Cavalo de Tróia 1: Jerusalém
30 de março, quinta-feira
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
trigo, era de dois batos israelitas.34 Permanecia sempre hermeticamente fechada
com uma tampa de barro, presa, por sua vez, com cintas de pano.
O teto do aposento, situado a dois metros, era cruzado por seis vigas de
madeira, provavelmente coníferas, muito abundantes nos arredores. Outras partes
da casa com teto, com exceção dos terraços, apresentavam construção menos
sólida. A estrebaria e o depósito de apetrechos agrários, por exemplo, haviam sido
cobertos com material muito combustível: palha misturada com barro e cal. Esse
tipo de teto, segundo me explicou Lázaro, tinha um grande inconveniente. Cada
vez que chovia, era necessário alisá-lo de novo, com a finalidade de consolidar o
material da superfície e evitar as goteiras. Para isso, eram usados pequenos rodos
de pedra, de uns sessenta centímetros de comprimento.
Lázaro e os outros hebreus aproximaram-se do fogo crepitante e sentaram-se
sobre algumas peles de cabra que forravam o piso. Eu fiz o mesmo e me dispus ao
diálogo.
Nesse momento, uma mulher entrou na sala, trazendo na mão esquerda uma
lasca de madeira incandescente. Sem dizer uma única palavra, foi acendendo cada
uma das seis lâmpadas de barro cheias de azeite e penduradas ao longo das
brancas paredes. Depois, apanhou um candelabro, também de argila, acendeu-o e
colocou-o na extremidade da mesa mais próxima do grupo. Feito isso, aproximou-
se da lareira e atirou sobre as brasas o resto da estilha e duas bolotas de aspecto
resinoso. Eram de canafístula – um perfume usado com frequência entre os
hebreus – e exalavam por todo o aposento um aroma suave e duradouro.
De repente, o crepúsculo escureceu aquele histórico recinto.
– Rogamos que desculpes nosso receio – pediu um dos amigos de Lázaro. –
Desde que o sumo sacerdote José ben Caifás e muitos dos archiereis35 do Sinédrio
deliberaram pôr fim à vida do Mestre, todas as nossas precauções são poucas.
– Sabemos que os betusianos e esbirros de Ben Bebay36 – disse outro dos
participantes da reunião – têm ordens de prender Jesus. A festa de Páscoa está
próxima e nossos informantes asseguram que os bastões e porretes da polícia do
Grande Sinédrio estão prontos para cair sobre o rabi. Apenas aguardam a
oportunidade.
– Por quê? – exclamei, mostrando um desejo vivo de compreender. – O Mestre,
segundo tenho entendido, é homem de paz. Nunca fez mal a ninguém...
Lázaro deve ter notado uma vibração especial em minha voz. Aquele foi o
primeiro passo para a abertura definitiva de seu coração.
– Tu és grego – respondeu o ressuscitado, dando a entender que eu ignorava
muitas das circunstâncias que rodeavam o rabino. – Não sei se conheces a profecia
que nosso povo acaricia e contempla desde tempos remotos. Um dia nascerá em
Israel um Messias que tornará os homens livres. Pois bem, a casta sacerdotal crê e
tem feito o povo crer que esse Salvador terá de ser primeiro e, acima de tudo, um
sumo sacerdote.
– O Messias deverá ser membro do Grande Sinédrio?
– Isso é o que eles dizem. Os longos anos de dominação estrangeira têm
fortalecido a esperança nesse Messias, convertendo-o em um chefe político que
liberte Israel do jugo romano. Os sacerdotes sabem que o Mestre prega outro tipo
de “libertação” e o consideram um impostor. Isso seria suficiente para acabar com
a vida de Jesus. Mas não é tudo...
Lázaro continuava a me observar com olhos que uma progressiva e
incontrolável cólera tornava brilhantes.
– Esses “sepulcros caiados”, como o Mestre os chamou, não perdoaram que
Jesus os tenha ridicularizado publicamente. É a primeira vez em muitos anos que
alguém os desmascara e mina sua influência sobre o povo simples. Jesus, com suas
palavras e seus portentos, arrasta as multidões, e isso multiplica a inveja e o
rancor deles. Por isso juraram matá-lo...
– Mas não o conseguirão – exclamou outro dos hebreus.
Interroguei Lázaro com o olhar. Que queriam dizer aquelas palavras
contundentes?
O amigo amado de Jesus mudou de assunto.
– Por favor, desculpa-nos por nossa descortesia. A julgar pelo pó das tuas
sandálias e pela fadiga de teu rosto, deves ter caminhado muito. Suplico-te que,
como nosso irmão, aceites minha hospitalidade.
Aquele brusco desvio na postura de Lázaro confundiu-me. Mas esperei.
O homem abandonou o aposento e poucos minutos depois regressou
acompanhado de uma mulher.
– Marta, minha irmã mais velha – disse Lázaro referindo-se à judia que o
acompanhava –, lavará teus pés...
Meu coração bateu com força. E sem perceber o erro que estava cometendo,
fiquei em pé. O resto do grupo permaneceu sentado. Era tarde demais para
corrigir. Procurei acalmar meus nervos. Não podia recusar o oferecimento de meu
anfitrião. Isso teria sido considerado um insulto ao arraigado senso oriental de
hospitalidade. Assim, colocando minhas mãos sobre os ombros do ressuscitado,
sorri e agradeci sua delicadeza da melhor maneira que pude.
Quase não tive tempo de olhar para Marta, a “senhora” – que é o verdadeiro
significado desse nome. Antes que seu irmão terminasse de falar, ela já tinha
transposto o umbral da sala e sumido no pátio.
Lázaro pediu que eu me sentasse em um dos muitos tamboretes de quatro pés
e assento de vime que rodeavam a mesa. Cinco minutos depois, a figura de Marta
era novamente recortada contra a moldura da porta. Trazia nas mãos um
recipiente de barro, vazio, e de seu antebraço esquerdo pendia um longo lenço
branco. Um menino a seguia com uma jarra de bronze cheia de água.
Como se fosse um hábito dos mais rotineiros, a irmã mais velha de Lázaro
colocou a vasilha a meus pés e enrolou na cintura uma peça que hoje chamaríamos
de toalha. Apressei-me em soltar os cordões de minhas sandálias, enquanto a
mulher esvaziava parte do conteúdo da jarra na vasilha. Ao banhar os pés, senti
uma sensação reconfortante. A água estava quente!
– Obrigado... – murmurei. – Muito obrigado.
Marta ergueu o rosto e sorriu, deixando à mostra um fio de ouro que servia
para fixar alguns dentes postiços. Aquele era outro sinal evidente da situação
abonada da família.
