Chronica de El-Rey D. Affonso II
Capitulo XI
E porém El-Rei com os outros Mouros não ficaram sem grande espanto, quando viram os Frades tão esforçados dos corpos, e tão constantes das vontades, havendo vinte dias continos, que sem algum mantimento ordenado jouveram no carcere, e perguntados por El Rei: quem os mantivera tanto tempo? Lhe disse Frei Berardo, que como El-Rei bem crece na Fé de Jesu Christo logo saberia como elles sem beber, e sem comer foram no carcere manteudos. E com tudo elles como se viram soltos, logo sem algum medo outra vez quizeram tornar a pregar aos Mouros, mas os outros Christãos, que com elles estavam, receosos da ira del-Rei que com mortes, e cruezas, se estenderia nas vidas de todos, como mostrava, lho não consentiram.
Então lhe ordenaram logo outros homens fieis que os acompanhassem, e levassem outra vez a Ceyta, para dahi passarem a terra dos Christãos, mas os ditos Frades sospirando por seu Martyrio, despedindo-se daquelles que os levavam se tornaram outra vez a Marrocos, onde o Ifante os mandou logo recolher, e encerrar em sua caza com guardas, e defeza estreita, que os não leixassem sahir, porque receava segundo El-Rei de suas pregações se escandalizava, que não sómente mandaria matar os Frades, mas a elle, e a todos os christãos que houvesse na Cidade.
CAPITULO XI
De um milagre que se fez por causa de Frei Berardo, e como
foram presos e atormentados os outros Frades
E acertou-se que o Mirabolim a este tempo mandou o Ifante Dom Pedro com outros muitos nobres homens de Christãos, e Mouros, que delle tinham
soldo fazendo guerra, e sogigar a uns senhores Mouros seus vassallos, que se lhes rebelaram, apoz os quaes Frei Berardo, e os outros Frades, que tiveram maneira de se soltar, logo seguiram, e foram devolta onde se diz, que disputando Frei Berardo com um Mouro ante elles o mais letrado, e venceo, e confundio, e que este Mouro, com vergonha nunca mais tornou a Marrocos, nem depois não pareceo, e tornando o Ifante com os outros Mouros da conquista, que lhes fora encomendada, vieram por uma terra tão seca que por tres dias para si, nem pera seus cavallos não poderam achar em nenhuma parte agoa para beber, e como a estreiteza da sede desesperasse todos das vidas, Frei Berardo era na companhia, feita primeiro sua dovota oração, tomou na mão um piqueno pao com que cavou um pouco na terra mui seca donde milagrosamente logo arrebentou, e sahio uma grande fonte de agoa doce, e mui singular de que não sómente os homens, e alimarias bebiam, e se abastaram, mas ainda encheram muitos odres, que levaram para o caminho.
E como esta necessidade dagoa foi satisfeita, logo a fonte se sarrou, e secou, e por tão grande, e tão manifesto milagre, que de todos foi visto, e Deos por Frei Berardo fizera, todos os do exercito dahi em diante o tiveram em grande devação, e reverencia, e muitos por Santo lhe beijaram os pés, e as vestiduras, e como estes Santos Frades tornassem a Marrocos, e em caza do Ifante fosse por elles posta grande guarda, para não sahirem, e elles toda via sairam, e em uma Sexta feira, que o Mirabolim ia visitar os sepulchros dos Reis Mouros, os Frades sem algum temor, e com grande ousadia se apresentaram ante elle, e sobindo Frei Berardo em um tezo começou de lhe prégar mui sem receio, e como El-Rei os visse, cheo de ira contra elles, mandou a um seu Capitão Mouro que vira o milagre dagoa, que logo lhes cortasse as cabeças, pelo qual os Christãos, que eram prezentes, com temor de suas proprias mortes, logo fugiram dahi, e fechadas, e trancadas bem as portas de suas pouzadas, nellas sem sair jaziam escondidos, mas o Principe Mouro mandou aos homens da justiça que trouxessem os Frades ante elle, e como por duas vezes o não achassem os tornaram a levar a mais aspero carcere com golpes, e bofetadas com que os feriam, e com esso os ditos Frades assi aos Christãos, que se lhe offereciam não leixavam de prégar a palavra de Deos.