Como a Democracia Chega ao Fim
1. Golpe!
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
As relações entre militares e civis, por exemplo. Numa democracia bem estabelecida, entende-se que os generais devem obedecer às ordens de seus líderes civis. A alternativa são generais que se recusam a cumprir ordens, o que equivale a um golpe. Mas num Estado em que a aceitação rotineira da ordem democrática encobre a concentração cada vez maior de poderes no centro, o contrário pode ser verdade. Um Executivo capaz de garantir a obediência dos militares pode ser um dos fatores que facilita a derrubada gradual da democracia.
O jurista Bruce Ackerman identifica, nos últimos cinquenta anos da política presidencial dos Estados Unidos, uma série de acréscimos de poder por parte do Executivo. O maior deles envolve a “politicização” dos militares, cooptados em número cada vez maior para cargos no governo. Diante de um Legislativo recalcitrante, os presidentes recorrem a militares de carreira em sua busca de resultados. Ackerman enxerga dois perigos. Um é que um alto-comando subserviente pode aumentar muito os poderes de uma presidência extremista, acatando qualquer ordem sua. O outro é que o presidente acabe obedecendo às ordens dos generais, que se tornam indispensáveis à sua administração. O comandante em chefe converte-se então numa simples figura de proa, servindo para encobrir o que seria, essencialmente, um governo militar. São os generais que obedecem aos políticos ou os políticos que obedecem aos generais? Quando essa linha divisória perde a nitidez, é difícil ter certeza.
Ackerman acompanha esse processo ao longo do mandato de vários presidentes. Diz que o transcurso foi sempre movido por emergências regulares, ao lado de uma frustração crescente com a política partidária. Bill Clinton tentou aumentar o poder discricionário da presidência para poder tomar medidas executivas em face de um Congresso controlado pelos republicanos; George W. Bush fez o mesmo, nos meses que se seguiram ao Onze de Setembro, para facilitar a Guerra ao Terror; Obama agiu desse modo para conduzir sua própria guerra contra a Al-Qaeda e o ISIS. Ackerman caracteriza essa tendência como parte do crescente desrespeito à lei na política democrática dos Estados Unidos, levando os presidentes a seguir o caminho de menor resistência. O que não é o mesmo que um golpe. Nenhum desses presidentes pretendia subverter a Constituição. Mas o que acontece quando o presidente não tem grande apego à carta constitucional, e acha que qualquer resistência ao predomínio do Executivo equivale a uma traição à democracia? O que acontece quando esse presidente entrega vários cargos do governo a generais reformados? O que acontece quando o presidente é Trump?
Escrevendo em 2010, Ackerman especula sobre o perigo de algum futuro “Presidente de Direita afirmar que a nação não pode mais tolerar dezenas de milhões de imigrantes em seu território, e que só lhe resta ordenar a detenção e a deportação de todos, com ‘a máxima urgência’”. Invoca também um possível “Presidente de Esquerda que demonize os bancos, condenando-os por conspiração […] e exigindo a imediata estatização de todos em nome do
povo”.13 Nessas condições, a situação se torna muito mais carregada. Não só os militares, mas também os civis ocupan-tes de cargos de relevo e outros servidores públicos precisam tomar posição. Num Estado moderno, à diferença da Roma antiga, não é possível olhar para o outro lado e esperar que o tumulto se acalme. Cada um ou cumpre ou não cumpre as ordens que recebe. O problema é que, quando a política democrática é submetida a tal crescimento do Executivo, recusar-se a aceitá-lo é correr o risco de ser tachado de inimigo da democracia.
Existem ainda outras opções. Os ocupantes de cargos públicos podem renunciar a seus postos, embora corram o risco de serem simplesmente substituídos por funcionários mais flexíveis, ou de acabar produzindo cargos vagos. A resposta mais extrema é ficar no cargo, mas se recusar a obedecer. Os generais não podiam se recusar a entregar os códigos nucleares a Trump antes de sua posse sem atentar contra a própria base da democracia. Mas podem, teoricamente, recusar suas ordens de ativá-los. E se Trump tomar uma decisão executiva imprudente quanto ao uso da força nuclear, ameaçando a sobrevivência da República dos EUA, e na verdade do mundo inteiro? Será possível desobedecer em nome da democracia?
A história moderna dos Estados Unidos apresenta pelo menos um precedente. Nos últimos dias da presidência de Nixon, no verão de 1974, o secretário da Defesa, James Schlesinger, ficou tão alarmado com o estado de espírito do presidente — Nixon estava seriamente deprimido e bebia muito — que instruiu os militares a não acatar ordens do presidente, especialmente em relação às armas nucleares, a menos que as ordens fossem confirmadas por ele próprio ou pelo secretário de Estado, Henry Kissinger. Também traçou planos de mobilizar tropas em Washington no caso de não ser possível negociar uma transição presidencial pacífica. Esse tipo de comportamento existe na área de sombra em que um golpe não é propriamente um golpe. Depois da posse de Trump, essa área ficou maior.
E o que a torna ainda mais turva é que Schlesinger só foi revelar sua decisão anos depois do acontecido, quando a situação estava mais que controlada. Na época, precisou fazer tudo em segredo, porque qualquer tentativa de tomar essas medidas em público o exporia a uma acusação de conspirar para um golpe. Se a subversão da democracia estiver ocorrendo sob a aparência de democracia, então a subversão da subversão também precisa ocorrer em segredo. Nada é revelado. Essa é a imagem invertida do mundo do golpe de Estado descrito por Luttwak. Enquanto no passado o sucesso de um golpe demandava que todos soubessem o que estava acontecendo, hoje tanto golpes quanto contragolpes demandam que apenas o mínimo possível de pessoas saiba o que acontece.
Esse submundo de conspirações e subterfúgios pode ser mais fácil de descrever na ficção política que na ciência política. Depende de coisas que só são conhecidas pelos participantes, os quais podem ou não revelar o que de fato aconteceu num momento muito posterior. A maneira mais fácil de representar essa situação é tentar imaginar qual pode ter sido a intenção dos participantes. Às vezes, precisamos inventar.