Enquanto Marta lavava meus pés doloridos (as quatro voltas dos cordões
haviam deixado marcas avermelhadas na pele), procurei observá-la detidamente.
Sem dúvida, Marta era mais velha do que Lázaro. Aparentava ter entre 45 e 50
anos, ainda que sua verdadeira idade, como fiquei sabendo depois, rondasse os 36
ou 37 anos. Suas mãos, robustas e calosas, denotavam uma vida de trabalho
intensa e longa. Tinha o talhe muito parecido com o do irmão, com cerca de 1,60
metro de altura, mas era mais gorda e tinha o rosto redondo e curtido. Deduzi que
seus cabelos, que ela trazia cobertos por um véu preto que caía nas costas, deviam
ser negros, como seus olhos e sobrancelhas.
De imediato, olhando-me nos olhos, exclamou:
– Jasão? Conhecemos a um Jasão, faz alguns anos. Tinha a mesma voz que ti...
Sacudindo a cabeça, pareceu afastar aquela estranha sensação. Acrescentou
para si mesma:
– Mas não é possível. Aquele grego era mais velho que ti.
Uma vez concluída a lavagem, Marta envolveu meus pés no lenço que tirou da
cintura e foi pressionando o tecido suave (provavelmente de algodão) até que
ambos ficaram completamente enxutos. Tomou depois as sandálias e, para minha
surpresa, passou-as ao rapazinho. Fiquei em silêncio, imaginando que a boa mulher
cuidava de limpá-las.
Quando pensava que a operação havia terminado, Marta me pediu que
arregaçasse as mangas da minha túnica. Obedeci, e ela, com extrema delicadeza,
tomou-me as mãos e as colocou sobre a vasilha, espargindo sobre elas o resto da
água da jarra. Mandou então que eu as esfregasse energicamente e, por último, as
enxugou. Nesse instante, a “senhora” da casa, que continuava ajoelhada diante de
mim, apanhou um cordãozinho que trazia no pescoço e tirou do seio uma bolsinha
de pano, cor de azeviche. Abriu-a e despejou o conteúdo sobre a palma da mão
esquerda. Eram pequenos grânulos em forma de lágrima, que cintilavam com a
claridade das candeias. Marta friccionou aquela substância de aspecto “gomo-resinoso” em cada um de meus pés, fez o mesmo com minhas mãos e depois
devolveu o cheiroso produto à bolsinha.
Não pude resistir à curiosidade e lhe perguntei o nome daquele perfume. Era
mirra.
Nos dias que se seguiram à minha saída do módulo, fiquei sabendo que muitas
das mulheres israelitas, em especial as de classe média e alta, traziam sob a
túnica, como Marta, diversas bolsinhas com mirra. Isso lhes proporcionava uma
permanente e agradabilíssima fragrância. Tanto a mirra como o aloés, a erva do
bálsamo e outras resinas aromáticas eram consumidas abundantemente pelo povo
judeu, não só para aromatizar os templos, mas também no asseio pessoal, na
lareira e até no leito.37
Marta e o rapaz abandonaram a sala, e eu, agradecido e aliviado, juntei-me ao
grupo. Lázaro atiçava o fogo. Em minha mente fervilhavam tantas perguntas que
eu não sabia por onde retomar a conversa. Desejava conhecer a doutrina e a
personalidade do Mestre da Galileia, mas também sentia uma aguda curiosidade
por aquele exemplar único: um hebreu devolvido à vida depois de morto e
enterrado. Como não podia desperdiçar aquela memorável oportunidade –
programada, aliás, no esquema de trabalho do general Curtiss –, pedi a meu
amável anfitrião que me tirasse algumas dúvidas a respeito do conhecido milagre
de Jesus. Na qualidade de médico e apesar dos textos evangélicos e dos
numerosos comentários que havia recolhido até aquele momento, era muito difícil
para mim imaginar que aquele homem tivesse sofrido aquilo que conhecemos hoje
como morte clínica e que, ainda por cima, vários dias depois do seu falecimento,
outro “homem” o tivesse resgatado do sepulcro.
– Que desejas conhecer? – perguntou Lázaro, sem deixar de revolver o fogo.
Ainda que correndo o risco de parecer impertinente, expus minha primeira
dúvida de forma astuciosa, com o deliberado propósito de provocar a loquacidade
dos presentes.
– Não pode ter acontecido que tu estivesses apenas dormindo?
Lázaro esqueceu a lareira e, olhando-me com dureza, replicou:
– É melhor que eles respondam a essa pergunta...
Seus amigos ficaram em silêncio. Por um momento cheguei a pensar que havia
forçado a situação. Finalmente, um deles, em tom compreensivo, pegou o fio da
conversa.
– É natural que duvides. Tu, como muitos outros, não estavas aqui quando, nos
últimos dias de fevereiro, nosso irmão Lázaro foi atacado por uma febre intensa.
Apesar dos cuidados de suas irmãs e das prescrições dos sangradores vindos de
Jerusalém, o mal foi se agravando. Sua debilidade chegou a tal ponto que ele não
era capaz de manter uma escudela de leite entre as mãos. Nem sequer o médico
do Templo, Ben Ajia,38 pôde curá-lo. O Mestre não estava na Judeia naquela época;
e a família, diante da gravidade do estado do doente, tomou a decisão de enviar
ao Mestre um mensageiro pedindo que curasse Lázaro. Todavia, poucas horas depois da partida do mensageiro a cavalo, Lázaro estava morto.
– Vós vos recordais da data? – perguntei.
– Como esquecer o dia do falecimento de um amigo? A dor caiu sobre esta casa
nas últimas horas da tarde do dia 5 de março, um domingo.
– Isso quer dizer – interrompi de novo meu interlocutor – que o mensageiro
alcançou Jesus quando Lázaro já havia morrido...
– Sim. O rabi estava, então, na cidade de Bethebara, na Pereia,39 e ainda que o
emissário tivesse cavalgado toda a noite, Jesus só recebeu a notícia no dia
seguinte, segunda-feira.
– Há algo que não entendo. O mensageiro tinha ordem de pedir ao Mestre que
fosse a Betânia?
– Não. As irmãs de Lázaro tinham fé suficiente no rabi para saber que sua
presença não era necessária. Elas sabiam que Jesus estava pregando e que
bastaria uma única palavra sua para curar o irmão delas. Por isso, como Lázaro
morreu pouco depois da partida do mensageiro, todos compreenderam e
reconheceram que era tarde demais.
“O que se tornou realmente incompreensível, até mesmo para Marta e Maria –
prosseguiu o expositor com a voz trêmula pela triste lembrança daqueles
momentos –, foi a resposta de Jesus ao emissário. Quando este regressou a
Betânia, na manhã de terça-feira, disse mais de uma vez que ouvira de Jesus que
‘aquela doença não levava à morte’. Todos, crentes ou não, ficamos
desconcertados. Ninguém conseguia compreender por que Jesus, o grande amigo
da família, não dava sinal de vida.
