Chronica de El-Rey D. Affonso II
Do Paço
Approvação do Reverendo Beneficiado Diogo Barbosa Machado
Presbytero do Habito de S. Pedro, e Academico do Numero da
Academia Real da Historia Portugueza
SENHOR
Obedecendo ao Real preceito de V. Magestade, li a Chronica do Serenissimo Rei D. Affonso II do nome, e terceiro Rei de Portugal, composta por Ruy de Pina Chronista mór deste Reino, e Guarda mór da Torre do Tombo, um dos mais deligentes Escritores, que venerou a sua idade. Nella, como em pequeno mappa recopilou este Author parte das heroicas acções, que exercitou aquelle Principe, cujo coração foi sempre animado pelos espiritos marciaes, que com a Coroa herdara de seus augustissimos Predecessores, illustrando a sua Real purpura não com o barbaro sangue Mauritano, derramado na famosa conquista de Alcacere, como inferior á sua grandeza, mas com aquelle que sagradamente prodigos verteram em obsequio da Religião sobre as aras do Martyrio cinco heroicos Soldados nas adustas campanhas de Marrocos, que sendo benevolamente hospedados em Coimbra, e Alemquer pela generosa piedade da Rainha Dona Urraca, e da Ifanta Dona Sancha, uma Esposa, e outra Irmã deste Monarcha, quizeram satisfazer aquella piedosa hospitalidade com a posse das suas sagradas cinzas conduzidas ao Real Convento de Santa Cruz de Coimbra pelo ferveroso zelo do Ifante D. Pedro. Certamente agora recebe nova gloria, e maior esplendor o nome não só daquelle Principe, mas ainda do seu Chronista, pois se faz publica, e patente aos olhos do mundo uma Historia, que ha mais de dous Seculos estava occulta nos Archivos, e nas Bibliothecas, e ainda que era conhecida por alguns eruditos, não tinha a fortuna de lograr o beneficio da luz publica eternizada nos caracteres da Impressão mais perduraveis, que aquelles, que a vaidade dos homens abrio nos marmores, e esculpio nos bronzes. Desta tão grande, e tão heroica felicidade o unico, e Soberano Author é V. Magestade, pois com a altissima providencia, com que criou a Academia da Historia Portugueza intruduzio nova vida no corpo historico desta Monarchia, que jazia sepultado nas injuriosas cinzas do esquecimento. Erigio um Capitolio litterario para nelle se coroarem os Varões benemeritos da immortalidade. Abrio uma douta Officina para se lavrarem as Estatuas aos Heroes Portuguezes. Correo as cortinas ao veneravel Santuario das antiguidades Ecclisiasticas desta Coroa. Descobrio os thesouros da erudição Historica atégora fechados á perspicacia de muitos engenhos. Declarou formidavel guerra ao Imperio da ignorancia, e fez communicavel a todo o genero de pessoas o comercio das Letras. Toda esta gloria estava mysteriosamente reservada para o feliz reinado de V. Magestade, pois não lhe bastando para complemento da sua Real grandeza o suave dominio, que tem nos corações de seus vassallos, o quiz tambem dilatar aos entendimentos, como parte mais nobre, e superior de todo o homem. Animados com os generosos alentos, com que V. Magestade inspira, e protege as Sciencias, são innumeraveis os Escritores, que com judiciosa critica, e vastissima erudição tem publicado os partos de seus fecundos engenhos, não sendo inferior a estes a zeloza diligencia com que Miguel Lopes Ferreira se empenhou em obsequio deste Reino a mandar imprimir as Chronicas dos Reaes Predecessores de V. Magestade das quaes é esta a Terceira, sendo egualmente digno da attenção de V. Magestade o seu zelo com que pretende eternizar as glorias desta Monarchia, como benemerito da licença este livro pelo nome de seu author. V. Magestade ordenará o que for servido. Lisboa Occidental 20 de Março de 1727.
Diogo Barbosa Machado.
Que se possa imprimir, vistas as licenças do Santo Officio, e Ordinario, e depois de impressa torne á meza para se conferir, e taxar, e dar licença que corra, sem a qual não correrá. Lisboa Occidental 5 de Junho de 1727.
Marques P. Pereira. Galvão. Oliveira. Teixeira Bonicho