Carrie

Stephen King · Capítulo 9 de 9 · parte 4/4

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Carrie

À noite do baile

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

- Eu quase me suicidei - continuou ela num tom de voz mais normal. - E Ralph chorou e falou em penitência mas eu não, e depois ele morreu. Eu então pensei que Deus tinha me castigado com câncer, e que ele estava transformando meus órgãos femininos em algo tão negro e corroído quanto minha alma pecadora. Mas isto seria muito pouco. Misteriosos são os caminhos em que o Senhor realiza Seus milagres. Hoje o reconheço. Quando as dores começaram, fui apanhar uma faca... esta aqui - e ela a ergueu para o alto - e esperei que você viesse para poder fazer meu sacrifício. Mas eu era fraca e pérfida. Quando você tinha três anos, peguei na faca novamente, mas não tive forças. Por isto agora O demônio veio a nós.

Ergueu a faca e como que hipnotizada, seus olhos se fixararn na lâmina gasta e brilhante.

Cegamente. Carrie deu um passo lento em frente.

- Eu vim aqui para matá-la, mãe.E encontro você esperando para me liquidar. Mãe. Eu. . . não esta certo... mãe. Não...

- Vamos rezar - disse a mãe calmamente. Seus olhos fixos em Carrie, tinham uma expressão louca de terrível compaixão. A luz do fogo agora estava mais clara dançando na parede como dervixes. - Pela última vez. vamos rezar.

- Oh mãe, me ajude!

Caiu de joelhos, a cabeça baixa, as mãos erguidas em súplica.

A mãe se inclinou e a faca desceu descrevendo um arco brilhante.

Talvez por ter visto com o rabo do olho, Carrie se jogou para tràs, e em vez de lhe penetrar nas costas a faca foi enterrada no ombro até o cabo. Embaraçando as pernas nos pés da cadeira, a mãe caiu sentada.

Ficaram se entreolhando. Um quadro mudo.

O sangue começou a escorrer pelo cabo da faca, pingando no chão.

Falando também com toda calma, Carrie disse:

Mãe, vou lhe dar um presente.

Margaret Whíte tentou se levantar, cambaleou e caiu de joelhos, as mãos apoiadas no chão.

- O que você está fazendo? - crocitou ela com voz rouca.

- Estou visualizando seu coração, mãe - respondeu Carrie. - É mais fácil quando se consegue ver as coisas mentalmente. Seu coração é um músculo vermelho, enorme, O meu bate mais rápido quando uso minhas forças. Mas o seu agora vai bater cada vez mais devagar. Um pouquinho de cada vez.

A mãe tentou se erguer novamente; não conseguiu. Cruzou os dedos para conjurar o mau olhado da filha.

- Um pouco mais devagar, mãe. Sabe qual é o presente. mãe? Uma coisa que você sempre quis. As trevas com o Deus que nelas habita.

Pai nôsso, que estais no céu... - murmurou a mãe

- Mais devagar, mãe. Mais devagar.

- . . . santificado seja O Teu nome. . .

- Vejo o sangue parando de circular. Mais devagar.

- . . venha a nós o Teu reino. . .

- Seus pés e mãos já estão frios como mármore, como alabastro. Brancos.

- . . . seja feita a Tua Vontade. . .

- A minha, mãe, Mais devagar.

- . . . assim na terra. . .

- Mais devagar.

- ... . como. . . como...como...

 

Caiu para a frente, torcendo as mãos.

- .. . como no céu.

- Ponto final - murmurou Carrie.

Olhou para si mesma e, debilitada, segurou o cabo da faca com ambas as mãos. Foi acometida de náusea e tontura. Sentia o gosto de sangue, vivo e liso no fundo da garganta. Uma fumaça acre e sufocante estava entrando pela janela. As chamas tinham atingido a casa vizinha. Já agora as centelhas deviam estar caindo macias sobre o telhado, que há mil anos fora brutalmente vazado por pedras.

Carne saiu pela porta dos fundos, foi cambaleando pelo gramado, indo encostar-se

(onde está minha mãe)

contra uma árvore. Ainda tinha que fazer alguma coisa. Alguma coisa relacionada com

(motéis estacionamentos)

o Anjo com sua Espada. A Espada de Fogo. Não importava. Logo se lembraria.

Atravessando quintais chegou à Willow Street. e depois subiu a rampa de quatro, até a Route 6.

Era lhl5min da manhã.

Às 23h2Omin Christine Hargensen e Billy Nolan estavam de volta ao The Cavalier. Subiram pela escadaria dos fundos, desceram o corredor, e antes mesmo que ela pudesse acender a luz, já ele dava violentos puxões em sua blusa.

- Pelo amor de Deus, deixa que eu desabotoo...

- Ora, vá pro inferno.

Com um arranco rasgou a blusa ao meio nas costas. A fazenda cedeu com um ruído áspero. A música de espelunca subia vagamente até eles, e o prédio vibrava ligeiramente com a dança rústica e entusiasmada dos camponeses, choferes de caminhão, operários de fábrica, garçonetes e cabeleleiras, dos trabalhadores de oficinas e suas namoradas da cidade, de Westover e Lewinston.

- Ei!

- Cale a boca!

Ele lhe deu uma bofetada que a cabeça lhe voou para trás. Seus olhos ficaram de um brilho frio, mortal.

- isto é o fim, Billy. - Recuou, os seios inflando dentro do sutiã, o ventre latejando, as pernas compridas se esticando dentro das calças americanas. la recuando em direção à cama. - Acabou-se.

- Claro - disse ele. Quis agarrá-la, mas ela lhe deu um murro. Uma bofetada surpreendentemente violenta acertou-lhe o rosto.

Ele se aprumou, encolhendo ligeiramente a cabeça.

- Sua cachorra, você me largou a mão!

- E largo de novo.

- É o que eu quero ver, sua desgraçada.

Avançaram um para o outro, ofegantes, os olhos faiscando Ele começou a desabotoar a camisa, um leve sorriso de escárnio nos lábios.

- Isso, Charlie. Isso mesmo. - Ele a chamava de Charlie toda vez que estava satisfeito com ela. Parece, pensou ela com um olhar frio e divertido, um termo genérico para boa xoxota.

Sentiu um sorriso se esboçar em seus lábios, relaxou um pouco e foi ai que ele lhe deu uma chicotada no rosto com a camisa, acercando-se dela meio abaixado, dando-lhe uma marrada no estômago como se fosse bode, jogando-a para cima da cama. As molas gemeram. Em vão começou a lhe esmurrar as costas.