“Ao saberem da morte de Lázaro, muitos de seus parentes e amigos das
aldeias próximas, assim como de Jerusalém, puseram-se a caminho para
acompanhar as irmãs no triste transe. Cumprida a primeira parte das normas sobre
o luto,40 nosso amigo foi sepultado junto a seus pais, no túmulo da família no
extremo do jardim.”
– Um momento – interrompi de novo. – Lázaro foi enterrado aqui, em sua
própria casa?
– Sim, no panteão de seus antepassados.
Ainda que minha pergunta parecesse sem importância, para mim ela tinha um
valor indubitável. Segundo todos os textos bíblicos por mim consultados antes da
Operação Cavalo de Troia, o sepulcro de Lázaro havia sido localizado pelos
exegetas fora do povoado, mais precisamente na encosta oriental do monte das
Oliveiras. Na manhã seguinte, a meu pedido, a irmã mais velha de Lázaro me
levaria a uma gruta natural que se abria ao pé de um penhasco de uns dez metros
de altura, a pouco mais de quatrocentos metros dos fundos da casa, no fundo de
um frondoso horto que integrava a fazenda. Aquela comprovação desfez minhas
dúvidas e fortaleceu minha primeira impressão sobre a folgada situação econômica
da família, que havia herdado de seus pais vastas áreas de vinhedos e olivais. O
fato indiscutível de disporem até de um panteão familiar dentro da propriedade falava por si só da riqueza dos irmãos.
– Em que dia Lázaro foi sepultado?
– Na quinta-feira, 9 de março, pela manhã. Decorridos os três dias
estabelecidos pela lei, a família e os amigos depositaram os despojos de Lázaro em
um dos leitos de pedra escavados na gruta e fechamos sua entrada com a laje...
Meus informantes referiram-se, a seguir, à difícil situação que as irmãs do
falecido haviam atravessado.
– Apesar dos numerosos amigos e parentes que haviam acorrido para consolá-
las, Maria e a “senhora” estavam consumidas pela dor. Mas com uma diferença:
enquanto Maria parecia ter perdido toda a esperança, Marta continuava aferrada a
uma ideia: “o Mestre tinha de aparecer a qualquer momento”. E ainda que não
soubesse muito bem o que poderia fazer o rabi àquela altura, com seu irmão morto
e sepultado, a “senhora” vivera aqueles quatro dias com o desejo ardente de ver
surgir Jesus. Seu afeto pelo Mestre era tanto que, naquela mesma manhã de
quinta-feira, quando o túmulo foi fechado, pediu a uma vizinha de Betânia que
subisse ao alto de uma colina, a leste da aldeia, para vigiar o caminho que conduz
a Jericó e pelo qual deveria chegar o rabi da Galileia. Poucas horas depois, a jovem
irrompeu na casa de Lázaro, avisando Marta, em segredo, da iminente chegada de
Jesus e seus discípulos.
“Pouco depois do meio-dia, a ‘senhora’ se reuniu com Jesus no alto da colina,
lançando-se a seus pés, dando vazão às lágrimas e exclamando aos gritos: ‘Mestre,
se estivesses aqui meu irmão não teria morrido!’.
“Jesus inclinou-se, ergueu-a e disse: ‘Tem fé e teu irmão ressuscitará’.
“E Marta, que não se atrevera a criticar a aparentemente incompreensível
atitude do Mestre, respondeu: ‘Sei que ressuscitará no último dia e desde já creio
que Nosso Pai te dará tudo aquilo que lhe pedires’.
“O rabi pôs as mãos sobre os ombros da mulher e, fitando-a fixamente nos
olhos, disse-lhe: ‘Eu sou a ressurreição e a vida!’.
“As lágrimas continuaram a correr pelas faces da irmã de Lázaro, e Jesus
prosseguiu: ‘Aquele que crer em mim viverá, mesmo que morra. Em verdade te
digo que quem viver crendo em mim nunca morrerá realmente. Marta, tu crês
nisto?’.
“A mulher assentiu com a cabeça, enxugou os olhos e acrescentou: ‘Sim, há
muito tempo que creio que és o Salvador, o Filho de Deus vivo... o que tem de vir a
este mundo’.”
Os amigos de Lázaro prosseguiram o relato contando a estranheza do Mestre
ao não ver Maria junto da irmã.
– A “senhora”, que já havia recuperado seu ar habitual, explicou a Jesus o
profundo e doloroso transe pelo qual passava Maria. E o Nazareno pediu a Marta
que fosse avisá-la.
“Marta entrou de novo em casa e, chamando Maria de lado, deu--lhe a notícia
da chegada do Mestre.”
Meus interlocutores devem ter notado minha estranheza ante esse gesto da
irmã mais velha de Lázaro. Adiantando-se a meu pensamento, esclareceram:
– Entre as numerosas pessoas que haviam acudido a esta casa, havia alguns
inimigos de Jesus. Marta, procurando evitar um possível incidente, achou
conveniente não falar em público da recente chegada do rabi a Betânia. E mais:
sua intenção era permanecer em casa, com os amigos e parentes, enquanto Maria
fosse ao encontro de Jesus. Mas a súbita e impetuosa saída da irmã mais nova
alarmou os presentes, que a seguiram, crendo que ela se dirigia ao túmulo do
irmão.
“Quando Maria alcançou o Mestre, lançou-se também a seus pés, exclamando:
‘Se estivesses aqui meu irmão não teria morrido!’. O grupo, ao ver Jesus com as
duas irmãs, permaneceu a uma distância prudente. Naquele momento, enquanto o
rabi as consolava, muitos dos parentes e amigos retomaram seus lamentos e
gemidos.
“O sol já havia começado a deslocar-se para o oeste quando Jesus perguntou a
Maria e Marta: ‘Onde ele está?’. A “senhora” respondeu: ‘Vem e verás’. E as irmãs o
conduziram à fazenda, atravessando o horto. Quando chegaram diante da grande
pedra, Marta indicou-lhe a laje que fechava o panteão familiar, enquanto Maria,
presa de um novo acesso, ajoelhava-se aos pés do Galileu, soluçando e afundando
o rosto na terra. Fez-se um grande silêncio, e nós que estávamos junto do rabi
vimos que seus olhos se umedeciam e várias lágrimas corriam em sua face. Um dos
amigos de Jesus, ao vê-lo chorar, exclamou: ‘Vejam como ele lhe queria. Aquele
que abriu os olhos dos cegos não poderia impedir que este homem morresse?’.
