Cavalo de Tróia 1: Jerusalém
4 de abril, terça-feira
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
pelo que está diante dos meus olhos...
O Mestre fez uma pausa e os comensais olharam-se entre si, desconcertados
diante daquela ideia obsessiva que o rabi vinha manifestando dia após dia.
Ao entrar no pátio, eu havia procurado apoiar minha vara em uma das paredes
de mármore branco, pressionando o cravo que fazia funcionar a filmagem. E, para
dizer a verdade, o tempo todo que permaneci na casa de José foi dedicado mais a
observar o cajado, com medo de que fosse derrubado pela infinidade de servos que
entravam e saíam com as travessas, do que a ouvir meu anfitrião e seus
convidados.
– Que posso dizer – continuou Jesus – quando olho para a frente e vejo o que
me vai ocorrer?
Pedro cravou os olhos azuis em seu irmão André, mas, a julgar pela expressão
de seus rostos, nenhum deles conseguia penetrar no pensamento do Mestre.
– Devo dizer “salvai-me dessa hora horrorosa”? Não! Foi para esse propósito
que vim ao mundo e esta é a hora. Será melhor dizer e pedir que vos unais a mim:
Pai, glorifica teu nome. Tua vontade será cumprida.
Terminada a refeição, alguns gregos e discípulos levantaram-se, pedindo ao
Mestre que lhes explicasse mais claramente o que significava e quando se daria a
“hora horrorosa”. Mas Jesus evitou a resposta.
Enquanto recolhia minha vara, um esplêndido vaso de cristal chamou-me a
atenção, guardado, juntamente com uma coleção de pequenas pedras ovoides e
esféricas em uma vitrine de vidro. José deve ter percebido meu interesse por
aquelas peças e, aproximando-se, explicou-me que se tratava de um valioso vaso
de diatreta, recoberto com filigranas de prata. Havia sido achado na Germânia e
constituía um exemplar único na difícil arte do vidro, tão magistralmente praticada
pelos romanos. Quanto às pedras, de uns cinco centímetros cada uma, faziam parte
de outra coleção singular. Eram antigos projéteis de funda, de pederneira e
calcário, utilizados, segundo os antepassados de José, pela tropa “especial” de
setecentos soldados benjaministas canhotos, “capazes de disparar contra um cabelo sem errar o golpe”, como é citado no livro dos Juízes (20,16).
– É muito possível – explicou José – que Davi tenha utilizado uma pedra similar
em sua luta contra Golias.
Aquele breve encontro com o venerável José, que deveria estar beirando os
sessenta anos, foi de grande utilidade para os planos que a Operação Cavalo de
Troia havia feito para mim. Um de meus objetivos era justamente estabelecer
contato com o governador romano em Jerusalém, antes do anoitecer de quinta-
feira. Quando lhe falei de meu desejo de ter uma entrevista com Pilatos, José ficou
em dúvida. Tratei então de ganhar a confiança dele, explicando-lhe que eu havia
trabalhado como astrólogo a serviço de Tibério e que seria de sumo interesse para
Pilatos conhecer os graves acontecimentos apontados pelos astros.
José, como eu esperava, manifestou muita curiosidade e prometeu conseguir a
entrevista para a manhã do dia seguinte, quarta-feira, quando ele poderia estar
presente também. Concordei encantado.
Por volta das duas da tarde, Jesus despediu-se de José de Arimateia e tomou
as ruas que davam na muralha sul do Templo. No caminho, advertiu seus amigos
de que aquele ia ser seu último discurso público. Mas seus homens de confiança
não fizeram comentário algum. Na realidade, eles estavam imersos em profunda
confusão. “Então, o Mestre, que sempre havia escapado das garras do Sinédrio, iria
deixar que o capturassem?”
Chegando à esplanada dos Gentios, o rabi acomodou-se em seu lugar habitual
– a escadaria que rodeava o Santuário – e, em tom extremamente carinhoso,
começou a falar:
– Durante todo esse tempo tenho estado convosco, indo e vindo por estas
terras, proclamando o amor do Pai pelos filhos dos homens. Muitos viram a luz e,
por meio da fé, entraram no reino do céu. De acordo com este ensinamento e
pregação, o Pai tem feito coisas maravilhosas, incluindo a ressurreição dos mortos.
Muitos enfermos e aflitos têm sido curados porque acreditaram. Mas toda essa
proclamação da verdade e essa cura de enfermidades não têm bastado para abrir
os olhos dos que se recusam a ver a luz e dos que estão decididos a repelir o
Evangelho do reino.
“Eu e todos os meus discípulos temos feito o possível para viver em paz com
nossos irmãos, para cumprir os mandamentos razoáveis das leis de Moisés e as
tradições de Israel. Temos buscado persistentemente a paz, mas os dirigentes
desta nação não a terão. Repelindo a verdade de Deus e a luz do céu, eles se
colocam do lado do erro e da escuridão. Não pode haver paz entre a luz e as
trevas, entre a vida e a morte, entre a verdade e o erro.
“Muitos de vós decidiram crer em meus ensinamentos e já encontraram a
liberdade da consciência e a alegria de ser filhos de Deus. Sereis minhas
testemunhas de que ofereci a mesma filiação com Deus a toda a Israel. Até a esses
mesmos homens que hoje buscam minha destruição. Mas eu vos digo mais: até
mesmo agora meu Pai receberia esses mestres cegos, esses dirigentes hipócritas, se eles olhassem para Ele e aceitassem sua misericórdia...”
Jesus foi assinalando com as mãos os diferentes grupos de escribas, saduceus e
fariseus que, pouco a pouco, tinham-se incorporado às centenas de judeus que
desejavam escutar o rabi da Galileia. Alguns dos discípulos, especialmente Pedro e
André, empalideceram ao escutar os audazes ataques de seu Mestre.
– ... Mesmo agora não é tarde demais – continuou Jesus – para que esta gente
receba a palavra do céu e dê seu “bem-vindo” ao Filho do Homem.
Um dos homens do Sinédrio, ao ouvir essas palavras, alterou-se visivelmente,
arrastando o resto do grupo para fora da esplanada. Jesus percebeu o fato e,
elevando o tom de voz, lançou-se contra o grupo:
– ... Meu pai tem tratado com clemência essas pessoas. Geração após geração,
temos enviado nossos profetas para que as ensinassem e advertissem. E, geração
após geração, elas têm matado nossos enviados. Agora, vossos altos e
voluntariosos sacerdotes e obstinados dirigentes continuam fazendo o mesmo.
Assim como Herodes assassinou João, vós vos preparais para destruir o Filho do
Homem.
