Chronica de El-Rey D. Affonso II

Rui de Pina · Capítulo 11 de 36

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Chronica de El-Rey D. Affonso II

Capitulo IV

 

Do fundamento que houve para Alcacere do Sal, que era de

Mouros, ser cercado, e tomado dos Christãos, e do Bispo de

Lisboa principalmente

 

N primeiros cinco annos que El-Rei Dom Affonso Reinou não se acha, que socedessem outras cousas, salvo as desavenças, e desacordos em que andou com suas irmãs, e irmãos e assi a guerra com El-Rei de Lião, e com suas genetes como já disse, e passados os ditos cinco annos, e andando a era de nosso Senhor em mil e duzentos e dezasete annos os Christãos, que estavam na conquista dultra már por defenção, e recobramento da Terra Santa, tinham muitas necessidades de concorrer ás cruas guerras, e cercos apertados, que dos Infieis padeciam, para o que os Summos Pontifice convocavam, e requeriam todolos fieis Christãos de todalas nações, e vindo por mar a este soccorro muitas gentes Dalemães, e Framengos, e outras de contra o Norte fizeram todos uma frota de cento e cincoenta naos de que eram Capitães principaes Iliquino, Conde Dolanda, e Georgeo, Conde de Frisa, com que iam outros Senhores, e grandes homens, e sendo em mar, em través de Portugal para demandarem o estreito de Cibraltar deu na frota tão grande, e tão contraria tromenta, que algumas naos dellas se perderam, e outras correram ao Cabo de S. Vicente até a Villa de Farão, a qual com toda a Comarca, e Reino do Algarve ainda eram Mouros, e porque o vento contrairo, e assi a terra de imigos, em que estavam, não lhes traçavam bem para sua segurança, elles para dos danos, e perdas recebidas se poderem milhor repairar fizeram volta, com fundamento de se virem ao porto de Lisboa.

Sendo outra vez em mar, deu nelles outra tromenta mais aspera, e de maior perigo que a primeira, em que já tambem perderam algumas naos com toda a gente que nellas vinha, e a outra frota depois que a tromenta cessou, e sobreveo bom vento de viagem, entrou toda via, e veo surgir ante a Cidade de Lisboa, e os Capitães della assás tristes, e anojados, pelas grandes perdas de gentes, e doutras cousas, que no mar tinham perdidas, e sahindo logo Capitães com pouca gente em terra, o Bispo, que então era de Lisboa chamado Dom Matheus, sabendo que eram Christãos os recebeo, e tratou com muita honra, e bom acolhimento, segundo a bondade de uns, e as necessidades dos outros requeria, de que o Bispo logo soube o proposito com que vinham, que era por soccorro, e ajuda da Caza Santa. E dahi a poucos dias este Bispo de Lisboa porque era Prelado de mui bom espirito, e grande coração, depois de ter juntos com seus rogos, e boa humanidade os principaes destes Estrangeiros lhe disse.

«Honrados, e devotos Senhores, Deos sabe que a mim peza muito de todolos nojos infortunios, que passastes, e o remedio por agora não é outro

salvo paciencia do passado, e esforço, e bom coração para o que mais vier, vós vedes bem, quanto vos é contrairo o tempo para seguirdes vossa proposta viagem, e desto por vossos Pilotos, e mariantes podeis ser milhor certificados, póde ser, e eu assi o creo, que Deos o premite assi para alguma cousa de seu louvor, e serviço, e tambem de nossas honras, e proveito, e esto digo porque aqui junto ha um Castello em poder de Mouros, que dizem Alcacere, de que esta terra toda que é de Christãos recebe muito dano; se vos prouver pois este feito, não é estranho doutros, que emprendestes, e a que his ajudarnos nelle, assi como vejo que podeis fazer, e com vossa gente, e ajuda de Deos principalmente, o ganharemos dos infieis, e pois a obra, e o serviço é de Deos, elle por sua grandeza, e piedade vos dará delle bom galardão, e nestas cousas sómente que tocam a vossa honra, e salvação, aconselhai-vos com sizo, e com a devoção, e não com a vontade carnal, porque assás de vergonhosa cousa será publicardes pelas bocas bom dezejo para o servir, e as obras, que são tão possiveis serem disso contrairas, e pois o lugar, e tempo se offerecem agora tão despostos rogo-vos que elles não vos passem com ociosidade, ca bem creo, que bem sabeis que ella é fundamento de todolos peccados, e sepultura dos homens vivos, e corrução de todolos costumes, e propositos virtuosos, e pois em vossos sobre sinaes que trazeis mostraes serdes devotos, e servidores da Cruz, assi tambem é rezão que sejais imigos dos imigos della, e vossas mãos fortes deem agora verdadeiro testemunho da bondade, e fé de vossos corações, e esta tomada de Alcacere, para que vos convido, e requeiro, será com a graça de Deos assás possivel, se vós com vossas pessoas, e frota quizerdes ajudar a nós, que com outra gente do Reino vos seremos em todo fieis, e bons companheiros.»