“Mas outros dos que estavam ali aglomerados, implacáveis detratores do
Mestre, aproveitaram a oportunidade para ridicularizar Jesus, dizendo: ‘Se tinha em
tão alta estima este homem, por que não o salvou? De que serve curar estranhos
na Galileia se não é capaz de salvar aos que ama?...’.
“Jesus, apesar de tudo, permaneceu em silêncio. E então, erguendo Maria,
apertou-a em seus braços para aliviar sua aflição.”
– Que horas eram? – perguntei.
– Faltava muito pouco para a nona. Nesse momento, o rabi dirigiu-se a alguns
de seus discípulos e lhes ordenou: ‘Levantem a laje’. Mas Marta, aproximando-se
do Mestre, perguntou-lhe: ‘Devemos mover a pedra de lado?’.
Interroguei os amigos de Lázaro sobre o significado da pergunta da “senhora”.
Sinceramente, eu não conseguira compreender. Que quisera ela dizer?
– Marta, como todos os outros ali presentes – explicaram-me –, entendeu que
Jesus desejava ver Lázaro pela última vez. Embora todos acreditássemos na
ressurreição dos mortos, nenhum de nós (nem sequer Marta) imaginava quais eram
as verdadeiras intenções do rabi. Por isso, a “senhora” achou que seria suficiente
retirar parcialmente a laje. Dessa forma, o Mestre poderia aproximar-se da
sepultura e contemplar o corpo do amigo.
“Marta, contudo, tentou persuadir Jesus, dizendo-lhe: ‘Meu irmão morreu há quatro dias... A decomposição do corpo já se iniciou...’.
“Os cinco homens que se dispunham a deslocar a pedra olharam para Marta
sem saber como agir. Mas Jesus, que se havia colocado diante deles, rebateu a
explicação lógica da ‘senhora’ dizendo, num tom que não deixava dúvida: ‘Eu não
vos disse desde o começo que esta doença não era mortal? Não vim cumprir minha
promessa? E depois de tê-los visto, não vos disse que se crerdes vereis a glória de
Deus? Por que duvidais? De quanto tempo necessitais para crer e obedecer?’.
“Marta olhou fixamente para o Mestre e, em um de seus típicos repentes,
encorajou os apóstolos e os vizinhos de Betânia a remover a laje e abrir a gruta.
“O silêncio foi quebrado pelo gemido da laje circular atritando contra a rocha e
pelos entrecortados gritos de incentivo que os voluntários proferiam em seu esforço
para remover o pesado fecho. Na quarta ou quinta tentativa, a boca do túmulo
ficou a descoberto.
“Nosso rabi, então, levantou os olhos para o azul daquele entardecer e
exclamou de forma que todos pudéssemos ouvir: ‘Pai..., 41 agradeço-te que tenhas
ouvido meu pedido. Sei que sempre me escutas, mas falo contigo para que aqueles
que estão ao meu lado creiam que me mandaste ao mundo e saibam que intervéns
comigo no ato que nos dispomos a realizar’.
“Ato contínuo, cravou o joelho esquerdo na terra e, assomando à galeria que
conduz à câmara funerária, gritou com toda a força: ‘Lázaro! ... Vem a mim!’.
“O eco ressoou no interior da cova, enquanto as quarenta ou cinquenta pessoas
que ali estavam sentiam um calafrio. Alguns dos mais próximos ao Mestre também
nos abeiramos da entrada da câmara e percebemos, na penumbra do fosso, a
forma de Lázaro, fortemente enfaixado com tiras de linho branco, repousando no
nicho inferior direito do panteão.
“Maria, assustada, abraçou-se à irmã. Nunca um silêncio foi tão dramático.
“Durante um breve instante de tempo, todos contivemos a respiração. Embora
muitos de nós houvéssemos sido testemunhas de outros prodígios de Jesus, a
realidade nua e crua daqueles quatro dias de sepultamento nos fazia duvidar.
“Que iria acontecer?
“Aquele silêncio incomum tinha-se propagado para os arredores. As primeiras e
familiares andorinhas haviam desaparecido do céu, e até o forte vento, tão próprio
da estação, acalmara-se inexplicavelmente.
“De repente, o Mestre deu um passo para trás. Nos degraus que conduziam à
entrada da cova apareceu o vulto. Maria lançou um grito lancinante e caiu
desmaiada. Instintivamente, todos recuamos.
“Um homem coberto com um lençol lutava para ganhar o exterior, mas tinha os
pés e as mãos atados, e isso dificultava seus passos.
“Da surpresa passou-se ao terror, e a maioria dos homens e mulheres fugiu
para o jardim, entre gritos e quedas.
“Era Lázaro!
“A duras penas, apoiando-se em seus cotovelos e mãos, aquele vulto foi-se arrastando pelos úmidos degraus de pedra até alcançar o último deles. Ali ele
parou, ofegante, enquanto um suor frio nos percorria o rosto.
“Mas ninguém, nem sequer Marta, se atreveu a dar um passo ao encontro do
ressuscitado.
“Jesus compreendeu nosso pânico e, dirigindo-se à ‘senhora’, ordenou que
livrássemos Lázaro das tiras de pano e o deixássemos caminhar.
“Com os olhos cheios de lágrimas, Marta aproximou-se corajosamente e
começou a desatar primeiro os panos que oprimiam seus pulsos. A seguir, antes de
liberá-lo das ataduras dos tornozelos, rasgou o lençol e deixou a descoberto o rosto
do irmão. Lázaro tinha os olhos muito abertos e a face branca como cal.
“Solto, Lázaro saudou o Mestre e seus discípulos e quis saber de Marta o que
significavam aquelas roupas funerárias e por que ele havia despertado no jardim.
Enquanto Marta relatava sua morte, seu sepultamento e sua ressurreição, Jesus
deu meia-volta e, com sua habitual serenidade, inclinou-se e ergueu o corpo de
Maria. A mulher não havia recobrado ainda os sentidos. O Mestre, esquecendo-se
por completo de Lázaro e de nós todos, conduziu-a nos braços para casa.
“Pouco depois, os três irmãos prostraram-se diante do rabi, agradecendo-lhe o
que havia feito. Mas Jesus, tomando Lázaro pelas mãos, levantou-o, dizendo: ‘Meu
filho, o que aconteceu a ti acontecerá a todos aqueles que creiam no Evangelho:
ressuscitarão sob a forma mais gloriosa. Tu serás o testemunho vivo da verdade
que tenho proclamado: eu sou a ressurreição e a vida. Agora vamos tomar o
alimento para nossos corpos físicos’.
“Isso é tudo que temos a dizer.”
Lázaro observava-me fixamente. Mas creio que com menor curiosidade do que
aquela que eu sentia por ele.
– Se me permites – intervim, dirigindo-me ao ressuscitado –, gostaria de te
fazer uma última pergunta.
