Cavalo de Tróia 1: Jerusalém
5 de abril, quarta-feira
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
de vinho, Pilatos não tirava os olhos de mim. Mas a curiosidade era mútua.
Sinceramente, a imagem que eu havia concebido daquele homem estava muito
distante da realidade. Seu talhe pequeno – talvez um metro e meio –
desconcertou-me. Era gordo, com um ventre proeminente, que ele tentava
disfarçar sob as pregas de uma toga de seda de esfumado tom violáceo, que caía
do ombro esquerdo, envolvendo e enfaixando o abdome e parte do tórax. Sob esse
manto, reluzia uma túnica branca, igualmente de seda, com delicados brocados de
ouro em todo o contorno do pescoço grosso e curto de Pôncio. A túnica caía até os
tornozelos.
Desde o primeiro momento impressionou-me seu cabelo. Não posso afirmar,
mas estou quase certo de que havia recorrido a uma peruca para ocultar a calvície.
A disposição do cabelo, caindo exagerada e estudadamente sobre a fronte, e o
claro contraste com os compridos fios que pendiam sobre a nuca em forma de crina
delatavam a existência de uma peruca loira. Pouco a pouco, à medida que o fui
conhecendo, observei nele um afã quase mórbido de imitar em tudo o Imperador. E
o cabelo postiço parecia ser outra prova disso. A calvície, segundo os historiadores,
era uma das características dos Cláudio. Tibério havia perdido o cabelo na sua
longínqua juventude e utilizava, ao que se sabe, perucas loiras, confeccionadas,
segundo Ovídio, com cabeleiras de escravas e prisioneiras dos povos bárbaros.
Outros imperadores, como Júlio César e Calígula, apresentavam a mesma
anomalia. Sêneca descreve magistralmente o grave complexo de Calígula por
causa de sua calvície. “Olhar para sua cabeça diz o historiador – era um crime...”
Claro que eu, preocupado com minha saúde, procurei olhar o menos possível
para a peruca de Pilatos...
Uma cárie galopante havia dizimado seus dentes, salpicando-os de pontos negros que tornavam ainda mais desagradável aquele rosto branco, inchado e
redondo como um escudo. Pôncio, consciente desse problema, havia procurado
repará-los, fazendo colocar dois dentes de ouro no maxilar superior e um no
inferior. Aquelas próteses, além disso, serviam para proclamar sua privilegiada
situação econômica. Pilatos sabia disso e, mesmo sem motivo, observei, sentia-se
encantado em sorrir e mostrar “seus poderes”.91
Apesar de apuradamente barbeado e do perfume que utilizava, seu aspecto
geral era pouco agradável. Creio também que a descrição física de Pôncio Pilatos
enquadrava-se na classificação tipológica feita por Ernest Kretschmer. Ao menos do
ponto de vista exterior, coincidia com o chamado tipo “pícnico”. Mas o que
realmente me interessava era seu modo de ser. Era vital poder mergulhar em seu
espírito, a fim de entender melhor suas motivações e extrair algum tipo de
conclusão sobre seu comportamento na manhã de sexta-feira, 7 de abril.
O governador agradeceu a gentileza de José e, dirigindo-se a mim, perguntou-
me entre risotas:
– E como está o “velhinho”?
Eu sabia que o caráter áspero e a extrema seriedade de Tibério, desde a sua
juventude, haviam-lhe valido essa alcunha. E procurei responder sem perder a
calma:
– Em minha viagem até esta província oriental, tive a honra de vê--lo em seu
retiro na ilha de Capri. Sua saúde continua se deteriorando tão rapidamente quanto
seu humor...
– Ah! – exclamou, simulando não conhecer a notícia. – Mas é certo que voltou a
Capri?
Aquilo acabou por alertar-me. Pilatos, com aquelas perguntas e com as que se
seguiriam, queria certificar-se de que eu fazia parte do grupo de astrólogos que
rodeavam Tibério e que Juvenal (anos mais tarde) qualificaria ironicamente de
“rebanho caldeu”. A sorte estava lançada. Assim, procurei seguir-lhe a corrente...
Como medida de precaução, a equipe do projeto Cavalo de Troia havia
estabelecido que, enquanto durasse minha reunião com Pilatos, a conexão auditiva
com o módulo fosse praticamente permanente. A informação auxiliar de “Papai
Noel”, nosso computador, poderia ser de grande utilidade. Daí que, durante toda a
entrevista, eu permaneci com a mão direita na orelha, simulando dificuldade para
ouvir meu interlocutor. Na realidade, como já expliquei, essa tática permitia que as
vozes dos presentes chegassem com nitidez a Eliseu...
– Compreendo que as notícias cheguem até ti com atraso – fingi – e que ainda
não estejas informado do retiro voluntário do Imperador em Capri. Ele está lá hoje,
em companhia de seu amigo e mestre de astrólogos, o grande Trasilo.
Pôncio não se dava por vencido. Aquela delicada situação parecia diverti-lo.
– Então – voltou, sem abandonar seu falso sorriso –, deve ter levado consigo
um médico pessoal, Musa...
O novo ardil de Pilatos tampouco deu frutos. Eu sabia que Antônio Musa havia sido o médico de seu antecessor, Augusto. Mas como podia corrigir o supremo
chefe das forças romanas na Judeia sem feri-lo?
– Não, governador. Sei que Tibério admirou os cuidados de Musa para com seu
padrasto, mas o Imperador preferiu levar o não menos prudente e eminente
Charicles. Segundo minhas notícias, Tibério chama-o de quando em quando a
qualquer das onze vilas de Capri onde habita.
Pilatos começou a brincar com o pequeno falo de marfim que pendia de seu
pescoço. Tal adorno – tão usual na Roma imperial – demonstrou-me algo de que
eu não suspeitava: aquele romano era profundamente supersticioso. A presença de
falos em todos os tipos de adornos, colares, anéis, móveis, pinturas etc., era
motivada pelo afã dos cidadãos romanos de atrair a sorte e evitar a desgraça.92
– Sim – murmurou com um certo desprezo em suas palavras –, Tibério sempre
foi um homem doente... E todos padecemos às vezes com sua irritabilidade.
