uma dança quase imóvel dc eletricidade. Seus pés arrastavam-se na água, os cabelos estavam em pé, a boca se escancarou, como se fosse um peixe. Que engraçado! Ela começou a rir.
(por deus que ficassem todos então com aquela cara engraçada)
Numa súbita e cega arremetida valeu-se de todas as forças que sentia.
Algumas luzes se apagaram. Houve um clarão ofuscante quando um cabo de força dcsencapado bateu de repente numa póça d"água. Sentiu baques surdos na cabeça, quando as chaves dc circuito desandaram. O rapaz que estava segurando o suporte do microfone caiu por cima de um dos amplificadores; houve uma explosão de centelhas purpúreas e as bandeirolas de papel que enfeitavam a frente do palco começaram a arder.
Logo abaixo dos tronos, um cabo de força partido, de 220 volts, estalava no chão, e Rhonda Simard executava uma louca dança de fantoche em seu longo de tule verde.. Num segundo a saia toda ficou em chamas, e ela caiu de bruços, ainda estremecendo.
Talvez tenha sido neste instante que Carrie perdeu todo o controle. Encostada na porta, seu coração batia violentamente. mas o corpo parecia uma pedra de gelo. O rosto lívido, as faces ardendo em febre, sua cabeça latejava descompassadamente. Perdera o raciocínio lógico.
Mantendo as portas sempre fechadas, afastou-se cambaleando, sem pensar em nada, sem um plano fixo. Lá dentro as chamas aumentavam, e vagamente se lembrou de que o mural devia estar em fogo.
No alto da escada, desfaleceu. Apoiou a cabeça nos joelhos, procurando respirar mais devagar. Eles estavam tentando abrir as portas novamente, mas ela as mantinha fechadas com facilidade - não era nenhum esforço especial. Um sentido obscuro lhe dizia que algumas pessoas estavam escapando pela porta de emergência. Não importava. Mais tarde as pegaria.
Pegaria a todos. Sem exceção.
Foi descendo as escadas devagar, saiu pela porta da frente, mantendo as portas sempre fechadas. Era fácil. Era só vê-las em mente.
De repente o alarme da cidade disparou. Carrie deu um grito e cobriu o rosto com as mãos
(é o alarme é só o alarme contra incêndio)
por um instante. Sua mente perdeu de vista as portas do ginásio e algumas pessoas quase escaparam. Não, não! Nada disso. Fechou-as novamente pegando o dedo de alguém - parecia ser o de Dale Norbert - e amputando-o.
Continuou cambaleando, atravessou o gramado mais uma vez (um espantalho de olhos esbugalhados), dirigindo-se para Main Street. A sua direita estava o centro da cidade - as grandes casas de comércio, Kelly Fruit, o salão de beleza, a barbearia, os postos de gasolina, a delegacia, o corpo de bombeiros.
(eles vão apagar meu fogo)
Não iriam não. Começou a rir. Era uma gargalhada de demente, vitoriosa, perdida, aterrorizada. Chegou ao primeiro hidrante e tentou destorcer o parafuso lateral pintado.
(uuuh)
Era duro. Muito duro. O metal apertado queria desafiá-la. Não importava.
Torceu com mais força e sentiu ceder. Depois o outro lado.Em cima. Desatarraxou todos três de uma só vez, e numa fração de segundo estava tudo solto. A agua esguichou para todos os lados, um dos parafusos passou a um metro e meio numa velocidade suicida. Bateu na rua. rodou no ar. A água jorrou com pressão violenta em desenho cruciforme.
Sorrindo, cambaleando, o coração com mais de duzentas pulsaçocs por minuto, saiu andando em direção a Grass Plaza. Não tinha consciência de que esfregava suas mãos ensanguentadas no vestido como Lady Macbeth, nem de que ria e chorava ao mesmo tempo, e muito menos de que uma parte oculta de sua mente estava ansiosa por sua própria destruição, total.
Ela iria levá-los junto, e haveria um incêndio enorme, que toda a Terra ficasse impregnada de seu mau cheiro.
Abriu o hidrante de Grass Plaza, e depois foi se encaminhando para o posto de gasolina de Teddy Amoco. Foi o primeiro posto por que passou, mas não foi o último.
Do depoimento do xerife Otis Doyle, prestado sob juramento diante do júri do Maine (do Relatório da Comissão White), páginas 29-31:
P.: Onde esteve o senhor na noite de vinte e sete de maio xerife?