- Sai de cima de mim! Sai de cima de mim! Sai de cima de mmi, seu porco sebento de uma figa!

Sorria cinicamente e com um arranco rebentou o fecho de sua calça, deixando sua barriga à mostra.

- Anda, chama seu pai - grunhiu ele. - Não é isto que você faz? Hein? Ë, não é, queridinha? Chama o teu velho, e advogadão com faro de cão de caça. Vai! Eu teria feito a mesma coisa com você também. você sabe disto. Teria emborcado tudo sobre esta sua merda de crânio. Sabia? Hein? Sangue de porco para porcos, não é? Bem em cima deste puto de Crânio Sua...

De repente eIa parou de resistir. Ele fez uma pausa, olhou para ela e viu um estranho sorriso em seu rosto.

- Era isto mesmo que você queria O tempo todo, não é? Sua miserável, vagabunda. Confessa, não é? Seu prodigiozinho rastejante.

Sorria, um sorriso parado de louco.

- Não faz mal.

- Não - respondeu ela: - Não faz mal não. - De repente seu sorriso desapareceu, os tendões em seu pescoço se retesaram, ela pigarreou e.. . cuspiu-lhe na cara.

E mergulharam em roxa espancante inconsciência. Lá embaixo a música continuava batendo surda, resfolegando (I’m poppin little white pills on my eye’s are open wide/ Six days on use røad, and l’mgonna make it home tonight -Estou estalando pequenas pílulas brancas e meus olhos estão abertos, bem abertos/ Seis dias na estrada, mas vou conseguir chegar em casa esta noite) aos brados, a todo volume, horrível, um conjunto de cinco, todos de camisas de cowboy enfeitadas de lantejoulas, calças americanas novas apertadas, cravadas de tachas brilhantes, de vez em quando enxugando o suor da testa; guitarras, metais, tambores, ritmo: ninguém ouviu o alarme da cidade, nem a primeira explosão e nem a segunda. Quando a rede de gás explodiu, e a música parou, um carro entrou no estacionamento e alguém gritou a notícia; Chris e BiIly dormiam calmamente.

 

Chris acordou de repente e o relógio de cabeceira marcava cinco para uma da madrugada. Alguém esmurrava a porta.

- Billy! - berrava a voz. - Anda, levanta!

Billy se mexeu, virou do lado, derrubou o despertador ordinário.

- Ora, raios! - disse ele grosseiramente e sentou-se na cama. Suas costas ardiam. Aquela cachorra cobrira-o de arranhões. Na hora mal notara, mas agora ela ia ver, iria mandá-lade volta para casa de pernas tortas, para lhe mostrar quem era o...

Silêncio. Silêncio impressionante. The Cavalier só fechava às duas da manhã. Na verdade ele ainda via as lúzes de néon piscando e tremeluzindo pela empoeirada janela da ãgua-furtada. A não ser pelas batidas constantes.

(alguma coisa estava acontecendo)

o local parecia um cerniterio.

- Billy, você está aí dentro? Hei!

- Quem é? - sussurrou Chris, os olhos brilhantes. vigilantes, em meio as luzes intermitentes.

- Jackie Talbot - respondeu ele distraído; depois levantou a voz: - Que é?

- Deixa eu entrar, BiIly. Tenho que falar com você!

Billy levantou e foi nu até a porta. Levantou o gancho antiquado e abriu-a.

Jackie Talbot irrompeu porta a dentro. O olhar desvairado. O rosto sujo de fuligem. Estivera bebendo com Steve e Henry. quando veio a notícia às dez para meia-noite. Voltaram para a cidade no velho Dodge conversível de Henry, e do alto de Brickyard HilI viram a rede de gás em Jackson Avenue explodir. Quando Jackie tomou o Dodge emprestado e voltou para a cidade às 1 2h3Ontin, esta era uma ruína apavorante.

- Chamberlain está sendo devorada pelo fogo - disse ele a BilIy. - A merda da cidade inteirinha. A escola desapareceu. West End explodiu. . . gás. A Carlin Street está ardendo. E estão. dizendo que foi Carrie White!

- Meu Deus - disse Chrís. Saltou da cama, tateando à procura de sua roupa. - Que foi...

- Cala a boca - disse Billy serenamente - ou levas um chute no traseiro. - Olhou de novo para Jackie e lhe fez sinal para continuar.

- Viram ela. Uma porção de gente viu. Dizem que esta toda lambuzada de sangue, BiIly. Ela estava na droga daquele baile esta noite... Steve e Henry não ligaram os fatos... mas BiIly, você... o sangue daqueles porcos... será que foi...

- Foi - disse Billy.

- Oh, não! Pelo amor de Deus! - Jackie caiu para. trás segurando-se na moldura da porta. À luz daquela única lâmpada do corredor, seu rosto estava de um amarelo doentio. - Pelo amor de Deus, Billy, a cidade inteira...

- Carrie causou estragos na cidade inteira? Carrie White? Você está com bosta na cabeça - disse ele com toda calma, quase com serenidade. Atrás dele, Chris se vestia rapidamente.

- Vai até lá! Dá uma olhada pela janela - disse Jackie.

BiiIy obedeceu. Todo o horizonte a leste da cidade estava rubro, e o céu incandescente. Enquanto ele olhava, três carros de bombeiros passaram de sirene ligada. À luz das lâmpadas que marcavam o estacionamento do The Cavalier, conseguiu ler os nomes.

- Filho da puta - disse ele. - Aqueles carros vêm de Brunswick.

-.Brunswick? - perguntou Chris. - Isto fica a sessenta quilômetros daqui. Não pode ser...

- Muito bem. O que aconteceu? - disse Billy virando-se para Jackie Talbot.

Jackie sacudiu a cabeça.

- Ninguém sabe por enquanto. Começou na escola. Carrie e Tommy foram Rei e Rainha, aí alguém derramou uns baldes dc sangue em cima deles e ela saiu correndo. Depois a escola pegou fogo, e dizem que ninguém conseguiu sair. Depois o posto de Teddy Amoco explodiu, e o posto de óleo na Summer Street. . .

 

- Citgo - corrigiu Billy - aquilo se chama de Citgo.

- Ora, merda, que me importa o nome! - gritou Jackie. - Era ela. Em todo lugar que acontecia qualquer coisa, era ela! E aqueles baldes... nenhum de nós usava luvas...