Suponho, Jasão, que sua debilidade será cada vez maior...
Naqueles comentários havia uma parte de verdade. Mas, entre essas meias
verdades, também se dissimulavam novos desafios à minha capacidade como
suposto astrólogo e, ainda, ao meu conhecimento de Tibério.
– Posso te assegurar – recoloquei – que Tibério conserva toda a sua força. É
capaz, como bem sabes, de perfurar uma maçã verde com o dedo. Sua velhice
(Tibério tinha, naquele ano 30, uns 73 anos) não diminuiu seu vigor, apenas sua
vista... Mas em algo, sim, estou de acordo com tua sábia opinião. O Imperador é
um homem atormentado por seu destino. Não soube elevar-se acima das
circunstâncias adversas do divórcio que Augusto lhe impôs. Jamais esquecerá seu
grande amor: Vipsânia. Esse fato mais o caráter possessivo e ambicioso de sua
mãe, Lívia, e as repulsivas úlceras que lhe enfeiam o rosto acabaram por
transformá-lo em um homem tímido, ressentido e fugidio.
(Nesse instante Eliseu interveio, comunicando-me que, segundo Plínio, o Velho,
em sua História Natural, Tibério era um dos homens com melhor capacidade visual
do mundo. Era capaz de ver nas trevas, como a coruja, ainda que durante o dia
sofresse de miopia. Essa foi – segundo Dion, em sua História de Roma – uma das
razões que alegara para não aceitar o Império.)
– ... Tímido, ressentido, fugidio e cruel – arrematou Pilatos com um gesto
grave, enquanto trocava um olhar com seu centurião.
Em minha opinião, o governador estava satisfeito com minha “representação”.
A partir desse momento, suas perguntas e seus comentários deixaram de ser tão
venenosos. Todavia, aquelas afirmações haviam começado a jorrar luz sobre o
comportamento de Pôncio Pilatos com respeito ao Imperador e especialmente
sobre o que ele achava de Tibério e suas ações. Por um lado, como tive a
oportunidade de verificar, Pilatos gostava de imitar seu César. Por outro, ele o
odiava e o temia com a mesma intensidade. Aqueles últimos anos de Tibério,
desde um pouco antes de seu retiro em Capri, tinham sido de autêntico terror.
Suetônio, ao descrever esse momento, assegura que “o furor de denúncias que se desencadeou sob Tibério, mais do que todas as guerras civis, esgotou o país em
plena paz”.
Todos eram espionados e tudo podia ser motivo de secreta delação ao
Imperador. O caráter desconfiado de Tibério alimentou – e não pouco essa onda de
denúncias. E quando algum homem valoroso, como o foi Calpúrnio Pison, levantava
sua voz para protestar contra a situação, César encarregava-se de aniquilá-lo.
Tibério via traidores e traições até mesmo em seus mais íntimos amigos e
colaboradores. O terror tiberiano chegou a tais extremos que – é ainda Suetônio
quem conta – “espionava-se até uma palavra que tivesse escapado em um
momento de embriaguez, e até o gracejo mais inocente podia constituir pretexto
para denúncia”.
Essa gravíssima situação, de enorme transcendência – em minha opinião –
quando se julga o comportamento de Pilatos em relação a Jesus de Nazaré, fica
perfeitamente esboçada num fato protagonizado por Paulo, um pretor que
participava de uma refeição. Sêneca o conta em sua obra A Beneficência: Paulo
usava um anel com um camafeu em que estava gravado o retrato de Tibério César.
Pois bem, o bom Paulo, aflito com uma necessidade fisiológica, cometeu a
imprudência de apanhar o urinol com a mão do anel. O fato foi observado por um
tal de Maro, um dos mais conhecidos delatores da época. Mas um escravo de Paulo
o advertiu de que Maro o espionava e, rapidamente, aproveitando-se da
embriaguez de Paulo, tirou-lhe o anel do dedo no exato momento em que Maro
pegava os comensais como testemunhas da injúria que ia ser feita ao Imperador,
com sua efígie se aproximando do urinol. Nesse instante, o escravo abriu a mão e
mostrou o anel. Aquilo salvou o descuidado Paulo da morte certa e da perda total
de seus bens, que, pela lei de Tibério, iriam para as mãos do delator. Isso e velhos
ódios eram as causas mais comuns de todas as delações.
Naturalmente, Pôncio Pilatos conhecia estes fatos e receava – como qualquer
outro cidadão de Roma – ser alvo dos muitos delatores profissionais ou amadores
que pululavam então. No pouco tempo que permaneci junto a Pilatos, intuí que o
governador não era exatamente um covarde. O fato de representar o Imperador
numa província tão difícil e revoltosa como a Judeia já pressupunha, ao menos
teoricamente, que ele fosse um homem de temperamento duro.93 E, ainda que
tenham sido erros políticos, ele demonstrou bem esse temperamento quando se
negou a retirar as figuras de César levadas a Jerusalém ou quando se apropriou do
tesouro do Templo para construir um aqueduto. Creio, a bem da verdade, que
aquele indivíduo podia sentir medo – e assim ocorreria na sexta-feira – da situação
que o Império atravessava naqueles anos, mas não da verdade, quando esta surgia
limpa e diretamente entre dois homens. Pilatos apresentava-se diante de mim
como um homem emocionalmente instável, mas não como um covarde, como
sempre se pretendeu. (Este, como veremos mais adiante, é outro conceito que
deveria ser revisado, em especial pela Igreja Católica.)94
– ... Tímido, ressentido, fugidio e cruel – repetiu o governador, imerso em seus inescrutáveis pensamentos.
O silêncio caiu como um fardo sobre o salão. José, que parecia não dar crédito
a tudo que havia escutado, mexeu-se nervosamente na cadeira de couro.