O jornalista Jonathan Freedland, do The Guardian, escrevendo sob o pseudônimo Sam Bourne, descreve uma das maneiras como isso pode se dar
em seu romance 14 Matem o presidente , de 2017. O livro é totalmente absurdo e horrivelmente irresistível. Em sua trama, um Presidente de Direita, vagamente baseado no presidente Trump, ameaça lançar um ataque nuclear contra a Coreia do Norte num momento de animosidade. O secretário da Defesa e o chefe do Estado-Maior decidem que a única alternativa que lhes resta é matá-lo, porque todas as outras opções — renunciar, se recusar a obedecer ou denunciá-lo ao público — simplesmente tornariam o problema pior, dando ao presidente um pretexto para atacar seus inimigos. Enquanto isso, o principal estrategista do presidente, vagamente baseado em Steve Bannon, fica sabendo da tentativa de assassinato e decide atribuí-la a uma conspiração islâmica, o que provoca um recrudescimento das hostilidades contra qualquer indivíduo visto como não estadunidense. Tudo ocorre por trás de portas fechadas, e só se escuta o alarido ensurdecedor das redes sociais. Enquanto alguns cidadãos vociferam contra a conspiração, enxergando golpes em todos os lados, os verdadeiros atos de subversão acontecem em lugares que as redes sociais não conseguem alcançar. Quando as acusações de conspiração se espalham tanto, aumenta o espaço para esconder um complô real, porque ninguém consegue mais ver a floresta, só as árvores.
Mas não precisa ser um Presidente de Direita, e não precisa acontecer na era do Twitter. No romance A Very British Coup [Um golpe muito britânico], de Chris Mullin, escrito em 1982 e com a ação situada em 1989, um Primeiro-Ministro de Esquerda vence uma eleição geral do Reino Unido com um manifesto em que se compromete com a estatização generalizada, o
desarmamento nuclear e o abandono da Otan.15 As forças do establishment conspiram para detê-lo, espalhando calúnias na imprensa popular, desestabilizando a economia e estimulando atos de desobediência disfarçada por parte dos militares. Nada disso é plenamente revelado — os conspiradores têm o cuidado de esconder suas atividades por trás dos conflitos e tumultos da política democrática. O golpe dá certo porque ninguém sabe que ele aconteceu — o primeiro-ministro renuncia alegando problemas de saúde, e é substituído por seu vice, que por acaso está na lista de pagamentos do Serviço Secreto. Claro, o público tem lá suas suspeitas, mas o público sempre desconfia de alguma coisa. O drama da vida democrática absorve as provas sem que ninguém fique sabendo o que ocorreu.
O romance de Freedland é mais próximo do que vem acontecendo agora, depois da eleição recente de um Presidente de Direita. Mullin foi candidato a deputado pela esquerda do Partido Trabalhista na década de 1980, e aliado de Jeremy Corbyn na juventude. É improvável que Mullin tenha imaginado que Corbyn seria o homem que colocaria sua criação ficcional à prova. Os dois foram acólitos de Tony Benn, durante muitos anos a esperança mais concreta da esquerda britânica. Benn nunca chegou perto de se tornar primeiro-ministro. No momento em que escrevo, a possibilidade de Corbyn se tornar primeiro-ministro é bastante real. Alguma coisa desse tipo pode acontecer em algum lugar em algum momento. Bernie Sanders chegou perto nas eleições presidenciais dos Estados Unidos de 2016. Jean-Luc Mélenchon chegou perto na eleição presidencial francesa de 2017. Em algum momento, um Presidente ou Primeiro-Ministro de Esquerda irá vencer uma eleição numa democracia importante, e provocar a pior reação possível do establishment político.
Quando acontecer, o golpe que teremos será muito estadunidense, muito francês ou muito britânico? Seja como for, a resposta é que não haverá consenso quanto ao que de fato terá acontecido. Tivemos um golpe muito grego em 2015? Enquanto os antigos golpes eram — ao menos — esclarecedores, atualmente qualquer discussão em que se fale de golpe é inimiga da clareza. Um dos lados vê um golpe. O outro vê o funcionamento devido da democracia. E não se trata de simples discordância entre direita e esquerda. Trump chegou à presidência prometendo abandonar a Otan se ela não reduzisse os custos dos Estados Unidos. Os militares que ajudam seu governo a funcionar convenceram Trump a mudar de posição. Isso quer dizer que a democracia foi subvertida, já que a vontade do presidente foi barrada por poderes não eleitos? Ou será um sinal de que a democracia está funcionando como deve, já que a vontade do presidente foi temperada pelas forças do comedimento? Não pode haver resposta para essa pergunta que satisfaça todos os lados. Nesse meio-tempo, prossegue o diálogo de surdos.
Democracias fracas são vulneráveis a golpes de Estado porque suas instituições não são capazes de absorver um ataque frontal. As democracias fortes são relativamente imunes a ataque frontais porque suas instituições são resistentes. Em decorrência, os ataques às democracias estáveis costumam vir dos flancos. Parte deles é desviada e se desmancha em tagarelice inconsequente — as constantes acusações de traição, fracasso e crise que constituem o ruído de fundo da política partidária. Outra parte é empurrada para baixo da superfície e para os bastidores, em que só os adultos presentes podem saber ao certo o que aconteceu, e nem mesmo eles estão de pleno acordo quanto aos fatos. Esses fenômenos se alimentam um do outro. A parolagem sobre o fim da democracia é uma excelente cobertura para esconder ataques graduais à democracia. Enquanto isso, os ataques graduais ajudam a alimentar os rumores de falência democrática, sem que ninguém tenha certeza de nada.
As democracias fortes têm, sobre as fracas, todas as vantagens, menos uma: as democracias fracas sabem quando fracassam, e o fracasso tem a aparência da Grécia em 1967. Hoje não é mais assim. Atualmente, quando golpes de Estado ocorrem, chegam sem o golpe de misericórdia. Não existe um antes e um depois. Só o espaço envolto em sombras entre um e outro.
Um golpe de estado bem-sucedido requer um complô bem-sucedido. Ele precisa ser secreto, à prova de vazamentos, e ocorrer de surpresa para o lado atingido. Só quando o golpe já está em andamento é que os conspiradores mostram suas cartas. O fim dos golpes de Estado clássicos assinala o fim desse tipo de complô — numa democracia sólida, sua probabilidade de sucesso é remota demais. Mas o declínio do golpe de Estado clássico acarreta a multiplicação inevitável das teorias da conspiração, invocando complôs cujas cartas ninguém nunca chega a ver.
A existência do que hoje chamamos de teorias da conspiração nada tem de novo. Elas existem desde sempre. A antiga democracia ateniense fervilhava de suspeitas de golpes e de congregações secretas votadas à sua destruição. É parte vital da democracia imaginar conjurações secretas para subvertê-la. E há dois motivos para isso. Primeiro, a democracia dá o direito de expressão às pessoas comuns, e o que muitas vezes passa pela cabeça delas é a sensação de que estão sendo prejudicadas. Quando não fica claro quem é o responsável, a explicação só pode ser que os culpados estão apagando seus rastros. Segundo, os culpados realmente procuram apagar seus rastros. O que alimenta as teorias da conspiração é a revelação intermitente de complôs autênticos. Em 412 a.E.C., quem dissesse que a democracia ateniense estava a ponto de ser tomada por uma facção de oligarcas a serviço dos espartanos não passaria de um boateiro. Um ano mais tarde, estaria dizendo a mais pura verdade.