- Eu me encarrego disto - disse BilIy.

- Você não está entendendo, Billy. Carrie está...

- Saia daqui.

- Billy...

- Sai logo antes que eu te arranque o braço e faça você engolir.

Cauteloso, Jackie foi saindo de costas.

- Vá para casa. Não fale com ninguém. Eu me encarrego de tudo.

- Está bem, Billy. Está bem. Eu só pensei que...

BilIy bateu a porta.

No mesmo instante Chris avançou para ele.

- Billy, que vamos fazer? Carrie, aquela cachorra, meu Deus, que vamos...

Com toda a força de seu braço, Billy lhe deu um tapa e a derrubou no chão. Atordoada, Chris ficou esticada um momento, depois levou as mãos ao rosto e começou a soluçar.

Billy vestiu as calças, a camisa de malha, as botas. Foi até o lavatório lascado, no canto, acendeu a luz, molhou a cabeça, e começou a se pentear, inclinando-se para poder se ver no velho espelho manchado. Atrás de si, viu a imagem distorcida, ondulada, de Chris Hargensen, sentada no chão limpando o sangue do beiço rachado,

- Sabe o que vamos fazer? - perguntou. - Vamos a cidade olhar o incêndio. Depois voltamos para casa. Você vai contar a seu querido papaizinho que estivemos tomando cerveja no The Cavalier na hora em que tudo começou. Eu vou contar a mesma coisa a minha velha. Tá?

- E suas impressões digitais. Billy? - lembrou ela. A voz abafada, porém, respeitosa.

- As impressões deles, isto sim. Eu estava de luvas.

- Você acha que eles vão contar? Se os políciais os pegarem e interrogar..

- Claro - disse ele. - Contariam sim.

As ondas e redemoinhos estavam quase todos alisados. Brilhavam na luz fosca do globo salpicado de sujo de mosca, como turbilhão em águas profundas. Seu rosto estava calmo, descansado. O pente que ele usava era todo velho, colento de graxa. Seu pai lhe havia dado de presente quando fizera onze anos, e nem um dente estava quebrado. Nem um único.

- Talvez eles achem os baldes - disse ele. Se acharem. é possível que o fogo tenha apagado as impressões digitais. Não sei. Mas se Doyle pegar um deles, eu me mando pra Califórnia Você faz o que quiser.

- Você me leva junto? - perguntou ela, olhando para ele lá do chão, o lábio inchado como o de um negróide, os olhos suplicantes.

-Talvez - sorriu ele, sabendo que não levaria, Agora não. - Vamos lá. Vamos até a cidade.

Desceram, atravessaram o salão de dança deserto, onde as cadeiras ainda estavam fora do lugar, as garrafas de cerveja espalhadas pelas mesas.

Ao passarem pela porta de emergência, Billy disse:

- Isto aqui é uma decepção, de qualquer maneira.

Entraram no carro, e ele 1igou o motor. Quando acendeu os faróis, Chris começou a gritar, as mãos em punho apertando as faces.

Billy sentiu a mesma coisa: algo em sua mente,

(carrie carrie carrie)

uma presença.

Em pé, a pouco mais de vinte metros a frente, estava Carrie.

A luz das altas lâmpadas a destacavam em horrendo preto e branco de filme de terror, grudenta de sangue, pingando, por seu aspecto principalmente. O cabo da faca de aço ainda aparecia projetando-se do seu ombro, seu vestido sujo de terra, manchado. Viera se arrastando grande parte distância desde a Carlin Street, quase desfalecendo, para destruir este motel - talvez precisamente aquele onde tivera a desgraça de sua criação.

Ficou em pé cambaleando, os braços abertos como hipnotizador de palco, e veio avançando trôpega.

Tudo se passou numa fração de segundo. Chris não teve nem tempo de terminar seu primeiro grito. Billy tinha reflexos, sua reação foi instantânea. Calcou rápido a embreagem, engrenou uma primeira e baixou o pé.

Os pneus do Chevrolet cantaram no asfalto, o carro deu um salto para a frente,

avançando como ávido, terrível engolidor de gente. O vulto diante do pára-brisa foi aumentando, sua presença foi se tornando cada vez mais audível;

(CARRIE CARRIE CARRIE)

soava cada vez mais alto

(CARRIE CARRIE CARRIE)

como um rádio que ia sendo aumentado até o volume máximo. O tempo parecia se restringir em torno deles, reduzir-se, e por um instante ficaram gelados, paralisados até em seus movimentos: Billy

(CARRIE como os cachorros CARRIE igual aos chorros desgraçados CARRIE queria

que CARRIE fosse você CARRIE)

e Chris.

(CARRIE santo deus não mata não CARRIE não queria matá-la CARRIE billy não

CARRIE quero CARRIE ver CAR) e a própria Carrie.

(olha a roda a roda do carro acelerador roda estou vendo a RODA oh deus meu

coração meu coração meu coração)

E de repente Billy sentiu o carro traí-lo, tomar vida, usar em suas mãos. O Chevrolet

rodou sulcando o chão em semicírculo, arrancando fumaça, o cano de descarga aos estouros. E a fachada do The Cavalier, revestida de madeira, foi aumentando, aumentando, aumentando

(é isto)

e foram se chocar, a sessenta por hora, acelerando ainda. Madeira espirrou para todos os lados, numa detonação matizada de néon. Billy foi jogado para a frente e atravessado pelo volante. Chris, arremessada contra o painel.

O tanque de gasolina estourou e o combustível começou a empoçar debaixo da traseira do carro. Um pedaço do cano de descarga caiu dentro, e o líquido abriu-se em chamas.

Deitada de lado, os olhos fechados, Carrie resfolegava. Seu peito ardia em fogo.

Começou a se arrastar pelo estacionamento, sem destino algum.

(desculpe mãe deu tudo errado oh mãe por favor eu dói tanto mãe o que é que eu faço)

Agora já nada mais parecia importar, nada mais importaria se ela pudesse se virar, virar de costas para ver as estrelas, virar, dar uma olhada e morrer.

Foi assim que Sue a encontrou às duas da manhã.

 

Depois de falar com o xerife Doyle, Sue foi descendo a rua e sentou nas escadas da tinturaria de Chamberlain. Ficou olhando fixo para o céu em fogo. sem vê-lo. Tommy estava morto. Sabia que era verdade e aceitou o fato com terrível tranqüilidade.

E só por culpa de Carne.