“Enquanto houver uma possibilidade de que os judeus olhem para meu Pai e
busquem a salvação, o Deus de Abraão, Isaque e Jacó manterá suas mãos
estendidas para vós. Mas, quando houverdes feito transbordar a taça da vossa
impertinência, essa nação ficará abandonada a seu próprio arbítrio e caminhará
rapidamente para um fim pouco glorioso...”
O arraigado sentimento de patriotismo dos hebreus saiu sensivelmente abalado
por aquela sentença de Jesus. E a multidão, que escutava sentada sobre as lajes
do átrio dos Gentios, ergueu-se, inquieta, entre murmúrios de desaprovação.
Mas o Nazareno não se alterou. Verdadeiramente, aquele homem era corajoso.
– ... Esse povo foi chamado para ser a luz do mundo e para mostrar a glória
espiritual de uma raça conhecedora de Deus... Mas, até agora, vós vos afastastes
do cumprimento de vossos privilégios divinos e vossos líderes estão a ponto de
cometer a maior loucura de todos os tempos...
Jesus fez uma brevíssima pausa para manter o auditório aceso.
– ... E vos digo que estais a ponto de recusar a grande dádiva de Deus a todos
os homens e a todas as épocas: a revelação de seu amor.
“Em verdade, em verdade vos digo que, quando houverdes repelido esta
revelação, o reino do céu será entregue a outras pessoas. Em nome do Pai que me
enviou, eu vos aviso: estais a um passo de perder vosso posto no mundo como
sustentáculos da verdade eterna e como custodiadores da lei divina. Justamente
agora estou vos oferecendo vossa última oportunidade para que entreis, como as
crianças, pela fé sincera, na segurança da salvação do reino celeste.
“Meu pai tem trabalhado há muito tempo por vossa salvação, e eu desci até
vós para mostrar pessoalmente o caminho. Muitos dos judeus e samaritanos, e até
dos gentios, passaram a crer no Evangelho do reino. E vós, que deveríeis ser os
primeiros a aceitar a luz do céu, tendes recusado a revelação da verdade de Deus revelado no homem e do homem elevado a Deus.
“Esta tarde, meus apóstolos estão diante de vós em silêncio. Mas logo escutarei
suas vozes clamando pela salvação. Agora, eu vos peço que vós, discípulos meus e
crentes no Evangelho do reino, sejais testemunhas de que, uma vez mais, ofereci a
Israel e a seus dirigentes a liberdade e a salvação. Seja como for, eu vos advirto de
que esses escribas e fariseus sentam-se ainda na cadeira de Moisés. Portanto, até
que as potências maiores que dirigem os reinos dos homens não os desterrem e
destruam, eu vos ordeno que coopereis com esses maiores de Israel. Não vos peço
que vos unais a eles em seus planos para destruir o Filho do Homem, mas apenas
naquilo que se relacione com a paz de Israel. Nesse assunto, fazei o que vos
ordenem e observai a essência das leis. Mas não tomeis como exemplo suas más
ações. Recordai que esse é o seu pecado: dizem o que é bom, mas não o praticam.
Vos sabeis bem que esses dirigentes vos fazem levar pesadas cargas sem levantar
um dedo para vos ajudar. Eles vos têm oprimido com cerimônias e escravizado com
as tradições.
“E ainda vos direi mais: esses sacerdotes, concentrados em si mesmos,
deleitam-se fazendo boas obras, de forma que elas sejam vistas por todos os
homens. Enchem-se de faixas e capricham nos bordados de suas vestes oficiais.
Solicitam os principais lugares nos banquetes e os primeiros assentos nas
sinagogas. Cobiçam os aplausos e os elogios nos mercados e desejam ser
chamados de rabis por todos os homens. E, enquanto buscam todas essas honras,
até mesmo tomam, secretamente, as posses das viúvas e se beneficiam dos
serviços do Templo sagrado. Por ostentação, esses hipócritas fazem longas orações
em público e dão esmolas apenas para chamar a atenção de seus semelhantes.”
Naquele momento, quando Jesus lançava seus primeiros e mortais ataques
contra os sacerdotes e membros do Sinédrio, os apóstolos que se haviam
encarregado da instalação do acampamento, na encosta do monte das Oliveiras,
chegaram à esplanada, unindo-se ao grupo de discípulos. Foi uma lástima que não
tivessem ouvido a primeira parte do discurso de Jesus. Em especial, Judas
Iscariotes. Pessoalmente, creio que, se o traidor houvesse testemunhado aquelas
primeiras frases, oferecendo misericórdia, talvez mudasse de intenção. Mas, pelo
que pude deduzir na tarde de quarta-feira, a última metade da pregação do Mestre
no Templo foi decisiva para que Judas desertasse. Seu senso de ridículo e seu
condicionamento negativo “ao que os outros dirão” eram muito mais acentuados
em sua alma do que eu pensava.
– ... E assim como deveis honrar vossos chefes e reverenciar vossos mestres –
prosseguiu o rabi –, não deveis chamar de “pai”, no sentido espiritual, a nenhum
homem. Somente Deus é vosso Pai. Tampouco deveis buscar dominar vossos
irmãos do reino. Recordai: eu vos tenho ensinado que aquele que for maior entre
vós deve ser servidor de todos. Se pretendeis exaltar a vós mesmos diante Deus,
certamente sereis humilhados; mas aquele que se humilha sinceramente, com
certeza será exaltado. Buscai em vossa vida diária não a própria glória, mas a de Deus. Subordinai inteligentemente vossa própria vontade à do Pai do céu.
“Não confundais minhas palavras. Não trato com maldade esses sacerdotes
principais que querem minha destruição. Não tenho maus desejos contra esses
escribas e fariseus que repudiam meus ensinamentos. Sei que muitos de vós
credes, ainda que em segredo, e que, quando chegar a hora, ireis professar
abertamente vossa lealdade ao reino. Mas, como se justificarão a si mesmos
vossos rabis se dizem falar com Deus e tencionam destruir aquele que vem ao
mundo para revelar o Pai?
“Ai de vós, escribas e fariseus! Hipócritas!... Vós fechais as portas do reino do
céu aos homens sinceros, só porque são incultos. Recusais entrar no reino e, ao
mesmo tempo, fazeis tudo o que está a vosso alcance para evitar que os demais
entrem. Permaneceis de costas para as portas da salvação e vos opondes a todos
os que querem entrar.
“Ai de vós, escribas e fariseus! Sois hipócritas! Abarcais o céu e a terra para
fazer prosélitos e, quando conseguis, não vos contentais até torná-los duas vezes
piores do que eram como filhos de pagãos.
