Cavalo de Tróia 1: Jerusalém

J. J. Benítez · Capítulo 16 de 19 · parte 2/3

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Cavalo de Tróia 1: Jerusalém

6 de abril, quinta-feira

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

E, mesmo agora, não somos nós que nos lançamos contra eles, mas são eles que

buscam nossa destruição. Não tendes de atacar as antigas fórmulas. Deveis colocar

habilmente a levedura da nova Verdade no meio das velhas crenças. E deixai que o

Espírito faça seu próprio trabalho. Deixai que a controvérsia surja só quando

aqueles que vos desprezam vos force a ela. Mas quando os não

crentes vos atacarem intencionalmente, não hesiteis em vos manter em vigorosa

defesa da Verdade que vos tem salvado e santificado.

“Recordai sempre: amai-vos uns aos outros. Não luteis com os homens, nem

mesmo com os não crentes. Mostrai misericórdia até mesmo para com os que

depreciativamente abusem de vós. Mostrai-vos cidadãos leais, artesãos honrados,

vizinhos merecedores de elogio, parentes devotos, pais compreensivos e crentes

sinceros na fraternidade do reino do Espírito. E eu vos asseguro que meu espírito

estará sobre vós, agora e sempre, até o fim do mundo...”

 

Entre as sexta e nona horas (em nosso sistema horário atual, poderiam ser 13

horas), Jesus deu por finalizado seu discurso. E foram os gregos presentes o que

mais perguntas fizeram. Do meu ponto de vista, aqueles estrangeiros haviam

assimilado melhor do que os apóstolos as intenções e ensinamentos do Mestre. Os

onze quase não abriram a boca. E se devo julgar pelos comentários que faziam

enquanto descíamos para o acampamento, eles não conseguiram entender que

relação podia haver entre seus martírios, suas perseguições e sua morte –

anunciados pelo rabi – e a inevitável propagação do Evangelho por todo o mundo.

Persuadidos como estavam – com exceção de João Zebedeu – de que aquele

“reino” de que falava Jesus tinha muito a ver com um sistema político que

libertasse Israel da dominação estrangeira, não conseguiam compreender que a

difusão da “Verdade” pudesse ocorrer “sem a promulgação das leis seculares”,

como havia pedido o Mestre.

Suas mentes, uma vez mais, haviam naufragado em uma infinidade de

especulações e dúvidas. A maioria havia interpretado as últimas frases do rabi

como uma grande tragédia que estava a ponto de assolar o mundo. E ainda que

conhecessem a ordem concretíssima do Grande Sinédrio, de caçar Jesus, a fé deles

nos poderes do Galileu era tal que se recusavam a admitir que os sacerdotes

pudessem ao menos tocá-lo. “Em outras oportunidades diziam uns aos outros,

numa ingênua tentativa de se tranquilizarem –, o Mestre os burlara. Por que não o

faria agora? É quase certo que essa ‘destruição’ a que se refere Jesus tem a ver

com um cataclisma ou com o fim do mundo...”

Essas impressões dos discípulos foram alimentadas pela atitude de Jesus

naquela manhã. Salvo no breve colóquio com José de Arimateia, o Nazareno havia

demonstrado um excelente humor... “Se o Mestre tivesse receio pela sua segurança

– argumentavam com boa lógica –, não adotaria uma postura tão alegre e

descuidada...”

(Neste ponto de meu relato, desejo insistir numa circunstância a que já fiz

menção, mas que, dada sua importância, penso que deva ser considerada

novamente. Aquele discurso de Jesus de Nazaré havia tido duração aproximada de

duas horas. Eu reproduzi apenas as passagens que considerei mais interessantes.

Pois bem, pelo que está no Novo Testamento, nenhum dos evangelistas chegou a

recolhê-lo com um mínimo de rigor e amplitude. Nos textos evangélicos, aparecem

apenas algumas frases ou sentenças, perdidas aqui e ali e desvinculadas do que

era, na realidade, um contexto uniforme e perfeitamente estruturado. Para mim,

essas graves deficiências – repetidas, como já disse, em outros capítulos – não são

resultado de negligência dos escritores sagrados. A única razão pela qual os

Evangelhos canônicos não fazem eco desses ensinamentos está em uma realidade

muito mais simples, mas nem por isso menos lamentável: do meu ponto de vista,

muito pessoal, quando os evangelistas resolveram colocar por escrito a vida, obra e

doutrina de Jesus, havia se passado tempo suficiente para que a imensa maioria de

seus ensinamentos não pudesse ser lembrada textualmente. Não fosse, aliás, meu

sistema de filmagem e gravação, eu também não teria sido capaz de memorizar

tudo o que ouvi. E devo insistir em algo que não consigo compreender: por que

nenhum daqueles discípulos se preocupou em tomar nota de tudo o que via e

ouvia? Dessa forma tão elementar, disporíamos hoje de uma visão muito mais

ampla e exata do que fez e disse o Mestre da Galileia.)

Para mim, pessoalmente, algumas das afirmações de Jesus naquela

inesquecível manhã no cume do monte das Oliveiras pareceram de grande

importância. Por exemplo, jamais pude esquecer as alusões à esperança: “... A

persistente pregação deste Evangelho do reino” – havia prometido – “levará algum

dia as nações a uma nova e incrível libertação...”.