Não tinha a menor idéia como sabia disto, mas sua convicção era pura e certa como a

matemática.

O tempo passava. Que importava... Macbeth havia assassinado o sono, e Carrie o tempo. Excelente. Boa imagem.

Sue sorria triste. Seria este o fim de nossa heroína, da pequena Miss Doçura Dezesseis? Acabaram-se as preocupações com o Country Club, com os bairros chiques. Nunca mais. Foram-se. O fogo as levara. Alguém passou correndo, dizendo que a Carlin Street estava pegando fogo. Bem feito. Tommy se fora.

E Carrie tinha ido para casa matar a mãe.

(??????????)

Aprumou-se, os olhos fixos na escuridão.

(??????????)

Não podia explicar como sabia. Não tinha nenhuma relação com coisa alguma que ja lera sobre telepatia. Não visualisava nada, não sentia grandes lampejos de revelação, apenas a certeza prosaíca. Assim como se sabe que depois da primavera vem o verão, que câncer pode rnatar, que a mãe de Carrie já estava morta neste momento que. . .

(!!!!!)

O Coração apertava-lhe o peito. Morta. Examinou a certeza deste incidente, tentando desprezar a misteriosa insistência do conhecer pelo nada.

Sim, Margaret White estava morta. Qualquer coisa de coração. Mas antes havia apunhalado Carrie. Carrie estava gravemente ferida. Estava...

E nada mais,

Levantou-se e correu de volta para o carro de sua mãe. Dez minutos mais tarde parava na esquina da Branch com a Carlin Street que estava em fogo. Não havia mais carros para combater as chamas, mas haviam armado cavaletes em ambas as extremidades da rua, e lanternas de estrada, latas de luz oleosa e enfumaçada iluminavam um letreiro que dizia:

 

PERIGO FIOS DE ALTA TENSÃO!

 

Sue atravessou dois quintais, passou através de uma sebe em flor que a arranhou com seus espinhos duros e curtos. Saiu em um quintal antes da casa dos White e atravessou a rua.

A casa estava em chamas, o telhado ardendo, Não se podia nem pensar em chegar perto para olhar para dentro. Porém na violenta luz do fogo viu algo melhor; a trilha salpicada pelo sangue de Carrie. Seguia de cabeça baixa; passou pelas manchas maiores onde Carrie havia descansado, atravessou outra sebe, outro quintal da Willow Street, e depois um emaranhado pouco desenvolvido de raquíticos arbustos de carvalhos e pinheiros. Logo além uma vereda curta, não calçada - pouco mais larga que uma trilha - subia em ziguezague para a direita, afastando-se em ângulo da Route 6.

Parou de repente, assaltada por uma dúvida violenta, corroedora. E se ela a encontrasse? Que faria? Morreria do coração? Seria incendiada? Controlada e obrigada a caminhar de encontro a um carro ou corpo de bombeiros? Seu conhecimento peculiar lhe dizia que Carrie seria capaz de tudo.

(procure um policial)

Esta idéia lhe provocou um risinho. Sentou-se no gramadø acetinado de orvalho, Ela já havia procurado um policial. E mesmo que Otis Doyle tivesse acreditado nela, e dai? Viu na imaginação uma centena de caçadores de cabeça desesperados rodeando Carrie, exigindo que ela depusesse as armas e se entregasse. Obediente, Carrie levanta as mãos, arranca a cabeça dos ombros. entrega-a ao xerife Doyle. que solenemente a coloca num cesto de vime marcado SAIDA DE PESSOAS-A

(e tommy está morto)

Muito bem; muito bem. E ela começa a chorar. Cobre o rosto com as mãos e soluça. Uma brisa suave sopra por entre os arbustos de zimbro no alto da colina. Cada vez mais carros de bombeiros passam clamando pela Route 6, como enormes cães de caça vermelhos,varando a noite.

(a cidade está queimando toda meu deus)

Não tinha a menor idéia de quanto tempo ficou sentada lá, chorando num áspero semitorpor. Não tinha nem consciência de que estava seguindo Carrie em sua marcha em direção ao The Cavalier. Era tão natural quanto o processo de respiração do qual só se lembrava quando pensava nele. Carrie estava gravemente ferida, e a esta altura só resistiu por uma tremenda obstinação. Até o The Cavalier eram quase cinco quilômetros, mesmo cortando caminho como Carrie fazia agora. Sue,

(viu? pensou? não importa)

 

como Carrie, caiu num regato e, arrastando-se, coseguiu sair de novo gelada, tremendo. Era espantoso que ela ainda prosseguisse. Evidentemente fazia-o pela mãe. A mãe queria que ela fosse a Espada de Fogo do Anjo. que ela destruísse.

(e vai destruir isto também)

Sue ergueu-se, e muito desajeitada começou a correr sem atentar para a trilha de sangue. Já não precisava mais seguí-la.

 

Do livro: The Shadow Exploded (páginas l64-65):

Seja qual for nossa opinião sobre o caso Carrie White, ele passou. Ë hora de nos voltarmos para o futuro. Como ressalta o Reitor McGuffin, em seu excelente artigo no Science Yearbook, se nos recusarmos a fazê-lo é quase certo termos que pagar pelas conseqüências - e o preço não será nada baixo.

Chegamos então a um problema moral tormentoso. Já esta em progresso o completo isolamento do gene TC. É um ponto mais ou menos. tácito entre o mundo científico (vejam por exemplo o livro de Bourke e Hannegan, A View Toward lsolation of the TC Gene with Specific Recommendatíons for Control Parameters - Um Parecer em Relação ao isolamento do Gene TC com Recomendação Especial para Parâmetros de Controle - do Microbiology ,Annual, Berkeley. 1982) que. depois de aprovado o funcionamento de um teste, todas as crianças em idade escolar se submeterão a ele tão rotineiramente como ao teste contra a tuberculose. No entanto TC não é um germe, é uma parte tão intrínseca da pessoa por ele afetada como é a cor de seus olhos.

Se ficar comprovado que a capacidade TC se manifesta durante a puberdade, e se aplicarmos este hipotético teste TC numa criança ao entrar no ginásio, ficaremos certamente prevenidos. Mas neste caso prevenir será melhor que remediar? E remedíar como? Se um teste TB der resulta$dos positivos, a criança poderá ser tratada ou até mesmo isolada. Se no entanto o teste TC der resultado positivo, só resta meter uma bala na cabeça. Pois como seria possível isolar uma pessoa com força capaz de derrubar qualquer parede?