A democracia moderna não é diferente. Embora o termo “teoria da conspiração” tenha cunhagem relativamente recente — só adquiriu ampla circulação depois da década de 1960, impelida em parte pela onda de desconfiança que se avolumou depois do assassinato de Kennedy —, o fenômeno que ele descreve é muito anterior a seu surgimento. A evolução da política democrática ao longo dos séculos XIX e XX foi acompanhada pela suspeita persistente de que tudo fosse uma farsa: na verdade, as elites continuaram a puxar os cordões em segredo, nos bastidores. Essa suspeita era alimentada pelo fato de que a democracia representativa confere efetivamente grande poder às elites, que conduzem boa parte de seus negócios a portas fechadas. Qualquer sistema político que apregoe o valor da transparência enquanto se aferra a seus segredos irá criar um espaço em que teorias da conspiração podem florescer.
Numa tirania, os produtores das teorias da conspiração costumam estar dentro do próprio regime, enxergando complôs contra ele em toda parte. Para as vítimas dos regimes de opressão, as teorias da conspiração têm pouco valor, pois a verdade não tem onde se esconder — o engano e a violência são as maneiras de operar do Estado. O que se vê é inequívoco, ainda que sejam só mentiras. Nas democracias, a lacuna entre a promessa de um governo popular e a persistência das conexões pessoais nas altas esferas é o que municia os produtores de teorias da conspiração.
Claro, nem todo cidadão de uma democracia produz teorias da conspiração, pelo simples motivo de que a democracia representativa não é pura fachada. As elites podem ser moderadas por instituições destinadas a limitar o seu poder. Os ricos e os bem-nascidos nem sempre conseguem se safar de qualquer coisa. Muitas pessoas sentem os benefícios da democracia, tanto pela dignidade que ela confere quanto pelas vantagens materiais que pode trazer. Os produtores das teorias da conspiração tendem a ser os que julgam que, ainda assim, os benefícios não chegam até eles. Em qualquer democracia, sempre haverá vencedores e perdedores. Nas palavras de dois cientistas políticos estadunidenses, Joe Parent e Joe Uscinski, “as teorias da
conspiração são coisa de perdedor”.16
O que é confirmado pelos dados históricos. O estudo de Parent e Uscinski, sobre a prevalência das teorias da conspiração nos Estados Unidos do século passado, mostra que elas tendem a variar de acordo com o controle do
poder.17 As pessoas que se sentem excluídas do poder tendem mais à noção de que este lhes foi subtraído por forças antidemocráticas operadas por subterfúgios. A proporção geral dos que acreditam que a democracia é controlada por organizações secretas é relativamente estável: em qualquer momento, é provável que entre um quarto e um terço da população estadunidense endosse teorias desse tipo. Mas a identidade de quem endossa muda, dependendo do partido que estiver ocupando a Casa Branca.
Quando o presidente é do Partido Democrata, os eleitores republicanos podem achar que o governo é controlado por agentes estrangeiros, porque o presidente é na verdade um comunista disfarçado, ou um muçulmano disfarçado — de algum modo, não é um verdadeiro estadunidense. Quando o presidente é republicano, os democratas podem crer que a democracia foi capturada por Wall Street, ou que a administração está a soldo da indústria do petróleo. Assim, durante a presidência de George W. Bush, os democratas é que cultivavam as teorias da conspiração; quando ele foi sucedido por Obama, os papéis se inverteram e os republicanos é que passaram a produzi-las. Quando o seu lado vence, a democracia parece fazer muito mais sentido do que quando o seu lado perde. Há muitos maus perdedores, que consideram a derrota uma prova de que o sistema é manipulado contra eles. Só a vitória os faz mudar de ideia.
Os adeptos mais persistentes das teorias da conspiração são as pessoas convencidas de que jamais poderão vencer sob as regras da política democrática. Uma pesquisa recente entre os eleitores do Reino Unido mostrou que as teorias da conspiração prevalecem mais entre quem se sente
permanentemente despojado dos seus direitos.18 Se você apoia um partido que não tem chance de conquistar o poder — especialmente num sistema bipartidário, de voto majoritário uninominal ( first-past-the-post, em inglês) —, a democracia pode lhe parecer tendenciosa. E será pior ainda se você não apoiar nenhum dos partidos. Um velho slogan anarquista diz que não importa em quem você vote, o governo sempre ganha. E não são só os anarquistas que pensam assim. Qualquer um que tenha perdido a fé na possibilidade de mudança política tende a acreditar que votar nem vale a pena; qualquer um que pare de votar tende a achar que é ignorado pelo sistema porque suas opiniões não contam.
É um círculo vicioso em potencial. Ainda assim, tem seus limites. Enquanto um número suficiente de eleitores se dispuser a ver a vitória de um dos dois lados como uma vitória pessoal, a democracia pode continuar funcionando. O perigo surge quando os perdedores de sempre superam em número os vencedores ocasionais — quando a teoria da conspiração deixa de ser um passatempo da minoria e se converte numa ocupação majoritária. Pode ser que estejamos bem no meio dessa mudança.
Por isso, o século XXI pode começar a parecer a idade de ouro das teorias da conspiração. No momento, elas parecem onipresentes. Parte disso é uma ilusão, gerada pela visibilidade maior que qualquer ideia maluca pode adquirir na era da internet. Antes, alguém que achasse que a família real britânica era composta de lagartos em forma humana teria pouca chance de encontrar outra pessoa com a mesma opinião, mas hoje os adeptos de teorias da conspiração com ideias parecidas estão a apenas um clique de distância uns dos outros. Essa visibilidade não quer dizer que exista uma quantidade maior dessas ideias do que no passado, só que hoje a probabilidade é maior de vê-las adquirir massa crítica. O fenômeno do efeito de rede, em que o valor de alguma coisa cresce quanto mais ela for utilizada, aplica-se tanto às boas quanto às más ideias. Quanto mais gente subscreve uma teoria da conspiração, mais sentido faz se juntar a eles. Nas redes sociais, quanto mais formos, mais seguros estamos.