Quanto tenho ansiado por ver cumprida tal afirmação! Todavia, ainda hoje essa

realidade parece bem distante... “Se Jesus foi capaz de prognosticar – quarenta

anos antes! – a total destruição de Jerusalém pelas legiões de Tito, porque se equivocaria na outra profecia?”

Também me desconcertou sua recomendação sobre a forma com que a

Verdade deveria ser promulgada. “Não deveis buscar a propagação dessa Verdade

por meio de leis seculares.” E uma pungente dúvida ficou em meu coração: teria o

Filho do Homem aprovado o intrincado emaranhado de leis, normas e códigos que

tem regido os destinos das igrejas e que, no fundo, não são outra coisa senão uma

asfixiante burocracia secular dissimulada sob pretextos espirituais e sagrados

pouco claros?

Mas minha missão não era julgar, e sim observar e dar testemunho.

Peço a quem ler este diário que me desculpe...

 

Quando entramos no acampamento, Davi Zebedeu tinha aprontado a comida.

Percebi que estava nervoso e mal-humorado. Em um primeiro momento, atribuí o

fato ao nosso atraso. Normalmente, aquele almoço – no meio do dia – costumava

ocorrer por volta das doze horas. “O desagrado de Zebedeu – pensei – está mais

do que justificado...” Mas mais uma vez eu me equivocava. O aborrecimento do

chefe dos emissários não se devia à demora do grupo...

Fomo-nos acomodando em torno do fogo e as mulheres começaram a servir:

guisado à base de lentilhas, aromatizadas com “‘beliscos’” de cominho negro e

coentro;116 espigas frescas passadas ligeiramente pelo fogo ou com grãos tostados

(levadas por João Marcos); e uma pequena porção de requeijão, feito pelas

mulheres com leite de cabra. Como complemento, além de vinho, algumas tortas

de farinha, amassadas na mesma manhã e à base de água e sal. O processo usado

pelas mulheres do acampamento era muito singular. Ao menos para mim.

Empregavam um “forno” – se assim podia ser chamado – que consistia em um

grande jarro, todo recoberto de barro em seu exterior. Colocado no solo, acendia-

se o fogo no seu interior. Uma vez aquecidas suficientemente as paredes do jarro,

as mulheres apagavam as chamas e colocavam então as tortas na superfície

interna do “forno”. Em geral, as tortas eram comidas quentes; mas quando Jesus e

os discípulos chegaram ao horto, elas já estavam frias fazia tempo. Alguns dos

comensais contornaram aquele contratempo regando-as com mel.

O guisado de lentilhas, Jesus apenas o provou, tendo dedicado sua atenção ao

requeijão e à sua obrigatória porção de passas sem caroços...

No meio do almoço, Judas apareceu no acampamento. Ninguém se

surpreendeu. Só Jesus, Zebedeu e eu o seguimos com o olhar. Iscariotes, olhos

baixos, tomou uma das conchas de madeira e se serviu de uma generosa porção de

lentilhas. E, com o mesmo silêncio com que havia entrado no horto, retirou-se

isoladamente, indo sentar-se entre as raízes de uma das oliveiras mais próximas.

Durante um bom tempo, o traidor concentrou sua atenção na comida. Quando

acabou de comer e ao mesmo tempo que limpava os dentes com uma fibra

vegetal, levantou os olhos para o céu, em direção ao sol. (Suponho que observando

o que restava de luz.) E ali ficou, atento a todos os movimentos do Galileu e de

seus íntimos.

Devia faltar uma hora para as três da tarde quando Davi Zebedeu – cada vez

mais inquieto – levantou-se e praticamente tirou Jesus do grupo, caminhando com

ele em direção às tendas. Falaram alguns minutos e observei que o Mestre

respondia levantando a mão esquerda, como se quisesse sossegá-lo. Judas,

impassível, assistia à cena sem sair do lugar.

Quando Davi regressou ao grupo, eu perguntei a ele em voz baixa, para não

ser ouvido pelos demais:

– Que está havendo?

– Meus homens em Jerusalém – explicou-me desesperado – trouxeram más

novas...

Eu começava a intuir do que se tratava e qual era, na verdade, a razão da

progressiva agitação do discípulo.

– Seguiram Judas e, tal como vós me dissestes, os planos para prender o

Mestre estão quase ultimados. Será hoje. É possível que depois do pôr do sol. O

capitão da polícia do Templo está furioso com a fuga de Lázaro e pressionou Judas

a consumar a detenção.

– Sabes onde será?

– Não. Só o que sei é que não podemos perder de vista esse bastardo –

resmungou Davi cravando seus olhos em Judas.

– E que diz Jesus?