Aquele violento silêncio deve ter tirado Pilatos das profundezas de sua mente,
porque, adotando um tom mais conciliador, perguntou-me de novo:
– Mas, conta-me, Jasão, a que se dedica agora o Imperador... Que faz?
– Como já comentei, entendo que Tibério escapou de Roma... fugindo de si
mesmo...
Intencionalmente, fiz uma pausa. Os olhos de Pilatos faiscaram. E ele assentiu
com a cabeça.
– ... Seu mortal inimigo – prossegui – é seu ressentimento e sua falta de
generosidade. E os astros – arrisquei intencionalmente – anunciam fatos que
comoverão o Império. Agora dedica-se a passear solitário, como sempre, pelas
íngremes escarpas de Capri. Não fala com ninguém, à exceção de seus astrólogos,
e posso assegurar que sua desconfiança e instabilidade senil são tais que o levam
até a assassinar companheiros meus.
– Está matando seus astrólogos? – interrompeu-me o governador, com um ricto
de incredulidade. Aquela notícia, ao que parecia, ainda não havia chegado à
remota Palestina. Então, procurei aproveitar-me do fato.
– Pois é. Sua demência está comprometendo a todos os que o conhecem. Cada
tarde Tibério recebe um astrólogo. E faz isso na mais alta das doze vilas que fez
construir na ilha e que, como sabes, são dedicadas a doze deuses. Pois bem, se o
Imperador crê que o astrólogo de plantão não lhe disse a verdade nos seus
presságios, ordena ao robusto escravo que o acompanha que, em seu regresso ao
palácio, jogue o caldeu nas escarpas...
Pilatos sorriu maliciosamente e, com um sinal de seu indicador, perguntou sem
rodeios:
– E tu?... Como continuas vivo?
– Procurei seguir os conselhos de meu mestre, Trasilo, e os que me ditou meu
próprio coração. Quer dizer, disse a verdade ao Imperador...
(Eliseu transmitiu-me então o texto de uma lenda que circulou naquela época e
que, se for verdadeira, confirma a já citada dureza de caráter de Tibério: “Quando
foi chamado por César para que lhe anunciasse seu futuro, Trasilo, empalidecendo,
anunciou-lhe que um grande perigo o ameaçava. Tibério, confortado por sua
lealdade, beijou-o e o tomou como o primeiro dos seus astrólogos”.)
Pilatos não pôde conter sua curiosidade e perguntou-me:
– E quais são os fatos que, segundo tu dizes, comoverão todo o Império?
– Temos lido os astros e estes preveem um gravíssimo acontecimento que
afetará, sobretudo, o Imperador...
Eu tinha naquele momento a enorme vantagem de conhecer a História.
Estávamos no ano 30 e procurei centrar minhas “previsões” no futuro imediato.
– Continua! Continua! – pressionou-me Pilatos, sacudindo-me simbolicamente com suas mãos curtas e gorduchas, entre cujos dedos rosados destacava-se o selo
de ônix de sua chefatura.
– Sejano...
Ao ouvir aquele nome, pronunciado por mim com uma bem calculada
teatralidade, perdeu a cor. Naquela época – e especialmente desde que César se
retirara para Capri no ano de 26 d.C. –, Aélio Sejano, comandante-em-chefe das
forças pretorianas de Roma e homem de confiança de Tibério, era o autêntico
“imperador”. A mal dissimulada ambição desse general e sua influência sobre
Tibério, haviam-no convertido em um segundo horror para os cidadãos do Império.
Seu poder era tal que sua imagem chegou a figurar, junto com a de César, nos
postos de honra da cidade, nas insígnias das legiões e até nas moedas.95 Seus
verdadeiros desígnios – chegar a substituir Tibério no Império – conduziram-no a
todo tipo de desmandos, intrigas e assassinatos. Tentou até mesmo casar-se com
uma das netas de Tibério (possivelmente Júlia Livila, filha de Germânico), mas
César frustrou-lhe o plano, destruindo, assim, suas esperanças de eliminar a origem
obscura e humilde de seu berço. Homem frio e calculista, o lugar-tenente de
Tibério foi eliminando os possíveis sucessores do Imperador e iniciou uma brutal
ofensiva contra Agripina (neta de Augusto) e seus filhos Nero I, Druso III, Caio
(mais conhecido por Calígula), Agripina II, Drusila e Júlia Livila. Esses ataques de
Sejano começaram por dois prestigiosos representantes do partido de Agripina:
Sílio e Sabino. O suicídio do primeiro, grande militar, no ano 24 d.C., para não ser
executado, e o processo e posterior assassinato do segundo (ano 28 d.C.)
imergiram Roma e suas províncias na angústia. Tácito confirmou esses fatos: “A
consternação e o medo jamais reinaram como então em Roma”.
Pilatos e o centurião que nos acompanhava sabiam muito bem quem era
Sejano e qual o seu poder. A História, como já citei, e muito especialmente a Igreja
Católica deveriam ter explicado ao mundo – ou, pelo menos, aos que se dizem
crentes – a funesta influência que exercia sobre todo o Império (precisamente
naqueles anos cruciais) o primeiro-ministro de Tibério.
Só assim – conhecendo o férreo e despótico governo de Sejano e a não menos
cruel atitude de Tibério – pode-se começar a intuir por que Pilatos iria “lavar as
mãos” no processo contra o Mestre da Galileia. Todos os governadores romanos de
províncias – e não só Pôncio – sabiam que seus cargos e vidas pendiam de um
simples fio. O menor escândalo, murmúrio ou denúncia os levava irremissivelmente
à destituição, desterro ou execução. Como veremos em seu devido tempo, o
governador romano na Judeia, sensível à ameaça dos judeus de acusá-lo diante de
César de permitir que um daqueles judeus se proclamasse “rei”, preferiu curvar-se
e evitar um enfrentamento com o implacável Sejano ou com Tibério, cada um mais
intolerante que o outro...