Mas houve ainda outra mudança. As teorias da conspiração não são mais só uma coisa de perdedores. Os vencedores também passaram a acreditar nelas. Donald Trump embarcou em sua campanha pela presidência a partir do momento em que adotou uma das teorias da conspiração mais persistentes em relação ao presidente Obama, a de que ele não era cidadão estadunidense. O movimento que questionava seu local de nascimento foi uma reação típica de perdedores: os eleitores que acreditavam que Obama não falava em seu nome se aferraram à ideia de que não podia falar por eles porque, na verdade, era estrangeiro. Trump explorou essa ideia quase até chegar à Casa Branca, e só veio a abandoná-la, meio a contragosto, com a aproximação da eleição presidencial. Mas não abandonou a postura mental que ela representa, nem mesmo depois de ter vencido. Já na presidência, Trump continua a usar o Salão Oval como caixa de ressonância para teorias da conspiração. Acusou sua oponente derrotada de ter feito uso de fraude eleitoral generalizada para ganhar indevidamente a eleição pelo voto popular. Acusou os jornalistas que o criticam nos principais órgãos de imprensa de criar propositalmente reportagens falsas — as tão faladas fake news — com a finalidade de desacreditar sua presidência. Acusou seu antecessor de ter grampeado seus telefones. E tinha poucas provas, ou nenhuma, em todos os casos. Vencedor, Trump se comportava como se tivesse perdido. E o fez com a finalidade de consolidar os termos em que venceu e de se manter firmemente alinhado com o núcleo dos seus eleitores.
Depois da vitória de Trump, os democratas derrotados mudaram rapidamente de estratégia, e depois do tempo que passaram negando as teorias da conspiração sobre o antigo presidente, começaram a espalhar teorias sobre o novo. Em pouco tempo, ele se viu afogado em acusações de que era um fantoche dos russos. Trump e seus acólitos retrucaram da única maneira que sabem. Viraram as teorias da conspiração contra os democratas. Eram eles que estavam sob o poder dos russos. Eram eles que falsificavam notícias. No momento, um dos motivos por que parece haver teorias da conspiração em toda parte é que os vários lados não se revezam mais questionando a veracidade um do outro. Agora, questionam uns aos outros simultaneamente.
Isso é inteiramente característico de um período em que o populismo começou a dominar a política democrática. A ideia básica por trás do populismo, de esquerda ou de direita, é que a democracia foi roubada do povo pelas elites. Para que seja recuperada, as elites precisam ser expulsas das suas tocas, onde escondem suas verdadeiras intenções por trás de um suposto apego à democracia. A teoria da conspiração é a lógica do populismo. O discurso de posse de Trump foi uma expressão concisa dessa linha de pensamento. Sua retórica alinhou Trump a outros líderes populistas do mundo todo, que apresentam a política de maneira semelhante.
Na Turquia, a explicação que Erdogan sempre dá para a oposição política ao seu poder é que seus inimigos conspiram contra o povo turco. Entre os conspiradores não estão apenas Gülen e seus comparsas, mas a União Europeia, o FMI e o “lobby da taxa de juros”, uma alusão aos judeus. Na Polônia, o governo do Partido Lei e Justiça (PiS) culpa repetidamente “o sistema” por qualquer problema que enfrente. Esse sistema é formado por autoridades não eleitas e instituições infiltradas por agentes de regimes estrangeiros. Nas palavras de Jarosław Kazcyński, cofundador e líder do PiS: “A questão é saber se a democracia consegue tomar decisões no lugar de um punhado de gente comprada pelos estrangeiros e de forças internas que não
servem aos interesses da Polônia”.19 Na Índia, Narendra Modi usa o Twitter com a mesma frequência de Trump para fustigar as pessoas que planejam a sua derrubada, de potências estrangeiras ao “Estado profundo” indiano. Enquanto isso, a oposição a Modi faz circular teorias da conspiração ainda mais extremas a respeito dele: suas vitórias eleitorais só foram obtidas por meio de fraude; ele é agente secreto do Paquistão; ele é judeu. O populismo promove a paranoia por todos os lados.
Uma vez que a produção de teorias da conspiração se converte em filosofia de governo, ela passa a se reforçar por conta própria. Os eleitores não se alternam mais para manifestar suas suspeitas de que o sistema é manipulado. Ganhando ou perdendo, todos os partidos passam a considerar que a democracia encobre conspirações contra eles. Como romper esse ciclo? É muito difícil. Um dos modos pode ser forçar as conspirações reais a aparecerem às claras, provando finalmente que alguém tinha razão. Entretanto, como já vimos, os golpes não são mais como no passado. Outra maneira podia ser expor a falsidade das teorias da conspiração, provando finalmente que alguém estava errado. Mas isso só ocorre muito raramente. O golpe de Estado fracassado na Turquia não mudou nada porque serviu para confirmar as versões nas quais as pessoas de todos os lados queriam acreditar. Tanto foi apontado como prova de que Erdogan era vítima de um complô quanto de que foi o responsável pelo mesmo complô.
Em 2010, Lech Kazcyński, presidente da Polônia e irmão de Jarosław, morreu num acidente de avião a caminho da floresta de Katyn, perto de Smolensk, no oeste da Rússia, onde era esperado para uma cerimônia em memória das mortes de 20 mil oficiais poloneses, assassinados por agentes do regime stalinista em 1940. Jarosław e seus seguidores puseram a culpa do acidente no “sistema”, que nesse caso inclui os russos, a União Europeia, o establishment liberal, os comunistas clandestinos e os judeus. Nenhuma investigação sugere que tenha sido causado por nada além de um erro do piloto em péssimas condições climáticas. Mas não faz diferença. E caso uma nova investigação viesse a descobrir agora indícios da cumplicidade russa no acidente, isso tampouco faria diferença. Para qualquer um inclinado a discordar, seria apenas uma prova de que a nova investigação foi parte de uma conspiração organizada pelo governo. Cada vez mais, as pessoas acreditam no que querem acreditar. A política populista se alimenta desse fenômeno. E também, por sua vez, cuida de alimentá-lo.
Se quisermos encontrar paralelos históricos para esses traços da política contemporânea, não será difícil. Mas precisamos procurar no lugar certo. O que implica sairmos do século XX. A década de 1890 pode ser usada como um guia melhor para os nossos problemas atuais que a de 1930. Os anos 1930 foram a grande era das conspirações: uma década que começou com a agonia mortal da República de Weimar e terminou com o pacto nazissoviético teve tramas reais suficientes para satisfazer até o mais desconfiado dos espíritos. Mas a grande era das teorias da conspiração foi a década de 1890.
O próprio populismo nada tem de novo. Surge nas sociedades democráticas em determinadas condições: crise econômica, mudança tecnológica, desigualdade crescente e ausência de guerra. Não é a primeira vez que essas condições se apresentam. Também estavam presentes na última década do século XIX, quando a política democrática viu-se corroída por outra grande onda de fúria populista. Naquela época, como hoje, a raiva era um campo fértil para o surgimento de teorias da conspiração dos dois lados da divisa política.