Davi Zebedeu encolheu os ombros e, ainda denotando a visível surpresa que

lhe havia causado a resposta de Jesus, comentou:

– Ele me pediu que não falasse disso com ninguém, mas a ti posso dizer, posto

que já sabes... “Sim, Davi” – respondeu-me –, “eu sei de tudo. E sei que tu sabes,

mas procures não revelar a ninguém.” E quando eu quis persuadi-lo a fugir,

acrescentou: “Não duvides de que no final prevalecerá a vontade de Deus”. Juro,

Jasão, que não consigo compreender o Mestre. Se ele quisesse, agora mesmo nós

poríamos a seu serviço mais de uma centena de homens armados que o

escoltariam e guardariam até chegar a Pereia...

Coloquei minhas mãos sobre seus ombros, como havia visto Jesus fazer, e

tentei animá-lo com o olhar. Mas a tristeza daquele homem era muito mais

profunda do que eu podia avaliar.

A súbita chegada de um dos “correios” tirou Davi de seus sombrios

pensamentos. Eu os acompanhei até a tenda dos homens e ali, na presença de

Zebedeu, o emissário – que procedia de Filadélfia – entregou uma mensagem de

Abner. Até mesmo àquela remota cidade oriental haviam chegado insistentes

rumores sobre uma conspiração para matar o Mestre, e Abner pedia instruções.

“Deveria mobilizar toda sua gente e marchar para Jerusalém?”

Davi Zebedeu leu a carta e a levou imediatamente a Jesus. Este, uma vez

conhecida a mensagem do homem que dava proteção a Lázaro, transmitiu a Davi:

“Diz a Abner que siga adiante com seu trabalho. Se me separo de vós em carne, é

porque posso voltar em espírito. Não vos abandonarei. Estarei convosco até o fim”.

Outro dos mensageiros partiu rapidamente para Filadélfia. E eu aproveitei

aquela oportunidade para perguntar a Zebedeu pela mãe de Jesus. Era quase a

nona hora (três da tarde) e Maria e seus parentes não haviam dado sinais de vida.

A possibilidade de me encontrar frente a frente com a mãe do Galileu estava

excitando meu espírito. Como seria realmente aquela mulher? Teria o aspecto que

nos mostra a tradição pictórica universal? Que haveria de certo em todas as

qualidades e virtudes realçadas sem cessar pelos pesquisadores e estudiosos

mariológicos?

Davi não pôde satisfazer minhas dúvidas. O caminho que saía de Betsaida, na

Galileia, a uns seiscentos estádios de Jerusalém (ao redor de 110 quilômetros)

pressupunha um considerável esforço, sobretudo para um grupo em que viajavam

mulheres.117 Era preciso esperar.

Mal Davi se retirou da presença de Jesus, o chefe da intendência, Felipe,

aproximou-se do Mestre e lhe perguntou:

– A hora da Páscoa se aproxima. Onde queres que preparemos a ceia? O

Galileu lhe respondeu:

– Vai procurar Pedro e João e então darei instruções para a ceia que

comeremos juntos esta noite. Quanto à Páscoa, falarei disso depois da ceia...

Esse assunto interessava muito a Judas. Assim, ele se levantou e caminhou

para Jesus, com o propósito – suponho – de averiguar onde e a que horas se

celebraria a ceia daquela quinta-feira. Mas Zebedeu – que não o perdia de vista –

percebeu as obscuras intenções de Iscariotes e, com um reflexo admirável,

interpôs-se no caminho do traidor, entretendo-o.

Judas, nervoso, viu que Felipe, Pedro, João e o Mestre se separavam do grupo

e entravam em uma das solitárias tendas. Poucos minutos depois, os três apóstolos

saíram e, sem comentário, deixaram o horto, ladeira abaixo.

Por um momento, hesitei. Que deveria fazer? Unir-me ao grupo que acabava de

sair do acampamento ou permanecer junto ao Mestre? Davi continuava entretendo

Judas, que, desolado (via-se isso em seu rosto), mas sem perder o sangue frio,

parecia resignado com a sua sorte.

Deixei-me levar pelo instinto. Dissimuladamente, lancei-me atrás de Felipe e

seus companheiros, indo alcançá-los quando cruzavam o outro lado do Cedron,

bordeando a muralha sudeste da Cidade Santa em direção à porta dos Essênios. Ao

me verem, os discípulos mostraram-se um tanto surpresos. Tentei dissipar seus

receios, dizendo-lhes que, como se avizinhava a festa pascal, eu tinha a intenção

de agradecer a hospitalidade do Mestre oferecendo-lhe um presente.118

– Eu os vi partir para Jerusalém – disse-lhes – e pensei que era uma boa

oportunidade para vos pedir conselho...

Só João – melhor observador e mais sensível que seus amigos – emocionou-se

com aquele meu gesto. E, tomando-me pelo braço, perguntou-me:

– E que pensas lhe dar?

– Talvez uma túnica – improvisei.

– Não é má ideia – meditou em voz alta –, mas talvez fosse mais prático que

comprasses um manto... Ele gosta muito de sua túnica. Deves ter notado que foi

confeccionada a mão, sem costuras.

Respondi-lhe que considerava uma excelente ideia e que, se dispunham de

alguns minutos, gostaria que me acompanhassem e recomendassem um bom

mercador de panos.

Pedro interveio e, em tom brusco – como se estivesse de mau humor –,

revelou-me exatamente o que eu desejava saber:

– Atende, Jasão. Agora não pode ser. O Mestre nos deu uma incumbência um

tanto rara.

