Chronica de El-Rey D. Affonso II

Rui de Pina · Capítulo 21 de 36

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Chronica de El-Rey D. Affonso II

Capitulo XIV

E neste tempo um Cavalleiro chamado Pedro da Roza, tendo uma manceba por nome Maria da Roza, como sobisse a um sobrado onde as Reliquias se guardavam logo elle sem se poder mover, e tolheito, bradou fortemente dizendo: «Acorrei-me, acorrei-me, dai-me confissão. A qual como o Conego lha deu, em que de todo renunciou a manceba, logo foi livre dos membros, e pode decer, mas não pode falar até que o mesmo Conego por mandado do Ifante lhe poz sobre o peito a cabeça de um Martyre, com que de todo recobrou as forças, e fala, assi como dantes as tinha, e dahi em diante, assi o Ifante como todos os seus tiveram as Reliquias em maior honra, e devação, das quaes mandou meter as cabeças em uma arca, e os ossos em outra, e as tinham em grande veneração na sua Capela, e ás santas Almas dos Bemaventurados Martyres, cujas Reliquias tinha continua, e devotamente pedia, que de Deos lhe ganhassem graça para sem perigo de sua pessoa, e dos seus, se poder vir para sua terra de Christãos, porque já havia muitos dias que na dos Mouros contra sua vontade se detinha, e estava forçado.

 

CAPITULO XIV

Como o Ifante D. Pedro foi tornado a Espanha, e trouxe consigo

os ossos, e Reliquias dos Martyres, e as mandou a Santa Cruz

de Coimbra, e dos milagres que houve no caminho

 

E graça pelas preces dos Martyres, foi da piedade de Deos

brevemente empetrada, porque estando o Ifante desta sua liberdade assás desconfiado, o Mirabolim de sua propria vontade, e sem requerimento dalguem o mandou chamar, e alegremente lhe deu licença, que para sua terra se viesse quando quizesse, descobrindo-lhe logo as muitas vezes que para sua morte fora de seus principaes aconselhado, e induzido; mas por seus merecimentos, e bons serviços, que fielmente sempre lhe fizera, merecia outro galardão. E com esta licença lhe deu mais suas cartas de passos, para elle, e os seus seguramente poderem passar, com as quaes partiram de Marrocos, e depois de um dia, e uma noite, vieram no caminho dormir a Azora, que era lugar despovoado onde de ferozes brados dos muitos Liões, que ahi ha foram postos em temor de que logo foram livres, como ante si, e os Liões pozeram com devação, e confiança as santas Reliquias, que por sua santidade fizeram tudo quieto, e ao outro dia chegaram a um Lugar em que se apartavam muitos caminhos, e duvidosos de qual era o melhor que tomariam, e o Ifante sospenço, e confiado na santa guia das Reliquias que acompanhava mandou dar a dianteira a uma Azemala que as levava, e houve por bem que aquelle caminho que ella tomasse, todos por milhor o seguissem esperando que elle seria o milhor, e mais seguro.

O que foi assi feito, e a Azemala se desviou de um caminho para que a gente se mais inclinava, onde o Ifante soube depois em certo que Mouros o esperavam para o matar, e roubar, e da hi em diante em dezertos e montes porque passáram sempre déram a guia ás santas Reliquias, que com a graça de Deos levaram o Ifante, e os seus a salvamento atè Ceita, onde embarcando logo em uma nao, que o Divino favor lhe tinha prestes, e aparelhada para terra de Christãos, partiram, e navegaram logo com vento prospero, que em poucas horas, com grande escuridão se mudou o contrairo, e algumas outras naos que se acertaram em sua conserva, por uma respiração divina faziam daquella do Ifante Capitaina, por quem se regiam, e com a grande sarração que sobreveio temendo de ir á Costa se encomendaram devotamente aos rogos, e merecimentos dos Santos Martyres, cujas sagradas Reliquias levavam, para que em salvamento os guiassem, e logo supitamente derramada a escuridão, em que andavam, veo a grande claridade, e bonança, com que bem viram, e conheceram o caminho de sua perdição, que levavam, e desviados delle aportaram na Aljazira, daquem Despanha, e dahi a Tarifa, e logo a Sevilha, que era de Mouros, onde por os Christãos que ahi eram, o Ifante foi avizado, que logo se partisse, porque El-Rei de Sevilha o mandava prender.

Pelo qual logo ahi embarcaram, e vieram a Astorga, que é em Galiza do Reino de Lião, onde então reinava El-Rei Dom Affonso, primo com irmão do Ifante Dom Pedro, e como foram partidos chegaram a Sevilha mandados de Mirabolim de Marrocos que logo lhe prendessem, e tornassem o Ifante, e cortassem as cabeças a todos os seus, mas deste perigo, e doutros muitos prouve a Deos que o Ifante, e os seus, pelos merecimentos dos Santos Martyres, cujo devoto era, fossem como foram, livres, e seguros, e como chegassem a Astorga um hospede onde foram agazalhados havia trinta annos que assi era doente, e tolheito de parlezia, que do officio da fala, e dos membros era de todo privado, e ouvindo as grandes maravilhas dos Santos Martyres, que os Christãos consigo traziam, lançado em terra ante a Arca em que suas sagradas Reliquias eram guardadas, pedindo-lhe com muitas lagrimas, e grande devação remedio para sua doença, logo ahi á vista de todos recebeo na fala, e em todos os membros perfeita saude, e o Ifante Dom Pedro não veio com as Reliquias dos Martyres a Coimbra; mas de Astorga mandou com ellas Affonso Pires de Arganil, que era Rico homem, e pessoa de grande credito, porque o Ifante Dom Pedro não era bem avindo com El-Rei Dom Affonso de Portugal seu irmão.