Chronica de El-Rey D. Affonso II
Capitulo IX
E porque ao Bispo de Lisboa não foi sobre elles dada alguma avantagem, que bem merecia, o Capitão da frota a que tal escasseza não pareceo bem, por seu conforto lhe disse: «Reverendo Bispo, posto que vós aqui pelo bem recebeis mal, e pela bondade malicia rogo-vos que a estes homens, que tão mal o conhecem, e fazem sejais paciente, porque o principal galardão que por este trabalho mereceis Deos nosso Senhor que é bom, e justo, e porque bem o recebestes volo dará bom no Ceo, e será melhor que este de cousas da terra». E com esto os Estrangeiros se recolheram a suas frotas, e se partiram para onde quizeram, e o Bispo com os senhores Portuguezes, que ao cerco vieram depois de leixarem a Villa afortalezada, e bastecida, como viram que compria, tambem se tornaram para suas terras, e cazas, e esta tomada de Alcacere em tempo deste Rei Dom Affonso II foi em dia de S. Lucas, a dezoito do mez de Outubro da era de nosso Senhor de mil duzentos e dezasete annos, (1217) e dahi a um anno este Rei Dom Affonso com a Rainha Dona Orraca sua molher lhe deo foral que agora tem, como por elle parece.
CAPITULO IX
Como cinco frades Italianos da Ordem de S. Francisco foram a
Marrocos a prégar a Fé de Christo, e primeiramente chegaram a
Sevilha, que era de Mouros
D tomada Dalcacere até o falecimento Del-Rei Dom Affonso se
passáram seis annos, nos quaes se não acha feito que elle fizesse, nem se passasse cousa dina de memoria, salvo que depois em sua vida, e da dita Rainha Dona Orraca sua molher, o Ifante Dom Pedro seu Irmão filho tambem legitimo del-Rei Dom Sancho trouxe a Coimbra os ossos dos cinco Frades Menores, que em Marrocos morreram Martyres, cujo caso segundo a Lenda Santa, que delles se lê, e segundo o que mais delles verdadeiramente se acha foi brevemente nesta maneira. Na Coronica del-Rei Dom Sancho pai deste Rei, falando dos filhos que teve sumariamente disse: que o Ifante Dom Pedro, seu filho, o qual bem acompanhado de nobre gente Despanha passara em Africa, e estivera em muita estima, e grande authoridade com Mirabolim de Marrocos, até o tempo do Martyrio destes Santos Frades, dos quaes se acha por a dita sua Lenda, e por inquirição verdadeira, que o sobredito Dom Matheus, Bispo de Lisboa, delles, e do seu Martyrio, e milagres tirou por testemunhos de muitos, dinos de fé, que com o dito Ifante andaram, e principalmente por um Cavaleiro de Santarem que chamavam Estevão Pires, homem velho, e honrado, e de louvada vida, e costumes que ao dito Ifante sempre servio, que na era de nosso Senhor de mil duzentos e dezanove, (1219) e aos treze annos da primeira conversão de S. Francisco, elle por vontade de Deos, escolheo em sua vida seis Frades de sua Ordem por natureza Italianos, e de maravilhosa santidade, a saber: Frei Vital, e Berardo, Otone, Acurcio, Pedro, e Adjuto, e por saberem bem a lingoa Arabiga os mandou ao Rei, e Reino de Marrocos, que naquelle tempo sobre os Mouros Dafrica, e Despanha tinha o mór Principado, para lhe prégarem, e trabalharem pelo converter á Fé de Christo.
E destes seis Frades fez maioral, e Prelado a Frei Vital, o qual como elle com os outros chegassem ao Reino Daragão adoeceo; e porque vio que sua doença se prolongava por tal que seu mal corporal, o bem, e negocio espiritual, e de Deos não impedisse, mandou que por comprirem o mandado de Deos, e de S. Francisco se fossem a Marrocos, os quaes por sua obediencia o leixaram doente, e se partiram, e chegeram á Cidade de Coimbra onde a esse tempo era a Rainha Dona Orraca molher deste Rei Dom Affonso, a qual os fez ir ante si, e como falasse com elles em cousas de Deos, e nelles visse tão grande desprezo do mundo, e tamanho fervor de morrer por amor de Jesu Christo, e sem duvida os julgou, e houve por mui verdadeiros, e prefeitos servos de Deos, e por esso com grande instancia lhe rogou, que por suas rogações pedissem a Deos que revelasse a ella o derradeiro termo de sua vida, e posto que elles com sua humildade confessassem não ser dinos entender nos segredos de Deos: porém vencidos das devotissimas preces da Rainha, ditas com muitas lagrimas, prometeram-lhe que assi o pediriam, os quaes orando a Deos com firme, e pura fé, não sómente o que da vida da Rainha, mas ainda o seu Martyrio, por revelação de Deos lhe foi tambem senificado, porque logo disseram que os derradeiros dias da vida da Rainha seriam mui sedo quando seus corpos depois de seu Martyrio, fossem de Marrocos ali trazidos, e della mesma Rainha, e de todo o povo com grandes honras recebidos, e assi foi como se dirá.
Partidos os Frades de Coimbra para seguirem sua santa jornada, vieram por aviamento da Rainha Dona Orraca á Villa Dalanquer, onde estava a Ifante Dona Sancha, irmã del-Rei Dom Affonso, que era Senhora da dita Villa, a que tambem revellaram todo o seu proposito; como ella foi Princeza mui santa, aprovando seu negocio ella sobre os habitos da sua Religião que elles traziam lhes deu outras vestiduras seculares, taes, com que mais livres, e facilmente podessem passar a terra de Mouros, e assi com seus habitos desimullados foram á Cidade de Sevilha, que então era de Mouros, onde na pouzada de um Christão, leixados os habitos leigos, por oito dias estiveram escondidos, e acertou-se que em um dia fervendo seu espirito para Martyrio, elles sem guia, nem conselho doutros se foram á principal Mesquita dos Mouros, e como em ella quizessem entrar os infieis, que os viram, e conheceram, endinados contra elles com empuxões, brados, e açoutes, que lhe deram, e por instituto, e costume os não consentiram entrar, e dahi indo-se ás portas del Rei, e sendo ante as ditas portas dos Paços foram levados ante El Rei, e perguntados quem eram? Responderam: que vinham a elle Rei por Embaixadores, e enviados do Rei dos Reis, e Senhor dos Senhores, que era Jesu Christo, e como ante El-Rei muitas, e mui dinas cousas da Fé Catholica proposessem aconselhando-o para sua conversão, e para receber agoa do santo Bautismo, e com esso muitas couzas feas, e torpes de Mafamede, e de sua seita descobrissem, El-Rei endinado de grande ira contra elles lhes mandava cortar as cabeças, mas amançado por palavras de um seu filho, que era prezente, os mandou meter em uma Torre mui alta junto dos Paços, de cuja altura aos que entravam, e sahiam da caza del-Rei, elles não leixavam de prégar em altas vozes a Fé de Christo, e brasfemar, e mal dizer da Seita de Mafamede, cujos seguidores, e favorecidos diziam que no inferno seriam com tormentos para sempre danados, e anojado El-Rei de suas palavras, e para lhe arredar o azo de as não poderem dizer, os mandou meter no mais profundo da Torre, donde por concelho dos seus vassallos os mandou tirar, e levar a Marrocos em companhia de Dom Pedro Fernandes de Castro o Castellão, de que atraz disse, e ao diante direi, que por odios, e perseguições dos Condes de Lara, não se pode soster em Castella, e duas vezes se passou aos Mouros, e desta derradeira para Mirabolim de Marrocos.