Acho, portanto, que nas circunstâncias sociais, políticas e de governo daquele
ano 30 no Império, o ato de Pilatos não foi de covardia, mas de “diplomática
prevenção”..., com uma alta dose de loucura. Entre os dois termos, creio que haja uma clara diferença, que, embora não justifique o comportamento do
representante do Imperador (ou de Sejano, neste caso), ajuda a compreendê-lo
melhor.
– Que tem a ver esse – perguntou Pilatos em tom pejorativo – com teus
augúrios?
A Operação Cavalo de Troia havia planejado minuciosamente aquela minha
entrevista. E embora estivesse previsto que eu tentaria ganhar sua confiança e
amizade – visando, sobretudo, obter maior facilidade de movimento no interior da
torre Antônia na manhã de sexta-feira –, os homens do general Curtiss haviam
julgado não ser recomendável avisar Pôncio Pilatos da trágica queda de Sejano no
dia 31. Se o governador chegasse a acreditar de pés juntos nessa “profecia” (que
se cumpriria, de fato, em 18 de outubro do mesmo ano), seu medo de Sejano
poderia desaparecer em parte e, com isso, a decisão de executar Jesus estaria
sujeita a uma mudança. O que, logicamente, iria contra a mais elementar ética do
projeto. Éramos simples observadores e qualquer manobra nossa que pudesse
provocar uma alteração da História estava rigorosamente proibida.
Assim é que me limitei a expor-lhe apenas uma parte da verdade.
– Os astros – disse-lhe, adotando um ar solene – têm se mostrado favoráveis a
Sejano. Seu poder será aumentado, com sua elevação a cônsul...96
Pilatos, como eu supunha, concedeu crédito a meu vaticínio. Ao escutar minha
“previsão”, abandonou a mesa, colocando-se de frente para o janelão que fechava
aquele arco de salão. Permaneceu assim durante alguns minutos, com as mãos às
costas e a cabeça ligeiramente inclinada para a frente.
– Então... cônsul... – murmurou de repente. E, sem se voltar, pediu--me que
prosseguisse.
– Mas isso não é o mais grave – acrescentei, fixando o olhar no do centurião. –
Os astros assinalam uma grave conjura contra o Imperador...
Não pude prosseguir. Pilatos voltou-se, fulminando-me com o olhar.
– Tibério sabe?
– Meu mestre, Trasilo, encarregou-me de anunciar-lhe, pouco antes de minha
partida de Capri.
– Bem – retrucou o governador –, as cortes da Síria estão inquietas por causa
de Sejano... Mas não é necessário ser astrólogo para esperar que um dia ou
outro...
– É que os astros – interrompi, utilizando toda minha capacidade de persuasão
– apontaram um nome...
Pilatos nada disse. Recolheu sua larga túnica e sentou-se muito lentamente,
sem deixar de observar-me. Eu olhei para o centurião, simulando certa
desconfiança pela presença daquele oficial, mas Pôncio – captando minha
hesitação – apressou-se a tranquilizar-me:
– Nada temas. Civílis é meu primipilus.97 Toda a legião está sob seu comando.
Podes falar com inteira liberdade... Aqui – argumentou Pilatos, indicando o salão onde nos encontrávamos – não há aberturas ardilosamente preparadas, como
ocorreu com o ingênuo Sabino...98
Fingi ter absoluta confiança nas afirmações de meu interlocutor e prossegui:
– Sejano...
– Esse bastardo? – prorrompeu o governador, com uma nova gargalhada.99
E numa daquelas bruscas mudanças de humor, Pilatos golpeou a mesa com seu
punho, fazendo saltar alguns dos pergaminhos e papiros cuidadosamente enrolados
e empilhados sobre uma bandeja de madeira. Alguns daqueles documentos ou
cartas de pele de cabra, terneiro ou cordeiro – que os romanos chamavam de
“membrana” –, rolaram pelo tabuleiro e caíram aos pés do oficial, que se apressou
a recolhê-los, enquanto o governador, nervoso e evidentemente confuso, aferrava-
se a seu amuleto fálico de marfim.
– Estás seguro? – balbuciou Pilatos.
Mas, antes que eu tivesse a oportunidade de responder, ele olhou para o
centurião e o interrogou:
– Que sabes tu?
O oficial negou com a cabeça, sem despregar os lábios.
– Uma conjura contra Tibério...
Na verdade, Pilatos falava consigo mesmo. Levou os dedos à cara, acariciando
o queixo em atitude reflexiva, e, por fim, levantando os olhos para o teto,
perguntou-me como se acabasse de pilhar-me em erro:
– Vejamos se compreendi... A astrologia diz que os deuses estão com Sejano...
Mas tu acabas de anunciar também que ele prepara uma conjura contra César... Se
for assim, e posto que dizes que Tibério está informado, como é possível que o
chefe dos pretorianos continue gozando da confiança do Imperador? Responde!
Pilatos havia voltado a olhar-me de frente, com uma ferocidade que fez José de
Arimateia tremer.
Mas eu sustentei seu olhar. Tal como havíamos previsto, ele mordeu a isca.
E, com toda a calma, entrei diretamente em busca do que realmente me havia
levado até ali.
– Existe um plano...
Pôncio apaziguou-se. Agora eu estava seguro de que minha serenidade o havia
desarmado.
– Fala!...
– Mas antes – retomei – gostaria de solicitar de ti um pequeno favor...
– Concedido! Mas fala! Fala!...
– Sabes que, além de meus estudos de astrologia, dedico-me ao comércio de
madeiras. Pois bem, um rico cidadão romano da Tessalônia soube do maravilhoso
sistema de calefação subterrâneo que Augusto mandou construir sob o piso do seu
triclinium (refeitório imperial). Roma toda está inteirada de teu gosto delicado e de
que mandaste colocar debaixo do teu triclinium outro sistema parecido. Recebi o
encargo expresso e encarecido desse amigo meu da Grécia de consultar-te – se julgares prudente falar – sobre alguns detalhes técnicos dessa instalação. Sou
portador de uma carta na qual ele te roga que me permitas fazer algumas
consultas a respeito.