R.: Estava na Estrada 179, conhecida por Old Bentow Road, averiguando um acidente de automóvel. Este, na verdade ocorreu acima de Chamberlain, já em Durham, mas eu auxiliava Mel Crager, o chefe de polícia local.
P.: Quando foi o senhor informado pela primeira vez que houve um incidente na Ewen High School?
R : Às 22h2lmin recebi uma transmissão pelo rádio do agente de polícia Jacob Plessy.
P.: Qual a natureza deste chamado?
R.: Plessy me informou de que havia alguma confusão escola, mas ele não sabia se era séria ou não. Disse que era uma gritaria imensa, e que alguém tinha dado alarme de fogo. Acrescentou ainda que estava se dirigindo para o local para tentar determinar a natureza do incidente.
P.: Ele disse que a escola estava pegando fogo?
R.: Não, senhor.
P : O senhor lhe pediu para continuar a dar informações?
R.: Pedi.
P.: E Plessy seguiu suas instruções?
R.: Não. Morreu na explosão que ocorreu logo após no posto de gasolina de Teddy Amoco, na esquina das ruas Maine e Summer.
P.: Qual foi o comunicado seguinte que recebeu pelo rádio em relação a Chamberlaín?
R.: Às 22h42 min. Estava naquela hora voltando para Chamberlain com um suspeito dentro do carro - um motorista bêbado. Como eu já lhe disse, o acidente ocorreu na zona de Mel Crager, mas Durnham não tem cadeia. Quando cheguei a Chamberlain, também já não tínhamos mais.
P.: Qual foi o comunicado que recebeu às 22h42 min?
R.: Recebi um chamado da Polícia que tinha sido transmitido em cadeia do Corpo de Bombeiros de Motton. Dizia que na Ewen High School havia um incêndio, um aparente tumulto e uma provável explosão. Ninguém ainda sabia de nada com certeza. Lembre-se, tudo se passou no espaço de quarenta minutos.
P.: Sabemos disto, xerife. Mas o que aconteceu depois?
R.: Voltei a Chamberlain de sirene ligada. Estava tentando entrar em contato com Jake Plessy e não conseguia. Foi quando Tom Quillan apareceu falando confusamente que a cidade toda estava em chamas e que não havia água.
G.: Sabe que horas era então?
R.: Sei. Àquela altura estava anotando tudo. Era 22h58 min.
P.: Quillan afirma que o posto de gasolina explodiu às 23 horas.
R.: Tiremos uma média então e digamos 22h59mín.
P.: A que horas o senhor chegou a Chamberlain?
R: Às 23h lO min.
P.: Qual foi sua impressão assim que chegou, xerife Doyle?
R.: Fiquei pasmo. Não conseguia acreditar no que via.
P.: Que foi exatamente que o senhor viu?
R.: Toda a parte norte da zona de comércio da cidade estava em chamas. O posto de Teddy não existia mais. A loja Woolworth nada mais era que uma estrutura ardente. O fogo tinha se alastrado a três casas de fachada de madeira - Duffy's Bar, Kelly Fruit Company e o salão de bilhar. O calor era abrasador. Centelhas voavam para o telhado da Agencia de Loteamento Maitland e para a loja de carros Doug Brann's Western Auto Store. Carros de bombeiros chegavam, mas não tinham muito que lazer. Todos os hidrantcs daquele lado da rua estavam destruidos Os únicos dois carros que conseguiram prestar algum serviço foram dois velhos carros-bomba do serviço de bombeiros voluntários de Westover, e assim mesmo só conseguiram molhar os telhados dos prédios vizinhos. E evidentemente do ginásio. A escola estava praticamente. . .sumida. Sei que ela fica isolada - não há nada perto que possa pegar fogo - mas, meu Deus, toda aquela garotada lá dentro. . .toda aquela garotada.
P.: Encontrou Susan Sneil ao entrar na cidade?
R.: Encontrei, sim, senhor. Fiquei desanimado
P.: Que horas era?
R.: Quando entrei na cidade era... 23hl2min, no máximo.
P : O que disse ela?
R.:Estava atordoada. Tivera um pequeno acidente de carro - derrapagem - mas não dizia coisa com coisa. Me perguntou se Tommy estava morto. Perguntei-lhe quem era Tommy mas ela não respondeu. Quis saber se Carrie tinha sido pega.
P.: O júri está extremamente interessado nesta parte seu depoimento, xerife Doyle.
R.: Sim, senhor. Sei disso.
P.: Que foi que o senhor respondeu?