Em sua voz, adivinhei aquela quase genética incapacidade para compreender

muitas das ações de Jesus.

– Temos de chegar às portas da cidade e procurar um homem... – explicou com

certa ironia – com um cântaro de água... Imagine, com tantos peregrinos em

Jerusalém...

João reprovou sua pouca fé.

– Se o Mestre nos disse que ao franquear as portas encontraríamos esse

homem com o cântaro, não há mais o que falar...

– Mas, reconheça – tentou argumentar Felipe – que Pedro tem razão. Não

haveria sido mais fácil e prático que Jesus nos desse a indicação da casa onde

desejava cear esta noite, ou o nome de seu proprietário? Por que tanto mistério?

Que necessidade há de tanto enigma?

No meu íntimo, sorri, lembrando o texto evangélico em que esse episódio é

narrado. Não teria sido demais que os escritores sagrados tivessem mencionado

aquela polêmica entre os discípulos, fiel e maravilhoso registro da fé cega de um e

das naturais dúvidas dos demais. (É possível que, com o passar dos anos, nem

Pedro nem Felipe desejassem revelar à incipiente comunidade cristã sua fraqueza

de espírito. O que seria muito humano e compreensível.)

Os três homens continuaram empenhados naquela disputa até que chegamos

ao umbral da grande porta dos Essênios, diante do vale do Hinom. Àquela hora da

tarde, o número de pessoas que entravam e saíam sem cessar de Jerusalém era

suficientemente grande para desestimular quem quer que tentasse localizar “um

homem com um cântaro de água”.

De repente, naquele confuso tráfego de gente, João nos chamou a atenção

para um grupo de mulheres que saía da cidade. Duas delas carregavam cântaros

na cabeça; as demais – possivelmente lavadeiras – mantinham sobre a cabeça,

com grande destreza, cestos de vime repletos de roupa.

Mas Pedro, cada vez mais desanimado, fez ver ao jovem discípulo que se

tratava de mulheres e que, além disso, seguiam uma direção oposta à indicada

pelo rabi.

Ao transporem o arco de pedra da gigantesca porta, os três apóstolos pararam

diante das primeiras casas do bairro baixo. Durante alguns minutos, ficaram inspecionando todos os que perambulavam pelo lugar. E não necessitaram muito

tempo para descobrir, à direita da porta dos Essênios, um homem sentado, com as

costas apoiadas na muralha. A seu lado havia um cântaro de água de quase meio

metro de altura, dos usados comumente para recolher as águas das fontes situadas

diante de Jerusalém.

Os discípulos olharam-se em silêncio e João, sorridente e decidido, adiantou-se

até chegar a dois metros do indivíduo. Felipe o seguiu e Pedro, ainda hesitante,

acabou unindo-se aos amigos, embora negando sistematicamente com a cabeça.

Nem João nem os outros chegaram a abrir a boca. O homem parecia cansado

de esperar, mas quando os viu imóveis e com os olhos fixos nele, esboçou um leve

sorriso e, sem mais, levantou-se, erguendo o pesado cântaro. Em seguida e com o

recipiente bem ajustado ao quadril esquerdo, iniciou uma apressada caminhada.

Pedro, silencioso, os olhos baixos, estava enrubescido de vergonha.

Em questão de minutos, o misterioso personagem nos conduziu pelas íngremes

e estreitas vielas daquela zona meridional de Jerusalém até uma casa de dois

pavimentos, localizada muito perto da residência de Anás, o ex-sumo sacerdote e

sogro de Caifás.

Na porta daquela mansão, quase tão luxuosa como a de José de Arimateia,

esperava um conhecido de todos nós: o pequeno João Marcos!

Parece que não fui eu o único a ficar surpreso. Os três discípulos, ao verem o

adolescente, entreolharam-se, percebendo então as intenções de Jesus. De minha

parte, o suposto fato milagroso do encontro com o homem do cântaro começava a

ter uma explicação muito racional. Ainda que naquele momento eu não dispusesse

de provas suficientes, um pressentimento começou a assediar-me: teria o Mestre

dado instruções a João Marcos, durante o longo passeio de quarta-feira, para que

um membro de sua família – talvez um serviçal – postasse-se às portas de

Jerusalém trazendo um cântaro de água? Se assim não fosse, como explicar a

presença do menino justamente na entrada da casa onde deveria ser celebrada a

chamada “última ceia”? Aquela hipótese foi ganhando terreno em minha mente. No

fundo, tudo se encaixava: o férreo mutismo do jovem ante o interrogatório dos

discípulos e a extrema prudência do Mestre na hora de indicar o lugar onde

desejava reunir-se com seus íntimos.

Jesus de Nazaré estava ciente da conspiração que Judas protagonizava, assim

como de suas manobras para facilitar a captura. Seria lógico que, se o Galileu

desejasse não ser molestado no transcurso daquela ceia, adotasse medidas de

precaução. E aquele “plano”, evidentemente, fazia parte de sua estratégia.