Dito isso, tirei de minha bolsa de borracha um pequeno rolo de pergaminho,
meticulosamente lacrado e confeccionado pelos homens do Cavalo de Troia. 100
Estendi-o a Pilatos, que, para dizer a verdade, não saíra de seu assombro.
Depois de ler a mensagem do meu amigo imaginário, deixou cair o pergaminho
sobre a mesa, visivelmente satisfeito com tanta adulação.
– Não sabia que em Roma conheciam...
Assenti com um sorriso.
– Bem, concedido. Amanhã mesmo poderás fazer todas as perguntas que
achares necessárias...
– Amanhã, estimado governador – interrompi –, não poderei vir à fortaleza
Antônia. Mas na sexta...
– Não se fala mais nisso: na sexta.
– Não desejo abusar de tua consideração – forcei –, mas tu sabes como é difícil
o acesso a tua residência. Poderias proporcionar-me uma ordem ou um salvo-
conduto que facilitasse meu trabalho?
Pôncio começava a perder a paciência. E, com um gesto de irritação, fez um
sinal ao centurião para que lhe passasse um dos rolos que se alinhavam em uma
ampla estante colocada às costas do oficial – e que, a uma simples inspeção visual,
deveria reunir uma centena de rolos. O governador tomou uma pena de bronze e
rabiscou uma série de frases, com letra quase quadrada, em latim.
– Aqui tens – disse-me um tanto irritado, enquanto me entregava a ordem. –
Sexta-feira, ao apresentares esta autorização, deverás perguntar por Civílis... E
agora, por todos os deuses, fala de uma vez.
(“Bravo!” A exclamação de meu companheiro Eliseu no módulo me fez recobrar
o ânimo.)
– O que vou relatar – recomecei, baixando um pouco o tom de voz – é
extremamente secreto. Só o Imperador e alguns de seus íntimos em Capri, entre os
quais Trasilo, meu mestre, sabem disso. Espero que tua proverbial prudência saiba
guardar e administrar tudo o que vou revelar.
“Tibério, como te disse, não está alheio a essa conjura. Ele sabe, como tu, das
intrigas de Sejano e de sua responsabilidade nas mortes e no desterro de Agripina
e seus filhos. Mas deu ordens secretas para que Antônia101 e seu neto Calígula
viajem até Capri e se ponham sob sua proteção...”
Pôncio Pilatos permaneceu boquiaberto, como se estivesse vendo um fantasma.
Por fim, quase gaguejando, conseguiu dizer:
– Calígula!... Claro, o bisneto de Tibério... O “Botinha”... 102 Então, se os planos
de César se cumprirem – comentou, dirigindo-se a seu chefe de centuriões –, já
podemos imaginar quem será seu sucessor...
Depois, como se tudo aquilo fosse extremamente confuso para sua mente, voltou a interrogar-me:
– Mas que dizem os astros sobre a vida de Tibério? Durará muito?
Minha resposta – como era minha intenção – desarvorou o incipiente
entusiasmo do governador, que parecia sonhar com o desaparecimento do rígido e
cruel Tibério.
– O suficiente para que ainda corra muito sangue...
(Eu sabia, obviamente, que a morte de Tibério não ocorreria antes do ano 37.)
A súbita entrada de um dos serviçais no salão oval, anunciando que o almoço
estava pronto, interrompeu aquela conversa. Eu, sinceramente, respirei aliviado.
Mas Pilatos, entusiasmado e agradecido por minhas revelações, pediu-nos que
o acompanhássemos. José e eu nos olhamos; e o ancião, que não havia aberto a
boca durante toda a entrevista, concordou com gosto.
(Eu não podia suspeitar que, graças àquele convite, ao atrasar nossa saída da
fortaleza Antônia, eu teria a ocasião de presenciar um fato extremamente
ilustrativo para a melhor compreensão do obscuro episódio da fuga dos guardiães
do túmulo onde seria sepultado Jesus de Nazaré.)
Um pouco mais relaxados, dirigimo-nos os quatro até o extremo oposto de
onde havíamos mantido a entrevista. Pôncio, adiantando-se ligeiramente,
conduziu-nos para um recolhido triclinium, separado do “escritório” oficial por
cortinas de musselina semitransparente.
A rapidez com que havíamos sido introduzidos no salão oval e a circunstância
de eu haver permanecido todo o tempo na parte norte, de costas para o resto,
haviam me impedido de observar detidamente o local. Minha missão na manhã da
sexta-feira seguinte obrigava-me a conhecer o mais exatamente possível sua
distribuição. Assim é que aproveitei aqueles momentos para – simulando interesse
especial por um busto alojado num amplo nicho existente no centro da parede,
onde ficava também a biblioteca de Pilatos – “fotografar” mentalmente todos os
detalhes que pude.
Pôncio parou ao ver que eu ficara para trás. Inclinei-me ligeiramente sobre
aquele pequeno busto de bronze, reconhecendo com surpresa que se tratava de
uma efígie idêntica (talvez fosse a mesma) à que eu havia visto durante meu
treinamento no Gabinete de Medalhas da Biblioteca de Paris. Nesse busto do
Imperador Tibério não faltava na boca o seu característico ricto de amargura.
– Bonito! – exclamei.
E o romano, com um sorriso irônico, perguntou:
– Quem? César ou o busto?
– A escultura, certamente. Em minha opinião – acrescentei, assinalando a
postura da boca – é um dos poucos bustos que lhe fazem certa justiça...
– Aprecio sua sinceridade, Jasão – disse o governador, aproximando-se de mim
e dando-me uma palmadinha nas costas. E acrescentou: – Sabes? Eu gostaria de
adivinhar o que a História dirá desse tirano.
– Isto – respondi –, precisamente isto: “Aqui jaz um déspota cruel e um tirano sanguinário...”.