O amigo de Jesus assentiu com a cabeça.
– Que recordações guardas desses dias em que provaste a morte?
– Nunca falei disso – respondeu Lázaro –, mas não é muito o que posso te
dizer.
Aquela pergunta e a resposta que o dono da casa insinuou surpreenderam o
grupo. Curiosamente, ninguém cogitara de averiguar o que Lázaro vira ou sentira
durante os quatro dias em que havia permanecido morto.
– Houve um momento – suponho que no instante de minha morte – em que
minha cabeça se encheu de um estranho ruído... Foi algo como o zumbido de um
enxame de abelhas. Depois, não sei por quanto tempo, experimentei uma
sensação desconhecida: era como se estivesse atravessando um estreito e escuro
passadiço... Quando voltei a abrir os olhos, tudo estava escuro. Não sabia onde
estava nem o que havia acontecido. Senti frio nas costas e percebi, então, que
jazia sobre um leito de pedra. Tentei levantar-me, mas notei que estava com as
mãos atadas e coberto por um lençol. Quis gritar, mas um pano enrolado na cabeça apertava fortemente minha mandíbula. Imediatamente compreendi que estava em
uma das covas subterrâneas que servem para enterrar nossos mortos. Mesmo
assim, e ao contrário do que possas crer, não senti medo. Uma grande paz
apoderou-se de mim e, lentamente, como pude, fui-me arrastando até a coluna de
luz que se distinguia no fundo da câmara. O resto já conheces.
Não sei como me veio à memória, mas subitamente lembrei-me de que no
relato da ressurreição havia sido mencionado um lençol.
– Abusando de tua hospitalidade – eu disse –, gostaria de saber se ainda
guardas os lençóis funerários.
– Sim.
– Poderia examiná-los?
Meu inusitado interesse pela mortalha confundiu os presentes, mas Lázaro
concordou, pedindo a um dos amigos que fosse buscá-los. Minutos mais tarde, o
judeu punha em minhas mãos um rolo de pano. Com a ajuda do próprio Lázaro, e a
meu pedido, estendemos o lençol de linho sobre a mesa. Providencialmente, as
irmãs haviam optado por guardar o lençol e as tiras tal como haviam sido retirados
do corpo de Lázaro. E ainda que a rigorosa lei judaica proibisse todo contato com
cadáveres ou com objetos que houvessem permanecido junto a despojos, de
homens ou animais, a singularidade do fato – que quebrava todos os esquemas
legais42 – e a mentalidade liberal desses fiéis seguidores da doutrina de Jesus
haviam tornado possível que as vestes funerárias não fossem destruídas e que a
família as manipulasse sem escrúpulos de consciência.
Ao passar uma das candeias de azeite sobre o tecido, pude observar um rasgo
no centro do lençol, justamente na parte que deveria ter coberto a cabeça. Ao
examinar detidamente o tecido, comprovei a existência de manchas marrons,
resultado da mistura de unguentos que haviam sido utilizados no embalsamento.
Como médico, dediquei especial interesse à detecção de possíveis sinais ou
resíduos que pudessem delatar um natural processo de decomposição. Pelas
informações de meus amigos, Lázaro havia falecido no entardecer do domingo, 5
de março. Apesar do isolamento da cova sepulcral, de sua baixa temperatura e da
possível ação retardadora dos azeites e aloés, a advertência de Marta a Jesus
sobre o odor do cadáver era, sem dúvida, um sintoma claro de que seu irmão já
deveria apresentar pelo menos a chamada “mancha verde” abdominal, primeiro
sinal de decomposição. (Essa mancha costuma aparecer 24 horas depois do
falecimento; e Lázaro, no momento em que o túmulo foi aberto, devia estar morto
fazia umas noventa horas.)
No entanto, por mais que eu explorasse o lençol, não pude encontrar resto
algum de líquidos procedentes, por exemplo, da ruptura de bolhas em sua
epiderme. O que percebi, ao cheirar algumas áreas do tecido, foi um inconfundível
odor de sulfídrico, emanação muito própria da putrefação de matéria orgânica.
Mesmo que não se tratasse, obviamente, de uma prova definitiva, aquilo me deu
certa ideia sobre a possível causa da morte de Lázaro: provavelmente um processo infeccioso agudo e generalizado. (A título pessoal, depois da “grande viagem”,
interessei-me por todos os textos, apócrifos ou não, tradições etc., nos quais se
falasse como correu a vida para Lázaro nos anos posteriores. Os escassos dados
que encontrei indicavam que o amigo de Jesus faleceria pela segunda vez aos 64
anos, vitimado, curiosamente, pela mesma doença que o conduzira ao sepulcro no
ano 30. Mas, logicamente, essas informações não puderam ser comprovadas.)
O que me chamou fortemente a atenção foi comprovar que o testemunho de
Lázaro e de seus amigos se encaixava plenamente na tradição judaica sobre a
morte. Em geral, os hebreus acreditavam que “a gota de fel na ponta da espada do
anjo da morte começava a atuar no fim do terceiro dia”. No quarto, portanto, a
decomposição do cadáver já era um fato indiscutível. De acordo com a informação
da família de Lázaro, o Mestre recebera a notícia de sua grave doença quando já
haviam decorrido onze horas de sua morte, ou seja, na manhã de 6 de março,
segunda-feira. Jesus conhecia a crença judaica sobre a morte e, sabiamente,
esperou até terça-feira para se pôr a caminho, chegando a Betânia quando Lázaro
estava morto havia cerca de 96 horas. Tempo mais do que suficiente para que
todos os judeus que sabiam da morte não pudessem ter dúvidas acerca do prodígio
que estava a ponto de acontecer.
Nas horas que se seguiram, graças a essas e outras informações, consegui
entender em sua verdadeira amplitude por que a aristocracia sacerdotal judaica –
encabeçada naquela época pela “saga” do ex-sumo sacerdote Anás43 – buscava a
morte de Jesus de Nazaré. Decorridas poucas horas da ressurreição de Lázaro, os
chefes do Templo – e, certamente, o genro de Anás – foram notificados
minuciosamente de tudo o que havia ocorrido no cemitério de Betânia. Enquanto os
amigos do ressuscitado, que em sua imensa maioria tinham sido testemunhas
oculares da ressurreição, faziam-se de arautos do prodígio, apregoando aos quatro
ventos o milagre do Mestre da Galileia, outros judeus, uma minoria, mas de
coração deformado, apressaram-se em informar tudo à casta dos fariseus, que
então desfrutava de destacada ascendência sobre os demais sacerdotes e levitas.