R.: Bem, existe apenas uma Carrie na cidade, pelo que eu saiba, a filha de Margaret White. Perguntei-lhe portanto se Carrie tinha alguma coisa a ver com aquele incêndio. Ela disse que Carrie havia sido a autora. Duas vezes ela repetiu: “Foi Carrie. Foi Carrie."
P E disse mais alguma coisa?
R Disse sim: - Foi a última vez que magoaram Carrie.
P.: Xerife, o senhor tem certeza de que ela não disse: - Foi a última vez que magoamos Carrie?
R.: Tenho certeza.
P.: Certeza mesmo? Cem por cento?
R : Bem, a cidade toda ardia em torno de nós. Eu...
P.: Ela tinha bebido?
R.: Como?
P.: Ela tinha bebido? O senhor disse agora mesmo que ela estava envolvida numa batida de carro.
R.: Acho que disse “num pequeno acidente”.
P.: E não pode garantir que ela disse magoamos em vez de magoaram?
R.: Talvez, mas.
P.: O que fez Susan Snell, então?
R : Desandou a chorar. Eu lhe dei um tapa.
P.: Por que fez isto?
R.: Ela parecia histérica.
P : E por acaso se acalmou?
R.: Acalmou. sim, senhor. E até conseguiu se controlar muito bem, levando em conta que seu namorado estava provavelmente morto.
P.: O senhor a interrogou?
R.: Bem, não da maneira como se interrogaria um criminoso, se é isto que o senhor está pensando. Perguntei se ela sabia alguma coisa acerca do que tinha acontecido. Repetiu o que já tinha dito antes, porém muito mais calma. Perguntei ainda onde estava quando a confusão começou, e respondeu que estava em casa.
P.: O senhor perguntou mais alguma coisa?
R : Não, senhor.
P.: E ela disse mais alguma coisa"?
R.: Sim. Me pediu - implorou - para que eu encontrasse Carrie White.
P.: E qual foi a sua reação"?
R Disse-lhe para voltar para casa.
P.: Muito obrigado, xerife Doyle.
Vic Mooney saiu tropeçando do escuro perto da agência drive-in do Bankers Trust, um sorriso no rosto, um sorriso escancarado, horrível, de dentes à mostra, flutuando quimérico na escuridão injetada de fogo, como vaga reminiciência de loucura. Seu cabelo, cuidadosamente alisado para suas obrigações de mestre-de-cerimônias, estava agora em pé, revolto como ninho de rato. Manchas de sangue deixaram-lhe na testa a marca de algum tombo não sentido na sua louca fuga do Baile da Primavera. Um olho estava roxo, inchado, completamente fechado. Foi entrando pelo carro de patrulha do xerife Doyle, deu um salto para trás, voltando como bola de bilhar, rindo para o motorista embriagado que cochilava no fundo do carro. Depois virou-se para Doyle, que tinha acabado de despachar Sue SneIl. O fogo espalhava sombras ondulantes de luz ao redor, mergulhando o mundo cm tonalidades marrom-avermelhadas dc sangue ressecado.
Quando Doyle se virou, Vic Mooney agarrou-se a ele. Agarrou-o como um camponês apaixonado dançando abraçado com sua namorada. Enlaçou-o com os braços. apertou-o. olhando para Doyle de olhos revirado e aquele sorriso de louco.
- Vic. . . - disse Doyle.
Ela arrancou todos os tegistros - disse Vic com uma risadinha. - Arrancou todos os
registros, ligou a água e chhhhhh, chhhhh!
- Vic. . .
- Não podemos deixar. Não, por favor Não. Não. Não. Não pode! Carrie arrancou todos os registros. Rhonda Simard pegou fogo. Santo Deuuuuuuuuuuuuusssss!!!.
Doyle lhe deu dois bons tapas, a mão calejada estalando no rosto do rapaz. O grito morreu com espantosa prontidão, mas o sorriso permaneceu como um eco do mal, solto, terrível
- Que foi que houve? - perguntou Doyle brutalmente. Que aconteceu lá na escola?
- Carrie - murmurou Vic. - Foi Carrie. Ela... - palavras se perderam. Continuou a rir, olhando para o chão.
Doyle lhe deu três violentas sacudidas. Os dentes de Vic bateram como castanholas.
- O que houve com Carrie?
- Rainha da Festa - balbuciou Vic. - Entornaram sangue em cima dela e de Tommy.
- O quê...