O jovem Marcos nos conduziu ao interior da casa e nos apresentou a seus pais,

Elias e Maria. Aquela família, segundo pude averiguar, era aparentada com a de

Jesus e comungava plenamente com seus ensinamentos.

Felipe, como responsável pela preparação da ceia, pediu a Elias Marcos que lhe

mostrasse o lugar escolhido e o pusesse a par do cardápio e dos preparativos.

Prudentemente – e como o menino estava presente, abstive-me de fazer perguntas aos donos da casa. No entanto, depois de comprovar que a ceia teria como cenário

o piso superior da mansão dos Marcos, minhas dúvidas sobre o acordo secreto

entre Jesus e o menino da casa foram desfeitas. Só faltava a confirmação de João

Marcos ou de seus pais. Isso aconteceria horas mais tarde...

Já me dispunha a seguir Felipe e Pedro ao primeiro pavimento iniciando, assim,

outra das delicadas missões traçadas pela Operação Cavalo de Troia – quando,

inesperadamente, João, o Evangelista, propôs que aproveitássemos aqueles

minutos para visitar o vizinho bairro dos tintureiros, onde eu poderia comprar o

manto que queria dar ao Mestre. Eu me vi enredado em meu próprio erro e não

tive outro remédio senão aceitar, simulando até uma grande alegria pela gentileza

do discípulo.

O bairro dos tintureiros, como disse João ao sairmos da casa, ficava muito perto

dali. Descemos por uma rua estreita, tão mal calçada quanto pestilenta, até

desembocar em um amontoado de casas térreas, à sombra de uma muralha

exterior, no ângulo sudoeste da cidade. Aquelas trinta casas eram na realidade

tinturarias. João conduziu-me ao interior de uma delas, propriedade de um velho

amigo seu: um tal de Malkiyias, perito artesão e digno sucessor de uma antiga

família de tintureiros.

Logo mais, eu estava no interior de uma sala de uns seis por três metros,

quase afogada na escuridão, quando divisei em um de seus extremos duas grandes

cubas de quase um metro de diâmetro por outro de altura. A seu lado estavam

dispostas pias de fundo raso e um banco de alvenaria. Nas cubas havia carbonato

de potássio e cal extinta, assim como, numa delas, uma pequena quantidade de

índigo119 e, na outra, o dobro. Cada cuba, fechada por uma cobertura de pedra,

apresentava um pequeno orifício ou boca central (de uns quinze centímetros) na

tampa. Por ali, o amigo Malkiyas introduzia os fios dos diferentes tecidos para os

tingir. Em outra das pias, vários operários manipulavam grandes peças de pano,

submergindo-as em banhos de púrpura e escarlate.

João expôs a Malkiyas meu desejo de oferecer um presente a um amigo,

pedindo-lhe que mostrasse alguns dos mantos mais bem trabalhados e prontos

para ser enviados às lojas dos vendedores. O chefe da tinturaria o atendeu com

prazer, mostrando um abundante sortimento de roupões, túnicas de lã e algodão,

mantos femininos (muito parecidos com os atuais xales) e finas vestes de fios do

Egito, todos tingidos nas mais variadas e sugestivas cores.

De repente, ao examinar aquelas peças graciosas, tive uma ideia. Procurei com

todo o cuidado entre os tecidos mais delicados e, indicando a João um manto de

linho branco, disse-lhe:

– Este... Eu desejaria levar este...

O discípulo olhou-me com assombro e advertiu:

– Mas, Jasão, este é um manto de mulher...

– Eu sei – respondi –, mas acabo de ter uma ideia melhor.

João respeitou meu silêncio e, sem me fazer uma só pergunta sobre aquela repentina mudança, acertou com o mestre artesão o preço do rico manto. Embora

aquele tipo de operação comercial estivesse proibida – já que os tintureiros não

podiam vender seus produtos diretamente ao público –, a amizade entre João e

Malkiyias serviu para contornar o problema.

Por volta das quatro da tarde, depois de nos juntarmos a Felipe e Pedro e em

companhia do jovem João Marcos, que quis ir conosco, empreendemos o caminho

de volta ao acampamento de Getsêmani. Na casa da família Marcos, tudo estava

pronto para a ceia. As circunstâncias me haviam impedido de ter acesso ao piso

superior e isso começava a me preocupar. Era vital para o completo

desenvolvimento de minha missão que eu pudesse estar naquela sala antes que

ela fosse ocupada por Jesus e os doze...

 

Ao me ver chegar, Davi Zebedeu apressou-se em interrogar-me, enquanto

Pedro, Felipe e João comunicavam a Jesus que tudo estava resolvido para a ceia.

O esperto Davi explicou-me que, devido às circunstâncias, havia sugerido a

Judas que lhe entregasse uma parte do dinheiro, a fim de ir cobrindo as

necessidades do grupo.

– Para minha surpresa – acrescentou –, esse malnascido não só não ofereceu

resistência como entregou-me a totalidade dos fundos líquidos e os recibos de

dinheiro em depósito, admitindo sem titubear: “Tens razão. Creio que é o mais

adequado... Algo está sendo tramado contra o Mestre e, no caso de que me

aconteça alguma coisa, tu não serás molestado por ninguém”. Entendeste, Jasão?