A década de 1890 é um dos poucos períodos da história moderna dos Estados Unidos em que o volume total de teorias conspiratórias em circulação mostrou um crescimento notável. A outra ocasião, antes do momento atual, ocorreu no final da década de 1940 e no início da seguinte, no alvorecer da Guerra Fria, quando o vírus do macartismo se propagou pela vida pública do país e a infectou com uma paranoia que acabou afetando os dois lados do espectro partidário. O populismo do fim do século XIX é o que melhor se presta a um estudo do que o historiador Richard Hofstadter batizou
com o famoso rótulo de “estilo paranoico da política americana”.20 O mesmo estilo paranoico com que nos deparamos hoje.
Os paralelos entre aquele momento e o presente são muitos. A grande investida populista da segunda metade do século XIX foi desencadeada por uma crise econômica prolongada. A economia dos Estados Unidos atravessou muitos anos de estagnação a partir da década de 1870, assistindo a uma redução dos salários paralela à queda dos preços. Os trabalhadores agrícolas arcaram com o maior peso da miséria, e descontavam seu ressentimento nos habitantes dos centros urbanos, que pareciam ter se esquecido de onde vinha a comida que punham em seus pratos. A fúria popular contra as elites urbanas ficou mais acentuada com um crash financeiro em 1893, que se espalhou do setor bancário para a economia como um todo.
Uma revolução tecnológica também estava em andamento. As ferrovias, a navegação a vapor, o telégrafo e a luz elétrica trariam enormes benefícios a longo prazo, mas também provocavam mudanças bruscas e inquietação quanto ao futuro. Antigas formas de trabalho desapareciam na mesma velocidade com que se criavam novos empregos. Os benefícios imediatos eram distribuídos de modo muito desigual. Alguns investidores fizeram imensas fortunas, enquanto a maioria continuava a ver sua renda cair. Muita gente acabou acreditando que os políticos eleitos estavam no bolso dos interesses especiais. Os imigrantes — especialmente os judeus — eram alvo de suspeita generalizada.
Nos Estados Unidos, um populista conseguiu a indicação presidencial de um dos dois grandes partidos. William Jennings Bryan não venceu as eleições gerais para os democratas em 1896, mas sua campanha trazia todas as marcas das futuras tentativas populistas de conquistar a Casa Branca. Seu estilo era intenso, seus métodos não eram nada convencionais e ele tratava como inimigo o establishment político do seu próprio partido. Bryan ignorava a grande imprensa sempre que possível, investindo em encontros cara a cara, em jornais locais e nos panfletos que ele próprio produzia, nos quais os fatos eram muitas vezes tratados às pressas e sem qualquer rigor. Rejeitava a autoridade dos especialistas em economia, a quem acusava de fazer parte da conspiração financeira que havia vitimado o cidadão comum. E culpava os estrangeiros — especialmente os banqueiros da City de Londres, com nomes como Rothschild — pelas provações dos EUA. Caso vencesse, prometia atender antes de mais nada os interesses dos agricultores estadunidenses.
A quebra da confiança nas instituições democráticas não se limitava aos Estados Unidos. Na França, a década de 1890 também foi um momento de teorias da conspiração em escala épica. O Caso Dreyfus, que começou em 1894 com um oficial do Exército francês acusado de traição, espalhou seus tentáculos até o fim da década, envolvendo e depois dividindo todo o Estado francês. Os dois lados — tanto os que apoiavam quanto os que acusavam Dreyfus — viam nos adversários uma vasta e complexa conspiração para destruir a República, envolvendo judeus e católicos, agentes alemães e britânicos, comunistas e banqueiros. Governos se elegeram e foram desfeitos por essas teorias da conspiração. A democracia francesa parecia correr perigo de colapso. A guerra civil era uma possibilidade concreta.
Ainda assim, a grande onda populista do final do século XIX acabou passando. A democracia sobreviveu, tanto na França quanto nos Estados Unidos. Bryan concorreu três vezes à presidência sem jamais conseguir conquistá-la. O próximo democrata que chegou à Casa Branca, em 1913, foi Woodrow Wilson, um importante cientista político, ex-presidente da Universidade Princeton e inequívoco representante da classe dos especialistas. Dreyfus acabou inocentado em 1906, depois de anos de inquéritos controversos e vários momentos de falso amanhecer. A essa altura, ainda não havia consenso sobre onde estavam as verdadeiras conspirações. Mas essa questão se tornou secundária. Todos finalmente concordaram que era hora de parar: a política francesa precisava seguir em frente. Os militares precisavam ser postos de volta em seu lugar. Não haveria golpe de Estado.
Há lições que podem ser extraídas desse período para os dias de hoje, quanto à maneira de quebrar o transe da desconfiança populista das instituições democráticas? A democracia do começo do século XX acabou recebendo uma imensa injeção de energia da crise populista. Os políticos eleitos eram obrigados a enfrentar a fúria do público e encontrar formas de assimilá-la de volta à rotina da história. A era das teorias da conspiração foi
sucedida por uma grande era de reformas.21
Nos Estados Unidos, Theodore Roosevelt embarcou em suas campanhas antitruste, que mobilizaram o poder do governo federal para desfazer os grandes monopólios do aço, do petróleo e dos bancos. Para ele, a reforma progressista era a única coisa que podia manter a coesão da democracia em face da fúria populista. Na França, os socialistas entraram para o governo pela primeira vez, e os primeiros passos foram dados no sentido da criação de um Estado moderno de bem-estar social. Na Grã-Bretanha, que também tivera suas intimações da ameaça populista, o moderno Partido Trabalhista emergiu como força política. O Partido Liberal deu início a seu próprio programa de reformas, que implicou um confronto decisivo com a Casa dos Lordes. Nos lugares onde a democracia tinha criado raízes, ela emergiu fortalecida pela crise populista.
No entanto, existe uma diferença crucial entre aquela época e os dias de hoje. A democracia do início do século XX era jovem. Criara raízes, mas crescera pouco. Existia apenas em alguns lugares, e, onde existia, ainda era incompleta. Na Grã-Bretanha, na França e nos Estados Unidos, grandes setores da população não tinham o direito a voto, inclusive a quase totalidade das mulheres. Em nenhum desses países o Estado nacional provia sequer os serviços básicos para muitos de seus cidadãos. Os sistemas de saúde e de educação eram todos fornecidos de modo variado por arranjos improvisados de provedores locais, particulares ou filantrópicos. Os impostos eram mínimos se comparados aos padrões de hoje — a faixa máxima de imposto de renda ficava bem abaixo dos 10% em todas as principais democracias do mundo em 1900. Os níveis da dívida pública também eram mantidos no mínimo. Um orçamento equilibrado era artigo de fé. A política desempenhava pouco papel positivo na vida da maioria dos cidadãos. Quando deparavam com o poder do Estado, era quase sempre na forma de algo estranho à sua experiência cotidiana.