Era 23hl5min. De repente o posto de Tony em Summer Street explodiu com tremendo estrondo intermitente. A rua ficou clara como à luz do dia. Os dois homens caíram com o carro da patrulha, cobrindo o rosto com as mãos. Uma imensa nuvem oleosa de fogo ergueu-se acima dos olmos parque do Palácio da Justiça. iluminando o lago dos patos num escarlate diamantino. Em meio ao crepitante, ávido troar que logo ressoou, Doyle ouviu vidro, madeira e pedaços do poste caindo com estrépito no chão. Seguiu-se uma segunda explosão, fazendo com que se encolhessem mais uma vez. Ele ainda não conseguia atinar
(minha cidade isto está acontecendo na minha cidade)
que isto estivesse acontecendo em Chamberlain, em Chamberlain, pelo amor de Deus!, onde ele tomava seu chope gelado na varanda, ao sol, na casa materna, era juiz do time de basquete, e dava voltas pela Route 6, passando pelo The Cavalier, antes de se recolher diariamente às duas e trinta da madrugada. Sua cidade estava sendo consumida pelo fogo!
Tom Quillan saiu da delegacia e desceu correndo a calçada em direção ao carro de Doyle. Seu cabelo estava todo arrepiado, usava sua roupa verde e suja de faxina, camiseta, e as sandálias trocadas nos pés. Nunca Doyle estivera tão satisfeito em encontrar alguém. Tom Quillan era parte de Chamberlain, e aí estava ele - intato.
- Santo Deus - arquejou ele. - Você viu?
- O que está acontecendo? - perguntou Doyle rispidamente.
- Estava operando no rádio - disse Quillan. - De Motton e Westover queriam saber se era para eles mandarem ambulâncias; eu lhes disse que claro que sim, mandem tudo. Rabecões também. Agi certo?
- Agiu sim - Doyle passou a mão pelos cabelos. -Você viu Harry Block? - Block era diretor dos Serviços de Utilidade Pública, que incluíam também a água.
- Não. Mas o Comandante Deighan disse que tem água do outro lado da cidade, no velho quarteirão de Rennett. Estão estendendo as mangueiras agora. Pegueï alguns rapazes e eles estão instalando um hospital lá na delegacia. São bons garotos. mas vão sujar seu chão de sangue, Otis.
Otis Doyle sentiu uma onda de irrealidade envolvê-lo. Evidente que esta conversa não estava se realizando em Charnberlain, impossível!
- Isto mesmo, Tommy. Fez bem. Agora volte e convoque todos os médicos da lista telefônica. Vou até Summer Street.
- Tá, Otis. Se cruzar com aquela maluca, cuidado!
- Quem? - Doyle não era homem de gritar, mas agora gritou.
Tom Quillan recuou assustado.
- Carrie. Carrie White.
- Quem?? Como é que você sabe?
Quillan olhou, piscou:
- Não sei. Ë que. . . sei lá... me ocorreu.
Do teletipo da Nationa/ AP,’, 23h46min:
CHAMBERLAIN, MAINE (AP)
UM SINISTRO DE GRAVES PROPORÇÕES ATINGIU
ESTA NOITE A CIDADE DE CHAMBERLAIN, NO MAINE.UM INCÊNDIO. QUE PARECE TER COMEÇADO EM EWEN(U - WIN) HIGH SCIIOOL. DURANTE UM BAILE . ALASTROU-SE ATÉ O CENTRO DA CIDADE CAUSANDO DIVERSAS EXPLOSÕES QUE ARRASARAM GRANDE PARTE DO CENTRO. CONSTA QUE O BAIRRO RESIDENCIAL A OESTE DO CENTRO TAMBÉM ESTÁ ARDENDO. A MAIOR PREOCUPAÇÃO,NO ENTANTO, E A ESCOLA. ONDE ESTAVA SE REALIZANDO UM BAILE ESTUDANTIL. ACREDITA-SE QUE MUITOS DOS PARTICIPANTES TENHAM FICADO PRESOS DENTRO DO SALÃO. UM BOMBEIRO DE WESTOVER CONVOCADO PARA O LOCAL DECLARA QUE O TOTAL. DE MORTOS ATÊ AGORA SE ELEVA A SESSENTA E SETE. SENDO A MAiORIA DELES ESTUDANTES. TENDO SIDO PERGUNTADO EM QUANTO SE ESTIMAVA O TOTAL DE VITIMAS, DECLAROU: - NÃO -PODEMOS FAZER CONJECTURAS. O CASO Ë MUITO
GRAVE - SABE-SE PELAS ÚLTIMAS INFORMAÇÕES QUE NA CIDADE HÁ TRÊS INCÊNDIOS GRASSANDO INCONTROLÁVEIS NÃO HÁ NENHUMA INFORMAÇÃO CONFIRMADA DE QUE O INCÊNDIO TENHA SIDO PROVOCADO PROPOSITALMENTE. FIM.