E, mesmo que se pudesse conseguir isolá-la, será que a índole do povo americano permitiria que uma criança, uma linda menininha fosse arrancada da casa paterna já primeiros sinais de puberdade, para ficar trancada num calabouço para o resto da vida? Duvido. Especialmente quando a Comissão White trabalhou tão arduamente para convencer a opinião pública de que o pesadelo de Chamberlain foi algo de inteiramente inesperado.

Na verdade parecemos ter voltado à estaca zero.

 

Do depoimento de Susan Snell, prestado sob juramento diante do júri do Estado do Maine (do Relatório da Comissão White) páginas 306-472:

P.: Muito bem, d. Susan Snell, gostaríamos de fazer uma revisão do seu depoimento em relação ao encontro com Carrie White no estacionamento diante do The Cavalier...

R.: Por que os senhores insistem sempre na mesma pergunta? Eu já lhes contei duas vezes.

P.: Queremos ter a certeza de que o relatório está exato em todos os...

R : Os senhores querem é me pegar numa mentira, não é isto? Os senhores acham que eu não estou dizendo a verdade, não é?

P.: A senhora disse que encontrou Carrie. . .

R.: Os senhores querem me responder, por favor"?

P : ... aproximadamente às duas horas da madrugada de 28 de maio. Correto?

R.: Eu não responderei mais a nenhuma pergunta a não ser que os senhores respondam a que acabei de lhes fazer.

P.: D. Susan Snell, esta junta está autorizada a citá-la judicialmente por contumácia se

a senhora se negar a responder por motivos que não sejam os previstos na Constituição.

R. : E eu lá quero saber o que os senhores estão autorizado)s a fazer. Eu perdi alguém

a quem amava. Podem me levar para a cadeia. Não me importa. Eu. . . eu.. . Ora, Vão pro inferno todos vocês. Vão pro inferno! Os senhores estão é tentando me... me. . . sei lá... crucificar ou coisa que o valha. Me deixem em paz!

 

(Um breve intervalo)

 

P.: D. Susan Snell, a senhora agora está disposta a continuar seu depoimento?

R : Estou, sim. Mas não quero que me atormentem, sr. Presidente.

P.: Evidente que não, minha senhora. Ninguém pretende atormentá-la. A senhora afirma que encontrou Carrie no estacionamento daquela taberna cerca de 2h da manhã. Certo?

R.: Sim.

P.: A senhora sabia as horas.

R.: Estava usando o mesmo relógio que os senhores vêem no meu pulso agora.

P.: Muito bem. Mas não fica o The Cavalier a cerca de dez quilômetros do local onde deixou o carro de sua mãe?

R.: Pela estrada, sim. Em linha reta, são mais ou menos cinco.

P.: E a senhora andou esta distância a pé?

R.: Andei, sim.

P.: Antes a senhora havia declarado que "sabia” que estava se aproximando de Carrie. Pode explicar como?

R.:Não.

P.: Podia sentir-lhe o cheiro?

R.: Não.

P.: Seguiu pelo seu faro?

(Risadas nas galerias)

R.: Os senhores estão de brincadeira comigo?

P.: Responda a pergunta. Por favor.

R.: Não. Não segui pelo meu faro.

P.: Podia vê-la?

R.: Não.

P.: Ouvi-la?

R.: Não.

P.: Então como é que a senhorita podia saber que ela estava por lá?

R.: Como o sabiam Tom Quillan? ou Cora Simard? .Ou o pobre Vic Mooney? Como é que qualquer um deles sabia?

P.: Responda a pergunta, por favor. Isto realmente não é hora nem local para impertinências.

R.:Mas eles disseram que “simplesmente sabiam”, não foi? Eu li o depoimento da sra. Simard no jornal! E o que me dizem os senhores dos hidrantes que se abriram sozinhos? E das bombas de gasolina que arrombaram seus próprios cadeados e se ligaram? Dos cabos de força que desceram dos postes?! E...

P.: Por favor, d. Susan Snell

R.: Isto tudo consta no relatorio do processo desta Comissão.

P.:Isto não vem ao caso aqui.

R. E o que vem então? Os senhores estão procurando saber a verdade ou arranjar apenas um bode expiatório?

P.: A senhora nega, então, ter tido conhecimento do paradeiro de Carrie Whíte.

R.: Claro que sim. E uma idéia absurda.

P.: Ora, e por que é absurda?

R.: Bem, se os senhores estão sugerindo alguma conspiração, é absurdo porque Carrie estava morrendo quando a encontrei. E não era uma maneira fácil de morrer.

P.: Se a senhora não sabia de antemão onde encontrá-la,

como pôde se dirigir diretamente ao local?

R.: Ora, mas que estupidez! Os senhores por acaso prestaram atenção a alguma coisa do que foi dito até agora? Todo mundo sabia que foi Carrie! Qualquer um a teria encontrado se realmente estivesse decidido a fazê-lo.

P.: Mas não foi qualquer um que a encontrou. Foi a senhora. E pode me dizer, por acaso, por que não apareceu gente de tudo que era lado, atraído como limalha para um imã?

R.: Ela estava enfraquecendo rapidamente. Acho que talvez. . . talvez sua área de influência estivesse diminuindo.

P.: Espero que a senhora concorde que esta é uma suposição sobre a qual temos relativamente muito pouca informação.

R.: Evidente que é. No que diz respeito a Carrie White estamos todos relativamente mal informados.

P.: Seja como a senhora quiser, d. Susan. Se pudéssemos agora passar...

 

A princípio, assim que subiu a rampa entre o prado Henry Drain e o estacionamento do The Cavalier, pensou que Carrie estivesse morta. Seu corpo estava a meio caminho do estacionamento, todo encolhido, enrugado. esquisito! Sue lembrou-se de animais mortos que vira na estrada - marmotas. jaguaritacas - esmagadas por velozes tanques e caminhões.

Mas a presença ainda estava em sua mente, vibrando obstinada, repetindo as características da personalidade de Carrie sempre de novo. A essência de Carrie, a gestald. Muda agora. não mais estridente, se anunciando com clarins, mas crescendo e decrescendo em constantes oscilações.

Inconsciente.

Passou por cima da grade de proteção que cercava o estacionamento, sentindo no rosto o calor do fogo. The Cavalier tinha uma estrutura de madeira que estava queimando rapidamente. Os restos carbonizados de um carro se esboçavam por entre as chamas, à esquerda da porta dos fundos. Tinha sido obra de Carrie, portanto. Não foi até lá para ver se ainda tinha alguém dentro. Agora, isto não importava.