“Ai de vós, sacerdotes e chefes principais! Dominais a propriedade dos pobres e
exigis pesados tributos aos que querem servir a Deus. Vós, que não tendes
misericórdia, podeis esperá-la do mundo vindouro?
“Ai de vós, falsos mestres! Guias cegos! Que se pode esperar de uma nação em
que os cegos dirigem os cegos? Ambos cairão no abismo da destruição.
“Ai de vós, que dissimulais quando prestais juramento! Sois fraudadores!
Ensinais que um homem pode jurar diante do Templo e romper seu juramento,
mas o que jura diante do ouro do Templo permanecerá ligado. Sois todos cegos e
loucos!...”
Jesus tinha ficado de pé. O ambiente carregado por aquelas verdades que todo
mundo conhecia, mas ninguém se atrevia a proclamar em voz alta, e muito menos
na presença dos dignitários do Templo, ficava cada vez mais tenso. Ninguém
ousava sequer respirar. Os discípulos, cada vez mais acovardados, baixavam a
cabeça ou observavam com temor os grupos de sacerdotes.
Mas o Nazareno parecia disposto a tudo.
– ... Nem sequer sois consequentes em vossa desonestidade. Quem é o maior?
O ouro ou o Templo?
“Ensinais que jurar diante do altar não significa nada para um homem. Mas se
alguém jura diante da oferenda que está na frente do altar, então permanece como
devedor. Sois cegos à verdade! Que é maior? A oferenda ou o altar que santifica a
oferenda? Como podeis justificar tanta hipocrisia e desonestidade?
“Ai de vós, escribas e fariseus! Vós vos assegurais de que tragam dízimos,
menta e cominho, mas, ao mesmo tempo, despreocupai-vos dos assuntos mais
importantes da fé, misericórdia e justiça. Com razão deveis fazer uma coisa, mas
sem esquecer a outra. Sois certamente mestres cegos e surdos! Espantais os
mosquitos e engolis o camelo...
“Ai de vós, escribas, fariseus e hipócritas! Sois escrupulosos no limpar a parte
exterior da taça e das fontes, mas no interior permanece a imundície da extorsão,
dos excessos e da decepção. Sois espiritualmente cegos. Reconhecei comigo que
seria melhor limpar primeiro o interior da taça. Então, o que transbordasse dela
limparia o exterior. Malvados réprobos! Fazeis que os atos exteriores de vossa
religião estejam conforme a letra, enquanto vossas almas estão empapadas de
iniquidades e assassinatos!
“Ai de vós todos, que rechaçais a verdade e desdenhais a misericórdia! Muitos
de vós sois como sepulcros caiados. Por fora parecem formosos, mas por dentro
estão cheios de ossos humanos e impurezas. Ainda assim, vós que repelis
deliberadamente o conselho de Deus, apareceis diante dos homens como santos e
retos, enquanto por dentro vossos corações estão inflamados pela hipocrisia.
– “Ai de vós, falsos guias da nação! Ao longo dos tempos construístes um
monumento aos profetas martirizados pelos antigos e agora conspirais para
destruir aquele de quem eles falaram. Adornais as tumbas dos justos e elogiais a
vós mesmos, dizendo que se houvésseis vivido nos tempos de vossos pais não
teríeis matado os profetas. E com esse pensamento tão reto, vós vos preparais
para assassinar aquele de quem falaram os profetas: o Filho do Homem. Adiante,
pois, e enchei até a borda a taça de vossa condenação!
“Ai de vós, filhos do pecado! João vos chamou de os rebentos das víboras. E eu
me pergunto: como podeis escapar ao juízo que João fez sobre vós?”
O Nazareno ficou alguns segundos em silêncio, enquanto os membros do
Sinédrio – vermelhos de ira – iam tomando notas nos rolos ou “livros” que
costumavam trazer nos braços. Aquele fato trouxe-me à mente outra realidade
que, como vinha comprovando, teria resultados lamentáveis. Nenhum dos
apóstolos ou seguidores de Jesus tomava uma só nota daquilo que o Mestre fazia e
principalmente do que ele dizia. Dada a multiplicidade dos ensinamentos do rabi da
Galileia e de sua considerável extensão – como o discurso que pronunciava naquele
momento –, seria quase impossível que suas palavras pudessem ser recolhidas no
futuro na íntegra e com total fidelidade. Era uma pena que nenhum daqueles
homens se tivesse proposto à importantíssima missão de ir recolhendo as práticas
e os feitos de que o Nazareno foi protagonista. Naquela mesma noite, no
acampamento do monte das Oliveiras, eu teria a ocasião de comprovar que não
estava equivocado em minhas apreciações pessoais...
– Mas eu vos ofereço, em nome de meu Pai, misericórdia e perdão. Até mesmo
agora – acrescentou Jesus em tom mais suave e conciliador –, eu vos ofereço
minha mão. Meu Pai vos enviou os profetas e os sábios. Aos primeiros, vós os
matastes; aos segundos, vós os perseguis. Então apareceu João, proclamando a
vinda do Filho do Homem, e vós o destruístes, ainda que muitos acreditassem em
seus ensinamentos. Compreendeis que chegará um dia terrível, em que o Juiz de
toda a terra vos pedirá para prestar contas pela forma com que tendes rechaçado,
perseguido e destruído esses mensageiros do céu? Compreendeis que deveis prestar contas de todo esse sangue honrado, desde o do primeiro profeta,
assassinado nos tempos de Zacarias entre o Santuário e o altar? E vos digo mais:
se prosseguirdes com essa conduta impiedosa, essa conta poderá ser exigida até
mesmo desta geração que aqui está.
“Ó Jerusalém e filhos de Abraão! Vós apedrejastes os profetas e assassinastes
os mestres, mas mesmo agora eu reuniria vossos filhos como a galinha reúne seus
pintinhos sob as asas... Mas não quereis!...
“Agora eu vos irei deixar. Ouvistes minha mensagem e tomastes vossa decisão.
Aqueles de vós que acreditaram no meu Evangelho estarão salvos. Os que
escolheram repudiar a oferenda de Deus, não me verão mais ensinar no Templo.
Meu trabalho está feito.
“Tende cuidado agora! Eu parto com meus filhos e vossa casa ficará
desolada...”
As cruas denúncias de Jesus de Nazaré haviam fechado as portas à
reconciliação com os dirigentes do Sinédrio e da classe sacerdotal. Ao concluir suas
candentes palavras, o Mestre ordenou a seus discípulos que o seguissem, e todos
saímos do Templo, rumo ao acampamento no monte das Oliveiras. Mas no
ambiente da Cidade Santa ficou flutuando uma pergunta: “Que sorte aguardava o
rabi da Galileia?”.