Eis o que deu a chance a uma nova geração de políticos democratas. Eles não tinham como provar se as intermináveis acusações de conspiração e contraconspiração eram reais. Ninguém tem como provar. As teorias da conspiração são um pântano em que todo mundo acaba se afogando. Mas os políticos profissionais ainda podiam tentar provar que a democracia era real. Podiam recorrer a seu potencial inexplorado. Não está claro se isso continua possível nos dias de hoje.
Os reformadores democráticos do início do século XX puderam se aproveitar das enormes folgas que havia no sistema. Havia espaço para o crescimento dos direitos, o crescimento da dívida, o crescimento do poder do governo nacional, o crescimento da base fiscal, o crescimento do sistema partidário, o crescimento do movimento trabalhista, o crescimento da sensação de confiança do povo no Estado. Havia espaço para o crescimento da democracia. Nada disso foi fácil, porque a política nunca é fácil. Foram necessários políticos de grande talento e verve, como Roosevelt e Wilson nos Estados Unidos, David Lloyd George na Grã-Bretanha, Jean Jaurès e Georges Clemenceau na França. A fúria populista não desapareceu, e parte dela assumiu a forma de movimentos ainda mais malévolos e dominados pela suspeita de que chegariam perto de destruir a democracia dali a uma geração. O populismo desse período da história tanto podia se transformar em fascismo como numa social-democracia. As teorias da conspiração, nas mãos erradas, poderiam desencadear uma vingança terrível. Mas, nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e mesmo na França, isso não aconteceu.
Hoje, o sistema não tem mais folgas equivalentes. A democracia não é mais jovem. Não há mais a sensação inebriante que predominava um século atrás, de um potencial vasto e ainda por realizar. As batalhas para aumentar os direitos dos cidadãos já foram travadas e em grande parte vencidas. O Estado arca com os custos da vasta gama de serviços públicos que se espera que forneça. Os níveis da dívida, tanto pública quanto privada, estão altos. Os impostos talvez pudessem subir — já foram mais altos em alguns períodos, ao longo dos cem últimos anos —, mas o apetite popular por pagar um valor maior é extremamente limitado. A reação populista que vem acontecendo nas democracias estabelecidas ocorre em lugares que, já faz um bom tempo, fizeram o melhor que podiam com a democracia. As pessoas estão enfurecidas com as instituições que se mostram incapazes de dar respostas melhores, não porque sejam subdesenvolvidas, mas porque estão cansadas.
E esse quadro torna mais difícil romper o ciclo da desconfiança. A democracia não está funcionando bem — se estivesse, não veríamos esse retrocesso populista. Mas as tentativas de fazê-la funcionar melhor se concentram no que julgamos ter perdido, e não no que nunca chegamos a tentar. As discussões políticas giram em torno das ideias de recuperação e resgate — do Estado do bem-estar social, da Constituição, da economia, da nossa segurança, da nossa liberdade. Cada lado aspira a recuperar algo que lhe foi tirado. E isso ajuda a alimentar a disposição conspiratória. A tentação é sempre pôr no outro lado a culpa pelo que se perdeu — foram eles que roubaram! Os democratas deram cabo das liberdades constitucionais! Os republicanos acabaram com os direitos das minorias! A Europa roubou a soberania britânica! Os partidários do Brexit usurparam os direitos dos trabalhadores! Todas essas acusações se apresentam como defesas do resgate da democracia. Tentar algo novo pode ser uma experiência democrática coletiva. Resgatar alguma coisa que se perdeu é sempre parcial — os perdedores procuram mais alguém para culpar.
Claro, ainda há novas iniciativas que poderiam ser experimentadas. Nos próximos capítulos, irei explorar quais podem ser, e como a democracia ainda pode ser transformada em algo que funcione melhor. Por enquanto, porém, aquilo que chamamos de democracia parece estar exaurido nos lugares onde tem raízes mais profundas. Existirá uma cura? A história da democracia dos Estados Unidos mostra que, nos momentos do passado em que ela parecia atolada, a campanha para estender os direitos democráticos básicos ajudou a lhe conferir uma nova vida. Isso aconteceu na década de 1860, com a emancipação dos escravos; no início do século XX, com o reconhecimento dos direitos das mulheres e a proteção legal ao trabalho; nas décadas de 1950 e 1960, com o movimento em defesa dos direitos civis.
Essa luta não acabou. Houve vitórias recentes e há conquistas por alcançar. Os direitos dos gays e a legalização do casamento gay configuram uma dessas vitórias. A luta em andamento pelo reconhecimento das pessoas transgêneros é outra. Ainda assim, é inevitável que, à medida que a democracia amadureça, o espaço para as grandes lutas em torno dos privilégios e direitos democráticos seja reduzido. O campo de batalha se torna fragmentário. Os que continuam sem privilégios permanecem às margens, o que significa que a luta pelos seus direitos pode ser abafada por uma narrativa que diz que a maioria está sendo traída em benefício de uns poucos. Isso vem ocorrendo nos dias de hoje. A política identitária serve de combustível para a fogueira das frustrações populistas. Em 2016, alguns políticos republicanos extraíram o mesmo benefício das histórias sobre banheiros para transgêneros que Trump no caso dos ataques aos laços entre Hillary Clinton e Wall Street. As causas comuns ficaram muito mais difíceis de identificar do que antigamente.
A outra grande diferença entre aquele momento e o atual é o declínio da violência. A virada do século XX foi, a julgar pelos padrões de hoje, um período muito violento. Durante a década de 1890, mais de 2 mil linchamentos ocorreram nos Estados Unidos. As greves eram rotineiramente combatidas à bala por forças federais e estaduais. A greve da Pullman Railroad, em 1894, foi debelada por agentes federais que mataram trinta grevistas no processo. Motins de fundo racial eram comuns. Em 1898, supremacistas brancos assassinaram quase sessenta cidadãos negros de Wilmington, Carolina do Norte, e levaram muitos outros a abandonar a cidade. Foi uma limpeza étnica. O terrorismo doméstico era difundido. William McKinley, o homem que derrotou Bryan nas campanhas presidenciais de 1896 e 1900, foi assassinado por um anarquista em 1901, e sua morte desencadeou uma enorme caça às bruxas. A última grande revolta populista ocorreu em um cenário de assassinatos políticos semirrotineiros.