Foi até onde Carrie estava deitada de lado, incapaz de ouvir seus passos em meio ao ávido crepitar do fogo. Em perdida e amarga compaixão, olhou para o vulto ali enroscado. O cabo da faca cruelmente fincada em seu ombro ainda lá estava, e Carrie jazia numa poça de sangue. Este também lhe gotejava da boca. Parecia que ela quisera se virar, quando perdeu os sentidos. Com a força de incendiar, de arrancar fios de alta tensão, de matar quase só com a ajuda do pensamento, lá estava ela agora, incapaz até de se virar.

Sue ajoelhou-se, pegou-a por um braço e pelo ombro que não estava ferido, e delicadamente ajudou-a a deitar de costas.

Carrie soltou um gemido rouco, seus olhos piscaram rapidamente. A percepção dela foi se tornando cada vez mais nítida na mente de Sue. como uma imagem mental que aos poucos vai entrando em foco.

(quem está aí)

E Sue, inconscientemente, respondeu da mesma maneira:

(sou eu sue snell)

Só que não precisou pensar em seu nome. A idéia dela como sendo ela mesma não se resumia nem em palavras nem em imagens. Ao constatá-lo, tudo emergiu bem claro e real, e a compaixão aflorou, rompendo o torpor do choque.

E Carrie, em distante e muda censura:

(vocês me enganaram todos vocês me enganaram)

(eu não sei nem o que aconteceu carrie tommy está)

(vocês me enganaram aquilo aconteceu por golpe golpe sujo)

O misto de imagem e emoção era atordoador, indescritível. Sangue. Tristeza. Medo. O golpe baixo mais recente de uma longa série de golpes baixos: passavam como um relâmpago, numa confusão estonteante, fazendo a mente de Sue impotente, desesperançada. Eles compartilhavam da terrível totalidade do conhecimento perfeito.

(carrie não não não me dói)

Agora eram as meninas a jogarem toalhas higiênicas, salmodiando, rindo. O rosto de Sue refletia sua própria mente:feio, caricaturado, todo boca, cruelmente belo.

(veja os golpes sujos veja a minha vida toda um só golpe sujo)

(olhe carrie olhe dentro de mim)

E Carrie olhou.

A sensaçãô foi horrível. Sua mente e seu sistema nervoso eram como uma biblioteca. Alguém a percorria em desesperada procura, os dedos correndo ligeiros pelas prateleiras, tirando alguns livros, examinando-os, devolvendo uns a seus lugares, deixando cair outros, as páginas esvoaçando desordenadamente

(relances isto sou eu em criança detesto ele pai oh mãe lábios imensos ai os dentes bobby me empurrou ai meu joelho carro quero andar de carro vamos visitar tia cecily mãe vem aqui depressa eu fiz pipi)

no vento da memória. E continuando sempre até encontrar uma prateleira escrita TOMMY, com o subtítulo BAILE. Livros abertos; instantes de experiências, anotações à margem em todos os hieróglifos das emoções, mais complexos do que a Pedra da Roseta.

Olhando. Encontrando mais do que a própria Sue esperava - amor por Tommy, ciúme, egoísmo, a necessidade de subjugá-la à sua vontade, levando Carrie à festa, aversão à própria Carrie,

(ela bem que poderia se cuidar melhor ela realmente tem cara de SAPO DESGRAÇADO)

ódio de Miss Desjardín, ódio dela mesma.

Mas nenhuma má vontade para com Carrie, nenhum plano de arrasá-la na frente de todos.

A sensação febril de ser violada em seus mais secretos corredores começou a desfazer-

se. Sentiu Carne retroceder, fraca, exausta.

(por que vocês não me deixaram em paz)

(carrie eu)

(a mãe agora estaria viva eu matei minha mãe eu quero minha mãe dói tanto meu peito dói meu ombro eu quero minha mãe)

(carrie eu)

E não havia como completar aquele pensamento; não havia nada para completá-lo. Sue de repente sentiu-se esmagada pelo terror, ainda mais por não conseguir entender por quê: aquele ser fantástico sangrando ali no asfalto manchado de óléo, de repente lhe pareceu insignificante, horrível em sua dor e morte.

(oh mãe estou com medo mãe MÃE)

Sue tentou afastar-se, desligar-se, deixar a Carrie ao menos a intimidade de sua morte, mas não conseguiu. Sentiu que ela mesma estava morrendo e não queria ver antecipadamente a visão de seu próprio fim eventual.

(carrie deixe eu IR)

(Maaaaãe Maaaaãe Maaaaãe 0000oooooh 0000000H)

O grito mental chegou a um crescendo deslumbrante, incrível e de repente emudeceu.

Por um instante Sue teve a sensação de estar observando a chama de uma vela desaparecer por um longo túnel escuro, em tremenda velocidade.

(ela está morrendo meu deus estou sentindo ela morrer)

Depois a luz se apagou. O último pensamento consciente tinha sido

(desculpe mãe onde)

que foi interrompido e Sue ficou sintonizada apenas na freqüência estúpida e vazia das extremidades físicas de nervos que levariam horas ainda até morrer.

Saiu cambaleando, os braços esticados em frente como cega. seguindo até a extremidade do estacionamento. Tropeçou por cima da baixa grade de proteção, e caiu rampa abaixo. Ergueu-se e continuou trôpega pelo campo que estava se cobrindo com mística camada branca de neblina baixa. Grilos cricrilavam esquecidos e uma coruja

(coruja alguém está morrendo)

piava no grande silêncio da noite.

Começou a correr, respirando fundo, fugindo de Tommy, do incêndio, das explosões, de Carrie, mas principalmente do horror final - desta idéia, a última a se acender e que ia terminar rápida no túnel negro da eternidade, seguida pelo zumbido vazio e estúpido da prosaica eletricidade.

Relutando, a imagem ulterior começou a desfazer-se, deixando em sua mente uma abençoada e suave escuridão, que tudo desconhecia. Afrouxou a corrida, parou, consciente de que alguma coisa começara a acontecer. Em pé, em meio ao vasto campo coberto de neblina, esperava a realização.

Sua rápida respiração foi diminuindo, diminuindo, prendeu-a de repente como se um espinho...

E depois soltou-a num grito gemido, enganador.

Em lento fluxo, o negro sangue menstrual desceu-lhe pelas pernas.