Quando nos dispúnhamos a sair, um dos doze, Mateus, lembrando-se da
profecia de seu Mestre no cume do monte das Oliveiras, aproximou-se de Jesus e,
apontando os pesados silhares da muralha do Templo, comentou com visível
incredulidade:
– Mestre, observa de que forma está construída esta muralha. Vê as pedras
maciças e os formosos adornos. Como é possível que estas edificações venham a
ser destruídas?
O rabi, sem diminuir sua marcha pelas ruas da cidade, rumo à porta da Fonte,
respondeu:
– Vedes estas pedras e este Templo maciço? Pois em verdade vos digo que
chegarão dias muitos próximos em que não restará pedra sobre pedra. Todas serão
postas abaixo.
E o gigante ficou em silêncio. O resto do grupo entregou-se então a
intermináveis polêmicas, considerando que era muito difícil que aquela fortaleza
pudesse ser destruída. “Nem o fim do mundo – chegaram a especular alguns
apóstolos – poderá fazê-lo.”
O dia caminhava já para o ocaso e Jesus, procurando evitar os grandes grupos
de peregrinos que iam e vinham pelo vale do Cedron, sugeriu a seus discípulos que
deixassem o caminho que conduzia a Betânia e tomassem um dos atalhos da
encosta sul do monte das Oliveiras, na direção norte.
Ao atingirmos um dos pontos altos, Jerusalém surgiu de repente à nossa
esquerda, majestosa e banhada em ouro pelos últimos raios solares. No Santuário
e nas ruelas haviam começado a ser acesas as primeiras candeias de azeite. Aquele espetáculo fez o grupo parar, enquanto um dos discípulos, apontando a
Cidade Santa, perguntava a Jesus:
– Diz-nos, Mestre, como saberemos que esses acontecimentos estão a ponto de
ocorrer?
O grupo acabou sentando-se sobre o relvado e o rabi, de pé, sem pressa, foi
dizendo:
– Sim, eu vos contarei sobre os tempos em que esta gente terá enchido a taça
de sua iniquidade e a justiça caíra sobre esta cidade de nossos pais... Estou prestes
a vos deixar. Vou ao meu Pai. Quando vos deixar, tomai cuidado para que nenhum
homem vos engane. Muitos virão como libertadores e levarão muitos para o mau
caminho. Quando ouvirdes rumores sobre guerras, não vos consterneis. Ainda que
tudo isso ocorra, o fim de Jerusalém ainda não terá chegado. Tampouco vos deveis
preocupar quando fordes entregues às autoridades civis e perseguidos por causa do
Evangelho...
Os apóstolos se entreolharam com o medo refletido em seus semblantes.
– ... Sereis banidos da sinagoga e feitos prisioneiros por minha causa. E alguns
de vós morrerão. Quando fordes levados diante de governadores e dirigentes, será
como testemunho de vossa fé e para que mostreis firmeza no Evangelho do reino.
E quando estiverdes diante de juízes, não vos angustieis de antemão sobre o que
deveis dizer: nesse mesmo momento, o espírito vos ensinará o que deveis
responder a vossos adversários. Nesses dias de dor, até mesmo vossos parentes,
manobrados por aqueles que repudiaram o Filho do Homem, vos entregarão à
prisão e à morte. Por certo tempo, sereis odiados por minha causa. Mas mesmo
nesse momento, não vos abandonarei. Meu espírito não vos deixará
desamparados. Sede pacientes! Não duvideis de que o Evangelho do reino triunfará
sobre todos os inimigos e, no devido tempo, será proclamado por todas as nações.
O Mestre ficou em silêncio, enquanto contemplava a cidade. E eu, sentado com
os demais, fiquei maravilhado diante da precisão daquelas frases. Certamente,
quarenta anos mais tarde, quando as legiões de Tito cercariam e assolariam
Jerusalém, nenhum dos apóstolos seria encontrado na cidade. Não fossem eles
advertidos pelo Mestre e provavelmente alguns tivessem perecido ou sido feitos
prisioneiros.
O silêncio foi rompido por André:
– Mas, Mestre, se a Cidade Santa e o Templo vão ser destruídos, e se tu não
estarás aqui para nos orientar, quando deveremos abandonar Jerusalém?
Jesus, então, procurou ser extremamente claro e preciso:
– Podeis ficar na cidade depois da minha ida, mesmo nesses tempos de dor e
de amarga perseguição. Mas, quando finalmente virdes Jerusalém sitiada pelos
exércitos romanos, após a revolta dos falsos profetas, nesse dia sabereis que a
desolação terá chegado. Então vos devereis refugiar nas montanhas. E não deixeis
que ninguém vos detenha nem que outros entrem. Haverá grande conturbação.
Serão os dias de vingança dos pagãos. Quando tiverdes fugido da cidade, essa gente insubordinada cairá sob o fio da espada dos estrangeiros. Entretanto, eu vos
dou um aviso: não vos deixeis enganar. Se algum homem vos disser “Vede, este é
o Libertador!”, ou “‘Vede, aqui está ele!”, não acrediteis. Aparecerão muitos falsos
mestres e outros serão levados para o mau caminho. Não vos deixeis enganar.
Lembrai que eu vos adverti com antecedência.
Como soaram sábias e proféticas aquelas palavras em meus ouvidos! Os
apóstolos e discípulos não podiam sequer suspeitar da sublime realidade daquela
profecia. Para qualquer um que tenha estudado, ainda que sumariamente, a
invasão de Jerusalém pelos exércitos romanos, pouco antes da lua cheia da
primavera do ano 70, a advertência do Mestre era simplesmente lapidar. Tal como
acabava de anunciar o Galileu, Israel converteu-se, entre os anos 66 e 70, em um
inferno. Na época, o partido dos zelotes, ou “fanáticos”, armado até os dentes,
acabou sublevando toda a comunidade judaica. Em maio do ano de 66, a guarnição
romana foi atacada, em consequência de uma petição do governador Floro que
exigia dezessete talentos do tesouro do Templo. Os judeus tomaram Jerusalém e
proibiram o sacrifício diário em honra do Imperador. Aquilo esgotou a paciência de
Roma, que enviou para Israel uma legião sob o comando do governador da Síria,
Céstio Galo. Mas as revoltas incendiavam o país e os romanos se viram obrigados a
retirar-se.
A nação judaica preparou-se para a guerra e fortificou sua cidade, tendo sido
nomeado generalíssimo de seus exércitos aquele que depois seria historiador,
Flávio Josefo.
Como consequência, Nero confiou três legiões a Tito Flávio Vespasiano, que,
acompanhado de seu filho Tito, caiu sobre a Galileia, massacrando-a. Mas Nero se
suicidou e Tito Flávio teve de regressar precipitadamente a Roma. Seu filho se
encarregaria de concluir a grande vingança de Roma.
