Chronica de El-Rey D. Affonso II

Rui de Pina · Capítulo 13 de 36

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Chronica de El-Rey D. Affonso II

Capitulo VI

E os Christãos leixaram boa guarda sobre sua frota, que com gentes, e armas ficou no porto bem segura, e sobre esso uns, e outros fizeram logo combater o Castello, e vendo que pela larga, e alta cava com que o muro era em torno valado não poderam bem chegar aos muros, e cortaram tantas arvores de fruito, e juntaram tanto outro mato que sendo igual a cava com a terra de fóra podessem mais sem trabalho chegar aos muros, mas os Mouros aconselhados das necessidades e perigos em que se viam, lançaram de cima tanto fogo, com tantas cousas temperado, que a lenha da cava ardeo logo toda, por cujo impedimento leixaram logo de combater, e apoz esto ordenaram os Christãos um engenho para com pedras destroirem o muro, mas sua fortaleza de dentro era tal, que dos seixos de fóra lhe dava muito pouco, pelo qual tornáram a lançar tanta lenha na cava, com que foi chea, e tal guarda se poz, que não foi dos Mouros queimada como elles logo tentaram, por cima da qual os Christãos chegados ao muro deram um combate a que os Mouros com seu grande esforço, e muitas armas resistiram de tal maneira, que afastaram os Christãos dos muros, em que de uma parte, e da outra houve assás mortos e feridos.

 

CAPITULO VI

 

Dos Reis Mouros que vieram por soccorro da Villa de Alcacere, e

da primeira batalha que deram, em que foram victoriosos

O Christãos, que tinham cercado Alcacere, e os Mouros que nelle eram cercados tinham antre si diversos pensamentos, ca uns consultavam engenhos para brevemente tomar, e os outros artificios para se delles pefender, e tambem não leixavam de buscar, e consultar conselhos, e remedios para com soccorro serem descercados, sobre que tinham feitos seus avizos a quatro Reis Mouros, que eram na Espanha, a saber El-Rei de Sevilha, El-Rei de Cordova, El-Rei de Jaem, e El-Rei de Badalhouse, os quaes para este soccorro, e descerco foram pôr seu arraial ao lugar que chamam Sitymos, que é uma legoa Dalcacere, de cuja vinda sendo os Christãos logo sabedores foram postos em temeroso pensamento. E não era sem causa, segundo verdadeira certidão que houveram, ca traziam comsigo por terra quinze mil de Cavallo, e oitenta mil de pé, e pelo mar dez

 

Galés bem remadas, e aparelhadas.

Mas aquelle alto Deos, que sobre todos tem o poder, não quiz em tanto perigo e necessidade desemparar os Christãos, que por sua fé emprenderam, sostinham esta demanda, porque por uma sua permissão piadosa arribaram a este porto, tambem na paragem de Setuvel trinta e seis naos de uma Cidade que dizem Trageito, com gentes Christãs, nobres, e de bom esforço, que iam áquella Conquista dultramar, que disse, os quaes em suas bandeiras traziam sinaes de S. Martinho, porque a jurdição daquella terra donde vinham era do Bispo daquella Cidade; da frota era Capitão mór Dom Anrique de Nehusa, o qual leixando suas naos com aquella segurança e resguardo de gente que compria, elle com a outra em bateis, e navios piquenos se foi ao arraial de Alcacere, onde dos Christãos foram com muita alegria de grandes louvores recebidos, e todos logo acordaram de valar o arraial em torno com valos altos e fortes para resistencia dos Reis Mouros, que vinham, e aqui se diz, que alguns Estrangeiros da primeira frota aconselhavam e requeriam aos outros da sua companhia, que se partissem em paz, e não esperassem o perigo da batalha, escuzando sua covardice torpe, com dizerem, que quando de suas terras partiram, seu voto e proposito não foi pelejar se não com aquelles infieis que tinham tomada a terra de Jerusalem, e o Santo Sepulchro, e que alguns Portuguezes, em que não havia verdadeira Fé, nem bondade de coração concordavam com elles, dando por voto covarde, que era bem de descercar o Lugar, e leixalo sem contenda, e posto que destes houvesse alguns com suas mostranças de tão vituperada fraqueza, havia porém outros muitos cuja santa, e virtuosa contraridade esforçou, com que determinaram não descercar o Castello, e confiando em Deos esperar a ventura que lhes viesse, pelo qual fizeram logo seu alardo, e de gente de pé bem armada, e bem disposta para peléjar, se diz que acharam comsigo muita, mas gente de Cavallo se affirma que escassamente refizeram trezentos.

E os Reis Mouros para comprimento do proposito com que vieram, acordaram que com a maior força que nelles houvesse viessem logo ferir no arraial dos Christãos, e que tambem as suas Galés, que tinham já tomada uma nao de Portugal com duzentos homens e jazia na entrada do porto de Setuvel, juntamente pozessem fogo á frota dos Christãos, que jazia sobre amarra, mas os Christãos receosos deste dano, e avizados já para esto, pozeram tal guarda e defenção na frota, que os Mouros o não cometeram, e foi sempre delles segura, e uma segunda feira como foi manhã sairam do arraial dos Mouros cinco de Cavallo corredores, e como chegaram, e viram o assento do arraial dos Christãos logo volveram ao seu, e sobre esto abalou todo junto o seu Exercito em que havia tantas gentes, que toda a terra cobriam, trazendo comsigo tão grande estrondo de alaridos, e gritas, e com tantos sons de trombetas, e outros desvairados instrumentos, que a qualquer coração por abastado de esforço que fora não leixára de tocar de grande medo, e muito espanto, pelo qual os Christãos havendo-o assi por milhor, sairam a elles de suas estancias, postos em suas batalhas ordenadas, e com muita ardideza uns aos outros logo se cometeram, e feriram, em que da uma parte, e da outra houve cruel, e bem ferida peleja com mortes, e feridas de muitos, e daquella vez se diz que os Mouros levaram a vantagem da batalha, com a qual se recolheram em seu arraial.