Chronica de El-Rey D. Affonso II
Capitulo XII
E sendo outra vez trazidos ante o dito Principe, e com tanta constancia os visse prégar, e confessar a fé Catholica, e reprovar, e reprehender com muita ouzadia as couzas de Mafamede, e sua seita, acezo da ira contra elles os mandou logo atormentar com muitas, e mui desvairadas maneiras de tromentos, e depois apartar uns dos outros, e em desvairadas cazas onde cruamente os mandou açoutar, e aquelles maos, e crueis ministros atados os pés, e as mãos dos Santos, e com cordas asperas lançadas aos colos delles, e arrastando-os de uma parte a outra pela terra, assi continuadamente, e tão sem piedade os açoutavam, que as tripas lhe apareciam, e sobre as chagas recebidas por acrescentarem mais dor lhe lançavam vinagre, e azeite fervendo, e assi foram por toda a noite atormentados, e açoutados de trinta Mouros, que nelles se arrevezavam, na qual noite daquelles que os guardavam foi visto, que um grande resplandor decendia dos Ceos, e com uma companha sem conto os arrebatavam, e levantavam para cima, e maravilhados desso os Mouros, e de todo espantados, chegando ao corcere acharam os Santos Frades devotamente orando.
CAPITULO XII
Como El-Rei de Marrocos fallou com estes Frades, e por os não
poder converter a sua seita por si mesmo os matou, e como
foram mortos tambem Pedro Fernandes, e Martim Affonso Telo,
sobrinho do Ifante
A quaes couzas ouvindo El-Rei de Marrocos, acezo com maior sanha contra elles, mandou que logo lhe fossem levados com as mãos atadas, e descalços dos pés, e depois dos corpos continuadamente açoutados, e espancados, os quaes como El Rei na Fé de Christo os visse tão firmes, mandou dentro meter comsigo certas molheres fermozas, e lançados todos fóra disse: «Convertei-vos a nossa fé, e dar-vos-hei estas por vossas molheres, e com ellas muito dinheiro, e sereis em meu Reino muito honrados.» A que os Frades logo responderam: «Tuas molheres, e teu dinheiro não queremos; porque tudo esto desprezamos por amor de Christo». É então El-Rei arrebatado de maior ira, e sanha, apartados os Santos um do outro, por suas proprias e mui cruas mãos a cada um per si talhou as cabeças por meio das fontes, e apertando na mão tres cutellos, juntamente com uma crueza de besta féra os degolou, os quaes compriram este seu Martyrio a dezaseis dias de Janeiro do anno de Christo de mil duzentos e vinte, (1220) em tempo do Papa Honorio III, em o quarto anno de seu Pontificado, e quasi sete annos antes da morte de S. Francisco.
E depois disto lançados fóra os corpos dos Martyres por as molheres, que comsigo tinham: estes perros barbaros e maos, atando cordas a seus pés, e mãos, os arrastaram para fóra da Cidade, em torno da qual com grandes brados, e pregões os trouxeram, e espedaçados de todos os membros, os leixaram no campo, pelo qual os Christãos, que os assi viram, alevantadas as mãos aos Ceos, louvando a Deos por seu tão glorioso Martyrio, comessaram de apanhar, e recolher as Riliquias dos ditos Santos escondidamente, a qual couza como os Mouros vissem, todos como cães raivosos, tanta multidão de pedras lançaram nos Christãos, que parecia tempestade de sua raiva, mas os Christãos defezos já pelos merecimentos dos Santos, fugindo da ira dos Mouros a suas cazas se recolheram, donde com temor da morte, que antre si traziam, escondidos por tres dias não pareciam, principalmente, porque neste tempo o Ifante mandou a Dom Pedro Fernandes de Castro, o Castellão, que lá era lançado, e a Martim Affonso Tello, seu sobrinho, nobres homens, que com outros muitos andavam em sua companhia, que de noite secretamente fossem ver onde jaziam os corpos dos Martyres para se recolherem, porque foram vistos, e achados dos Mouros, logo os mataram.