Os hebreus ficaram intimidados ao ver Jerusalém assediada por milhares de
soldados pertencentes a 5ª, 10ª, 12ª e 15ª legiões, acompanhados de forças de
cavalaria e tropas auxiliares, assim como de um pesado equipamento de assalto e
demolição. No total, eram 80 mil homens, que, como profetizara Jesus no ano 30,
foram tomando posições e sitiando a Cidade Santa. Jerusalém, repleta de
peregrinos, foi submetida a fortes tensões internas e à loucura das súbitas
aparições de “libertadores” que tentavam arrastar as massas. Mas, quando os
homens de Tito iniciaram os ataques, os apóstolos de Jesus, recordando aquelas
palavras pronunciadas pelo Mestre na tarde de 4 de abril do ano 30, uma terça-
feira, em Jerusalém, já haviam escapado da cidade. Poucos meses depois, a
artilharia romana, capaz de lançar a 185 metros de distância pedras que pesam um
quintal, cerca de 60 quilos, arrasaria Jerusalém, não deixando pedra sobre pedra...
Pedro, apesar de sua boa vontade, não parecia compreender o que Jesus lhes
anunciava. Por seus comentários, deduzi que associava aquela destruição ao “fim
do mundo” e não à queda de Jerusalém. Sua pergunta ao rabi convenceu-me
plenamente disso:
– Mas, Mestre – indagou Pedro –, todos sabemos que essas coisas se passarão
quando os novos céus e a nova terra aparecerem. Como saberemos, então, que tu
virás para trazer tudo isso?
O gigante olhou-o com infinita compaixão, percebendo que o impetuoso amigo
não havia captado sua mensagem. E lhe disse:
– Pedro, sempre erras porque sempre tentas relacionar o novo ensinamento
com o velho. Estás decidido a interpretar mal meu ensinamento. Insistis, vós todos,
em interpretar o Evangelho de acordo com as vossas crenças estabelecidas. No
entanto, procurarei explicar.
“Por que continuais aguardando que o Filho do Homem se sente no trono de
Davi e esperais que se cumpram os sonhos materiais dos judeus? As coisas que
agora apreciais vão acabar e haverá novo começo a partir do qual o Evangelho do
reino chegará a todo o mundo. Quando o reino chegar a ser plenamente
construído, podeis estar seguros de que o Pai do céu não deixará de vos visitar. E,
assim, meu Pai continuará manifestando sua misericórdia e mostrando seu amor,
até mesmo a este mundo escuro e malvado. E, assim, depois que meu Pai me
tenha investido de todo o poder e autoridade, eu também acompanharei vossos
destinos e vos guiarei nos assuntos do reino com a presença de meu espírito, que
prontamente será vertido sobre toda a carne. Estarei, portanto, presente entre vós
em espírito, e prometo que um dia voltarei a esse mundo, no qual vivi esta vida
carnal e tive a experiência de simultaneamente revelar Deus ao homem e levar o
homem a Deus. Muito cedo hei de vos deixar para realizar a obra que o Pai me
confiou, mas tende coragem: eu voltarei algum dia. Enquanto isso, meu espírito da
Verdade vos confortará e guiará.”
Sem que eu esperasse, Jesus havia passado da profecia sobre a destruição de
Jerusalém a um tema que me interessava profundamente e que eu já havia
discutido com ele: sua segunda vinda à Terra. Assim, todos os meus sentidos se
concentraram naquelas palavras, tão mal interpretadas – e mais mal transmitidas
ainda – no futuro por seus seguidores.
– Agora me vedes na debilidade e na carne. Mas quando eu voltar – arrematou
o rabi dirigindo seu olhar para mim –, será com poder e espírito. O olho da carne vê
o Filho do Homem em carne, mas só o olho do espírito contemplará o Filho do
Homem glorificado pelo Pai e surgindo na terra com seu próprio nome.
“Mas os tempos da reaparição do Filho do Homem apenas são conhecidos pelos
‘conselhos do paraíso’. Nem sequer os anjos sabem quando isso ocorrerá. Mas
deveis compreender que, quando este Evangelho do reino tiver sido proclamado
em todo o mundo, para salvação dos homens, e quando a plenitude da época
houver chegado, o Pai vos enviará outra outorga de designação divina ou o Filho do
Homem voltará para encerrar a época.”
Ao escutar aquelas revelações, fiquei perplexo. E fui tentado a tomar a palavra
e perguntar a Jesus sobre esse misterioso ‘encerramento’ de uma época. No
entanto, minha rigorosa condição de observador manteve-me à margem da conversa.
– ... E agora, em relação à dor de Jerusalém, em verdade vos digo que nem
esta geração passará sem que se cumpram minhas palavras. Quanto à nova vinda
do Filho do Homem, ninguém na terra nem no céu pode pretender falar.
Como se houvesse lido meus pensamentos, o rabi prosseguiu:
– ... Deveis ser sábios de acordo com a maturidade de uma época.Deveis estar
alerta para discernir os sinais dos tempos. Sabeis que, quando a figueira mostra
seus tenros ramos e suas folhas crescem, o verão está próximo. Da mesma forma,
quando o mundo houver superado o longo inverno da mentalidade material e
assistirdes à vinda da primavera espiritual, então sabereis que é chegado o verão
da minha nova visita.
De todos os ensinamentos do Nazareno, nenhum, em minha opinião, pareceu
tão confuso quanto aquele para as mentes de seus apóstolos e simpatizantes.
Quando se lê o que se escreveu – muitos anos depois de sua morte – a respeito
dessa segunda vinda, assim como da destruição de Jerusalém, e quando se
conhece – como eu conhecia então – o verdadeiro sentido do discurso de Jesus
naquele entardecer de terça-feira, não se pode deixar de sentir uma grande
desolação. Ao menos nessa parte, os Evangelhos canônicos foram pessimamente
escritos. Mas, infelizmente, não iria ser essa a única passagem ignorada ou mal
interpretada pelos evangelistas...
Uma lua quase cheia já se erguia no leste quando o grupo retomou a
caminhada. Jesus, à frente, continuou pelo acidentado cume do monte das
Oliveiras, sempre na direção do norte. Ao chegar às proximidades do acampamento
público onde se haviam instalado os peregrinos procedentes da Galileia, o Mestre
desviou-se para a direita, procurando evitar as tendas e a infinidade de fogueiras
que se viam a curta distância, na ladeira oeste da colina. Evidentemente, o rabi
não desejava um novo encontro com seus conterrâneos e amigos. Minutos mais
tarde, quando estávamos diante do Santuário do Templo, começamos a descer
para o Cedron, cruzando uma das veredas que levam de Jerusalém a Betânia. A
escuridão não me permitia distinguir claramente os arredores, mas deduzi que não
estava muito longe do “ponto de contato” onde repousava o módulo. (Talvez 1 mil
ou 1.500 pés nos separassem de Eliseu.)