Como poderia Pôncio Pilatos imaginar que eu lhe estava anunciando o epitáfio
que biógrafos de Tibério escreveram sobre seu túmulo no ano 37? Ainda que
também seja certo – e nisso eu compartilho da opinião do grande historiador
Wiedermeister – que, se Tibério houvesse nascido no ano 6 a.C., a História lhe
teria dedicado uma frase bem diferente: “Aqui jaz um grande estrategista”.
– Eu, ao contrário, faria cinzelar sua frase favorita: “Depois de mim, que o fogo
faça desaparecer a terra!”.
Pilatos tinha razão. Como Sêneca e Dion registraram, essa era a frase mais
repetida por Tibério.
À direita e à esquerda do busto de César, cravados em diferentes pés de
madeira, haviam sido colocados a insígnia da legião e o signo zodiacal de Tibério,
respectivamente. A primeira: uma águia metálica (provavelmente em bronze
dourado), com as asas estendidas e um feixe de raios entre as garras; o segundo,
um escorpião, igualmente metálico e de intenso brilho dourado. Essas sagradas
insígnias romanas estavam montadas cada qual em uma haste de mais de dois
metros de comprimento, ambas providas de ponteiras metálicas, para que
pudessem ser cravadas na terra – ou, como no caso, em uma base de madeira.
Seguindo essa mesma parede, o salão apresentava uma porta muito mais
sóbria e reduzida do que a do acesso pelo vestíbulo. Por ali havia entrado o serviçal
e por ali, supus, se poderia chegar aos cômodos privados de Pilatos.
O resto do salão estava praticamente vazio. No total, contando o pequeno
refeitório que arrematava aquele aposento elipsoidal, o lugar devia medir cerca de
dezoito metros no diâmetro maior por nove no diâmetro menor. O teto, de uns
treze metros, totalmente abobadado, pareceu-me uma prova a mais da ostentação
e do esforço consciente colocado por Herodes na construção daquela fortaleza.
Mas minha surpresa foi ainda maior quando, ao se abrirem as cortinas que
dividiam o triclinium do salão de “despacho”, uma cascata de luz nos inundou a
todos. Em lugar de uma grande janela gêmea, como a que existia no outro
extremo do salão, os arquitetos haviam aberto no teto uma claraboia retangular de
mais de três metros de largura, fechada por uma lâmina de vidro. O sol, em seu
zênite, entrava em caudais, proporcionando à acolhedora sala uma luminosidade e
um calor tíbio aos quais agradeci profundamente. No centro, estava disposta uma
mesa circular, de apenas quarenta centímetros de altura, coberta com uma toalha
de linho branco e adornada no centro com perfumadas flores de laranjeira, cidreira
e limoeiro. Ao redor da mesa, havia estofados com plumas, para se sentar ou
reclinar.
O abside, que constituía a parede do triclinium – forrada com madeira de cedro
–, apresentava meia dezena de luzeiros ou lâmpadas de azeite (no momento
apagadas). E na faixa que constituía o prolongamento da parede onde eu havia
contemplado o busto de Tibério, descobri uma porta estreita, magistralmente
disfarçada entre as veias de dois painéis de cedro. Exatamente por ali é que foram aparecendo quatro ou cinco escravos, todos vestidos com curtas túnicas da cor do
marfim. Pareciam proceder da Síria, com exceção de um gaulês de longos cabelos
loiros. No decorrer do almoço, Pilatos confessaria que aquele belo mancebo era
uma “joia”. Depois de não poucos regateios, havia conseguido comprá-lo no
mercado de escravos de Jerusalém pela nada desprezível soma de 1.500 sestércios
(uns 250 denários de prata).
Cada um daqueles serviçais era portador de um alguidar, ou lava-pés, de cobre,
com um pequeno apoio de madeira no interior para a planta do pé, tomando assim
mais cômoda a lavagem.
Depois do obrigatório ritual, Pôncio sugeriu-me que não calçasse minhas
sandálias. Ele e o centurião haviam feito o mesmo. No início não compreendi, mas
Pilatos, sorrindo e apontando as tábuas do piso, esclareceu o porquê da sugestão:
– Assim terás a oportunidade de experimentar por ti mesmo as excelências de
meu sistema subterrâneo de calefação que tanto te interessa...
Ao pousar meus pés sobre a madeira de cipreste, comecei a sentir, de fato, um
calor muito sutil e reconfortante. Sinceramente, fiquei maravilhado. O circuito de
água quente que corria sob o piso transmitia ao assoalho a energia calorífica
suficiente para regular a temperatura da sala, sem necessidade de lareira ou
incômodas estufas.
Naturalmente, sabendo um pouco da especial psicologia de meu anfitrião, não
hesitei em fazer grandes elogios àquela “revolucionária” e engenhosa invenção,
prometendo falar dela a quantos dignitários e cortesãos tivesse a oportunidade de
conhecer.
E, enquanto os escravos iam colocando sobre a mesa diferentes iguarias,
aproveitei aqueles primeiros momentos do almoço para – como tinham por
costume os cidadãos romanos – agradar Pilatos e Civílis com esmeraldas, obtidas
pela Operação Cavalo de Troia nas minas de Muzo.103 O projeto, como já expus,
havia planejado simplificar meu acesso ao governador romano por meio desse
presente. A missão me havia repassado duas únicas pedras de “fulgor verde” –
como as definiu Plínio –, que deveriam ser presenteadas a Pilatos. Mas,
suspeitando que minha liberdade de movimento na jornada de sexta-feira pela
torre Antônia estaria muito condicionada à vontade do chefe dos centuriões, decidi,
fora do planejado, ganhar igualmente o seu apreço. E nada melhor do que lhe dar
uma daquelas belíssimas esmeraldas, as pedras mais cobiçadas pelo mundo
romano depois dos diamantes e das pérolas.104
Foi a primeira – e única – vez que vi esboçar-se um fugaz sorriso no rosto
quase pétreo de Civílis. Pilatos, em compensação, mostrou-se generoso nos
agradecimentos, jurando por seus antepassados que não esqueceria meu rosto
nem meu nome. (Na realidade, eu me contentaria se aquele espírito volúvel se
recordasse de mim ao menos até sexta-feira...)