 

PARTE III

 

ecos e escombros MERCY HOSPITAL - WESTOWER / ATESTADO DE ÓBITO Nome White Carríetta

(sobrenome) (prenome)

 

Residência Carlin Street, 47

Chamberlain, Maine 02249

Sala de Emergência Nao Ambulância 16

x

Tratamento ministrado nenhum. Entrada no x

hospital morto vivo

 

Data de falecimento 28-5-1979 (2hs aprox.)

 

Causa mortis Hemorragia, choque, oclusão coronária e/ou trombose coronária

 

Pessoa que identificou o corpo Susan 0. Snell

 

Back Chamberlain Road, 19

 

Chamberlain, Maine 02249

 

Parente mais próximo nenhum

Corpo a ser entregue a Estado do Maine

 

Médico de Plantão . . . . Harold Linekar

 

Patologista ... FM

 

Do teletipo da National AP, sexta-feira. 5 de junho de 1979:

CHAMBERLAIN. MAINE (AP)

 

FONTES OFICIAIS INFORMAM QUE O TOTAI. DE MORTOS EM CHAMBERLAIN SE ELEVA A 409, HAVENDO AINDA 49 DESAPARECIDOS AS 1NVESTIGAÇÔES ACERCA DE CARRIETTA WH1TE E DO CHAMADO FENÔMENO „TC” CONTINUAM EM MEIO A INSISTENTES RUMORES DE QUE UMA AUTÓPSIA REVELOU CERTAS FORMAÇÕES ESTRANHAS EM SEU CEREBRO E CEREBELO. O GOVERNO DO ESTADO NOMEOU UMA COMISSÃO DE MEDALHÕES PARA ESTUDAREMTODA A TRAGÊDIA. FIM. 5 DE JUNHO 0303N AP

 

Do jornal The Lewinuon Daily Sun, domingo, 7 de setembro (página 3):

 

O Legado da TC:

Ressecou a terra e ressecou os corações

 

CHAMBERLAIN - A Noite do Baile agora já passou para a História. Dizem os sábios há séculos que o tempo sara todas as feridas, mas a lesão desta pequena cidade do oeste, no Estado do Maine. talvez seja mortal. As ruas residenciais ainda lá estão a leste da cidade, guardadas por garbosos carvalhos que ali se erguem há mais de duzentos anos. As elegantes casas brancas e as em estilo de rancho na Morin Street e Brickyard Hill ainda continuam primorosas e ilesas. Mas esta Nova Inglaterra bucólica fica à margem de um centro arrasado e enegrecido, e muitas destas casas arrurnadinhas ostentam placas de VENDE-SE nos gramados da frente. As que continuam ocupadas trazem coroas negras nas portas de entrada.

A maior indústria da cidade, a Chamherlain Mills and Weaving (Fábrica e Tecelagem Chamberlain) continua de pé, não atingida pelo fogo que grassou por grande parte da cidade naqueles dois dias de maio. Desde 4 de julho, no entanto, trabalha num só turno, e segundo o presidente William A. Chamblis, maiores dispensas são bem provaveis.

- Temos pedidos - declara Chamblis - mas não é possível fazer uma fábrica funcionar sem gente que marque o ponto. E gente não temos. Recebi pedidos de demissão de trinta e quatro homens, desde 15 de agosto. A única saída é fechar a tinturaria e dar o serviço para fora. Detestamos ter que dispensar esta gente, pois as coisas estão chegando a um ponto

que é questão de sobrevivência financeira.

Roger Fearon vive cm Chamberlain há vinte e dois anos, e trabalha na fábrica há dezoito. Durante este tempo passou de simples ensacador, ganhando setenta e três cents a hora, para chefe de tinturaria. No entanto, a possibilidade de perder o emprego parece afetá-lo muito pouco:

- Perderia um ordenadão - diz Fearon. - Não é coisa que se passe por cima sem mais nem menos. Eu e minha mulher discutimos o assunto. Poderíamos vender a casa - ela vale perfeitamente $20.000 dólares - embora talvez só consigamos apurar menos da metade. Assim mesmo acho que vamos anunciá-la. Não importa. Na verdade não queremos continuar a morar em Chamberlain. Digam o que quiserem, mas a cidade não serve mais para nós.

E não é só Fearon. Também Henry Kelly,. proprietário de uma tabacaria e de um bar e de lojinhas de refrescos chamada Kelly Fruits, arrasada na Noite do Baile, não tem nenhuni plano para reconstruí-la:

- A garotada foi-se - diz ele dando de ombros. - Se eu abrisse novamente, haveria fantasmas demais pelos cantos. Vou pegar o dinheiro do seguro e ir viver em S. Petersburgo.

Uma semana depois que o ciclone de 54 abriu seu caminho de morte e destruição através de Worcester. o ar estava impregnado do cheiro de madeira verde, vibrava com marteladas, com uma sensação de otimismo e animação. Não se sente nada disto neste outono em Chamberlain. A rua principal foi desobstruida, o entulho retirado, mas foi só. Os rostos que passam são tristes, desesperançados. No Frank"s Bar, na esquina da Suílivan Street, os homens tomam sua cerveja em silêncio. Nos fundos dos quintais, as mulheres contam estórias de morte e dor, Chamberlain foi declarada zona de calamídade, e o dinheiro para ajudar a reerguer a cidade e começar a reconstrução das zonas de comércio existe.

Mas a principal ocupação em Chamberlain nos últimos quatro meses foram os funerais. Sabe-se agora que quatrocentos e quarenta pessoas morreram e que dezoito ainda estão desaparecidas. Sessenta e sete dos mortos eram estudantes da Ewen High School. nas vésperas de sua formatura. Talvez seja isto, mais do que qualquer outra coisa, que tenha tirado o ânimo de Chamberlain.

Foram todos enterrados em l e 2 de junho em três cerimônias-monstro. No dia 3 de junho, na praça da cidadc, foi ofíciado um serviço religioso em sua memória. Foi a cerimônia mais comovente que este repórter já presenciou. Havia milhares de assistentes, e toda aquela rnultidão emudeceu quando a banda de música da escola, reduzida de cinqüenta e seis a apenas quarenta, tocou o hino da escola.

Na semana seguinte, houve uma sombria cerimônia de formatura na Academia vizinha de Motton, porém restavan apenas cinqüenta e dois formandos. O orador da turma, Henry Stampel, irrompeu em lágrimas no meio do discurso, e não conseguiu continuar. Não houve festas; os formandos receberam seu certificado e foram para casa.