A política contemporânea não chega nem perto disso em matéria de violência. Às vezes pode até parecer mais violenta, mas simplesmente em função da maneira como hoje a informação se espalha e é compartilhada. Atos de violência, e acima de tudo atos de terrorismo, adquirem visibilidade instantânea na era das redes sociais: podemos vê-los ocorrendo em tempo real. Com frequência nos deparamos com a violência sofrida por outras pessoas muito mais diretamente do que no passado. Por isso, a experiência secundária da violência é hoje amplamente compartilhada. Mas a experiência primária, de vítima da violência, é muito mais rara atualmente do que jamais foi. A possibilidade de ser alvo direto de alguma violência é mais baixa, hoje, do que em qualquer outro momento dos últimos cem anos. Para alguns grupos nos Estados Unidos, especialmente para os jovens afro-americanos, a ameaça de ser vítima da violência permanece real, inclusive pelas mãos do Estado. No entanto, não são suas experiências que dão impulso ao populismo de hoje. A alusão de Donald Trump, em seu discurso de posse, à “carnificina” da vida no país devia-se a estes dois fatores: seus eleitores veem uma quantidade maior de violência, mas sofrem uma quantidade muito menor. É o que ajuda a avivar a paranoia. As coisas que só experimentamos em segunda mão são as que mais tendemos a temer.
O que este início de século XXI ainda tem de comum com o início do século XX é a quarta das condições que enumerei como precondições para o surgimento do populismo: a ausência da guerra. A violência política numa era de populismo, por maior ou menor que seja, é sempre localizada, fragmentada, esporádica e ocasional. Não é uma experiência nacional coletiva. O populismo se alimenta da ausência de uma guerra porque questiona a ideia de que a democracia ainda é uma experiência genuinamente coletiva. E isso fica muito mais difícil de afirmar quando a nação está em guerra. Aí a realidade da situação fica difícil de evitar: para o bem ou para o mal, ela afeta ao mesmo tempo tanto o povo quanto as elites.
Certos tipos de guerra só produzem um simulacro de experiência nacional coletiva. No final da década de 1890, os Estados Unidos embarcaram numa guerra contra a Espanha em várias de suas colônias, inclusive Cuba e Filipinas. O sentimento nacional foi espicaçado pelas patriotadas da imprensa. Mas não sobreviveu por muito tempo ao final do conflito, já que a unidade criada foi superficial, alimentada pela produção de notícias falsas e pelo sensacionalismo da imprensa marrom. A Guerra dos Bôeres, travada pelo Império Britânico no alvorecer do século XX, produziu curtos rasgos de fervor nacional coletivo, mas no final contribuiu mais para dividir que para unificar a nação. O mesmo se aplica à Guerra do Iraque de 2003, e à guerra em curso no Afeganistão. As aventuras imperialistas não unificam as nações por muito tempo. Dão lugar a novas teorias da conspiração ao alimentar a ideia de que as pessoas estão sendo enganadas.
Guerras de sobrevivência nacional são outra coisa. No fim das contas, a história de como a democracia dominou o populismo nas primeiras décadas do século XX tem duas partes, ambas necessárias, embora nenhuma tenha sido suficiente. Uma é a reforma democrática. A outra é a guerra mundial. Nesse ponto, os paralelos entre cem anos atrás e os dias de hoje se tornam muito menos tranquilizadores.
Por maiores que tenham sido as realizações de políticos como Wilson, Clemenceau e Lloyd George antes de 1914 — e, em todos esses casos, elas foram substanciais —, não se comparam ao que puderam fazer na era da guerra total. Travar guerras que demandavam o comprometimento total de toda a população exigia um compromisso mais pleno com a democracia para justificar tanto esforço. Foi a Primeira Guerra Mundial que finalmente desencadeou a conquista de direitos políticos em massa, tanto pelas mulheres quanto pelos homens, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. A Segunda Guerra Mundial proporcionou conquistas semelhantes na França e em outras democracias recentes em todo o mundo, entre elas a Índia. O moderno Estado de bem-estar social da Grã-Bretanha foi um produto da experiência da guerra. A saúde dos cidadãos e o pleno emprego foram necessários para a participação em conflitos que dependiam da mobilização da força de trabalho de todo o país.
Nos Estados Unidos, a Grande Depressão deu início a uma experiência nacional de reformas políticas e econômicas nos termos do New Deal; mas foi a guerra contra o fascismo que selou o “novo acordo”, consolidando o poder do governo federal de responder pelo bem-estar de toda a nação. A distribuição de benefícios na área da educação foi muito ampliada através da GI Bill (nome pelo qual ficou conhecida nos Estados Unidos a Lei de Readaptação dos Combatentes, de 1944), que oferecia aos soldados que voltavam da guerra recursos para custear seus estudos universitários. Da mesma forma, os grandes projetos de cunho social-democrata desenvolvidos na Europa após a Segunda Guerra Mundial só foram possíveis devido à destruição e ao desespero provocados pela guerra. Uma conhecida frase feita da ciência política diz que os Estados fazem a guerra, e a guerra faz os Estados. A democracia não é exceção: as democracias fazem guerras, e as guerras fazem democracias. O que às vezes é obscurecido por outra frase feita da ciência política: as democracias nunca vão à guerra entre si. Mesmo que isso fosse verdade, nunca deixou de existir quantidade suficiente de não democracias em exercício para atender à demanda.
Os conflitos militares entre Estados democráticos e não democráticos são um traço característico da política contemporânea. Mas a perspectiva de uma guerra total no século XXI se tornou mais ou menos impensável, já que a capacidade destrutiva dos Estados mais importantes é grande demais para permitir isso. Uma guerra total seria um desastre completo. Na falta de guerras de sobrevivência nacional, ficamos com os simulacros, que tendem a aumentar, e não a atenuar, a desconfiança do público em relação à democracia. A guerra se tornou um dos programas da “democracia dos espectadores”: faz parte do espetáculo. E também se transformou numa zona produtora de teorias da conspiração.
No século XXI, o custo dessas guerras não é mais compartilhado pela maioria dos cidadãos. Elas são disputadas à distância, por meio de drones e forças especiais, e são sustentadas de forma indireta pela dívida pública e pela tributação geral. Não são uma experiência coletiva, salvo de forma muito intermitente, quando esta ou outra notícia chama a nossa atenção. O conflito militar não une a nação, e sim a divide entre as áreas onde o serviço militar é a norma e outras nas quais quase nem se ouve falar dele. E essas áreas cultivam uma desconfiança mútua. A experiência desigual da guerra se transformou numa das falhas geológicas da vida democrática.
Não estou dizendo que precisamos de guerras totais para reanimar a democracia. Isso seria uma loucura. Nem estou dizendo que o problema da paz é produzir teorias da conspiração. O que seria ridículo. Conviver com teorias da conspiração é um preço justo pela paz. De toda maneira, as teorias da conspiração não são a verdadeira ameaça — são apenas o sintoma do que anda errado com a democracia. A verdadeira dificuldade é saber como enfrentar as causas do populismo na ausência de embates coletivos com a violência.