O grupo penetrou, então, em uma das muitas plataformas naturais que havia
no sopé ocidental do monte das Oliveiras. Ainda que na manhã seguinte eu fosse
explorar o terreno com maior facilidade, observei que se tratava de um platô de
uns sessenta a oitenta metros de comprimento por trinta ou quarenta de largura,
perfeitamente cercado por uma mureta de pedra de apenas um metro de altura.
Em um dos lados do retângulo e muito próximo à cancela de entrada, distingui uma
enorme cuba de pedra de um metro e meio de altura. Ao fundo, indistintas na
escuridão, alinhavam-se algumas oliveiras de grossos e tortuosos troncos.
Jesus e os discípulos dirigiram-se diretamente para a direita do olival. Poucos
passos além e aproveitando o muro, os homens do Nazareno haviam montado duas rudimentares tendas ou albergues. Várias peças de lona, presas à base de cordas,
formavam o teto. Mediam uns quatro metros de profundidade por três de largura e
estavam escoradas por dois rugosos ramos de conífera na parte frontal e por um
terceiro no centro da tenda. O teto terminava no cercado de pedras. As laterais,
por sua vez, eram formadas por lonas e peles de cabra, pessimamente costuradas
umas às outras. A entrada, de uns dois metros de altura, sobre o terreno
avermelhado e poeirento, carecia de proteção.
À luz da fogueira que se erguia diante dos dois refúgios, pude observar que o
solo das tendas havia sido recoberto com mantos e esteiras. Ao fundo, percebi
algumas silhuetas, que supus serem apetrechos de cozinha. Mas, como disse, a
escuridão era tão densa que preferi deixar para o dia seguinte um melhor
reconhecimento do terreno e de tudo aquilo que formava aquele horto, propriedade
do velho Simão, “o leproso”.
O reencontro com os demais discípulos ergueu o baixo ânimo dos homens que
acompanhavam Jesus. E de repente nos vimos sentados em volta do fogo. A
temperatura havia baixado demais e os apóstolos, apertados uns contra os outros,
haviam se envolvido em seus pesados roupões. Ali, entre os reflexos avermelhados
dos ramos de nogueira e figueira (dos quais Felipe, o encarregado do
abastecimento, havia feito abundante provisão), cintilando sob um céu estrelado,
conheci pela primeira vez um rapazinho de doze ou treze anos, de cabeça raspada
e acentuadas olheiras, que não pronunciava uma só palavra e seguia as pregações
do Mestre com um interesse e uma devoção que eu não vira ainda até aquele
momento. Seu nome era João Marcos e ele iria ter um importante papel nas horas
seguintes da quinta-feira.
A conversa de Jesus com os apóstolos, enquanto regressávamos ao
acampamento de Getsêmani, foi imediatamente lembrada pelos discípulos. Muito a
contragosto de Jesus, o assunto de sua partida não tardou a ser ventilado por
metade daqueles homens rudes e lentos de pensamento. Tomé, tomando a
palavra, dirigiu-se ao Mestre e perguntou-lhe:
– Posto que vais voltar para terminar o trabalho do reino, qual deve ser nossa
atitude enquanto estiveres fora, nos assuntos do Pai?
Jesus, sentado do outro lado da fogueira, espevitava o fogo com um pedaço de
pau. As altas chamas davam a seu rosto uma estranha majestade. Com invejável
paciência, o Nazareno fitou Tomé por cima das labaredas e respondeu-lhe:
– Nem tu, Tomé, consegues compreender o que venho dizendo.Não vos ensinei
que vossa relação com o reino é espiritual e individual? Que mais devo dizer? A
queda das nações, a ruptura dos impérios, a destruição dos judeus descrentes, o
fim de uma época e mesmo o fim do mundo, que tem tudo isso a ver com alguém
que crê neste Evangelho e que assegurou a proteção de sua vida na segurança do
reino eterno? Vós todos que conheceis Deus e acreditais no Evangelho já
recebestes a segurança da vida eterna. Uma vez que vossas vidas estão nas mãos
do Pai, nada vos deve preocupar. Os cidadãos dos mundos celestiais, os construtores do reino, não devem se preocupar com os abalos temporais ou se
perturbar com cataclismos terrestres. Que vos importa que as nações
desapareçam, as épocas acabem ou todas as coisas visíveis caiam, se sabeis que
vossa vida é um presente do Filho e está eternamente segura no Pai? Tendo vivido
a vida temporal com fé e tendo entregue os frutos do espírito como prova de
serviço por vossos semelhantes, podeis olhar adiante com confiança.
“Cada geração de crentes deve levar adiante sua obra com vistas ao possível
retorno do Filho do Homem, exatamente como cada crente em particular leva
adiante sua vida com vistas à inevitável e sempre iminente morte natural. Quando
vos tiverdes estabelecido como Filhos de Deus, nada mais vos deve preocupar. Mas
não vos equivoqueis! Esta fé viva evidencia cada vez mais os frutos daquele divino
espírito que foi iluminado pela primeira vez no coração humano. O fato de haverdes
aceitado ser filhos do reino celestial não vos poupará de conhecer o repúdio
persistente dessas verdades que têm a ver com os progressivos frutos espirituais
dos filhos encarnados de Deus. Vós, que haveis estado comigo nos assuntos do Pai
na Terra, podeis até abandonar agora este reino. Se virdes que não vos agrada a
forma de a humanidade servir ao Pai, como indivíduos e como crentes, ouvi
enquanto vos conto uma parábola...
Sem querer, ao escutar aquelas últimas frases de Jesus, dirigi meu olhar para
Judas Iscariotes. O homem que em seu coração já havia desertado seguia as
palavras de seu Mestre com uma frieza que me assombrou.
– ... Houve certo homem – prosseguiu o Nazareno – que, antes de partir para
uma longa viagem a outro país, chamou cada um de seus servidores de confiança e
a eles entregou todos os seus bens. A um, deu-lhe cinco talentos,85 a outro, dois,
ao terceiro, um. Aos três confiou seus bens de acordo com suas diferentes
habilidades. Quando o senhor partiu, seus servidores começaram a trabalhar para
tirar benefícios da fortuna que lhes havia sido confiada. Imediatamente, o que
recebera cinco talentos passou a comerciar com o capital e rapidamente auferiu um
lucro de outros cinco talentos. De igual modo, o que havia recebido dois talentos
ganhou logo outros dois. E assim fizeram os servidores, com exceção do terceiro.