23H46M1N, 27 DE MAIO 894F AP.
Não houve mais noticias da Associated Press de Chamberlain. Às 0h06min abriram o registro de gás de Jackson Avenue. As Ohl7mín um enfermeiro de uma ambulância de Motton atirou fora uma ponta de cigarro, quando o se dirigia ás pressas para Summer Street.
A éxplosão destruiu meio quarteirão de uma só vez, incluindo os escritórios do Clarin de Chamberlain. Às Oh18mim a cidade estava isolada do resto do país, que dormia em coerência.
Às OhlOmin, ainda sete minutos antes da explosão da rede de gás, houve outra de menores proporções na central telefônica: uma interferência total em todas as linhas que ainda funcionavam. As três pobres moças de plantão ficaram incapacitadas de dar conta do serviço. Trabalhavam com expressão de mudo horror, tentando completar ligações imcompletáveis.
E toda Chamberlain correu para as ruas.Vinham como invasores, do cemitério que ficava na esquina formada pela intercessão da Bellsqueeze Road com a Route 6; vinham de camisolas brancas e roupões como que envoltos em mortalhas. Vinham de pijamas e rolos na cabeça (a sra. Dawson, a do filho recem-morto que tinha sido um rapaz tão engraçado, parecia vestida para um espetáculo de menestréis); vinham ver o que tinha acontecido com a cidade, ver se ela estava realmente ardendo e sangrando. Muitos também vinham para morrer.
A Carlin Street estava apinhada; uma avalanche de gente movia-se em direção ao centro da cidade, através do estranho rubor do céu, quando Carrie saiu da Igreja Congregacional de Carlin Streét, onde estivera orando.
Entrara ali havia cinco minutos, depois de abrir o encanamento de gás (tinha sido tão fácil! Foi só visualizá-lo debaixo da terra), mas parecia que tinham-se passado horas. Rezara demorada e fervorosamente, às vezes em voz alta, às vezes baixÍnho. Seu coração martelava, respirava com dificuldade. As veias do rosto e pescoço estavam estufadas. Sua mente, repleta da vasta consciência de PODERES e de um ABISMO. Rezou em frente ao altar, ajoelhada em seu vestido molhado, rasgado e ensangüentado, os pés sujos e descalços. sangrando por causa de um caco de garrafa em que pisara: Sua respiração saía da garganta em soluços, e a igreja ecoava com lamentos, baques e tinidos, a energia psíquica emanando dela. Bancos de igreja caíam, hinários voavam, um conjunto para comunhão, em prata, atravessou silencioso o escuro abobadado da nave, chocando-se na parede no extremo oposto. Orou, mas não obteve resposta. Não havia ninguém - ou se havia, seja lá quem fosse, estava recuando diante dela. Deus desviara dela Seu semblante; e por que não? Todo este horror era Obra tão Dele quanto dela. E assim saiu da igreja, para ir para casa. procurar a mãe e a destruição final.
Parou aos pés dos degraus, olhou a multidão que como rebanho descia em direção ao centro da cidade. Animais. Que queimem, portanto. Que as ruas se encham do cheiro de seu sacrifício. Que esta cidade se chame raca, icabode, amargura!
Vergar.
Os transformadores no alto dos postes desabrocharam em luz púrpura, nacarada, lançando chispas de fogos de artifício. Os fios de alta tensão caíram na rua num emaranhado de jogo dc varetas. Algumas pessoas começaram a correr, infelizmente, porque a rua inteira agora estava coberta de fios, e sentiu.se o cheiro de crestado, de chamuscado. Começaram a queimar. Começaram a gritar, a recuar, encostavam nos fios e estremeciam em danças elétricas. Alguns já estavam caídos na rua, seus roupões e pijamas fumegando.
Carrie virou-se. Olhou fixo para a igreja de onde acabara de sair. A pesada porta de repente bateu, como fechada por violento furacão.
Carne foi se éncaminhando para casa.
Do depoimento prestado sob juramento pela sra. Cora Simard diante do júri do Maine (do Relatório da Comissão White), páginas 217-18:
P.:Sra. Simard, sabemos que a senhora perdeu sua filha na Noite do Baile e sentimos profundamente. Seremos tão breves quanto possível.
R.:Muito obrigada. Gostaria de ajudar, se fosse possível, é claro.
P.:A senhora estava na Carlin Street por volta de Oh12min, quando Carrietta White saiu da Primeira Igreja Congregacional nesta mesma rua?