A terceira das condições que enumerei como impulsionadora do populismo foi o aumento da desigualdade. E este tem sido um problema persistente das sociedades democráticas modernas. Certamente é um problema na atualidade: as democracias ocidentais estão chegando a níveis de desigualdade, tanto de renda quanto de riqueza, nunca vistos desde a chamada “gilded age” (“era folheada a ouro”), período de prosperidade mas extrema desigualdade nos Estados Unidos, em meados do século XIX. O livro O capital no século XXI, de Thomas Piketty, lançado em 2014, descreve a tendência inexorável de a desigualdade crescer através da longa história do
capitalismo, que se sobrepõe à história da democracia.22 Essa tendência foi revertida durante o século XX, mas mesmo assim só por conta da experiência coletiva da guerra. A violência e a destruição do período entre 1914 e 1945 foram devastadoras. Mas criaram as condições que permitiram manter a desigualdade crescente sob controle.
É verdade, como assinala Piketty, que as reformas democráticas que antecederam a Primeira Guerra Mundial já promoveram alguma contenção do avanço da desigualdade. Ainda assim, não sabemos até que ponto esse processo chegaria, ou se teria ido muito longe, porque a guerra ocorreu antes que a experiência pudesse chegar ao fim. De forma similar, não temos como saber se o New Deal teria bastado para resgatar a democracia dos Estados Unidos sem a guerra, porque a guerra veio e tornou o assunto redundante. Não temos uma resposta histórica para a questão do enfrentamento da desigualdade que não envolva a violência em grande escala. Não existem indícios de que a democracia, por si só, seja capaz de fazê-lo.
O especialista em história antiga Walter Scheidel vai mais longe. Em seu livro de 2017, The Great Leveler [O grande nivelador], afirma que, na história humana, nenhuma sociedade conseguiu corrigir a desigualdade
crescente sem a intervenção da violência em grande escala.23 Ela não precisa assumir a forma de uma guerra. Uma revolução violenta, uma calamidade natural, uma epidemia ou uma peste podem bastar. Não precisam dar origem às formas de solidariedade social, que surgem no caso das guerras de sobrevivência das nações. Basta que a experiência coletiva da violência seja suficientemente difundida para garantir que todos sofram em relativa igualdade de condições. Uma calamidade que aniquile as propriedades e as vidas dos ricos no mesmo grau que afeta as dos pobres pode contribuir para o advento de uma sociedade mais igualitária. E também instalar um verdadeiro inferno na terra.
O que isso significa para as perspectivas futuras da democracia? As democracias mais bem-sucedidas são as que conseguiram limitar a violência, tomar medidas preventivas contra as calamidades e proteger a vida pacífica de seus cidadãos. Em consequência, a desigualdade desprendeu-se dos controles democráticos que antes a continham. Quando a ordem política criada no final da Segunda Guerra Mundial desmoronou, no fim da década de 1970, a desigualdade começou a aumentar de novo. O período que se iniciou viu então um declínio contínuo da violência e um aumento constante da desigualdade, que andam lado a lado. Os dois processos se aceleraram depois do fim da Guerra Fria. Mais tarde, depois da crise financeira de 2008, as condições para um retrocesso populista em reação à desigualdade estavam dadas. Tornou-se possível ver o quanto nossas sociedades se tornaram desiguais, sobretudo quando ficou claro que os ricos não seriam punidos pela crise. Mas essas condições não se comparam às necessárias para a eliminação da desigualdade, que exigem mais que a simples revolta populista. Houve algumas reformas isoladas, comparáveis às de 1914. O governo Obama conseguiu pequenas vitórias contra o aumento da desigualdade. Não sabemos até que ponto esse processo poderia ter ido porque a eleição de Trump ocorreu.
Temos hoje, na democracia, um sistema político capaz de suprimir as causas da violência, mas incapaz de cuidar dos problemas que irrupções de violência serviram para resolver no passado. Pequenos avanços são possíveis. Mas um grande progresso é mais difícil, e sempre pode ser descarrilado pelas reações aos pequenos avanços. É possível que estejamos vivendo um impasse.
Esse problema da violência e da desigualdade é uma versão em grande escala do problema da democracia e dos golpes. A derrubada violenta de uma democracia cria as condições nas quais a democracia pode ser defendida: torna a situação clara. Sem essa perspectiva, a democracia simplesmente persiste e as frustrações que as pessoas sentem em relação a ela crescem e são canalizadas para formas de desconfiança mútua. As nossas democracias não são as primeiras da história a se verem presas num atoleiro de teorias da conspiração e notícias falsas. Mas nosso caso é o primeiro sem uma saída óbvia. A reforma é possível, mas pode não ser suficiente. A violência é impossível, mas pode ser a única coisa que funcione. As democracias se mostraram muito eficientes para resolver um problema — a violência — que no passado era a precondição para resolver o outro — a desigualdade. Não sabemos o que virá em seguida. Uma possibilidade é que as coisas continuem como estão. A democracia não desmorona e recai em violência. Simplesmente continua a trilhar, por inércia, seu caminho rumo à tortuosa obsolescência.
Muitas democracias do mundo de hoje ainda têm espaço para crescer e amadurecer. A democracia da Índia é relativamente jovem, e é possível imaginar o alcance de reformas que a tornariam real para centenas de milhões de cidadãos que ainda não sentem plenamente os seus benefícios. Em algumas partes do mundo, como a África, a democracia mal deu os primeiros passos. Lá, a reforma política ainda pode recorrer a um imenso potencial irrealizado. O século XXI ainda pode ver uma série de experiências bem-sucedidas, testando até onde a democracia pode avançar no combate à desconfiança endêmica e à divisão, sem recair na violência.
Entretanto, o preço desse potencial de crescimento é o risco de sucumbir a golpes, sublevações armadas e colapso. A possibilidade concreta do fracasso da democracia é uma das precondições para o seu sucesso. Isso se manteve verdadeiro para a democracia ocidental ao longo do século XX. Mas já não se aplica a muitas democracias estabelecidas no momento atual. Por isso, o século XXI também pode ver uma série de experiências no que se refere ao tempo que a democracia pode perdurar na falta de um acordo que ateste ou não seu funcionamento. Essas experiências não terminam em algum ponto óbvio. Mas não têm como continuar para sempre.
Uma catástrofe real poria fim à experimentação. Mas também tornaria as experiências sem sentido. No século XXI, o tipo de prova empírica que poderia responder, de maneira satisfatória para todos, se a democracia ainda está funcionando pode ser uma espécie de teste a que nenhuma democracia sobreviveria. Esperar pela catástrofe que dê uma resposta final a essa pergunta pode significar esperar pelo fim do mundo. Que é o tema do próximo capítulo.