É quase certo que se o milagre tivesse ocorrido em outro período do ano
judaico, e não às vésperas da solene Páscoa, e com um protagonista de menos
opulência e prestígio entre os dignitários de Jerusalém, o feito do rabi talvez fosse
engrossar a sua já ampla lista de prodígios apenas a título de “inventário”. Mas o
Nazareno havia resgatado de entre os mortos – poder reservado exclusivamente ao
Divino – ninguém menos que Lázaro de Betânia. (Muito próximo, muito espetacular
e muito importante para esquecer ou condenar ao silêncio.)
O fato adquiriu tal proporção que – segundo Lázaro e seus amigos me
contaram – Jerusalém sofreu uma comoção. A circunstância de que entre as
testemunhas de sua ressurreição houvesse alguns membros do Templo e distintos
judeus, amigos da família de Lázaro, contribuiu para precipitar os acontecimentos.
E o Sinédrio, inquieto com a notícia, realizou uma assembleia extraordinária uma
hora depois do meio-dia do dia seguinte, sexta-feira. O tema único podia ser resumido com a seguinte frase: “Que faremos com o impostor?” .
Embora a suprema assembleia de Israel já houvesse discutido em outras
oportunidades a possibilidade de deter e julgar Jesus de Nazaré sob a acusação de
blasfêmia e transgressão das leis religiosas, desta vez foi diferente. Um dos
fariseus chegou a propor uma resolução pela qual se decretasse a imediata prisão
do Galileu e sua execução, sem julgamento prévio. Isso provocou acaloradas
discussões entre os 71 membros do Sinédrio, em especial entre alguns “anciãos”,
ou representantes da “nobreza laica” (caso de José de Arimateia), e os fariseus. Os
primeiros achavam ilegal e abominável tal decisão.
Após duas horas de debates e diante do pouco êxito dos que pretendiam que o
processo contra Jesus se desenvolvesse sob a mais rigorosa ortodoxia, catorze
membros da grande assembleia judaica levantaram-se e ali mesmo apresentaram
sua demissão. Duas semanas mais tarde, quando o Sinédrio aceitou essas
demissões, o conselho exonerou de seus cargos outros cinco destacados membros,
sob a acusação de “mostrar sentimentos de amizade com o Nazareno”. Essas
manobras deixaram livre o caminho do Sinédrio para tomar então a decisão quase
unânime de prender e justiçar o Mestre.
Lázaro e sua família não se enganavam ao acreditar que a sorte de Jesus
estava lançada. O ódio do Sinédrio contra o rabi era tanto que naquela mesma
tarde de sexta-feira, 10 de março, os policiais do Templo receberam ordem de
buscar e capturar Jesus “onde ele estivesse”. Mas a iminente chegada do sábado
(entardecer de sexta-feira) salvaria o Nazareno. Embora Jerusalém toda soubesse
da presença de Jesus em Betânia, os levitas decidiram aguardar o domingo para
executar a ordem de caça e captura. Os amigos do Mestre apressaram-se a lhe
comunicar o grave acordo do Sinédrio, pressionando-o a fugir. Mas Jesus não deu
atenção e continuou na região até a manhã de domingo, 12 de março. Depois de
se despedirem de Lázaro e de suas irmãs, o rabi e seu grupo partiram para o
acampamento na cidade de Pella.44
Poucos dias depois da partida do Mestre, o frustrado Sinédrio concentrou suas
iras no ressuscitado. Lázaro e sua família foram chamados para depor em
Jerusalém, e os sacerdotes tiveram de render-se à evidência do milagroso ato de
Jesus. Nesse sentido, o testemunho do médico do Templo, Ben Ajia – que havia
assistido o vizinho de Betânia durante sua fulminante enfermidade e comprovado
com os próprios olhos o ritual do embalsamamento – foi decisivo. Mesmo assim, a
insensibilidade de Caifás e seus partidários fez registrar nos arquivos do Sinédrio
que “aquele prodígio tivera sua origem no maléfico poder do príncipe dos
demônios, aliado ao rabi da Galileia”. Essa ressurreição, insisto nisso, longe de
abrir a alma dos representantes religiosos do povo hebreu, envenenou ainda mais
o sentimento deles por Jesus. O sumo sacerdote e os chefes do Templo se
encarregaram de convencer os demais membros do Tribunal de que, a seguir por
aquele caminho, todo o povo de Israel acabaria por adotar a doutrina do Galileu, o
que poderia conduzir a nação a uma catástrofe. De certo modo, o Sinédrio tinha razão, já que muitos hebreus – entre os quais boa parte dos seus próprios
discípulos – consideravam o Messias um libertador político que expulsaria os
romanos de Israel.
Foi precisamente em uma dessas reuniões do Sinédrio, segundo me informou
Nicodemos, que Caifás aludiu, pela primeira vez, a um antigo adágio judeu,
repetido em todas as épocas, que dizia: “É preferível ver morrer um homem a ver
perecer uma comunidade”.
Mas os problemas da suprema assembleia de Israel não terminavam em Jesus.
O Sinédrio havia se dado conta de que era preciso eliminar Lázaro também.45 Que
conseguiriam, prendendo e justiçando o Mestre, se o expoente máximo de seu
poder permanecia vivo? A popularidade do ressuscitado havia alcançado tal grau
que Caifás e os fariseus decretaram também a eliminação de Lázaro.
Os planos do Sinédrio terminaram por vazar, e o amigo de Jesus foi
oportunamente informado. A dramática situação havia lançado a família de Betânia
em permanente angústia. Agora eu começava a compreender a natural
desconfiança da família quando, poucas horas antes, eu havia solicitado uma
entrevista com Lázaro...
Talvez outro dos graves erros do Sinédrio, em minha opinião, tenha sido não
deter primeiro o ressuscitado. Ao comprovar que Jesus havia desaparecido, os
sacerdotes se esqueceram temporariamente de Lázaro e deram ordens expressas a
Yojanan ben Gudgeda, porteiro-chefe, assim como aos demais levitas ou policiais a
serviço do Templo, para que, no caso de o Nazareno aparecer, ele fosse
imediatamente capturado. Um dos comentários mais difundidos naqueles dias que
precederam a celebração da Páscoa – e que eu tinha ouvido desde minha chegada
a Betânia – era exatamente se o Nazareno teria coragem suficiente para entrar em
Jerusalém e celebrar, como em todos os anos, os ritos sagrados. Esse rumor
popular havia perturbado tanto os sacerdotes que eles acabaram deixando o
“problema Lázaro” para um segundo plano.
Assim decorreu meu primeiro encontro com o amigo amado de Jesus,
interrompido pela entrada de Marta na sala. Em sua bandeja de madeira, ela me
ofereceu um alimento frugal, que agradeci novamente de todo o coração. Depois
do relato dos hebreus que me acompanhavam, minha admiração pela “senhora”
havia crescido sensivelmente. E suponho que ela, com sua grande intuição
feminina, deva ter notado isso. Ao entregar-me a comida, Marta baixou os olhos
cheia de pudor.