R.:Estava.
P.:E por quê?
R.:Meu marido teve que ir para Boston a negócios, passar o fim de semana, e Rhonda estava no Baile da Primavera. Eu estava sozinha em casa assistindo à televisão, acordada, esperando por ela. Assistia ao Filme de Sexta-feira à Noite, quando soou a sirene da Prefeitura. Não a relacionei em absoluto com o baile; mas depois houve a explosão... e eu fiquei sem saber o que fazer. Tentei telefonar para a polícia, mas dava sinal de ocupado depois de eu discar os três primeiros números. Eu:.. eu... ai...
P.:Calma, ara. Simard. Não temos pressa nenhuma.
R.: Estava ficando nervosíssima. Houve uma segunda explosão - O posto de Teddy Amoco, pelo que soube depois - e decidi ir à cidade ver o que estava acontecendo. Havia um clarão no céu, um clarão horrível. Foi aí que a sra. Shyres bateu na minha porta com toda força.
P : A sra. Georgette Shyres7
R.: Exatamente. Mora logo na esquina. Willow, 217 Bem no início da Carlin Street. Batia na porta e gritava:
- Cora, você está aí? Você está aí dentro? - Fui até a porta. Ela estava de roupão e chinelos. Seus pés pareciam congelados. Disse que havia ligado para Westover para ver se sabiam de alguma coisa e lhe disseram que a escola estava pegando fogo.
- Santo Deus - respondi eu. - Rhonda está na testa!
P.: Foi aí que a senhora decidiu ir até à cidade, sra. Simard?
R : Não decidimos nada. Simplesmente fomos. Meti uns chinelos nos pés - creio que
eram da Rhonda. Tinham pequenos pompons brancos na frente. Devia ter posto sapatos. mas minha cabeça não estava funcionando. Acho que também não está agora. O que afinal lhe interessam meus sapatos?
P.: A senhora pode contar as coisas à sua maneira. sra. Símard.
R.: O-obrigado. Dei à senhora Shyres um velho casaco que estava pendurado por lá. e
fomos.
P.: Havia muita gente andando pela Carlin Street?
R.: Não sei. Estava muito transtornada. Talvez umas trinta pessoas. Talvez mais.
P.: O que aconteceu?
R.: Eu e Georgette íamos em direção à Main Street, de mãos dadas, como duas meninas assustadas atravessando uma campina depois do escurecer. Georgette batia queixo. Me lembro disto. Queria lhe pedir para parar, mas achava que ficaria indelicado A um quarteirão e meio da Congo Church. vi a porta da igreja aberta e pensei: Alguém deve ter entrado para pedir ajuda a Deus. Mas no mesmo instante senti que não era verdade
P.: Sentiu como? Seria inteiramente normal e lógico aceitar sua primeira suposição, não é?
R.: Mas eu sentia.
P.:Conhecia a pessoa que saiu da igreja?
R.: Sim. Era Carrie White.
P.: Já tinha visto Carrie antes?
R.: Não. Não pertencia ao grupo de amigas dc minha filha.
P.: Já tinha visto algum retrato de Carrie White?
R.: Não.
P.: De qualquer maneira, estava escuro e a senhora estava a uma quadra e meia da igreja.
R.: Exatamente.
P.: Sra. Simard, como podia saber então que era Carrie White?
R.: Eu simplesmente sabia.
P.:Este saber, sra. Simard, era como se alguma luz tivesse se acendido dentro de sua cabeça?
R.: Não, senhor.
P.: Como era então?
R: Não sei lhe dizer. Fugiu como acontece com os sonhos. Uma hora depois de levantar, a gente apenas coiisegue se lembrar que teve um sonho. Mas eu sabia.
P.: Havia algum sentimento emocional ligado a este saber?
R.: Sim. Horror.
P.: Que fez então?
R.: Virei-me para Georgette e disse:
- Lá está ela.
- Sim. é ëla - respondeu Georgette. Ia dizendo qualquer coisa mais, quando toda a
rua ficou iluminada por um grande clarão e estalos; os cabos de força começaram a se partir, cair na rua, alguns cuspindo centelhas. Um deles atingiu um homem na nossa frente e ele in-incendiou-se. Outro começou a correr, pisou num dos cabos e seu corpo se... se dobrou para trás, como se fosse de borracha. Depois caiu no chão. Outros gritavam e corriam, corriam cegamente, e cada vez mais cabos caíam. Cobriam o chão todo, como serpentes. E ela estava satisfeita. Feliz da vida! Cheguei a sentir sua satisfação. Sabia que tinha que manter a cabeça fria. Os que corriam, morriam todos eletrocutados. Georgette disse:
- Depressa, Cora. Meu Deus, não quero morrer queimada viva!