– comentou desalentado – Esse cínico acaba de confessar-me que teme pela vida

de Jesus...

Aquele gesto de Judas, despojando-se de todo o dinheiro do movimento,

reforçou ainda mais minha suspeita de que o traidor não agia por ganância.

Por volta das cinco da tarde, quando apenas faltava uma hora para o ocaso,

notei um movimento inusitado no acampamento. Felipe informou-me que o Mestre

tinha pressa de sair de Jerusalém. Os apóstolos não entendiam bem por que o

Mestre havia organizado aquela pequena e pouco usual ceia, da qual apenas

participariam seus doze homens de confiança. Os comentários eram os mais

diversos. O costume judeu estabelecia, com grande rigor, que o almoço pascal

deveria se celebrar – uma vez sacrificado o obrigatório cordeiro ou cabrito no

Templo – na véspera da Páscoa propriamente dita. 120 Naquele ano, a festa pascal

caiu no sábado e isso a tornou duplamente solene, como creio que já comentei. Se

a tradicional ceia religiosa deveria ser realizada no dia seguinte, sexta-feira, 7 de

abril, já com o sol posto, era lógico que os discípulos se perguntassem sobre o

misterioso banquete ordenado pelo Galileu para aquela noite de quinta. Só uns

poucos – João, Judas Iscariotes, com certeza, e Davi Zebedeu – intuíam que aquela

ceia iria ser um ato muito especial, precedendo a imediata e fulminante prisão do

Mestre.

Para mim, aquela pressa de Jesus em abandonar o horto foi o sinal que fez que

eu me retirasse, adiantando-me ao grupo.

Dadas as especialíssimas características da “última ceia” – da qual, insisto, só

poderiam participar Jesus e seus doze apóstolos –, o projeto Cavalo de Troia havia

julgado que minha presença nesse ato poderia quebrar o caráter íntimo que o

Mestre pretendia dar a ele. Seria pouco ético, portanto, que eu me sentasse junto

aos treze. Por outro lado, a missão não poderia ficar alheia a um fato tão

transcendental e significativo como aquele. Eu deveria recolher o máximo de

informações sobre o que realmente ocorreria no piso superior da casa de Marcos. E

para isso o general Curtiss havia idealizado uma solução “intermediária”: além de

minhas perguntas aos próprios protagonistas, todas as palavras de Jesus e dos

doze seriam recolhidas mediante um sensível e diminuto microfone que eu deveria

ocultar em lugar estratégico do cenáculo. (Dificilmente eu poderia supor que

aquela minúscula maravilha da eletrônica – produzida com carinho pelos

especialistas da ATT, a American Telephone and Telegraph, para o nosso projeto –

iria constituir uma das razões que aconselharam os homens da Operação Cavalo de

Troia a realizar uma segunda “grande viagem” à época de Cristo...)

 

Depois de colocar em mãos de Zebedeu o manto que eu havia comprado,

apressei-me em colher alfazemas e lírios (brancos e cor de amora) que cresciam

nas proximidades do olival. E rapidamente tomei o caminho mais curto para

Jerusalém, avisando o módulo de que iria colocar o microfone e a “vara de Moisés”

na casa de Elias Marcos.

O gentil e calmo chefe de família não se surpreendeu nem um pouco quando

lhe anunciei que Jesus e os doze não tardariam a chegar e que, como prova de

minha amizade e meu afeto pelo Mestre, eu desejava contribuir, adornando a mesa

com aquele humilde, mas perfumado presente. Meu plano surtiu efeito e um dos

serviçais, por indicação de Elias, acompanhou-me ao pavimento superior.

Subimos por uma estreita escada de pedra e, ao abrir uma porta de duas

folhas, o improvisado “guia” convidou-me a entrar na frente. E assim o fiz,

penetrando em uma espaçosa sala retangular de pouco mais de vinte metros de

comprimento por seis ou sete de largura. No centro, havia sido disposta uma mesa

baixa, em forma de “U”, de características muito semelhantes às da mesa que eu

havia visto na casa de Simão, “o leproso”.

Ao redor havia treze divãs, direcionados quase que perpendicularmente à

mesa. O do centro, a base do “U”, era um pouco mais alto que os demais. Deduzi

que aquele seria o posto destinado ao convidado de honra, ou seja, Jesus. Os divãs

eram semelhantes a bancos de quatro pernas, mas sem braços nem encosto. Um

deles era mais baixo que os demais e estava colocado em um dos extremos da

mesa. Ao vê-lo, concluí que o anfitrião havia tido problemas para conseguir todos

os assentos.

À esquerda do refeitório (tomando sempre como referência a única porta de

entrada) e junto à parede de ladrilhos – cuidadosamente reforçada com calcário –,

contei três lavatórios de bronze, sustentados por pés de madeira. Todos eles,

curiosamente, providos de rodas. Dessa forma, aqueles recipientes, de uns quarenta centímetros de diâmetro e pouca profundidade, podiam ser removidos

comodamente de uma parte a outra do aposento. Junto aos lavatórios, o dono da

casa havia colocado várias jarras com água, assim como algumas toalhas e lenços

para enxugar.