– Rogo, irmão Jasão – pediu Lázaro –, que aceites este humilde alimento.
Sabemos que necessitas dele. E suplico que te consideres como em tua casa. Nesta
noite e em quantas mais precisares, este será teu teto.
Tentei dissuadi-lo, mas foi inútil. Lázaro e seus amigos haviam descoberto que,
na verdade, minhas intenções eram limpas e nobres.
As emoções do dia me haviam despertado o apetite e, diante dos olhares
deleitados de meus novos amigos, não tardei em dar fim ao grão tostado, aos figos secos, às tâmaras, ao mel e à tigela de leite de cabra que compunham minha ceia.
Já bem entrada a noite, o próprio Lázaro conduziu-me até um dos cômodos do
piso superior. Nele havia sido disposto um catre dos chamados “de tesoura”, com
uma cama de tela e cordas entrelaçadas. A armação da cama era construída à base
de dois montantes de madeira de pinho, cada um solidamente amarrado a dois pés
que se cruzavam em forma de “xis” e que não se elevavam a mais de quarenta
centímetros do chão.
O dormitório era retangular, de 1,80 x 2,50 metros, e seu único mobiliário era
um baú de sólida madeira de acácia (a mesma que deve ter servido para construir
a legendária Arca da Aliança), de um metro de altura. Sobre ele, Marta havia
colocado minhas sandálias (esmeradamente lavadas), uma bacia, uma jarra de
metal com água, um lenço e um pequeno ramo de alecrim de perfumadas flores
azuladas. Sobre a cabeceira da cama, pendurada na parede branca, e a pouca
altura do piso de ladrilho vermelho, uma singela lamparina de azeite em forma de
concha iluminava o quarto.
Ao fechar a porta e ficar sozinho, aproximei-me da estreita fresta que fazia as
vezes de janela, e meus olhos se umedeceram ao contemplar no céu aquela legião
de estrelas, idênticas àquelas que eu costumava ver no deserto de Mojave.
Depois de uma longa comunicação com o módulo, caí rendido sobre o catre.
Na realidade, minha agitada exploração não havia nem começado...
23 Todas as medidas que o Major apresenta em seu diário podem ser convertidas em metros dividindo-se por três. (N. de J.J.Benítez)
24 Porta Dupla e porta Tripla. (N. do M.)
25 Herodes chamou essas torres de Hípica, Fasael e Mariamme, respectivamente. (N. do M.)
26 A muralha exterior media, portanto, 3.792,7 metros. A muralha interior, 482,2 metros. (N. de J.J.Benítez)
27 Embora eu pudesse ouvir Eliseu diretamente – sempre que ele julgasse oportuno –, quando eu quisesse abrir minha comunicação auditiva com o módulo era imprescindível pressionar com os dedos a parte externa do meu ouvido direito. E para evitar suspeita ou má interpretação por parte dos habitantes de Jerusalém, a equipe da Operação Cavalo de Troia me havia instruído para fingir uma leve surdez naquele ouvido. Dessa forma, ainda que a comunicação com Eliseu devesse ser feita longe de testemunhas, o gesto de comprimir o canal de transmissão sempre podia ser justificado. (N. do M.)
28 A libra romana equivale a 326 gramas aproximadamente. (N. de J.J.Benítez)
29 Segundo nossos estudos, naquela época o “estater” ático ou padrão-ouro grego (de 8,6 gramas) devia guardar uma equivalência de 1 para 20 em relação ao denário de prata, de circulação legal em Jerusalém. Aquela pequena quantidade de ouro puro equivalia a cerca de 758 denários, dinheiro mais do que suficiente para minhas necessidades durante os onze dias de permanência na região, se levarmos em conta, por exemplo, que o preço de um terreno oscilava ao redor dos 120 denários. (Cada denário de prata era dividido em 24 asses. Com um asse era possível comprar um par de pássaros.) (N. do M.)
30 Cerca de 2.275 metros. (N. de J.J.Benítez)
31 Era assim que chamávamos familiarmente o computador central do módulo. (N. do M.)
32 Os gentios não podiam celebrar a tradicional oferenda da Páscoa. (N. do M.)
33 Segundo as leis hebraicas, “todos estavam obrigados a comparecer diante de Deus no Templo, com exceção de surdos, idiotas, menores, homens de órgãos tapados (sexo duvidoso), andróginos, mulheres, escravos não emancipados, cegos, paralíticos, anciãos ou incapazes de subir a pé até a montanha do Templo”. A escola de Shammay definia o menor de idade como “aquele que não pode (ainda) ficar a cavalo sobre os ombros do pai para subir a Jerusalém até a montanha do Templo”. (N. do M.)
34 Medida equivalente a 22 litros. (N. do M.)
35 Aquela noite, em minha última comunicação com o módulo, Eliseu me falou sobre o significado da palavra archiereis. Tratava-se de um numeroso grupo de sacerdotes-chefes que ocupavam cargos permanentes no Templo e que, em virtude desses cargos, tinham voz no Sinédrio. “Papai Noel” citou documentação complementar (Atos dos Apóstolos 4, 5-6, e Antiguidades, de Josefo, XX 8, 11/189 e seguintes) em que se especifica que o chefe supremo e um tesoureiro do Templo eram membros do mencionado Sinédrio. A composição mínima desse grupo era de um sumo sacerdote, um chefe supremo do Templo, um guardião do Templo e sacerdote, e mais três tesoureiros. Seis membros ao todo. A esses, deviam ser acrescentados os sumos sacerdotes em disponibilidade e os sacerdotes guardiães e tesoureiros. O Sinédrio, enfim, era formado por 71 membros. (N. do M.)
36 14 O computador central do módulo confirmou o nome de Ben Bebay como um dos “chefes” do Templo, com o cargo efetivo de “esbirro” (escrito rabínico Shegalim V, 1-2). Esse personagem era encarregado, entre outras funções, de açoitar, por exemplo, os sacerdotes que tentavam fazer trambiques no sorteio das funções do culto. Outra de suas obrigações era a fabricação e colocação de mechas, confeccionadas com os calções e cinturões velhos dos sacerdotes. (N. do M.)
