Chronica de El-Rey D. Affonso II
Prologo ao Leitor
Não te admires vendo uma Chronica tão pequena de um Rei tão grande. Em oito capitulos a deo por acabada o seu Chronista, ou o reformador da sua Chronica antiga. Mas aqui é que se ha de estimar o livro pelo pezo, e não pelo volume. Verás nesta Chronica o que podem as paixões: verás o zelo da Religião obrigando a um Principe a entrar na campanha quando a sua demasiada corpulencia que lhe deo o nome de Gordo, justamente o desobrigava de tão violento exercicio; mas o augmento da Fé o fazia esquecer des impedimentos da natureza. Verás como no seu tempo vieram miraculosamente para a Cidade de Coimbra as Reliquias dos cinco Religiosos de São Francisco, que pela Fé deram o sangue em Marrocos, e verás como o mesmo Rei pessoalmente os foi receber. Lê, e não te mostres ingrato ao meu cuidado que não cessa de procurar modos de satisfazer á tua curiosidade, como brevemente o verás.
Vale.
LICENÇAS DO SANTO OFFICIO
Approvação do Reverendissimo Padre Mestre D. Antonio
Caetano de Souza, Clerigo Regular da Divina Providencia,
Qualificador do Santo Officio, e Academico do Numero da
Academia Real da Historia Portugueza
EMINENTISSIMO SENHOR
Esta Chronica del-Rei D. Affonso II que V. Eminencia me manda ver, que anda em nome de Ruy de Pina Chronista mór em tempo de El Rei D. Manoel, e agora manda imprimir Miguel Lopes Ferreira, depois de passados dous seculos, não contem cousa alguma contra a nossa Santa Fé, ou bons costumes. Não só esta Chronica, mas todas as que temos antigas desde El-Rei D. Affonso I e o Conde D. Henrique seu pai, até El-Rei D. Duarte, conforme a observação que tem feito os Eruditos da nossa Historia, todas foram escritas por Fernão Lopes primeiro Chronista mór do Reino, que depois milhorou em estillo o dito Ruy de Pina, e publicou em seu nome, com que agora se imprimiram, com a licença de V. Eminencia, a que não tenho duvida se lhe conceda. Lisboa Occidental na Caza de N. Senhora da Divina Providencia, 8 de Março de 1726.
D. Antonio Caetano de Souza C. R.
Approvação do Reverendissimo Padre Mestre Fr. Vicente das
Chagas, Religioso da Provincia de Santo Antonio dos Capuchos,
Lente Jubilado na Sagrada Theologia, e Qualificador do Santo
Officio, &c.
EMINENTISSIMO SENHOR
Li por ordem de V. Eminencia esta Chronica del-Rei D. Affonso o II. Della consta só a discordia, que houve entre o dito Rei, e suas irmãs, mas ainda assim (depois de obrigado) estudou como se havia de concordar, como concordou, com ellas, sinal de ser Rei sabio, e virtuoso; Sabio como diz Santo Ambrosio: «Lib. 2. de Abraham c. 6. ante medium col. 1013. B. Sapienti pacis, & concórdiae est studium, imprudenti amica jurgia»; e virtuoso como dá a entender S. João Chrysostomo «Homil. 45. ante a medi[~u] col. 373, D. Ubi concordia, ibi bonorum confluxus, ibi pax, ibi charitas, ibi spiritualis laetitia nullum bellum, nulla rixa, nus quam inimicitior, & contentio». Esta concordia, paz, caridade, alegria espiritual, &c vemos por experiencia neste nosso Reino agora de prezente, mas como não ha de ser assim, se temos por Rei o Invitissimo, e Augustissimo Monarcha o Senhor D. João o V, que Deos guarde por muitos annos, de quem com muita propriedade se póde dizer o que lá disse Cicero (senão em tudo, em parte) «Orat. 42. pro Rege Dejotaro in princip. num. I. tom 2. Rex concors, pacificus, fortis, justus, severus, gravis, magnanimus largus, beneficus, liberalis, &c.» Não tem a Chronica cousa contra a Fé, ou bons costumes, e assim julgo que se póde imprimir. Santo Antonio dos Capuchos, 21 de Março de 1726.
Fr. Vicente das Chagas.
Vistas as informações, pode-se imprimir a Chronica del-Rei D. Affonso II e depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra, sem a qual não correrá. Lisboa Occidental, 22 de Março de 1726.
Rocha, Fr. Lancastre. Teixeira. Silva. Cabedo.