Chronica de El-Rey D. Affonso II
Capitulo VII
Da segunda batalha que houve sobre Alcacere, e como os Reis
Mouros foram vencidos, e feito grande estrago em suas gentes
O Christãos vendo para o fim que vieram um começo tão contrairo, e que a força Dalcacere se fazia cada vez mais forte, e a elles tirava toda esperança de por força o cobrar, não leixávam de murmurar, e apontar que seria bom irem-se, e por aquella vez leixar o cerco, e o Bispo de Lisboa, que na gente dos Christãos era pessoa de mór credito, e mais principal, sentindo na noite seguinte a temerosa e fraca murmuração, que em todo o seu arraial havia, elle em prezença dos mais que por então se poderam ajuntar lhes disse. «Honrados Senhores e amigos, esta desaventura, e grande mal de que todos estaes espantados, não veo sobre vós das forças, nem das armas dos nossos imigos, mas cauzou se da grande presunção, e muita confiança que de vós mesmos e de vossas forças, e multidão de gentes logo tomastes, esquecidos em todo, da só, e principal ajuda de Nosso Senhor, e Salvador Jesu Christo, que se nos agora aqui faleceo foi para o milhor conhecermos, mas pois já aqui viemos, e somos mui fortes para armas, e temos gentes, e estamos bastecidos de mantimentos, não queiraes desconfiar, porque esta aversidade a potencia de Deos a permite para crara esperiencia de maior nossa fé e mais merecimento de nossas almas, mas brademos, e clamemos de coração ao Senhor Deos, e com efficacia, e devação, que nossas necessidades requerem lhe pessamos que esta sua ira, se contra nós, por nossos peccados a tem, a queira converter em nossos imigos, e cada um com os giolhos em terra diga por si como eu digo por mim: Senhor Deos Padre das misericordias, e grande ajudador nas tribulações ex as muitas nações de tantos infieis vieram para nos destroir, pois como duraremos ante a face delles se nos tu Deos não ejudas, e pois assi é Senhor agora não ponham ante ti a lembrança de nossos malles e peccados, nem tomes de nós aqui vingança por elles ante estes imigos de tua Santa Fé, tu por tua bondade, e potencia os dá nas mãos, e poder de teus servos, por tal, que os que em ti crem louvem mais o teu Santo nome».
No cabo da qual Oração, que todos devotamente, e com muitas lagrimas o seguiram, se diz que por consolação dos Christãos logo appareceo pubricamente no Ceo um maravilhoso sinal por bemaventurado prognostico, a saber, um homem resplandecente, como Sol, e alvo como uma neve, e no peito trazia o sinal da Cruz vermelha mais luzente que as Estrellas, com que os Christãos, que craramente o viram foram mui alegres e esforçados, crendo que Deos era em sua ajuda, e com este prazer e alegria, que geralmente todos conceberam, já com seu temor dormiram assocegados aquella noite, e ao outro dia como foi manhã o Bispo, como era homem em que havia prudencia, e bom esforço, para se não esfriar o alvoroço que sentio nos Christãos com a longura dalgum tempo, falou logo ás gentes do Exercito que o podiam ouvir dizendo: «Senhores amigos bem vistes todos o grande e maravilhoso sinal que para não temermos, e sermos esforçados Deos Nosso Senhor tão pubricamente nos quiz mostrar, e por esso já seria muita nossa fraqueza, e grande mingoa de nossa Fé tardarmos mais para a segunda batalha, mas com o esforço de Deos, que temos presente, e com ajuda, e preces dos Santos Martyres Proto, e Jacinto, cujo dia hoje é, vamos logo ferir nos imigos, ca pelo melhoramento da vitoria, que contra nós houveram, agora os acharemos mais repouzados, e menos percebidos».
Pelo qual os Christãos postos em suas batalhas bem concertadas, com grande ousadia, e sem sinal dalgum medo sairam, e foram dar no arraial dos Mouros, e assi duramente os cometeram, e tão cruamente os feriram, e foram tão cortados, e trovados de medo, que parecia não terem armas para pelejar, nem forças para resistir, e desacordados se diz, que elles mesmos uns aos outros se feriam, e matavam, e se espedaçavam com os pès dos Cavallos, e que outros com medo da morte duvidosa a tomavam certa no rio, que era junto em que se lançavam, e afogavam, e vendo-se os Reis Mouros, e suas gentes assi salteados, e vencidos não tendo já alguma esperança em sua resistencia, nem peleja, procuraram buscar sua salvação na fogida, em cujo alcance os Christãos matando, e ferindo seguiram, em que se affirma que dos quatro Reis que alli vieram, dous delles sem se dizer quem eram, foram mortos, e com elles trinta mil Mouros mais, e com esto recolhendo o muito, e mui rico despojo, que acharam no arraial dos Mouros, os Christãos se tornáram mui alegres a seu cerco, que tinham posto sobre a Villa, dando todos muitas graças e louvores ao Padre nosso Senhor, que de sua mão deu esta vitoria, que foi a onze dias de Setembro do sobredito anno de mil duzentos e dezasete annos, (1217) dia dos ditos Martyres Proto, e Jacinto, á certidão da qual vitoria, como foi dada aos infieis, que para este descerco eram em sua frota postos no mar elles desacordados, e tristes se partiram, onde se diz que se perderam alguma parte de seus navios, e de suas gentes assás nelles.