A pouca luz que penetrava pelas esguias janelas – quase frestas – que se

sucediam ao longo das paredes já havia obrigado os serventes a acender as

lâmpadas de azeite. Com uma rápida olhada, observei que as seis ou sete

lanternas penduradas nas paredes, a cerca de metro e meio do chão, não

forneciam claridade suficiente para iluminar o aposento. A deficiência fora sanada

em parte com um lampião quadrado, em cujo interior ardia outra carga de azeite,

com uma tríplice mecha de cânhamo. Esse reforço, colocado no interior do “U” e

suspenso a pouco mais de um metro do piso por um pé de ferro forjado, belamente

trabalhado, proporcionava à mesa e suas imediações abundante claridade. Através

do vidro, sutilmente tingido de dourado, a luz do lampião inundava e banhava de

amarelo os divãs avermelhados e a branca e imaculada toalha.

Em uma das extremidades da mesa (a mais distante do local onde estavam os

lavatórios “móveis”), a criadagem havia colocado o pão, o vinho, a água e vários

pratos de legumes. E sobre a mesa, no lugar correspondente a cada um dos

convidados, havia treze pratos de fina cerâmica, decorados com estreitas listras

vermelhas e brancas, possivelmente feitas a pincel pelo artesão. Junto à baixela,

quatro copos de cristal de Sidon para cada comensal. A presença de um jogo tão

numeroso de cristais levou-me a supor que Jesus pensava celebrar aquela ceia

segundo o rito pascal.

Como decoração, a sala apresentava alguns tapetes vermelhos, pendurados

estrategicamente nas paredes. À direita da porta, no canto do cenáculo, a mãe do

jovem João Marcos havia dado um discreto toque feminino, dispondo em um vaso

com terra brilhante ramos de oliveira e folhas de palma.

Após aquela rapidíssima olhada no aposento, resolvi que o lugar ideal para

ocultar o microfone multidirecional era a base do lampião. Daquele ponto,

equidistante de quase todos os discípulos, as vozes poderiam chegar com nitidez

até o sensível receptor. Mas, quando me voltei para a porta, a presença do criado

acompanhante me fez desistir de meu propósito. Eu precisava ficar só, ainda que

fosse por dois minutos apenas...

De repente, percebi que tinha as flores na mão esquerda e, entregando-as ao

serviçal, pedi a ele que procurasse algum jarro. O bom homem não entendia bem o

grego e tive de expressar-me por sinais. Por fim, pareceu compreender e se

afastou, escada abaixo, para atender ao meu pedido.

Sem perder um único segundo, tratei de fazer a colocação do microfone,

ajoelhando-me junto ao lampião. Por sorte, a base era também de ferro e o

dispositivo magnético “conectou-se” imediatamente. As franjas que pendiam do

lampião formavam uma excelente camuflagem. Retrocedi rapidamente e recostei-

me no divã que devia ser de Jesus, acionando a conexão auditiva com a nave. Eliseu respondeu prontamente. Por alguns segundos dirigi minha voz – em

diferentes níveis de intensidade – para o lampião, colocado a pouco mais de três

metros da curvatura do “U”. Depois, repeti os testes de som nos dois extremos da

mesa.

Eliseu verificou a recepção e anunciou-me que o som chegava “cinco por

cinco”.121

Um pouco mais tranquilo, coloquei-me então no lugar onde Maria Marcos havia

disposto o adorno de folhas. Em minha opinião, aquele era o único ângulo a partir

do qual seria possível uma filmagem completa da ceia. Mas, ao examinar tal

posição, verifiquei que existiam dois obstáculos para a filmagem: de um lado, as

folhas de palma ocupavam a maior parte do campo visual. Do outro, embora não

houvesse o inconveniente das folhas, o lugar que Jesus teria de ocupar ficava

oculto pelo lampião central.

Procurei tranquilizar-me e, tomando de novo a vara, esquadrinhei até o último

centímetro da sala. Logo desisti. Não havia uma só zona onde apoiar o cajado sem

levantar suspeitas e com garantia de uma tomada correta.

Desanimado, dirigi-me então até o ponto que havia escolhido no início, com a

finalidade de depositar a “vara de Moisés” por detrás dos ramos e das palmas. “Ao

menos – pensei – ficarão registrados o lugar e alguns dos personagens.” Minha

missão, no caso, era simples: bastava deixar pressionado o cravo que ativava a

filmagem. Uma vez concluída a ceia e se não surgissem inconvenientes, tudo era

uma questão de subir novamente e recolhê-la.

Mas, quando faltavam alguns passos para que eu alcançasse o lugar, o criado

voltou ao cenáculo, arruinando minhas intenções. Trazia nas mãos um pequeno

jarro de barro e, em seu interior, minhas flores. Tive de forçar um sorriso. Depois,

quase como um autômato, coloquei o vaso sobre a mesa, defronte ao prato e aos

copos destinados ao Nazareno. E, profundamente contrariado, abandonei aquele

histórico lugar.