37 Em minhas indagações durante aqueles dias na Palestina, verifiquei que, embora muitas dessas plantas que serviam de base para a produção de perfumes fossem cultivadas em solo palestino, a maioria vinha de fora. O incenso, por exemplo, havia peregrinado da Arábia e da Somalilândia. E o mesmo havia ocorrido com a Commiphora myrrha, ou árvore da mirra. O aloés, por seu lado, vinha da ilha de Socotora, no mar Vermelho. Quanto ao apreciado bálsamo, cuja erva é conhecida entre os botânicos como Commiphora opobalsamum, parece que no início vinha da Arábia. Todavia, como afirma Ezequiel (27,17), “Judeia e Israel forneceram a Tiro perfumes, mel, azeite e bálsamo”. A explicação está em um dos livros do historiador judeu romanizado Flávio Josefo. As sementes de erva de bálsamo haviam chegado à Palestina nos tempos do rei Salomão e foram, segundo Josefo, um dos muitos presentes da mítica rainha de Sabá a Salomão. No dia seguinte, sexta-feira, 31 de março, eu mesmo teria a oportunidade de ver Jesus dar a Marta e Maria um apreciado mimo: ervas de bálsamo, procedentes das férteis planícies de Jericó. “Papai Noel” confirmou que, no ano 60, Tito Vespasiano ordenaria que se protegessem essas plantações de bálsamo de Jericó com uma guarda especial. Mil anos mais tarde, os cruzados que entraram em Israel não acharam rastro algum de tão valiosa planta. Os turcos haviam destruído grande parte das árvores, descuidando-se também dos arbustos que tinham sido cultivados nas proximidades do rio Jordão. (N. do M.)
38 Horas depois, Eliseu me confirmaria que, segundo uma das listas contidas no escrito rabínico Shegalim V, 1-2, o nome de Ben Ajia correspondia mesmo a um dos “chefes” do Templo, com o cargo específico de médico. O computador lançou a seguinte leitura: “Encarregado dos doentes do ventre. A alimentação dos sacerdotes era extraordinariamente abundante em carne, não se podendo beber nada a não ser água. Isso ocasionava frequentes dores estomacais”. “Papai Noel” nos remeteria para uma informação mais completa no manuscrito de Erfurt, atualmente em Berlim. Dois dias depois, ao assistir à surpreendente e triunfal entrada de Jesus em Jerusalém, pude comprovar que na chamada “parte baixa” da cidade uma das profissões artesanais era precisamente a de médico. Os sangradores a que se referiam os amigos de Lázaro estavam concentrados em uma das ruas – do mesmo modo que os demais ’ûmman ou artesãos – e ali desempenhavam seu ofício, que compreendia desde a cirurgia até a circuncisão, passando pela receita de ervas medicinais, extração de dentes e até corte de cabelo e barba. (N. do M.)
39 Essa cidade, na parte oriental do Jordão, é tida erroneamente como o local onde ocorreu o batismo de Jesus Cristo por João. (N. do M.)
40 A Misná, em seu capítulo terceiro, sobre festas menores (moed gatan), estabelece que os mortos devem ser chorados durante os três primeiros dias. Para os sete primeiros dias, o ritual estabelecia as lamentações; ao longo do primeiro mês, os parentes deviam trazer os sinais próprios do luto. (N. do M.)
41 Meus informantes sempre se referiram ao nome “Pai” usando a palavra “Abba”. Segundo meus estudos, esse título se outorgava também a muitos mestres do Talmud, como sinal de veneração e afeto. (N. do M.)
42 A Misná, a mais rica e antiga tradição oral judaica, estabelece, na ordem sexta, dedicada às “Purezas”, primeiro capítulo de “Tendas” (ohalot), as diversas leis concernentes à transmissão da impureza dos cadáveres. “Se um homem tocasse um cadáver, contrairia impureza por sete dias, e se outro homem tocasse o primeiro, ficaria impuro até o pôr-do-sol”, dizia a lei. Na hipótese de que objetos – caso dos lençóis – tivessem tocado o cadáver, o homem que tocasse tais objetos e todos os materiais que esse homem tocasse ficariam impuros por sete dias. (N. do M.)
43 Durante os séculos I a.C. e I d.C., havia famílias sacerdotais descendentes do ramo saduceu legítimo. O primeiro e o último dos sumos sacerdotes em atividade entre os anos 37 a.C. e 70 d.C. foram desse ramo: o babilônio Ananel, de 37 a.C. a 35 a.C., e a partir de 34 a.C. pela segunda vez, e Pinjás de Jabta, o canteiro, de 67 a 70 d.C. Um terceiro sumo sacerdote legítimo ocupou o cargo em 35 a.C.: Aristóbulo. Os outros 25 sumos sacerdotes que cobriram esses 107 anos procediam de famílias sacerdotais ordinárias. Quase todos tinham sua origem fora de Israel ou da província da Judeia, mas logo formaram nova hierarquia, extremamente poderosa e influente. Destacaram-se em especial quatro “sagas” ou “clãs”, que lutaram com força por “colocar” seus homens no pontificado. Entre os 25 sumos sacerdotes legítimos da era herodiana e romana, nada menos que 22 pertenciam a essas quatro famílias. Eram as “sagas” dos Boetos (com oito sumos sacerdotes em seu “haver”), Anás (com outros oito), Phiabi (com três) e Kamith (com outros três sumos sacerdotes). A mais poderosa, pelo menos no começo, foi a família dos Boetos. Era originária da Alexandria e seu primeiro representante foi o sacerdote Simão, sogro de Herodes, o Grande (22-25 a.C.). Da extrema dureza desse clã procedia a denominação de “betusiano” ou “boetusiano”, da qual já me tinham falado os amigos de Lázaro. Mais tarde, a família de Anás logrou a supremacia. Este permaneceu no cargo por nove anos (de 6 d.C. a 15 d.C.). Sucederam-no seus cinco filhos, seu genro Caifás (de 18 a 37 d.C., aproximadamente) e seu neto Matias (65 d.C.). (N. do M.)
44 Eu solicitei vários esclarecimentos a Lázaro e suas irmãs e ao próprio grupo de Jesus sobre o lugar para o qual ele tinha-se dirigido depois de ressuscitar o amigo. Todos os informes foram coincidentes: Pella. Isso me desconcertou, já que no texto evangélico de João (11, 54-55) fala-se da localidade de Efrem – atual Et-Taiybe –, situada a uns dezenove quilômetros, em linha reta, a noroeste de Jerusalém. O deserto propriamente dito estendia-se entre essa cidade e o rio Jordão. Essa região montanhosa recebe hoje o nome de elbarriyeh ou deserto. A cidade de Pella ou Pela é citada por Flávio Josefo em sua obra Guerra dos judeus (livro III) como uma das povoações situadas ao norte da região de Pereia, à margem do Jordão, e relativamente próxima a Filadélfia (mais a leste), onde Lázaro acabou por se refugiar, fugindo da perseguição dos judeus. (N. do M.)
45 O nome Lázaro, para cúmulo da coincidência, significa, etimologicamente, “Deus socorreu”. E isso foi considerado por muitos judeus como um novo sinal em favor de Jesus. (N. do M.)