- Pare com isto - disse eu. - Temos que nos controlar, Georgette, caso contrário não saímos mais daqui. - Qualquer bobagem dessas. Mas ela não me ouviu. Soltou minha mão e começou a correr em direção à calçada. Gritei para que parasse - bem na nossa frente, havia um daqueles grossos cabos partidos - mas ela não me deu ouvidos. E ela.., ela... meu Deus, senti o cheiro quando começou a arder. A fumaça parecia irromper de sua roupa e eu pensei: deve ser assim mesmo quando alguém morre na cadeira elétrica. O cheiro era doce, parecia carne de porco. Algum dos senhores já sentiu? Às vezes eu o sinto em sonhos. Fiquei imóvel, olhando para Georgette Shyres que ia ficando preta. A oeste da cidade houve uma grande explosão - suponho que tenha sido a rede de gás, mas nem me dei conta. Olhei em volta e vi que estava só. Todo o resto ou tinha fugido ou estava esticado no chão, queimando. Vi uns seis corpos. Pareciam montes de trapos velhos. Um dos cabos tinha caído na varanda de uma casa à esquerda, e ela se incendiara. Me parece que fiquei lá, de pé, durante algum tempo, me convencendo a manter a cabeça fria. Me pareceram horas. Comecei a ficar com medo de desmaiar e cair em cima de um daqueles cabos, ou então entrar em pânico e desandar a correr. Igual... igual a Georgette. Aí comecei a andar. Passo a passo. A rua estava mais clara ainda, por causa da casa em chamas. Passei por cima de um ou dois fios descncapados, dei a volta num corpo que ficara reduzido a uma poça. Eu... eu... eu tinha que olhar para ver onde pisava. Na mão de um corpo vi uma aliança, mas estava preta. Toda preta. Meu Deus!, pensei eu. Santo Cristo! Passei por cima de outro cabo, e de repente lá estavam três na minha frente. Fiquei parada, olhando para eles. Pensei comigo: se conseguir atravessar estes está tudo resolvido. - mas não tinha coragem. Sabem de que me lembrei? Daquela brincadeira de criança: Mamãe-posso-ir? Uma voz dentro de mim me dizia:
Cora, dá um passo bem grande por cima dos cabos na rua. E eu pensava Mamãe, posso ir? Posso ir? Um deles ainda cuspia centelhas, mas os outros dois pareciam mortos. Mas nunca se sabe. Fiquei em pé, ali, esperando que alguém viesse, mas não apareceu ninguém. A casa ainda ardia e o fogo tinha se alastrado pelo gramado, pelas árvores e pela sebe ao lado. Mas nada de carro de bombeiros! Claro que nunca chegariam, pois se àquela altura toda a parte oeste da cidade estava em fogo! E eu me sentia tão fraca. Finalmente compreendi que não havia outra alternativa, ou dar a passada ou desmaiar, e dei o maior passo que pude. O salto do meu chinelo ficou a menos dc três centímetros do último cabo. Tinha conseguido passar!
Dei a volta por mais uma ponta de fio, e depois comecei a correr. E isso é tudo de que me lembro. Ao amanhecer estava deitada num cobertor, na delegacia de polícia, com mais uma porção de gente. Alguns - a minoria - eram garotos em suas roupas de festa, e eu comecei a perguntar se alguém tinha visto Rhonda. Foi aí que me disseram... dis-disseram...
(um pequeno intervalo)
P.: A senhora pessoalmente tem certeza de que aquilo foi obra de Carrie?
R: Tenho.
P.: Obrigado, sra. Simard.
P.: Gostaria de lhe fazer uma pergunta, por favor.
R.: Pois não.
1".: O que será se houver outras iguais a ela? O que será do mundo?
Do livro: The Shadow Exploded (página 151):
Pelas Oh45min da madrugada de 28 de maio, a situação em Chamberlaín era crítica. A escola estava toda destruída, numa área relativamente isolada; todo o centro da cidade estava em chamas. Quase toda a água daquela zona tinha sido esgotada; restava ainda algüma (com pouca pressão) nos encanamcntos da Deghan Street, suficiente no entanto para salvar os edifícios do comércio no cruzamento das ruas Maine e Oak.
A explosão do posto de Tony em Summer Street resultara num fogaréu que só foi controlado pelas dez horas da manhã. Água havia na Summer Street, o que não havia era bombeiros Lewiston, Auburn, Lisbon e Brunswick já estavam então a caminho, mas só chegaram depois de uma hora.