O verão avançava, mas mesmo assim os rabecões continuavam a passar, pois mais corpos ainda continuavam a ser descobertos. Parecia a alguns moradores como se a casca fosse arrancada sempre de novo, para que a ferida pudesse sangrar mais uma vez.

E se você for um dos muitos que percorreram Chamberlain na última semana à procura de curiosidades, deve ter encontrado uma cidade no estágio mais avançado de câncer do espírito. Algumas poucas pessoas, de olhar perdido, vagueiam pelos corredores da .A & P. A Igreja Congregacional desapareceu consumida pelo fogo, mas a católica, de tijolos, continua de pé na Elm Street, e a metodista ficou intacta em sua elegância, no final da Main Street, embora chamuscada pelo fogo. A freqüência no entanto é muito pobre. Os velhos continuam sentados na praça do Palácio da Justiça, mas seu interesse no jogo de damas ou mesmo em conversas é mínimo.

A impressão geral é de uma cidade a espera da morte. Não seria exato dizer agora que Chamberlain nunca mais será a mesma. Seria mais correto dizer que Chamberlain nunca mais será nada.

 

Extrato de uma carta datada de nove de junho, do Diretor Henry Grayle a Peter Philpott. Superintendente Geral das Escolas:

-- . . . e por isso acho que não posso mais continuar com meu cargo, já que sinto que a tragédia toda poderia ter sido evitada se eu tivesse tido uma previsão maior. Espero que o senhor aceite meu pedido de demissão a contar de 1 de julho, e que não haja inconveniente para o senhor nem para sua equipe...

 

Extrato de uma carta datada de doze de junho. de Rita Desjardin, instrutora de educação física, ao diretor Henry Grayle:

- . . . peço assim a rescisão de meu contrato. Sinto que preferia me suicidar a voltar a dar aulas novamente. Tarde da noite, fico pensando: se ao menos tivesse segurado aquela garota, se ao menos, se ao menos...

 

Encontrado pintado no gramado do terreno onde se erguera o bangalô dos White:

 

CARRIE WHITE ARDE POR SEUS PECADOS CRISTO NUNCA FRACASSOU

 

Extraído de Telekineses: Analysis and Aftermath (A Telecinética: Análise e Conseqüências) - Science Yearbook, 1981, de autoria do reitor D. L. McDuffin:

Concluindo, gostaria de chamar atenção para o grave risco que as autoridades estão assumindo, enterrando o caso Carrie White sob uma capa de burocracia - estou me referindo especificamente à chamada Comissão White. O desejo entre os políticos de considerar a TC como um fenômeno que ocorre uma vez na vida parece ser muito forte. E embora isto possa ser compreensível não é aceitável. Geneticamente falando, a possibilidade de recorrência é de 99 por cento. Está na hora pois de planejarmos para o que poderá vir...

 

De Slang Terms Explained. A Parent’s Guide (Termos de Gíria Explicados. Um Guia para os Pais), por John R. Coombs - New York: The Lighthouse Press, 1985 - página 73:

To ríp off a Carrie (dar uma de Carrie) - Causar violência ou destruição; mutilação;

confusão; (2) provocar incêndio (de Carrie White, 1963-1979).

 

Do livro: Tire Shadow Exploded (A Sombra Explodiu) - página 201:

Em alguma parte deste livro foi mencionada uma página de um caderno de Carrie White, onde estava escrito repetidas vezes, como em desespero, um verso de Bob Dylan, famoso poeta de rock da década dos 60.

Talvez não seja inoportuno encerrar este livro com os versos de uma Canção do mesmo poeta, versos estes que poderam servir de epitáfio para Carrie

I wish a could write you a melody so plain / That would save vou, dear lady, from being insane / That would ease you and cool you and cease the pain / Of your and pointless knowledge. . .

(Gostaria de poder escrever uma canção tão sincera e leal / Capaz de evitar, prezada senhora, a sua loucura / Que a tranqüilizasse e acalmasse, e fizesse cessar a dor / De inútil, despropositado saber).

 

Do livro: My Name is Susan Snell (Eu Me Chamo Susan SnelI) página 98:

Este livrinho está agora terminado. Espero que venda bem pra que eu possa ir a um lugar qualquer onde ninguém me conheça. Gostaria de refletir sobre as coisas, de decidir o que fazer entre o agora e a hora em que minha luz for carregada pelo longo túnel para a escuridão..

 

Da conclusão do júri do Estado do Maine, em relação aos acontecimentos de 27 a 28 de maio em Chamberlain, Maine:

... e assim somos forçados a concluir que não vemos razão para acreditar que uma recorrência seja provável, nem possível, uma vez que a autópsia realizada na vítima revela apenas algumas modificações celulares que poderiam indicar a presença de um ligeiro poder paranormal...

 

Extrato de uma carta datada de 3 de maio de 1988, de Amélia Jenks, Royal Knob, Estado de Tennessee, para Sandra Jenks, Macon, Estado de Georgia: ... e sua piquena subrinha está crescendo que nem mato,enorme pra dois anos. Tem olhos azues que nem o pai e meus cabelo louro que tarvês mais tarde escureçam. Mesmo acim é um bucado bonitinha & as vezes quando esta durmindo, fico olhando e achando ela tão parecida com a nossa mãe.

Otro dia enquanto brincava na terra ao lado da casa, dei uma ispiada e vi a coisa mais ingraçada. Annie estava brincando com as bola de gudi do irmão, so que elas se mechiam sozinhas. Annie dava rizadas,e gargalhadas mais eu fiquei meio açustada. Umas bolas subiam & dessiam. Me lembrei da vó. lembra daquela vez que a pulícia veiu atraz de Pete e as espingardas voaram das mãos deles e a vó ria e ria, E ela fazia também a cadeira de balanço andá de lá pra cá sem estar dentro dela. Não gostei nada quando vi aquilo. So ispero que ela num tenha aqueles ataques do coração como a vó, lembra?

Bem, tenho que ir lavar uma rôpa. Lembranças pro Richard e não isquece de mandar umas fotografias quando poder. Mesmo assim nossa Annie é um bucado bunitinha & os olhos dela brilhão como conta. Aposto que um dia ela vai fazer sussesso.

 

Abraçus

Melia.

 

DIGITALIZADOR: DAGON

REVISOR: DAGON

Você terminou Carrie

Stephen King

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