Este saiu, fez um buraco na terra e ali escondeu o talento. Mas o amo voltou
inesperadamente e chamou seus servidores. O que havia recebido cinco talentos
adiantou-se até seu senhor e, entregando-lhe os dez talentos, disse-lhe: “Senhor,
deste-me cinco talentos e me apraz apresentar-te outros cinco”. Disse-lhe então o
senhor: “Bem trabalhado, fiel e bom servidor; eu te farei capataz de muitos”. O que
havia recebido dois talentos avançou e disse: “Senhor, entregaste em minhas mãos
dois talentos. Vê, ganhei outros dois”. E disse-lhe o amo: “Bom trabalho, leal
servidor. Tu também foste fiel e agora te darei um posto acima dos outros”. Por
último, chegou o que havia recebido um só talento. “Senhor”, disse, “eu te
conhecia e percebi que eras um homem astuto porque esperavas lucros quando tu,
pessoalmente, não havias trabalhado. Por isso eu temia arriscar o que me havias
confiado. Guardei teu dinheiro a salvo na terra e aqui está ele. Agora tens o que te pertence”. Mas seu senhor respondeu: “És um criado indolente e incapaz. Por tuas
próprias palavras confessas que sabias que eu iria pedir prestação de contas de um
lucro razoável, como teus companheiros fizeram. Sabendo disso, deverias ao
menos ter colocado meu dinheiro nas mãos dos banqueiros, para que, na minha
volta, eu pudesse recobrar meu dinheiro com algum rendimento”.
“E então o senhor disse ao chefe dos criados: ‘Tira o talento deste servidor e o
entrega ao que tem dez’.
“A todo aquele que tem, lhe será dado muito mais e ele terá abundância. Mas,
ao que não tem, até o pouco que tenha lhe será tirado. Não vos podeis conservar
omissos nos assuntos do reino eterno. Meu Pai exige que todos os seus filhos
cresçam na graça e no conhecimento da verdade. Vós, que conheceis essas
verdades, deveis incrementar os frutos do espírito e manifestar uma devoção
crescente no generoso mister de servir a vossos companheiros. E recordai que o
que derdes ao mais humilde de meus irmãos o tereis feito a meu serviço.
“E assim deveis fazer a obra do Pai, agora e mais adiante. Continuai até que eu
venha.
“A verdade é a vida. O espírito da verdade sempre dirige os filhos da luz para
novos reinos de realidade espiritual e serviço divino. A verdade não vos é dada
para que a cristalizeis em formas feitas, seguras e honoráveis.
“Que pensarão as gerações futuras daqueles depositários da verdade se elas os
ouvirem dizer: ‘Aqui, Mestre, está a verdade que nos confiaste há centenas ou
milhares de anos. Não perdemos nada dela. Preservamos fielmente tudo que nos
deste. Não permitimos mudanças no que nos ensinastes. Aqui está a verdade que
nos deste?’.
“Livremente haveis recebido. Portanto, livremente deveis dar a verdade do céu.
Em verdade, em verdade vos digo que então essa verdade se multiplicará e
irradiará nova luz. Até mesmo quando vós mesmos a administreis.”
Já bem entrada a noite, o grupo levantou-se e dividiu-se entre as tendas.
Jesus, porém, ficou só, em frente à figueira, imerso em pensamentos. Eu me
instalei ao pé de uma das velhas oliveiras, envolvido em meu manto. E antes que o
Nazareno se retirasse para descansar em uma das tendas, o sono acabou
dominando-me.
69 Em uma posterior conexão com Eliseu, nosso computador central confirmou que os figos e as tâmaras proporcionavam ao povo judeu o maior índice de açúcar. Geralmente eram postos para secar e depois armazenados em forma de tortas. Esse “pão de figos” era usado até como fármaco para curar úlceras. “Papai Noel” ampliou minha informação, acrescentando que aquela torta de figos que havia sido oferecida a Jesus poderia ser composta pela variedade chamada de “figo de sicômoro”, muito frequente na Palestina do século I. Esse fruto sofria uma punção quando ainda estava na árvore, para apressar sua maturação. (N. do M.)
70 Aquele grupo era partidário da dinastia de Herodes e tinha, entre outras, a missão de denunciar à autoridade romana qualquer movimento ou ataque, mesmo verbal, contra César. (N. do M.)
71 O denário de prata era a moeda de curso legal naquele tempo. Segundo “Papai Noel”, equivalia a pouco menos que o soldo de dois dias de um soldado romano. Nos tempos de César, o estipêndio anual de um soldado romano era de 150 denários. Augusto lhe adicionaria um sobressoldo que o elevava a 22 denários de prata, ou 5.400 asses. Essa importância foi confirmada por Tácito em tempos de Tibério (Ann 1, 17: denis in diem assibus animan et corpus aestimari). Os centuriões, por sua vez, cobravam 2.500 denários/ano, e os chamados primi ordines, 5 mil. (N. do M.)
72 “Sumo Pontífice” e “Salve, Divino Tibério César Augusto”, respectivamente. As inscrições estavam abreviadas. Na realidade, deveriam ser gravadas assim: “Pontifex Maximus” e “Ave Augustus Tiberius Caesar Divinus”. (N. do M.)
73 O computador central do módulo proporcionou-me naquele mesma noite uma extensa e exaustiva informação sobre esse curioso tipo de casamento. A tradição oral hebraica – recolhida da Misná (ordem terceira), na parte dedicada às yebamot, ou cunhadas, segundo as leis contidas no Deuteronômio (25,5-10) – estabelecia que, quando os irmãos habitassem um com outro e um deles morresse sem deixar filhos, a mulher do morto não se casaria com um estranho: “seu cunhado irá a ela e a tomará por mulher”. O primogênito que dela tenha levará o nome do irmão morto, “para que seu nome não desapareça de Israel”. Se o irmão se negasse a tomar por mulher a cunhada, esta se dirigiria aos anciãos e lhes diria: “Meu cunhado nega--se a perpetuar em Israel o nome de seu irmão; não quer cumprir sua obrigação tomando-me por mulher”. Os anciãos da cidade o chamariam e falariam com ele. Se persistisse na negativa, sua cunhada se aproximaria dele na presença dos anciãos, tiraria um sapato do pé dele e lhe cuspiria na cara, dizendo: “Isto se faz com um homem que não mantém a casa de seu irmão”. E sua casa seria chamada em Israel “a casa do descalçado”. Esse matrimônio, que era obrigatório, denominava-se yibbum, quer dizer, de levirato (de levir: cunhado). Quando a cunhada ficava com sucessão, esse matrimônio era proibido. A partir da chamada “cerimônia do sapato”, a viúva ficava livre para se casar com quem quisesse.