Na Carlin Street, iniciara-se um incêndio provocado por cabos de força derrubados. Ia acabar destruindo todo o lado norte da rua, inclusive o chalé onde Margaret White havia dado à luz sua filha.
No lado oeste da cidade, logo abaixo da parte comumente chamada de Brickyard Hill, ocorrera a tragédia pior: a explosão de um posto de gasolina, cujo incêndio grassou incontrolável por quase todo o dia seguinte.
Se olharmos para estes pontos num mapa do município (veja página ao lado), poderemos" traçar a rota de Carrie - um caminho de destruição que numa linha em espiral atravessava a cidade, porém com um destino quase certo: sua casa...
Qualquer coisa caiu na sala de estar. Margaret White se aprumou, virando a cabeça de lado. A faca de açougueiro tinha um brilho fosco à luz das chamas. A luz elétrica se apagara havia algum tempo, a única iluminação vinha do incêndio no extremo da rua.
Um dos quadros caiu da parede com um baque. Mais um instante, e o cuco da floresta Negra caía também. O pássaro mecânico soltou um grito curto e estrangulado, e calou-se.
Da cidade as sirenes soavam sem parar, mas mesmo assim ouviu-lhe os passos quando entrou pelo portão.
A porta abriu-se. Passos ecoaram no corredor.
Ouviu as placas de gesso da sala (CRISTO, O HÓSPEDE INVISIVEL; O QUE FARIA JESUS; A HORA SE APROXIMA: SE ESTA NOITE FOSSE O DIA DO JULGAMENTO, ESTARIA VOÇË PRONTA) explodirem uma após a outra, como pássaros de gesso num estande de tiro.
(meu deus já estive lá e vi as meretrizes dançando em palcos dc madeira)
Ficou sentada em sua banqueta como um aluno brilhante promovido a primeiro da turma. Mas seu olhar estava transtornado.
As janelas da sala se abriram.
A porta da cozinha bateu. Carrie entrou.
Seu corpo parecia torcido, encolhido como de uma velha encarquilhada. O vestido de festa, um trapo mulambento, com sangue de porco escorrido, coagulado. Havia uma mancha de graxa em sua testa, e os dois joelhos estavam esfolados, em carne viva.
-Mãe -murmurou ela. Os olhos de um brilho sobrenatural pareciam os de um falcão, mas sua boca tremia. Se alguém estivesse ali para observá-las teria ficado impressionado com a semelhança de ambas.
Margaret White estava sentada na banqueta da cozinha, a faca escondida entre as pregas do vestido.
- Eu deveria ter me matado quando ele a colocou dentro de mim - disse ela claramente. -
Depois da primeira vez, antes de nos casarmos ele prometeu. Nunca mais. Disse que tinhamos apenas... resvalado. Acreditei nele. Caí e perdi a criança; foi a sentença de Deus. Senti que meu pecado tinha sido expiado. Com sangue. Mas o pecado não morre nunca. O pecado. . . não morre. , . nunca. . . - Seus olhos ardiam.
- Mãe, eu...
- A princípio tudo estava bem. Viviámos sem pecado. Dormíamos na mesma cama, às vezes de ventre encostado, meu Deus, às vezes eu sentia a presença da Serpente, mas nunca. o fizemos. até que. - Um sorriso de escárnio apareceu em seu rosto), duro, horrível. - E naquela noite eu o Vi olhando Daquele Jeito. Nos ajoelhamos e rezanios pedindo forças e ele. . . me tocou. Naquele lugar. No lugar da mulher. Eu o expulsei de casa. Ficou fora durante horas. Fiquei rezando por ele. Via-o em mente perambulando pelas ruas desertas lutando com o Demônio, como Jacó havia lutado com o Anjo do Senhor. Quando voltou meu coração exultou de agradecimento.
Fez uma pausa, com aquele sorriso seco, rindo para sombras fugidias do quarto.
- Mãe, eu não quero ouvir!
Pratos começaram a estourar no armário, como pombos de barro.
- Só quando ele entrou é que senti seu hálito de uísque.E ele me usou. Me agarrou! Com o fétido hálito de uísque me agarrou. . . e eu gostei! Berrou as últimas palavras virada
o teto. - Gostei de toda aquela porca fornicação e das mãos me apalpando, me
APALPANDO TODA.’
- Mãe!
(!!Mãee!!)
Parou como se tivesse levado uma bofetada, e ficou olhando para a filha, piscando.