E, ainda que o romano procurasse imitar Tibério no seu modo de ser e nas
ações, especialmente naquelas que tivessem ressonância pública, na hora de comer ele estava muito distante da extrema frugalidade de Tibério.
A “leve refeição” que os escravos haviam começado a servir constava, entre
outras “minúcias”, de frutos do mar e ostras trazidas dos viveiros artificiais do lago
Lucrina; de galinhas cevadas e untadas sobre ostras empanadas e outros mariscos,
como os chamados por Pôncio de “bolotas do mar” (negras e brancas). E tudo isso
apenas como “entrada”.
O quarto, o quinto e o sexto pratos foram ainda melhores: lombinho de corça,
pássaros fritos em farinha e algo que eu jamais havia visto – empadas de teta de
leitoa. E, como final, moreia procedente do estreito de Gades (Cádiz) e tâmaras
submersas em um negro e doce suco de uvas sicilianas.
O banquete foi permanentemente regado pelo vinho levado por José, assim
como por outros não menos apreciáveis, de Lesbos e Chios.
Considerando a época do ano e a longa viagem que haviam suportado as ostras
e os mariscos, procurei não os provar, desculpando-me com um suposto e agudo
distúrbio gástrico. Em contrapartida, fiquei na penosa obrigação de deglutir aquelas
tetas de leitoa...
Entre risos e gracejos, Pilatos perguntou-me se eu havia tido a ocasião de
saborear manjares como aqueles na mesa de Tibério, em Capri. Naturalmente – e
para seu grande regozijo –, respondi-lhe que a frugalidade de César estava
matando de fome seus amigos e astrólogos.
(Em uma oportuna e rápida intervenção do módulo, meu irmão completou
minhas palavras, lembrando-me de alguns dos pratos favoritos de Tibério,
informação que “Papai Noel” extraiu da História Natural de Plínio, o Velho (XIX, 23
e 28): “Quase exclusivamente vegetais e, em especial, aspargos e pepinos que seu
horticultor cultivava em grandes caixas com rodas para levá-los para o sol ou para
a sombra, dependendo do tempo. Também comia rabanetes, que fazia vir da
Germânia. Esses vegetais foram motivo de frequentes disputas com seu filho Druso
II, porque este se negava a prová-los. O Imperador era igualmente um fanático por
frutas. As peras eram suas favoritas. Tibério vangloriava-se de possuir em sua vila
do Tiber a árvore mais alta do mundo. Sua sobriedade chegava ao extremo de
beber – já na velhice – um vinho acre de Sorrento, parecido com o chacolí basco”.)
Quando ouviu de mim esses pormenores sobre a dieta diária de Tibério, Pilatos,
que não estava muito bem informado sobre esse particular, exclamou, depois de
soltar um longo e cavernoso arroto:
– Por Júpiter!... Tibério bebe vinagre. Agora compreendo por que não necessita
de médicos. Eu já tinha ouvido falar de sua jocosidade, mas não sabia que, além
disso, gostava de sofrer...
E, devolvendo ao prato uma daquelas untuosas empadas de teta de leitoa,
começou a rir às gargalhadas, ao mesmo tempo que fazia um sinal ao escravo
gaulês para que lhe trouxesse uma lavanda. O jovem escravo esperou que seu amo
lavasse as mãos e, como se fosse uma prática habitual, inclinou-se sobre o
governador, oferecendo sua longa e sedosa cabeleira. Pilatos, sem sequer fitá-lo, foi enxugando as mãos nos cabelos do escravo.
José e eu trocamos um olhar de repugnância.
Mas Pôncio havia centralizado o tema da conversa no conhecido senso de
humor de seu Imperador e então pediu-me que lhe contasse algumas das últimas
pilhérias e anedotas protagonizadas por Tibério.
Aquilo me pegou tão de surpresa que quase ia me custando um sério
transtorno. E, mesmo sabendo que o que eu iria contar devia-se mais à lenda e à
imaginação do que ao rigor histórico, lancei mão de uma anedota que circulou por
Capri naqueles anos de desterro voluntário de César.
– Conta-se – comecei, esperando que Eliseu me oferecesse novo suprimento –
que, não faz muito tempo, o Imperador foi assustado por um pescador da ilha,
quando o homem se aproximou dele para presenteá-lo com um peixe. Tibério, com
a crueldade que o caracteriza, mandou que esfregassem a cara do pescador com o
peixe. Entre ais de dor, o pobre homem – que devia ter um humor tão especial
quanto o de Tibério – felicitou a si mesmo por não ter oferecido ao Imperador uma
lagosta... Ao ouvir isso, o Imperador – seguindo o humorístico comentário de seu
súdito – ordenou que lhe levassem uma lagosta, com uma carapaça eriçada de
aguilhões, e a esfregou na cara do pescador.
Pilatos assentiu com a cabeça exclamando:
– Esse é Tibério...
Para essa ocasião, “Papai Noel” já havia memorizado outros casos, alguns
reflexos fiéis do profundo desprezo que Tibério César sentia por seus semelhantes.
E, ainda que sob risco de que Pilatos os conhecesse, passei a relatá-los:
– Conta-se, também, admirado governador, que, em certa ocasião, o
Imperador recebeu alguns embaixadores de Troia, que foram até ele para
expressar pêsames pela morte de seu filho. Como os troianos tivessem chegado
com bastante atraso, Tibério respondeu-lhes: “Eu, por minha vez, dou-lhes meus
pêsames pela morte de vosso gloriosíssimo cidadão Heitor...”.
Pilatos esvaziou a enésima taça de vinho, reclinando-se ainda mais nos fofos
almofadões de plumas e fazendo-me sinal para prosseguir.