Com o passar dos séculos, essa norma foi se perdendo e nos tempos de Jesus quase não era praticada, guardando, na melhor das hipóteses, um caráter puramente simbólico ou de trâmite legal. (N. do M.)
74 Diz o citado texto bíblico: “Falou Jeová a Moisés assim: Fala aos filhos de Israel e diz-lhes: se a mulher de um fornicar e lhe for infiel, dormindo com outro em concúbito de sêmen, sem que o marido tenha visto, nem haja testemunhas por não haver sido achada no leito, e se se apoderar do marido o espírito dos ciúmes e tiver ciúmes dela, tenha ela se manchado em realidade ou não, ele a levará ao sacerdote e oferecerá por ela uma oblação da décima parte de um efá de farinha de cevada, sem derramar-lhe azeite nem pôr-lhe incenso, porque é minjá de ciúmes, minjá de memória para trazer o pecado à memória. O sacerdote fará que se aproxime e esteja diante de Jeová, tomará a água santa em uma vasilha de barro e, colhendo um pouco de terra do solo do Tabernáculo, a colocará na água. Em seguida, o sacerdote, lhe descobrirá a cabeça e lhe colocará nas mãos a minjá da memória, a minjá dos ciúmes, tendo na mão a ‘água amarga’ da maldição, e fazendo a mulher ficar diante de Jeová a conjurará, dizendo: ‘Se ninguém dormiu contigo e se não te transviaste, contaminando-te e sendo infiel a teu marido, sejas indene à água amarga da maldição; mas se te transviaste e foste infiel a teu marido, contaminando-te e dormindo com outro’ – aqui o sacerdote a conjurará com o juramento da execração –, ‘bebe, e que teu ventre inche, entre esta água da maldição em tuas entranhas, para fazer que teu ventre inche e teus músculos apodreçam’. A mulher responderá: ‘Amém, amém!’. O sacerdote escreverá essas maldições em uma folha e a diluirá na água amarga, e fará a mulher beber a água amarga da maldição. Depois tomará da mão da mulher a minjá dos ciúmes e a agitará diante de Jeová e a levará ao altar; e tomará um punhado da oferenda da memória e o queimará no altar, fazendo depois a mulher beber a água. Dará de beber a ela a água; e se ela se houver contaminado, tendo sido infiel a seu marido, a água da maldição entrará nela com sua amargura, seu ventre inchará, seus músculos secarão e ela será maldita no meio de seu povo. Se, ao contrário, não se contaminou e é pura, ficará ilesa e será fecunda... Assim o marido ficará livre de culpa e a mulher carregará sobre si seu pecado”. (N. do M.)
75 “Papai Noel”, nosso computador, completou minha informação sobre as “águas amargas” acrescentando que já no Código de Hamurabi existia um precedente similar. Se uma mulher se tornasse suspeita de adultério, seria lançada na corrente do Eufrates. Se saísse com vida, seria considerada inocente. Se perecesse, sua culpa estaria evidenciada. (N. do M.)
76 A mulher judia só teria direito a pedir divórcio se o marido exercesse uma destas três profissões: coletor de excrementos de cachorro, fundidor de cobre, ou curtidor (escrito rabínico Ketubot VII, 108). E isso se devia unicamente ao mau cheiro produzido por essas atividades. A Lei estipulava também que a esposa podia solicitar o divórcio se, a partir dos treze anos, o marido a obrigasse a fazer votos, abusando de sua dignidade, ou se ele padecesse de lepra ou pólipos. (N. do M.)
77 Um log, medida utilizada para líquidos e grãos, equivalia a meio litro, aproximadamente. (N. do M.)
78 Um efá, medida de capacidade hebraica, equivalia a 72 log. Nesse caso, a Bíblia mandava que se oferecesse um décimo de efá, ou seja, 7,2 log ou, o que dá no mesmo, uns 3.600 gramas aproximadamente. (N. do M.)
79 Esse sulfeto, diferentemente do chamado “sulfeto vermelho de arsênico”, abundante na Boêmia, era fácil de encontrar na Pérsia. Daí que os israelitas pudessem ter melhor acesso ao “amarelo”. Ambos, todavia, reúnem características parecidas, como o fato de serem solúveis em soluções alcalinas. O “amarelo”, porém, por conter em potencial o citado anidrido arsenioso, é no fundo muito mais tóxico do que o “vermelho”. Era também muito mais comum no comércio daquela época, sendo conhecido até por Teofrasto, que viveu trezentos anos antes de Cristo. (N. do M.)
80 O carbonato de potássio, em especial, é fortemente alcalino no contato com a água, gozando, além disso, de grande poder cáustico e corrosivo, o que pode concorrer para a melhor desintegração das lâminas de sulfeto de arsênico e para a dissolução da tinta. (N. do M.)
81 Contrariando a crença popular, o ácido arsenioso não tem sabor amargo, mas ligeiramente açucarado. (N. do M)
82 Ainda que os gregos e os romanos conhecessem as variedades do sulfeto de arsênico nativo, parece que não se teve conhecimento do ácido arsenioso – ao menos na Europa – antes da época de Geber (século IX). Embora já citado por Paracelso, só foi bem definido quanto a suas propriedades e natureza em 1732, pelo famoso alquimista Brand. (N. do M.)
83 O professor E. Kochva, do Departamento de Zoologia da Universidade de Tel Aviv, manifestou-se também de acordo com esta última hipótese. Se as mucosas que protegem as paredes internas do trato intestinal forem rompidas, as “águas amargas” podem converter-se em veneno ativo. (N. do M.)
84 Em sua obra Guerra dos Judeus, Flávio Josefo, de fato, fala desse aqueduto, que constituiu outro dos graves erros de Pôncio Pilatos. Sem o menor tato político, o governador mandou utilizar o tesouro que os judeus chamavam de “Corbonão” para trazer a água. Aquilo provocou uma revolta, mas Pilatos atuou com energia, ordenando que seus soldados espancassem os manifestantes, o que deu lugar a uma grande mortandade. Recentes descobertas arqueológicas demonstraram que o aqueduto ia até o posteriormente denominado monte dos Francos, nas cercanias de Belém. (Nesse monte assentava-se a fortaleza de Herodes.). (N. do M.)
85 Dependendo das naturais oscilações financeiras, um talento podia equivaler a 3 mil siclos de prata (cerca de 12 mil denários de prata). Os oito talentos, portanto, eram uma considerável fortuna. (N. do M.)