Já estava pronto para me despedir da família Marcos quando o rude e áspero

som dos cornos de carneiro do Templo anunciou o final do dia. Minha intenção era

ocultar-me nas proximidades da casa e esperar a chegada de Jesus e de seus

homens. Dessa forma, poderia controlá-los e, sobretudo, ficar a par dos

movimentos de Judas. Mas a hospitaleira família não me deixou partir. Elias pediu-

me que aceitasse um copo de vinho e que, se isso não alterasse meus planos,

permanecesse ali até o regresso do grupo a Getsêmani. O pai de Marcos conhecia a

disposição do rabi sobre a reunião: ninguém – exceto os treze – deveria participar

da ceia pascal. Nem sequer criados haveria. E embora eu me apressasse a

recordar-lhe esse desejo do Mestre, o bom homem insistiu que não era necessário

que eu estivesse presente no pavimento superior. Eu poderia satisfazer meu

apetite e, ao mesmo tempo, permanecer no andar de baixo ou no pequeno jardim

contíguo à vivenda.

Refleti e aceitei. Talvez aquela fosse a colocação ideal para minha missão.

Além disso, do piso inferior e até mesmo do pátio, era possível seguir os

movimentos de todos os que subissem ao cenáculo e dele descessem. Aquele

amável convite permitiu-me, ademais, conhecer outra curiosidade: o menu da

“última ceia”.

De acordo com os costumes judeus, essa ceia se baseava em um prato único,

cordeiro ou cabrito, guarnecido com uma série de verduras, igualmente

obrigatórias.

Maria Marcos havia preparado vários pratos com alface, cerefólios cheirosos,

com aroma parecido ao do anis, um cardo chamado eringe ou eringio e as

imprescindíveis ervas amargas. Tudo isso sem ferver nem cozinhar, tal como

mandava a lei.

Quando lhe perguntei sobre a forma de preparar o cordeiro, a senhora

conduziu-me até o jardim, mostrando-me umas brasas de madeira de pinho,

amontoadas em um fogão feito de pedras de rio. Um dos criados tomava conta do

fogo para que ele não se extinguisse, enquanto outros se ocupavam de um cordeiro

que não pesaria mais do que oito ou dez quilos. Com destreza admirável, os

criados haviam cortado as extremidades e extraído as entranhas. Depois, tudo isso,

perfeitamente esfolado e purificado à base de água, foi introduzido no interior do

cordeiro.

Um dos homens tomou vários amarrados de louro, pimenta e ervas, recheando

com eles as partes ocas. Em seguida, o ventre foi tampado com longos e escolhidos

ramos de alecrim dispostos ao redor da peça.

O segundo criado introduziu, então, uma esguia e sólida vara de romãzeira pela

boca do animal, atravessando todo o corpo e saindo do outro lado.

Uma vez preparado o cordeiro, os extremos da vara foram colocados sobre

forquilhas de ferro firmemente cravadas na terra. E teve início um lento e

meticuloso assado. Obedecendo a um antigo ritual, antes que os criados

colocassem o cordeiro sobre as brasas, o chefe da família dirigiu seu olhar para o

céu, comprovando que estávamos “entre duas luzes”, tal como especifica o Êxodo

(12, 6).

O banquete havia sido completado com alhos-porós, ervilhas, pão ázimo e,

como sobremesa, nozes e amêndoas tostadas e uma torta sem levedura, à base de

figos secos.

Para aliviar o sabor das obrigatórias ervas amargas, Maria Marcos havia

preparado uma deliciosa compota, chamada jarôset, preparada à base de vinho,

vinagre e frutas trituradas. O vinho (os comensais deviam beber no mínimo quatro

copos e misturado com água) procedia do monte de Simeão, de grande prestígio

em Israel.

Ali pelas seis e meia, João Marcos irrompeu em casa como uma ventania.

Ofegante e suarento, comunicou ao pai que o Mestre se aproximava da mansão.

 

A emoção e a alegria da família ao receber o Galileu e seus discípulos não

tiveram limites. Durante muitos minutos a confusão foi total. Maria Marcos subia e descia sem cessar, enquanto a criadagem finalizava os detalhes da ceia.

Os discípulos, a conselho de Jesus, foram subindo as escadas, a caminho do

pavimento superior. Segundo pude observar, não faltava nenhum. Judas, encerrado

em seu mutismo total, seguia seus companheiros, enquanto o rabi conversava com

a família. A julgar pelos seus jocosos comentários sobre o cordeiro, seu humor

continuava sendo excelente. Nada parecia perturbá-lo.

Todavia, a partir daquele momento eu devia manter-me em alerta total.

Iscariotes, por fim, ficara conhecendo o lugar onde se celebraria a misteriosa ceia,

e seus pensamentos agora só podiam estar ocupados com algo básico para ele e

para os policiais que esperavam, sem dúvida, alguma informação sua: sair da casa

dos Marcos e correr até o Templo para pôr em marcha a operação de captura do

Mestre.

Por volta das sete horas, Jesus subiu para o cenáculo. Seu semblante

continuava refletindo muita jovialidade.

A partir desse instante, coloquei-me junto à porta que dava acesso ao jardim,

montando guarda a poucos metros da escada que conduzia ao andar superior.

Continuar: parte 3 de 3