– Em Roma circula também outra anedota. Tibério deu uma vez um banquete e
os convidados, ao entrarem no triclinium, observaram que sobre a mesa só havia
meio javali. César os fez ver “que meio javali tinha o mesmo sabor que um javali
inteiro”...
Como eu começava a supor, os vapores do vinho e a comilança não tardaram a
fazer efeito. E Pilatos, que tentava manter a cabeça sobre a mão direita, começou
a dar súbitos cabeceios.
Num tom um pouco mais baixo, contei o que seria o último caso:
– Houve vezes em que esse humorismo disfarçava uma terrível crueldade. Este
foi o caso de um acontecimento ocorrido logo depois de sua nomeação como
Imperador. Como se sabe – prossegui, sem perder de vista os cabeceios do
governador –, Augusto, ao morrer, deixou em seu testamento um importante legado econômico, que Tibério foi repartindo pouco a pouco. Pois bem, certo dia
aconteceu de passar um enterro diante do Capitólio, e um dos presentes
aproximou-se do morto, simulando que lhe falava ao ouvido. Tibério estranhou e
perguntou-lhe por que fizera aquilo. O farsante respondeu que havia pedido ao
morto que informasse a Augusto que ele ainda não havia recebido sua parte.
Tibério enrubesceu de indignação e ordenou que o matassem, “para que ele
mesmo levasse o recado ao falecido Imperador Augusto”.105
Quando concluí minhas anedotas, Pôncio Pilatos jazia, boca aberta, imerso em
profundo sono.
Sigilosamente, a conselho do centurião, abandonamos o refeitório no momento
em que um dos serviçais, seguindo, ao que parecia, uma rotineira obrigação,
iniciava uma tarefa mais que penosa: roçar com uma pluma a garganta do amo,
para lhe provocar o vômito e propiciar as delícias da refeição seguinte.
Já no vestíbulo, quando já nos dispúnhamos a nos despedir de Civílis, outro
centurião o alcançou e, em latim, quase no ouvido, comunicou-lhe algo. O chefe
dos centuriões não respondeu ao companheiro. Hesitou um instante e, por fim,
voltando-se para nós, tratou de se desculpar, dizendo que o tribuno da legião –
também destacado com ele e seus companheiros em Cesareia – aguardava-o para
proceder à execução de uma sentença.
Aquilo era igualmente novo para mim e experimentei grande curiosidade. Mas,
embora eu não tivesse despregado os lábios, Civílis – que parecia ler os
pensamentos de todos os que o rodeavam – deve ter captado meu desejo e,
dirigindo-se a José, convidou-o com ar de ironia e desprezo para com sua condição
de judeu:
– Se assim o desejardes, podeis agora presenciar mais uma prova da justiça do
povo romano...
Nem o ancião nem eu tínhamos ideia do assunto. Mas a voz do centurião havia
soado quase como uma ordem, e então nos apressamos a segui-lo. Em companhia
de outro oficial, Civílis desceu as escadas de mármore, dirigindo-se para a direita
do pátio de arcos. Este estava deserto, com exceção daquele mercenário que
continuava suportando o pesado saco sobre o pescoço e os ombros e da sentinela
que permanecia a seu lado. Onde estava o resto da tropa?
Logo eu tiraria minha dúvida.
Ao cruzar uma das portas da ala norte do pátio, entramos em uma esplanada,
também a céu aberto, de pouco mais de 300 pés de comprimento por 150 de
largura. Seu piso era coberto de uma areia branca muito fina. O lugar fazia parte
da fortaleza e ocupava boa extensão da ala norte. Seus limites eram o muro
exterior da torre Antônia e o complexo de edifícios da sede romana em suas
demais alas. No extremo mais oriental, alinhava-se uma dezena de tendas de
campanha. Elas ocupavam toda aquela face do retângulo a que nos havia
conduzido o oficial e que, segundo nos foi explicado, era um campo de
treinamento. As tendas, feitas com peles de cabra tingidas de um amarelo terroso, tinham tetos de duas águas. Por baixo da cobertura aparecia um ripado, que
constituía a armação de cada uma das barracas.106 A capacidade das tendas era
para dez homens. Segundo Civílis, a afluência daqueles milhares de hebreus à festa
anual da Páscoa obrigava a que se reforçasse a guarnição de Antônia. E aquelas
tendas de campanha cobriam perfeitamente as necessidades das tropas que com
ele tinham-se transferido de Cesareia.
Diante dos papilio (nome que se dava a essas tendas, pela semelhança de suas
cortinas, colocadas na porta de entrada, com as asas das mariposas), o exército
romano havia plantado meia dezena de postes de pouco mais de um metro e meio
de altura, todos cheios de marcas, consequência das pancadas que choviam sobre
eles nos treinamentos. Algumas das espadas e lanças, com o dobro do peso do
pilum e do gladius normais, estavam cravadas na arena. Escudos e elmos
repousavam apoiados sobre elas.
Várias centenas de soldados – todos de folga, a julgar pelo que vestiam –
haviam-se congregado na esplanada, em círculos, e agora trocavam impressões em
voz baixa.
Ao verem Civílis, os soldados apressaram-se a abrir-lhe passagem, em
respeitoso silêncio.
O chefe dos centuriões parou em frente aos postes de treinamento, saudando o
tribuno e os centuriões ali reunidos. O tribuno, muito mais jovem do que Civílis e do
que o resto dos oficiais, constituía um comando intermediário, responsável, mais do
que pelo comando tático da legião (que era atribuição do chefe dos centuriões),
pela chefia do regime interno. Naquela época, todavia, sua importância havia
crescido muito. Uma de suas funções, precisamente, era a de iniciar a execução de
uma pena capital. Sua vestimenta era quase a mesma dos centuriões, com exceção
da cor da toga ou capa, violácea. Não trazia armas.
Os oficiais mantiveram um brevíssimo conselho e, ato contínuo, um deles
ordenou que o réu fosse conduzido à arena. Em seguida, os mercenários
começaram a se aglomerar em torno de outros dois soldados que acabavam de